Angola e Brasil: Duas Guerras

JOSE CPOR José Carlos do Carmo*

O autor era um jovem médico quando recebeu o convite para trabalhar em Angola. Mergulhou na realidade de um país em guerra e aprendeu a praticar uma medicina que não era, nem de longe, a que tinha idealizado.

“Em 1981, concluí o curso de graduação em medicina, durante o qual estive convictamente envolvido nos movimentos por liberdade democrática e justiça social, contra a ditadura militar então vigente no país. Em seguida, iniciei residência em medicina preventiva. Logo no segundo ano do curso, fui convidado para desenvolver um programa de saúde comunitária na República Popular de Angola. O ingênuo, quiçá pretensioso, pensamento de que sair do país seria uma traição à luta do povo brasileiro, deu lugar ao sentimento romântico, de aventura e de militância no exterior: viver e trabalhar num país africano, socialista e em guerra.

Angola havia conquistado a independência em 1975, após anos de lutas contra a dominação portuguesa, tendo como principal líder e primeiro presidente o médico e poeta Agostinho Neto, “pai de todas as tribos”. Sua morte prematura acirrou o conflito, iniciado logo após a independência, entre o Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), ampla frente democrática que havia assumido o governo do país, e os grupos minoritários, União Nacional pela Independência Total de Angola (UNITA) e Frente Nacional pela Libertação de Angola (FNLA), ambos financiados e apoiados pelos Estados Unidos e África do Sul.

A jovem república angolana, por sorte ou azar de seu povo, ocupava uma importante posição geopolítica que despertava os interesses das grandes potências mundiais durante a Guerra Fria, época em que o sucesso de uma proposta socialista num país africano era inaceitável para os norte-americanos e seus aliados. Angola tinha tudo para dar certo: consideráveis reservas de petróleo e diamantes, uma indústria incipiente deixada pelos portugueses, uma das maiores áreas agriculturáveis da África austral e uma rede viária que só perdia em número de quilômetros asfaltados para a África do Sul. A política deliberada dos americanos para evitar que o país ficasse em paz é denunciada com detalhes revoltantes no livro “A CIA Contra Angola”, de John Stockwell, ex-chefe de intervenção da CIA em Angola.

O apoio aos grupos contra-revolucionários, que tiravam proveito do forte sentimento tribalista, decorrente da história recente da criação de boa parte das nações africanas, cujas fronteiras foram estabelecidas de acordo com os interesses dos colonizadores, sem nenhum respeito à história e à identidade cultural dos povos que lá habitavam, favoreceu a perpetuação de uma guerra civil que perdurou até pouco tempo.

A chegada em Luanda, em 1983, ofereceu-me uma belíssima vista da baía onde está a capital de Angola. Ainda na aproximação da aeronave, foi logo substituída por uma visão triste e melancólica de prédios semidestruídos, a mostrar emblematicamente não só os danos da guerra, mas o sofrimento de seu povo.

A continuação da viagem se deu novamente de avião, desta vez de pequeno porte. Naquela época, os deslocamentos eram feitos geralmente por ar ou por mar, dados os riscos de ataques da guerrilha ou de grupos de assaltantes nas estradas.

No Soyo, município localizado às margens do rio Zaire, na costa do Atlântico, logo após ser instalado na minha nova moradia, um trailler metálico de poucos metros quadrados onde habitaria por três anos, tomei contato com a realidade local. Não era uma área de frente de batalha, mas o ambiente bélico – com o toque de recolher, o medo de andar pelas estradas, o ruído de tiros ao longe, os soldados com metralhadores perambulando ao lado dos mutilados de guerra –  era permanente. Alguns anos depois, toda a região foi ocupada pela UNITA que, segundo dados da Anistia Internacional, assassinou friamente centenas de civis.

O êxodo da maioria dos médicos e de outros profissionais de nível universitário da área de saúde, portugueses e angolanos, desestruturou significativamente o sistema de saúde de Angola. Foram substituídos, em grande parte, por antigos auxiliares de enfermagem. A principal estrutura física da rede assistencial era um arremedo de hospital, um prédio sem instalações adequadas que sofria de crônica falta de água e energia elétrica.

Seguindo os planos acertados previamente, três meses depois chegou mais um médico brasileiro para integrar a equipe: Carmo Filho, meu irmão – “de pai e mãe”, como diziam os angolanos -, que até hoje mora em Angola, tendo tido a honra de, representando a comunidade brasileira, discursar para o presidente Lula em sua recente visita ao país, no final do ano passado.

Somando esforços a uma equipe de doze médicos cubanos que tinham começado seu trabalho no hospital, ficamos com a responsabilidade de organizar um sistema de saúde para os trabalhadores da indústria do petróleo, seus familiares e toda a população local.

Iniciamos o trabalho, buscando sempre compreender e respeitar os valores locais, desde a autoridade dos velhos curandeiros até nossa situação de estrangeiros brancos, num país ainda sob o trauma de séculos de colonização. Vale dizer que o fato de sermos brasileiros sempre nos favoreceu, pois é grande o sentimento de carinho e admiração que o povo angolano tem por nossa gente.

O trabalho da equipe foi bruscamente interrompido pela transferência, até hoje não explicada, da delegação cubana, constituída pelos médicos e por cerca de trinta professores, para outra região do país.

Os projetos de prevenção e de promoção da saúde foram, forçosamente, substituídos por ações curativas que a situação exigia. Sentimos, na pele, a dificuldade de priorizar programas de saúde coletiva quando as pessoas próximas estão adoecendo e morrendo. Nosso cotidiano passou a ser o do assistencialismo. Os casos de malária, que até então só conhecíamos pelos livros, incorporaram-se à nossa rotina. Conseguimos um microscópio e, revendo nossos Atlas de parasitologia, aprendemos a identificar e diferenciar os plasmódios nas amostras de sangue que colhíamos dos pacientes.

Com freiras brasileiras de uma missão católica, aprendemos a técnica, que repassávamos para as mães, de torrar e pilar alguns insetos da região que serviam como importantes complementos protéicos no tratamento dos bebes desnutridos. Depois de algum tempo, já éramos capazes de entabular um mínimo de conversação em kissulongo, dialeto da língua kikongo, durante a anamnese com os mais velhos que não falavam português.

Ao mesmo tempo em que era gratificante ser útil ao povo da região, as limitações produziam um sentimento de angústia e frustração. Em algumas ocasiões, após prestar os primeiros socorros, pudemos transportar pacientes com ferimentos graves para outros centros que dispunham de melhores recursos, como Luanda e Brazaville (Congo). Esse transporte era feito de helicóptero, às vezes, sob condições climáticas bastante adversas. Em muitas outras, vimos pacientes morrerem por falta de condições de tratamento.

Durante todo o tempo nunca desistimos de nossos projetos iniciais. Após várias tentativas frustradas junto a instituições locais e internacionais, estabelecemos um convênio de cooperação com o Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. O Soyo passou a contar com um campus avançado da universidade, para onde foram enviados professores e alunos de sexto ano do curso de medicina. Posteriormente, o governo concedeu um financiamento que permitiu a compra de diversos equipamentos, inclusive o tão desejado gerador elétrico para o hospital. Dessa forma, foi possível reiniciar um conjunto de ações que iam além do tratamento das urgências e emergências.

Quando decidi ir para Angola, meus planos iniciais previam que, se não gostasse, ficaria lá por um ano; se gostasse, por dois. Já haviam se passado três anos desde que tinha chegado. Era tempo de voltar.
Total de mortes violentas entre 1983 e 1986: dezessete mil, seiscentos e oitenta!

Este número não se refere à Angola. Corresponde ao total de acidentes do trabalho fatais no Brasil, registrados junto à Previdência Social, nos anos em que fiquei na África.

A situação não mudou muito desde então. Ainda que sabidos e reconhecidamente subestimados e restritos ao mercado formal, os dados previdenciários mostram bem a dura realidade enfrentada pelos trabalhadores brasileiros que, para ganhar a vida, são obrigados a perdê-la, insidiosa ou abruptamente. É na frente de combate a esta situação que estou envolvido desde que voltei. Esta é uma guerra, infelizmente, ainda longe de terminar.

Depois que retornei ao Brasil, voltei uma vez mais ao Soyo e pude verificar que o nosso trabalho tinha deixado sementes, mas esta é uma história para outra ocasião.”

*José Carlos do Carmo é médico, graduado pela Faculdade de Medicina da USP, mestre pela Faculdade de Saúde Pública da USP.  Trabalha no Centro de Referência em Saúde do Trabalhador da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e na Seção de Segurança e Saúde no Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, em São Paulo.  É autor de diferentes publicações na área de Saúde Pública e Saúde do Trabalhador.

https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=122

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