Assassínio de milhares de nativos na atual Namíbia constituiu primeiro genocídio do século 20, promovido pelos alemães

Africanista diz que Governo alemão tenta ganhar tempo para enfraquecer processo sobre assassínio dos povos Herero e Nama durante a era colonial na atual Namíbia. Julgamento é adiado para 2018.

defaultAssassínio de milhares de nativos na atual Namíbia constituiu primeiro genocídio do século 20

A tensão diluiu-se. Esta semana, seria tomada nos Estados Unidos uma decisão judicial sobre o genocídio de mais de 75 mil pessoas das tribos Herero e Nama que se revoltaram contra o Governo colonial alemão no território da atual Namíbia há mais de 100 anos. No entanto, a audiência foi adiada para 25 de janeiro de 2018.

O pedido foi feito pelo advogado norte-americano Kenneth McCallion, que representa as vítimas no caso. O advogado pediu ao tribunal federal em Nova York uma extensão de três meses até a realização da nova audiência. A justificativa foi que o Governo alemão ainda não se desculpou pelas atrocidades cometidas no passado. “O Governo parece ser mais lento do que esperávamos”, disse ao lamentar a demora da Alemanha em tomar uma posição sobre o caso e em nomear representantes para participar da audiência.

“Solução através de negociações”

Em julho, o senador para Justiça de Berlim, Dirk Behrendt, rejeitou a queixa alegando que as acusações violam a imunidade de jurisdição, um princípio do Direito Internacional que exclui a possibilidade de um Estado ser submetido à jurisdição interna de um outro país.

Jürgen Zimmerer, africanista da Universidade de Hamburgo, acompanha as negociações. O analista critica o fato de a acusação não ter passado do Ministério da Justiça para o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemanha. “A Alemanha está a tentar uma estratégia de duas vias”, afirma. O julgamento norte-americano não é reconhecido pelo Governo alemão, por isso, representantes do país não compareceram à Corte.

“Ao mesmo tempo, esperamos encontrar uma solução com o governo da Namíbia para que não haja uma pressão moral”, explica. Dessa maneira, argumenta Zimmerer, pode-se dizer claramente que a Alemanha está a jogar com o tempo para pôr fim à disputa. “Isso é um escândalo”, diz.

Em resposta à DW, o Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão diz que Berlim mantém diálogo com o governo da Namíbia para estabelecer uma discussão sobre o passado colonial de forma construtiva e com confiança mútua. O enviado especial do Governo alemão para as negociações, Ruprecht Polenz, ainda não vê urgência para que representantes alemães compareçam ao tribunal nos EUA. A Alemanha quer encontrar uma solução por meio de negociações.

A Convenção da ONU para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, de 1948, não pode ser aplicada retroativamente, explica Polenz. Segundo o enviado especial, a participação da parte acusada no tribunal não está prevista no documento. Na época dos crimes, também não havia no direito internacional algo que assegurasse compensações às vítimas. Polenz diz que o Governo alemão está a trabalhar numa solução para esta questão político-moral com o governo namibiano. “Estamos num bom caminho”, sublinha.

Reparações às vítimas

As negociações sobre o genocídio começaram em 2015. Os nativos ficaram sob o domínio colonial alemão por mais de 30 anos até 1915. Estima-se que, entre 1904 e 1908, tenham sido assassinadas mais de 75 mil pessoas, constituindo o primeiro genocídio do século 20. Outras fontes falam em mais de 100 mil mortos na antiga colónia no sudoeste de África, onde houve massacres, deportações e trabalhos forçados.

Völkermord in NamibiaEm agosto, familiares das vítimas participaram de audiência sobre o caso em tribunal de Nova York

Ambos os governos da Namíbia e da Alemanha rejeitam fazer negociações diretas com familiares dos Herero e Nama. Para os representantes das vítimas das atrocidades este é um ponto positivo para forçar negociações sobre compensações que chegam aos 50 bilhões de euros. Já o Governo da Namíbia pede uma compensação de 25 bilhões de euros.

Ester Muinjangue, diretora da Ovaherero Genocide Foundation, acompanha os desenvolvimentos do caso em Berlim. Junto com a associação “Berlim Pós-Colonial” e outros parceiros, ela luta pelos direitos das vítimas e seus familiares. “Não estamos desapontados, mas teríamos esperado que a Alemanha fosse corajosa o suficiente para comparecer perante ao tribunal”, afirma. “Estamos a esperar por 100 anos”, diz ao ressaltar que vai insistir até que haja justiça.

Nenhum pedido de desculpas

Sobre a reclamação de que os representantes das vítimas não estão envolvidos nas conversações diretas entre os governos da Namíbia e da Alemanha, Ruprecht Polenz diz que eles participaram da preparação do conteúdo.

“Não cabe a nós decidir como o governo namibiano escolhe a sua delegação”, explica. “Propomos medidas práticas para curar as feridas”, acrescenta em referência à planejada criação de uma fundação que vai fomentar a cooperação entre os dois países. Além de ajuda ao desenvolvimento, a Alemanha pretende investir em formação profissional, fornecimento de energia elétrica e na reforma agrária na Namíbia.

O africanista Jürgen Zimmerer, por outro lado, critica o fato de o Governo alemão, apesar de começar a falar em genocídio, ainda não ter expressado um reconhecimento parlamentar e não ter pronunciado um pedido de desculpas.

Sobre o tribunal adiado em Nova York, o Departamento de Estado norte-americano está disposto a convidar representantes do Governo alemão para participar da Corte. “No entanto, o Governo Trump não é exatamente conhecido por estar aberto à consideração crítica sobre a história do racismo e do colonialismo”, pondera.

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Angola é o terceiro maior destino do financiamento chinês

 

Angola é o terceiro maior destino do financiamento chinês além-fronteiras, segundo a unidade de investigação AidData, que aponta que Pequim está perto de igualar Washington como principal fonte de empréstimos aos países em desenvolvimento.

Crédito chinês atinge mais de 16,5 mil milhões de dólares
Fotografia: Vigas da Purificação | Edições Novembro
A pesquisa, difundida pela unidade de investigação AidData, da universidade norte-americana de William & Mary, analisa o financiamento oriundo da China, que publica poucos detalhes sobre os fluxos de capital para o exterior. Em 15 anos, e até 2014, Pequim doou ou emprestou 354,4 mil milhões de dólares a outros países.
Durante o mesmo período, os EUA doaram ou emprestaram 394,6 mil milhões de dólares. Angola surge no estudo da AidData como o terceiro maior beneficiário do financiamento de Pequim, apenas atrás da Rússia e Paquistão, dois países que fazem fronteira com a China. O país recebeu de Pequim um total de 16.556 milhões de dólares (14.011 milhões de euros).
A base de dados AidData, que reúne milhares de fontes, é analisada por acadêmicos da William & Mary e das universidades de Harvard e Heidelberg. “Ao nível mais alto, pode dizer-se que os EUA e a China são agora rivais nos gastos, no que toca às suas transferências financeiras para outros países”, escreve o director executivo da AidData, Bradley C. Parks.
A opacidade do financiamento chinês suscita preocupações de apoio a regimes corruptos e redução dos padrões de protecção ambiental e direitos humanos, que doadores ocidentais tentam reforçar. A maioria do financiamento chinês parece servir o crédito à exportação e outros critérios que visam promover os objectivos chineses, mas produzem pouco benefício aos países destinatários, segundo Parks.
“A maior fatia do financiamento não visa permitir um crescimento econômico significante para os países receptores”, afirma.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/economia/angola_entre_os_maiores__devedores_da_china

União Africana avança nas negociações para criar  uma zona de comércio livre

 

A União Africana (UA) anunciou através de um comunicado progressos nas negociações para criar  uma zona de comércio livre com um mercado de 1,500 bilhões de pessoas e uma riqueza total de 2,190 bilhões de dólares.

Africanos estão empenhados em acelerar o comércio entre si

As negociações desembocaram num novo roteiro relativo a um acordo sobre o texto jurídico a adotar em Dezembro, lê-se no documento, no qual é anunciado que o grupo de negociadores e peritos em comércio dos Estados-membros esteve reunido de 2 a 7 de Outubro de 2017, em Addis Abeba, capital da Etiópia, para discutir sobre o calendário de conclusão de um acordo.
Os peritos participaram na sétima reunião do Fórum de Negociações da Zona de Comércio Livre Continental (ZLEC), onde foi estabelecido um roteiro para a criação da zona comercial continental e “os participantes fizeram progressos substanciais, aceitando aderir à data limite de Dezembro de 2017 para completar o projecto de texto jurídico, tal como foi pedido pelos Chefes de Estado e de Governo africanos”.
Os peritos alcançaram um acordo sobre o nome e o conteúdo do texto jurídico que deve conduzir à criação da zona comercial.
O documento é denominado “Acordo que cria a Zona de Comércio Livre Continental”. Um protocolo sobre o comércio dos serviços e outro distinto sobre o comércio das mercadorias foram concluídos no quadro das negociações para a criação de uma zona de comércio livre.
“A criação da ZLEC é o primeiro projeto essencial da Agenda 2063 a ser concluído no quadro do roteiro estabelecido pelo Plano de Aplicação da Agenda 2063 de dez anos”, lê-se na nota da União Africana.
Na próxima reunião, prevista para entre 6 de Novembro e 1 de Dezembro, os negociadores vão dar prioridade à finalização do projeto e examinar as questões suspensas no acordo.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/zona_de_comercio_livre_cada_vez_mais_proxima

O presidente angolano gera muita expectativa no primeiro pronunciamento na Assembleia Nacional

O primeiro ano parlamentar da IV legislatura da Assembleia Nacional começa hoje, sendo o ponto mais alto o discurso do Presidente da República, João Lourenço, sobre o Estado da Nação. É grande a expectativa sobre o que o Chefe de Estado vai falar aos angolanos, 20 dias depois de ter discursado, durante a sua investidura, no dia 26 de Setembro.

Hoje as atenções estão voltadas para a Assembleia Nacional onde o Presidente da República profere o seu primeiro discurso sobre o estado da Nação
Fotografia: Paulo Mulaza |Edições Novembro

De  acordo com a Constituição, na sessão de abertura de cada ano parlamentar o Presidente da República deve dirigir, na sede do Parlamento, uma mensagem sobre o Estado da Nação.
Os presidentes dos grupos parlamentares do MPLA, UNITA e CASA-CE, disseram ao Jornal de Angola o que esperam do discurso de João Lourenço, que assim volta a uma instituição onde já foi, por muito tempo, primeiro vice-presidente. O Titular do Poder Executivo deverá falar sobre as políticas preconizadas para a solução dos principais problemas da população, promoção do bem-estar dos cidadãos e desenvolvimento do país.
A discussão e aprovação do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2018 cuja proposta dará entrada brevemente no Parlamento, será a primeira missão dos deputados. A revisão da Constituição da República e do Código Penal, bem como a criação de leis ou instrumentos de combate à corrupção, são outros dos assuntos incontornáveis da IV legislatura da Assembleia Nacional.
O presidente do grupo parlamentar do MPLA, Salomão Xirimbimbi,  disse que aguarda com grande expectativa o discurso do Presidente da República e espera que João Lourenço reafirme os princípios que nortearão o seu mandato. O líder do grupo parlamentar do partido maioritário lembrou que o MPLA definiu, entre outras prioridades, a implementação da legislação para apoiar a criação e desenvolvimento de parceiros económicos e sociais, como via necessária e essencial para o diálogo social e para a edificação da democracia participativa e da cidadania activa.
O MPLA propôs-se igualmente desenvolver e apoiar os órgãos nacionais, sectoriais e locais de diálogo e concertação social. O deputado afirmou que o seu partido definiu estas acções como sendo necessárias para a melhoria da vida dos cidadãos.
Salomão Xirimbimbi defendeu o combate à corrupção, o nepotismo e todos os males que prejudicam o desenvolvimento do país e o bem-estar dos angolanos, tal como consta no programa de governo do MPLA apresentado aos eleitores.
O deputado defendeu, também, a aprovação do pacote legislativo referente ao Poder Local com vista à realização das eleições autárquicas. Na sua opinião, devem igualmente ser aprovadas, entre outras leis, a das  Finanças, das Transferências de competências e todos os diplomas ligados à institucionalização das autarquias.

Aspirações da oposição
A oposição também aguarda com bastante expectativa pelo discurso do Chefe de Estado. O presidente do grupo parlamentar da UNITA, Adalberto Costa Júnior, disse ser importante que o Presidente da República respeite aquilo que a Constituição exige, uma vez que “o país tem uma herança resultado da anterior chefia do Estado, onde as expectativas ficaram desprezadas no que diz respeito ao funcionamento das instituições”.
O chefe da bancada parlamentar do maior partido na oposição considera fundamental que João Lourenço se posicione de forma diferente do ex-Presidente, José Eduardo dos Santos, e deixe claro que o Poder Executivo não se sobreporá ao Legislativo, “como tem sido habitual”.
Adalberto Costa Júnior afirmou que os eleitores querem ver as transmissões em directo dos debates parlamentares. “Sabemos que a maior parte destas decisões estão colocadas no Bureau Político do MPLA e tem sido este órgão a impedir  que esse desiderato se cumpra, penalizando o direito à informação”, acusou.
Com as transmissões em directo dos debates da Assembleia Nacional, disse, o cidadão eleitor vai saber o que pensam os seus deputados. “Estamos num período onde não podemos abrir mãos das instituições naquilo que é educação cívica e normalização do funcionamento das instituições”, disse, salientando que os conteúdos dos debates parlamentares são de grande utilidade para o país.
Salomão Xirimbimbi afirmou que a transmissão dos debates parlamentares em directo é um assunto sobre o qual o grupo parlamentar do MPLA manifestou disponibilidade de dialogar com as outras bancadas, com vista a uma solução.
Mas o deputado do MPLA salientou que a resolução deste problema passa pela concertação entre a Assembleia Nacional, os grupos parlamentares e o Executivo. “Esta solução deve ser encontrada não no fim, mas nos primeiros tempos deste mandato”, afirmou.
Quanto aos avanços na anterior legislatura, Adalberto Costa Júnior destacou a aprovação da Lei das Autarquias, de incitativa legislativa da UNITA. O deputado disse que faltam ainda outras leis complementares ligadas ao Poder Local. “Há uma agenda rica a este nível. Ficou claro para o país que o modelo constitucional que temos não serve para o desenvolvimento do país”, disse.
A UNITA também defende a eleição directa do Presidente da República. Para tal, defende igualmente a revisão da Constituição e de um acórdão do Tribunal Constitucional que limita a fiscalização dos actos de governação por parte dos deputados.
“Um parlamento que esteja limitado a fiscalizar está a permitir que se governe mal”, considerou Adalberto Costa Júnior, para quem não existe um bom governo sem ser fiscalizado. “O país tem muitos problemas e estes não se resolvem com promessas, mas sim com práticas”, afirmou.
O segundo vice-presidente do grupo parlamentar da CASA-CE afirmou que a coligação está expectante com o discurso sobre o Estado da Nação. Manuel Fernandes espera que sejam cumpridas as promessas feitas na campanha eleitoral e na tomada de posse.
“A CASA-CE espera que João Lourenço apresente os mecanismos reais para materializar aquilo que defendeu no âmbito do combate à corrupção. Deve institucionalizar a Alta Autoridade de Combate à Corrupção e promover a abertura dos órgãos públicos de comunicação social”, defende o deputado.
Uma das questões que deve estar nas prioridades e apontada por Manuel Fernandes é a reforma do Estado. Na sua opinião, a Constituição deve ser mais equilibrada para conferir maiores poderes à Assembleia Nacional, no âmbito da fiscalização dos actos do Executivo. O político afirmou que a actual Constituição ofusca o papel da Assembleia Nacional quanto à fiscalização dos actos do Executivo.

Eleições autárquicas estão entre as prioridades da legislatura

Tal como os deputados do MPLA e da UNITA, o segundo vice-presidente da bancada parlamentar da CASA-CE também defende a institucionalização das autarquias locais.
Manuel Fernandes é de opinião que João Lourenço aponte um calendário para a realização das eleições autárquicas, a fim de se estabelecer um cronograma de acções com vista à materialização das autarquias.
A CASA-CE, segundo ainda o deputado, pretende que nesta legislatura seja solucionada a questão dos assistentes parlamentares e dado um maior equilíbrio entre os órgãos de soberania. Para Manuel Fernandes, os parlamentares devem fiscalizar de facto a acção do Executivo.
Hoje, depois da abertura formal do ano parlamentar, o presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, deverá anunciar a data da realização da primeira reunião plenária, em que deverão ser analisadas questões relacionadas com os órgãos internos da Assembleia Nacional, com destaque para a criação das comissões especializadas, grupo de mulheres parlamentares, direcção dos grupos nacionais e de amizade da Assembleia Nacional e o Conselho de Administração do Parlamento. Na primeira reunião plenária deverá ainda ser feita a movimentação de deputados, a maioria dos quais do MPLA, devido à nomeação de alguns parlamentares para o exercício de funções no Executivo.
Na actual legislatura, o MPLA ocupa 150 dos 220 assentos da Assembleia Nacional, seguido da UNITA com 51, CASA-CE com 16, PRS com dois e FNLA com um. O MPLA perde 25 assentos, a UNITA ganha 19 e a CASA-CE oito.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/presidente_da_republica_fala_do_estado_da_nacao_2

Achille Mbembe: A era do humanismo esta terminando

achile mbembe“Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo”, escreve Achille Mbembe. E faz um alerta: “A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização”.

Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África(África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et l’ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun. 1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive indirect(2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l’Afrique décolonisée (2010), Critique de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke University Press neste ano de 2017.

O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporeafilosofia.blogspot.com, 31-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.

Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado. O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação. Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.

A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.

A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.

A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.

Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.

O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça, tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar.

Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI.

Diálogo dos ministros da Cultura da UEMOA

Países-membros-da-UEMOA

A Reunião do Conselhos dos Ministros da Cultura da UEMOA terminou no sábado 7 de Outubro no Togo, na cidade de Lomé. Durante três dias os ministros da Cultura da UEMOA analisaram afincadamente a situação da Cultura dos oito países-membros desta instituição.

 UEMIOA

O objectivo principal deste encontro é sintonizar e criar o clima de diálogo de intercâmbio cultural de experiências que possam promover a cultura dos países-membros da UEMOA.

A Guiné-Bissau foi representada pelo ministro da Cultura e dos Desportos, Tomás Gomes Barbosa. O ministro falou da importância desta reunião, sem esquecer de falar da situação socio-política guineense.

Mais pormenores com o nosso correspondente Cândido Camará que ouviu o ministro da cultura guineense que hoje estive em Dakar.

Relatório sobre a economia africana insiste sobre a diversidade econômica e o empreendedorismo

Trabalho da OCDE sobre perspetivas económicas em África será apresentado a 9 de outubro em Lisboa, no auditório da CPLP.


Portugal Digital



O secretariado executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua vão apresentar a 9 de outubro em Lisboa a edição em português do relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) intitulado “Perspetivas Económicas em África 2017: Empreendedorismo e Industrialização”.

A apresentação decorrerá no auditório da sede da CPLP. A secretária executiva da CPLP, Maria do Carmo Silveira, e a presidente do Camões, Ana Paula Laborinho, vão participar na sessão de abertura do evento e a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação de Portugal, Teresa Ribeiro, intervém no encerramento.

O relatório vai ser apresentado pelo diretor adjunto do Centro de Desenvolvimento da OCDE, Federico Bonaglia, seguindo-se uma mesa-redonda – com a participação do presidente da Confederação Empresarial da CPLP, Salimo Abdula, do vice-presidente da Associação Industrial Portuguesa, André Magrinho, e do diretor de inovação social da Fundação EDP, Guilherme Colares Pereira, e moderação do professor do ISEG Manuel Ennes Ferreira – e um momento de debate.

Esta publicação foi elaborada conjuntamente pelo Banco Africano de Desenvolvimento, pelo Centro de Desenvolvimento da OCDE e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Ministra da Educação de Angola disse que o professor será sua prioridade

A ministra da Educação, Cândida Teixeira, apontou sábado, como uma das prioridades do seu mandato, a formação e valorização do professor, por ser o elemento que transmite o conhecimento para o desenvolvimento que o país pretende.

Governo que tomou posse no sábado tem onze ministras. A secretária do Conselho de Ministros também é mulher
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro
Cândida Teixeira, que falou à imprensa após ter tomado posse no novo cargo, garantiu ainda atenção especial ao subsistema de ensino geral, formação profissional e capacitação dos professores.

candca teixeira
Quem também estabeleceu como prioridade a valorização do docente é a ministra do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia  e Inovação, Maria Sambo. A ministra pretende trabalhar com a comunidade académica e dar continuidade ao estatuto da carreira do docente, para a sua maior dignificação.
Em Julho, o Ministério da Educação e os professores tinham chegado a um acordo sobre a revisão do estatuto da carreira docente, figurando a progressão horizontal da carreira e apenas três anos para o regime probatório, se for avaliado passa automaticamente para o quadro efectivo. Os sindicatos pediram igualmente que o Ministério fizesse chegar ao Governo, por intermédio do Ministério do Trabalho, a aplicação da progressão da carreira docente, além de questões como o subsídio de docência e promoções na carreira.
Entretanto, as prioridades das novas ministras estão em linha com as promessas que o Presidente da República, na altura ainda candidato, fez aos eleitores. Num encontro com professores e técnicos de saúde, João Lourenço assegurou que vai trabalhar para um ensino acessível a todos, exigente, competitivo e com mais qualidade, que na prática prepare os estudantes melhor capacitados para ingressarem no ensino superior.
João Lourenço defendeu que um ensino de qualidade depende do nível de preparação dos professores e não apenas da existência de salas de aulas climatizadas e com boas carteiras. “Teremos bons alunos não tanto em função das comodidades da sala de aulas onde estudam, mas sobretudo da qualidade dos docentes e da sua capacidade de transmitir os conhecimentos, do empenho e entrega à causa  de formar com qualidade dos quadros do amanhã”, justificou João Lourenço, para afirmar que o país precisa de homens bens formados e saudáveis, com competências académicas, técnico-profissionais e culturais à altura das necessidades do desenvolvimento que se pretende.
A boa formação, referiu João Lourenço, deve começar nos primeiros níveis de ensino.
O então candidato sugeriu que se repense no modelo educativo e pedagógico que melhor satisfaça os interesses e metas traçadas pelo partido. “Precisamos de docentes inovadores e com liderança nos processos de transformação à vista”, reforçou, lembrando que os profissionais do sector da Educação representam 50 por cento da função pública.

Dignificação das carreiras
O Presidente João Lourenço prometeu trabalhar na dignificação das carreiras de professor, enfermeiro e técnico de saúde para que correspondam ao nível de exigência que se vai introduzir, e melhorar a qualidade dos serviços prestados nos sectores da Educação e da Saúde em resposta ao slogan do MPLA “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”.  No encontro mantido em Luanda, na altura da campanha eleitoral, os professores do ensino geral e os profissionais de enfermagem solicitaram a João Lourenço, no caso de vencer as eleições, a melhoria das condições de trabalho, o pagamento do subsídios de isolamento para os quadros destacados nos municípios e a revisão e actualização do Estatuto da carreira dos funcionários da Educação e Saúde.
Além destas preocupações, que foram comuns entre os profissionais dos dois sectores, o representante da Ordem dos Enfermeiros de Angola, Vasco Matemba, pediu o reforço do  abastecimento de medicamentos e dos recursos financeiros disponibilizados às unidades hospitalares, bem como um maior investimento no programa de municipalização dos serviços de saúde.  O Sindicato Nacional Independente dos Trabalhadores da Função Pública, com 47.400 membros, pediu que sejam disponibilizadas verbas para a realização do concurso público para a admissão de mais quadros para reforçar o atendimento. Já o Sindicado Nacional dos Enfermeiros, com 22.000 filiados, pretende facilidades para o acesso ao crédito para a compra de habitação e meios de transporte.
As outras preocupações do sector da Educação, apresentadas pelo Sindicato dos Professores, tiveram a ver com a necessidade do rigor e da transparência na contratação de novos profissionais. A Associação Nacional para o Ensino Particular (ANEP), com um registo de 1.602 colégios, defendeu que as instituições de ensino privado sejam autónomas, à semelhança das escolas estrangeiras e consulares, para deixarem de depender das escolas públicas no reconhecimento dos seus certificados.  O representante desta associação, António Pacavira, defendeu a isenção do pagamento do imposto industrial por um período de 10 anos, como acontece com as empresas do sector agrícola, para permitir a redução do preços das propinas, a criação de uma rede nacional de creches para melhor preparação dos alunos que entram para o ensino primário, instituição do regime da monodocência assistida nas disciplinas de matemática, física e química e a introdução da disciplina de xadrez, para melhorar o raciocínio lógico dos estudantes e a aprendizagem dos conteúdos das disciplinas práticas.
António Pacavira considerou ainda necessário o estágio obrigatório para os alunos de todos os cursos técnico-profissionais, e não apenas o de enfermagem, a criação de uma indústria especializada no fabrico de materiais escolares, de modo a permitir a sua compra a preços mais baixos.
O secretário provincial da Associação dos Professores de Angola (APA), Domingos Álvaro, pediu um plano de formação permanente para os quadros com menos de três anos de serviço e aqueles sem agregação pedagógica, distribuição do material escolar três meses antes do início do ano lectivo e a nomeação de quadros com experiência comprovada para a direcção das instituições de ensino.

 Saúde destaca redução da mortalidade

A ministra da Saúde, Sílvia Paula Valentim Lutucuta, aponta como prioridade a redução da mortalidade infantil e a humanização dos cuidados de saúde. Já o ministro da Construção e Obras Públicas, Manuel Tavares de Almeida, referiu que as linhas de força do seu pelouro vão basear-se no cumprimento dos objectivos traçados. “Vamos trabalhar em equipa, identificar os problemas, procurar soluções em conjunto e abrir espaço de opiniões dos cidadãos, dos empreiteiros e de todos os agentes económicos que conhecem os problemas para ajudarem a “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, disse. Já a ministra Paula Coelho, que chefia o Ambiente, promete prosseguir com os programas de formação e sensibilização ambiental, protecção das espécies, da fauna e da flora. Paula Coelho valoriza também os programas ligados à adaptação e mitigação das alterações climáticas, bem como defende estudos para avaliar o potencial de recursos naturais do país.
Já a ministra da Hotelaria e Turismo, Ângela Bragança, falou da importância do sector nos esforços de diversificação da economia, na arrecadação de receitas, no aumento do número de postos de trabalho e na projecção da imagem de Angola. Ângela Bragança disse que vai fazer um diagnóstico do sector, para imprimir qualidade, fomentar o turismo cultural, religioso, o agro-turismo e sem esquecer a redução dos preços.
Do total de 32 titulares de departamentos ministeriais, 11 são mulheres e seis antigos secretários de Estado ascenderam a ministros: Ana Paula Sacramento Neto, ministra da Juventude e Desportos, Ângela Bragança, ministra da Hotelaria e Turismo.
O Governo empossado sábado traz um figurino de gestão governamental com menos dois ministros, em relação ao anterior, além de fundir alguns ministérios para reduzir a despesa pública.

Presidente do maior partido da oposição de Angola vai deixar a liderança

Vitorino Joaquim

O presidente da UNITA, Isaías Samakuva, anunciou ontem em Luanda, que pretende deixar o cargo a partir da data a ser indicada pelo órgão competente do partido, colocando o seu lugar à disposição no arranque da nova legislatura no país.

Presidente da UNITA anuncia abandono da liderança do partido depois da derrota nas eleições gerais de 23 de Agosto
Fotografia: Miqueias Machangongo | Edições Novembro

Isaías Samakuva, que discursou na abertura da reunião ordinária do comité permanente da comissão política do partido, que decorre em Viana, disse que mantém a decisão de abandonar o cargo de presidente. “Afirmei aos angolanos antes e durante a campanha eleitoral que depois das eleições deixaria o cargo de presidente da UNITA, para servir o partido numa posição diferente. Mantenho e reafirmo esta decisão”, sublinhou.
No encontro, os participantes vão decidir a data da próxima reunião da comissão política do partido, além de analisar o relatório da direcção da campanha eleitoral e a marcação da data para a realização de um congresso extraordinário para a eleição do novo presidente da UNITA.
A escassas horas da tomada de posse dos deputados à Assembleia Nacional, Isaías Samakuva garantiu que o grupo parlamentar da UNITA vai assumir os seus lugares na casa das leis, por ser o palco mais indicado para combater os males que o país vive. “Deverão demonstrar que estão aí para combater as violações dos direitos humanos, a má governação, o desemprego, os assaltos aos cofres do Estado e o nepotismo”, acrescentou.
Segundo o líder da UNITA, os parlamentares do seu partido estarão ainda aí para continuar a defender a institucionalização de autarquias municipais em todo o país, sem discriminação territorial, com a transferência gradual de funções da Administração central para a administração autárquica, atendendo o grau de crescimento económico e o progresso social.

Combate à corrupção

Outra prioridade da bancada parlamentar é o combate efectivo e eficaz ao fenómeno da corrupção por desvio de fundos, por ser este um acto que tem impedido a concretização de investimentos na saúde, na educação ou na segurança alimentar e nutricional das crianças, entre outros males.
O presidente da UNITA disse que o grupo parlamentar da UNITA deverá empreender diligências para incluir, no direito interno, o crime de corrupção praticado por titulares de cargos públicos, por ser um factor de instabilidade que periga a segurança dos povos.
O líder da UNITA defendeu um novo regime penal da corrupção no sector público, a promoção e a criação de um conselho nacional de prevenção e combate à corrupção, entre outros. Isaías Samakuva falou da trajectória eleitoral do país, tendo referido que nesta últimas eleições, “a vontade do povo foi traída, por quem detém temporariamente o poder do Estado.”
Para Isaías Samukuva, as eleições terminaram, mas o regime não mudou. “Os problemas continuam e vão continuar, as violações dos direitos humanos continuam e vão continuar, a corrupção continua e vai continuar, a intolerância continua e vai continuar, a exclusão continua e vai continuar”, frisou.
O político defendeu a necessidade de diálogo entre gerações, povos e etnias que habitam o mesmo território e partilham a titularidade dos recursos nele existentes, para se resgatar a cidadania e construir um futuro melhor para o país.
Isaías Samakuva falou das aspirações do povo angolano a um melhor nível de vida, nomeadamente acabar com a corrupção, a pobreza, a péssima qualidade de educação, a falta de saneamento básico e com as promessas que se repetem e não se cumprem.
Isaías Samakuva disse que o primeiro sinal que os angolanos esperam dos seus representantes é a afirmação da vontade para encerrar a era da partidarização do Estado. O segundo sinal, frisou, é a afirmação de que terminou a era da utilização dos cargos públicos para enriquecimento ilícito e o terceiro é uma nova abordagem sobre a reconciliação, onde haja inclusão social e igualdade entre todos os angolanos.
A UNITA foi a segunda força política mais votada nas eleições gerais de 23 de Agosto, ao obter 26,68 por cento dos votos. Com este resultado, o maior partido na oposição conseguiu eleger 51 deputados.
Alguns círculos da UNITA defendiam a não tomada dos lugares na Assembleia Nacional, para contestar os resultados nas eleições.
Mas o líder do partido defendeu neste mês a presença na “Casa das leis”. Isaías Samakuva considera que mais vale estar no Parlamento do que fazer oposição distante daquele poder.
“Gostamos de uma juventude assim (activa ou resoluta), mas também gostamos da juventude que sabe e gosta de ouvir os mais-velhos”, afirmou na ocsaião o líder da UNITA, insistindo que uma oposição responsável deve ser feita no Parlamento.
Comparantivamente à legislatura anterior, a UNITA teve um aumento de 19 deputados.

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/samakuva__vai_deixar_a_lideranca__da_unita

“Chinatown” de Luanda o maior projeto comercial em Angola

Preços baixos e abertura acelerada de postos de trabalho são princípios que regem a “Chinatown” de Luanda, local onde, habitualmente, em todo o mundo, se concentram os habitantes chineses e se vendem os mais variados produtos de origem chinesa.

Fotografia: José Soares | Edições Novembro

Um grupo de empresários  chineses está também apostado em desenvolver essa “Cidade da China” em Luanda, com o fito de que pretendem contribuir para diversificação do mercado angolano.
Com efeito, a empresa “Hua Dragão – Comércio Geral”, já registada legalmente em Angola, está a investir fortemente nesse projecto da “Chinatown” da capital angolana.
Fundada em 2014 por Chen Xiao Jun, a “Hua Dragão” está a sobressair em Angola no ramo dos imóveis, indústria, comércio (a retalho e a grosso) e de importação e exportação. O sócio-gerente da empresa, Chen Xiao Jun, está a responsabilizar-se por todo o investimento, construção e funcionamento da “Chinatown” de Luanda.
A “Chinatown” ocupará uma área de 245 mil metros quadrados, mas o espaço total de construção é de 150 mil metros quadrados.

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A “Cidade da China” está localizada dentro do Pólo Industrial de Viana (PIV), junto da Via-Expresso, ao lado da entrada do Zango, a 30 quilómetros de Luanda e 20 minutos do novo Aeroporto Internacional, pela estrada.

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O empreendimento chinês está dividido em três fases. A primeira fase, de conclusão da zona comercial, com uma área de construção de 66.000 metros quadrados, infra-estrutura interna e um espaço residencial, com  12.600 metros quadrados.
A primeira fase está pronta para a sua inauguração, ainda este mês.
A primeira fase está com uma capacidade de 180 instalações comerciais, 45 por cento das quais já estão a ser usadas pelos clientes para fazerem os seus negócios.
Estão concluídos 40 por cento da zona residencial.

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A Chinatown de Luanda está a ser construída como o maior projecto comercial em Angola, com uma capacidade de 360 instalações mercantis, tendo os seus promotores a finalidade de influenciar o desenvolvimento econômico de Angola.
A simbiose entre o verde da relva, as acácias e as naves que albergam as lojas tornam a “Cidade da China” um cartão postal atractivo.
A primeira fase da obra é de 15 naves, que comportam de 14 a 16 lojas, de 300 metros cada uma, que já estão prontas a funcionar.
A segunda fase inclui a construção de edifícios residenciais do tipo T2 e T3. Esta parte do empreendimento, ainda em obra, vai permitir erguer 294 apartamentos.
A terceira fase vai albergar estruturas e naves para as pequenas fábricas.
De acordo com o projecto, a que o Jornal de Angola teve acesso, o espaço é vedado e cimentado, com ruas definidas e sinalizadas, onde existe uma estrutura sanitária à altura das necessidades e um bom sistema de drenagem das águas pluviais residuais.
Durante algum tempo, os empresários chineses estudaram áreas de investimento em Angola que pudessem acolher a Chinatown, até que concluíram num investimento na área de imobiliária, num complexo comercial de prestação de serviços mercantis, forma de transportar aos poucos a economia informal para a formal.
A ideia do espaço é construir um mercado oficial urbanizado, digno de nome, que venha absorver o mercado informal existente em Luanda, criando diversidades de opções mercantis, uma espécie de “bolsa de negócios”, onde os agentes económicos expõem e vendem livremente os seus serviços e produtos, por meio do arrendamento dos imóveis.
A empresa “Hua Dragão – Comércio Geral” considera que a expansão de mercados formais vai fazer de Angola e de Luanda, em particular, um lugar desejado que contribua para a concentração de vários serviços em apenas um local. Na “Cidade da China”  funcionam já vários lojistas.
A maior parte dos espaços está sob responsabilidade de angolanos, chineses, libaneses, camaroneses, portugueses, malianos e brasileiros. Todos eles comercializam produtos diversificados, com destaque para vestuário, electrodomésticos, material de construção e outros.

Mercado garantido

A “Chinatown” está já sob o olhar dos vendedores informais. Todos os dias, centenas deles acorrem ao local comprar balões de fardo para  revenda. Os preços são para todos os bolsos. São mais de dez armazéns a comercializar balões de roupa usada, vindos de vários países.
Entre os clientes, há maioritariamente mulheres. Letícia Diogo, uma das clientes conhecidas, porque compra duas vezes por semana balões para revender.
“Vim comprar roupa guineense. Está na moda e os clientes encomendam. O balão custa 80 mil kwanzas. É de boa qualidade e o preço é justo”, disse com alegria, acrescentando: “este centro comercial veio ajudar”.
Segundo Lectícia Diogo, “o centro comercial veio ajudar os revendedores, porque muitas mulheres, com 30 mil kwanzas ou mesmo menos, começaram o seu próprio negócio e já conseguem dinheiro para as despesas das suas famílias. Outras mulheres que abraçaram o negócio, provenientes de várias províncias, chegam a comprar dez a quinze balões.”
Patrícia dos Santos, de 23 anos, viu na venda de fardos o negócio para poder pagar a Faculdade e dar continuidade aos seus estudos. “Não consigo arranjar emprego. Depois, ainda não terminei a formação. Por isso, estou a entrar para este negócio e poder pagar as propinas da Faculdade”, sublinha a comerciante.

Produtos de qualidade

Patrícia não está sozinha no negócio. Para poder comprar um dos melhores balões, criou uma sociedade com as amigas para comprarem o produto de qualidade.
Elas escolheram roupa de crianças, por ter muita saída. “Aqui, o balão infantil tem vários preços e não custa muito caro. Conseguimos fazer um balão de 60 mil kwanzas. No final, vamos tirar o valor inicial e dividir os lucros”, disse a comerciante angolana Ana Sebastião. Catarina e a sua colega Amélia estão satisfeitas com o negócio, pois recebem clientes de todas as classes sociais e bolsos.
“Todos vestem as nossas roupas, muitas ‘madames’ e até os famosos vêm comprar as roupas”, frisou Catarina, acrescentando que no frio os casacos, os fatos de treino, as camisolas e até os cachecóis são as peças que mais saída têm e o preço é acessível.
No calor, a procura de roupas frescas e confortáveis também é grande, segundo as vendedoras que afirmam que os calções curtos, saias, blusas e vestidos são as peças que mais vendem.
Os homens também estão a aderir a este negócio. Francisco Baptista é um deles e diz que está no negócio há mais de cinco anos. Vende no Mercado Asa Branca.
“A ‘Cidade da China’ veio ajudar-nos, porque, com a abertura destes armazéns todos e a preços baixos, também temos como vender a preços acessíveis”, disse, acrescentando que outro benefício é que mais pessoas podem encontrar uma forma de conseguir rendimentos  na venda de fardos, por ter preços para todos os bolsos.
A concorrência não assusta nem aos vendedores, nem aos compradores que minuciosamente escolhem os produtos que mais lucros lhes dão, como disse Paula da Glória: “Aqui, o segredo é saber escolher. Tem fardo para todo o tipo. Geralmente, primamos pela qualidade, porque é ali onde tiramos mais lucro”.

Capitais investidos

A segunda fase da “Chinatown” começa com a conclusão da zona residencial, zona industrial e do centro de armazéns.
A escala da área de construção geral da segunda fase chega a 58.180 metros quadrados, com um orçamento calculado em 70 mil kwanzas por metro quadrado.
O capital investido pela “Hua Hua Dragão – Comércio Geral” na zona industrial é de 4,1 mil milhões de kwanzas.  A zona residencial está calculada em 75 mil kwanzas por metro quadrado e o investimento vai chegar a um valor de 567 milhões de kwanzas.
Quanto à infra-estrutura interna da segunda fase, o valor ronda os 600 milhões de kwanzas.
O investimento global do capital vai chegar a um valor avaliado em 5,2 mil milhões de kwanzas.
Neste momento, a primeira fase já entrou em recuperação de investimento, com um reembolso calculado num valor mínimo de 1,4 mil milhões de kwanzas, com a referência da movimentação numerária, descontada a despesa do funcionamento da empresa, no valor de 170 milhões de kwanzas, segundo o sócio-gerente, Chen Xiao Jun.
Com a conclusão da primeira e da segunda fase, de uma escala de área de construção global de 120.000 metros quadrados, a empresa tem previsto, nas suas contas, um reembolso anual de 2,7 mil milhões de kwanzas, o que lhe dará uma capacidade de devolução anual de um 1,4 mil milhões a 1,7 mil milhões de kwanzas, ou seja, teria uma capacidade de conclusão de devolução do empréstimo bancário e taxas de juro entre quatro e cinco anos, referiu ainda o responsável de todo o funcionamento da “Chinatown”.
A empresa “Hua Dragão – Comércio Geral” está com um défice de capital de entre quatro e  4,5 mil milhões de kwanzas e espera, segundo Chen Xiao,  apoio financeiro de uma instituição bancária, para concluir este imponente empreendimento que mexe com o mercado.

Jovens conseguem o primeiro emprego
no empreendimento na Zona Económica

A criação de mais postos de trabalho, sobretudo numa corrida onde não é exigida experiência de trabalho, está a fazer com que muitos jovens adquiram o tão almejado primeiro contacto com o mercado de trabalho.
Palmira Zua adquiriu o seu primeiro emprego como caixa de um armazém. Ela garante que conseguir emprego na “Chinatown” não é fácil, porque são muitos à procura de emprego. “Eu consegui, graças a Deus. Este é o meu primeiro emprego e estou feliz porque, nos últimos tempos, está muito difícil conseguir emprego em Luanda. Mas, aqui na ‘Cidade da China’, quando abrem armazéns, as mulheres são escolhidas para trabalhar no caixa e isso é bom, porque até eles estão a priorizar a juventude”, disse.
Para Francisca Ebo, já a trabalhar há seis meses como operadora de caixa, o salário não é dos melhores, mas compensa, como disse. “Estou feliz com este emprego e o salário já dá para pagar os meus estudos. Espero que outras raparigas consigam também aqui o seu primeiro emprego”, disse, acrescentando que os estrangeiros preferem ter angolanos a trabalhar nas suas lojas devido à linguagem.
Os rapazes têm mais facilidade de conseguir emprego. A maioria trabalha como carregadores. Estes são em maior número, devido ao fluxo de entrada e saída de camiões com mercadorias. António Jacinto, um dos muitos estivadores da “Cidade da China”, carrega mais de 20 balões de fardo às costas por dia. Consegue levar de 15 a 20 mil kwanzas por dia.

Projectos sociais do grupo vão obedecer
os regulamentos e leis vigentes em Angola

O grupo “Hua Dragão” já tem participado em várias actividades sociais conjuntamente com a Administração Municipal de Viana. No âmbito da  responsabilidade social, estão bem encaminhados com a existência de projectos concretos concebidos para beneficiar os mais necessitados.
Como a “Cidade da China” ainda se encontra em fase de projectos, não se conseguiu atingir a dimensão social pretendida, mas tão logo o projecto termine, vão ser realizadas outras actividades pela própria direcção da empresa.  Um desses projectos sociais é o patrocínio de bolsas de estudo para a China, com tudo pago pela empresa. Esta iniciativa vai ter início em 2019 e os contactos estão a ser feitos com as autoridades dos dois países, através dos ministérios das Relações Exteriores, Educação, embaixadas de Angola e da China.
Desde o início do projecto do empreendimento, a “Hua Dragão” obedece às leis e regulamentos em vigor em Angola, assumindo a responsabilidade social de uma empresa nacional. Em carteira, já está um plano anual de formação técnica dos funcionários angolanos no estrangeiro para promover o nível tecnológico dos colaboradores.
“O emprego está difícil, mas este é o que consegui e estou a trabalhar bem. Aqui é tudo organizado, não há confusão nem mesmo assaltos. Os chineses fizeram bem em construir este espaço, porque somos muitos jovens aqui a trabalhar como estivadores, com direito a passe de entrada”, contou António Jacinto, um dos beneficiados pela “Cidade da China”.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/reportagem/a_chinatown_de_luanda