Portugal:“Ainda não furámos a barreira de vidro mas estamos a ir contra ela e vamos quebrá-la

No último dia da conferência Afroeuropeus, activistas portugueses discutiram sobre as questões que estão de fora da fotografia, mas também sobre os passos já dados. Durante três dias, cerca de 300 pessoas discutiram no ISCTE, em Lisboa, o que é ser negro na Europa. Organização destaca presença de jovens e mulheres.

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O congresso levou 300 pessoas ao ISCTE, em Lisboa, segundo a organização SOFIA YALA RODRIGUES

Não era uma performance mas a activista Alexandra Santos, da Queering Style, conseguiu pôr a plateia a segui-la pela sala, por onde andou com o microfone a provocar respostas. “Levante-se quem conhece pessoas negras LGBTI+; levante-se quem conhece pessoas negras, LGBTI+ e pobres”, pediu.

Percorreu mais exemplos mas o ponto essencial era mostrar que no movimento negro em Portugal faltam pessoas na fotografia e que é preciso trazê-las ou ir ter com elas. Criticou também o movimento LGBTI+ de ser dominado por homens brancos, ricos, e falou da necessidade de as actividades anti-racistas trazerem “as pessoas das margens”.

Alexandra Santos foi a primeira oradora do debate sobre resistência este sábado, na conferência internacional Afroeuropeus: in/visibilidades negras contestadasque começou na quinta-feira, de manhã, no ISCTE, em Lisboa, e que reuniu durante três dias centenas de oradores e participantes.

Em cerca de duas horas, os quatro oradores lançaram sobretudo perguntas para a plateia reflectir, como notou a moderadora Raquel Lima, investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e membro da comissão organizadora.

Beatriz Dias, presidente da Djass — Associação de Afrodescendentes, reconheceu a lacuna apontada por Alexandra Santos, mas sublinhou os avanços da luta anti-racista em Portugal com as mudanças, ainda que não totalmente ao encontro de todas as reivindicações, na lei da nacionalidade; com a presença de representantes das associações de afrodescendentes no grupo de trabalho que discutiu a criação de uma pergunta sobre a origem étnico-racial no Censos 2021 ou com a construção do memorial da escravatura, que a Djass impulsionou. “Temos conseguido articular as agendas que falam do feminismo, da classe social, das questões LGBT. Termos um movimento negro interseccional, com protagonistas diferentes e em áreas diferentes, tem sido fundamental.”

Referiu também a importância de hoje os partidos políticos terem uma agenda anti-racista — a Assembleia da República irá entregar em breve um relatório sobre racismo, discriminação e xenofobia elaborado com a participação de todos os partidos com assento parlamentar. E afirmou: “Ainda não furámos a barreira de vidro que nos coloca do lado de fora mas estamos a ir contra ela e vamos quebrá-la”.

Por seu lado, Alesa Herero, artista e activista, frisou a necessidade de colocar o foco em como é que, considerando as diferenças no movimento activista, as várias vozes se podem fazer ouvir. “Ouvimos falar de interseccionalidade o tempo todo, mas como é que a praticamos?”, questionou. Alertou ainda para os perigos do colorismo, corrente que defende que a discriminação é maior quanto mais escura é a pele, e para as cisões que pode criar dentro do movimento. “Estamos a reproduzir a lógica colonial”, alertou.

Do Consciência Negra, grupo que tem feito a campanha pela lei da nacionalidade, António Tonga referiu a sua biografia para explicar o que o levou ao activismo. É filho de uma médica angolana que veio para Portugal refugiada durante a guerra civil no seu país, que teve grandes dificuldades em ver a sua qualificação profissional reconhecida mas batalhou até conseguir; António nasceu em Portugal, mas só em 2010 obteve a nacionalidade portuguesa. “Isso fez-me pensar que havia algo iminentemente político na nossa situação.” Considerando que o racismo só existe por causa do capitalismo, insistiu na ideia de ir ter com as comunidades negras aos seus bairros e despertar consciências.

De resto, as questões da interseccionalidade estiveram sempre em cima da mesa durante estes dias, quer nos temas, quer nas discussões posteriores entre intervenientes, analisou, num balanço ao PÚBLICO, a socióloga Cristina Roldão, que faz parte da comissão organizadora. “A conferência foi muito importante para pensar a política e as condições dos afrodescendentes em Portugal porque trouxe experiências de outros países e mostrou como o racismo não é uma questão isolada nem pontual, mas transversal a vários países”, afirmou. Também em relação ao activismo, a partilha foi importante, referiu, pois deu visibilidade internacional aos movimentos portugueses e vice-versa.

Desde quinta-feira que mais de 300 pessoas passaram pelo ISCTE, vindos de vários países europeus mas também dos Estados Unidos e do Brasil. Cristina Roldão sublinha a “forte presença feminina e jovem” entre os intervenientes e a audiência. “Mostra que há um número cada vez maior de jovens negros nascidos na Europa que estão a reflectir sobre a sua condição e a organizar-se para a transformar em diferentes palcos”, concluiu.

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