Eleições na Nigéria para presidente

000000000000nigeriastatesmapbA Nigéria, primeira potência petroleira da África e país mais populoso do continente com 190 milhões de habitantes, escolherá em eleições muito disputadas em 16 de fevereiro o seu presidente, entre o chefe de Estado em fim de mandato Muhamadu Buhari, e o líder da oposição, Atiku Abubakar, em uma campanha marcada pela morte de 15 pessoas na terça-feira em uma avalanche humana após um ato do primeiro.

O presidente em fim de mandato Buhari realizou no sábado o seu principal ato de campanha em Lagos diante de dezenas de milhares de pessoas.

Em contrapartida, o partido de Abubakar, que tinha previsto uma grande concentração em Abuja, teve que cancelá-la. Abubakar acusou o presidente Buhari e sua formação de estarem por trás da proibição de chegar o local previsto do ato, afirmação negada pelo partido no poder.

Durante um mês, Buhari, candidato do Congresso dos Progressistas (APC), e Abubakar, do Partido Popular Democrático (PDP), principal movimento de oposição, percorreram os 37 estados da Nigéria.

Ao menos 15 pessoas morreram na terça-feira em uma avalanche humana ao terminar um ato de Buhari, em um estádio de Port Harcourt (sudeste), quando a multidão tenta sair do local, informou um hospital nesta quarta.

“Foram levados 15 corpos (ao Hospital Universitário de Port Harcourt, estado de Rivers), três homens e 12 mulheres”, assinalou o porta-voz do hospital Kem-Daniel Elebiga.

“Doze sobreviventes” foram tratados ou estão em tratamento, acrescentou.

Mas aqueles que assistem a estas manifestações gigantescas podem obter algum dinheiro, comida ou “presentes” jogados pelas equipes de campanha para a multidão, o que relativiza seu caráter multitudinário.

A Nigéria mergulhou em uma recessão econômica entre 2016 e 2017, logo depois que Buhari chegou ao poder, e hoje o crescimento não está se recuperando.

O gigante da África é atualmente o país do mundo que tem o maior número de pessoas vivendo abaixo do limiar da extrema pobreza (87 milhões), à frente da Índia, de acordo com o World Poverty Clock.

O tema econômico centraliza a campanha e o opositor Abubakar prometeu em seu lema que “a Nigéria volte ao trabalho” (“Make Nigeria work again”).

Mas Buhari se posicionou como um político próximo ao povo, com sua medida “Trader Moni”, um sistema de microcrédito de 24 a 75 euros para os dois milhões de pequenos comerciantes nos mercados.

Na Nigéria, país dividido entre um sul predominantemente cristão e um norte dominado pelos muçulmanos, além de diversas comunidades, a escolha dos candidatos é geralmente baseada em sua região de origem, ou religião, do que em suas ideias e programa.

Mas este ano, os dois principais candidatos são muçulmanos e pertencem à mesma comunidade hausa, estabelecida no norte do país.

Fonte:https://www.dn.pt/lusa/interior/nigeriaeleicoes-gigante-africano-na-reta-final-para-escolher-o-proximo-presidente-10576125.html

Juventude nigeriana está pessimista em relação às eleições para presidente na Nigéria

jo

Pela primeira vez, os nigerianos nascidos depois da instauração da democracia em 1999, e após décadas de ditaduras militares, são chamados às urnas no próximo dia 16 para eleger o seu presidente.

Os jovens, porém, sentem-se excluídos do jogo político da maior economia africana, dominado por uma elite envelhecida. As presidenciais do próximo sábado serão disputadas por dois septuagenários, ligados aos dois partidos que dominam a política nigeriana, e os cerca de 60% da população com menos de 25 anos manifesta encontram poucas razões para votar.

O chefe de Estado cessante, Muhammadu Buhari, 76 anos – que já tinha ocupado o cadeira presidencial nos anos 80 na sequência de um golpe de Estado, e foi eleito em 2015 para um mandato de quatro anos –, enfrenta Atiku Abubakar, 72 anos, antigo vice-presidente entre 1999 e 2007.

“São sempre as mesmas mentiras, a mesma corrupção, não há nada que mude para nós”, diz à AFP um jovem vendedor de rua com 19 anos, Femi Edu, a propósito dos políticos que dividem entre si o poder desde o evento da democracia há 20 anos.

Femi Edu não irá votar. “Nós o que queremos é apenas trabalho, mas nem isso eles são capazes de nos dar”, diz este jovem desempregado que, como milhões de compatriotas, vive graças à economia informal.

Esta será a primeira vez que a geração de nigerianos nascidos depois das ditaduras militares pós-independência (1966-1999) podem exprimir-se nas urnas para eleger o próximo presidente, assim como os próximos deputados à Assembleia Nacional e os governadores.

O grupo de eleitores da faixa etária entre os 18 e os 35 anos assume-se neste escrutínio como o principal bloco do eleitorado, com 51% dos inscritos (43 milhões), e é o mais apetecido alvo de sedução dos candidatos, tanto nas redes sociais como na televisão.

À semelhança de Femi Edu, muitos jovens, porém, não acreditam nas promessas de quem se diz apostado em fazer erguer o gigante de pés de barro, gangrenado pela corrupção, que, apesar das imensas riquezas retiradas do petróleo, dificilmente assegura o mínimo de sobrevivência aos seus 190 milhões de habitantes.

“A `política é suja`: é isso que pensam os jovens. Eles têm a impressão de que o seu voto não conta”, diz à AFP a cantora Celeste Ojatula, 24 anos, que participa no programa Voice2rep, lançado pela sociedade civil para incitar os jovens nigerianos a votar.

Celeste Ojatula e uma dezena de outros jovens artistas participaram em três grandes concertos de rap e afrobeats gratuitos, cuja entrada foi aberta a todos os que apresentassem o cartão de eleitor.

“A maior parte apenas quer ir para longe daqui, estudar no Canadá e ter uma vida melhor”, acrescenta uma outra cantora, Chioma Ogbona, 30 anos. “O cartão de eleitor serve sobretudo para obterem um visto ou para abrirem conta num banco, não apenas para votar”, acrescenta.

A editorialista Tabia Princewill, também citada pela AFP, diz que a juventude educada e urbana partilha desencanto. “Os que votam são os mais pobres, os que estão mais em baixo na escada social. Como têm a barriga vazia, basta dar-lhes um saco de arroz que eles dão o seu voto”, explica. “Ainda é preciso uma ou duas gerações para que as coisas mudem mesmo”.

Após anos de lobbying intenso da sociedade civil, em maio de 2018 foi dado um passo importante para o envolvimento dos mais jovens na política ativa nigeriana, com a adoção da lei “Not too young to run” (não demasiado jovem para concorrer), que reduziu a idade limite dos candidatos às presidenciais de 40 para 35 anos e 35 para 30 para os candidatos a governador.

Chike Ukaegbu, com apenas 35 anos, não precisou de mais do que isto para se lançar na corrida presidencial. “Nunca tinha pensado nisto”, confessa o jovem empresário originário do sudeste do país, que vive entre a Nigéria e Nova Iorque.

“Deixámos de ter desculpa, já não podemos dizer que eles não querem saber de nós”, explica à AFP o benjamim entre os 73 candidatos declarados. “Estamos em maioria, cabe-nos a nós mudar a história da nossa nação”, acrescenta.

Muito poucos eleitores conhecem o seu rosto, por comparação com as caras dos candidatos favoritos, cujos outdoors gigantes e cartazes estão afixados em todas as grandes cidades do país.

Em parte por falta de meios, é, assim, através da internet e de mensagens pela Whatsapp que o candidato se dirige aos jovens — ainda que milhões de entre eles vivam em zonas remotas fora das grandes cidades, onde não chegam sequer as redes de telecomunicações.

Prince Bukunyi Olateru-Olagbegi, com apenas 27 anos, criou no ano passado o Partido Democrático Moderno (MDP), reclama ter alcançado já os 65 mil militantes, e é outro jovem protagonista nestas eleições, às quais concorre com dois candidatos às legislativas.

“Oferecer a esperança” é o seu programa, através de investimentos massivos na educação, criação de empregos e anulação das clivagens étnicas e religiosas.

Ganhar uma eleição presidencial na Nigéria é, no entanto, uma missão quase impossível sem patrocínio político e muito dinheiro, reconhece.

Por cada assento na Câmara dos Representantes, câmara baixa do Parlamento nigeriano, os dois principais partidos, Congresso dos Progressistas (APC, no poder) e o Partido Democrático do Povo (PDP), vão gastar até 150 milhões de nairas (mais de 360 mil euros) na campanha, garante Olateru-Olagbegi.

“Mas há que começar por algum lado”.

Fonte: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/filhos-da-democracia-votam-pela-primeira-vez-na-nigeria_n1129129

Eleições da África do Sul preocupa os bispos

africa moçambique

No próximo dia 8 de maio, a África do Sul vai às urnas para as eleições gerais. Em vista deste escrutínio eleitoral, a Conferência Episcopal local (Sacbc) publicou uma Carta pastoral “aos católicos e a todos os homens de boa vontade”.

Cidade do Vaticano

Um apelo por eleições “pacíficas, livres e transparentes” e um apelo “à oração”: ao longo destes dois eixos se desenvolve a Carta Pastoral dos Bispos sul-africanos, publicada em vista das eleições gerais marcadas para o próximo 8 de maio. Os bispos redigiram o documento em Mariannhill durante a Assembléia Plenária.

Escolher líderes que promovam o bem comum

Em primeiro lugar, os bispos definem “imperativo” o exercício do direito de voto de forma “sábia e corajosa, sem deixar-se distrair por falsas promessas”, olhando para os líderes capazes de “promover o bem comum e viver a Constituição à luz do Evangelho”. Daí a exortação aos eleitores a se fazerem algumas perguntas antes de entrarem na urna, como por exemplo: quem, de entre os candidatos, poderá efectivamente erradicar a corrupção, enfrentar os temas do desemprego e da pobreza e reduzir drasticamente o nível de violência perpetrada na população, em particular mulheres e crianças. Em síntese, sublinham os bispos, trata-se de escolher líderes que sejam capazes de “proteger a democracia” e fazer com que os cidadãos se sintam “orgulhosos de serem sul-africanos”.

Não a violências e intimidações

Em seguida – prossegue o documento – é essencial a criação de “um ambiente tolerante, que permita a cada sul-africano de apoiar e votar no partido escolhido, sem receio de violência e retaliações”. Por isso, recordando a responsabilidade do Estado de “garantir a segurança de todos”, os prelados exortam os partidos políticos a evitar as intimidações, tomando medidas decisivas contra os que as cometessem, bem como a “respeitar os resultados eleitorais”, assegurando também o respeito da lei.

O papel dos mass-media

Da mesma forma, também os meios de comunicação de massa são instados pela Igreja da África do Sul a “fugir do sensacionalismo” e a “relatar os eventos de maneira apropriada e responsável, para o bem de todos”. Nesta perspectiva, vem enfim o apelo à oração lançado pelos bispos, que sugerem uma oração em que se implora do Pai o respeito pela lei, a humildade do serviço, a esperança para os pobres, a unidade da população, a paz e a segurança para as crianças.

Intelectuais de Angola protestam contra a escolha de Fernando Pessoa para patrono de CPLP

PorEXPRESSO DAS ILHAS,11 fev 2019 13:04

2

A escolha do poeta Fernando Pessoa como patrono de um programa de intercâmbio académico a nível da CPLP está a ser duramente criticada por algumas personalidade angolanas que apontam o racismo e a defesa da escravatura manifestada pelo autor português como motivo da rejeição.

O nome de Fernando Pessoa foi escolhido pela Comunidade os Países de Língua Portuguesa (CPLP), actualmente presidida por Cabo Verde, para patrono de um programa similar ao Erasmus, que visa a educação, formação e mobilidade de jovens do espaço de língua portuguesa, oferecendo-lhes oportunidades de estudo, aquisição de experiência e voluntariado por um período curto num dos países da CPLP à sua escolha.

Este fim de semana começaram a surgir reacções de desagrado, vinda por agora de algumas personalidades angolanas. É o caso de Luzia Moniz, presidente da PADEMA – Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana que num artigo de opinião publicado no Jornal de Angola expôs as ideias racistas e a apologia à escravatura em textos de Fernando Pessoa.

“Aos 28 anos escreveu: “A escravatura é lógica e legítima; um zulu (negro da África do Sul) ou um landim (moçambicano) não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir aos fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico. O degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude”. Em 1917, aos 29 anos continua: “A escravatura é a lei da vida, e não há outra lei, porque esta tem que cumprir-se, sem revolta possível. Uns nascem escravos, e a outros a escravidão é dada.”, escreveu a intelectual no artigo intitulado “CPLP escolhe escravocrata racista para projecto juvenil”.

E com a obra “Fernando Pessoa: Uma (quase) autobiografia” do investigador brasileiro José Carlos Cavalcanti Filho como referência Luzia Moniz prossegue com as citações de Pessoa para fundamentar que, aquele que é tido como um dos maiores poetas da língua portuguesa, era defensor de uma ideologia racista e pró-escravatura: “Ninguém ainda provou que a abolição da escravatura fosse um bem social”. E ainda: “Quem nos diz que a escravatura não seja uma lei natural da vida das sociedades sãs?””.

Segundo a Angop, para a intelectual angolana a indicação de Pessoa por parte de Portugal faz parte de uma tentativa de “branquear” a imagem do poeta, tentativa essa que não a surpreende ao contrário da pronta aceitação por parte dos outros países membros, particularmente os países africanos “vítimas da escravatura”.

Luzia Moniz terá manifestado isto mesmo na Assembleia da República de Portugal, durante a cerimónia de abertura do ano da CPLP para a Juventude, na quarta-feira passada, perante deputados portugueses, governantes dos Estados da CPLP, jovens, activistas, intelectuais e académicos afro-descendentes, brasileiros, portugueses e africanos.

“Não sei se Pessoa é ou não bom poeta. Isso pouco interessa para o caso. A minha inquietação é o uso da CPLP para branquear o pensamento de um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a Humanidade: a escravatura”.

Também o médico angolano Miguel Kiassekoka considerou a escolha do nome de Fernando Pessoa como “uma pretensão de Portugal continuar como guia do novo império, sob a capa de uma comunidade que conservou o seu centro de decisão em Lisboa”. E acrescenta que o Secretariado Executivo da CPLP deveria consultar os países membros, antes de impor unilateralmente um “nome português indigno da história comum africana”.

Outro a manifestar-se foi o sociólogo angolano Manuel Luís Dias dos Santos para quem a atribuição do nome de Fernando Pessoa para o projecto/programa de mobilidade e intercâmbio académico na CPLP “faz parte da estratégia de Portugal, como Estado membro desta comunidade, de procurar liderar e nomear os processos comuns da mesma”.

Ainda segundo o portal Angop, o investigador angolano Eugénio Costa Almeida tem posição mais moderada sobre o assunto, já que consideraria “aceitável” a atribuição, pela CPLP, do nome de Fernando Pessoa, “se tivesse sido por vontade de todos os membros da comunidade”.

“Reconheço que umas das razões que leva algumas pessoas a manifestar a sua indignação se prendem pelo facto de Fernando Pessoa ter escrito em texto algo que pode ser indicador de alguma nódoa rácica contra a população negra africana”, disse Eugénio Costa Almeida àquela agência noticiosa angolana

Nomes como Eça de Queiroz – que era abertamente contra a escravatura –, Jorge Amado, Corsino Fortes, Alda Lara, Alda Espírito Santo, José Saramago e do académico angolano Mário Pinto de Andrade foram apontados por estes intelectuais como alternativa.

“Espera-se dos países africanos membros que revertam essa situação, opondo-se ao nome de Fernando Pessoa, mesmo que com esse digno gesto se crie um novo irritante. Os irmãos de Cabo verde, que neste momento presidem a CPLP, têm uma responsabilidade acrescida nesta questão. Se Portugal olha para a CPLP como um instrumento de dominação dos outros, cabe-nos a nós, africanos, impedir que isso aconteça”, exorta Luzia Moniz.

De intelectuais cabo-verdianos no país ou na diáspora ainda não se conhecem reacções.

 

Fonte:https://expressodasilhas.cv/cultura/2019/02/11/intelectuais-angolanos-contra-a-escolha-de-fernando-pessoa-para-patrono-de-projecto-da-cplp/62305

Mecanização da agricultura africana

agriculture-riz_0A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Rede Africana de Conservação (ACT) assinaram na quinta-feira (7) um memorando de entendimento para incentivar maior acesso dos pequenos agricultores africanos à mecanização sustentável das propriedades, como tratores e outras máquinas que podem melhorar a vida do trabalhador rural.

A parceria também procura vincular o uso de máquinas agrícolas à agricultura de conservação, que é um sistema de cultivo que promove o mínimo de perturbação do solo e o plantio de espécies vegetais complementares para melhorar a biodiversidade e os processos biológicos naturais.

 

Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e a Rede Africana de Conservação (ACT) assinaram na quinta-feira (7) um memorando de entendimento para incentivar maior acesso dos pequenos agricultores africanos à mecanização sustentável das propriedades, como tratores e outras máquinas que podem melhorar a vida do trabalhador rural.

A parceria também procura vincular o uso de máquinas agrícolas à agricultura de conservação, que é um sistema de cultivo que promove o mínimo de perturbação do solo e o plantio de espécies vegetais complementares para melhorar a biodiversidade e os processos biológicos naturais.

Na África, pequenos agricultores usam sua própria força muscular, como enxadas manuais, em cerca de 65% da mão de obra total necessária para o preparo da terra. Já 25% da força vêm da tração animal e 10% de máquinas movidas a motor. No Sul da Ásia, em comparação, a força muscular humana é usada para 30% do trabalho de preparação da terra, enquanto a potência do motor representa 40%, e na América Latina e Caribe, 50%.

“Este acordo é uma parte importante do trabalho da ACT e da FAO para a adoção da mecanização agrícola sustentável em toda a África, que tem o potencial de transformar as vidas e os meios de subsistência de milhões de pequenos agricultores”, afirmou Saidi Mkomwa, secretário-executivo da Rede Africana de Conservação da Agricultura (ACT).

“Uma das maneiras pelas quais podemos alcançar a produção agrícola sustentável na África é através da adoção da agricultura de conservação e mecanização mais apropriada”, disse o diretor-geral adjunto da FAO, Bukar Tijani, que dirige o Departamento de Agricultura e Defesa do Consumidor da FAO.

“Esta parceria para a África será uma plataforma para reunir as partes interessadas do setor privado, grupos de agricultores, sociedade civil, ministérios da agricultura e além, para alcançar nossa visão de um mundo de fome zero”, acrescentou.

Vinculando mecanização à agricultura sustentável

A mecanização em toda a cadeia de valor dos alimentos — da produção e colheita ao manuseio, processamento e transporte – alivia o trabalho penoso, aumenta a produtividade agrícola, aumenta a renda e fornece novos empregos, como serviços de mecanização e reparos. A mecanização sustentável também pode conservar os recursos naturais e permitir que os sistemas agrícolas sejam mais resilientes às mudanças climáticas.

A União Africana comprometeu-se a banir o trabalho com enxada até 2025. No ano passado, a FAO e a UA produziram a “Mecanização Agrícola Sustentável: Um Quadro para a África (SAMA)”, e o acordo de hoje com a rede ACT contribuirá para implementar esse quadro.

A colaboração também visa promover a partilha de conhecimento e apoiar um maior diálogo político sobre a mecanização agrícola sustentável e a agricultura de conservação.

A rede ACT foi estabelecida em 2006 e é uma organização internacional pan-africana sem fins lucrativos dedicada a melhorar os meios de subsistência na África através de agricultura sustentável, agroecologia e gestão de ecossistemas.

Fonte:http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1179610/

Negro também é gente, Sinhá

monteiro lobatFolha de São Paulo, 10 de fevereiro de 2019

“Negro também é gente, Sinhá”
Revisitando a polêmica sobre o racismo nos livros infantis de Monteiro Lobato
Lucilene Reginaldo
(Professora do Departamento de História da UNICAMP)
No último domingo, Jorge Coli publicou em sua coluna na Ilustríssima o texto intitulado “Viva Lobato!” O artigo festeja a boa notícia de que as obras de Monteiro Lobato estão agora em domínio público. Coli retoma um debate que eu havia acompanhado com interesse em 2010, provocado pela denúncia de conteúdo racista do livro Caçadas de Pedrinho protocolada pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, no Conselho Nacional de Educação. Da denúncia resultou um parecer técnico solicitado pelo próprio MEC, que recomendou a permanência do livro no Programa Nacional de Biblioteca da Escola com a seguinte advertência: “A obra Caçadas de Pedrinho só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.
A recomendação deu publicidade ao assunto e levou a polêmica ao grande público. Escritores de prestígio como Ziraldo e Ana Maria Gonçalves se manifestaram publicamente. O primeiro defendendo a importância da obra de Lobato para sua e outras gerações de brasileiros; a segunda explicitando o conteúdo racista e alertando para seus efeitos danosos nas crianças negras.
Ao ler o texto de Jorge Coli, fiquei impactada com uma afirmação: “Só quem não leu ou não compreendeu os livros infantis de Lobato pode julgá-los racistas”. Respeitosamente, quero discordar do meu colega. Minha argumentação seguirá dois fios condutores. Primeiro, quero mencionar uma experiência pessoal, algo que não é do meu feitio, mas creio que é apropriado para a ocasião. Depois, da perspectiva de alguém que, nos últimos anos, tem estudado a história do racismo.
Em 2010, instigada pela polêmica, resolvi ler Caçadas de Pedrinho para meu filho, com seis anos na época. A coleção de clássicos de Monteiro Lobato estava lá na sua pequena biblioteca, e já não me recordo se foi presente ou aquisição. Eu mesma tinha lido as estórias de Lobato na infância, numa daquelas edições que os vendedores de enciclopédias ofereciam de porta em porta nos bairros populares. Sinceramente, não me lembro do impacto de Lobato na leitora infantil. Recordo bem da série televisiva, uma versão já adaptada e depurada da obra. Juntei a fome com a vontade de comer. Ler Lobato para meu filho, além do prazer materno cultivado ao longo dos anos, seria também uma oportunidade de “checar” e me posicionar no debate.
Confesso que foi uma experiência inusitada para uma mãe historiadora. Não encasquetei apenas com a frase “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima”. Tia Nastácia era sempre a “bola da vez”: ingênua, simplória, medrosa, serviçal e alvo de racismo e discriminações explícitas. Tudo em perfeita consonância com a hierarquia racial: na base da pirâmide, a mulher negra. Para a onça que atacava os moradores do sítio, Tia Nastácia é “furrundu”, um doce feito com mamão verde, rapadura, cravo e
canela, portanto preto. No calor da guerra com as onças, Emília, a bonequinha esperta e independente, comenta: “Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem a carne preta”. O que mais me incomodava era que Tia Nastácia era adjetivada como negra, preta o tempo todo. Só ela tinha cor, apenas nela a cor se colava como uma marca indelével, mesmo que fosse “a boa negra”. Negra é vocativo, como bem interpreta Ana Maria Gonçalves. As expressões bradejavam contra tudo que nossa família buscava ensinar a um menino negro de seis anos. Por isso, confesso, omiti, cortei palavras, adaptei e editei alguns trechos. Logo eu, defensora do pensamento livre!
Não pretendo discorrer sobre o entusiasmo de Lobato com as ideias eugenistas para demonstrar seu racismo – que está, sim, expresso em sua obra ficcional. Muitos intelectuais já o fizeram com muito mais propriedade e competência. Entre 1918 e 1946, Lobato manteve correspondência constante com Renato Kehl, diretor associado da Sociedade Eugênica de São Paulo. Como ciência, a eugenia reconhecia a existência de qualidades raciais inatas e hierarquizadas; como movimento social, formulou toda uma agenda de intervenções no âmbito da higiene, dos comportamentos, da saúde mental e da educação. Seu objetivo era “melhorar” a composição hereditária de uma sociedade, encorajando a reprodução dos grupos aptos, desencorajando ou prevenindo a reprodução dos inaptos.
A adesão eufórica de Lobato aos “nobres ideais eugênicos”, palavras do próprio autor na primeira missiva enviada a Renato Kehl, elucida o desenraizamento familiar de Tia Nastácia e Tio Barnabé. Os dois não têm pais, irmãos ou filhos; seus únicos vínculos afetivos são com os personagens do Sítio, na condição de serviçais. O bom negro e a boa negra são estéreis. A desejada eliminação do elemento negro – visando o avanço da civilização e o bem público, é claro – assim como a defesa da subalternidade das gentes de cor foram explicitadas por Lobato sem qualquer pudor. Em 1928, quando era adido comercial do Brasil em Washington, Monteiro Lobato enviou uma carta ao amigo Antonio Neiva explicando por que não escrevia crônicas sobre suas impressões e vivência nos Estados Unidos. Após comentários pouco delicados sobre a imprensa e os leitores brasileiros, a primeira lhe parecia “um circo mambembe”, e seu público “um bando de moleques feeble-minded” (estúpidos, em bom português), Lobato lamenta nossa triste condição racial. “País de mestiços, onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para os altos destinos. (…). Um dia se fará justiça ao Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor, porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”. O manuscrito original desta carta citada na dissertação de mestrado “Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou”: raça, eugenia e nação, de Paula Habib, está no acervo do CPDOC – Fundação Getúlio Vargas/RJ. Diante destes fatos, e mesmo reconhecendo que “a arte é sempre maior que o artista”, é difícil cindir autor e obra.
Lobato era um homem do seu tempo. Usando uma expressão que já virou lugar comum, surfava na onda das teorias científicas e do pensamento social dominantes na primeira metade do século XX. Não era o único intelectual e literato racista e eugenista, muito pelo contrário. Poderia aqui apresentar uma lista de entusiastas do racismo
científico. Alguns dos quais leio e releio por dever de ofício e particular interesse por suas contribuições intelectuais.
Mas o que difere Monteiro Lobato da maioria destes homens de letras, entre outras tantas variáveis, é o público leitor privilegiado, os objetivos da leitura. Para não me alongar demais, mas também por certo pudor acadêmico e disciplinar, não entrarei no debate sobre o homem e sua obra de inquestionável valor literário, sofisticação, além de outros atributos críticos. Isso para mim é obvio. Certamente, Lobato é mais do que uma fonte para os estudiosos do eugenismo, do pensamento social e da história da literatura no Brasil. Assim, não vejo por que a recomendação de 2010 não possa ser levada a sério na introdução de seus livros para o público infantil. A questão não é censurar Lobato, não se trata de forma alguma de banir seus escritos por racismo. Uma boa solução é recorrer às edições críticas, que não é prática desconhecida entre os editores. Isso aconteceu com Tintim no Congo, a popular revista em quadrinhos produzida no bojo do colonialismo belga, portanto, plasmada pela explicitação de estereótipos e preconceitos contra os africanos. Após vários debates públicos em diferentes países da Europa, esta obra tem sido publicada criticamente. No Brasil, a Companhia das Letras, que tem os direitos de publicação de Tintim, também apresenta uma nota crítica situando o autor, a obra e a história do colonialismo belga.
Hoje, aos 14 anos, meu filho, assim como muitos meninos e meninas negros – ou não – da mesma idade, pode ler Monteiro Lobato e outros “homens de seu tempo”, sem minha constrangida edição, talvez até se posicionar diante do autor e da obra. Com ajuda de uma nota crítica, talvez seja mais fácil até para os mais novos. Aos seis anos, não havia autor nem obra, apenas personagens com os quais ele vibrava, se identificava ou repelia. Não quero crer que seja necessário ter um filho negro para ser sensível aos malefícios do racismo na formação de uma criança. E acho também que estamos – ou deveríamos estar – longe de querer que um garoto (ou garota) negro aprenda com Nastácia qual é o seu lugar no mundo. Evidentemente, autor e obra são complexos, contraditórios, ambíguos, assim como o leitor pode subverter e se apropriar do texto a seu modo. “Negro também é gente, Sinhá”, afirma Nastácia. Esta é a frase que encerra Caçadas de Pedrinho. A personagem é assertiva – pelo menos aos olhos desta leitora, talvez apesar do autor. Mas nem como mãe, nem como estudiosa do racismo, posso concordar que, depois de afirmar minha humanidade, tenha que reverenciar uma “sinhá”!

Governo brasileiro vê Igreja Católica como potencial opositora

download

Abin e comandos militares relataram articulação de cardeais para o Sínodo sobre Amazônia, reunião no Vaticano que governo trata como parte da ‘agenda da esquerda’

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2019 | 05h00

BRASÍLIA – O Palácio do Planalto quer conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo Jair Bolsonaro, no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda. Na avaliação da equipe do presidente, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do País e nas periferias.

O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares. Os informes relatam recentes encontros de cardeais brasileiros com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, em outubro, bispos de todos os continentes. 

Bispos se opõem a políticos em evento

Durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma “agenda da esquerda”. 

O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva.

Governo anuncia intenção de mudar protocolo de licenciamento de barragens
O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Foto: Dida Sampaio/Estadão

Com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado “clero progressista”, pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional. “Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”, disse Heleno.

Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses.

O GSI também obteve informações do Comando Militar da Amazônia, com sede em Manaus, e do Comando Militar do Norte, em Belém. Com base nos relatórios de inteligência, o governo federal vai procurar governadores, prefeitos e até autoridades eclesiásticas que mantêm boas relações com os quartéis, especialmente nas regiões de fronteira, para reforçar sua tentativa de neutralizar o Sínodo.

Estado apurou que o GSI planeja envolver ainda o Itamaraty, para monitorar discussões no exterior, e o Ministério do Meio Ambiente, para detectar a eventual participação de ONGs e ambientalistas. Com pedido de reserva, outro militar da equipe de Bolsonaro afirmou que o Sínodo é contra “toda” a política do governo para a Amazônia – que prega a defesa da “soberania” da região. “O encontro vai servir para recrudescer o discurso ideológico da esquerda”, avaliou ele.

Conexão. Assim que os primeiros comunicados da Abin chegaram ao Planalto, os generais logo fizeram uma conexão com as críticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Órgãos ligados à CNBB, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), não economizaram ataques, que continuaram após a eleição e a posse de Bolsonaro na Presidência. Todos eles são aliados históricos do PT. A Pastoral Carcerária, por exemplo, distribuiu nota na semana passada em que critica o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que, como juiz, condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato.

Na campanha, a Pastoral da Terra divulgou relato do bispo André de Witte, da Bahia, que apontou Bolsonaro como um “perigo real”. As redes de apoio a Bolsonaro contra-atacaram espalhando na internet que o papa Francisco era “comunista”. Como resultado, Bolsonaro desistiu de vez da CNBB e investiu incessantemente no apoio dos evangélicos. A princípio, ele queria que o ex-senador e cantor gospel Magno Malta (PR-ES) fosse seu candidato a vice. Eleito, nomeou a pastora Damares Alves, assessora de Malta, para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Histórico. A relação tensa entre militares e Igreja Católica começou ainda em 1964 e se manteve mesmo nos governos de “distensão” dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, último presidente do ciclo da ditadura. A CNBB manteve relações amistosas com governos democráticos, mas foi classificada pela gestão Fernando Henrique Cardoso como um braço do PT. A entidade criticou a política agrária do governo FHC e a decisão dos tucanos de acabar com o ensino religioso nas escolas públicas.

O governo do ex-presidente Lula, que era próximo de d. Cláudio Hummes, ex-cardeal de São Paulo, foi surpreendido, em 2005, pela greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio. O religioso se opôs à transposição do Rio São Francisco.

Com a chegada de Dilma Rousseff, a relação entre a CNBB e o PT sofreu abalos. A entidade fez uma série de eventos para criticar a presidente, especialmente por questões como aborto e reforma agrária. A CNBB, porém, se opôs ao processo de impeachment, alegando que “enfraqueceria” as instituições.

‘Vamos entrar a fundo nisso’, afirma Heleno

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro, afirmou que há uma “preocupação” do Planalto com as reuniões e os encontros preparatórios do Sínodo sobre a Amazônia, que ocorrem nos Estados. “Há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”, disse.

Mais próximo conselheiro do presidente Jair Bolsonaro, Heleno criticou a atuação da Igreja, mas relativizou sua capacidade de causar problemas para o governo. “Não vai trazer problema. O trabalho do governo de neutralizar impactos do encontro vai apenas fortalecer a soberania brasileira e impedir que interesses estranhos acabem prevalecendo na Amazônia”, afirmou. “A questão vai ser objeto de estudo cuidadoso pelo GSI. Vamos entrar a fundo nisso.”

Tanto o ministro Augusto Heleno quanto o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, hoje na assessoria do GSI e no comando do monitoramento do Sínodo, foram comandantes militares em Manaus. O vice-presidente Hamilton Mourão também atuou na região, à frente da 2.ª Brigada de Infantaria de Selva, em São Gabriel da Cachoeira.

SÍNODO

O que é?

É o encontro global de bispos no Vaticano para discutir a realidade de índios, ribeirinhos e demais povos da Amazônia, políticas de desenvolvimento dos governos da região, mudanças climáticas e conflitos de terra.

Participantes

Participam 250 bispos.

Cronograma do Sínodo

19 de janeiro de 2019: início simbólico com a visita do papa Francisco a Puerto Maldonado, na selva peruana;

7 a 9 de março: seminário preparatório na Arquidiocese de Manaus;

6 a 29 de outubro: fase final no Vaticano, com missas na Basílica de São Pedro celebradas por Francisco.

Tema do encontro

Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

As três diretrizes do evento

“Ver” o clamor dos povos amazônicos;

“Discernir” o Evangelho na floresta. O grito dos índios é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito;

“Agir” para a defesa de uma Igreja com “rosto amazônico”

Tudo bem? Nem tanto…

desmatamento

Não há espaço para Monroe em temas como a emissão de gases e a poluição dos oceanos

*Mario Cesar Flores, O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2019

Mudança de governo implica naturalmente mudanças na condução política. O que tem sido dado ao conhecimento público inspira esperança na economia e assuntos correlatos. A esperança se concretizará em realidade se o Legislativo eleito em 2018 vier a corresponder.

Mas economia não é tudo. A observação (limitada pelo divulgado na mídia) de alguns fatos e do que seriam orientações do governo sugerem preocupações setoriais. Este artigo foca meio ambiente, clima e suas relações com a política externa. A ideia aventada (“por ora” não efetivada) de retirada do Acordo de Paris, a transferência do Serviço Florestal para o Ministério da Agricultura e a intenção (também não efetivada) de transferir o meio ambiente para esse mesmo ministério recomendam atenção.

Meio ambiente e clima não se sujeitam às fronteiras políticas: alterações no Brasil (a exemplo da influência do meio ambiente no clima) têm reflexos internacionais. No mundo praticamente integrado – 8 bilhões de seres humanos, já dependentes da economia global unificada e conectados por sistemas modernos de informação e transporte – não há espaço para Monroe em temas como a emissão de gases de efeito estufa e a poluição dos oceanos. Neles a América (a Europa, a Ásia…) não é dos americanos (dos europeus, dos asiáticos…), é do mundo. O slogan do presidente Bolsonaro, “o Brasil acima de todos e Deus acima de tudo”, corrobora essa ideia: Deus olha o mundo… O futuro tranquilo do planeta depende do equilíbrio sensato e responsável no confronto entre o “my country first” e a sustentabilidade dos ecossistemas mundo afora, apoiado na ciência e no conhecimento da realidade.

No século 20 (mais na sua segunda metade) o sucesso de organizações supranacionais, reguladoras ou controladoras de atividades necessariamente internacionais, ajudou a desenvolver e consagrar o conceito da multilateralidade (do globalismo) em assuntos de interesse supranacional. Exemplos: Iata (transporte aéreo), IMO (marítimo), Banco Mundial, FMI, OMS, OMC e o complexo integrado dos correios nacionais, conexão global pioneira. No esporte, a Fifa, cujas regras são acatadas no mundo. Outras organizações multilaterais/globais virão por aí e já existem embriões delas. O cenário esboçado no parágrafo anterior sugere ser imperativo o trato multilateral (global) do meio ambiente e do clima. Provavelmente serão criadas organizações de orientação e acompanhamento da ação humana nesses temas e aperfeiçoados ou complementados os acordos internacionais.

Mas, na realidade, os fatos nem sempre correspondem à conveniência: na contramão da evolução globalista, no século 21 vem crescendo no mundo a revitalização do nacionalismo, que secundariza a dimensão global das questões ambiental e climática e as sujeita a injunções do “my country first”. Em paralelo, vivemos a ascensão do bilateralismo (e do minimultilateralismo, associação de poucos) como modelo de associação internacional, que pode de fato ser a mais conveniente para temas singulares envolvendo dois ou poucos países, mas não se aplica a todos os assuntos. Entre eles, o meio ambiente e o clima: a natureza os situa no multilateralismo globalizado.

Ademais, o bilateralismo implica um risco, que existe também no multilateralismo, sem a mesma força: quando é grande a desigualdade entre parceiros, tende a prevalecer as posições do protagônico, embora os interesses nem sempre convirjam. A mudança da embaixada em Israel para Jerusalém (como fará Trump) e a retirada do Pacto Migratório e do Acordo de Paris (o pacto, não assinado pelos EUA e a retirada do acordo, já praticada por Trump) podem ser úteis à “aproximação” Brasil-EUA. Mas que interesses brasileiros seriam atendidos?

Se as restrições ao multilateralismo e à globalização avançarem, na contramão do fato de que o mundo já está globalizado, no meio ambiente e clima por imposição da natureza e à revelia de decisões políticas, além da “marcha à ré” nas relações econômicas globais, o mundo pode vir a ser penalizado por deterioração até traumática de seus ecossistemas, pela perda da capacidade produtiva da terra e pela elevação da temperatura global.

O conhecimento do problema ambiental e climático ainda está incompleto. Estudos em andamento no mundo (o Brasil incluído) e o acompanhamento da realidade poderão indicar (hipótese pouco provável) terem sido exageradas as preocupações e medidas reguladoras ou restritivas. Ou poderão indicar terem sido elas insuficientes – indicação evidenciada pelas atribulações citadas acima Evidentemente, seria melhor para a humanidade ter de esforçar-se para recuperar o tempo que teria sido desperdiçado (primeira hipótese) do que ser dramática ou irreversivelmente exposta a problemas que podem até dificultar a adaptação do homem à nova realidade (segunda hipótese).

Voltando à mudança de governo e suas orientações para a vida nacional: é sempre possível aperfeiçoar a legislação e as instituições que devem orientar e conduzir equilíbrio entre o desenvolvimento e o meio ambiente, procurando compatibilizá-los com as concepções globais a respeito – até porque o Brasil é parte relevante do ecossistema global. Resta “torcer” para que as mudanças que talvez venham a acontecer se pautem na prudência atenta ao futuro, na ciência e na observação crítica da realidade. Resta “torcer” para que sejam protegidas das injunções de interesses econômicos, da conveniência de associações bilaterais e de arrolos do nacionalismo populista ao estilo “America first”, quando não sancionadas pelo multilateralismo global e/ou implicarem condutas contrárias ao que sugerem a ciência e a realidade. E protegidas de influências ideológicas do tipo “a questão climática seria um complô marxista”.

*ALMIRANTE

Fonte:https://opiniao.estadao.com.br/noticias/espaco-aberto,tudo-bem-nem-tudo,70002713994

Mudanças climáticas e segurança nacional

furaão na base de Tyndall

por Adriana Erthal Abdenur
Fevereiro 8, 2019
Imagem por Nasa

As chances crescentes de vendavais, enchentes e secas representam ameaças à segurança nacional não apenas no espaço terrestre mas também na costa

Em 2018, caças F-22 foram parcial ou totalmente destruídos quando o Furacão Michael atingiu a Base Aérea Tyndall, na Flórida. As aeronaves, que valem bilhões de dólares, estavam em solo para manutenção. O furacão, de categoria 4 na escala Saffir-Simpson (que vai até 5), danificou gravemente os hangares da base e boa parte do seu conteúdo.

O evento extremo chamou atenção para um risco que, até poucos anos atrás, sequer constava na lista oficial de ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos: o impacto das mudanças climáticas. Um relatório publicado pelo Pentágono em 2014 já havia alertado que o clima representa “riscos imediatos” para a segurança norte-americana, argumentando que medidas concretas de adaptação seriam necessárias.

Frequência e intensidade dos eventos meteorológicos e a elevação do nível do mar oferecem riscos. Já sabemos que dezenas de bases navais norte-americanas, sobretudo situadas em atóis e ilhas do Pacífico, são vulneráveis. Desastres como o Furacão Michael mostram que as políticas de adaptação colocadas em prática não foram suficientes, segundo novo relatório de defesa. Dois terços das instalações estão sob risco de inundação. Mais da metade é vulnerável a secas e incêndios florestais.

As mudanças climáticas já ameaçam instalações militares brasileiras. Em outubro de 2017, uma tempestade tombou uma aeronave Pantera K2 e danificou helicópteros, gerando estragos milionários na base do Comando de Aviação do Exército, em Taubaté. Os ativos militares brasileiros estão concentrados geograficamente. As chances crescentes de vendavais, enchentes e secas representam ameaças à segurança nacional não apenas no espaço terrestre mas também na costa.

As ameaças não se limitam aos danos materiais. As Forças Armadas no Brasil são importantes no desenvolvimento de áreas remotas e na assistência humanitária, inclusive em casos de desastres naturais e ao longo das zonas de fronteira. O agravamento de tais quadros requer planejamento de longo prazo para mitigação e adaptação. É necessária maior reflexão, inclusive do Ministério da Defesa, sobre como adequar políticas e instituições a essa nova realidade.

As mudanças climáticas se multiplicam e aceleram os conflitos armados por todo o mundo. Dado o histórico brasileiro de participação em operações de paz, tais impactos também são altamente relevantes para a política externa brasileira. Estudos já mostram que elas produzem desafios adicionais às missões de paz das Nações Unidas. Na região do Sahel, a desertificação vem acirrando disputas em torno da água, exacerbando a insegurança alimentar e contribuindo para o surgimento de grupos extremistas.

Furacão atinge o estado da Florida, EUA

 

O clima tem efeitos sobre os padrões de violência e tensões sociais também na América Latina. Nos Andes, o derretimento das geleiras reduz o volume de água de rios. Milhares de pessoas que vivem em vários países da região dependem desses rios, que irrigam terras bem além das áreas montanhosas. O próprio Amazonas nasce das águas de degelo do Nevado Mismi, ao sul do Peru. A América Central e o Caribe sofrem com o impacto de furacões. O Haiti, onde o Brasil teve expressiva atuação junto à missão de paz da ONU, é considerado um dos países mais vulneráveis do mundo às mudanças climáticas.

No Brasil, essa influência começa a ser compreendida. Na Amazônia, mudanças nos padrões pluviais afetam os padrões de seca e de inundações. Isso exacerba os conflitos em torno da terra, provoca enormes fluxos migratórios internos e contribui para crises hídricas em grandes regiões metropolitanas, tais como São Paulo. A mudança climática já ameaça os chamados “rios voadores,” correntes de vento que trazem umidade da Amazônia até a região centro-sul do Brasil.

No Cerrado, a elevação da temperatura pode estender o período de seca, reduzindo a cobertura de árvores e favorecendo as queimadas. Essas secas terão impacto de cada vez maior alcance, já que o Cerrado distribui águas para as principais bacias hidrográficas do país. Em todas essas regiões, infraestruturas críticas, desde hidroelétricas até instalações portuárias, podem sofrer danos irreversíveis em questão de horas em casos de eventos climáticos extremos.

O Ministério da Defesa organizou debates pontuais sobre os impactos das mudanças ambientais em contextos específicos, tais como as operações militares marítimas, terrestres e aéreas. A Política Nacional de Defesa menciona as mudanças climáticas uma vez: afirma que o fenômeno “tem graves consequências sociais, com reflexos na capacidade estatal de agir e nas relações internacionais”. O Livro Branco da Defesa sequer cita as mudanças climáticas. É necessária uma abordagem preventiva e transversal, que preze a cooperação internacional, a mitigação e adaptação de todos os setores da sociedade brasileira. Caso contrário, inclusive as Forças Armadas serão prejudicadas pela falta de preparo.

Quanto à política externa, a permanência do Brasil no Acordo de Paris permite que o país também coopere com outros Estados. Isso para o desenvolvimento, e também para a segurança nacional. Faltam, portanto, políticas e diretrizes que levem a sério o enorme impacto que as mudanças climáticas já surtem sobre os interesses nacionais, e os efeitos ainda mais graves que o fenômeno terá sobre a segurança durante as próximas décadas. As mudanças climáticas requerem uma visão a longo prazo, sob uma ótica de direitos humanos e fundamentada no planejamento sistemático e de precaução.

 

*Adriana Erthal Abdenur é da Divisão de Segurança e Paz do Instituto Igarapé.

Fonte:https://diplomatique.org.br/mudancas-climaticas-e-seguranca-nacional