Autárquicas e Zuma

SAFRICA-ZUMA/

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Manuel Rui

Quem fala em autárquicas fala em democracia e quem fala em democracia como uma filosofia política decorrente dos princípios que nortearam a Revolução Francesa com a sigla emblemática Liberdade – Igualdade – Fraternidade, não é a mesma coisa que a prática da democracia, com a divisão real dos poderes legislativo, executivo e judicial… e, cada vez mais, com a mídia a “funcionar”, como 4º poder.

Para o pensamento hegemónico ocidental a sua democracia é uma imposição, há uma “ditadura da democracia” com disse um grande realizador de cinema numa conferência em que debatíamos isto, é uma exigência para se entrar no “euro,” e, por ironia do destino, quando se queria o alargamento a oriente, saiu-se mal. Não bastando as questões decorrentes da Crimeia e Ucrânia, veio a Turquia e assim a Europa não se expandiu a oriente e “diminui-se” a ocidente com a saída da Inglaterra, o Britex.

No entanto, a democracia deve ser cada vez mais entendida como um aperfeiçoamento de práticas. Não como a Europa impôs à Grécia e a Portugal medidas que mexeram com direitos adquiridos, despedimentos por “mútuo acordo” forçado, desprezo pelos idosos pensionistas, etc.

Estamos a falar disto, sem pretensões académicas mas no limite de uma crónica, pelo facto de na África do Sul a prática democrática ter funcionado. O ANC vivendo sobre a lenda universal de Nelson Mandela, não abandonou a nomenclatura e a importância dos militantes mais destacados. É por isso que Zuma, militante das primeiras linhas, depois de vários cargos, chegou a vice-presidente e a presidente do país do arco-íris. Mal tomou o lugar de presidente, levantou-se a poeira por debaixo do tapete. A bronca das suas declarações sobre o SIDA foi a de maior espectacularidade. Mas já em 2005 era acusado de estupro, depois defendendo-se em tribunal contra acusações de estelionato (obter para si valores alheios), lavagem de dinheiro, corrupção, fraude, além de imoralidade poligâmica.

A classe média desgostosa com a bitola do presidente e os mais pobres sem emprego, insatisfeitos. Mas ele sobrevive a uma moção de destituição no parlamento depois do Tribunal Constitucional o ter obrigado a devolver cerca do equivalente a 14 milhões de euros, gastos em melhoramentos em obras na sua residência privada. Zuma pressionado e fragilizado pela situação económica do país. Salvou-o a maioria parlamentar.

E vieram as eleições autárquicas. E o ANC perde no município terra de Zuma. Para os angolanos que não esqueceram Neto dizer que Angola só seria verdadeiramente independente com o fim do apartheid – e a linha da frente foi Angola – é doloroso o erro do ANC, com militantes seus a votar dramaticamente contra o seu partido para salvarem a democracia.

Graças às autarquias, lá onde o povo vota. Autarquias mais ricas que as do ocidente. Aqui, na Austral, a autarquia tem os seus ritos. Tem a busca dos consensos através das autoridades tradicionais, tem as componentes étnicas e linguísticas. A facção crítica do ANC tem uma chance para pedir o afastamento de Zuma e o ANC a oportunidade de apostar na meritocracia política e social em vez de militantes que manchem a eternidade de Mandela.A principal oposição (Aliança Democrática, liderada por Mmusi Maiamane,

primeiro negro a ocupar o cargo) ganha Port Elizabeth que integra o municípiosimbolicamente designado Nelson Mandela Baye isso foi humilhante para o ANC. Em Joanesburgo e Pretória também não corre o vento a favor do ANC, certo que tem a maioria parlamentar para impedir a saída de Zuma que muitos acusam de altos negócios com brancos milionários e, através de um sobrinho estar nos Panamá Papers do Fonseca, casinos à parte.

A história colocou as coisas no seu devido lugar. Parecia um determinismo que a maioria da população negra votasse sempre no ANC, vencendo. O analista Daniel Silke disse à AFP que “já não há vitórias antecipadas nas eleições sul-africanas: a população acabou de mostrar ao ANC que o pode tirar do poder quando quiser.”

Socorro-me da ANGOP (24 de Junho de 2004): Autarquia local constitui escola de democracia e de valores. A quando de uma conferência proferida no Namibe pelo espanhol Juan Carlos Gonzalez, dando especial atenção “à dinâmica descentralizadora” e “pacote legislativo”. Ainda referiu o poder das localidades pela competência atribuída e a proximidade com os cidadãos.

…Penso que por aqui já se dizia isto por outras palavras, que as massas são o princípio e o fim. E são as massas que na África do Sul dão uma lição de democracia e ensinam aos que não sabem que o povo percebe as coisas. Militância pela liberdade deve ser sempre um posto mas é triste quando o povo que confiava na militância de Zuma se vê perante a incompetência e a criminalidade. Qual será o jogo de cintura do ANC e se, com as novas tecnologias, haverá a possibilidade de um “aplicativo” para Zuma?

http://jornaldeangola.sapo.ao/op…/artigos/autarquicas_e_zuma

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