Racismo em Cabo Verde

000000
Entre Preto e Branco: tratamento desigual
 
por Alberto Lopes Sanches *
 
Não é novidade para ninguém que o colonialismo deixou nas sociedades africanas, americanas e asiáticas marcas profundas que estão longe de se apagar. Marcas essas não só a nível material mas também a nível espiritual e comportamental. Depois de 500 anos de dominação colonial, o tratamento que os pretos e neste particular os cabo-verdianos dão aos europeus é especial. O que prova que a figura branca sempre esteve e continua a estar associada ao poder, à autoridade e ao poder económico-financeiro ou dinheiro, por mais que se tente provar o contrário.
 
 
 
Entre Preto e Branco: tratamento desigual
Um indivíduo branco quando chega a Cabo Verde, está “condenado” a ser bem acolhido. O que não é nada mau, pois é assim que qualquer ser humano deve ser tratado. Infelizmente, a mesma sorte não calha aos nossos irmãos da África subsaariana e a todos aqueles que dispõem de pele escura ou mesmo nós próprios cabo-verdianos. E este tipo de atitude discriminatória é extensivo a cabo-verdianos de todos os quadrantes. Dos mais escolarizados aos menos escolarizados. Os europeus ou americanos ao chegarem a um lugar desconhecido para eles em Cabo Verde não têm “hipótese” de se perderem, porque são automaticamente atendidos e orientados pelos nativos. Estes fazem isso com o maior prazer, sob pena de perder crédito perante os brancos e perante o seu próprio meio. É que nós sentimo-nos honrados ao conquistar a amizade dos brancos, falar com eles, em especial a língua deles. E estamos até dispostos a hospedá-los na nossa casa. Mesmo a nível de atendimento nos serviços que têm alguma afluência de pessoas, eles na maioria das vezes não aguardam muito na fila de espera. Os utentes cedem-lhes a vez ou os próprios profissionais de serviços ignoram o regulamento que dita os critérios ou regras de atendimento e atendem-nos à frente dos outros. Já imaginámos isso acontecer com os nossos irmãos que chegam, por exemplo, da Costa Ocidental Africana e que precisam do nosso apoio!? A nossa atitude muda e a nossa paciência delimita-se quase que imediatamente. Não estamos dispostos a atendê-los com toda a delicadeza necessária, a não ser que apresente um saco de dinheiro. Ignoramos estes indivíduos e esquecemos por completo que “todo e qualquer ser humano merece ser tratado com respeito, dignidade, pois todos somos iguais segundo reza a carta da declaração universal dos direitos humanos”.
 
O tratamento desigual é tal que um jovem oriundo da Costa Ocidental Africana para conseguir arranjar uma namorada cabo-verdiana custa. No entanto, um branco, isto é um branco menos jovem consegue isso num piscar de olhos. Ele consegue uma namorada bastante jovem tal como ditar o seu gosto. Parece que estes felizardos têm alguma radiação com eles que consegue atingir e atrair as forças contrárias, neste caso os cabo-verdianos. Esta “queda” para com os europeus é quase natural.
 
A expressão muito usada no nosso seio para qualificarmos a nós próprios é: “pretu e so buru”.
 
Sem sombra de dúvida que há figuras nacionais com uma boa reputação na sociedade. E custou-lhes conquistar esta visibilidade. Ou conseguiram isso através das condições económico-financeiras, ou por serem pessoas que se destacaram por mérito próprio em alguma vertente social: desporto, cultura, música, etc.
 
Francamente, o nosso sentimento é de muita mágoa quando vemos que falta muito para os pretos serem tratados com mais alta consideração ou pelo menos em pé de igualdade com os brancos. A não ser que cada um individualmente tente destacar-se pelo seu mérito próprio e conquistar o seu lugar no banco do mundo.
 
Quem são os principais agentes da discriminação!? Somos nós, que julgamos os outros pela aparência. Pelo facto de este ou aquele indivíduo ser cabo-verdiano ou africano, julgamos que ele é pobre. Nunca nos esqueceremos de um episódio inusitado que aconteceu há uns anos, com um senhor do interior da ilha de Santiago. Esse senhor que tinha o hábito de andar descalço foi para a Cidade da Praia com a ideia de comprar uma viatura. Ele depois de tanta procura acabou por encontrar um Hiace da sua preferência. Foi ter com o dono do carro e este que o ignorou a priori passou a enxovalhá-lo e a troçar dele por considerar que ele só pode ser um maluco “badiu di fora” e que não tinha dinheiro nenhum. E quando o homem tirou o maço de dinheiro que tinha com ele no saco, o indivíduo arrogante quase que ia desmaiar só com o susto. Sem saber o que fazer, pulou de dentro do carro e pôs-se de joelhos a pedir desculpas ao senhor descalço. São esses tipos de pessoas de carácter mal formado que encontramos um pouco por todo o Cabo Verde. Aqueles que estão dispostos a julgar e subjugar o seu irmão pelo facto de que ele cometeu uma falha apenas, mesmo que antes ele tenha feito mil coisas correctas. Não podemos deixar de citar esta brilhante visão de um autor desconhecido: “Ninguém é melhor do que ninguém, mas alguns se destacam por seu carácter e outros pela falta dele”.
 
A nossa intenção não é de maneira nenhuma de discriminar os brancos e enaltecer os pretos, mas sim de trazer à tona um assunto que todos nós sabemos e que vivenciamos e de modo a reflectirmos melhor sobre a nossa postura. Porque não, também fazer um apelo para que tentemos ser mais justos connosco mesmo, pois só assim estaremos a dar um grande exemplo de humanismo e teremos um mundo melhor e em que nos dá orgulho viver. Paremos de tratar os brancos como seres humanos de primeira e os pretos como seres humanos de segunda. Temos que civilizar a nossa mente, pois “quem não sente não é filho de boa gente”.
 
 
por Alberto Lopes Sanches *
* Licenciado em Ensino de História e Pós-Graduado em Ciências Sociais
 
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s