Cabo Verde uma “morabeza”, de um povo

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“Nabucodonosor!
Nabucodonosor!

Onde estão a tua espada
e a tua raiva
nas brumas suculentas de Santiago?

Os templos caíram em ruínas
desde quando a eternidade
ruía defronte dos galeões
e desfazia-se nos basaltos das ribeiras

As cidades de tão velhas
metamorfosearam-se em aldeias
e cobriam as faces da amnésia

Os campos continuam perscrutantes
e oferecem olhares melancólicos às urbes
do nosso querer

Os homens esses encontram-se presos
em plena cidade
pelas âncoras do vento

Nabucodonosor!
Nabucodonosor!”

(«Mitologia Crioula», do poeta cabo-verdiano José Luiz Hopffer Almada).

 

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Cabo Verde, um país com manto esverdeado sobretudo quando as chuvas intermediadas com o sol lhe ativam essa cor tão significativa: verde de esperança, verde de prosperidade. Verde de um povo e de uma terra que tem tudo para poder esperar e prosperar, e que tem mormente em si aquela expressão única e típica crioula: a «morabeza»! E que se traduz, precisamente, na gentileza e no bom trato tão peculiares das suas gentes (conforme ilustram as dezenas de rostos que fotografamos e que se exibem na principal imagem-composição de abertura). Esta reportagem, realizada in loco, não abrange as 10 ilhas vulcânicas do arquipélago, focando-se contudo e somente na ilha de Santiago, a sudeste (compondo com outras três sulistas as ilhas de Sotavento). Não é, certamente, das mais turísticas como a da Boa Vista ou a do Sal (a norte, como ilhas de Barlavento), mas – inevitavelmente – é a maior, com o principal aglomerado populacional e acaba por ser a mais importante cultural e institucionalmente, ao ser o berço da cabo-verdianidade e, portanto, ao ter em si a capital e outras maravilhas mais que aqui vamos salientar e revelar pelas respetivas fotografias.

Santiago tem, atualmente, cerca de 260 mil habitantes (metade da população que vive em todo arquipélago, à exceção da ilha de Santa Luzia, a única não habitada), dos quais aproximadamente 120 mil residem na cidade da Praia (preenchem o “top3” das cidades cabo-verdianas mais populosas as localidades de Mindelo, em São Vicente, e de Santa Maria, no Sal).B-No-texto-depois-do-leed-e-antes-do-primeiro-subtítulo-1-300x300

Adentrar Santiago – e nas suas baías e enseadas e densas montanhas escarpadas – é reavivar a História, é encontrar as memórias de outros tempos, no silêncio e nas ruínas da Cidade Velha, antiga Ribeira Grande, primeira cidade/colónia portuguesa (aquando do descobrimento da ilha/arquipélago, em 1460) e primeira capital cabo-verdiana (antes da cidade de Praia e de quem dista 10km). E essa Cidade Velha – sempre monumental com as ruínas da catedral, a fortaleza real de São Filipe, o pelourinho e o convento de São Francisco – revela ainda hoje a sua ascendência europeia, enquanto as populações que habitam nas montanhas, cujos antepassados foram escravos que fugiram à repressão, denotam comportamentos culturais tipicamente africanos. “A vulnerabilidade da sua orla costeira, exposta a constantes ataques de piratas e corsários, determinou o seu declínio e transferência, em 1770, da capital e sede do governo do arquipélago para a cidade da Praia”, assim reza o historial do país, com o seu vasto legado.

Explorar Santiago é mergulhar na mais africana de todas as ilhas da nação, é deslumbrar a nitidez dos contrastes patentes numa infinidade de verdejantes montes e vales e latentes nos percursos e trilhos de pedras e rochas vulcânicas, por vezes desconhecidos, ainda por calcorrear. E desbravar Santiago é poder deleitar no seu estilo e no jeito das suas gentes, é visitar os seus mercados – como o popular de Sucupira, no Plateau (centro da capital), recheado de produtos, nomeadamente agrícolas, oriundos das hortas do interior da ilha – ou a feira de Sucupira, extraordinariamente africana e onde se encontra um pouco de tudo. Ambas são um retrato antropológico e fiel do local. Andar por Santiago é também passar por bancas e banquinhas ao longo das estradas e dos jardins, recheadas de artesanato local, de ‘snacks’ e de doces/bolos tradicionais; é cheirar a terra, o enxofre, na terra acastanhada do calor de África; é observar o milhafre, o falcão, a garça, o pardal (ora de Algodoeiro ora da Barbaria) e, claro está, a linda Passarinha de pena azul (= ‘Halcyon leucocephala’, de 22cm), esse belíssimo pássaro típico cabo-verdiano de bonita coloração e com grande bico laranja, que encontrávamos sempre nas mesmas árvores – ora na palmeiras do hotel ora naquele arbusto daquela rua – com o seu estridente canto característico, e sempre às mesmas horas, como que marcando um encontro diário, num desejo de ser encontrado (só existe nas ilhas de Santiago, Fogo e Brava).

Entrar em Santiago, que não somente no fulgor da capital, é penetrar no seu interior místico, é entrar no colorido mercado da Assomada (um importante ponto comercial, numa mistura entre campo e cidade); é chegar ao Pico d’ Antónia, o ponto mais elevado da ilha; é apreciar as raízes do país, as marcas do povoamento e os seus traços mistos tanto de ruralidade como de urbanidade, numa fusão de paisagens estonteantes; é escutar o canto das cigarras e balançar o corpo e a alma pelos ritmos frenéticos do batuque (tantas carrinhas de ‘caixa aberta’ circulam nas ruas com colunas e aparelhagens, ecoando alto os sons africanos, para todos ouvirem); é, com naturalidade, buzinar muito uns para os outros: não para reprovar qualquer incorrecção da sua condução, mas para os saudar com alegria e, ao mesmo tempo, para acenar com empatia; é reparar na candura de tantas crianças que brincam com pneus e com carrinhos feitos de latas de atum mais arame; é passear por todos os seus municípios, que não apenas o da Praia: desde a Ribeira Grande de Santiago, Santa Cruz, São Domingos, São Lourenço dos Órgãos, São Miguel, São Salvador do Mundo até ao Tarrafal. E por falar nesta localidade, bem a norte…

Gostar de Santiago é, igualmente, deitar nas suas bonitas praias (e sem toalhas, para os cabo-verdianos em geral), encimadas pelo Tarrafal – uma das mais paradisíacas de todo o arquipélago, envolta numa baía rodeada de coqueiros e onde se pode beber diretamente do coco natural (uma atração local) –, em que os areais de Gamboa, Mulher Branca, Prainha e Quebra-Canela completam o cenário. Ainda no Tarrafal, de abordar que esse concelho alberga, também, um ex-campo de concentração, hoje transformado em museu. Criada pelo Governo Português em 1936, a Colónia Penal do Tarrafal, também conhecida como “Campo do Tarrafal”, foi durante anos local de atrocidades e atentados aos direitos humanos, até ser encerrado em 1954. Por fim, vislumbrar Santiago é também mencionar a sua flora, é admirar, portanto, espécies como o marmulano, o dragoeiro, o tortolho, a língua de vaca, o lantisco, a losna, a acácia, a tamareira cabo-verdiana, o tamarindo, o zimbrão, a calabaceira, o bombardeiro, o poilão, o barnelo, o espinho branco e a figueira-brava.

Porventura, alguém estranhará como abordar Santiago não é registar, também, as suas grandes tartarugas e a sua reserva natural cabo-verdiana. E por duas razões muito simples: primeira, apenas se vê a desovação das tartarugas nas ilhas orientais do arquipélago (Sal, Boa Vista e Maio), cuja concentração é maior, por se encontrarem na rota das migrações dos tunídeos (são muitos em determinados meses do ano); e, segunda, porque a caça da tartaruga em Cabo Verde é proibida.

CELEBRAÇÃO DAS FESTAS REGIONAIS EM SANTIAGO
Se esta sugestão de (re)visita ao país de Amílcar Cabral (pai da independência cabo-verdiana como colónia portuguesa, em 1975) – das cantoras Cesária Évora, Sara Tavares, Mayra Andrade e Lura, de Tito Paris (entretanto condecorado), e de tantos poetas –se já for tardia para esta Páscoa, há sempre a oportunidade de encaixar esta viagem em qualquer ocasião. No
entanto, recomendamos uma ida até ao final de maio, dado ser o mês com maior registo de festas regionais na ilha de Santiago, das que realizam ao longo do ano. A saber, cronologicamente, e contando ainda com este mês de abril: 23 de abril, festa do dia de S. Jorge, em São Jorge dos Órgãos; 30 de abril (normalmente são 15 dias depois da Páscoa, logo este ano calha nesse domingo), festa de São Salvador do Mundo, nos Picos; 1 de maio, festa do dia de S. José (feriado), na Serra Malagueta; 3 de maio, festa de Nha Bela Cruz, em Santa Cruz; 8 de maio, festa de S. Miguel Arcanjo, na Ribeira de S. Miguel; 13 de maio, festa do dia de N.ª Sr.ª de Fátima, em Assomada; 19 de maio, festa do dia do município da Praia (feriado só na capital), com o habitual Festival da Gamboa ao longo de três dias e sendo uma marca por excelência dos eventos culturais da capital (conta com a participação de artistas nacionais e estrangeiros); e 31 de maio, festa do dia da Imaculada Conceição, na Ribeira da Barca. Tudo bons motivos a fim de se festejar e respirar Cabo Verde e a sua linda «morabeza»!

http://www.porto24.pt/praca/cabo-verde-morabeza-um-povo-suas-terras-2/

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