Falta de confiança está a travar a paz em Moçambique

 

Fotografia: AFP

O antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano considerou, em Maputo, que a falta de confiança entre os partidos políticos inviabiliza a prevalência de uma paz duradoura no país e defendeu uma mobilização geral para a construção da nação.

“Temos que criar confiança, podemos sentar, discutir, divergir, mas continuar a falar para irmos agarrando aquelas partes onde a cola funciona e nos unem e reforçam”, disse Chissano, que falava sexta-feira no lançamento em Maputo da obra “Análise da Segurança na África Austral: Novos Riscos e Novas Abordagens para a Segurança Colectiva”.
De acordo com o antigo Chefe de Estado, o país devia ser mais solidário em torno das suas principais causas e não apenas em casos de calamidades naturais.
Para Joaquim Chissano, a dependência das instituições africanas em relação à comunidade internacional é um factor de fragilização da democracia no continente.
“Ainda não aprendemos a confiar nas nossas próprias forças e aqueles que apoiam ditam-nos, quem tem a flauta determina o tom”, acrescentou. Chissano exortou a classe académica, que compunha a maioria dos presentes no lançamento da obra, a apresentar soluções mais práticas para os problemas que o país atravessa.
“É preciso haver aqueles que falam, falam e falam, mas entre os académicos, tem que haver aqueles que fazem, fazem e fazem, porque só assim é que podemos progredir”, assinalou o ex-Presidente moçambicano. Moçambique é actualmente assolado pela violência militar, opondo as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), com ataques a alvos civis e militares que o Governo atribui ao principal partido de oposição.
A Renamo exige governar em seis províncias do centro e norte do país onde reivindica vitória nas eleições gerais de 2014, acusando a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) de fraude no escrutínio.
Ao mesmo tempo, o país está com uma crise económica e financeira e vai registar em 2016 o seu pior crescimento económico dos últimos dez anos, com uma projecção do Produto Interno Bruto (PIB) abaixo de quatro por cento até Dezembro.

“Eliminar paredes de ódio”

A activista social moçambicana, Graça Machel, defendeu quinta-feira que Moçambique precisa de eliminar as “paredes de ódio” no seio da sociedade, alertando que a intolerância política começa a entrar nas aldeias e isso é extremamente perigoso.
“Este conflito, a maneira como está a ser desencadeado, principalmente nos últimos tempos, quando se mata um secretário do bairro, a coisa já não está a nível político, já está a entrar nas aldeias e isso é extremamente perigoso”, disse Graça Machel, em entrevista ao diário “O País”.
O país precisa de começar a construir pontes para a reconciliação, como forma de acabar com a crise política e militar que opõe o Governo moçambicano à Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido de oposição, disse. Os moçambicanos precisam também de aprender a conviver na diferença. “Quando divergimos, havemos de falar, mas não nos vamos matar uns aos outros”, declarou a primeira ministra da Educação de Moçambique após a independência. Para superar a crise política será necessário fazer o impossível, referiu.
“Temos de olhar uns aos outros com o mesmo sentido de pertença e destino comuns”, declarou a viúva do primeiro Presidente moçambicano, Samora Machel.
É necessário parar imediatamente com as confrontações militares, que já deixaram um número desconhecido de mortos, reiterou. Moçambique precisa de reinventar os seus próprios modelos sociais, respeitando a dinâmica e as exigências dos novos tempos, dentro do clima de tolerância e transparência para garantir o futuro dos moçambicanos.
Ao analisar os actuais desafios económicos do país, a activista social disse que a questão das dívidas escondidas, que totalizam 1,4 mil milhões de dólares, contraídas em 2013 e 2014, atingiu “proporções alarmantes”, alertando para o facto de as lideranças políticas moçambicanas estarem cada vez mais longe do povo.
“A partir de um certo momento, nós tolerámos esta maneira de fazer as coisas (corrupção) e aceitámos essa forma de viver como se fosse normal”, lamentou a activista moçambicana. Nestas condições, nem daqui a 50 anos o país vai sair da pobreza, alertou Graça Machel.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/africa/falta_de_confianca_esta_a_travar_a_paz

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