Alemães na África discutem investimentos e a imigração ilegal

A chanceler alemã Angela Merkel tem um programa apertado no périplo que está a fazer pela África Ocidental. No Senegal, falou de investimentos e do combate à migração ilegal.

    
Senegal - Angela Merkel besucht Senegal (picture-alliance/dpa/M. Kappeler)

Angela Merkel chegou ao Senegal, na quarta-feira (30.08), com uma comitiva de empresários alemães, que também a acompanharão até ao Gana e à Nigéria.

Com este périplo, a chanceler alemã pretende, sobretudo, reforçar os laços de cooperação económica para combater a migração ilegal para a Europa. Ao desembarcar em Dakar, Merkel encontrou-se com o Presidente Macky Sall e manifestou logo o interesse da Alemanha em investir no Senegal.

“Devemos aprender a combinar de forma sensata o desenvolvimento com o investimento privado, para que o Senegal possa fazer a transição gradual para uma recuperação económica autossustentável”, afirmou a chanceler alemã. “Este é um país jovem, com 300 mil jovens a entrar no mercado de trabalho todos os anos, à procura de oportunidades. Por isso, é do nosso interesse que o desenvolvimento seja bem-sucedido.”

Senegal aberto a investimentos

O Presidente senegalês garantiu que o seu país está interessado em investimentos estrangeiros, mas não está só aberto às ofertas alemãs.

“A Alemanha é bem-vinda”, frisou Macky Sall. Mas “eu disse à chanceler que a China [também] é bem-vinda ao Senegal, tal como os Estados Unidos da América, a França e a Turquia, porque, a partir do momento em que encontrarmos uma fórmula para conseguir financiamento, transferir tecnologia, criar empregos para jovens, vamos aceitar. Não podemos rejeitar ofertas que ajudem os nossos jovens”, afirmou.

Republik Senegal - Kanzlerin Merkel besucht SenegalChanceler Angela Merkel foi recebida no Senegal pelo Presidente Macky Sall

A questão da migração

Mais de 11 mil pessoas do Senegal, Gana e Nigéria solicitaram asilo na Alemanha no ano passado. Grande parte das solicitações foi negada. Estima-se que 14 mil cidadãos destes três países africanos vivem ilegalmente na Alemanha.

Tanto no Gana como no Senegal, a Alemanha financia centros de aconselhamento para migrantes, onde os jovens retornados recebem ajuda na procura de emprego. Outro centro deste tipo deverá abrir na Nigéria até ao final do ano. Além disso, a Alemanha lançou a iniciativa “Compact with Africa” quando presidiu ao grupo das 20 maiores potências económicas mundiais, o G20. A medida prevê a transferência para as nações africanas de habilidades e tecnologias para atrair investidores ocidentais. O Gana e o Senegal já participam e a Nigéria demonstrou interesse.

Três dias, três países: Merkel faz périplo africano

Oportunidades

A chanceler alemã está no Gana esta quinta-feira e, na sexta, vai até à Nigéria, onde se encontrará com o líder da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), Jean-Claude Kassi Brou, e com o Presidente Muhammadu Buhari, para discutir questões económicas.

Além disso, Angela Merkel também se encontrará com a sociedade civil. Moses Siasia, do Fórum de Jovens Profissionais da Nigéria, tem grandes expetativas quanto à visita: “Penso que esta é uma das formas mais diretas de se fazer parcerias comerciais. Além disso, os governos da Nigéria e da Alemanha podem criar um ambiente de relações comerciais para as empresas dos dois países e também oportunidades para beneficiar do conhecimento”, afirma.

Em média, a economia do Senegal cresce a um ritmo de 7% ao ano, enquanto o Gana é visto como um refúgio de estabilidade na região. A Nigéria, apesar de ser vítima da insurgência do grupo radical Boko Haram e da volatilidade do preço do petróleo, continua a ser o segundo maior parceiro comercial da Alemanha na África subsaariana.

Os humanos estão à beira da extinção?

 

Douglas Rushkoff, um dos grandes teóricos do mundo digital, adverte: redes sociais mobilizam nosso lado réptil- primitivopara que troquemos a política pelo consumo

Entrevista a Juan Iñigo Ibánez | Tradução: Inês Castilho | Imagem: Steve Cutts

“Para o Facebook somos o produto, não o cliente”, repete o teórico da mídia estadunidense Douglas Rushkoff desde 2011. Embora o episódio Cambridge Analytica e o comparecimento de Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano tenham abalado a opinião pública, o que realmente chamou a atenção deste escritor e documentarista de 57 anos foi “como as pessoas ficaram surpresas”. “O plano de negócios do Facebook – assegura ele, falando do subúrbio novaiorquinho de Hastings-on-Hudson, onde reside – sempre foi extrair dados da atividade das pessoas, para vendê-los em seguida”.

As críticas do professor de Teoria dos Meios e Economia Digital da Universidade do Estado de Nova York à empresa de Mark Zuckerberg podem ser estendidas também à maioria das grandes companhias fundadas em tempos de economia digital. Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity [Atirando pedras no ônibus do Google: como o crescimento converteu-se no inimigo da prosperidade], editado pela Penguin Books nos Estados Unidos, o teórico de meios argumenta que empresas como Amazon, Netflix ou iTunes acabando utilizando a rede – que a seu ver prometia ser mais uma ferramenta de utilidade pública que uma plataforma comercial – para reviver as piores práticas do capitalismo industrial — agora, porém, “funcionando com esteroides digitais”.

Pioneiro e entusiasta da cibercultura, participante do movimento Occupy Wall Street e ativista da democracia de código aberto, Rshkoff é doutor em Novos Meios e Cultura Digital pela Universidade de Utrecht (Holanda).

Em 2013, o MIT – Massachusetts Institute of Tecnology, o incluiu – junto com Niall Ferguson e Steven Pinker – entre os dez intelectuais mais influentes do mundo. Considerado por muitos o mais fiel herdeiro das ideias de Marshall McLuhan e Neil Postman, é o responsável por cunhar termos como “nativos digitais”, “meios virais” e “moeda social”. Eis sua entrevista.

Como se explica o mea-culpa realizado por Mark Zuckerberg perante o Senado norte-americano, ao assumir a falta de maior responsabilidade sobre o modelo de negócios do Facebook?

Os jovens desenvolvedores abandonam a escola para iniciar suas empresas, com pouco ou nenhum conhecimento dos impactos políticos e sociais dos produtos que querem construir. Zuckerberg afirmou que não tinha ideia de que sua plataforma afetaria nossa sociedade e nossas eleições da maneira como fizeram. Se ele conhecesse algo sobre a economia política dos meios, não seria tão ignorante. Mas o Facebook é dirigido por alguém que só se formou na escola secundária.

No ano passado, o Facebook revelou os países que mais usaram sua nova modalidade de “interações” e o México se encontrava em primeiro lugar, em nível mundial. Como se relacionam as “interações” e as “curtidas” com o uso que a empresa poderia estar fazendo de nossos dados?

O Facebook usa a “aprendizagem automática” para determinar o que funciona e o que não funciona com você. Quanto mais informação tenham sobre você, maior a precisão com que poderão prever e manipular seu comportamento. Os botões de interação são como um dispositivo de votação instantâneo. São como um “grupo focal” mecânico. Estão fazendo as perguntas que lhe faria um psicólogo que tentasse hipnotizá-la.

No início de 2014 ficamos sabendo que o Facebook havia comprado a patente para desenvolver as lentes de realidade virutal Oculus VR. Em 2016, a empresa lançou seu primeiro protótipo. Qual sua opinião sobre uma empresa acusada de negociar com os dados dos usuários excursionar pelo campo da realidade virtual?

O Facebook quase perdeu a plataforma de telefones inteligentes. Chegaram aos telefones muito tarde, e muitos temiam que a companhia não os alcançasse. Ao comprar a Oculus Rift, asseguram-se de que, se a realidade virtual converter-se num grande negócio (embora eu creia que isso não ocorrerá), então estarão participando da corrida.

Mas eles ainda não sabem o que fazer com isso. Talvez jogos. O que é certo é que criarão um entorno muito mais controlado para manipular as pessoas, e poderão observar muitas dessas decisões insignificantes que tomamos costumeiramente. Obterão muita informação sobre nossas formas de movimentar-nos através desses entornos.

Que tipos de medida os governos devem tomar para controlar o que empresas como o Facebook poderiam fazer, através da realidade virtual, com nossos dados? Ainda dá tempo de regular isso?

A Europa é melhor nisso do que a América do Norte. Nos Estados Unidos acredita-se que impedir uma corporação de fazer algo é como dizer a Deus que se cale. O mercado é a sabedoria do universo, que se expressa nos assuntos humanos. Controlar uma empresa é considerado uma afronta à natureza.

O problema com a regulação é que as empresas que supostamente estão reguladas são com frequência as que terminam escrevendo as regras. E as escrevem de modo a garantir seus próprios monopólios. Creio que o mais fácil é converter as plataformas tecnológicas mais gigantescas – as que todos usam – em bens públicos.

Em seu último livro, Throwing Rocks at the Google Bus, você afirma que a Amazon proporciona o exemplo mais claro de como – contrariamente ao sonho da economia colaborativa que muitos imaginaram ser possível no início da internet – os velhos valores corporativos foram amplificados graças à rede. Que tipos de prática as grandes empresas surgidas em tempos de economia digital, como a Amazon, executaram?

Elas destroem as empresas com que trabalham. Exploram seus trabalhadores, conhecidos como os “turcos mecânicos” da Amazon. Pagam uma ninharia para que façam o trabalho com os computadores, inclusive porque não têm como denunciar, se quem os contrata decide não pagar. Exercem o controle do monopsônio [também chamado “monopólio do comprador”] para pagar menos e exigir mais. Não ajudam as pequenas empresas a intercambiar valor entre elas. Convertem-se na única plataforma e aproveitam seu monopólio para expulsar as pequenas empresas do negócio. É uma má estratégia a longo prazo, porque se ninguém tem dinheiro, não podem gastá-lo na Amazon.

Como a Amazon afetou a indústria do livro?

O que a Amazon fez de mais notável foi prejudicar editores e autores. Pagam por livro menos que as livrarias normais. Preferem perder dinheiro com a venda de livros para que as outras livrarias se arruinem. É um conceito difícil de entender: venderão livros abaixo do custo com o objetivo de fazer com que outras livrarias fechem. Não lhes importa o ganho de seus livros. Querem ser um monopólio. E assim, quando forem os livreiros mais importantes do mundo, poderão finalmente impor suas condições aos editores. Podem estabelecer preços, controlar a distribuição e cortar da lista de livros os que não estejam de acordo com eles. É muito assustador, na verdade. O plano, a longo prazo, é que todos os autores trabalhem diretamente para a Amazon. É o que já propõem, de fato, a alguns escritores.

Você mencionou numa entrevista anterior que empresas como a Uber estão realmente usando seus motoristas como “pesquisadores de desenvolvimento”, e assim preparam o terreno para o negócio real: treinar o algoritmo para as viagens que os veículos automatizados farão no futuro…

Ao longo da história da humanidade, e certamente desde a era industrial, as novas tecnologias fazem com que certas habilidades humanas tornem-se obsoletas. Então, as pessoas procuram outro trabalho. Agora mesmo está ocorrendo em múltiplos setores: alimentos, medicamentos, educação, transportes, recursos, energia e inclusive entretenimento e arte.

O importante a ser lembrado, ao analisar esses problemas, é enxergar o que as empresas de fato pretendem ao excluir o trabalho humano. É realmente mais barato? É melhor? Não. Simplesmente elimina os humanos da equação. A longo prazo, a consequência disso é que não sobrarão seres humanos para comprar os bens e serviços.

Em 1988, Isaac Asimov previu, numa entrevista à BBC, que graças aos computadores, em poucos anos, cada pessoa seria capaz de aprender em seu próprio ritmo, de forma autodidata e durante toda a vida. Você crê que, em certa medida, isso se cumpriu?

Sim e não. A rede oferece enormes possibilidades educativas, desde a Wikipedia até o aprendizado a distância. Mas elas certamente não representam a cultura em rede dominante hoje em dia. E em muitos casos está sendo utilizada para minar o impacto mais subversivo e verdadeiramente humano da educação. Uma aula ou uma biblioteca digital online oferece uma grande oportunidade a quem não as teve antes, mas também prescinde do fator humano: o intercâmbio vivo de ideias e valores. Um bibliotecário humano é muito mais que uma base de dados.

Todos tinham os mesmos pensamentos otimistas sobre a televisão logo que ela apareceu. Ia ser a grande educadora. Supunha-se que em particular a televisão a cabo desencadearia uma nova revolução na educação. Contudo, nada disso aconteceu. Nenhuma mídia promoverá valores por si mesma. Ela só pode expressar os valores daqueles que a estão desenvolvendo. Neste momento, esses são os valores dos especuladores, razão pela qual as soluções educativas que vemos se desenvolvendo são as que têm modelos de negócios ampliáveis.

Há alguns dias, o New York Times voltou a publicar um artigo sobre a tendência, entre os executivos do Google, de inscrever seus filhos em escolas Waldorf. Parece que ali aprendem a tecer, interagem com a natureza, mas sobretudo não é permitido que se exponham a monitores e são proibidos de usar gadgets. O que isso revela a você?

Escrevi sobre isso há anos, quando as pessoas sequer acreditavam que fosse verdade. Para mim, significa que são hipócritas. Como os executivos de televisão e publicidade dos anos 1980, que não deixavam seus filhos ver televisão. É porque sabem que esses meios foram intencionalmente desenhados para frustrar a cognição, fazer com que as pessoas tenham medo, sejam burras e sintam-se sós e desesperadas. Isso não é teoria da conspiração. Os designers de interfaces das principais empresas tecnológicas do Vale do Silício estudam “captologia” em Stanford. Leem livros sobre o funcionamento das máquinas caça níqueis de Las Vegas para desenhar algoritmos que viciem.

As tecnologias digitais estão desenhadas especificamente para viciar, criar comportamentos obsessivos e fazer com que as pessoas prefiram as experiências digitais às reais. Os que fazem esse trabalho sabem que muito ruim e insano, e com razão querem proteger suas famílias dos possíveis danos.

Algumas pessoas apontam a simplicidade moralista, a agressividade e a irritação diante de opiniões contrárias que as pessoas demonstram na internet. Há alguma relação entre a forma como essas plataformas foram configuradas e a ascensão online, nos últimos anos, de grupos como ultra-direita [alt-right] nos Estados Unidos?

Essas plataformas foram concebidas para provocar respostas simplistas, impulsivas e primitivas — subreptícias. Estas são menos reflexivas que as reações dos mamíferos, e muito menos que as das comunidades de humanos.

Nossas emoções e condutas mais humanas provêm de uma parte do cérebro chamada neocortex. É a parte que as plataformas digitais tratam de evitar a todo custo. A captologia é a ciência de driblar o neocórtex e chegar diretamente no tronco do encéfalo. Essa é a parte que diz “matar ou morrer”. Se essa é a parte do cérebro que está ativa online, ela fomentará esse tipo de comportamento primitivo.

Você incluiu os efeitos das tecnologias digitais no conceito de “choque de presente”. Como se poderia vincular essa ideia a nossa propensão a crer em fake news e pós-verdade?

Minha ideia de “choque do presente” se referia à ênfase que as tecnologias digitais aplicam ao momento presente. Mas não ao presente real, e sim a uma instantaneidade e avalanche de dados e escolhas que fazem com que pareça que temos de estar alertas o tempo inteiro. É muito desorientador. Isso nos leva a desejar algo familiar. Qualquer coisa com uma forma familiar, seja ou não verdadeira. Odiamos o caos. Preferiríamos que uma pessoa malvada governasse o mundo a que ninguém o governasse. Isso é mais familiar e seguro.

No ano passado, veio a público a notícia de que o governo mexicano estava usando o software Pegasus para espionar jornalistas através de seus telefones celulares. Que potencial têm esses aparatos para intrometer-se em nossa privacidade?

Nossos dispositivos têm capacidade de conseguir acesso total a nossas vidas. Tudo. E não somente as coisas que você sabe sobre si mesmo, que tipo de sexo gosta, como se masturba, que drogas usa, mas também as coisas que não sabe sobre si. Essa é a parte mais perigosa. Podem usar macrodados (Big Data) para saber o que provavelmente fará no futuro. Eles sabem, antes de você, se ficará doente, se se divorciará, se mudará de sexo… qualquer coisa.

A única coisa que impede as empresas de explorar essa capacidade é o medo da lei ou seu sentido ético. Mas até o momento não as vejo preocupadas com nenhum desse aspectos.

Frequentemente nos chegam notícias de novos protótipos robóticos que fazem piruetas e se movem com incrível agilidade por terrenos acidentados. Qual é, na sua opinião, a característica humana que os robôs nunca poderão adquirir ou imitar?

É precisamente esse o tema de dois dos meus livros, de modo que talvez possa responder um pouco mais brevemente. Que significa ser humano? Podemos ver isso da perspectiva da consciência, da inteligência, da biologia, da espiritualidade, da arte ou do amor? Em que diferem os humanos dos animais em cada um desses aspectos, como diferem dos computadores? Como você pode ver, é um grande conjunto de problemas.

Penso haver uma diferença entre informática e pensamento. Creio que os computadores podem resolver muitos dos problemas que um cérebro humano pode resolver, mas não creio que sejam conscientes de que estão resolvendo os problemas, do mesmo modo que uma pá não sabe que está cavando. Então, quando decidimos substituir a humanidade por computadores, temos que perguntar: por que se incomodar, se as máquinas nem sabem que estão lá?

No início dos anos 1990, em São Francisco, você foi testemunha de como surgiu a cultura rave, junto com o otimismo tecno e a espiritualidade psicodélica. A promessa parecia ser de que a tecnologia e os valores do humanismo se uniriam, numa simbiose promissora. Como crê que poderíamos voltar ao ethos original desse renascimento digital, sem que ele implique um retiro perpétuo nas montanhas ou o ingresso numa espécie de idade pré-digital?

O mais provável é que façamos isso por necessidade. Simplesmente seremos pobres demais para participar desta sociedade industrial digital. Precisaremos de casa e comida, e para isso teremos de voltar a aprender os conceitos básicos. Isso nos fará trabalhar com nossas mãos e com as outras pessoas. Aprenderemos a trabalhar juntos. Olharmo-nos nos olhos, tomar decisões juntos e colaborar.

A outra possibilidade é que a geração que cresce agora simplesmente compreenda que os humanos estão à beira da extinção, e que a sobrevivência requer desconectar-se dessas máquinas, acabar com a escravidão adotada para fabricá-las e romper com o controle mental que nos liga a elas.

Que papel teriam os artistas e os humanistas nesse renascimento digital?

Os artistas rompem mitos. Ao admitir que o que fazem é artifício, revelam o artifício à sua volta. Seu papel sempre foi explorar o significado de nossa existência: romper as ilusões que se colocam no caminho, sejam elas o medo, o mercado, a dominação ou as leis. A arte pode ajudar a nos demonstrar que os humanos são especiais, inexplicáveis e dignos de existir. Que há neste mundo algo além do valor utilitário. Que o mundo é mais complexo do que aquilo que nossos cálculos algum dia resolverão. Penso que os humanistas são os que tentam convencer-nos de que nossa arte realmente possui essa capacidade. Essa arte verdadeira é mais que entretenimento ou cuidados paliativos. Essa arte é o caminho a seguir.

Fonte:https://outraspalavras.net/capa/maquinas-digitais-hora-de-desconectar/

Discurso inédito escrito por Marielle Frando

A psolista discursaria hoje na votação do Plano Municipal de Educação do Rio de Janeiro e, antes de ser executada, já estava com o texto pronto. Seu correligionário, vereador Tarcísio Motta, levou o discurso ao plenário. Confira

Foto: Reprodução/Instagram

A voz de Marielle Franco continua ecoando na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. Nesta terça-feira (27), treze dias após seu assassinato, um discurso que havia preparado para ser lido na votação do Plano Municipal de Educação do Rio foi reproduzido no plenário pelo vereador Tarcísio Motta (PSOL).

No texto, Marielle atentou para a importância do debate sobre igualdade de gênero nas escolas. “Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjulgadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!”, escreveu.

Confira a íntegra do texto abaixo e, na sequência, o vídeo que registrou Tarcísio Motta reproduzindo o discurso escrito por Marielle.

Boa tarde à todas e todos,

O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo.

Os números são assustadores: em 2016, foi registrada uma violência contra mulher a cada 5 horas no Estado do Rio de Janeiro.

Mas também sabemos que estes números são apenas de parte das mulheres que conseguiram, de algum modo, buscar auxílio e denunciar.

E eu pergunto à vocês: seguiremos nos recusando a falar sobre igualdade de gênero? Até quando?

O debate sobre a nossa igualdade é urgente no mundo, no Brasil e no município do Rio de Janeiro!

Enfrentar este debate é nos comprometermos com a democracia e com nosso avanço civilizatório.

Falar de igualdade entre mulheres e homens, meninas e meninos, é falar pela vida daquelas que não puderam ainda se defender da violência. E são muito mais das 50.377 registradas em 2016, aqui, no Rio.

Diferente do que se fala ou, infelizmente, do que se acostuma ver em Casas Legislativas, como esta, não somos a minoria. Somos a maior parte da população, ainda que sejamos pouco representadas na política.

Ainda que ganhemos salários menores, que estejamos em cargos mais baixos, que passemos por jornadas triplas, que sejamos subjulgadas pelas nossas roupas, violentadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, mortas diariamente pelos nossos companheiros, nós não vamos nos calar: as nossas vidas importam!

No Brasil, segundo o IPEA (2016). As mulheres negras brasileiras ainda não conseguiram alcançar nem 40% do rendimento total recebido por homens brancos. E somos nós, mulheres negras, que mais sofremos violências diariamente.

Só quem acha que isso é normal é quem não sofreu no corpo o machismo e o racismo estrutural. Quem acha que isso não merece ser debatido na nossa educação é porque se benefecia das desigualdades.

Por isso, quero deixar registrado que essa Casa, ao retirar os termos “gênero”, “sexualidade” e “geração”, fortalece a continuidade de desigualdades e violências dos mais diversos tipos.

Hoje falamos do principal plano para desenvolvimento social do nosso município: o Plano Municipal de Educação. Este plano merece que tenhamos compromisso e responsabilidade.

O termo “gênero” começou a ser utilizado como categoria de análise a partir de 1970 com o objetivo de dar visibilidade às desigualdades entre homens e mulheres. Logo, tanto na origem da sua criação, quanto no uso corrente em debates sobre a superação das desigualdades, falar de “gênero” tem como finalidade promover a devida atenção e crítica das discriminações sofridas pelas mulheres, e tentar achar meios para que todas e todos possamos juntos enfrentar este cenário.

Desde quando falar sobre uma opressão, que gera tantas mortes, é falar sobre alguma doutrinação?

Se dizem tanto a favor da vida, então deveriam ser a favor da igualdade de gênero. E só se promove igualdade através de uma educação consciente e do debate com nossas crianças, para que se tornem adultos melhores.

Por isso, como parlamentares responsáveis pelas cidadãs e cidadãos dessa cidade, devemos defender o debate na educação!

Se é da escola que nasce o espaço público que queremos, é indispensável que se fale de igualdade de gênero sim! Que se fale de sexualidade, de respeito, de laicidade, de racismo, de LGBTfobia, de machismo. Pois falar sobre estes temas é se comprometer com a vida, em suas múltiplas manifestações. É se comprometer com o combate à violência e a desigualdade!

É mais do que urgente que esta casa não se cale sobre as vidas que são interrompidas dia-a-dia neste Município.

Falar de igualdade de gênero é defender a vida!”

Fonte: https://www.revistaforum.com.br/discurso-inedito-escrito-por-marielle-franco-e-lido-na-camara-dos-vereadores-do-rio/

Entrevista de Nancy Fraser

nancy-fraser-pulDiante do crescimento do populismo de direita em todo o mundo, Nancy Fraser sustenta: há revolta positiva no ar; é preciso dar-lhe sentido.

A entrevista é de Shray Mehta, publicada por Outras Palavras, 19-08-2018. A tradução é de Inês Castilho.

Esta entrevista foi realizada em março de 2018, quando Nancy Fraser foi convidada pelo Departamento de Sociologia da Universidade do Sul Asiático para fazer uma palestra sobre “Raça, Império, Capitalismo: teorizando os nexos”.

Quando emergem na cena política personagens como Jair Bolsonaro, parte da esquerda tende a uma atitude defensiva. Em face de um perigo corretamente associado ao fascismo e à violência, seria o caso de preservar a normalidade do sistema institucional, e mesmo de convocar alianças em seu favor. A repercussão que o discurso de ódio encontra entre parcelas amplas da sociedade indicaria que é hora de refrear o passo, até que a onda regressiva se esvazie.

Associada a um marxismo heterodoxo, a filósofa e feminista norte-americana Nancy Fraser julga que esta atitude não afastará o perigo — e pode, ao contrário, torná-lo maior. Uma visão particular sobre o chamado “populismo de direita” a faz pensar assim. As maiorias, crê Fraser, têm boas razões para se revoltar contra a ordem. Ao longo das três últimas décadas, elas foram castigadas, na maior parte dos países, pelo desmonte dos direitos sociais. Em muitos casos, partidos associados à esquerda envolveram-se ativamente neste processo (no Brasil, vale lembrar a adesão do segundo governo Dilma ao “ajuste fiscal” proposto pela direita). Agora, há raiva e rancor. Enxergar os que nutrem estes sentimentos como “fascistas” só agravará o cenário.

feminismo é, para Fraser, uma chave para encontrar outro tipo de resposta. A crise global da esquerda está associada à transição do capitalismo industrial ao financeirizado— e, portanto, à ineficácia das antigas estratégias de resistência, que se baseavam na ação dos trabalhadores organizados. Agora, o centro de geração de valor e acumulação de riqueza do próprio sistema deslocou-se: já não é a fábrica, mas a produção imaterial, que se espraia por toda a sociedade. Não bastaria isso para enxergar a relevância (e a potência transformadora) de formas de trabalho não-reconhecidas e não-remuneradas, secularmente associadas às mulheres?

Como fazê-lo? Na entrevista a seguir, concedida em março deste ano ao jornalista indiano Shray MehtaFraser oferece algumas pistas. “O que necessitamos”, diz “é o que André Gorz chamou de ‘reformas não-reformistas’. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital”. Porém, estas reformas, prossegue a filósofa, “não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educaçãomoradiasaúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos”.

Esta estratégia dá resultados concretos, mostra Fraser. A Inglaterra é o exemplo eloquente. Lá, boa parte dos votos de rancor dados ao Brexit, há dois anos, tem sido recuperada por Jeremy Corbyn, líder rebelde do Partido Trabalhista, que propõe precisamente um programa radical de recuperação e ampliação dos serviços públicos. Foi esta postura, aliás, que desarmou o partido xenófobo (UKIP) — líder do voto contra a União Europeia, mas hoje esvaziado e dividido.

E no Brasil: qual o melhor antídoto contra os Bolsonaro e os Alckmin? A equação deFraser sugere que talvez não seja uma esquerda defensora da ordem — mas, ao contrário, capaz de desafiá-la por meio de medidas distributivas e anti-sistêmicas bem mais profundas que as praticadas pelo lulismo, em sua primeira experiência de governo. (A.M.).

Eis a entrevista.

Muito obrigado pela oportunidade desta conversa. O mundo está assistindo a uma aumento alarmante de líderes populistas e o padrão parece repetir-se com frequência em todo o espectro político, não restrito apenas ao Norte ou ao Sul globais. Como se pode contextualizar essa expansão do populismo como um momento histórico mundial? Ele teria uma dinâmica sistêmica que vai além das nações e está localizado na economia internacional e crise do capitalismo?

populismo está situado numa dinâmica histórica mundial. Ele sinaliza uma crise hegemônica do capitalismo – ou melhor, uma crise hegemônica de uma forma específica de capitalismo que temos hoje: globalizado, neoliberal e financeirizado. Esse regime suplantou a variedade anterior, do capitalismo gerido pelo Estado, e dizimou todos os ganhos que as classes trabalhadoras haviam conquistado no período prévio. O populismo é, em grande medida, uma revolta dessas classes contra o capitalismo financeiro e as forças políticas que o impõem. Para entender a revolta, é preciso entender o bloco hegemônico anterior que está sendo rejeitado. Eu chamei esse bloco de “neoliberalismo progressista”. Como formação dominante, o neoliberalismo progressista estava centrado nos Estados mais poderosos do Norte global, mas tinha também postos avançados em outros lugares. Exemplos incluem o “Novo Trabalhismo” de Tony Blair, na Inglaterra, o “novo” Partido Democrático de Bill Clinton, nos EUA, o Partido Socialista na França, e os últimos governos do Partido do Congresso, da Índia.

O que é específico do “neoliberalismo progressista” é que ele combina políticas econômicas regressivas, liberalizantes, com políticas de reconhecimento aparentemente progressistas. Sua economia política baseia-se em “livre comércio” (que em realidade significa livre movimentação do capital) e desregulamentação das finanças (que empodera investidores, bancos centrais e instituições financeiras globais para ditar políticas de “austeridade” para o Estado por meio de decretos e da chantagem da dívida). Entretanto, seu lado de reconhecimento centra-se na compreensão liberal do multiculturalismo, do ambientalismo e dos direitos das mulheres e LGBTQ[lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer]. Inteiramente compatível com o neoliberalismo financeiro, essa compreensão é meritocrática, oposta ao igualitarismo. Focados na “discriminação”, eles buscam assegurar-se de que uns poucos indivíduos “talentosos” de “grupos sub-representados” possam ascender ao topo da hierarquia corporativa e alcançar posições e remuneração paritárias com os homens heterossexuais brancos de sua própria classe.

O que não é mencionado, contudo, é que enquanto esses poucos “quebram o teto de vidro”, todo o resto continua preso no porão. De fato, o neoliberalismo progressistaarticulou uma política econômica regressiva com uma aparente política progressistade reconhecimento. O lado progressista de reconhecimento serviu como um álibi ao lado econômico regressivo. Isso possibilitou ao neoliberalismo apresentar-se como cosmopolita, emancipatório, inovador e moralmente avançado – em contraste com as classes trabalhadoras aparentemente paroquiais, atrasadas e incultas.

neoliberalismo progressista foi hegemônico por umas duas décadas. Encabeçando vastos aumentos da desigualdade, foi uma grande bonança para o 1% global, mas também para o estrato gerencial profissional. Foram atropeladas as classes trabalhadoras do norte, que haviam se beneficiado da social democracia; os camponeses do sul, que sofreram desapropriação renovada por dívida, em escala maciça; e um vasto precariado urbano no mundo inteiro. O que se vem denominando populismo é uma revolta desses estratos contra o neoliberalismo progressista. Ao votar em Trump, no Brexit, em Modi (Índia) e no Movimento Cinco Estrelas na Itália, as maiorias declararam que se recusam a continuar desempenhando o papel que lhes foi atribuído, de cordeiros de sacrifício, num regime que não tem nada a lhes oferecer.

Os movimentos populistas são frequentemente apresentados como “fascistas”, assim que começam a articular suas demandas. Contudo, quando vistos como uma articulação das preocupações populares contra a apatia sistêmica, surge um cenário mais complexo. Por exemplo, a ascensão de Trump está baseada até certo ponto no apoio de uma base eleitoral que é apressadamente descartada como “homens brancos racistas”, embora possam ter votado em Obama nas duas últimas eleições. Num outro contexto, na Índia, a ascensão do nacionalismo hindu é taxada de fascista sem vê-la na perspectiva histórica, de reação às políticas neoliberais dos governos anteriores, do Partido do Congresso. Como perceber essa rejeição completa das preocupações populares no discurso público, por um lado, e a rotulagem da reação popular como fascista?

Concordo com sua visão nesse assunto. O liberalismo tem uma longa história de tentar deslegitimar a oposição a ele – estigmatizando seus opositores como, por exemplo, “stalinistas”, “fascistas”, o que seja. Isso é certamente o que está acontecendo agora com relação ao termo “populismo”. Essa palavra é hoje amplamente usada pelos liberais para desqualificar como ilegítimas as forças populares que estão se rebelando contra seu domínio. Mas você está certo, é uma tática defensiva por parte dos defensores do “neoliberalismo progressista”. Ao estigmatizar a oposição, eles esperam ressuscitar seu projeto. Nos Estados Unidos, estão procurando desesperadamente um novo líder, com mais apelo que Hillary Clinton, sob o qual possam restaurar uma nova versão do neoliberalismo progressista. Essa é a agenda de uma grande parcela da “resistência” anti-Trump. Não conheço o suficiente da política indiana para ter certeza, mas imagino que o Partido do Congresso está usando tática semelhante na esperança de retomar o poder.

Eu certamente jamais endossaria Trump ou Modi [o presidente da Índia] – isso é óbvio. Todavia, não estou infeliz com o fato de que quem foi massacrado pelo “neoliberalismo progressista” levante-se contra ele. Em alguns casos, é claro, a forma que esta rebelião assume é problemática. As populações frequentemente equivocam-se quanto à verdadeira causa de seus problemas, e fazem de bode expiatório os imigrantesmuçulmanosnegrosjudeus e outros. Mas é contraprodutivo simplesmente desqualificá-los como racistas e islamofóbicos irredimíveis. É tolo assumir, de saída, que não há qualquer possibilidade de ganhá-los para a esquerda, seja para o populismo de esquerda ou para o socialismo democrático.

Além disso, a ideia de que todos esses eleitores não passam de racistas de carteirinha não bate com os dados. Nos EUA, como você disse, 8,5 milhões de pessoas que votaram para Obama em 2012 mudaram de posição e votaram em Trump em 2016. Muitos deles eram pessoas da classe trabalhadora em comunidades do “cinturão de ferrugem”, que sofreram maciçamente com a desindustrialização, precarização e uma grande epidemia de adição a opiáceos, orquestrada pela indústria farmacêutica. Foram eles que entregaram a presidência para Trump. Em ambas as eleições, 2012 e 2016, votaram contra a economia neoliberal – primeiro para Obama, que fez campanha à esquerda, adotando a retórica do “Ocuppy Wall Street”, e depois para Trump, cuja campanha baseou-se não somente no reconhecimento excludente, mas também na economia populista. O que isso mostra é que as questões identitárias não estavam, na mente desses eleitores, acima de tudo. Nessas questões, eles foram bastante volúveis, agindo de diferentes maneiras, conforme as opções oferecidas. Ao contrário, foram consistentes na rejeição da terceirização, “livre comércio” e financeirização; no apoio à proteção social, pleno emprego e salários dignos. O mesmo é verdade, aliás, no Reino Unido. Muita gente da classe trabalhadora do norte da Inglaterra que votou a favor do Brexit apoia agora, fortemente, Jeremy Corbyn. Na França também, houve grande troca de votos, de um lado pro outro, entre a Frente Nacional [de ultra-direita] e o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon.

Meu ponto é que todos esses eleitores (e outros!) têm queixas legítimas contra o neoliberalismo progressista. Ao invés de desqualificá-los como racistas, a esquerda deve validar suas críticas. Ao invés de assumir que eles não têm jeito, devemos partir da premissa de que muitos eleitores populistas à direita podem ser, em princípio, conquistados pela esquerda. Precisamos atraí-los, validando suas queixas e oferecendo-lhes uma análise alternativa da verdadeira causa de seus problemas e uma proposta alternativa para resolvê-los.

Sobre oferecer uma explicação e uma visão alternativas, não é a primeira vez que ocorre essa troca de eleitores entre a esquerda e a direita. Sabemos que há precedentes históricos. A direita é capaz de estabelecer nexos casuais entre os problemas sistêmicos e grupos sociais tais como judeus, muçulmanos ou imigrantes, para sugerir que transformá-los em alvos pode resolver os problemas de emprego – isso tem apelo para as pessoas. Ainda que a esquerda tente intervir, a visão alternativa parece muito utópica para as pessoas. Você sente que ainda há uma lacuna crucial, na esquerda, com relação a isso?

Sim, eu concordo. Há com certeza uma lacuna programática na esquerda. Isso se deve em parte ao fim do comunismo soviético, que teve o infeliz efeito de deslegitimar não apenas aquele regime esclerosado, mas também ideias de socialismo e igualitarismo social em geral. A atmosfera resultante beneficiou grandemente os neoliberais, enquanto intimidava e desmoralizava a esquerda.

Mas isso não é toda a história. Nesse clima, uma parte significativa do que poderia ter sido uma opinião à esquerda foi direcionada para o liberalismo. Pense por exemplo no feminismo liberal, no anti-racismo liberal, no multiculturalismo liberal, no “capitalismo verde” etc. Essas são as correntes dominantes, hoje, de parte dos novos movimentos sociais, cujas origens foram, se não diretamente à esquerda, ao menos esquerdizantes ou proto-esquerdistas. Hoje, porém, falta-lhes até mesmo a mais pálida ideia de uma transformação estrutural ou uma economia política alternativa. Longe de buscar a abolição da hierarquia social, sua mentalidade está voltada a atrair mais mulheres, gays e não-brancos para os altos escalões. Certamente, nos EUA mas também em outros países, a esquerda foi colonizada pelo liberalismo.

A meu ver, o melhor caminho para reconstruir a esquerda é ressuscitar a velha ideia de um “programa socialista de transição” e dar a ele um novo conteúdo, apropriado ao século 21. Hoje, não podemos começar dizendo às pessoas que vamos socializar os meios de produção e em seguida elas terão empregos seguros e bem pagos. Essa retórica está vencida. O que necessitamos, ao contrário, é o que André Gorz chamou de “reformas não-reformistas”. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital. Além disso, essas reformas não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Elas precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educação, moradia, saúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos.

Embora longe da perfeição, a campanha de Bernie Sanders nos EUA teve algumas ideias que apontavam nessa direção. Acima e além do aumento do salário mínimo para 15 dólares a hora, Sanders fez campanha pelo “Medicare para todos”, ensino universitário gratuito, reforma da justiça criminal, liberdade reprodutiva e a quebra dos grandes bancos – tudo isso ligado ao emprego. Suas ideias não foram inteiramente desenvolvidas, é certo. E elas são possivelmente mais social democratas do que democráticas socialistas. Mas representam a primeira inspiração de uma alternativa populista à esquerda, nos EUA.

A esquerda precisa também pensar sobre finanças e bancos. Um dos pesadores mais interessantes nesse assunto é Robin Blackburn, que defende que as finanças deveriam tornar-se um bem público, como costumava ser a eletricidade — o que significa que devia pertencer a todos e ser alocada publicamente. Decisões sobre crédito, onde investir e quais projetos financiar deveriam ser tomadas com base não na taxa de retorno, mas no valor e utilidade social. E deveriam ser tomadas democraticamente – por meio de conselhos eleitos, encarregados de representar as comunidades e outras partes interessadas. Essa é uma ideia muito interessante, porque precisamos, é claro, de um sistema de crédito. Abolir os bancos e instituições financeiras globais não é a resposta. O que é necessário, ao invés disso, é socializar as finanças.

Aliás, esses são tempos perfeitos para desenvolver um programa de esquerda para as finanças. Muita gente está agora aberta para esse problema. Afinal, era exatamente este o ponto do Occupy Wall Street. Todo mundo sabe que os circuitos de investimento que causaram a crise estão de volta a seus velhos truques e que nada foi feito no sentido de uma reforma estrutural para prevenir um derretimento global, no futuro próximo. Os norte-americanos estão bem conscientes de que Obama usou os impostos para socorrer os bancos, cujos esquemas predatórios quase derrubaram a economia global — mas não fez nada para ajudar as 10 milhões de pessoas que perderam sua casa na crise de execução das hipotecas. Não há dúvidas de que muitos estão abertos a repensar esse sistema. Nessa questão, nem a direita nem o centro têm nada a oferecer, de modo que é uma grande oportunidade para a esquerda.

Gostaria agora de debater algumas preocupações teóricas. No seu artigo “A morada escondida de Marx” (“Marx’s HIdden Abode”), na New Left Review, você argumentou longamente sobre como o valor é produzido não apenas pelo trabalho produtivo, mas também pelo trabalho não remunerado. Este último seria o que, na verdade, suporta e sustenta o primeiro. A certa altura você sugere que uma parte da expansão do capitalismo é o “potencial emancipatório do capitalismo”. Esse “potencial emancipatório” é um tema muito debatido no pensamento marxista. Argumenta-se que frequentemente o trabalho não livre é ainda mais aprisionado, na dialética da “dupla liberdade” do capitalismo. Nesse contexto, como se pode entender o potencial emancipatório do capitalismo no que diz respeito ao trabalho não livre?

A expressão “dupla liberdade” é irônica. O lado positivo tem a ver com o fato de podermos circular e termos o direito de aceitar “voluntariamente” um contrato de trabalho. Mas, como você sabe, ela carrega um outro lado. Ao tornar-se livre para vender sua força de trabalho, uma pessoa também livrou-se de – quer dizer, foi privada de – ter acesso aos meios de sub-existência e aos meios de produção. Marx ressaltava que os proletários haviam sido “libertos” do acesso à terra, ferramentas, matérias primas e outros bens de que necessitariam para organizar seu próprio trabalho e satisfazer suas necessidades. Em consequência, não têm escolha senão aceitar um contrato de trabalho com um capitalista. O lado bom da liberdade está severamente comprometido, quando não é simplesmente ilusório.

liberdade no capitalismo é de fato uma faca de dois gumes. Se alguém é escravo ou servo, a possibilidade de tornar-se um trabalhador remunerado é certamente um passo adiante, como o próprio Marx frequentemente ressaltava. Mas isso não significa que essa pessoa se torne livre num sentido completo e robusto. Ao contrário, o proletariado torna-se sujeito de dominação. De modo que eu não superestimaria o potencial emancipatório do capitalismo, mas também não o ignoraria.

O ponto focal, contudo, é outro: o capitalismo não é um sistema uniforme. Ele não trata todo mundo do mesmo modo ao mesmo tempo. Mesmo quando “emancipa” alguns da dependência e trabalho forçado, transformando-os em proletários duplamente livres, ele deixa outros – muitos outros, de fato – em contextos e formas de dominação tradicionais. Ou, ainda, transforma aquelas formas e contextos tradicionais em formas novas, frequentemente muito opressivas.

De fato, argumentei recentemente, na palestra Contribuições ao Conhecimento Contemporâneo, que a exploração de “trabalhadores livres” está intimamente ligada — depende, na verdade — da expropriação de “outros” dependentes. O que quero dizer com expropriação é o sequestro de bens de pessoas subjugadas (seu trabalho, terra, animais, ferramentas, crianças e corpos) e o afunilamento desses bens sequestrados em circuitos de acumulação de capital. Compreendida dessa maneira, a expropriação difere nitidamente da exploração. A exploração é mediada por um contrato salarial: o trabalhador explorado troca “livremente” sua força de trabalho por salários que supostamente cobrem os custos sociais médios necessários a sua reprodução. A expropriação, ao contrário, dispensa a folha de parreira do consentimento e toma brutalmente propriedade e pessoas, sem contrapartida – seja por força militar ou por dívida. Minha visão é como a de Rosa Luxemburgo e David Harvey: a exploração por si só não poderia sustentar a acumulação de capital ao longo do tempo. Esta depende, antes, de contínuos movimentos de expropriação. Então, os dois “ex” estão interligados. E é o processo combinado de exploração e expropriação que cria o valor excedente.

Essa ideia é lindamente ilustrada numa frase de Jason Moore, relativa ao início da industrialização. Ele diz, “Atrás de Manchester fica Mississippi”. Isso significa que a indústria têxtil altamente rentável de Manchester, sobre a qual Engels escreveu, não seria rentável sem o algodão barato fornecido por meio do trabalho escravo das Américas. Sou tentada, por sinal, a acrescentar um terceiro M — para Mumbai, para assinalar o importante papel desempenhado no crescimento de Manchester pelo destruição calculada da manufatura têxtil da Índia pelos britânicos. Este é um caso em que a expropriação é condição para a possibilidade de exploração lucrativa. O capitalismo joga um jogo duplo com as pessoas, encaminhando alguns à “mera” exploração e condenando outros à brutal expropriação — uma diferença que historicamente tem sido associada com império e raça. De modo que eu rejeito a alegação, com frequência atribuída a Marx, de que o valor é produzido apenas pelo trabalho assalariado. Há muitos outros fatores não assalariados no processo, inclusive o trabalho social-reprodutivo das mulheres, sem o qual o trabalho assalariado não seria possível.

Para aprofundar isso, você poderia por favor explicar essa dinâmica do potencial emancipatório do capitalismo tendo em mente as economias “periféricas”? Você acha que pode-se continuar a pensar nelas como periféricas, num contexto do neoliberalismo que parece prover liberdade completa ao capital, ao restringir o trabalho em bases nacionais?

O conceito de “centro e periferia” faz menos sentido agora do que fez em períodos anteriores, mas estamos ainda lutando para encontrar uma alternativa satisfatória. Defensores da teoria de sistema-mundo falam de países semi-periféricos com estratégias para subir os degraus da escada de valor agregado baseados na produção de commodities. Mas mesmo isso não é inteiramente adequado para uma situação em que a indústria está sendo realocada em escala maciça. Dado o peso das economias de países como os membros do BRICS, é difícil chamá-los de “semi-periféricos”, quanto mais de periféricos. O que complica a situação ainda mais é que, a despeito de seu peso econômico, os países dos BRICS não estão (ainda?) em posição de afirmar-se como potências globais no cenário mundial. Ao contrário, uma potência econômica decadente (os EUA) ainda desempenha o papel de hegemonia global, a despeito de sua credibilidade moral que desaba e a mudança em seu status para uma nação devedora.

Ainda não sabemos aonde tudo isso leva — e depende muito da China. Mas embora as coisas funcionem assim, precisaremos desenvolver um novo vocabulário e enquadramento para apreender a nova situação histórica.

Ainda assim, uma coisa já está clara: tem havido uma tremenda mudança no relacionamento entre exploração e expropriação no capitalismo financeiro. Isso ocorre em grande parte graças à realocação da indústria para longe de seu centro histórico e à universalização da expropriação pela dívida. Este último fator é óbvio no caso da desapropriação de terras e dos programas de ajuste estrutural, que impõem condicionalidades de empréstimo aos países do Sul global. Governos de todo lugar, da América Latina à África e à Grécia tiveram de cortar gastos sociais e abrir seus mercados ao capital estrangeiro, vampirizando seu povo para o benefício do capital. Nesses casos, a dívida é um veículo de expropriação na (ex) periferia e semiperiferia, mesmo que essas regiões também estejam se tornando locais primários de exploração.

Ao mesmo tempo, a expropriação está aumentando no “centro” histórico. À medida em que o trabalho precarizado e de baixos salários nos serviços ultrapassa o trabalho industrial sindicalizado, o capital paga seus trabalhadores menos do que o custo socialmente necessário para sua reprodução. No entanto, ainda precisa que esses trabalhadores cumpram o duplo dever como consumidores. Então, o que fazer? A solução é aumentar a dívida dos consumidores, que permite às pessoas comprar coisas baratas produzidas em outros lugares. Aqui, também, a expropriação alimenta aqueles que também são explorados em “McEmpregos”.

Ou seja, estamos diante de uma nova constelação, que mistura a velha divisão exploração/expropriação. A maior exploração costumava ocorrer no centro histórico, enquanto a maior parte das expropriações era feita na ex-periferia. Não é mais o caso. Agora os dois ex não formam um ou/ou, mas um ambos/e. Não mais alternativas mutuamente excludentes, eles encontram-se em grande proximidade; frequentemente as mesmas pessoas são submetidas a ambas.

Você perguntou sobre as implicações disso para a emancipação. Essa é, a meu ver, a questão chave para a esquerda em nossos tempos. O que se segue, politicamente, ao fato de que o capitalismo não mais atribui a exploração a um grupo social ou região e a expropriação a outro grupo ou região? Quanto era assim, os cidadãos-trabalhadores “livremente” explorados do centro podiam dissociar facilmente seus objetivos e lutas daqueles sujeitos subjugados, racialmente expropriados da periferia. E isso enfraquecia as forças da emancipação, pois permitiam o dividir-para-governar. Agora, contudo, quase todo mundo está sendo simultaneamente explorado e expropriado. Então, parece que a base material para aquelas divisões políticas intra-classe-trabalhadora está desaparecendo. Em teoria, isso poderia abrir perspectivas para alianças novas e ampliadas. Se aqueles que sofrem podem agora entender que exploração e expropriação são elementos — analiticamente distintos, mas praticamente enlaçados — de um único sistema capitalista, o qual é a própria causa raiz da maioria de seus sofrimentos, então podem concluir que compartilham um inimigo comum e deveriam unir forças. Mas esse resultado não é nem automático, nem assegurado. Por ora, ao menos, as mudanças associadas ao capitalismo financeiro estão gerando paranoia e ansiedade, que conduzem a formas exacerbadas de chauvinismo, inclusive nos populismos de direitaque discutimos no início.

Na verdade, fechamos agora um círculo completo nesta conversa. Mas devo ressaltar novamente agora o que disse antes. Ainda que solidariedades ampliadas não sejam geradas automaticamente, pelo simples fato de que ocorreu uma mudança estrutural, elas ainda podem ser criadas politicamente, através de intervenções políticas de esquerda. Estas, como disse antes, precisam rejeitar firmemente os jogos táticos-assustadores que o liberalismo desempenha com a palavra “populismo”. Sem medo dessa palavra, e determinados a conquistar aqueles que estão agora atraídos por suas variantes de direita, devemos montar nossa própria crítica de esquerda estrutural-sistêmica do neoliberalismo progressista e nossa própria visão transformadora de uma alternativa emancipatória. Rompendo definitivamente tanto com a economia neoliberal quanto com as várias políticas de reconhecimento que ultimamente lhe deram suporte, devemos abandonar não apenas o etnonacionalismo excludente, mas também o individualismo liberal-meritocrático. Somente unindo uma política de distribuição fortemente igualitária a uma política de reconhecimento substancialmente inclusiva, sensível à classe, podemos construir um bloco contra-hegemônico capaz de nos levar além da crise atual, em direção a um mundo melhor.

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/581999-uma-feminista-propoe-repensar-a-esquerda

O nepotismo no Ministério das Relações Exteriores de Angola

O Ministério das Relações Exteriores (MIREX) desmentiu ontem informações postas a circular nas redes sociais segundo as quais altos membros da Direcção do Ministério das Relações Exteriores estariam a admitir familiares e amigos para o quadro daquele  Departamento Ministerial.

Um pormenor da 7ª reunião de embaixadores realizada este ano em Luanda
Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro

Segundo uma nota do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa, a abertura de novas vagas no MIREX, como em qualquer outra instituição pública, tem como pressupostos fundamentais a disponibilidade de dotação financeira por parte do Ministério das Finanças e ao processo de funcionários que passarão à condição de reforma, abrindo, assim, novas vagas internamente. O MIREX esclarece que está a levar a cabo o processo de reforma e de redimensionamento do pessoal interno e das Missões Diplomáticas e Consulares, tendo sido regularizados, junto do Tribunal de Contas, processos de 54 funcionários que se encontravam em regime de Contrato a trabalhar no Mirex desde 2014.
Os referidos funcionários, acrescenta a nota, foram admitidos, nessa condição de vínculo precário, pelas anteriores direcções do MIREX.
A nota explica que recentemente, pela primeira vez no MIREX, foi realizado um concurso interno, com a participação de 180 funcionários, para a rotação dos quadros diplomáticos e administrativos, cujos resultados são de conhecimento de todos os funcionários.
Desse processo, acrescenta, alguns funcionários, com mais de 20 anos de serviço, tiveram ajuste na categoria, de modo a adequar as funções que exercem nas Missões Diplomáticas e Consulares, assim se fazendo justiça.
O Ministério das Relações Exteriores informa que dará continuidade ao processo de reforma, quer nos Serviços Executivo Internos, quer nos Serviços Executivo Externos, aplicando as medidas anunciadas e aprovadas em assembleia de trabalhadores, realizada no dia 15 de Março deste ano.
A nota alerta que o processo de re-forma em curso  tem vindo a “inquietar” alguns funcionários que,  descontentes, resistem à mudança e, sob forma de anonimato, usam as redes sociais tentando pôr em causa o trabalho que está a ser realizado.
Em Maio deste ano, o Presidente João Lourenço avisou que não vai tolerar o nepotismo praticado por quadros responsáveis do Ministério das Relações Exteriores ou chefes das missões diplomáticas e orientou o ministro a afastar “funcionários sem qualificações, nomeados apenas por serem familiares ou protegidos deste ou daquele político”.
A medida, disse o Presidente da Re-pública ao discursar na abertura da oi-tava reunião anual de embaixadores, a primeira do mandato do actual Executivo, deve-se à necessidade de inaugurar uma nova era no sector, marcada com a redução das missões diplomáticas e consulares e a consequente diminuição do pessoal.
João Lourenço afirmou na altura que a escolha dos que vão regressar ao país e os que ficam nas Embaixadas depende do mérito. “Queremos inaugurar uma era de maior responsabilização, onde não toleraremos a má gestão financeira e patrimonial ou ainda o nepotismo”, disse o Presidente, sublinhando que são “medidas corajosas, mas necessárias”.
“Esta é uma oportunidade que o senhor ministro, com certeza, não perderá para mexer naqueles funcionários sem qualificações, que foram nomeados apenas por serem familiares ou de alguma forma protegidos deste ou daquele político”, acrescentou o Presidente, que pediu a todos os que trabalham directamente com os fundos do Ministério, uma “gestão parcimoniosa e exemplar dos fundos e do património da instituição”.
“Pretendemos ver um Ministério das Relações Exteriores organizado e funcional, onde se respeite a carreira diplomática”, sublinhou.

Inglaterra reconhece o papel dos países africanos na economia global

O primeiro-ministro britânico também deve visitar Robben Island, onde o ex-presidente Nelson Mandela foi preso por décadas para comemorar o centésimo aniversário de seu nascimento.  (Reuters / Andreas Gebert)
A primeira-ministra britânica também deve visitar Robben Island, onde o ex-presidente Nelson Mandela foi preso por décadas para comemorar o centésimo aniversário de seu nascimento. (Reuters / Andreas Gebert)

A primeira-ministra britânica Theresa May aterrissou na Cidade do Cabo na terça-feira, quando iniciou uma turnê pelo continente africano, onde espera estabelecer as bases para os acordos comerciais pós-Brexit.

Maio está enfrentando pressão em casa dos chamados “remanescentes”, céticos em relação à sua capacidade de forjar acordos comerciais, uma vez que a Grã-Bretanha rompe com Bruxelas, bem como com os Brexiteers, temerosos de que ela não proporcione uma pausa.

Sua turnê pela África do Sul, Nigéria e Quênia – a primeira de maio até o continente desde que se tornou primeira-ministra em 2016 – será vista como um esforço para carimbar sua autoridade em seu premierhip em apuros.

“Enquanto nos preparamos para deixar a União Européia, chegou a hora de o Reino Unido aprofundar e fortalecer suas parcerias globais”, disse May em um comunicado.

“A África está à beira de desempenhar um papel transformador na economia global”, acrescentou ela.

May usará um discurso na Cidade do Cabo para mostrar como a Grã-Bretanha pode reforçar sua parceria com a África, “particularmente trazendo o poder transformador do comércio e investimento do setor privado do Reino Unido”, disse seu escritório.

O ex-ministro das Relações Exteriores Boris Johnson, cuja saída de julho do gabinete levou o governo de May à beira, disse em seu discurso de renúncia que a atual política Brexit de maio prejudicaria a capacidade de Londres de negociar acordos comerciais independentes.

Sacrifício da Primeira Guerra Mundial 

May apresentará então o presidente Cyril Ramaphosa  com o sino da tropa SS Mendi, que afundou no Canal da Mancha em 1917, afogando mais de 600 tropas sul-africanas que se preparavam para se juntar às forças aliadas na Primeira Guerra Mundial.

Foi o pior desastre marítimo na história do país Africano, e se tornou um símbolo de seu sacrifício da Grande Guerra.

O sino foi dado a um repórter da BBC em uma estância balnear britânica em 2017, após uma denúncia anônima, segundo a emissora.

O primeiro-ministro também deve visitar Robben Island, onde o ex-presidente Nelson Mandela foi preso por décadas para comemorar o centésimo aniversário de seu nascimento.

May irá para a Nigéria na quarta-feira para reuniões com o presidente Muhammadu Buhari na capital Abuja e com as vítimas da escravidão moderna em Lagos.

Na quinta-feira, ela se encontrará com o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, logo após seu retorno do presidente dos EUA, Donald Trump, em Washington, e antes de viajar para a China para se encontrar com o presidente Xi Jinping.

A primeira-ministra, em seguida, verá as tropas britânicas em ação de treinamento e visitar uma escola de negócios, antes de concluir a viagem em um jantar de estado organizado por Kenyatta.

Fonte: https://mg.co.za/article/2018-08-28-may-kicks-off-first-africa-tour-as-british-pm

Cooperação entre a Marinha brasileira, sul africana e russa

or Roberto Lopes
Especial para o Poder Naval

O site oficial da Marinha da África do Sul divulgou, na terceira quinta-feira deste mês (16.08.), que, na última semana de julho, ao recepcionar, na cidade de São Petersburgo, o vice-almirante Mosiwa Samuel Hlongwane, seu colega Comandante da Força Naval sul-africana, o Chefe da Armada Russa, almirante Vladimir Ivanovich Korolyov – um submarinista de 63 anos –, “expressou gratidão pela presença da delegação sul-africana e garantiu ao Comandante da Marinha [sul-africana] que tal participação contribuiria para o desenvolvimento da cooperação bilateral entre os dois países”.

De acordo com o texto do site (disponível em aqui), redigido pelo militar sul-africano M. L. Tabhete, Korolyov “chamou a atenção” de Hlongwane para o fato de “que desde 2016 a Marinha Russa vinha promovendo a ideia de exercícios combinados entre os dois países. ‘Esperamos que estes exercícios ocorram, num futuro próximo, não apenas para o benefício dos países participantes, mas para toda a comunidade internacional’.”

E o comunicado prossegue: “Além disso, o almirante V.I. Korolyov usou o debate para expressar determinação em participar do IBSAMAR, que ele descreveu como um meio crucial para alcançar a incisividade militar de todos os estados membros”.

O IBSAMAR é um exercício naval bianual que reúne forças navais da Índia, Brasil e África do Sul, e, precisamente este ano, terá, durante a primeira quinzena de outubro, a sua 6ª edição.

As manobras transcorrerão ao largo do litoral sul-africano. A unidade que representará a Marinha do Brasil (MB) será a corveta Barroso, que já se encontra na travessia do Rio para o porto militar de Simon’s Town. A bordo do navio seguem um helicóptero Esquilo (UH-12), e uma fração do Grupamento de Mergulhadores de Combate.

O exercício IBSAMAR VII, que, em teoria, poderá receber navios de guerra russos, terá lugar na costa indiana, durante o último trimestre de 2020.

A MB não faz comentários sobre a revelação feita pelo site da Marinha sul-africana no último dia 16, mas é certo que a formalização do pedido do almirante Korolyov não pegou de surpresa o almirante Hlongwane, e é perfeitamente crível supor que o Comandante da Marinha sul-africana já tenha conversado sobre o tema da participação russa com os seus dois colegas da operação IBSAMAR: o almirante de esquadra brasileiro Eduardo Leal Ferreira e o vice-almirante indiano Sunil Lanba.

De resto, é preciso lembrar que os governos de Brasília, Nova Déli, Moscou e Joanesburgo já mantém uma interação político-econômica de certa intensidade no âmbito do BRICS, grupo de países emergentes que, engrossado pela China, passou a funcionar, em 2009, por meio de reuniões de cúpula anuais.

Comandante da Marinha Sul-Africana e o Comandante da Marinha Russa, V.I. Korolev.JPG
Comandante da Marinha Sul-Africana, vice-almirante M.S. Hlongwane e o Comandante da Marinha Russa, almirante V.I. Korolyov
Navios durante uma operação IBSAMAR
Navios durante um exercício IBSAMAR

Azerbaijão – Mosiwa Hlongwane viajou à Rússia no período de 27 a 31 de julho (três semanas depois de ter completado 56 anos de idade), para participar das festividades do 322º Aniversário da Marinha Russa – criada em 30 de outubro de 1696 por um decreto do jovem Czar Pedro I da Rússia (mais conhecido como Pedro, O Grande).

A data foi comemorada com uma parada naval de 39 embarcações, 38 aeronaves e mais de 4.000 militares – evento presidido pelo presidente Vladimir Putin no Rio Neva que, além do almirante sul-africano, reuniu, entre outros convidados estrangeiros, chefes e representantes das marinhas da Índia, Paquistão, Coreia do Sul, Tailândia e Indonésia. Todos devidamente obsequiados com reuniões privadas de trabalho com o chefe da Armada Russa, e com visitas ao Museu Naval Central de São Petersburgo e ao Museu do Estado Hermitage (um dos maiores museus de arte do mundo), também sediado na cidade.

Na Rússia, o Comandante da Força Naval sul-africana sentiu-se à vontade.

Durante as décadas de 1980 e 1990 ele cumpriu estudos básicos de Navegação e cursos de aperfeiçoamento nas escolas da Marinha do Azerbaijão, em Baku, dentro da Doutrina Naval preconizada pela antiga União Soviética. Muitos de seus professores eram oficiais da Frota Vermelha.

Nada a ver, claro, com a formação de qualquer chefe naval brasileiro.

Desde o fim da 2ª Guerra Mundial a MB vem mantendo escrupulosa distância da Marinha russa (tratada, nos anos da Guerra Fria, como inimiga) e das suas ofertas de meios e de equipamentos.

Submarino classe Akula

Akula II – Mas isso não tem impedido os oficiais lotados na Comissão Naval Brasileira na Europa, sediada em Londres, de visitar, regularmente, o Salão Naval de São Petersburgo – principal mostra de sistemas navais russos.

Em junho de 2017, a agência de notícias russa Itar Tass informou que dois oficiais da Marinha do Brasil haviam estado no estaleiro onde se encontrava em construção uma corveta do Projeto 20382 Classe Tiger, o que indicaria interesse da MB nesse projeto.

Em Brasília, o Centro de Comunicação Social da Marinha emitiu nota oficial, esclarecendo que a visita fora efetivamente realizada, mas apenas para permitir que os militares, que participavam do Salão de São Petersburgo, conhecessem as características do escolta russo, que possui pontos em comum com o programa em andamento para aquisição de um projeto que sirva à nova classe de corvetas Tamandaré.

Até uns dez anos atrás, o Comando Naval Russo enxergava a Marinha do Brasil com potencial semelhante ao da Força Naval indiana.

Prova disso é que, conforme o Poder Naval pôde apurar, no fim do segundo mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva, a Marinha Russa propôs transferir para a Esquadra Brasileira, por meio de um leasing, dois submarinos nucleares classe Akula II – um tipo de cooperação que ela já havia iniciado com a Marinha da Índia.

Entre meados dos anos de 1980 e o início dos anos de 2000, os pesados Akula, de 8.500 toneladas à superfície e quase 14.000 toneladas submersos, constituíram a principal capacidade ofensiva da Armada russa.

Sete modelos Akula I foram comissionados pelos russos entre 1984 e 1990, um modelo II começou a operar em 1995, e um Akula III foi incorporado em 2001. O navio recebido com maior aceitação pelos chefes navais russos foi, entretanto, o Akula Improved, variante melhorada do Akula I. Nada menos do que sete desses barcos entraram em serviço no período de 1991 a 2009.

Diante do oferecimento da Marinha russa, e mediante autorização expressa do então presidente Lula, o ministro da Defesa da época, Nelson Jobim, autorizou que dois oficiais da MB (um deles, engenheiro naval) fossem à Rússia conhecer o classe Akula II.

Os relatórios desses militares retrataram a imponência do submarino, de 113,3 m de comprimento, que, na Força Naval Russa, exigia uma tripulação de 31 oficiais e 31 subalternos.

Mas, em Brasília, o ministro Jobim concluiu que (a) o Akula II era um submarino grande demais para ser operado pela Força de Submarinos da Esquadra; (b) o leasing perturbaria enormemente o esforço que a MB fazia para desenvolver o seu próprio submarino de propulsão nuclear, desagradando os almirantes que defendiam o projeto com unhas e dentes; e (c) a aproximação com os russos arriscava criar arestas importantes com a Marinha dos Estados Unidos. O assunto foi, então, abandonado.

Mulheres de Guiné Bissau exigem cumprimento das Lei das cotas

Lei da Cota Histórica foi aprovada a 2 de agosto na Assembleia Nacional Popular. Obrigada os partidos a incluir 36% de mulheres nas suas listas. Precisa ainda ser promulgada pelo presidente da República

A Lei da Cota Histórica aprovada a 2 de agosto na Assembleia Nacional Popular (ANP) pulverizou a Guiné-Bissau com a agitação provocada pelas reinvidicações de mulheres pelos seus direitos políticos. As guineenses exigem ter acesso aos órgãos de decisão de que foram afastadas depois da abertura da pátria de Amílcar Cabral ao sistema de democracia multipartidária.

Hoje em toda a Guiné-Bissau de Norte ao Sul e de Leste a Oeste, nos Ministérios, nas estruturas das comunidades rurais, nas estruturas étnicas, nos mercados, nos bares, nas discotecas dos bairros das grandes cidades do país não se fala de outra coisa que não seja a lei da Cota Histórica conquistada pelas mulheres guineenses na ANP sob a batuta da Plataforma Política das Mulheres da Guiné-Bissau, da Rede das Mulheres Parlamentares e dos ativistas dos direitos políticos das Mulheres da Guiné-Bissau.

“A lei da Quota Histórica vai, sem dúvida, acabar agora de uma vez por todas com a injustiça social contra as mulheres”, explicou a DN a presidente da Rede das Mulheres Parlamentares da Guiné-Bissau, a deputada Suzi Barbosa. No seu entender já era tempo de a mulher guineneense reinvidicar o seu direito de acesso aos órgãos de decisão. “Na Guiné-Bissau temos uma população maioritariamente feminina. O país tem 52% de mulheres e não se sabe muito bem a razão pela qual elas não têm acesso até agora aos lugares de decisão”, defendeu, manifestando de seguida ao DN a sua convicção: “Com a lei da Quota Histórica as mulheres guineenses nunca mais serão usadas pelos partidos políticos nas campanhas eleitorais como carne para obter votos. Agora temos que integrar as mulheres nas listas para as legislativas como candidatas legitimas para sermos também chamadas a elaborar e implementar a gestão das políticas públicas”.

A deputada Suzi Barbosa espelha a imagem real da convicção e predisposição das mulheres guineenses para desencadear agora uma luta desenfreada para conquistar de uma vez por todas os seus direitos políticos de acesso aos órgãos de decisão.
E a três meses das legislativas, ameaçam boicotar o próximo processo eleitoral se os partidos políticos não cumprirem a lei da Quota Histórica que exige a cada força partidária a integração nas suas listas de candidatos ao escrutínio de 18 de novembro 36% de mulheres.

Apoiadas pela Rede das Mulheres Parlamentares, pela Plataforma Política das Mulheres e pelos ativistas dos direitos políticos das mulheres, as mulheres guineenses assumiram elas próprias o papel de fiscalizar a lei da Quota Histórica no ato da entrega das listas no Supremo Tribunal de Justiça em Bissau.

“Seremos nós as mulheres membros dos partidos políticos, deputadas, ativistas dos direitos políticos das mulheres e membros de organizações da sociedade civil que vamos fiscalizar o cumprimento da lei nas listas dos candidatos as legislativas”, asseverou Suzi Barbosa, acrescentando que “ninguém neste país é melhor do que as mulheres na implementação das políticas públicas. Portanto, se os partidos não cumprirem a lei da Quota Histórica, reservamo-nos o direito de boicotar as próximas legislativas de 18 de novembro”.

A Lei da Cota Histórica é assim designada em virtude de o fundador da nacionalidade guineense, Amílcar Cabral, ter aplicado já durante a luta armada pela libertação nacional uma quota de paridade na constituição dos Comítés de Tabanca. Na altura, as mulheres partilhavam de forma equitativa a elaboração das politicas da luta e da gestão de dois terço das regiões libertadas na altura sob domínio colonial português. Dos cinco membros de Comités de Tabanca, dois eram mulheres. Assim sendo, as guineenses defendem também hoje, numa única voz, que se as heroínas como Titina Sila e Carmen Pereira, e outras ainda vivas como Adja Satu Camará e Francisca Pereira, tiveram coragem de exigir a Amílcar Cabral a Quota de Paridade durante a histórica luta armada da libertação nacional, elas vão também fiscalizar nas próximas legislativas todas listas de candidatos entregues no Supremo Tribunal de Justiça para exigir a democracia paritária.

As vendedoras dos mercados de Bandim e de Bairro militar, em Bissau, embora não tenham grande informação sobre a lei da Quota Histórica, sabem como as restantes de todo o país que ela já foi aprovada na ANP. Estão dispostas também a apoiar a luta das mulheres guineenses para ter acesso aos órgãos de decisão, no sentido de poder ativamente participar na elaboração e gestão das políticas públicas do país.

Motivadas pela aprovação da Lei da Quota Histórica na ANP, as organizações das mulheres guineenses garantem que a partir de agora nenhuma mulher votará nos partidos que não cumprirem com a inclusão de 36% de mulheres nas suas listas. No olhar da Rede das Mulheres Parlamentares, da Plataforma Política das Mulheres e dos ativistas dos direitos políticos das mulheres, “as guineenses não podem continuar a ser enfeites domésticos e deixarem os homens monopolizar os órgãos de decisão para legislar, tomar medidas e criar politicas públicas apenas para o consumo das mulheres”.

A presidente da Rede das Mulheres Parlamentas acredita que a “inclusão das guineenses na elaboração das Políticas Públicas as torna mais humanitárias”. Porque elas sabem melhor do que homens como cuidar da família. Por seu lado, o sociólogo guineense e ativista dos direitos políticos das mulheres da Guiné-Bissau, Miguel de Barros, sustentou como prova de que as mulheres serão boas gestoras das politicas públicas o facto de “na Guiné-Bissau quando há fome a mulher lembra-se de dar de comer aos filhos enquanto o homem prefere comer tudo sob a alegação de poder ir trabalhar no dia seguinte para adquirir mais sustento para a família”.

Miguel de Barros e Suzi Barbosa assumem unanimemente que a crise política e institucional que a Guiné-Bissau viveu há três anos e levou ao encerramento da ANP deveu-se ao facto de os homens monopolizarem os órgãos de decisão, legislando, tomando medidas e criando sozinhos todas as políticas públicas sem participação das mulheres.

Os dois promotores e defensores acérrimos da lei da democracia paritária na Guiné-Bissau disseram ao DN que não obstante “as mulheres na Guiné-Bissau representarem 52% da população do país, mas é o grupo mais vulnerável e excluído da esfera de decisão”. No entender deles, a vulnerabilidade é um dos fatores que levam as mulheres guineenses a apresentarem níveis mais baixos de educação do que os homens. Os casamentos e gravidez precoces são também apontados por eles como fatores que reduzem a possibilidades de as mulheres terem o acesso às oportunidades de educação e desenvolvimento profissional. “A maioria dos 30% da população guineense que não tem o acesso à educação são mulheres.

Quando se fala nos partidos políticos da inclusão de mulheres nas listas para as legislativas, os homens não recusam, mas afirmam sempre que tem de haver mulheres com capacidade”, asseverou ao DN Miguel de Barros. Já Suzi Barbosa contra-ataca: “Nós as mulheres, depois da declaração de Cantchungo em 2015, interrogamo-nos se realmente todos os homens deputados que estão na ANP têm capacidades?”. E logo assume: “Hoje há muitas mulheres na Guiné-Bissau com capacidade superior à de muitos homens deputados que andam de um lado para outro na ANP. O que existe agora no nosso país é a falta de vontade politica dos lideres dos partidos políticos em as nomear para os órgãos de decisão”.

Para a vice-presidente da Plataforma Política das Mulheres da Guiné-Bissau, Aissatu Indjai, foi na realidade a ausência de vontade politica dos homens em aceitar a democracia paritária no país que levou a organização das Mulheres que preside, os ativistas dos direitos políticos das Mulheres guineenses e com o apoio da ONU-Mulheres, a criarem há seis anos o projeto da lei da Quota Histórica para garantir os direitos políticos das mulheres guineenses a uma maior participação e inclusiva na esfera de tomada de decisão.

“As organizações promotoras e defensoras dos direitos das mulheres na Guiné-Bissau assumiram, a partir da declaração de Cantchungo, um compromisso firme no sentido de mobilizar as mulheres em todos os partidos políticos, nas ONG, na sociedade civil e nas estruturas das comunidades locais para lutarmos em bloco a favor do princípio da não-discriminação e do gozo igualitário do direito de participação nos órgãos de decisão permitindo, assim, eliminar todas as formas de descriminação contra as mulheres na Guiné-Bissau”, explicou Aissatu Indjai a DN, visivelmente orgulhosa pela união das mulheres em todo o território nacional em torno da lei da Quota Histórica. Esta, diz, não obstante várias dificuldades que têm pela frente, “vai trazer a democracia paritária na Guiné-Bissau”.

Não obstante os discursos eufóricos das organizações promotoras e defensoras da lei da Quota Histórica, para se chegar à democracia paritária nas próximas legislativas as mulheres guineenses têm ainda uma pedra no sapato. Porque se não houver a vontade política do Presidente, José Mário Vaz, em promulgar a tempo a lei da Quota Histórica para entrar em vigor 60 dias antes do próximo processo eleitoral, esta não será ainda aplicada nas próximas legislativas de 18 de novembro.

Mas, Aissatu Indjai afiançou ao DN “nós as mulheres já temos a promessa do presidente José Mário Vaz de promulgar, em menos de 24 horas, a lei da Quota Histórica para a devolver à ANP, e da Assembleia para o Ministério da Função Pública para a sua publicação no boletim oficial”.

Instada a pronunciar-se se os três meses que faltam para a realização do pleito eleitoral será suficiente para promulgação e publicação da lei no boletim oficial, a vice-presidente da Plataforma Política das Mulheres garantiu ao DN que a sua organização está diariamente a acompanhar a evolução da trajetória que a lei da Quota Paritária Histórica está a percorrer na Presidência da República e que está confiante que ela irá entrar em vigor antes das próximas eleições.

“Na verdade estamos diariamente a acompanhar de perto o percurso que a lei da Quota Histórica está a percorrer na Presidência da República. Estamos confiante que o Presidente da República José Mário Vaz promulgará o documento em menos de 24 horas”, garantiu ao DN. Aissatu Indjai manifestou ainda a sua convicção que, com a lei da Quota de paridade Histórica, as mulheres guineenses irão mostrar ao mundo e, em particular, aos países da subregião, como é que as mulheres se podem unir por uma causa, mesmo pertencendo aos vários partidos políticos com distintas ideologias.

Mulheres nas estruturas do poder tradicionais

No período pré-colonial, antes da luta armada da libertação nacional e ao longo da toda a sua caminhada histórica, a mulher guineense tem demonstrado uma forte capacidade de liderança na esfera de decisão e na gestão das políticas públicas nas estruturas das suas comunidades locais. “Só perdeu estes predicados da liderança com a instauração do regime colonial português que a retirou do poder que detinha de regular, por exemplo, as atividades comerciais ou de desempenhar dentro das estruturas das Mansas (Regulados) o papel de conselheiras dos reis que governavam um determinado reino de um império”, assegurou ao DN Miguel Barros, sociólogo e ativistas guineense dos direitos políticos das mulheres.

Miguel de Barros garantiu ainda existirem documentos históricos que provam que no “império de Gabú, por exemplo, as mulheres eram conselheiras de Rei, as mediadoras entre as diferentes classes do império e serviam também de elementos de ligação quando houvesse uma rutura na administração das politicas públicas dos impérios”. E também, de acordo com Miguel de Barros, na cidade de Cacheu, na primeira fase da escravatura, “as mulheres Nharas desempenhavam um papel importante no comércio dos escravos. Os mercadores europeus não tinham o direito do acesso a terra e eram as mulheres Nharas que regulavam as atividades do comércio de escravo com os mercadores estrangeiros, em particular, com os europeus”. Miguel de Barros testemunhou ainda a DN “as mulheres assumiam um papel importante na comunidade. Para além de confecionarem e venderem os produtos caseiros que geravam grandes rendimentos para as suas famílias, eram elas que se encarregavam de administrar e controlar in loco as atividades comerciais dos produtos e geriam também diretamente os trabalhadores das propriedades agrícolas”.

Para além das Nharas, o ativista explicou ao DN que “as mulheres Baloberas gozavam também de um grande respeito e prestigio nas estruturas das comunidades da linhagem de sucessões matrilinear porque era reconhecido nelas o dom de comunicar com os ancestrais como interpretante, vidente e auxiliares religiosas”. Assim sendo, de acordo com Miguel de Barros, “as cerimónias religiosas eram orientadas pelas estas sacerdotisas Baloberas”, mesmo que “o Régulo quisesse tomar medida sobre as políticas públicas do reino tinha que consultar, em última instância, as Baloberas porquanto eram as grandes conhecedoras de plantas medicinais”.

Regime colonial português e poder dos homens na Guiné-Bissau

Entre os ativistas e as organizações das mulheres defensora da lei da Quota Histórica a leitura é unânime que foi a instauração do regime colonial português na Guiné-Bissau que destruiu toda a arquitetura do poder paritária tradicional,​​​​​​ outrora, em algumas estruturas de comunidades, organizado em pirâmide com o Rei no topo e seguido pelos chefes religiosos onde as mulheres detinham um enorme poder.

“O poder colonial português retirou, por exemplo, às mulheres Nharas de Cacheu o poder de regular as atividades de comércios com os mercadores europeus, relegando-as apenas para as atividades domésticas”, assegurou ao DN Miguel de Barros. Este ainda sustentou que “as mulheres passaram, assim, na sociedade guineense a sofrer várias exclusões simultaneamente. São excluídas por serem mulheres, por não serem mulheres grandes, por não ser da origem da família que pode influenciar o acesso aos recursos do próprio Estado e são excluídas economicamente”.

O sociólogo e ativista garantiu a DN que a participação equilibrada entre homens e mulheres nas estruturas de decisão esteve também presente na fase da mobilização e da organização do movimento da luta armada da libertação nacional, “mas o caráter violento da dominação colonial português contribuiu na desestruturação da lógica das instâncias de gestão do poder e da administração das ações públicas pelas mulheres e contribuiu ainda para a reprodução da lógica do poder de força dos homens após a independência da Guiné-Bissau que acabou por afastar as mulheres da esfera pública da decisão”.

Este caráter violento do regime colonial português é ainda hoje, pós-independência e com abertura democrática, apontado pelas organizações e pelos ativistas dos direitos políticos das mulheres guineenses como uma das razões da posição das mulheres nas instituições políticas e nos postos de decisões estarem aquém da conquista da paridade histórica da luta armada da libertação nacional. É, ainda na opinião das organizações das mulheres guineenses, o factor que está a acentuar progressivamente a desigualdade entre homens e mulheres, em particular, a nível da representatividade nos órgãos de soberanias, nas outras estruturas governamentais e no sector privado.

Na Guiné-Bissau, quando se analisa o período da vigência do regime do partido único e o da democracia multipartidária em termos da representação das mulheres nos principais órgãos de decisão há uma grande discrepância. No poder legislativo, por exemplo, existe uma grande disparidade entre homens e mulheres. O que não aconteceu na legislatura antes da abertura ao sistema de democracia multipartidária em que a representação feminina na ANP atingiu os 20% de deputadas, caindo logo no ano seguinte para 9% e jamais, volvidos 20 anos, atingiu essa percentagem.

As organizações das mulheres guineenses garantem que por influência do conflito político-militar de 1998-1999 a sétima legislatura (1999 – 2004) teve a menor representação de mulheres na ANP. O que na leitura das guineenses conduziu a “um maior reforço do papel da cultura de “Matchundadi” na Guiné-Bissau, enfraqueceu ainda mais a presença das mulheres nas listas eleitorais dos partidos e as suas capacidades de ação na política”. Assim, nas primeiras eleições legislativas de 1994, os oito partidos políticos concorrentes apresentaram nas suas listas a deputados 902 candidatos dos quais 92 eram mulheres e apenas 33 estavam em lugares elegíveis.

A democratização do sistema político favoreceu, na Guiné-Bissau, a criação, em 1991, de um Ministério dos Assuntos Sociais e Promoção Feminina cujo mandato visava coordenar e implementar as políticas de valorização do papel das mulheres no processo do desenvolvimento nacional. Tinha também como meta, garantir a participação plena das mulheres guineenses no processo de decisão. Mas, como garantem as organizações das mulheres da sociedade civil guineenses, “não conseguiu atingir essa meta pela falta de capacidade financeira em virtude da crise económica provocada na altura pelo conflito político-militar”.

Defendem ainda que “o fracasso das ações do Ministério dos Assuntos Sociais e Promoção Feminina reflete-se na ausência de uma estratégia nacional e uma ação pragmática visada para uma maior equidade na transição política, acabando por estender e transferir o seu mandato para as organizações de massas das mulheres dos partidos políticos”. Por outro lado, na leitura das mulheres guineenses “não constitui nenhuma surpresa que o grosso das pastas que as mulheres guineenses são chamadas a liderar sejam as ligadas a assuntos sociais” (Educação, Saúde, Solidariedade e Família). O que revela, ainda na leitura dos ativistas, “a reprodução de uma visão estereotipada da extensão das ocupações domésticas das mulheres para a esfera de tomada de decisões públicas”.

Na Guiné-Bissau, passados quase vinte anos da realização das primeiras legislativas, o número de mulheres que participaram no governo não chegou a 15%. Em 14 executivos que o país conheceu teve apenas 42 mulheres contra 323 homens num universo de 363 Ministros, ou seja 13% do total. A permanente instabilidade política que o país vive é aqui apontada pelas organizações das mulheres guineenses como “um dos fatores que desfavoreceu a presença de número das mulheres guineenses naquilo que deveria ser uma legislatura paritária. Por exemplo, em 18 anos de democracia o país conheceu 14 primeiros-ministros. O que, na opinião das organizações das mulheres guineenses defensoras da lei da Quota Histórica “torna difícil a consolidação da democracia paritária na pátria de Amílcar Cabral”.

Todavia agora as mulheres da Guiné-Bissau estão motivadas e convencidas que com a lei da Quota Histórica, acabarão de uma vez por todas com os constrangimentos da participação política das mulheres guineenses na esfera da decisão e que a lei paritária permitirá criar programas de fiscalização das listas dos candidatos dos partidos políticos às legislativas de 18 de novembro.

 

Fonte:https://www.dn.pt/mundo/interior/mulheres-guineenses-ameacam-boicotar-legislativas-de-novembro-9757438.html

Trump se envolve na reforma agrária da Africa do Sul

Johannesburgo – O governo da África do Sul criticou nesta quinta-feira uma mensagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Twitter, na qual o americano disse que pediu ao secretário de Estado, Mike Pompeo, que apure a reforma agrária sul-africana e a “matança em larga escala de fazendeiros” no país. O tuíte da noite da quarta-feira se referia a uma matéria da Fox News que criticava a posição do governo americano sobre a reforma agrária sul-africana.

Donald J. Trump

@realDonaldTrump

I have asked Secretary of State @SecPompeo to closely study the South Africa land and farm seizures and expropriations and the large scale killing of farmers. “South African Government is now seizing land from white farmers.” @TuckerCarlson @FoxNews

O rand sul-africano recuou em relação ao dólar após a mensagem de Trump. “A África do Sul rejeita totalmente a percepção estreita que apenas busca dividir nossa nação e nos lembrar de nosso passado colonial”, afirmou o governo em mensagem em sua conta oficial no Twitter. “A África do Sul acelerará o ritmo da reforma agrária de modo cuidadoso e inclusivo, que não divida nossa nação.”

O partido governista, Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), já disse que planeja mudar a Constituição para permitir a expropriação de terras sem o pagamento de indenizações, como forma de superar grandes desigualdades na posse da terra. Os brancos, que formam 8% da população nacional, detêm 73% das terras agricultáveis, segundo estimativas da associação de fazendeiros Agri. O presidente Cyril Ramaphosa diz que o processo será conduzido com cuidado para evitar desrespeito ao direito à propriedade e garantir a segurança alimentar e a produção agrícola.

Proprietários podem entrar na Justiça local contra o governo, caso tenham terras tomadas sem compensação justa. Mas ataques violentos sobre fazendeiros brancos chamam a atenção da imprensa local e estrangeira nos últimos anos, gerando protestos dos fazendeiros e de grupos de interesse dos brancos.

Levantamentos locais mostram que o número de fazendeiros mortos tem recuado nos últimos 20 anos, chegando à mínima de 47 em 2017/2018. Já os ataques contra fazendas, que incluem estupro, roubos e agressões, aumentaram nos dois últimos anos, para 561 em 2017/2018, embora bem abaixo da máxima de 1.069 ataques de 2001/2002.

Os jornais do ocente, sempre viram o meodelo de desenvolvimento econômico da Africa do Sul, em comparação ao que ocorria no Zimbabwe. O vlaor da defesa da branquitude sempre falou mais alto. Enquanto não se mexia nos direitos econômicos dos sul africanos,

2020 Quilombolas do Amapá serão mapeados pelo IBGE

AMAPA1

Projeto piloto do IBGE vai traçar perfil dos moradores e da região do Curiaú. Questionários serão aplicados também em outras comunidades tradicionais, entre 20 de agosto e 6 de setembro.


Por Rita Torrinha, G1 AP, Macapá

 

Pesquisa teste sobre quilombolas no Amapá começará pela comunidade do Curiaú, em Macapá (Foto: Gabriel Penha/Arquivo G1)Pesquisa teste sobre quilombolas no Amapá começará pela comunidade do Curiaú, em Macapá (Foto: Gabriel Penha/Arquivo G1)

Pesquisa teste sobre quilombolas no Amapá começará pela comunidade do Curiaú, em Macapá (Foto: Gabriel Penha/Arquivo G1)

Recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vão percorrer as casas de moradores do Curiaú, comunidade quilombola do Amapá, entre os dias 20 de agosto e 6 de setembro. O processo é parte de um plano piloto do instituto, que ocorre em todo o Brasil, para inserir, pela primeira vez, dados específicos sobre esse tipo de comunidade nas pesquisas. O resultado vai constar no Censo 2020.

Além do Curiaú, os questionários serão aplicados também na terra indígena Waiãpi, em Carapanatuba (comunidade extrativista), Santo Antônio e Lontra da Pedreira (comunidades rurais) e em áreas urbanas de Macapá. Essas porém, já constam no censo, mas o teste será mais ampliado, para identificação étnico-racial, modo de produção, contagem demográfica, escolaridade, entre outras informações.

De acordo com o IBGE, a inserção de perguntas específicas para quilombolas é uma tema que vinha sendo discutido internamente há pelo menos três anos. Desde então, o órgão vem avaliando com representantes quilombolas e especialistas qual a melhor forma de se fazer isso.

“Estamos destacando a primeira prova piloto para 2020. Terão outros refinamentos, mas ainda é o primeiro teste. Também terão outras provas pilotos, o censo experimental, até fechar o questionário”, explicou o supervisor de disseminação de informações do IBGE, Joel Lima.

A aplicação do questionário ocorrerá em 12 estados: Acre, Amapá, Rondônia, Maranhão, Ceará, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Em nota, o IBGE informou que “a iniciativa dá prosseguimento ao compromisso de fornecer informações cada vez melhores sobre povos e comunidades tradicionais, em conformidade com o Decreto nº 8.750 de 2016, que institui o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais”.

Mapeamento sobre quilombolas constará no Censo 2020 (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)Mapeamento sobre quilombolas constará no Censo 2020 (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)

Mapeamento sobre quilombolas constará no Censo 2020 (Foto: Rede Amazônica/Reprodução)

Serão usados dois tipos de questionários: de amostra e o básico, detalha Raul Tabajara, tecnólogo do IBGE. O básico consta de cerca de 20 perguntas. Já o da amostra é grande, porque investiga, em detalhes, escolaridade, renda, mortalidade, nupcialidade, fecundidade, trabalho, rendimento, tudo sobre o morador.

“Vamos observar a reação das pessoas para saber se há necessidade de alteração dos textos. Vamos também medir o tempo que se leva para aplicar a entrevista. Na área indígena, vamos verificar a necessidade de se contratar intérprete. Tudo isso será feito com o uso de um computador de mão”, falou Tabajara.

Se tudo ocorrer conforme o planejado – aplicação dos questionários em fase de teste em 2018, avaliação e correções em 2019 – em 2020 a pesquisa em comunidades quilombolas passará a ser definitiva no censo, e o primeiro resultado parcial deve ser divulgado no mesmo ano.

Fonte: https://g1.globo.com/ap/amapa/noticia/2018/08/20/censo-2020-vai-mapear-comunidade-quilombola-do-amapa-pela-primeira-vez.ghtml