Dalcídio Jurandir(1909-1979)Carta a uma Católica Militante

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Você me declara: o teu partido é contra a minha fé. Estamos em campos opostos. Então lhe pergunto: concorda que para combater a dominação norte-americana, expulsar os exploradores e monopolizadores de energia elétrica no país significa perde a fé religiosa? Constitui traição ao seu Deus considerar que os milhões e Milhões de irmãos nossos, lavradores, meeiros, assalariados agrícolas vivem numa miséria atroz, nem podem ao menos comprar alguns metros de milhões e milhões de metros de fazenda que se acumulam nas lojas e fábricas de tecidos, à espera de fregueses? O programa do partido é pela liberdade de cultos, isto fere a crença católica? A <<abolição de todas as desigualdades econômicas, sociais e jurídicas que ainda pesam sobre as mulheres>> ofende ao sentimento religioso? A <<anulação de todas as dívidas dos camponeses para com os latifundiários, os usuários, os Bancos, o governo e as companhias norte-americanas>> atenta contra a fidelidade aos altares? Expulsar as missões militares e finaceiras, que roubam as nossas matérias-primas e querem transformar a nossa juventude em bando mercenário de guerra, e violar os sacrários? Ver que a causa da política de traição nacional está <<no próprio regime de latifundiários e grandes capitalistas ligados ao imperialismo americano que o governo de Vrgas representa>>, pode impedi-la de rezar, de frequentar a igreja, vai abalar os fundamentos de sa convicção religiosa? Em que consiste, pois, a incompatibilidade atuante, prática, irremediável, entre o programa do Partido e sua fé religiosa? A divergência no campo filosófico não exclui a nossa aproximação no campo político, quando temos comuns acêrca de problemas aflitivos de nosso país e não defendemos interesses pessoais. Você não tem latifúndios, não faz parte de grupos econômicos norte-americanos, não participa
dos roubos e escândalos do governo. Em que verdade concreta, em que argumento definitivo se apoia você para combater o programa?
Porque é um programa de comunista? Mas o programa ataca a atividade religiosa, coloca a questão religiosa como centro do debate, por acaso insinua que os católicos são inimigos do Brasil? Não foi você mesma que viu na infiltração norte-americana? É obrigatório aderir o marxismo-leninimos para apoiar o programa? Deve abdicar à sua fé para considerar justas as <<transformações democráticas e progressitas na estrutura econômica e social do Brasil>> indicadas pelo estudo objetivo da realidade brasileira? Em que é que o programa vai impedir de você ir a missa, de assitir, piedosamente, aos doentes e presos, de ensinar a doutrina na Pia União, de proclamar como excelente a sua prática religiosa? O programa não lhe tira essa liberdade nem a obriga ao não cumpromento dessa devoção. Podemos, decerto, conversar sem colera nem azedume, sobre problemas gerais da filosofia, eu, com a minha concepção materialista e você, com a sua concepção idealista. Podemos discutir interminavelmente. Nunca poderíamos chegar a um acordo neste terreno transcedente ou teórico. Mas de que servirá ficarmos longa exaustivamente discutindo se Deus existe ou não existe, se o socialismo e a caridade cristã são duas coisas irreconciliáveis, se devor ser religioso ou se deve ser materialista, quando devemos empregar o nosso esforço, o nosso tempo, sem sacrificio de nossas convicções, no estudo urgente e na soluções de problemas elementares da vida brasileira? Eu, com o meu distintivo da foice e o martelo e você, com a sua cruz, podemos juntos lutar amplamente pela independência de nossa pátria. Quando passamos ao campo prático da luta política, quando examinamos mil e um problemas que formam o conjunto da grande e sagrada questão nacional para sabermos se há ou não possibildades de progresso para o Brasil, vemos que a nossas divergências se apagam. No campo ideológico, podemos discutir, você, por seu caráter, sua formação, tudo fará para defender a sua fé, eu, tudo farei para defender as minhas idéias, com o calor e intransigência de minha convicção.Isto em princípio é bom para que nos conheçamos, tornando nítido aquilo que nos pode separar e mais nítido e profando aquilo que nos pode unir. Você, católica essencialmente honesta, e eu, comunista, chegamos à mesma conclusão de que de que o regime atual brasileiro deve mudar, que os grupos dominantes  um bando de traidores e desavergonhados e que o Deus deles não pode ser o Deus a que você consagra a sua fé e a sua vida de militante. O que mais necessitamos é desfazer as desconfianças, é tirar os véus que nos separam, é ter a coragem do exame de tudo que aparece diante de nós. Não receie em ter nas mãos um documento honesto, claro, patriótico, fiel à realidade brasileira, que é o Programa do Partido Comunista. Amanhã, por certo, quando os acontecimentos se mostrarem mais claros e decisivos, você terá que dizer, inevitàvelmente, a você mesma e a todos, com segurança e paz de consciência: – Sim, os comunistas tinham razão.

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