Dalcídio Jurandir(1909-1979):Totem, o meu gato burguês

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Totem, o meu gato burguês
Inimigo de Carl Marx
Mas, à noite, cheio de arcaicas aspirações à lord Byron
Muito vadio, serenatista e que sabia de cor
todas as modinhas tristes do Brasil
Totem, quando me mudei de casa
Ficou alarmado com a mudança
Vendo a velha casa vazia, enorme
Enchendo o seu espanto
Veio dentro de um saco para a casa nova.
Soltaram-no [no] quarto
Mas, aflito e selvagem,
Olhou desvairando a casa nova
Sem aquela feição familiar an an seus hábitos burgueses de dia
e românticos, à noite.
Miou, miou, pulou.
Saltou pela janela
E fugiu, aos miados,
Como um filho de onça
Agora deves ser um pobre gato proletário
Velho e faminto, sem teto, sem o afago de ninguém
Leitor de Lênin e Máximo Gorki à luz dos lampiões
Por que não fazes agora, com a tua fome
Com a tua miséria proletária
Uma revolução socialista no teu mundo?
Vamos! Reúne os teus irmãos de rua e de sarjeta
Fala a esse povo vagabundo e sarnento
que mia lugubremente de fome pelos telhados
Pelas latas de lixo, no fundo dos quintais
Roubando e
Corrido a pedradas e a chicote das cozinhas alheias
Não quiseste, estranhaste, meu velho
A vida continua,
aí mal dividida, meu amigo
Há uma classe de gatos parasitas e malandros
Que ressonam burguesamente nos divãs e nos tapetes
E olham pra vocês como a uma canalha infecta e perigosa
Vivem com rajás
Aparentam gostar de livros
Não sabem o que é fome, meu amigo
Não sabem que é não ter um pano sujo
para deitar no tempo do inverno
Quando todos enxotam o vagabundo
dos batentes, das calçadas e dos telhados.
Reúne a multidão faminta e trôpega
E mostra aos homens
O exemplo da tua humanidade
E a lição de tua vergonha e da tua coragem.
Totem, meu velho
Deves estar com fome, frio e saudade
Do teu cantinho em minha casa
Mas o meu pão não acabará a tua fome, a fome coletiva que há nas ruas
Mas o teu teto não agasalhará os teus irmão que roubam, esfaimados
/ e sarnentos, as cozinhas burguesas e pobres
E é por isto que o meu remédio não curará a tua chaga sempre aberta
/ que sangra pela boca de todas as misérias do mundo!

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