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Como o Zimbabwe enfrentou o problema de saúde mental no país

Avós voluntárias
Image captionAs avós voluntárias participam do projeto sem treinamento médico, mas conseguem bons resultados (Crédito: Cynthia R Matonhodze)

Certa noite, o psiquiatra zimbabuano Dixon Chibanda recebeu uma ligação de um médico em uma emergência. Uma mulher de 26 anos chamada Erica, que Chibanda havia tratado no passado, havia tentado suicídio. O médico disse que precisava da ajuda de Chibanda para que Erica não repetisse a tentativa.

A paciente estava em um hospital a mais de 160km de distância de Harare, no Zimbábue. Então, Chibanda e a mãe de Erica bolaram um plano por telefone. Assim que ela fosse liberada do hospital, sua mãe a levaria para ver Chibanda e reavalariar o tratamento.

Duas semanas se passaram e Chibanda não teve notícias de Erica. Até que recebeu uma ligação da mãe da paciente dizendo que ela havia se matado três dias antes.

“Por que você não veio a Harare?”, Chibanda perguntou. “Nós havíamos combinado que assim que ela fosse liberada vocês viriam até mim!”

“Nós não tínhamos os US$ 15 da tarifa de ônibus para ir a Harare”, disse a mãe.

A resposta deixou o médico sem palavras. Nos meses seguintes, ele se sentiu assombrado pelo caso. A falta de acesso à saúde de Erica devido à distância e ao custo não era uma exceção e sim a regra em muitos países.

No mundo, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A depressão é a maior causa de problemas de saúde e contribui para 800 mil suicídios por ano, a maioria em países em desenvolvimento.

zi-area“Pensar demais”

Ninguém sabe quantos habitantes do Zimbábue sofrem de “kufungisisa”, a palavra local para depressão (significa literalmente “pensar demais” em shona, a língua local). Mas Chibanda tem certeza de que o número é alto. “No Zimbábue, gostamos de dizer que temos quatro gerações de trauma psicológico”, diz ele, citando a Guerra Civil da Rodésia, o massacre de Matabeleland e outras atrocidades.

Mesmo assim, os que sofrem de depressão têm poucas opções em razão da escassez de profissionais da saúde mental. Chibanda, diretor da Iniciativa Africana de Pesquisa dobre Saúde Mental e professor de psiquiatria da Universidade do Zimbábue e da London School of Hygiene and Tropical Medicine, é um dos apenas 12 psiquiatras trabalhando no país. A população do Zimbábue é de 16 milhões de pessoas.

Essas estatísticas desanimadoras são comuns na África subsaariana, onde a proporção de psiquiatras e psicólogos para cada cidadão é um a cada 1,5 milhão.

Image captionDesde 2006, Chibanda e sua equipe ensinaram a mais de 400 avós técnicas de terapia com evidências científicas (Crédito: Cynthia R Matonhodze)

Ao quebrar a cabeça sobre possíveis soluções para o problema, o médico chegou a uma solução peculiar: vovós. Desde 2006, Chibanda e sua equipe ensinaram a mais de 400 avós técnicas de terapia com evidências científicas que elas praticam gratuitamente em mais de 70 comunidades no Zimbábue.

Somente em 2017, o Banco da Amizade, como é chamado o programa, ajudou mais de 30 mil pessoas. O método foi avaliado empiricamente e expandido para outros países, incluindo os Estados Unidos.

Chibanda acredita que o programa pode servir como modelo para qualquer comunidade, cidade ou país interessado em oferecer serviços de saúde mental acessíveis e altamente eficazes para seus habitantes. “Imagine se pudéssemos criar uma rede global de avós em toda grande cidade do mundo.”

Ele sempre soube que queria se tornar médico, mas a dermatologia e a pediatria eram seus interesses iniciais. Foi uma tragédia que o levou à psiquiatria. Enquanto estudava medicina na República Tcheca, um colega de classe se matou. “Era um cara muito alegre, ninguém esperava que ele pudesse acabar com a própria vida”, diz ele. “Mas, aparentemente, estava depressivo e nenhum de nós percebeu.”

Chibanda se tornou psiquiatra, mas só percebeu o tamanho do problema no Zimbábue com a Operação Murambatsvina (“limpe a sujeira”), campanha do governo em 2005 de limpeza forçada de favelas que deixou 700 mil pessoas sem lar. Quando visitou as comunidades após a campanha, ele encontrou taxas extremamente altas de estresse pós-traumático e outros problemas de saúde mental.

Image captionCaixa com a pergunta ‘como você está se sentindo?’, uma estratégia para começar conversas sobre saúde mental no Zimbábue (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

Em meio a esse trabalho, Erica se suicidou, o que deu ainda mais urgência à busca de Chibanda por uma solução para os habitantes de seu país.

Ele era o único psiquiatra no Zimbábue trabalhando no setor público de saúde, mas seus supervisores lhe disseram que não tinham recursos. Todas as enfermeiras estavam ocupadas com problemas de HIV e cuidados maternais e infantis, e todos os quartos do hospital estavam cheios. Eles poderiam, porém, emprestar 14 avós e dar acesso ao espaço externo do hospital.

Em vez de jogar tudo para o alto, Chibanda teve a ideia do Banco da Amizade. “Muitas pessoas acham que sou um gênio por ter tido essa ideia, mas não é verdade. Eu só tive de trabalhar com o que tinha”.

Isso não significa que inicialmente ele achasse que a ideia fosse funcionar. As avós, voluntárias da comunidade, não tinham experiência com terapia de saúde mental e a maioria tinha pouca educação formal. “Eu estava cético quanto a usar mulheres idosas”, ele admite. E não era o único a pensar assim. “Muitas pessoas acharam a ideia ridícula”, diz ele. “Meus colegas me disseram que não fazia sentido”.

Sem qualquer outra opção, Chibanda começou a treinar as avós da melhor maneira que podia. Primeiro, ele tentou aderir à terminologia desenvolvida no Ocidente, usando palavras como “depressão” e “ideação suicida”. Mas as avós lhe disseram que isso não iria funcionar. Para atingir as pessoas, elas insistiram, era preciso se comunicar por meio de conceitos culturalmente enraizados com os quais as pessoas poderiam se identificar.

Em outras palavras, elas precisavam falar a língua dos pacientes. Então, além do treinamento formal que receberam, elas trabalharam juntas para incorporar conceitos da cultura shona sobre abrir a mente, fortalecer e animar o espírito.

“O treinamento em si tem base em terapia fundamentada mas também em conceitos indígenas”, diz Chibanda. “Eu acho que essa é uma das razões do sucesso, porque realmente conseguiu montar esse quebra-cabeça usando conhecimento e sabedoria.”

Eficaz e replicável

A Vó Chinhoyi, como é conhecida por aqui, está no programa Banco da Amizade desde o início. “Eu entrei no programa porque queria ajudar as pessoas na comunidade”, diz. “Era demais, as pessoas depressivas. Havia tantas e eu queria diminuir o número.”

“Eu sempre fui assim, de querer ajudar os outros”, diz ela, com um sorriso e encolhendo os ombros. “Eu valorizo tanto os seres humanos.”

Image captionA avó Rudo Chinhoyi, de camiseta azul, cercada por alguns de seus três filhos, nove netos e oito bisnetos (Crédito: Rachel Nuwer)

Chinhoyi, que tem 72 anos, perdeu a conta do número de pessoas que ela tratou diariamente durante os últimos dez anos ou mais. Ela encontra pessoas com HIV, viciadas em drogas, pessoas que sofrem pobreza e fome, casais infelizes, idosos solitários e mulheres jovens, solteiras e grávidas.

Independentemente da história ou das circunstâncias, ela começa suas sessões sempre do mesmo jeito: “eu me apresento e digo ‘qual é o seu problema? Me conte tudo e eu vou lhe ajudar com as minhas palavras'”.

Após ouvir a história da pessoa, Chinhoyi guia o paciente até que ele ou ela chegue sozinho à conclusão. Então, até que o problema seja completamente resolvido, ela acompanha a pessoa de tempos em tempos para garantir que ela esteja seguindo o plano.

Certa vez, por exemplo, Chinhoyi encontrou um homem cuja esposa havia fugido com o dono da casa que alugavam. “O marido queria uma faca para atacar o casal, mas eu o convenci a não fazê-lo”, diz Chinhoyi. “Eu disse a ele, ‘se você for preso, suas crianças vão ficar sozinhas, não vale a pena'”. Em vez de apelar para a violência, o homem se divorciou e agora está feliz e casado de novo.

Por ter vindo das mesmas comunidades que seus pacientes, ela e as outras avós muitas vezes passaram pelos mesmos traumas sociais. Ainda assim, Chibanda e seus colegas ficaram surpresos com as baixas taxas de estresse pós-traumático e outros males de saúde mental entre as senhoras. “O que vemos nelas é essa incrível resiliência diante da adversidade”, diz ele.

Image captionUm Banco da Amizade em Malawi (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

As avós também não parecem ficar exaustas apesar de ouvirem, dia após dia, pessoas à beira de uma crise . “Nós estamos explorando os motivos para isso, mas o que parece estar emergindo é esse conceito de altruísmo, em que as avós realmente sentem que estão ganhando algo ou fazendo a diferença na vida dos outros”, diz Chibanda.

Comprovação científica

Em 2009, Chibanda já tinha certeza de que o programa estava funcionando, tanto em termos de melhorar a qualidade de vida dos participantes quanto de diminuir os índices de suicídio. O departamento de saúde da cidade de Harare, que paga pela iniciativa, estava completamente de acordo e os pacientes eram regularmente indicados a partir de hospitais, escolas, delegacias, entre outros.

Mas para que o Banco da Amizade fosse reconhecido e replicado ao redor do mundo, Chibanda precisava primeiro comprovar cientificamente que funciona.

Em 2016, Chibanda – em colaboração com colegas do Zimbábue e do Reino Unido – publicaram os resultados de um teste de controle sobre a eficiência do programa no periódico da Associação Médica Americana.

Os pesquisadores dividiram 600 pessoas com sintomas de depressão em dois grupos diferentes. Eles perceberam que, após seis meses, o grupo que tinha visto as avós tinham sintomas significativamente baixos de depressão comparados ao grupo que passou por um tratamento convencional.

“Nós ficamos maravilhados com os resultados, que apontaram que a intervenção tem um grande efeito sobre a vida diária das pessoas e habilidade para funcionar”, diz Victoria Simms, epidemiologista da London School of Hygiene and Tropical Medicine e co-autora do estudo. “É sobre dar às pessoas as ferramentas que precisam para resolver seus próprios problemas.”

Outros dois testes científicos estão sendo feitos agora, diz ela, incluindo um examinando um programa jovem do Banco da Amizade em Harare e outro que é especialmente para pessoas jovens com HIV.

O programa também expandiu para vários outros países e, ao fazê-lo, Chibanda e seus colegas descobriram não apenas que ele é bem adaptável a outras culturas mas que as avós não são as únicas capazes de oferecer terapia com eficiência. Em Malawi, o Banco da Amizade usa terapeutas idosos homens e mulheres, enquanto Zanzibar usa homens e mulheres mais jovens.

Os terapeutas da cidade de Nova York são os mais diversos, com pessoas de todas as idades e raças, alguns da comunidade LGBTQ. “Nós trabalhamos em todas as pontas”, diz Takeesha White, diretora-executiva do Escritório de Planejamento Estratégico e Comunicações do Departamento de Saúde de Nova York do Centro para Igualdade de Saúde. “A população de Nova York é muito ampla.”

Image captionO programa, afirma Chibanda, pode servir de modelo para qualquer comunidade (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

Muitos dos terapeutas de Nova York já foram viciados ou passaram por outros desafios de vida. “Nós estamos comprometidos a ter pessoas com experiência de vida que conseguem falar a linguagem da recuperação e sobre lidar com vício”, diz White. “Quando vê, você não está em um banco, mas dentro de uma conversa calorosa com alguém que se importa e entende.”

Os bancos de Nova York, que são pintados de um laranja brilhante, iniciaram seus pilotos em 2016 e foram lançados em meados de 2017 atraindo 30 mil pessoas durante seu primeiro ano. A cidade até agora tem três bancos permanentes nos bairros de Bronx, Brooklyn e Harlem e o programa organiza bancos móveis em festivais, igrejas, parques, feiras de comida e outros eventos.

Os terapeutas do Banco da Amizade também se disponibilizam logo após tragédias comunitárias, incluindo um recente suicídio em público no leste de Harlem.

“Quando eu visitei Nova York, eu fiquei surpreendido ao descobrir que os problemas que os nova-iorquinos passam são muito parecidos com os daqui de Zimbábue”, diz Chibanda. “São assuntos relacionados a solidão, acesso a saúde e sobre saber que o que você está passando é tratável.”

Enquanto há muito mais psiquiatras que trabalham em Nova York do que no Zimbábue em termos de proporção de médicos para habitantes – um para cada 6.000 pessoas em Nova York – o acesso à saúde ainda é problemático na cidade, especialmente para os menos privilegiados. O mesmo acontece em outros lugares do mundo. “Essa não é uma solução para países de baixa renda”, diz Simms. “Isso pode ser uma solução que qualquer país do mundo pode se beneficiar”.

Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-46283465?ocid=socialflow_facebook

Paises da África Ocidental interessados no setor sucroalcooleiro do Brasil

45ae676d-3841-459f-9578-dbbc755cc41cEmpreendedores brasileiros têm uma boa notícia. Ainda em novembro, de 20 a 30, dois grupos virão da África para o Brasil com objetivo de investir nos setores sucroalcooleiro, de produção de energia por biomassa e agrícola.

Na bagagem, os empresários africanos devem trazer cerca de 7 bilhões de dólares para investimento nos setores, o que deve movimentar essas indústrias neste último bimestre do ano.

 

O responsável por promover a vinda e por recepcionar os investidores é a Ecowas Chamber of Commerce Brazil (ECOWAS), a qual representa a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) – bloco formado por 15 países africanos (Nigéria, Gâmbia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal, Benin, Togo, Niger, Libéria, Serra Leoa, Guiné Bissau, Guiné, Burkina Faso, Mali e Chade).

US$ 2 bilhões no setor de energia e sucroalcooleiro

Um dos grupos de investidores vêm da Nigéria com 2,6 bilhões dólares de olho em aplicar capital nos setores sucroalcooleiro e produção de energia por meio de biomassa.

Eles acreditam que o Brasil é o melhor parceiro para o programa de produção de álcool e açúcar na Nigéria com vistas no desenvolvimento da indústria automobilística no país.

A presidente da ECOWAS e também realizadora da Feafro International Business Fair, Silvana Saraiva, acredita que os negócios serão promissores devido ao alto nível tecnológico das organizações brasileiras. “Em tempos de crise, será um alívio internacionalizar as empresas e transferir conhecimento”, afirma.

Oportunidades para a agricultura

O mês continua movimentado com a vinda do Forum For Agricultural Research In África (FARA), que também será recepcionado pela ECOWAS BRAZIL, e pretende investir quase US$5 bilhões em agricultura.

A ECOWAS assinou um acordo de cooperação com a FARA em maio deste ano e, após isso, ambas promoveram o lançamento do programa “HELP – Holistic Empowerment for Liverlihood Program”, o qual pretende diminuir a fome nos países mais pobres da África.

O FARA é uma organização continental, a qual é responsável por coordenador e defender pesquisas agrícolas para o desenvolvimento, servindo como apoio técnico da Comissão da União Africana em temas relacionados à ciência agrícola, tecnologia e inovação.

Nos dias 22 e 23 de novembro, os representantes da ECOWAS e da FARA também estarão no Brasil para participar do 6º Fórum Brasil África, em Salvador (BA). O evento deste ano terá como tema central “Empoderamento Juvenil – Transformação para alcançar o Desenvolvimento Sustentável” e contará com a presença de líderes de diversos países da África.

Website: http://www.ecowaschamber.com.br

Isabel dos Santos solta o verbo

isabel dos santosA empresária angolana Isabel dos Santos alertou esta quarta-feira que em Angola “a situação está a tornar-se cada vez mais tensa, com a possibilidade de se juntar à crise económica existente, uma crise política profunda”.

Numa série de mensagens divulgadas durante o dia no Twitter, a filha do ex-chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, exemplifica: “greve nacional dos médicos com 90% de adesão, quebra do poder de compra em 170%, fome nas famílias apesar do petróleo em alta”.

As mensagens divulgadas pela empresária surgem no mesmo dia em que o seu pai, José Eduardo dos Santos, fez uma declaração garantindo que não deixou os cofres públicos vazios, e poucos dias depois de o actual Presidente, João Lourenço, ter criticado a forma como foi feita a passagem da “pasta” entre os dois chefes de Estado.

Na declaração sem direito a perguntas dos jornalistas, feita pouco depois de o actual Presidente levantar voo de Luanda rumo a Lisboa, para uma visita de Estado de três dias, José Eduardo dos Santos disse: “Não deixei os cofres do Estado vazios. Em Setembro de 2017, na passagem de testemunho, deixei 15 mil milhões de dólares no Banco Nacional de Angola como reservas internacionais líquidas a cargo do um gestor que era o governador do BNA sob orientação do Governo”.

Isabel dos Santos escreveu no Twitter que esta foi “uma entrevista sem precedentes”. “Antigo Presidente angolano Eng. José Eduardo dos Santos, afirma que não deixou os ‘cofres vazios’ e novo OGE2018 foi feito pela equipa do Presidente João Lourenço. 15 mil milhões de dólares foi valor deixado em caixa. E 29 mil milhões foi receita 2018 da Sonangol”, afirma.

João Lourenço sucedeu em Setembro de 2017, após as eleições gerais de Agosto, a José Eduardo dos Santos no cargo de Presidente da República de Angola, funções que desempenhou entre 1979 e 2017.

Em Novembro de 2017, João Lourenço exonerou Isabel dos Santos da presidência do conselho de administração da petrolífera estatal angolana Sonangol.

As mulheres negras na política

 

Representatividade de mulheres pretas e pardas, maioria da população brasileira, cresceu 38% nas eleições; participação dos homens brancos é 15 vezes maior do que a das mulheres negras

LUIGI MAZZA

12nov2018_14h13

ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Os americanos que foram às urnas no último dia 6 de novembro elegeram o Congresso mais diverso da história dos Estados Unidos. Pela primeira vez em seus 229 anos, a Câmara norte-americana terá parlamentares muçulmanas e indígenas. O estado de Massachusetts elegeu Ayanna Pressley, sua primeira congressista negra – feito repetido em Connecticut, onde foi eleita a professora Jahana Hayes.

Com as últimas seções ainda sendo apuradas em alguns distritos nesta segunda-feira, dia 12, estima-se que mulheres negras, asiáticas e de origem latina ocuparão 43 das 435 cadeiras da câmara baixa do Congresso. O recorde anterior era de 34 lugares. As parlamentares, classificadas como “não-brancas” e representativas de cerca de 19% da população total dos EUA, terão quase 10% das vagas.

O contraste do avanço americano com o vácuo de representação política no Brasil é imenso. Após as eleições de outubro deste ano, mulheres pretas ou pardas – que constituem a maioria da população brasileira, segundo o IBGE – terão apenas 2,5% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Serão 13 deputadas federais representando 48,4 milhões de brasileiras autodeclaradas pretas e pardas no Censo 2010. No Senado, historicamente ainda mais restrito, há apenas uma parlamentar negra.

Ao todo, foram eleitas 65 candidatas autodeclaradas pretas ou pardas para cargos no Legislativo em todo país, levando em conta a Câmara, o Senado e as assembleias estaduais. O resultado equivale a 4% das 1.626 vagas disputadas no pleito. A representação cresceu 38% em relação a 2014. Mas ainda é muito baixa. Para os mesmos cargos, foram eleitas quase o triplo de mulheres brancas (181), seis vezes mais homens negros (379) e quinze vezes mais homens brancos (997).

Cruzando o número total de candidaturas ao Legislativo com o número de eleitos por raça e gênero, o padrão de desigualdade se reforça. Enquanto o índice de êxito eleitoral dos homens brancos em 2018 foi de 10,9% – ou seja, um em cada dez candidatos conseguiu se eleger –, o de homens negros foi de 4,8%. Para mulheres brancas, o índice foi de 4,5%. As candidatas negras tiveram apenas 1,7% de êxito nas urnas.

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O principal obstáculo que a gente enfrenta é a condição financeira. Fiz campanha com 70 mil reais de recursos partidários, enquanto via algumas concorrentes gastarem mais de 2 milhões e 300 mil”, afirma a vereadora de Ji-Paraná e deputada federal eleita por Rondônia, Sílvia Cristina, do PDT. Com mais de 33 mil votos, ela se tornou a primeira mulher negra a representar seu estado em Brasília.

Autodeclarada preta no registro de sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, Cristina faz parte de uma minoria com acesso ainda mais restrito ao Legislativo. Como ela, apenas outras 18 deputadas pretas se elegeram no Brasil em 2018, sendo quase 70% delas no Sudeste. Na região Centro-Oeste, nenhuma foi eleita; no Norte, apenas duas – Sílvia Cristina inclusa.

“Em lugares mais distantes, como Rondônia, os recursos partidários não chegam de forma igualitária”, afirma a pedetista, que credita sua eleição a esforços próprios e à militância na área da saúde, sua principal bandeira. “Alguns grupos políticos não acreditavam na minha candidatura. As mulheres negras, infelizmente, são as que mais têm dificuldade de crescer.”

Para o cientista social e doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Osmar Teixeira Gaspar, o baixo nível de verbas para candidaturas negras é sistêmico no país e reflete a situação financeira dos próprios candidatos. Um levantamento conduzido por Gaspar entre 2010 e 2016 constatou que candidatos brancos a deputado estadual e vereador em São Paulo tinham, em média, um patrimônio declarado quatro vezes maior do que seus concorrentes negros mais ricos. “A discrepância é ainda mais ampla quando se trata de mulheres.”

A desigualdade dentro dos partidos, aponta Gaspar, cria o fenômeno das “candidaturas operárias”: quadros mais pobres, da base da estrutura partidária, que com suas campanhas ativas pela sigla acabam servindo de escada para candidaturas mais bem estruturadas. Como a eleição para a Câmara e assembleias legislativas se dá por quociente eleitoral, os votos desses candidatos migram para correligionários de melhor desempenho nas urnas. “São candidaturas postas para não ser eleitas”, afirma o pesquisador. “Estão ali para ser úteis e permitir que o partido ganhe uma ou duas cadeiras a mais.”

 

Amaior parte das parlamentares negras que se elegeram em outubro exercerão mandatos na esfera estadual a partir de 2019: são 51 ao todo, distribuídas pelas assembleias de 19 estados e do Distrito Federal. O saldo é de 15 parlamentares a mais do que em 2014. Mas elas ainda equivalem a pouco menos de 5% das 1.059 vagas de deputado estadual disputadas este ano.

Com dez eleitas, o Rio de Janeiro foi o estado em que mais deputadas pretas e pardas saíram vitoriosas. Na primeira eleição após o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Psol, ocorrido em março deste ano, o estado alçou quatro candidatas negras à Câmara dos Deputados e seis à Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj. Em 2014, apenas seis foram eleitas para as duas Casas.

“A movimentação da Marielle desde o ano passado provocou mulheres a estar na política. Vemos uma mudança aos poucos na sociedade, e no Rio isso já é uma realidade”, avalia a deputada estadual eleita Mônica Francisco, também do Psol. Essa foi sua primeira eleição e ela recebeu 40 mil votos. Mônica foi uma das três ex-assessoras de Marielle que se candidataram para a Alerj este ano. As outras duas, Renata Souza e Danielle Monteiro, também foram eleitas.

Na esteira da comoção pela morte da vereadora, a disputa no Rio foi marcada por uma onda de candidaturas de mulheres negras: ao todo, 521 se lançaram candidatas a deputada no estado, um aumento de 52% na comparação com 2014. “Esse fato trágico acabou impulsionando o ingresso de mulheres negras na política. Elas são mais organizadas hoje que os homens negros”, avalia o cientista social Osmar Teixeira Gaspar. Para ele, as mulheres negras têm conseguido um maior acesso às estruturas partidárias. “Essas candidaturas existem, mas não estão maciçamente representadas nos partidos, que reproduzem as mesmas desigualdades da sociedade. Os dirigentes dão preferência a candidatos que têm aporte e, portanto, chances de vencer.”

Em São Paulo, o número de candidatas negras ao Legislativo também cresceu em 2018, passando de 242 a 324. O salto de 34% dentre as candidaturas do maior colégio eleitoral do país, porém, parou nos partidos. Apenas três deputadas negras foram eleitas para a Assembleia Legislativa de São Paulo, a Alesp, e nenhuma para a Câmara dos Deputados. Comparado a 2014, o saldo final foi de uma parlamentar a mais.

A esquerda identitária e a satanização da maioria

A esquerda identitária e a satanização da maioria

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(Arte Andreia Freire/ Revista CULT)

 

Eu não sou um homem hétero, cis, branco e cristão. Mas se fosse um deles, muito dificilmente votaria em um partido desses da esquerda identitária. Cada pessoa vota, principalmente em eleições majoritárias, calculando perdas e ganhos. Todo mundo precisa de um torrão de açúcar para se dar ao trabalho e à agonia de participar de eleições. Mas para quem é homem hétero, cis, branco e cristão, a esquerda identitária oferece apenas uma culpa e um conjunto de dívidas e obrigações daí decorrentes. Ora, ninguém gosta de se sentir culpado nem de assumir responsabilidade por pecados, principalmente quando julga que não os cometeu.  Nem gosta de ouvir o tempo todo que tudo em sua vida é resultado de privilégios, principalmente quando olha em volta e vê que tem menos do que mereceria ter. Ou nem se considera propriamente uma pessoa desprovida de méritos, esforços e sacrifícios, que não tenha que matar um leão por dia, que não tenha tido que enfrentar desvantagens e dificuldades. Mas a esquerda identitária basicamente diz para esse sujeito que sua vida se resume a privilégios, que ele é parte da injustiça social e que tem que se acostumar a perder para que os outros possam, enfim, ganhar alguma coisa.

O bolsonarismo faz parte de uma onda mundial de guinada à direita conservadora, que tem um dos seus fundamentos na chamada guerra cultural. Trata-se, dentre outras coisas, de uma reação (e de um reacionarismo) aos avanços liberais em pautas relacionadas a minorias e a controvérsias morais. Mas é também um movimento importante no jogo na política identitária.

A luta identitária

Política identitária (identity politics), para quem não sabe, é uma forma de politização das contraposições entre determinados grupos sociais cujos membros reconhecem que o seu pertencimento é compelido por aspectos da sua identidade. Exemplos de tais identificações são grupos de referência – ou “comunidades”, como dizem os americanos –, como aqueles baseados em cor, sexo, orientação sexual, etnia, em deficiências, dialetos, origem geográfica, identidade de gênero etc. O mundo da luta identitária acaba se tornando um conjunto de peças que nunca formam um mosaico, porque há superposições e há colisões, em que cada pauta identitária tende a se fragmentar em um processo infinito, uma vez que constantemente aparece uma nova microidentidade se desgarrando do núcleo a que se vinculava e reivindicando o direito à autorrepresentação. Estabelecido o princípio de que só a autorrepresentação é a autêntica representação e estabelecida uma ética de convivência que se move pela inclusão de qualquer reivindicação de identidade, o resultado é uma fragmentação infinita assumida como destino.

Uma forte vertente da política baseada em identidades é aquela que estabelece que os grupos identitários são oprimidos e que o caminho para a justiça passa pela remoção da opressão. Antes, a identificação do tipo de opressão a que cada comunidade está submetida é o princípio de corte identitário: quem sofre da mesma opressão, se identifica uns com os outros sob aquele aspecto. Depois, no interior do recorte feito, vão se identificando sucessivos estratos de opressão, a que parte dos membros da comunidade estão submetidos e outra parte não, que fornecem sucessivos pontos de corte, identidade dentro das identidades, até que não se tenha mais nada para cortar. “Átomo”, em grego, significa literalmente o que não pode mais ser cortado ou recortado. Individuum, em latim, é o que não pode mais ser dividido. A atomização é para onde se dirige a lógica dos cortes e recortes que perpassam a política identitária.

Os problemas começam quando inevitavelmente grupos identitário muito coesos e muito engajados na luta contra a opressão estrutural começam a satanizar categorias de opressores. E é aí que o tal homem hétero, cis, branco etc. aparece na equação como o demônio em comum em quase todos os grupos oprimidos. A palavra-chave aqui é privilégio. O mundo identitário vive da identificação de opressões e de privilégios. O homem, hétero, cis, branco é a quintessência da reunião de privilégios, mas a cada um desses adjetivos correspondem privilégios específicos de que participam mesmo pessoas que não os possuam todos de vez. Assim, homossexuais, cis e ricos vivem em um bolsão de privilégio, como mulheres brancas, educadas e cristãs vivem em outro bolsão de privilégio, embora nenhuma dessas subcategorias tenha direto ao máximo privilégio das cinco estrelas. Incumbe, então, a cada pessoa admitir os privilégios da sua categoria e da sua subcategoria e a cada um desses privilégios reconhecido ver reduzir, na mesma proporção, os seus direitos de representar alguma categoria e ver aumentar os limites da sua autorização identitária para falar em nome dos outros – o tal “lugar de fala”.

O passo seguinte é o processo que atribui a todos os membros do grupo de referência oprimido os dividendos da superioridade moral da sua posição, enquanto cobra de todos os indivíduos da categoria oficialmente opressora o pagamento das dívidas que é dos opressores. Assim todo homem de algum modo pode ser convocado a responder pelo machismo, independentemente da sua responsabilidade individual e compartilhamento das ideias machistas. Ou todo branco poderá ser responsabilizado pelo racismo, independente das suas posições pessoais sobre a matéria. E a coisa pode chegar a tal ponto, na retórica e na prática, que frequentemente já nem se sabe ao certo se o inimigo a ser derrotado é o machismo, o racismo, a homofobia ou o homem, branco, heterossexual e cisgênero.

Pautas identitárias e política eleitoral

Enquanto as lutas identitárias se processam em âmbitos que compartilham os seus pressupostos, como os ambientes acadêmicos ou o campo da cultura, sobretudo aqueles dominados por valores de esquerda, a posição prospera e gera avanços consideráveis na luta por direitos e por estima social. É possível gerar empatia social para além dos afetados pelas e implicados na luta identitária. É possível, inclusive, haver ganhos na transferência de, pelo menos, parte da pauta identitária para outros domínios sociais, como o âmbito jurídico ou a esfera pública. Mas quando as lutas identitárias se apresentam para públicos que não compartilham os seus exigentes pressupostos ou não aceitam as consequências implicadas nas suas premissas, é difícil imaginar que possam prosperar.

A esquerda identitária precisa decidir o que disputa no campo político, se quer ganhar eleições ou se quer simplesmente vencer o campeonato de superioridade moral. Superioridade moral é importante, mas ter razão não é superior a ter votos se o propósito é ganhar disputas eleitorais. De fato, a democracia tem em seu cerne este inconveniente: para governar você precisa ter a maioria do seu lado. Um lado não precisa necessariamente ser melhor que o outro, mas precisa ser maior. E o seu lado não se torna maior apenas porque você acredita ter superioridade moral. A esquerda tem grande dificuldade de entender isso e trata a disputa eleitoral como se fosse uma extensão das tretas e disputas que ambientes acadêmicos dominantemente de esquerda mantêm, em moto contínuo, no seu interior. Com isso, fala cada vez mais para si mesma e cada vez menos com os que estão fora dos muros de autocomplacência e de extrema afinidade em que se refugia.

Estes dois movimentos em falso (a satanização dos opressores e imposição, aos indivíduos singulares, das obrigações de pagar por opressões históricas das categorias a que pertencem) podem ser politicamente fatais. A prova disso são os sucessivos êxitos eleitorais recentes dos ultraconservadores, quando resolvem se promover como um discurso de emancipação daqueles que foram satanizados pelos seus adversários da esquerda liberal identitária. Como tal paradoxo é possível?

A questão é que heterossexuais, cis, brancos e cristãos são numerosos. Principalmente quando o discurso “aceite a culpa, admita os seus privilégios, pague o preço” pode ser mal recebido por pessoas que não se identifiquem integralmente com todas as cinco características, mas que, digamos, caia na malha fina de três ou quatro delas. A começar por mulheres heterossexuais, cis, brancas e cristãs ou homens, cis, não brancos e cristãos. À medida que o jogo das culpas e responsabilizações identitárias se estende, o universo vai ficando repleto de adversários. E mesmo quem não se sentia adversário, será lembrado disso por algum identitário em seu turno de patrulha da opinião pública. E assim se forma o paradoxo: como ganhar uma eleição quando a maioria dos eleitores precisa assumir-se culpado e privilegiado para começo de conversa?

Numa dessas entrevistas ao vivo neste ciclo eleitoral, indagado sobre políticas de compensações para negros em função do passado escravocrata do país, Bolsonaro reagiu prontamente: “Eu nunca escravizei ninguém”. A multidão de eleitores de Bolsonaro vibrou em uníssono pelos grupos de WhatsApp Brasil afora. “Que horror”, disse a esquerda identitária, “essa gente fascista saiu do armário”. Na verdade, ali se registrava pela enésima vez o fato de que não existe qualquer torrão de açúcar para este público no discurso identitário quando ele se torna discurso eleitoral. A esquerda identitária diz para a maioria numérica da sociedade que ela tem que arrastar correntes para sempre, para purgar por privilégios que ela não reconhece, expiando incessantemente uma culpa histórica que jamais poderá cessar. Estrategicamente a direita conservadora aparece no cenário para oferecer à maioria, paradoxalmente, uma oportunidade emancipatória: “Você não escravizou ninguém, a culpa não é sua, não abra mão dos seus direitos para pagar uma dívida que você, singularmente, não contraiu”.

Satanizações

No campo político, a satanização do outro é um dos expedientes de comunicação estratégica mais eficazes. O bolsonarismo precisava de um inimigo a ser satanizado para construir a sua própria identidade, do mesmo modo como a esquerda identitária precisou do homem heterossexual, cis, branco e cristão para construir o seu próprio espantalho. O bolsonarismo fuçou no imaginário político popular e achou “o comunista”. Revolveu estratos mais recentes dos sedimentos do imaginário e achou a esquerda identitária. Retirou daí a dimensão belicosa do “todo homem é um estuprador”, o antirracismo em sua forma “quem é branco me deve”, descobriu a turma da opção preferencial pelos pobres na forma “a elite branca não tem direitos ou valor”, etc. É desse barro que se esculpe “o esquerdista” como espantalho. Que, amalgamado com “o comunista”, “o defensor de direitos humanos que diz que a culpa do homicídio é da vítima e do sistema e não do assassino”, gera o inimigo conveniente para ser satanizado.

O que o bolsonarismo vendeu foi a ideia de que se você é cis, branco e hétero, a esquerda/os comunistas/os direitos humanos/os petistas lhe farão arrastar correntes para sempre, farão políticas públicas para transferir seus direitos para as suas minorias preferidas, não reconhecerão seus méritos e valores e ainda destruirão a sua imagem. A satanização consiste justamente nisto: em demonstrar que o outro deve ser temido, odiado e, quando surgir a oportunidade, exorcizado. Ambos os lados, o bolsonarismo ou a esquerda identitária, satanizam o seu inimigo predileto. Mas neste momento, no Brasil, o bolsonarismo foi mais eficiente em converter a satanização em voto. E em produzir uma “metassatanização”: a satanização da satanização das pessoas brancas, cis, hétero, cristãs.

Lutas identitárias fazem definitivamente parte do horizonte político do século 21. Há boas razões históricas e sociais para que elas existam. Mas toda luta se compõe de tentativas e erros, táticas e estratégicas que se provam eficientes e outras que não levam a lugar algum. Já há muita bibliografia sobre as consequências, para a fragmentação da esquerda, das pautas identitárias. Ou sobre o quão contraproducente para tais pautas é a dispensa da empatia social, trocada pela imposição do dogma da autorrepresentação, a famigerada “treta do lugar de fala”. Gostaria de incluir dentre essas táticas destinadas ao fracasso, como lição que se pode depreender do sucesso eleitoral da onda ultraconservadora que prospera no mundo, a satanização da maioria. Afinal, ao fim e ao cabo, a democracia liberal é um governo de maiorias. Pisar nos pés da maioria e ainda pretender vencer eleições não parece, portanto, uma ideia promissora. Ainda mais se, no fim das contas, a satanização do outro, além de taticamente ineficaz, não me parece nenhuma dimensão essencial, moralmente superior ou democraticamente justificável da luta por direitos, estima social, igualdade e respeito.

Fonte:https://revistacult.uol.com.br/home/esquerda-identitaria-e-satanizacao-da-maioria/

Presidente do Senado brasileiro alerta: “Esse povo que vem aí não é da política, é da rede social”

Ao “BuzzFeed News”, Eunício revelou o conteúdo da conversa que teve com o guru do capitão reformado. O encontro deles ocorreu em uma sala do Senado, na semana passada. Estavam no local Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e o senador Fernando Bezerra (MDB-PE).

Guedes procurou Eunício para pedir que a reforma da Previdência fosse logo votada. O presidente do Senado, no entanto, disse que o mais importante era mesmo falar acerca do Orçamento Geral da União.

“Ele olhou para mim e disse que orçamento não é importante, importante é aprovar Reforma da Previdência”, contou Eunício, que lembrou ao ministro de Bolsonaro que a aprovação do Orçamento é pré-requisito para o recesso parlamentar, como consta na Constituição.

“Ele me disse: ‘vocês não aprovam orçamento, orçamento eu não quero que aprove não’. Mas não é o senhor querer, a Constituição diz que só podemos sair em recesso após a aprovação”, argumentou.

De acordo com o BuzzFeed, Guedes teria cortado a fala de Eunício. “‘Não, eu só quero Reforma da Previdência. Se vocês não fizerem vou culpar esse governo, vou culpar esse Congresso e o PT volta, e vocês vão ser responsáveis pela volta do PT.”

Notícias ao Minuto

Eunício contou que o guru de Bolsonaro continuou insistindo com o assunto “volta do PT”.

“(Ele me disse:) ‘se vocês não aprovarem tudo aquilo que nós queremos esse ano, o PT volta. Se aprovar a reforma o Brasil vai crescer a 6%, se não aprovar o Brasil não vai crescer, eu vou culpar vocês’”, relatou.

Neste momento, Eunício teria saído da sala. O presidente do Senado contou ainda que Bezerra ficou “horrorizado” com Guedes.

Mas o clima ainda ficou pior. Após a reunião, Paulo Guedes deu entrevista a jornalistas e sugeriu que a população desse uma “prensa” no Senado para votar a reforma da Previdência.

“E ele foi lá para a porta (do Ministério da Fazenda) e disse que tem que dar uma prensa. Eu digo que aqui ninguém dá prensa. Aqui você convence, discute, ganha perde, agora prensa ninguém vai dar em mim”, disse Eunício.

“Enquanto eu for presidente ninguém diz aqui o que vamos fazer, quem diz aqui é o dedinho de cada um, que pode votar não, sim ou abstenção”, acrescentou.

Magno Malta e o reajuste do STF

Eunício Oliveira também falou das críticas de Bolsonaro e Paulo Guedes sobre o Senado ter aprovado o reajuste de 16% nos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), votado na quarta-feira (7).

Para o presidente da Casa, os próprios aliados do capitão reformado contribuirão para a aprovação do reajuste.

“Vou só dizer o seguinte: não sei como eles estão fazendo, mas não aceito o Magno Malta (PR-ES) de manhã fazer discurso esculhambando a recomposição salarial dos magistrados, que troca o auxílio-moradia por salário, mas de tarde não vai votar. E mais oito que se dizem bolsonaristas não votaram, e eu sou culpado por isso?”, disse Eunício ao BuzzFeed.

“Esse povo que vem aí não é da política, é da rede social”, acrescentou Eunício.

Paulo Guedes não se manifestou sobre as declarações de Eunício de Oliveira.

Fonte:https://www.noticiasaominuto.com.br/politica/687243/esse-povo-que-vem-ai-nao-e-da-politica-e-da-rede-social-diz-eunicio

Spike Lee:“Usam o medo das pessoas. Isso não é novo, é a forma como o fascismo costuma jogar”

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Publicado em 12 novembro, 2018 8:22 am

De Víctor Usón no El País Brasil.

Spike Lee evita mencionar o nome de Donald Trump, prefere chamá-lo de “agente laranja” ou, algumas vezes, de “filho da puta”. “Na minha cabeça soa melhor assim”, afirma, enquanto ri. É um ferrenho opositor das políticas do presidente americano, um duro ativista que costuma usar o nome da arma química utilizada pelos EUA na Guerra do Vietnã para se referir a Trump.

Lee responde de forma direta e contundente: “É um racista”. Suas frases, marcantes e concisas, brilham no quarto do resort de luxo no qual recebe a imprensa. Vestido com tênis, boné e jaqueta prateada, o cineasta olha fixamente através de seus grandes óculos azuis antes de continuar falando: “Você não o ouviu dizer que os mexicanos são uns violadores, assassinos e narcotraficantes?”, conta ao EL PAÍS no festival de cinema de Los Cabos, no México.

Suas palavras soam ainda mais contundentes em território mexicano e não muito longe da fronteira que Donald Trump se empenha em fortificar. Tijuana, que fica a norte de Los Cabos e faz fronteira com os EUA, será a porta de entrada da caravana migrante que tanto enfurece o presidente americano. “Que Deus os abençoe, vocês não estão fazendo nada de errado”, afirma Lee.

Ele lança dardos envenenados contra o presidente americano e lhe faltam adjetivos para definir sua política migratória. “Separar as mães de seus filhos é algo diabólico, uma barbárie”, assinala, concentrando sua esperança em que isso não ocorra depois da iminente chegada dos mais de 6.000 centro-americanos que se dirigem para o posto fronteiriço de Tijuana. “Só tentam ter uma vida melhor e estão fazendo um grande sacrifício para conseguir”, recorda Lee.

Mas sua cruzada não é dirigida apenas contra Trump, ela se estende por todo o planeta: “Não é só o agente laranja, o do Brasil [o presidente eleito Jair Bolsonaro] é igualmente ruim. Ocorre em nível global. Temos de combater essas pessoas”. A vitória de Jair Bolsonaro e o avanço de partidos populistas na Europa o levam a ficar em alerta para a chegada de velhos fantasmas do passado. “Usam o medo das pessoas. Isso não é novo, é a forma como o fascismo costuma jogar”, sustenta o cineasta.

(…)

Spike Lee. Foto: Wikimedia Commons
Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/cineasta-spike-lee-fascismo-usa-o-medo-nao-e-so-trump-bolsonaro-e-igualmente-ruim/

O que a cultura tem a ver com a vitória de Bolsonaro?

A-redencao-de-CamO plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas

O fenômeno de Jair Bolsonaro é explicado por uma teia complexa de elementos interligados e interdependentes. É uma questão de representatividade ultraconservadora; é resultado de uma militarização histórica da política brasileira; é fruto de uma minimização dos debates travados sobre notícias falsas que vêm sendo alertados por entidades competentes desde antes das eleições.

Também é produto de um financiamento milionário de Caixa 2, ignorado pela justiça; é emblema da doutrinação evangélica fundamentalista; está em sintonia com uma onda reacionária internacional; constrói-se em cima de uma prática antiga de caça aos comunistas para preservação do liberalismo; passa pela pouca reflexão feita sobre o que de fato foi o período da ditadura civil-militar no Brasil.

Não fossem todos esses motivos já suficientes, Bolsonaro ainda se vangloria com o ódio ao Lula e ao PT, construído minuciosamente para que houvesse um inimigo comum a ser derrotado; aproveita-se do clamor pelo novo, mesmo que este novo tenha três décadas de cargo político.

A lista é longa e apesar de cada motivo elencado suscitar outros tantos debates, existe ainda um elemento importantíssimo, situado no centro deste episódio: a cultura, analisada aqui como uma política nacional antes mesmo de existir nação.

Um dos pilares que balizaram a colonização do Brasil é de ordem cultural. Os invasores europeus chegaram aqui exterminando os povos indígenas e seus costumes, catequisando os sobreviventes e silenciando as identidades originárias para que fizessem caber o que os portugueses queriam. Diminuíram seus artefatos, chamaram-nos de “primitivos”.

Sequestraram africanos negros, especialmente das regiões atuais de Angola, Moçambique e Nigéria, para escravizá-los no território colonial pelo trabalho, pelo pensamento e pelos costumes. Não deixavam que dançassem, não deixavam que capoeirassem, não deixavam que falassem sua própria língua ou fizessem rituais religiosos. Condenaram os orixás e forçaram por cima de tudo um Deus único, com D maiúsculo.

Foi um intenso e violento processo de aculturação, lançado como projeto político sobre os povos indígenas, a população negra africana e seus descendentes, que hoje são a grande maioria dos brasileiros, mesmo que a população tenha fenótipo majoritariamente branco. Há sempre uma gota de sangue indígena ou negra nas nossas veias.

O plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas. Esse processo também é complexo: a consolidação de uma cultura hegemônica sobre outra passa desde por políticas de estado, como a política de branqueamento praticada no século XIX (que transbordou da questão colorista para os modos e costumes), como passa também por uma simples mas genuína necessidade de pertencimento. Identidades existem e são importantes porque criam sensação de vínculo com o território e com o grupo social, cria empatia e consciência de coletividade.

Se apagam uma identidade aqui, procura-se outra acolá, que será encontrada na coletividade mobilizadora mais próxima, que atualmente reside muito provavelmente em uma igreja fundamentalista ou em um grupo de Whatsapp recheado de ficções. Isso explica em partes a existência de algumas figuras pertencentes a minorias sociais que apoiam um presidente explicitamente contrário a minorias. Suas identidades originais foram negadas há gerações.

Órfãos de raízes não se entendem como indivíduos ameaçados pelo discurso de Bolsonaro, mesmo que a evidência esteja na cara. E mais do que isso, enxergam no militar reformado uma referência de sucesso. Querem ser brancos de olhos claros, patriarcas da família, severos, rigorosos, temidos e, por isso, respeitados. Querem ser “civilizados” (era essa a desculpa da política de branqueamento de dois séculos atrás).

Em um país tão rico como o Brasil, o projeto de construção de uma nação, criado pela monarquia branca colonizadora, colocou em prática ações para anulação de identidades seguida de hegemonização de uma cultura tida como superior, como forma de manutenção de um poder cruel, apesar de disfarçado de boas intenções.

Existe ainda mais um elemento que deve ser colocado na conta da cultura. Se ela foi historicamente usada para divulgação de um discurso oficial injusto e desigual, é por ela que as identidades silenciadas podem se emancipar. Os poderosos sabem bem disso e exatamente por isso negligenciam a cultura atualmente. Nunca há recursos para nada, e quando há, ele é questionado. “Um absurdo construir museu com pessoas morrendo em hospitais”, vão dizer.

Detalhe do quadro a Redenção de Cam. A obra aborda as controversas teorias raciais do fim do século XIX e o fenômeno da busca do “embranquecimento”

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Quase todos os países da América do Sul que passaram por ditaduras nas décadas de 1960-1970 têm hoje museus, mesmo que pequenos, que expõem a catástrofe e o absurdo dos regimes. O Brasil não tem. Em São Paulo, existe o Memorial da Resistência, dedicado à preservação das memórias e da repressão política do Brasil republicano, localizado no antigo DOPS, mas ainda não é suficiente para dar conta da necessidade urgente que existe de reflexão e entendimento do que foi o período ditatorial no país.

O funcionamento pleno e eficiente de instituições assim depende de investimento, recurso para pesquisa e manutenção. Se isso não aconteceu até hoje, não é agora, com Bolsonaro e todo o Congresso reacionário eleito, que vai acontecer. E cá entre nós, está bem óbvio que não há interesse algum do poder vigente em promover uma reflexão sobre a ditadura no Brasil.

Na sociedade domesticada, administrada e colonizada, a cultura é uma das ferramentas de emancipação mais eficientes que existem. É pela cultura que se alerta para as raízes de um povo e para sua história. É por ela que o pensamento crítico se desenvolve. A democracia e a igualdade tão clamadas nas ruas (e nas redes sociais) passam necessariamente pela cultura. A negligência a ela sempre elegerá Bolsonaros na história. Este era o plano, não era? Deu certo para eles. A reversão da situação só poderá ser efetivada quando a cultura for tratada e alimentada como a revolucionária que é.

 

Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

Fontehttps://diplomatique.org.br/o-que-a-cultura-tem-a-ver-com-a-vitoria-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0dTO7rzLkpy7C-oLLDRw6ro_drvHrOqU26kdwtyjGuG3HNqB-idg1J7eE