Hipermercado Extra multado por racismo contra criança

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Supermercado terá de pagar multa por

Consumidor, de 10 anos de idade, foi conduzido a uma sala, desacompanhado de um responsável

POR O GLOBO

 

RIO — O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ/SP) manteve multa imposta pelo Procon-SP ao Hipermercado Extra por submeter uma criança a constrangimento para comprovar suas compras. Segundo os autos do processo, a empresa teria permitido que um funcionário conduzisse um consumidor de 10 anos de idade, de cor negra, desacompanhado de um responsável, ao interior de uma sala no Hipermercado Extra da Marginal Tietê, para prestar esclarecimentos sobre possível furto a ele atribuído. O consumidor, no entanto, portava a nota fiscal dos produtos que trazia consigo, tendo sido constrangido a permanecer confinado naquela sala, onde foi inquirido por funcionários. Diante da prática considerada abusiva, o Procon-SP aplicou multa de R$ 458 mil.

De acordo com a relatora do processo, Flora Maria Nesi Tossi Silva, o fato de a conduta praticada nas dependências do Hipermercado ensejar eventuais penalidades administrativas a serem aplicadas pela prática de atos de discriminação racial não retira a legitimidade da Fundação Procon-SP para apurar e sancionar as condutas que violam o CDC, considerando a esfera de atuação distinta de ambas as frentes.

“De um lado ocorre a apuração de crime de racismo e segregação da pessoa negra, enquanto de outro a apuração de abuso às práticas consumeristas. Portanto, não há que se falar na ocorrência de “bis in idem”, no caso concreto”, aponta a relatora.

Conforme ela anotou no acórdão, a empresa obriga-se a dispensar tratamento digno às pessoas, a fim de assegurar os direitos básicos dos consumidores e proteção destes contra práticas abusivas ou ilegais:

“É evidente a competência formal e material do Procon-RJ para o exercício do poder de polícia administrativa, aplicando as penalidades cabíveis na defesa do consumidor.”

Sobre o valor em si da multa, a desembargadora considerou que não se verifica no caso concreto violação aos princípios da razoabilidade, proporcionalidade, nem tampouco caráter confiscatório da penalidade imposta. E assim negou provimento ao recurso de apelação da autora, decisão unânime da 13ª câmara de Direito Público.

Procurado pela reportagem, o Extra informa que o caso ainda está sob judice e que, portanto, não pode comentá-lo.

fonte: https://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/supermercado-tera-de-pagar-multa-por-constranger-crianca-negra-comprovar-compras-22123958#ixzz4zooA1WfL
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Amnistia Internacional acusa a Shell de violações de direitos humanos na Nigéria

 Calling on Shell to own up, pay up and clean up the Niger Delta, April 2012.

A Amnistia Internacional instou hoje a Nigéria, o Reino Unido e a Holanda a investigarem o envolvimento da gigante petrolífera Shell em assassínios, violações e tortura cometidos pelo regime militar nigeriano na região de Ogoniland, na década de 1990.

 

Num relatório hoje divulgado, intitulado “Uma Iniciativa Criminosa – O envolvimento da Shell na violação de direitos humanos na Nigéria dos anos 1990” e assente em documentos internos da empresa anglo-holandesa, a Amnistia Internacional (AI) sustenta que essas e outras provas apontam para “a cumplicidade da Shell numa vaga de crimes atrozes cometidos pelo Governo militar nigeriano nos anos 1990”.

Amnesty International members and supporters take action on the International Day in Support of Victims of Torture

O relatório da organização não-governamental de defesa dos direitos humanos inclui não só uma análise sem precedentes de milhares de páginas de documentos internos da companhia petrolífera e de depoimentos de testemunhas, como o próprio arquivo da AI correspondente a esse período.

Segundo a Amnistia, a campanha levada a cabo pelo regime militar da Nigéria para silenciar os protestos dos Ogonis contra a poluição causada pela Shell levou a “graves e generalizadas violações dos direitos humanos, constituindo muitas delas crimes”.

“As provas que vimos mostram que a Shell repetidamente encorajou o exército nigeriano a arranjar uma solução para os protestos da comunidade, mesmo sabendo o horror a que isso conduziria – massacres ilegais, violações, tortura, o incêndio de aldeias”, declarou a directora de Assuntos Globais da AI, Audrey Gaughran.anistia_orig

Segundo a responsável, “durante essa brutal ofensiva, a Shell até forneceu aos militares apoio material, incluindo transporte, e pelo menos num caso pagou a um comandante militar conhecido por violar os direitos humanos”.

“Que a empresa nunca tenha respondido por isso é escandaloso, [porque] é inquestionável que a Shell desempenhou um papel fundamental nos devastadores acontecimentos ocorridos em Ogoniland nos anos 1990 – mas agora acreditamos que há matéria para uma investigação criminal”, defendeu.

Coligir o enorme manancial de provas “foi o primeiro passo para levar a Shell a responder perante a justiça”, indicou Audrey Gaughran, acrescentando: “Agora, vamos preparar um processo criminal para apresentar junto das autoridades relevantes, com vista a uma acusação”.

A campanha do Governo nigeriano contra os Ogonis culminou na execução, há 22 anos, de nove homens, entre os quais Ken Saro-Wiwa, o escritor e activista que liderou os protestos.

As execuções seguiram-se a julgamentos ostensivamente injustos e desencadearam a condenação e o repúdio internacionais.
A Shell sempre negou qualquer envolvimento nas violações de direitos humanos, mas nunca houve uma investigação sobre essas acusações.

Assim, agora a Amnistia apela para que sejam lançadas investigações nas três jurisdições relevantes: a Nigéria, onde os crimes ocorreram, e o Reino Unido e a Holanda, onde a Shell está sediada.

“Nas suas últimas palavras ao tribunal que o condenou, Ken Saro-Wiwa disse que a Shell teria o seu dia em tribunal. Nós estamos determinados em fazer com que isso aconteça”, frisou Audrey Gaughran, insistindo em que “tem de ser feita justiça, por Ken Saro-Wiwa e pelos milhares de outros cujas vidas foram arruinadas pela destruição de Ogoniland pela Shell”.

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/mundo/item/55534-amnistia-insta-a-investigacao-de-papel-da-shell-em-crimes-cometidos-na-nigeria

Ministério Público de Guiné Bissau defende a liberdade de expressão no país

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Bissau – O Ministério Público da Guiné-Bissau insurgiu-se hoje contra a proibição de manifestações no país, esclarecendo que a Constituição não impõe qualquer limite ao exercício da liberdade de manifestação, desde que ela decorra de forma pacífica e obedeça a algumas normas.

“A Constituição não impõem qualquer outro limite substancial ao exercício da liberdade de manifestação e este direito não pode ser coarctado, condicionado ou limitado por actos da administração para além dos limites normativos”, refere, em comunicado, o Ministério Público.

No documento, o Procurador-geral da República, Bacar Biai, explica que os limites normativos existentes estão relacionados com o comportamento dos cidadãos e não com o direito de manifestação.

Mas, segundo a Lei da Manifestação, os “cortejos e desfiles só poderão ter lugar aos domingos, feriados e aos sábados, depois das 13:00 horas e nos dias úteis depois das 19:00 horas”.

A mesma lei refere que as autoridades podem impedir a realização de uma manifestação em lugares públicos situados a menos de 100 metros das sedes dos órgãos de soberania, estabelecimentos hospitalares e mercados e que é “expressamente interdita” a realização de manifestações a menos de 100 metros de instalações militares, representações diplomáticas e partidos políticos.

“O Ministério Público chama a atenção do Governo, partidos políticos e sociedade civil que a liberdade que a todos se reconhece é, porém, única e exclusivamente a de manifestar pacificamente e que essa cessará logo que perca o seu carácter pacífico, perdendo assim a protecção constitucional”, esclarece.

Nesse sentido, Bacar Biai salienta que aquele direito deixa de ter “cobertura constitucional quando exercido com violência através do arremesso de pedras e outros objectos, com agressões a cidadãos, incluindo dos agentes policiais”.

O Ministério Público da Guiné-Bissau pediu ao Governo para que respeite e aplique a Lei da Manifestação e aos partidos políticos e sociedade civil para salvaguardarem os direitos das pessoas que não participam em manifestações.

No comunicado, o Ministério Público salienta que vai defender a ordem jurídica e a paz social e “responsabilizar criminalmente os eventuais atores de actos de restrições ilegais da referida liberdade”, bem como “responsabilizar da mesma forma todos aqueles que pratiquem actos contra os limites impostos na lei da manifestação”.

O posicionamento da Procuradoria-Geral da República surge na sequência das reiteradas proibições de manifestações no país, ordenadas pelo Ministério do Interior, ao arrepio da Lei.

http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2017/10/48/Guine-Bissau-Ministerio-Publico-insurge-contra-proibicao-manifestacoes-pais,a1c536cf-5a39-4840-87fd-c46a53a4d5e2.html

Primeiro-ministro italiano fechou acordo de recuperação de refinaria em Angola

primeiro ministro italiano

Os governos de Angola e da Itália concordaram em acelerar os mecanismos necessários para o reforço da cooperação bilateral em vários domínios e recomendaram que equipas técnicas se reúnam o mais depressa possível para a inventariação dos acordos e a criação de condições para a sua implementação. De acordo com o comunicado conjunto emitido por ocasião da visita oficial de dois dias a Angola do primeiro-ministro italiano, Paolo Gentiloni, os dois governos encorajam o estabelecimento de contactos entre as entidades públicas e privadas dos dois países.

 

No documento, o Governo italiano reitera o interesse no reforço da cooperação e em participar “activamente” na diversificação da economia angolana. As duas partes acordaram continuar o diálogo político regular a todos os níveis para o desenvolvimento das relações bilaterais. Durante a visita, Paolo Gentiloni visitou o Museu das Forças Armadas e o Memorial  Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, onde depositou uma coroa de flores no sarcófago do Fundador da Nação angolana, Agostinho Neto.
No período da tarde visitou a sede da petrolífera ENI e  manteve um encontro com a comunidade italiana residente em Angola.

Acordo em petróleo

A assinatura de dois acordos entre a Sonangol e a petrolífera italiana ENI marcou ontem um dos momentos altos da visita de 24 horas do primeiro-ministro da Itália, Paolo Gentiloni, a Angola.
O primeiro acordo prevê a recuperação da refinaria de Luanda para o aumento da produção de gasolina, melhoria da sua operacionalidade e a formação do pessoal angolano da equipa de refinação.
O presidente do conselho de administração da Sonangol, Carlos Saturnino, um dos subscritores dos acordos, testemunhados pelo Presidente João Lourenço e pelo primeiro-ministro Paolo Gentiloni, disse que  os instrumentos rubricados com a ENI vão permitir investimentos importantes, com ênfase na Refinaria de Luanda e para o gás natural.
Em declarações à imprensa no final da cerimónia, Carlos Saturnino explicou que a cooperação entre as duas empresas vai permitir a exploração e desenvolvimento de gás natural, abastecimento à Angola LNG (empresa de produção de gás natural liquefeito), no Soyo (província do Zaire), cooperação para a refinaria do Lobito, continuação da cooperação para a exploração de petróleo bruto e gás em áreas existentes e áreas novas.
“A refinaria de Luanda, por exemplo, vai ficar auto-suficiente em gasolina, provavelmente cobriremos todas as necessidades de gasolina de Luanda e não só”, garantiu o gestor, que está à frente da Sonangol desde 16 de Novembro último.
O segundo acordo, rubricado pela parte italiana pelo administrador da ENI, Claudio Descalzi, prevê a transferência das operações do bloco em terra, denominado “Cabinda Norte”, para a petrolífera ENI. O presidente do conselho de administração da Sonangol, Carlos Saturnino, explicou que o referido bloco foi operado por um grupo e ficou parado alguns anos, e decidiu-se relançar as actividades depois de  reapreciado o seu potencial.

 

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/mais_gasolina_da_refinaria

Wole Soyinka: A África não precisa inventar a roda.

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Nascido na Nigéria, primeiro africano ganhador do Nobel da Literatura, em 1986, Wole Soyinka esteve no Rio Grande do Sul a convite da Bienal do Mercosul, para falar na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nesta entrevista, ele trata de tolerância, diversidade, arte de guerrilha e dos métodos que usa para escrever as suas obras.

Correio do Povo: O senhor defende como escritor e intelectual um mundo de diversidade e tolerância. O momento atual pode ser visto como de retrocesso em relação a esse ideal?
Wole Soyinka: Um pouco de duas coisas. Está retrocedendo, mas também está evoluindo. A maioria das pessoas considera a diversidade como algo bom. Sem diversidade a vida seria muito enfadonha. Mas houve momentos na história em que grupos usavam esse tipo de questão para explorar outros. Havia uma ideia de que eliminar a diversidade equivaleria a suprimir as diferenças de classe, as diferenças sociais. Mas essa ideia é falsa. Quem pensava assim não entendia que as diferenças culturais costumam melhorar a produtividade e o entendimento entre as pessoas. Estamos, porém, retrocedendo em termos de tolerância. É o que se vê, por exemplo, com o islamismo radical.

CP: O mundo ocidental tem como aceitar essa ideia de pluralidade?
Wole Soyinka: Nas minhas experiências no Brasil, em Cuba e na Colômbia, encontrei pessoas que se identificam com essa cultura pluralista. Há quem retorne à África para se reconectar com esses valores. O sincretismo mostra que se a pessoa está com a mentalidade aberta essa convivência é natural.

CP: O senhor disse que tem a impressão de que parte dos brasileiros tem essa ligação com a África e que outra parte a ignora. É isso mesmo?
Wole Soyinka: A nossa cultura carrega em si a concepção da diversidade. Entendemos e aceitamos que existam outras visões de mundo, que não são excludentes. Na África, o islamismo e o cristianismo entraram, mas não se foi tentar resgatar os que se converteram. Nossa postura é de convivência e de aceitação das diferenças. Há até quem sem converta por loucura.

CP: O senhor tem apontado o Boko Haram como a grande ameaça na Nigéria. Como foi possível que um grupo extremista islâmico se encravasse numa cultura de tolerância?
Wole Soyinka: 
O fato é que entre os convertidos ao islamismo radical que mais levam ao pé da letra o que defendem, muito poucos são de origem iorubá. Conheço um líder iorubá, membro do governo, radicalizado que não deixa a esposa receber em casa ninguém que não seja convertido ao islamismo. Tem um membro do governo que usa luvas para não tocar com as mãos nuas em nenhuma mulher nas suas ações oficiais. Mas esses são exemplos raros.

CP: Escritor político, o senhor esteve preso, critica ditadores e não poupa o autoritarismo. A queda de Robert Mugabe será a libertação do Zimbábue ou apenas mais um capítulo numa longa novela de ditaduras?
Wole Soyinka: 
Em todas as sociedades existem homens que acreditam ter encontrado o segredo da vida e da morte. O mesmo vale para o poder. Existem homens que acreditam saber como nunca mais perder o poder. Mugabe, no começo, lutou de maneira libertária para livrar seu país da opressão colonialista. Com o passar do tempo, no entanto, alienou-se e passou a praticamente se identificar com as forças coloniais expulsas. Para nossa cultura, porém, não existe poder eterno. A hora de Mugabe teria de chegar. Mugabe não é o fim nem foi o começo de coisa alguma. Ele é apenas mais um capítulo nessa marcha rumo à libertação, uma das últimas figuras a ainda a acreditar na perenidade do seu poder.

CP: A saída desse tipo de homem muda um país ou é só mais uma ilusão?
Wole Soyinka: 
Há algum avanço, pois essa saga de Mugabe foi instrutiva no sentido de que a oposição ficou mais madura. Os generais estão tirando-o do poder lentamente de modo a evitar uma ruptura traumática.

CP: Durante um tempo o senhor dizia fazer teatro de guerrilha. Hoje, consagrado pelo Nobel, ainda faz uma espécie de arte de resistência?
Wole Soyinka: Se eu continuasse a fazer sempre o mesmo teatro, sofreria uma espécie de atrofia mental. O meu teatro também precisa de diversidade. A minha última peça é meio uma farsa que trata do fato de que muitas pessoas se recusam agora a falar a língua iorubá com o sotaque certo. Falar sem esse ritmo, de uma língua tonal, é perder metade da sua força. Como é difícil ficar livre de um hábito, contudo, agora me dou conta de que dentro dessa minha peça tem algumas críticas a governantes.

CP: O senhor disse que não consegue entender os escritores que levantam de manhã e já começam a produzir. É muito difícil escrever?
Wole Soyinka: 
Não sou um escritor metódico. Gosto de ter bastante tempo para trabalhar. Posso virar madrugadas. Às vezes, dou uma parada, tomo um expresso e, quando me falta inspiração, saio para dar uma caminhada. Quando a inspiração vai embora, é preciso fazer outra coisa, ouvir música, andar, espairecer. É dessa maneira que trabalho.

CP: Há sempre um grande interesse pela ‘‘cozinha’’ dos escritores. Hemingway dizia trabalhar 12 horas por dia para obter um parágrafo. O senhor consegue produzir grandes fragmentos de texto num único dia de trabalho?
Wole Soyinka: 
O meu processo é muito parecido com o de um escultor. Quando um escultor começa normalmente ele tem uma ideia de onde quer chegar, mas ao tirar pedaços da pedra vê que sua ideia inicial pode ser redirecionada para outro lugar. Hoje, com o computador, é uma pena não termos mais provas físicas desse trabalho de transformação, desse suor, ver todas as páginas que foram arrancadas e rasgadas, tudo que foi riscado. Eu me sinto assim.

CP: O escritor francês Michel Houellebecq diz que quando está possuído por uma ideia precisa escrever para se livrar dela. Acontece com o senhor?
Wole Soyinka: 
Quando sou possuído por uma ideia tenho pena das pessoas à minha volta. Nesses momentos, tudo que não seja escrever, como dar aula ou receber pessoas, vira inimigo. Quando vejo uma modelo rindo numa propaganda como essas de creme dental, com aquele sorriso falso, sei que é exatamente assim que fico quando estou possuído por uma ideia que precisa sair.

CP: A literatura tem futuro num tempo em que, segundo uma pesquisa, duas pessoas em cada três veem Netflix até mesmo quando estão na rua?
Wole Soyinka: 
Será difícil matar a literatura não só pelo poder da palavra escrita, mas por causa do livro como objeto. Nem sei o que é Netflix. Prefiro ver filmes no cinema. Tento ver no avião, mas acabo dormindo. Trabalho nos aviões e talvez durma rapidamente por já estar esgotado.

CP: Por que o teatro lhe pareceu a forma de expressão mais conveniente?
Wole Soyinka: 
Nasci num meio muito teatral, com muito teatro de rua e muitas mascaradas, que são espetáculos metade sagrados metade profanos. Cheguei a escrever contos. Na verdade, sou atraído por muitos meios de expressão. Eu me sinto um arquiteto fracassado, um músico fracassado…

CP: Uma frase sua diz que ‘‘o homem morre em todos os que se calam’’. Calar não é em certas circunstâncias a única forma de sobreviver?
Wole Soyinka: 
Nessas circunstâncias é uma estratégia pessoal e cabe a cada um perceber quando é o momento de esperar um pouco, inclusive de aconselhar os outros a esperar. Outra situação que exige o silêncio é quando a gente fala, fala e vê a sociedade fazendo exatamente o contrário do que lhe é dito. É insuportável ficar ouvindo a própria voz cair no vazio. Outro momento para calar é quando surge uma nova geração para assumir certas causas. Dá vontade de deitar a cadeira e pegar uma taça de vinho.

CP: Um escritor num país africano ou no Brasil, lugares de muita desigualdade, tem a obrigação de falar, de denunciar, de se engajar?
Wole Soyinka: Não. Eu não vejo qualquer problema em literaturas escapistas como a ficção científica, que são produtos da imaginação, pois elas, às vezes, apontam outros modos de vida não diretamente políticos. O engajamento obrigatório pode resultar em pura propaganda.

CP: Ano passado, estive em Moçambique. É lindo e chocantemente pobre como muitas partes do Brasil. O senhor consegue imaginar num tempo razoável uma África democrática, desenvolvida e igualitária?
Wole Soyinka: 
Sim. Estamos a caminho disso, mas muito lentamente. Eu me sinto incomodado quanto estou ao volante do meu carro e vejo crianças mexendo no lixo em busca de comida. Machuca a alma e deixa até o que comemos com gosto ruim. A África, porém, não precisa inventar a roda. Coisas já mudaram.

CP: O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. A África do Sul é o primeiro. A desigualdade tornou-se o principal ponto em comum entre Brasil e África?
Wole Soyinka: 
Visitei favelas brasileiras. É uma pobreza muito similar à que temos na África. Lembro dos protestos na época da Copa do Mundo para que o evento não acontecesse por causa dessa desigualdade. Apesar disso, não é necessário esperar que todos sejam iguais para que alguns progressos ocorram. Não devemos sobretudo ficar esperando assistencialismo externo.

por Juremir Machado da Silva

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/dialogos/2017/11/1510/wole-soyinka-sera-dificil-matar-a-literatura/

Jovens africanos estudaram a cadeia produtiva da mandioca no Brasil

Benin, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Malaui, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Uganda, Senegal, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

Embrapa treina jovens de 14 países africanos na Bahia

Imagem: Embrapa

Embrapa - O pesquisador Joselito Motta com os jovens em comércio de Vitória da Conquista

O pesquisador Joselito Motta com os jovens em comércio de Vitória da Conquista

Até o dia 17 de novembro, 28 jovens de 14 países africanos participam do “Treinamento em propagação, produção e processamento da mandioca para jovens africanos”, ministrado na Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas, BA).

A iniciativa faz parte do Youth Technical Training Program – YTTP (Programa de Capacitação Técnica Juvenil), realizado pelo Instituto Brasil África (Ibraf), organização sem fins lucrativos voltada para projetos de cooperação sul-sul com ênfase nas relações Brasil-África. Os países representados são: Benin, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Malaui, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Senegal, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

Desde o dia 23 de outubro, o grupo recebe informações sobre a cadeia produtiva da mandioca por meio de aulas teóricas e práticas em laboratórios e campos experimentais da UD e em áreas de parceiros de pesquisa e transferência de tecnologia. No último dia, o grupo também vai receber informações sobre outras culturas pesquisadas pela Embrapa.

O programa inclui visitas técnicas à Cooperativa dos Produtores de Amido de Mandioca do Estado da Bahia – Coopamido (Laje), à Cooperativa dos Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves – Coopatan (Presidente Tancredo Neves), ao Instituto Biofábrica de Cacau (Ilhéus) e à Cooperativa Mista Agropecuária dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia – Coopasub (Vitória da Conquista).

A escolha da agricultura como primeiro tema do YTTP faz parte da estratégia Feeding Africa, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), apoiador da primeira desta primeira etapa do programa, que busca a transformação da agricultura no continente africano. “A agricultura é uma matriz comum ao continente africano e ao Brasil, e entendo isso de forma muito clara: para desenvolver um país como um todo ou o continente como um todo, primeiramente, tem que ser através do desenvolvimento da agricultura”, declarou João Bosco Monte, presidente do Ibraf.

Com o objetivo de definir a programação do treinamento, Monte já tinha estado na Unidade em março e julho. “Para o Ibraf, a Embrapa é uma parceira fundamental e imperativa. O programa tem três pilares: a faixa etária, porque queríamos jovens; o gênero, porque queríamos equidade; e a continentalidade. Por isso, temos representantes de 14 países da África, que é formada por 54 países”, disse.

Entre os alunos, compostos por produtores e técnicos, a expectativa é grande. Beckie Nakabugo, de Uganda, é uma delas. “Aprender sobre mandioca vai beneficiar meu país, porque o povo está desanimado. Lá tem o Cassava Brown Streak Virus, e muitos produtores desistem de plantar. Minhas expectativas com o curso são grandes, porque a Embrapa é uma empresa grande e nós estamos recebendo o melhor tratamento, com os melhores professores”, afirmou.

Ernest Lifu Atem, de Camarões, está gostando da experiência. “Alguns dos temas a gente precisaria de, no mínimo, seis meses para realmente entender, mas estamos aprendendo bastante. Espero transformação de mente, de conhecimento. Espero ver mais métodos do que resultados dos trabalhos feitos aqui no Brasil. Claro que os resultados também são importantes para comparar as análises, mas o que mais importa é aprender métodos para aplicar no meu local de trabalho”, salientou.

“A formação ocorre bem, os palestrantes explicam bem os cursos e as matérias. Uma coisa muito interessante é a associação da teoria com a prática. É muito interessante ver o que eles falam e as provas reais do que aconteceu. Eu espero que a formação continue assim até o final. Nós fomos bem acolhidos, e a Embrapa é um lugar bem calmo, ideal para aprender”, destacou Guelord Nsuanda, da República Democrática do Congo.

“Como responsáveis pelo treinamento, esperamos que os alunos repassem esse conhecimento porque ele realmente tem que chegar ao produtor”, disse o pesquisador Marcio Porto, do Núcleo de Relações Internacionais, um dos organizadores do curso, ao lado de Alfredo Alves.

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Encerramento do curso

“Meu sonho para os jovens africanos é que se tornem milionários. A pergunta é: como isso vai acontecer? A resposta: só vai acontecer quando a juventude africana praticar agricultura como negócio. E esse é o propósito de estarmos aqui. Garanto ao Instituto Brasil África e à Embrapa que daqui a cinco anos os participantes que estão aqui vão se tornar milionários. Iremos fazer uso do que aprendemos. Não somente iremos nos tornar milionários, mas iremos criar empregos para outros jovens africanos, que vão ter um trabalho digno.” Com esse depoimento, o jovem Obinna Atu, da Nigéria, encerrou sua participação no curso sobre propagação, produção e processamento da mandioca, que treinou, durante um mês, 28 jovens de 14 países africanos na Embrapa Mandioca e Fruticultura (Cruz das Almas, BA).

No workshop de encerramento, que contou com a presença do presidente do Instituto Brasil África, João Bosco Monte, do chefe-geral Alberto Vilarinhos e de integrantes da equipe técnica de mandioca, um jovem representante de cada país resumiu o que significou o curso e como pretende aplicar os novos conhecimentos (veja cinco depoimentos abaixo). Os países representados foram: Benin, Burundi, Camarões, Costa do Marfim, Gana, Malaui, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Uganda, Senegal, Serra Leoa, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

“Depois de 30 dias de intensas atividades, o resumo é muito valioso. O que imaginamos há mais de um ano, quando idealizamos esse programa, era trazer jovens africanos para receber treinamento no Brasil em instituições campeãs que pudessem agregar valor a eles. A ideia, então, era trazê-los para aprender no melhor lugar. Quando ouço os depoimentos e olho nos olhos deles, vejo que valeu a pena o investimento para que esses 28 jovens pudessem receber esse conhecimento aqui, que pode se transformar em algo muito maior. Essa é a beleza de um treinamento como esse. Os jovens saem com o conhecimento adquirido, mas podem ser multiplicadores disso em seus lugares de origem”, avaliou Bosco.

A iniciativa faz parte do Youth Technical Training Program – YTTP (Programa de Capacitação Técnica Juvenil), realizado pelo Instituto Brasil África, organização sem fins lucrativos voltada para projetos de cooperação sul-sul com ênfase nas relações Brasil-África sediada em Fortaleza (CE). A escolha pela agricultura como primeiro tema faz parte da estratégia Feeding Africa, do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), apoiador da desta primeira etapa do programa.

O grupo recebeu informações sobre toda a cadeia produtiva da mandioca por meio de aulas teóricas e práticas em laboratórios, campos experimentais da Unidade e áreas de parceiros de pesquisa e transferência de tecnologia. No último dia, também foram repassadas informações sobre outras culturas pesquisadas pela Embrapa. A programação incluiu visitas técnicas à Cooperativa dos Produtores de Amido de Mandioca do Estado da Bahia – Coopamido (Laje), à Cooperativa dos Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves – Coopatan (Presidente Tancredo Neves), ao Instituto Biofábrica de Cacau (Ilhéus) e à Cooperativa Mista Agropecuária dos Pequenos Agricultores do Sudoeste da Bahia – Coopasub (Vitória da Conquista).

“Não é fácil reunir pessoas de 14 países, falando dois idiomas (inglês e francês) e muitos outros, seus idiomas nativos. Uma verdadeira torre de babel. Mas deu tudo certo. O curso foi produtivo, e a avaliação dos participantes em relação à Embrapa foi muito positiva, elogios grandes à equipe técnica que compartilhou conhecimento. Agora a intenção é irmos além da mandioca. Vejo a banana, por exemplo, como uma cultura de especial interesse pelos africanos”, resumiu o pesquisador Marcio Porto, um dos organizadores do curso, ao lado do pesquisador Alfredo Alves, que está na África, em missão com Joselito Motta, que acompanhou o grupo durante boa parte do curso e foi citado por muitos participantes no encerramento. Nesta semana, Marcio se juntou a eles, na África, em missão que passa por Gana e Nigéria.

Na primeira semana, Alfredo e Joselito visitaram comunidades produtoras e processadoras de mandioca de Techiman, em Gana, onde as mulheres fabricam o gari – farinha fermentada e amarelada com azeite de dendê. Na zona rural de Abeokuta, na Nigéria, os pesquisadores estiveram em uma comunidade onde as mulheres viram pela primeira vez a tapioca brasileira. “Apesar das dificuldades, o semblante delas era de alegria e esperança”, relatou Joselito.

A Embrapa participou também do evento CassavaTech 2017, que ocorreu de 21 a 23 em Lagos, na Nigéria.

Depoimentos

Gana – Valaria Adzo Adzatia
“Agora sei que não sabia muito sobre mandioca. Nunca vou esquecer as aulas, as visitas a campo, as casas de produção e tudo mais. Eu não sabia que a gente poderia utilizar a mandioca para fazer muitas coisas. Em Gana percebi que a gente desperdiça muito a mandioca. Um produto que aprendi aqui e não estava muito confiante em fazer era o amido. Sempre vi como um processo muito longo, mas foi simplificado aqui para mim. É um dos produtos que estou pensando em trabalhar porque vou me concentrar mais na parte de processamento.”

Malaui – Maness Nkhata
“A parte sobre as pragas foi muito importante porque vi algumas coisas que são novas para mim, especialmente o manejo integrado. O treinamento me proporcionou também conhecimento para produção e processamento da mandioca. Isso vai me ajudar no desenvolvimento de outros produtos que não fazemos nos nossos países. Outra área muito interessante foi a cultura de tecidos. Espero também construir um laboratório para cultura de tecidos e outros processos, além de treinar outros jovens para plantar e manejar as plantações de mandioca. O treinamento foi um sucesso. Meus planos futuros com o conhecimento obtido nas aulas, nas visitas a campo e outras áreas são contribuir para o sucesso da produção de mandioca no meu país.”

Nigéria – Obinna Atu
“Percebi que na África acontece como aqui no Brasil: a maioria dos agricultores não tem acesso aos materiais de plantios melhorados. Por anos o IITA (Instituto Internacional de Agricultura Tropical) tem lutado para alcançar esses objetivos. A mandioca é um dos alimentos mais importantes da base alimentar na Nigéria. Mais de 60% das famílias dependem da mandioca para viver. Vi o processo de multiplicação como uma boa maneira de começar um negócio para os jovens, para investir nosso dinheiro e nossa energia. Aqui vimos também muitos produtos que podemos fazer utilizando a mandioca. Vamos experimentar na Nigéria para ver as oportunidades de negócios lá. Descobrimos que o processamento pode criar milhares de trabalhos para os jovens e gerar muito lucro.”

Senegal – Dieynaba Badiane
“O Senegal tem 14 regiões, e em cada uma há uma plataforma de produção. A gente pode transformar todos esses conhecimentos adquiridos aqui. O que me marcou nessa formação é o fato de trabalhar na prática, nos laboratórios. Temos necessidades agrícolas no Senegal e não conhecemos a cultura in vitro. Com essa técnica que aprendi aqui, quero fazer a micropropagação e trabalhar em parceria com vocês. Temos o hábito de inovar e de criar novas coisas na fabricação, mas ainda não tínhamos conhecido o potencial da mandioca. Com tudo que eu aprendi aqui nessa formação, vou levar muito para lá.”

Serra Leoa – Alie Kamara
“Falando sobre produção de alimentos, fomos capazes de observar e fazer alguns processos, como a produção de chips de mandioca, de mandioca palito. Também aprendemos sobre o programa de melhoramento, que é uma coisa do meu interesse. Na viagem que fizemos, aprendemos muito sobre as etapas. No laboratório, vimos como fazer a multiplicação, identificando o material antes de cortar, como levamos a mandioca para o laboratório, a limpeza do material. Outra parte que aprendemos foi sobre ciência e empreendedorismo. Tenho muita coisa para levar para casa. Vou fazer uma apresentação sobre o que aprendi aqui para outros jovens do meu país.”

Especula-se sobre o montante de recursos desviados pelo governo de Mugabe

O ex-ministro das Finanças do Zimbabué Tendai Biti acredita que será fácil. Já o diretor da organização Corruption Watch antevê dificuldades em conhecer o rasto do dinheiro, grande parte em paraísos fiscais.

defaultRobert e Grace Mugabe

Os tabloides sul-africanos publicam inúmeros artigos sobre as “riquezas incalculáveis” que Robert Mugabe e sua família deverão ter acumulado ao longo de anos de 37 anos de poder. No entanto, não é possível ainda avaliar com precisão quanto o ex-Presidente do Zimbabué e família terão gasto de fundos públicos.

Sabe-se que as festas de aniversário de Mugabe devem ter custado mais de dois milhões de dólares, com cerca de 500 mil dólares só para champanhe e caviar.

Além de uma mansão em Harare com 25 quartos, avaliada em 8,5 milhões de euros, o ex-chefe de Estado do Zimbabué detém, pelo menos, quatro moradias de luxo em Hong Kong e o Palácio de Hamilton, em Sussex, na Inglaterra, avaliado em mais de 400 milhões de euros.

Além disso, há que contabilizar ainda mais de 15 mil hectares de terras, que incluem áreas expropriadas a proprietários brancos. Algumas dessas propriedades foram convertidas em retiros privados e resorts. Robert Mugabe detém também veículos blindados, alguns deles Mercedes, no valor de um milhão de euros, um Rolls-Royce, diversas joias, relógios, diamantes e aplicações financeiras.

A sua esposa Grace Mugabe foi até apelidada de Gucci-Grace devido ao seu estilo de roupa.  Em 2014, chegou a defender o marido, dizendo que ele era o “Presidente mais pobre do mundo”.

Os dois filhos do casal também apreciam uma vida de luxo. Chatunga Mugabe, por exemplo, viveu numa moradia no Dubai com uma mensalidade de 30 mil euros, antes de se mudar para uma residência em Joanesburgo, na África do Sul, com renda de quatro mil dólares.

Recuperar o dinheiro desviado do Zimbabué

Ehemaliger Finanzminister Simbabwes Tendai BitiTendai Biti, ex-ministro das Finanças do Zimbabué

O ministro das Finanças do Zimbabué entre 2009 e 2013, Tendai Biti, foi confrontado com a corrupção no Governo de Mugabe. “O meu maior desafio não foram os milhares que Mugabe roubou, mais os milhões que tinham desaparecido. Hoje, sabemos que foram cerca de 15 milhões de dólares, uma elevada quantia”, lembra Tendai Biti. Para o ex-ministro das Finanças, “uma das principais tarefas do novo Governo é recuperar o dinheiro”.

“Esse dinheiro pertence ao Zimbabué e deve regressar ao país. São cerca de mil milhões de dólares, que pertencem aos zimbabueanos. Será um teste para o novo Governo localizar esse dinheiro. Hoje em dia é fácil. Com todas as regras financeiras internacionais contra a lavagem de dinheiro e de promoção da transparência, deverá ser uma tarefa fácil”, estima Tendai Biti.

Paraísos fiscais

No entanto, Paul Holden, diretor da organização sem fins lucrativos Corruption Watch, acredita que será difícil rastrear o dinheiro de Mugabe. Trazer o dinheiro de volta ao Zimbabué “depende de vários fatores: em primeiro lugar, é preciso descobrir a quantidade de ativos de Mugabe e onde eles estão exatamente. Caso contrário, poder ser muito difícil conhecer o rasto do dinheiro. A maioria do dinheiro está provavelmente localizado no exterior, em paraísos fiscais. Pode levar muito tempo e também ser bastante difícil”, alerta Paul Holden.

Mesmo que se venha a saber onde estão os ativos, será muito difícil provar que o dinheiro foi roubado do Zimbabué, acrescenta o diretor da organização Corruption Watch.

Outros casos mostram o quão difícil pode ser o processo. O ex-Presidente da Nigéria Sani Abacha terá conseguido gastar cinco bilhões em receitas de petróleo fora do país durante seu mandato entre 1993 e 1998. Mas apenas depois de 16 anos uma pequena parte do dinheiro roubado foi trazida de volta à Nigéria.

Será Mnangagwana uma verdadeira alternativa?

A questão que fica é se o sucessor de Robert Mugabe, o antigo vice-Presidente Emmerson Mnangagwana, é o homem certo para promover esse desenvolvimento.

Simbabwe Emmerson Mnangagwa in HarareEmmerson Mnangagwana de regresso ao Zimbabué

“Mnangagwa foi um aliado próximo de Mugabe por mais de 30 anos e, como tal, foi parte do sistema corrupto. Então, a maior parte dos observadores é cética sobre se ele realmente será diferente do seu antecessor”, observa Paul Holden, diretor da organização Corruption Watch.

“A nossa esperança é que a destituição de Mugabe seja o ponto de partida para a transformação do Zimbabué num estado democrático”, acrescenta Holden.

Emmerson Mnangagwana regressou ao Zimbabué, esta quarta-feira (22.11) a fim de tomar posse na sexta-feira (24.11).

No Zimbabwe começa um novo período, ou mais do mesmo?

Harare – Emmerson Mnangagwa, que prepara-se para suceder Robert Mugabe, saudou quarta-feira, em Harare, “o início de uma nova democracia” no Zimbabwe e apelou “todos patriotas” a trabalhar em conjunto, no seu primeiro discurso desde o início da crise, noticiou a AFP.

ZIMBABWE: EMMERSON MNANGAGWA, TOMA POSSE SEXTA-FEIRA COMO PRESIDENTE DO ZIMBABWE.

FOTO: ALBERTO JULIÃO

Prometendo ser “o servidor” do povo, o antigo vice-presidente, 75 anos, que deve ser investido sexta-feira, presidente do país, apelou “todos os zimbabweanos patriotas a reunir-se, a trabalhar em conjunto”.

“Queremos o crescimento da nossa economia, queremos empregos”, disse, numa altura em que o Zimbabwe conhece altos níveis de desemprego, uma falta de liquidez e um endividamento crescente.

Por outro lado, agradeceu o exército que, na sequência da sua demissão, interveio na noite de 14 a 15, sem violência aparente. O responsável revelou ter estado “em contacto permanente” com os responsáveis castrenses durante a crise.

Sob a pressão dos militares, da rua e do seu partido, Robert Mugabe, 93 anos, aceitou terça-feira, demitir-se, após 37 anos na liderança do país.