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Comitiva de Moçambique aprofunda conhecimentos sobre programa brasileiro de alimentação escolar

Escrito por  Assessoria de Comunicação Social do FNDE

Comitiva de Moçambique aprofunda conhecimentos sobre programa brasileiro de alimentação escolarPedro Rappoport/FNDE

Conhecer de perto a execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e tirar lições para aprimorar o programa de Moçambique. Esses são os principais objetivos de uma comitiva de gestores educacionais do país africano que chegou a Brasília nesta semana. Nesta terça-feira, 29, na sede do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a missão africana recebeu informações gerais do programa brasileiro, com destaque para compras da agricultura familiar, prestação de contas, monitoramento e controle social.

Na manhã desta quarta-feira, 30, será feita uma visita de campo na cidade de São Sebastião. A comitiva vai conhecer a execução do Pnae numa escola pública da área rural e ver de perto como são feitas as compras da agricultura familiar, um dos pilares do programa brasileiro e que desperta o interesse do país africano, cuja economia é baseada na agricultura.

Apontado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como exemplo de sucesso na área de alimentação escolar, o Pnae serve como base para a implantação de programas similares em vários países do mundo. “Já temos alguns acordos de cooperação técnica e somos muito demandados por países da África, América Latina e Caribe”, cita Karine Santos, coordenadora-geral substituta do Pnae.

E foi justamente isso o que ocorreu em Moçambique. Com seis milhões de estudantes na rede pública de ensino, o país africano contou com o apoio técnico do FNDE para implantar seu próprio programa e busca agora aprimorá-lo a cada ano. “A questão do controle do que as crianças devem comer é muito importante, ainda mais quando os pais têm uma carga grande de trabalho e, às vezes, apelam para uma alimentação mais fácil e rápida”, afirma a diretora Nacional de Nutrição e Saúde Escolar de Moçambique, Arlinda Chaquisse.

As reuniões e visitas técnicas da comitiva africana seguem até a próxima terça-feira, dia 5 de abril. Haverá ainda outra visita de campo na sexta-feira, dia 1º. A missão vai a Formosa (GO), cidade situada no entorno do Distrito Federal, para conhecer a execução local do Pnae.

http://www.fnde.gov.br/fnde/sala-de-imprensa/noticias/item/8610-comitiva-de-mo%C3%A7ambique-aprofunda-conhecimentos-sobre-programa-brasileiro-de-alimenta%C3%A7%C3%A3o-escolar

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Moçambique: Igreja Católica e Governo unem vozes pela paz

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Cidade do Vaticano, 30 mar 2016 (Ecclesia) – A celebração da Páscoa em Moçambique está a ser marcada pelos apelos da Igreja Católica e do Governo a favor da paz.

Segundo avança hoje a Rádio Vaticano, o arcebispo de Maputo aproveitou a Semana Santa para “reiterar a necessidade dos moçambicanos tudo fazerem para restaurar a paz no país”, salientando que ela “é um dom de Deus e deve ser preservada”.

“Neste momento de tensão político-militar, não importa saber quem é ou não o culpado, mas sim, restaurar a paz, através de um diálogo sincero e honesto”, apontou D. Francisco Chimoio.

Presente nas celebrações dos últimos dias, o chefe de Estado de Moçambique, Filipe Nyusi, uniu a sua voz aos apelos da hierarquia católica daquele país lusófono.

Para o responsável político, a Páscoa deve ser um momento propício para a “reflexão” e também para “o perdão,  a reconciliação e solidariedade”.

Moçambique vive atualmente um novo foco de “tensão político-militar”, marcado “por confrontos armados entre as Forças governamentais e homens armados da Renamo, o maior partido da oposição” do país.

http://www.agencia.ecclesia.pt/noticias/internacional/mocambique-igreja-catolica-e-governo-unem-vozes-a-favor-da-paz/

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Moçambique: Cresce expectativa com aproximação de data limite de Dhlakama

Afonso Dhlakama disse que, até ao fim de Março corrente, a Renamo iria instalar os seus governos autónomos nas províncias onde reclama vitória nas eleições gerais de 2014.

Afonso Dhlakama

Afonso Dhlakama

Ramos Miguel

O dia 31 de Março corrente é aguardado com expectativa em Moçambique: Termina nesse dia prazo estabelecido pela Renamo para a formação de governos provinciais.

Moçambique: Cresce expectativa com aproximação de data limite de Dhlakama 3:00

Há cerca de um mês, Afonso Dhlakama, num tom ameaçador, disse que até ao fim de Março corrente, a Renamo iria instalar os seus governos autônomos nas províncias onde reclama vitória nas eleições gerais de 2014.

A forma como a ameaça foi feita dava a entender que desta vez nada iria falhar, mas o facto é que no terreno as coisas não acontecem.

O analista político Fernando Mbanze diz que isso é preocupante, porque não há nenhuma acçao preparatória, não só do ponto de vista militar como também administrativo.

Mbanze afirmou que se nada acontecer, a liderança de Afonso Dhlakama na Renamo vai ser posta em causa, “porque isso vai defraudar as expectativas dos apoiantes do partido”.

Entretanto, no campo militar, a Renamo tem vindo a intensificar os seus ataques, sendo o mais recente o perpetrado esta segunda-feira, contra uma comitiva do governo da província central de Manica, durante o qual ficaram feridos três agentes policiais.

O ataque ocorreu na zona de Nhamatema e foi o primeiro a uma entidade governamental, desde a reedição do conflito político-militar, caracterizado por emboscadas da Renamo contra as forças de defesa e segurança.

Comentando sobre a situação, Raúl Domingo, antigo número dois da Renamo, disse que a solução passa por uma verdadeira inclusão, política, social e econômica.

Domingos, afastado da Renamo por Dhlakama, foi  negociador-chefe do Acordo Geral de Paz com o Governo, assinado em 1992, em Roma, Itália.

 

 http://www.voaportugues.com/content/mocambique-dhlakama/3259925.html
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Benin: UE saúda forma como decorreu as presidenciais no país

Bruxelas – A União Europeia (UE) saudou a forma como decorrer as eleições presidenciais no Benin e o espírito “fair play” de que deu prova o candidato derrotado, Lionel Zinsou, ao felicitar o seu adversário, o Presidente eleito, Patrice Talon, pela sua vitória.

CIDADÃO VOTA NAS PRESIDENCIAIS NO BENIN

FOTO: PIUS UTOMI EKPEI

Este gesto de Lionel Zinsou e a boa mobilização do eleitorado confirmam “o firme enraizamento democrático no Benin”, lê-se num comunicado transmitido terça-feira à imprensa.

O documento realça também a boa organização do escrutínio e o respeito pelas disposições constitucionais relativas ao número de mandatos presidenciais, que “reforçam a imagem do Benin como Estado promissor dos princípios da União Africana e da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), em matéria de governação democrática”.

Uma missão europeia de observação eleitoral estava desdobrada ao Benin para acompanhar o desenrolamento do voto a 6 de Março corrente.

http://www.portalangop.co.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2016/2/13/Benin-sauda-forma-como-decorreu-presidenciais-pais,4fc3eec9-b020-408b-9504-fd8b1f282d41.html

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Guiné Equatorial: Partido da oposição denuncia cerco militar à sede de campanha

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Malabo – O partido Cidadãos pela Inovação (oposição),da Guiné equatorial, liderado por Gabriel Nsé Obiang, denunciou hoje, quarta-feira, que o acesso às suas instalações foi bloqueado por homens armados em carros blindados, no dia da proclamação das candidaturas presidenciais.

“Os acessos que permitem chegar à nossa sede nacional foram bloqueados com carros de combate e muitos militares armados”, lê-se num comunicado do partido, citado pela agência espanhola EFE.

A Junta Eleitoral Nacional, presidida pelo vice primeiro-ministro e pelo ministro do Interior, Clemente Engonga Nguema Onguene, tinha previsto anunciar hoje oficialmente os nomes dos candidatos às eleições presidenciais marcadas para dia 24 de Abril de 2016.

O político aventou que querem lhes excluir destas eleições, sublinhando que os edifícios da rádio e da televisão também estão cercados por militares com carros de combate.

A Guiné Equatorial integra, desde há dois anos, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

As eleições presidenciais na Guiné Equatorial estão marcadas para 24 de Abril e o chefe de Estado, Teodoro Obiang Nguema, já anunciou a sua intenção de candidatar-se pelo Partido Democrático da Guiné Equatorial (PDGE).

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Brasil: “Perder dói muito mais que deixar de ganhar, diz Renato Meirelles

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A ausência de uma parcela da população nas manifestações contra o governo de Dilma Rousseff não significa que ela esteja satisfeita. Ao contrário. O índice de rejeição da presidente de cerca de 80% mostra: o país não está dividido exatamente quanto a esse aspecto. A divergência reside nos motivos para o desagrado, diz o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles. Enquanto parte das classes A e B olha com desconfiança para programas sociais da última década e meia, o estrato social intermediário, onde se encontram 54% dos brasileiros, se ressente de “um passo atrás” nas conquistas e exige justamente o aprofundamento dessas políticas. “Perder dói muito mais do que deixar de ganhar”, diz Meirelles.
Com diagnóstico baseado em números coletados ao longo de sua experiência no Data Popular, onde entrou como estagiário e trabalha desde a inauguração do instituto, em 2001, Meirelles, 38 anos, enxerga no país hoje mais do que crise econômica ou política, uma crise de perspectiva. O cidadão – especialmente o da classe C – não vê esboço de futuro para depois do furacão por falta de projetos e de lideranças no espectro político.
O governo não consegue mais promover a melhoria da qualidade de vida dessa parcela da população e a oposição está cega para as demandas de mais igualdade de oportunidades desse mesmo público. Por trás da divisão, diz, cresce um pensamento fascista.
Para ele, os políticos não acompanharam a evolução do país. Pensam de forma analógica diante de um eleitor digital – que não quer apenas ouvir, mas também falar. “Achar que a população brasileira vai aceitar tranquilamente cortes orçamentários que, de alguma forma, prejudiquem os mais pobres, é ser ingênuo”.
Formado em Publicidade, Meirelles arrisca palpites de economista. E considera o Fla x Flu político e ideológico prejudicial para a economia – agora e no pós-crise. Para ele, não existe saída “sem fortalecimento do mercado interno, e não existe fortalecimento do mercado interno, sem melhorar a educação e sem oferecer emprego ou condições de empreender”.
Meirelles considera que a Operação Lava-Jato tem o mérito de promover “uma saudável e oportuna” discussão sobre a corrupção no país, mas teme que o eventual viés político de algumas decisões do juiz Sergio Moro gere questionamentos capazes de comprometer os resultados. “Não tenho bandido de estimação. Roubou, tem que ser preso”, disse, na entrevista que concedeu ao Valor na quarta-feira da semana passada. Leia a seguir os principais trechos:

Valor: A classe C participa das manifestações contra o governo?
Renato Meirelles: Quando olhamos os números do Datafolha sobre o perfil sociodemográfico de quem foi às manifestações a favor do impeachment, claramente tinha um perfil mais rico, mais escolarizado, mais masculino e mais velho que a média da população. Sete de cada dez pessoas que foram às manifestações não votaram na presidente Dilma no segundo turno. Efetivamente existe uma grande mobilização da parcela mais rica da sociedade em oposição ao governo. Isso diminui a importância das manifestações? De jeito nenhum. Tem muita gente na rua e são as maiores manifestações da história, mas os números mostram que é uma parcela que já está descontente com a situação política há muito tempo. Não significa que a classe C não esteja descontente com a economia. Está. Mas não entende o que vai além do processo de catarse, de insatisfação com o governo.

Valor: A classe C tem uma adesão mais pragmática?
Meirelles: Acho que tem. Mas existe uma dificuldade de alguns agentes políticos entenderem as diferenças dos 80% da população que avaliam o governo como ruim ou péssimo. Desses, 36% não gostam da Dilma e também não gostam do Prouni, do Fies, do Mais Médicos, das cotas nas universidades, ou seja, de um conjunto de políticas públicas que fizeram na última década o Brasil viver um processo de redução da desigualdade.

Valor: É isso que faz com que uma boa parte da classe C não esteja presente nas manifestações?
Meirelles: A ausência de uma visão clara sobre para onde vamos e sobre a garantia da manutenção de políticas públicas de um Estado que promova igualdade de oportunidades e que reduza a desigualdade social sem dúvida tira muitas pessoas da classe C da passeata. De um lado organiza mais a classe A e B, a parcela que há tempos não estava satisfeita com os rumos do país, mas afasta o eleitorado médio. Se 36% odeiam a Dilma e tudo o mais, 44% dos brasileiros que estão insatisfeitos com a Dilma avaliam mal o governo justamente porque ele não ampliou o Fies, o Prouni, não promoveu aumento real do salário mínimo, não cumpriu promessas de campanha, de redução de desigualdade que, no limite, fizeram Dilma ganhar a última eleição presidencial. Isso numa eleição em que 73% dos brasileiros queriam mudança. É impossível entender o que acontece hoje sem voltar um ano e meio atrás, quando a oposição conseguiu perder uma eleição em que 73% dos eleitores queriam mudança.

Valor: Por que isso ocorreu?
Meirelles: Porque a oposição não dialogou com o pensamento majoritário da sociedade brasileira, que defende um Estado presente na promoção do bem-estar social e na redução da desigualdade.

Valor: É a luta de classes típica?
Meirelles: Acredito que as pessoas cada vez mais querem um Estado mais eficiente e que entregue serviços públicos com qualidade – o que já aparecia em 2013. Elas não querem um Estado pequeno. Querem um Estado presente, vigoroso, eficiente e presente. “Há quem use o discurso da meritocracia, mas é incapaz de enxergar a busca da igualdade de oportunidades como um valor”

Valor: O discurso predominante de quem está contra o governo parece um tanto diferente, não?
Meirelles: O discurso das passeatas está longe de ser o discurso majoritário. Todas as pesquisas do Data Popular, quantitativas e qualitativas, mostram as pessoas insatisfeitas com a ineficiência do Estado, mas querem a existência do Estado. Por uma razão simples: são elas que usam a escola pública, o serviço público. Graças à presença do Estado que o Brasil tem 9 milhões de universitários a mais nos últimos dez anos. Isso não se deu pela iniciativa privada, mas pelo Prouni e pelo Fies.

Valor: A participação da iniciativa privada é acessória…
Meirelles: Sim, como braço do poder público. O caso do Prouni é o exemplo clássico. Quando pessoas falam que todos que recebem Bolsa Família são ladrões e venderam seu voto, quando começa a existir um conjunto de preconceitos de gênero, classe e cor, boa parte da classe C, majoritariamente negra e com maior presença no Nordeste, pensa: “eu posso estar muito irritado com o governo, acho que o Brasil não está no rumo certo, mas não me identifico com isso”. O que preocupa é que na esteira da briga política começa a crescer um pensamento fascista.

Valor: O sr. identifica esse tipo de pensamento?
Meirelles: Claramente. Um ódio, uma intolerância na discussão sobre a corrupção, que é fundamental para o país, mas que está tapando a discussão real do que é um Estado que promova igualdade de oportunidades, redução da desigualdade. Isso coloca o ajuste fiscal, que é necessário, apenas sob uma ótica financista. O preço, por exemplo, de diminuir o acesso à universidade em um país desigual como o nosso é muito grande.

Valor: Essa divisão está comprometendo o futuro social e econômico?
Meirelles: É impossível pensar em um Brasil pós-crise sem uma gestão mais eficiente dos recursos do Estado, sem combater fortemente a corrupção e os desvios de dinheiro público, mas também sem que se mantenha e se fortaleça o conjunto de políticas públicas que reduziram a desigualdade, aumentaram o mercado interno, criaram milhões de empregos e fizeram com que mais de 10 milhões de pessoas se formassem na universidade.

Valor: E quanto à crítica de que esse modelo estaria esgotado?
Meirelles: Minha tese é que para sair da crise temos que aprender com o maior país capitalista do mundo, os Estados Unidos, que superaram 1929 aumentando o mercado interno, gerando emprego e incentivando a economia. Todos concordam que é impossível ser forte e competitivo sem que todas as crianças estejam na escola. Tirar verba do Bolsa Família significa que um monte de criança vai deixar a escola. É justo a sociedade pagar esse preço para sair da crise?

Valor: É essa a cabeça da classe C?
Meirelles: Para responder a isso tenho que voltar um pouco na natureza das crises. Primeiro, por que a corrupção ganhou essa proporção no debate político? Todos os brasileiros passaram a ser mais éticos? Obviamente, não. Fizemos uma pesquisa no Data Popular sobre corrupção cotidiana. Só 3% dos brasileiros se consideram corruptos, mas mais de 70% já tiveram alguma atitude corrupta: subornar um guarda, guardar lugar na fila… Mas a corrupção passou a ser vista como a causa, a raiz da crise.

Valor: E ela é?
Meirelles: Obviamente, não. As pessoas acham que a gasolina aumentou por causa da corrupção da Petrobras, que a energia elétrica subiu por conta dos desvios dos políticos. A corrupção é um câncer, precisa ser combatida, mas não é a causa da crise. Uma maioria dos brasileiros, 99%, acham que estamos em crise; desses 55% consideram que essa é a maior crise econômica que o país já viveu. Sabemos que não é. Tivemos crises com desemprego acima de 20% e inflação de 80% ao mês sem o Brasil ter um centavo de reserva internacional. Por que essa visão? Primeiro porque metade dos brasileiros não era consumidor, não era adulto na época da hiperinflação. Segundo porque, em uma geração, é a primeira vez que o brasileiro tem sensação de perda. Perder dói muito mais que deixar de ganhar.

Valor: E dentro desse universo de novos consumidores, tem o que se tornou adulto e o que era consumidor marginal, a classe ascendente…
Meirelles: Claro. E que agora está sofrendo. Perguntamos que outras crises existem além da econômica. E 95% acreditam que o Brasil vive uma crise de perspectiva.

Valor: O que isso significa?
Meirelles: Que ele não vê luz no fim do túnel. O problema então, não é a crise econômica, pois já tivemos crises como essa, o problema é não ver luz no fim do túnel; 89% dos brasileiros são incapazes de dizer o nome de alguém em condições de tirar o país da crise.

Valor: Isso não é só a classe C?
Meirelles: Não, é geral. A classe C é majoritária, pois é 54% da população. Logo, pensa assim também. Então, 89% acham que não tem ninguém capaz de tirar o país da crise. Dentro dos 11% que dizem algum nome, quem aparece na frente é o Papa Francisco. Quando um argentino é a melhor solução que o brasileiro enxerga… [risos].

Valor: Além da crise econômica, temos uma crise de liderança?
Meirelles: O brasileiro não enxerga essa liderança no governo nem na oposição. A oposição perdeu as eleições por ser incapaz de apresentar um projeto de futuro e tem uma enorme dificuldade de ganhar a classe C e D para o movimento pró-impeachment porque também é incapaz de dizer como vai ser o pós-impeachment. Hoje 92% dos brasileiros concordam com a frase “todo político é ladrão”. Os brasileiros podem até defender o impeachment porque estão de saco cheio do governo – assim como também muita gente da esquerda está -, mas não acham que é solução para a crise econômica, já que quem assumiria também é político e, se todos são ladrões… Quando a gente pergunta: “você acha que os políticos defendem o impeachment porque querem melhorar a vida das pessoas ou querem o lugar da Dilma?”, oito de cada dez falam que é porque querem o lugar dela. O brasileiro, classe C em especial, fica desiludido. Na ausência de um debate sobre o futuro do país, se coloca a corrupção como única temática, sem discutir problemas que realmente interessam. Isso afasta o eleitor médio de um debate saudável sobre a vida democrática e aumenta a crise de perspectiva, o descrédito com relação à classe política. Temos uma classe política analógica para um novo eleitor digital, que não quer só ouvir, mas quer falar, ser protagonista.

Valor: O que interessa ao cidadão?
Meirelles: Questões de gênero e de construção de identidade interessam, assim como a promoção de igualdade de oportunidade. Como os políticos tratam disso? A esquerda fala sobre a importância da inclusão. Partidos mais ligados ao pensamento de direita, em meritocracia. Não se discute igualdade de oportunidade. Defendo a meritocracia, mas ela só existe quando todos partem do mesmo ponto. Pelo simples fato de ser homem, ganho 25% a mais do que uma mulher branca, de São Paulo, de 38 anos, que estudou o mesmo que eu. Por ser branco, ganho mais que um negro em iguais condições. Não tenho mérito em ganhar uma corrida de 100 metros se largo 50 metros à frente. A igualdade não está na chegada, está na saída.

Valor: O consumidor ascendente tem clareza disso?
Meirelles: Ele não tem a clareza teórica, mas prática. A palavra que resume isso se chama oportunidade. Parte considerável dos opositores da presidente simplesmente não consegue se conectar com o pensamento majoritário na busca por igualdade de oportunidade.

Valor: O sr. falou de fascismo…
Meirelles: Quando estudantes são agredidos porque estavam com uma bicicleta vermelha ou uma região inteira do país é discriminada por conta de sua opção de voto, você não pode ficar quieto. Tem muita gente a favor do impeachment pelo justo debate de que é impossível tolerar a corrupção no Brasil. Eu também acho. Não tenho bandido de estimação. Roubou, tem que ser preso. Mas para combater a corrupção é justo marchar ao lado de quem defende a volta da ditadura militar ou de quem defende agressão a alguém com camiseta da cor A ou B?

Valor: Qual é a gênese desse pensamento?
Meirelles: É a intolerância de classe. De pessoas que falavam que os aeroportos tinham virado rodoviária, que acreditam que a sala de aula não deve ser compartilhada por negros. Pessoas que usam o discurso fácil e raso da meritocracia e são incapazes de enxergar a busca da igualdade de oportunidades como valor da sociedade. O Fla x Flu político está acabando com a chance de debate democrático sobre a crise econômica. Na permanência da Dilma, o Brasil vai continuar rachado diante da dificuldade de implementar um conjunto de reformas. Se a presidente cai e o vice Michel Temer assume, o [programa] “Ponte para o Futuro” – que é o projeto do PMDB para a solução da crise e que deixa o Aécio Neves à esquerda -, não enxerga que boa parte de quem odeia a presidente a odeia pelo pouco que ela fez de parecido com o “Ponte para o Futuro”. Achar que a população aceitará tranquilamente a desindexação do salário mínimo, mudança da idade da aposentadoria ou um conjunto de cortes orçamentários que prejudique os mais pobres é ser ingênuo. Desse descrédito da classe política surge o Moro, hoje um dos principais agentes políticos do Brasil.

Valor: Acha que ele é agente político?
Meirelles: Sem medo de errar. Ele promoveu um saudável e fundamental debate para a democracia brasileira sobre a importância da corrupção. Fez com que o brasileiro entendesse que corrupção tem dois lados, alguém que recebe e alguém que paga. E isso foi muito bom. Difícil é acreditar em uma faxina se em algum momento se questiona a isenção do juiz. Essa isenção começou a ser posta a prova na condução coercitiva do ex-presidente Lula. Imagina a quantidade de pessoas que começam a dizer ao Moro que bom seria se todos os políticos fossem iguais a ele, que já perguntaram se ele não gostaria de ser candidato à Presidência. Acredito que isso fez com que a postura de isenção, que poderia estar ocorrendo até então, tenha sido colocada em xeque.

Valor: A classe C consegue entender esse tipo de formulação?
Meirelles: O que a classe C entende é que está cada vez mais difícil confiar na classe política como agente de transformação. As crises de perspectiva e liderança afloram. Ela fica angustiada e imobilizada por não enxergar luz no fim do túnel. Isso prejudica em muito a economia. As pessoas correm menos atrás de crédito quando estão pessimistas. Consomem menos. Os brasileiros começam de fato a ficar preocupados com o rumo de suas vidas.

Valor: A desilusão dos brasileiros é mais forte na classe C?
Meirelles: A classe C está sentindo o passo atrás. Viajar de avião e parar de viajar, ter o filho no colégio particular e deixar de ter… É muito difícil para alguém que tome champanhe voltar para sidra. É difícil quem se acostumou com alcatra voltar para a salsicha e o ovo.

Valor: E já está voltando?
Meirelles: Do ponto de vista do consumo sim. De classe, não. Não posso dizer que a classe C diminuiu, mas o poder de compra dela, claramente. O número de novos estudantes na universidade já diminuiu. O retrocesso existe e tende a crescer. Seja pelo agravamento da crise ou pela solução política e econômica que desconsidere o que fez o Brasil crescer, que foi a promoção de igualdade social.

Valor: educação é o grande problema do Brasil?
Meirelles: Não. Nosso grande problema é desigualdade. educação é um dos fatores que leva à desigualdade. O brasileiro pode ter dúvidas se gosta ou não da Dilma. Pode ter dúvida se o que é melhor, esquerda ou direita, PSDB ou PT. Mas dois terços dos brasileiros defendem o Estado vigoroso, eficiente e presente na sociedade.

Valor: O sr. acredita que vá ocorrer impeachment?
Meirelles: Acho muito difícil [o presidente da Câmara] Eduardo Cunha, único brasileiro com rejeição maior que a da presidente Dilma, conduzir um processo de impeachment. Mas não tenho a mais vaga ideia se esse governo vai continuar ou não. Seja quem for o vencedor, deve chamar todos os lados para conversar. O pensamento fascista não pode contaminar o debate. Quando você só fala e não escuta, não consegue fazer com que o bom senso prevaleça.

Fonte: Valor Econômico

http://www.sbvc.com.br/2014/perder-doi-muito-mais-que-deixar-de-ganhar-diz-renato-meirelles/

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Moçambicanos têm pouco conhecimento dos documentos da União Africana

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Governo e Sociedade Civil buscam caminhos para melhorar a situação

Os moçambicanos têm pouco conhecimento dos documentos da União Africana que o país ratifica. Isto deve-se à falta de divulgação dos mesmos pela Assembleia da República e pelo Governo.

 

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Em busca de caminhos para melhorar o cenário, representantes da sociedade civil, do Governo, da Assembleia da República e académicos, reuniram-se em Maputo. Na ocasião, a responsável pelo Centro de Aprendizagem e Capacitação da Sociedade Civil fez saber que após um estudo no qual foram analisados 14, dos 27 instrumentos da União Africana que o país ratificou, concluiu-se que existe uma fraca implementação e divulgação.

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Este facto coloca ao Governo e à Comissão de Relações Internacionais da Assembleia da República o desafio de tornar os instrumentos acessíveis ao conhecimento de todos, e acelerar o processo de avaliação e ratificação.

Neste momento, a prioridade da Assembleia da República é avaliar para posterior a ratificação da Carta Africana sobre Democracia, Eleições e Boa Governação, que pretende abordar assuntos de má governação e mudanças inconstitucionais de governos em África. Ela lida especificamente com a má gestão dos processos eleitorais, abuso dos direitos humanos e participação inadequada de todos os cidadãos na sua governação. Ela visa reforçar o compromisso dos estados africanos através da UA com os valores universais de democracia, respeito pelos direitos humanos, estado de direito, supremacia da Constituição e ordem constitucional, nos mecanismos políticos dos estados membros da UA.

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Governo moçambicano lamenta falta de interesse da Renamo no diálogo político

No país

O Governo deplorou, esta terça-feira, a atitude da Renamo de não aceitar o convite formulado pelo Presiden­te da República, Filipe Nyusi, para a mesa de diálogo, de modo a pôr fim à tensão político-militar que se arrasta deste 2012 e que vem se­meando medo e terror no seio da população, com enfoque para a zona centro do país.

Para o Governo liderado por Fi­lipe Nyusi, a “perdiz” continua a desenvolver acções criminosas de desestabilização, tirando a vida de pessoas e destruindo bens da popu­lação. “Esta situação contraria um valor fundamental que é plasmado na nossa Constituição, que é o direi­to à vida, bem como a agenda de de­senvolvimento dos moçambicanos”, disse Mouzinho Saide, porta-voz do Conselho de Ministros. Neste senti­do, o Executivo apela aos homens armados da Renamo a “devolverem às autoridades competentes as ar­mas que estão em seu poder ilegal­mente”.

Estes pronunciamentos foram tornados públicos, esta terça-feira, em Maputo, em mais uma sessão do Conselho de Ministros, que teve como pano de fundo o clima de ins­tabilidade que se vive no país.

http://opais.sapo.mz/index.php/politica/63-politica/40130-governo-lamenta-falta-de-interesse-da-renamo-no-dialogo-politico.html

 

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O fenômeno da “gasosa” em Angola

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Um dos fenômenos na sociedade angolana é a corrupção quotidiana promovida por agentes de fiscalização do trânsito, que recebe o nome de “gasosa”

Ao intervir na cerimônia de fim de curso de agentes reguladores e de fiscalização do trânsito, o comissário-chefe Paulo de Almeida pediu que os efetivos “sejam a imagem de uma autoridade próxima do cidadão, com ética profissional, educacional e firme no cumprimento da lei e do dever”.

 

Ao mesmo tempo, recomendou dureza no tratamento dos casos de agentes envolvidos em casos de suborno. “O fenômeno da gasosa”, referiu, “debilita a autoridade policial e a dignidade da corporação”.

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História de Angola: As tentativas de destruição da ponte sobre o rio Cuito

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José Ribeiro |
30 de Março, 2016


Fotografia: Eduardo Pedro |

Em 1985 o Governo angolano decide restabelecer a soberania sobre a região do Sudeste angolano ocupada pela UNITA. Devido à vastidão do território do Cuando Cubango e às dificuldades que se colocavam na ligação às tropas, em 1978 a direcção do MPLA decidiu abandonar aquela região. A África do Sul e a CIA aproveitaram para ali instalar a base da Jamba.

Reforçadas e decididas a repor a soberania, as FAPLA lançam em 1985 a Operação “Congresso II”, com  um ataque a Mavinga, principal base logística da UNITA. A ofensiva foi lançada do Cuito Cuanavale e apanhou a UNITA desorganizada. O avanço das Forças Armadas de Angola foi apenas interrompido pela intervenção sul-africana quando as tropas angolanas estavam a aproximadamente 10 quilómetros de Mavinga.
Em resposta, no ano seguinte, forças especiais sul-africanas desencadearam a Operação “Drosdy” e destruíram as reservas de combustível no Porto do Namibe. Mas  a acção da FAPLA para tomar Mavinga e a Jamba e repor a autoridade do Estado angolano na região prosseguiu nos anos seguintes.

Barreira intransponível

Há uma semana, a 23 de Março deste ano, 28 anos depois da derrota das forças do regime de apatheid e seus aliados na Batalha do Cuito Cuanavale, foi inaugurada a nova estrutura de uma ponte que decidiu um dos maiores acontecimentos militares de África.
Na presença do ministro de Defesa Nacional, João Lourenço, do chefe do EMG das FAA, general de Exército Nunda, e da embaixadora de Cuba em Angola, Gizela Garcia Rivera, um oficial superior angolano, general Feijó, descreveu os factos que rodearam o esforço sul-africano e da UNITA destinado a destruir a ponte sobre o rio Cuito e  tornar inactiva a pista de aviação do Cuito Cuanavale.
É com base nesse relato que contamos a história da ponte sobre o rio Cuito.

Entre dois rios

A pequena vila do Cuito Cuanavale, com aeródromos e armazéns militares, situa-se abaixo da confluência dos rios Cuito e Cuanavale, na margem Leste. Desde as primeiras décadas do século passado, o acesso para Leste era feito por uma ponte de sentido único, sem outros pontos de passagem na área. Os rios são navegáveis e em alguns pontos chegam a atingir a profundidade de 15 metros.  Quem já percorreu as suas margens, retrata uma beleza única, recortada por plantas e animais de traço nunca visto.
Em 1986, na guerra de desestabilização contra Angola e a “Linha da Frente”, o comando superior sul-africano decidiu então destruir essa ponte. Se o conseguisse, provocaria uma interrupção no apoio logístico às FAPLA e limitaria o efeito de qualquer força que ainda não estivesse estacionada a Leste.
A tropa sul-africana recebe a missão de realizar acções de reconhecimento e operação com vista à destruição da ponte. A UNITA fornece os meios de infiltração e de retirada. E numa reunião com oficiais superiores da UNITA em Mavinga, Jonas Savimbi garante o seu apoio total, enviando uma mensagem ao comandante da operação, Rudman, dizendo: “A nossa região precisa de convicções firmes para que o nosso povo permaneça livre. O preço é alto. Vamos enfrentar os desafios das nossas vidas”.
Um plano de operação é feito para a UNITA. A cooperação com a RSA e a assistência recebida são “excelentes”. A UNITA realiza o ataque que prevê desmantelar alguns pólos que protegiam a ponte do Cuito. A operação foi conduzida pelo chefe da equipa de engenheiros da UNITA, capitão Chicucuma, com uma equipa de 45 homens.  O plano de ataque da UNITA era engenhoso, mas não teve sucesso.

Primeira tentativa

Em Maio de 1987, um 4.º Regimento de Reconhecimento das SADF recebe então ordens para realizar um estudo sobre a possibilidade de destruir a ponte sobre o rio Cuito, um “elemento vital” no apoio logístico às unidades das FAPLA que se movimentam para Leste do rio.
Uma equipa de dois homens realiza reconhecimento e, depois de estudado o relatório, fica decidido que a possibilidade de destruição da ponte é exequível. Na etapa de planeamento, chegam à conclusão que o Exército angolano sofreria maiores danos se a ponte fosse destruída quando as tropas angolanas fossem movimentadas para Leste da ponte para começarem uma nova ofensiva.
Uma equipa de nadadores de combate, composta por 12 operadores do 4.º Regimento de Reconhecimento das SADF, muda-se para Fort Foot, no Rundu, para treinos e preparativos para a Operação. Entre les estavam o major Fred Wilke, os sargentos Antonie Beukman, Gerhardus Heydenrych, Richard Burt Brent, Jacobus de Wet, Filipo Herbst, Henk Liebenberg, Adriano Manuel, Johannes Oettle, Johannes van der Merwe, Leslie Wessels e o cabo Pieter van Niekerk. Na noite de 25-26 de Agosto de 1987, o grupo equipado com canoas “Klepper” de dois lugares e equipamentos de homens-rãs é transportado com helicópteros “Puma” para Norte do Cuito Cuanavale, à 70 quilómetros, nas margens do rio Cuito infestado de crocodilos, muito frequentes, e que se encontrava na fase de cheias. Era necessário manter uma distância considerável do alvo para garantir que os postos avançados das FAPLA não ouvissem o barulho dos helicópteros. Depois de remarem durante três horas, a equipa esconde as canoas e descansa durante o resto do dia. Quando a noite caiu, continuaram para Sul, nadando e seguindo a corrente.
O major Fred Wilke e o seu companheiro (Phillipus Herbs) depararam-se com obstáculos submersos colocados pelas FAPLA na área que conduzia ao alvo. Ignorando os perigos, continuaram a nadar em direcção à ponte. Foram descobertos por patrulhas das FAPLA quando estavam em águas rasas e são alvejados com fogo de armas ligeiras e com granadas. O sul-africano Fred, ferido no braço direito, é salvo de morte pelo seu companheiro que o arrasta para o fundo do rio e nada com ele, saindo da área da ponte para uma outra de segurança.
Os sargentos van der Merwe e Manuel também se depararam com obstáculos submersos e, pelo metralhar de armas ligeiras e pelas explosões de granadas de frente, ficam cientes de que as FAPLA foram alertadas da presença invasora. Os dois sargentos conseguem evitar os postos avançados das FAPLA, nadando no fundo do rio.
Ignorando o perigo das cargas sensíveis que transportavam, susceptíveis de serem activadas pela onda de choque das granadas lançadas pelos militares da FAPLA, armam-nas, colocam-nas na ponte e afastam-se sem serem vistos.
Esta parte do grupo mergulhador retira-se, mas a vigilância das FAPLA localizou os sargentos Heydenrych e Pieter van Niekerk, pelo barulho de uma mochila que caiu à água. O fogo é concentrado e eles mergulharam para o fundo. As bengalas estouram no ar, iluminando o rio, ficando os invasores claramente visíveis, enquanto nadam em direcção à ponte.
Para todo o grupo tornou-se muito perigoso colocar as cargas com precisão por causa das ondas de choque das explosões das granadas e, provavelmente, iriam colocá-las fora do lugar. Em vez disso, depositaram-nas o mais perto possível da ponte. Depois, retiraram-se. Chegados ao ponto de reencontro, viram que estavam lá todos excepto os sargentos Beukman e Leslie Wessels.
Duas horas depois do amanhecer chocaram com uma patrulha das FAPLA que abriu fogo. Os sargentos Heydenrych, Burt, Liebenberg e Van der Merwe ripostaram ao fogo com as suas pistolas, mas tiveram de mergulhar para evitar o contacto. Mas tiveram outro problema. Enquanto os outros faziam cobertura, o major Wilke foi atacado por um crocodilo. O réptil prende as suas garras em torno de uma barbatana e rasga-a. Mas apesar das feridas e do choque do ataque do crocodilo, o major Wilke continua até ao ponto de recolha, onde recebeu a primeira assistência médica.

Dispersos na mata

Os dois que ficaram para trás, os sargentos Beukman e Wessels, tiveram de passar a ponte e nadaram para tão longe quanto puderam, à jusante, antes do raiar do sol. Durante o dia houve muita actividade das FAPLA ao longo das margens do rio e por isso acoitaram-se numa palhota de capim durante o resto do dia. Quando anoiteceu, continuaram a nadar, mas quando chegaram ao primeiro ponto de encontro os outros já haviam saído.
Quando se sentiram seguros, atravessaram terreno firme e foram directos para o ponto de encontro de emergência. Tiveram de nadar à superfície para a conservação do oxigénio e foram atacados também por um crocodilo enorme que prendeu as suas grandes mandíbulas no sargento Beukman e arrastou-o para o fundo do rio. Segurando-o com as suas garras terríveis, o réptil começou a sacudi-lo para trás e para frente sob a água, tentando afogá-lo. Só conseguiu safar-se quando desembainhou a faca de combate e esfaqueou o crocodilo repetidamente nos olhos e na área macia sob o pescoço. Depois de ter escapado ao jacaré, os dois conseguiram chegar ao ponto de recolha, onde ambos foram retirados de helicóptero.

Danos da primeira tentativa

Nessa primeira tentativa de destruir a ponte sobre o rio Cuito, as SADF provocaram danos severos à ponte, mas não a conseguiu demolir. Enquanto a ponte aguardava por reparação de emergência da importante engenharia das FAPLA, que tiveram nessa altura um papel de verdadeiros heróis, o movimento de abastecimento das tropas angolanas através do rio Cuito foi reduzido e o transporte de tropas feito de helicóptero e por uma balsa.
A ponte ficou fechada à passagem de tanques e veículos pesados durante grande parte da campanha que se seguiu, mas a eficácia do ataque foi assegurada pela eficiência dos equipamentos russos de travessia, do tipo “TMM”, que na sua maioria resolveram os problemas das FAPLA de travessia dos rios.
Os resultados dos ataques dos crocodilos desencadearam nas SADF um programa urgente de pesquisa para encontrar um repelente de crocodilos, mais tarde alargado à descoberta de algo eficaz contra tubarões, muito frequentes nos mares do Cabo da Boa Esperança.

Segunda tentativa

Nos dias 25 e 26 de Agosto de 1987 foi desencadeada a segunda operação pelas Forças Especiais sul-africanas, denominada “Operação Coolidge”, que visava novamente atrasar o avanço das FAPLA para a Jamba, durante a operação “Saudemos Outubro” e impedir, mais tarde, o abastecimento em material e víveres às tropas nacionais angolanas.
No dia 5 de Setembro, o comandante do 32.º Batalhão “Búfalo” organiza uma nova unidade, mais numerosa, que passou a ser conhecida como a 20.ª Brigada de Infantaria das SADF. Uma das primeiras missões, levadas a cabo pelas forças das SADF, foi tentar a destruição da ponte no início de Setembro de 1987.

Terceira tentativa

No dia 25 de Dezembro de 1987, entre às 18h30 e as 21h50, as tropas das SADF efectuaram um intenso bombardeamento de G-5 contra a ponte, danificando-a parcialmente. No entanto, antes da meia-noite, as SADF foram informadas por um posto de observação de que a ponte estava a ser novamente utilizada por veículos das FAPLA.
Os sapadores das FAPLA tentaram reforçar a ponte durante a noite, através do desdobramento de uma ponte “TMM”, pela parte da ponte mais danificada. Mas a TMM caiu ao rio e teve de ser recuperada rapidamente para evitar que a ponte ficasse encerrada e se registasse uma concentração de veículos que daria oportunidade à artilharia sul-africana de flagelar no dia seguinte.
Durante todo dia 26 de Dezembro de 1987, a ponte sobre o rio Cuito foi atingida com 48 projécteis (!) de G-5. Mas no dia 27 de Dezembro, chegaram más notícias para as SADF, pois as FAPLA haviam conseguido reparar a ponte sobre o rio Cuito a um nível suficiente para ser usada novamente na travessia de camiões pesados e de tanques. Isto significava que as FAPLA seriam capazes de continuar a reorganização e o reforço das Brigadas estacionadas a Leste do Cuito e que batalhavam com bravura pela defesa da soberania de Angola.
Os flagelamentos não conseguiram produzir os efeitos esperados pelas SADF, o que lhes criou uma enorme aflição que se veio a reflectir na derrota final.
Com a ponte do rio Cuito novamente em funcionamento, os canhões G-5 das SADF concentraram-se sobre ela ao longo do dia 27 de Dezembro. Os canhões continuaram a desferir golpes contra o tráfego que se fazia sobre a ponte, atirando para o rio um camião angolano. O chefe da engenharia das FAPLA, coronel Jorge, em determinado momento, teve de correr enquanto por trás dele rebentavam os potentes projectéis G-5.

Quarta tentativa

No dia 3 de Janeiro de 1988,  aviões da SAAF (Força Aérea Sul-africana) levantaram voo, a partir de Grootfontein, com a missão de destruir a ponte sobre o rio Cuito, já decisiva para as FAPLA no reforço das capacidades de defesa do dispositivo estacionado na parte Leste do Cuito Cuanavale. No percurso, ao se aperceberem de que a aviação das FAPLA estava no ar, decidiram regressar. A SAAF reuniu-se para preparar cuidadosamente a missão que iria permitir-lhe atacar a ponte apesar da presença constante dos MiG. Às 11h40, o golpe foi lançado outra vez.  O ataque acabou por acontecer às 12h31, com uma “bomba inteligente” que embateu junto à ponte do Cuito.  A explosão fez-se a uns 20 metros de distância. As FAPLA pensaram que tivessem perdido a ponte, atingida por um explosivo carregado por um RPV (Remote PHP Vulnerability Scanner, pioneiros dos actuais DRONE), e assim reportaram o incidente a Menongue.
Aquilo que era visto como um problema que as FAPLA enfrentariam – o esforço maior de reparar a ponte, o que constituiria uma desvantagem em relação à artilharia sul-africana – acabou por não ser, porque as unidades angolanas manobraram com os barcos de travessia e com o equipamento táctico de pontes para manter as brigadas abastecidas na parte Leste do rio.

Quinta tentativa

Na noite de 29 Fevereiro para 1 de Março de 1988, durante o 2.º ataque ao Tumpo, as SADF decidiram lançar um assalto com tanques contra a ponte. O novo ataque foi planeado para ser executado em cinco fases, do reconhecimento à destruição da ponte e  retirada.
A força principal para este ataque incluia o 61.º Batalhão Mecanizado, de Mike Muller, célebre derrotado da Batalha do Cuito Cuanavale. As FAPLA mantinham a sua testa-de-ponte no planalto oriental.A 8 de Março, as unidades naquela zona estavam a ser reabastecidas através da ponte.
Os sul-africanos tinham o objectivo de “destruir as unidades das FAPLA à Leste do Cuito ou obrigá-las a atravessar o rio” e “assim que a testa-de-ponte fosse tomada, a ponte seria destruída”, mas o propósito não foi conseguido. Para além de não ter tomado a testa-de-ponte, o inimigo não conseguiu destruir a ponte.

Área em desminagem

A 23 de Março de 1988, as SADF realizaram a Operação “Packer” (Empacotador), um último ataque ao Tumpo para obrigar as FAPLA a abandonarem o seu ponto de resistência a Leste da ponte sobre o rio Cuito.
O desfecho desta operação foi favorável às FAPLA. Os campos de minas implantados na linha dianteira da defesa, o golpe poderoso e quadriculado da artilharia e a inundação dos eixos de aproximação das forças sul-africanas pelo transbordante rio Tumpo, começaram por limitar os movimentos das SADF, obrigando-as a imobilizar-se e a recuar das linhas de combate, à mercê do poderoso dispositivo de defesa das tropas angolanas, que mantiveram a integridade da cabeça-da-ponte sobre o rio Cuito.
A Operação “Displace” (Remover) decorreu de 30 de Abril a 29 de Agosto de 1988, data em que os últimos soldados das SADF se retiraram de Angola, nos termos do Acordo Tripartido entre Angola, África do Sul e Cuba, assinado com mediação dos Estados Unidos e supervisão da ONU.
A “Displace” foi a última acção feita para impedir que as FAPLA se reorganizassem e lançassem uma nova ofensiva contra a Jamba e consistiu na implantação de minas em quase todas as travessias sobre os rios Cuito, Cuanavale e Chambinga. Trata-se de uma área que estava para começar a ser desminada em 2016 e continuar para além de 2017.

 

Fonte: Acessado o site no dia 30 de março de 2016

http://jornaldeangola.sapo.ao/reportagem/as_tentativas_de_destruicao_da_ponte_sobre_o_rio_cuito