Entrevista com o escritor queniano Ngugi wa Thing’o

ngugi

“Eu daria um Nobel a Jorge Amado, porque ele deu a mim o seu Brasil

Ngugi wa Thing’o, de 77 anos, está pela primeira vez em sua vida na América do Sul por ocasião da 13ª Festa Literária de Paraty. O escritor queniano, uma das maiores referências da África em literatura que está sempre às portas de um prêmio Nobel, tem uma história de luta pela libertação de seu país. Na década de 60, quando a colonização do continente africano estava em cheque, terminando na queda de vários governos, ele lutou pela emancipação do Quênia das mãos dos britânicos ao lado de jovens intelectuais que, como ele, eram recém-saídos da universidade.

Em paralelo ao seu trabalho permanente em teatro, escreveu um primeiro romance, Weep not, child, em 1964. Mas foi com Um grão de trigo – lançado três anos depois, e só publicado no Brasil pela Alfaguara no final de 2014 – que ele alcançou reconhecimento mundial.

O livro tornou-se um clássico da literatura africana do século passado e, lançado pouco depois da independência do Quênia, fala dos conflitos entre colonizadores e nativos nesse contexto específico. Assim como Sonhos em tempos de guerra, de 2010, o primeiro número de sua ainda inacabada trilogia de memórias, e outro título a ser lançado no país por ocasião da Flip – desta vez, pela Biblioteca Azul.

Segundo Ngugi [lê-se gugui], o tema da colonização, que permeia toda sua obra, também é responsável por sua vinda ao Brasil, que “tantas semelhanças” guarda com sua terra natal. É leitor entusiasmado de Jorge Amado, autor brasileiro a quem ele entregaria um prêmio Nobel, e diz que a questão da disputa pela terra, presente na obra do baiano, o leva de volta ao Quênia, assim como o tema da escravidão. “Quando estou em Paraty, banhada pelas águas do oceano Atlântico, estou de frente para a África, especialmente para Angola. Muitos africanos vieram para cá contra a sua vontade, para participar da construção de cidades como essa. Mesmo andando nessas ruas de pedra, estou muito consciente dessa história de sangue”, diz.

Pergunta. Qual é a importância de estar na Flip hoje e visitar o Brasil pela primeira vez?

Resposta. Estou muito feliz de estar aqui. Já tinha escutado falar do evento e vim a convite da minha editora, que está publicando dois dos meus livros em português. O Brasil tem uma grande presença de africanos e é um país importante para nós. Está sempre presente em nossas mentes. Li Jorge Amado – Gabriela, cravo e canela – e tenho uma proximidade com alguns intelectuais do país através do meu trabalho em teatro comunitário no Quênia, em que fui muito impactado pelo trabalho de Paulo Freire, que escreveu Pedagogia do oprimido. Outro brasileiro que me impactou muito, também no teatro, é Augusto Boal. Eu estava preso em 1977 e, na prisão, usava o trabalho dele. Também fomos parte, os dois, do conselho de uma revista teatral chamada Drama Magazine, mas nunca o conheci em pessoa. Estou muito animado. E estou curioso de ver como a questão do negro é vista aqui.

P. O escritor cubano Leonardo Padura, que também está nesta Flip, acredita que um escritor deve antes de tudo escrever bem e depois, se for o caso, falar de política. O que você acha?

R. Faço das palavras dele as minhas. Seja o que for que um escritor faça ou pense, ele precisa primeiro saber escrever bem. Um escritor não é um historiador, nem um cientista político, nem um economista. É um artista. Dito isso, as condições econômicas e políticas e também as práticas sociais impactam no trabalho do artista. Ninguém pode escapar disso. Como escritor, estou interessado na qualidade da vida humana, em como acontece a distribuição da riqueza e também no impacto das relações. Como africano, me interessam também as questões de raça, a condição da raça negra, como ela é afetada, sua visibilidade. Na África e especialmente no Quênia, há uma distância cada vez maior entre ricos e pobres – cresce a concentração de renda à medida que o continente vai se desenvolvendo. Olho para o mundo, como escritor, e vejo um grupo bem pequeno, em geral de países do Ocidente, que são ricos, e uma enorme maioria de países pobres. Mas esses ricos dependem muito dos recursos dos pobres, especialmente da África. Quando visito um país, sempre presto atenção em quantos mendigos e sem-tetos há na rua e também na população carcerária. É aí que você mede o nível de desenvolvimento de um lugar. Nos Estados Unidos, por exemplo, você tem dois milhões de pessoas encarceradas. São quatro Islândias na prisão! A riqueza não se mede pela quantidade de milionários de um país.

P. Você já foi muitas vezes apontado como um forte candidato ao prêmio Nobel. Que importância isso tem para você?

R. Claro que fico muito lisonjeado e feliz que o meu trabalho possa valer um Nobel. Mas meu verdadeiro Nobel é quando alguém me diz como um livro o impactou, como aquela situação que descrevo é de alguma maneira semelhante ao que ele vive ou viveu. Isso me diz que vale a pena todo o esforço de escrever. Se alguém puder sentir mais esperança na possibilidade do mundo mudar, sinto que a minha imaginação vale a pena. Se meu trabalho serve para imaginar um mundo melhor, não aceitar a derrota, pensar que é possível de fato abolir a pobreza do mundo, sinto que já ganhei meu Nobel.

P. No Brasil, há quem acredite que nenhum autor tenha ganhado o Nobel em grande parte porque o português não é um idioma muito falado no mundo.

R. Verdade, mas é preciso lembrar que o Nobel é um prêmio dado uma vez ao ano. O verdadeiro prêmio é aquela conexão que se cria entre o escritor e um leitor em especial. No Brasil, eu daria o Nobel a Jorge Amado, porque ele deu a mim o seu Brasil, ou seja, conseguiu me transmitir ao menos o Brasil dele, que é o que um escritor deve fazer.

P. Você começou escrevendo livros em inglês nos anos 50 e depois assumiu seu idioma natal, o gikuyu, na década de 1970. O que significa, para você, escrever em sua própria língua?

R. Escrevi em inglês meus primeiros quatro romances, inclusive Um grão de trigo. Quando fui preso, em 1977, foi porque escrevi uma peça de teatro em gikuyu. Por isso, tomei a decisão política, de resistência, de escrever sempre no meu idioma original. No livro A mente colonizada, eu falo dessa questão. As línguas pra mim são muito importantes e acho que ninguém deveria perder a sua língua materna. Se vou para o Japão, gosto de escutar japonês; se estou no Brasil, o português. Por que não acontece o mesmo com as línguas africanas, quando estou na África? É por isso que fiz essa mudança. Não há contradição em manter sua própria língua e adquirir novas. É mais poder. Não estamos tirando nada. A perda de qualquer idioma no mundo, ainda que pequeno, é uma grande perda para a cultura da humanidade.

P. Muitos escritores preferem se afastar de sua história pessoal para imaginar histórias distantes de suas vidas. Você mergulha em cheio na sua própria vida para escrever. Isso é difícil?

R. De fato, muito da minha história pessoal e principalmente da história do meu país faz parte do meu trabalho. O Quênia é um país que foi colonizado pela Inglaterra, assim como o Brasil foi por Portugal. Em Jorge Amado, li sobre a questão agrária, dos latifúndios aqui, e ela é muito parecida à realidade que vivi: a terra sendo tirada de pessoas comuns, que têm direito a ela. Eu uso isso no livro Um grão de trigo. Falo de homens e mulheres que foram às armas para lutar por terra, porque sentiram que era possível. Por outro lado, acho que imaginar tudo é mais difícil na hora de escrever, ainda que nem sempre a fantasia seja completamente inventada. Fantasias fazem parte do nosso ser social – e elas são fascinantes. A fantasia e a arte ajudam na expansão da nossa imaginação. São produto dela, mas a alimentam de volta. Assim como o corpo precisa de comida e água, a alma precisa de espiritualidade e a imaginação, desse alimento.

P. Como foi crescer com quatro mães e um pai?

R. Onde nós vivíamos, havia quatro cabanas dispostas em um semicírculo, uma para cada esposa do meu pai, e essa área comum era onde todas as noites contávamos muitas histórias. Do ponto de vista das crianças – não estou falando das mães – era fantástico. Depois minha mãe se separou, e eu passei a viver só com uma mãe e nenhum pai. Ambas as experiências foram felizes. Li um livro recentemente em que o autor tinha nove irmãos, e aplicava a teoria dos conjuntos e semiconjuntos para calcular a quantidade de combinações que havia entre eles. No meu caso, são 25 irmãos. Imagine quantas possibilidades…

http://brasil.elpais.com/…/03/cultura/1435952470_967603.html

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