Segregação vertical impacta trajetória das mulheres cientistas, apontam especialistas

 

Scientist examining laboratory samples

Scientist examining laboratory samples

A discriminação contra a mulher na universidade e na ciência é um triste denominador comum entre todos os países do planeta. Esta foi a afirmação da presidente da Rede Francófona de Mulheres Responsáveis pelo Ensino Superior e Pesquisa (Resuff, na sigla em francês), Leila Saadé, que discutiu o assunto nesta quinta-feira, 15, no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), em São Paulo.

Saadé conta que pediu para incluir a universidade no título de sua apresentação porque, segundo ela, um problema muito grande da mulher cientista é a questão do poder dentro da universidade. Um problema histórico, que depende de transformações em sistemas culturais e sociais. “A mulher não é aceita no domínio do poder”, disse.

Segundo dados que ela apresentou, 58% dos mestrandos na França hoje são mulheres. Mas, à medida que se progride, a participação feminina diminui: elas contam 48% dos doutorandos; 23% dos professores titulares e apenas 10,5% dos presidentes das universidades francesas – número que caiu vertiginosamente desde 2008, quando 20% das universidades eram presididas por mulheres.

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Créditos: Lugar de Mulher
Na Europa, os dados confirmam a tendência: apenas 11% dos altos cargos acadêmicos são ocupados por mulheres. “É como um tubo furado, que vai provocando perdas no percurso”, resume.

A pesquisadora, que é jurista por formação, aponta que a descriminação generalizada na universidade impacta na trajetória acadêmica das mulheres. E um fator que alimenta esse comportamento são os estereótipos que são inculcados nas pessoas desde a mais tenra infância.

“Uma pesquisa realizada pela Fundação L’Oréal sobre a percepção pública das mulheres na ciência mostrou que para 67% dos europeus, a mulher não está qualificada para ocupar cargos de alta função na ciência. E as explicações foram as mais ‘poéticas’ possíveis: as mulheres não tinham espírito prático, racional ou analítico. O que é mais grave é que mulheres compartilham a mesma percepção”, contou Saadé. O mesmo estudo foi feito na China, e os resultados foram semelhantes, segundo ela. “Os estereótipos impactam essa visão. O que nos ensinam, desde bebês, é isso”.

Teto de vidro

Para se conseguir reverter esse quadro, a jurista acredita que é preciso formar uma rede de ações para ajudar as mulheres a “quebrarem o teto de vidro”. Criar frentes que valorizem e incentivem o avanço da mulher cientista, que promovam um olhar para a trajetória de vida da mulher – que inclui a maternidade -, além de romper o círculo vicioso de projetos feitos por homens serem avaliados por homens e aceitos por homens. “Quanto mais houver uma rede feminina se espalhando por todas as esferas, mais avançaremos”, disse.

Saadé criticou ainda a falta de dados consistentes sobre a real situação da mulher na ciência e nas universidades. “Os indicadores ainda são muito imprecisos. É necessário elaborar índices que apresentem uma visão mais detalhada das mulheres para podermos desenhar estratégias mais precisas”, comentou, acrescentando que este é um dos pedidos da Unesco que a Resuff pretende desenvolver.

Observatório de Gênero na Universidade

Desde sua criação, em 2014, a Resuff, rede criada pela Agência Universitária da Francofonia (AUF), desenvolveu módulos de ensino a distância sobre gênero, oferecendo a mulheres ferramentas para capacitá-las em estratégias profissionais e institucionais. Além disso, a rede abriu uma chamada de propostas para a criação de um “Observatório de Gênero na Universidade”, que tem por objetivo justamente identificar os fatores que dificultam a ascensão de mulheres na universidade e oferecer instrumentos metodológicos de monitoramento e medição da evolução de suas carreiras. A ideia é que cada universidade participante tenha ao menos um representante da rede responsável por esse levantamento.

Saadé ressaltou que todo esse empenho deve ir na direção de fazer com que a questão da igualdade se torne um indicador de qualidade das universidades. “A primeira missão da universidade deveria ser formar cidadãos, dentro de uma política de igualdade. Depois se pensaria em formar bons médicos, bons físicos, bons juristas, bons matemáticos. Abrir mão da presença feminina é abrir mão de grandes potenciais “, concluiu.

Efeito tesoura

Carolina Brito, física e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi a debatedora da discussão. Para ela, a falta de bons indicadores é, de fato, um problema que atrapalha ter a real dimensão da situação das mulheres nas universidades e na ciência. Mas, a partir de dados espalhados, uma história vai sendo construída. E essa história é que, apesar de as mulheres serem a maioria entre os que concluem o ensino fundamental e médio, e a maioria nos cursos de graduação, quando se analisa a distribuição desses números, observam-se sérias discrepâncias.

“Quando olhamos a distribuição das mulheres por áreas, vemos que estamos segregadas”, afirma. Uma área crítica é a das engenharias: de 100 pessoas que concluem a graduação no Brasil, 15 se formam em alguma engenharia e apenas 5 são mulheres.

A segregação vertical é ainda mais notável. Na física, área que Brito estuda com mais profundidade, 30% dos alunos de iniciação científica são do sexo feminino. No mestrado, esse percentual cai para 20%; doutorado, 15%; até que apenas 5% das bolsas de pesquisa nível 1A são de mulheres. “É o chamado efeito tesoura. Ao subir na carreira, o percentual de mulheres cai”, comenta, corroborando os dados apresentados por Saadé.

Além do preconceito implícito, da questão família e carreira, e da falta de modelos femininos na alta hierarquia acadêmica, um fator de alto impacto, que precisa ser analisado são os comitês científicos, que avaliam projetos e pesquisadores. “No comitê de física do CNPq, apenas 10% dos membros são mulheres. Na farmácia, área tradicionalmente dominada pelas mulheres, 100% do comitê é masculino”, destacou a pesquisadora.

Brito é coordenadora do projeto Meninas na Ciência, ação de extensão do Instituto de Física da UFRGS desde o final de 2013, e, segundo ela, o efeito tesoura traz um desafio ainda maior para se compreender e promover a equiparação de gêneros na academia. “O efeito tesoura é muito dramático porque a gente poderia pensar que a entrada na ciência é uma solução. Mas esse fenômeno mostra que despertar esse desejo não é suficiente”, analisou.

Nota do Managing EditorEsta matéria é de autoria de Daniela Klebis para o Jornal da Ciência foi veiculada em 16 de setembro de 2016. A ilustração apresentada não consta da matéria original e foi introduzida pela Editoria do Boletim.

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