Mia Couto fala sobre a crise politica e militar de Moçambique

Mia Couto defendeu que o Governo e a Renamo devem centrar-se nos interesses de Moçambique. O escritor diz que é “preciso ceder” e que isso ainda “está longe de acontecer”.

António Silva/LUSA

O escritor moçambicano Mia Couto defendeu que o Governo e a Renamo têm de “saber ceder” e questionarem se nas negociações de paz não estão a defender os seus próprios interesses em detrimento dos interesses de Moçambique.

“É preciso que eles se questionem se aquilo que eles defendem no diálogo não é exatamente a defesa dos seus próprios interesses, a defesa dos seus lugares de poder e não a defesa de Moçambique, da sua nação”, disse Mia Couto, em entrevista à agência Lusa a propósito do lançamento do seu novo livro, “A Espada e a Azagaia”, em Lisboa.

Para o escritor, “é evidente que não basta dialogar, é preciso saber ceder, saber fazer concessões ao outro”, o que “está longe de acontecer ainda”.

Questionado sobre a eficácia da mediação internacional no conflito, Mia Couto considerou que “não é o fator determinante”.

“Para mim, é preciso que se resolva uma coisa básica, a Renamo tem de ser um partido político, não pode ao mesmo tempo ser um partido político e manter uma fação armada porque senão não se sabe com quem se está a discutir”, disse.

Desde a assinatura do Acordo Geral de Paz, Moçambique já teve dois momentos de grande instabilidade militar, o primeiro entre 2013 e 2014, e o segundo, que começou na sequência da recusa da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) de aceitar a derrota nas eleições gerais de 2014, e que perdura.

O principal partido da oposição condiciona o fim das ações armadas à aceitação pelo Governo da sua exigência de governar em seis províncias do cento e do país, onde reivindica vitória no escrutínio, acusando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder) de fraude.

No discurso no âmbito dos 24 anos da assinatura do acordo que acabou com a guerra civil de 16 anos, a 04 de outubro de 1992, o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, disse que a paz volta a ser o principal desafio dos moçambicanos.

Questionado sobre a missão de defender a nível internacional a imagem de um país afetado, além da crise político-militar, por uma crise económica, motivada pela questão das dívidas escondidas e pela queda do preço das matérias-primas, Mia Couto referiu que defende sempre Moçambique porque o seu país “não é um Governo”.

O FMI, os principais doadores internacionais, incluindo os EUA, suspenderam a ajuda financeira ao país, na sequência da descoberta em abril de empréstimos superiores a mil milhões de euros avalizados pelo anterior Governo moçambicano entre 2013 e 2014 para o financiamento de empresas constituídas nessa altura para atividades de proteção marítima de operações de pesquisa e exploração petrolífera.

Sobre a pobreza, que afeta 15 milhões de moçambicanos, segundo o Banco Mundial, e a fome — quase dois milhões de pessoas precisam de ajuda alimentar urgente -, o escritor considerou que é “uma constatação profundamente triste que entra em confronto com o discurso triunfalista que o anterior Governo tinha e que este de alguma maneira tenta manter”.

“Mas também tem que se dizer que Moçambique chega à independência como um dos países mais pobres do mundo, Moçambique não empobreceu só porque foi mal governado, há ali uma carga do passado que tem que ser posta na mesa também”, disse.

O escritor defendeu ainda que Moçambique deve ser “governado com verdade”, e ser guiado por “um discurso mais transparente, mais pragmático, menos politizado com a grande preocupação simplesmente de ter o poder, de manter o poder”.

Em relação à capacidade dos atuais dirigentes, considerou que há “capacidade técnica”, mas também “um peso de geração”, a que esteve ligada à luta de libertação.

“Os movimentos de libertação de repente surgem, apropriam-se da verdade, acham que o poder está lá por uma razão quase divina”, disse.

No entanto, acrescentou, “há gente, sobretudo os jovens urbanos, que querem mudar e já não aceitam o discurso de vitimização, do passado colonial, querem resolver os assuntos, querem enfrentar as coisas com soluções da modernidade, democracia”.

http://observador.pt/2016/10/07/interesses-de-mocambique-devem-prevalecer-sobre-interesses-proprios/

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