A guerra de sucessão no Gabão

Ali Bongo Ondimba, 57 anos, foi reeleito Presidente do Gabão para os próximos sete anos por 50,66% dos votos contra os 47,24% obtidos pelo seu principal adversário Jean Ping. A sentença emitida a 23 de setembro pelo Tribunal Constitucional (TC) de Libreville é inapelável, mas a crise continua e o desenlace é ainda imprevisível apesar das pressões internacionais e dos apelos ao diálogo e à reconciliação.

ali-bongo-ondimbaApoiantes de Jean Ping opunham-se à arbitragem por desconfiarem de Marie Madeleine Mborantsuo

JEAN PING QUE SE DIZ «PRESIDENTE ELEITO», fala de «decisão iníqua» e promete permanecer ao lado do povo em luta pela democracia e a soberania. Em Paris, o ex-ministro da Justiça Séraphin Moundounga apela à comunidade internacional para que se apliquem «sanções inteligentes» contra os autores do «hold up eleitoral».

Mas o desânimo dos apoiantes de Ping contrasta com a euforia combativa que reinava no quartel-general de campanha do líder da oposição antes e logo a seguir ao anúncio dos primeiros resultados pela Comissão Eleitoral Nacional Permanente (CENAP).

O quase-empate saído das urnas e a curta vantagem conferida ao Presidente em exercício (5000 votos) pelos resultados «quase soviéticos» obtidos na sua província natal do Alto Ogoué (99% de participação e 95% dos votos) davam força à tese segundo a qual a vitória do clã Bongo só tinha sido possível mediante à manipulação grosseira dos resultados numa única província. As declarações dos observadores da União Europeia iam no mesmo sentido e sugeriam a recontagem dos votos desta província, feudo da família reinante.

Esta versão dos factos, retomada quase unanimemente pela imprensa nacional e internacional com os jornalistas franceses à cabeça, adquiriu junto da opinião pública a força de uma evidência: «Ping ganhou, toda a gente o diz, toda a gente o sabe», gritavam em coro os que convidavam Bongo a aceitar a «verdade» e a sair do país sem demora, a bem da sua segurança e da paz e estabilidade regional.

Premeditados ou não, os acontecimentos da noite de 31 de agosto mudaram dramaticamente o curso da história. O incêndio da Assembleia Nacional, os assaltos contra esquadras da polícia e a Televisão Estatal, e a destruição das redações de jornais afetos ao regime foram o detonador da onda de violência e das pilhagens que se propagou de Libreville a outras cidades do país e à qual as forças de segurança e a Guarda Presidencial responderam com a brutalidade do costume.

Cercados no seu quartel-general durante 24 horas, mas bem conectados com o resto do mundo via internet (as telecomunicações só foram cortadas mais tarde), os líderes da oposição alertaram a diáspora gabonesa e o mundo para o «genocídio» em preparação, acompanhando os apelos angustiados com descrições de barbárie inaudita: os mortos e feridos eram às dezenas, milhares os presos e desaparecidos. Em contrapartida, houve poucas imagens dos efeitos da «legítima e espontânea» fúria popular…

A concretização do caos prometido pela oposição assustou uma população que nunca vira tamanha violência de perto e os apelos à calma começaram a chegar de todas as partes.

Nicole Guardiola

http://www.africa21online.com/artigo.php?a=21928&e=Pol%C3%ADtica&click=yes

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