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Violência sexual vitima homens e mulheres que fogem da crise no Burundi, alerta ACNUR

Crise política já levou mais de 256 mil burundianos a deixar o país. Muitos que tentam fugir ou que se opõem às milícias armadas são vítimas de diversas violações, como abusos sexuais, estupros coletivos e execuções. Nicole e Davide foram alguns dos refugiados que contaram suas histórias trágicas para a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Além da violência, população passa fome dentro e fora do Burundi. No país, 4,6 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar.

Mulheres não são as únicas vítimas de violência sexual no Burundi. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Mesmo antes de contar sua história, a violência que Nicole* enfrentou no Burundi já é visível em sua pele. A marca da facada na barriga, o corte do tamanho de um dedo em seu pescoço e a cicatriz em seu couro cabeludo causada por outros golpes de faca. Queimaduras marcam seus braços e pernas, e alguns de seus dentes foram arrancados a socos.

Nicole foi vítima da milícia burundiana “Imbonerakure”. Quando o dono das terras onde ela trabalhava não conseguiu pagar os 10 mil francos burundenses — cerca de 6,50 dólares — exigidos pelos criminosos, a moça percebeu que sua história teria um destino trágico.

“No dia seguinte, fomos levados para o rio para encontrá-lo”, explicou. “Ele havia sido esfaqueado na cabeça e nas laterais de sua barriga. Sua esposa tivera os seios arrancados e estava aberta por um corte que ia desde seus órgãos genitais até a cabeça”, acrescentou ofegante. “As crianças simplesmente tiveram suas gargantas cortadas.”

Naquele momento, Nicole* soube que tinha que reunir seus três filhos e fugir. Eles já estavam quase chegando na fronteira com a Tanzânia quando um grupo de policiais e integrantes da mesma milícia os abordaram.

As ordens eram claras: “matar ou bater em qualquer pessoa que tentasse cruzar a fronteira”.

Com a prisão local estava cheia, ela e cerca de outras 60 pessoas foram levadas para um centro de detenção nas proximidades. Lá, o procedimento era ser severamente espancado por ter tentado deixar o Burundi. “Havia até uma mulher que estava carregando um bebê de colo e bateram tanto nele que ele morreu”, lembrou, com um olhar baixo e distante.

Nicole carrega cicatrizes da violência das milícias burundianas em seu corpo. Na Tanzânia, a refugiada tenta lidar com a dor e o sofrimento por que passou em seu país de origem. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Nicole foi levada para a cela sozinha. Ela desmaiou e acordou mais tarde sendo estuprada por um policial. “Eu gritava e lutava, mas ele fez o que queria”, contou. Ela lembra que outros policiais passavam ao lado, olhavam e iam embora. “Ele só me estuprou uma vez, porque desde então tenho tido secreções de sangue e urina.”

Em meio a uma confusão, Nicole foi empurrada para fora da delegacia. Ela não viu mais seus filhos desde então.

A burundiana está entre os 137 mil nacionais que fugiram do Burundi para a Tanzânia desde que o presidente Pierre Nkurunziza decidiu, há um ano, que iria concorrer por um terceiro mandato. O anúncio desencadeou uma onda de protestos, repressão e violência por parte das milícias do país.

No final do mês passado (30), o Programa Mundial de Alimentos da ONU estimou que a população de refugiados do Burundi já havia chegado a mais de 256 mil, tendo esse contingente se dispersado entre outras nações além da Tanzânia, como a República Democrática do Congo, Ruanda, Uganda e até mesmo a Zâmbia. Países vizinhos têm recebido em média mil novos burundianos por semana.

Estupro é usado como forma de punição para os que tentam fugir do Burundi

De todos os relatos angustiantes — sobre os massacres, torturas e prisões no Burundi — contados por aqueles que fugiram, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem identificado um padrão preocupante de estupros e violência sexual.

Sobreviventes, como Nicole, explicam que o estupro tem sido usado como punição em pontos de verificação dentro do país e nas fronteiras. Segundo relatos, agressores alegavam que as vítimas estavam associadas a partidos políticos da oposição, além de serem julgadas por seu passado ou por seus lugares de origem.

Estupro tem sido usado como forma de punição para mulheres e homens que tentam fugir do Burundi, segundo relatos recebidos pelo ACNUR. Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Entre as nove mulheres entrevistadas pelo ACNUR, uma afirmou ter recebido um ultimato em um ponto de vistoria, ao lado de uma pilha de corpos: “ser estuprada ou morrer”. Felizmente, ela não foi abusada e teve apenas os seus pertences roubados.

Outras três mulheres relataram terem sofrido estupro coletivo após terem sido forçadas a assistir a seus maridos ou pais — todos coronéis do exército — serem mortos.

Sobreviventes na Tanzânia ainda estão lidando com as sérias consequências dos assédios. Algumas mulheres no campo de refugiados estão dando à luz bebês que são fruto de estupros. Outras foram rejeitadas por seus maridos, que as acusam de infidelidade ou que têm medo de serem infectados pelo HIV.

Homens também estão entre as vítimas de violência sexual

O ACNUR também conheceu a história de Davide*, um jovem que foi violentado por três homens enquanto outros assistiam ao abuso. O burundiano foi escolhido como vítima por não concordar em se juntar aos “Imbonerakure”.

“Eles diziam: Você não se juntará a nós, então não te perdoaremos”, lembra. Agora na Tanzânia, o rapaz teme que as pessoas descubram o que ele passou, apesar de considerar que aqueles que os violaram são “menos que humanos”.

Enquanto isso, ele espera reencontrar sua namorada no país para onde fugiu, e tem esperanças de que ela será compreensiva. “Eu a amo, então eu posso contar tudo para ela”, disse, com um sorriso tímido.

Foto: ACNUR / Benjamin Loyseau

Para o oficial sênior de Proteção do ACNUR, Renate Frech, “nós temos que quebrar o silêncio a respeito dos homens sobreviventes de violência sexual”. “Considerando que dificilmente recebemos relatos, estamos preocupados que homens também possam ser alvos, principalmente quando são detidos”, alertou.

Desde abril de 2015, o Comitê Internacional de Resgate nos campos da Tanzânia ofereceu serviços a 1.759 sobreviventes, homens e mulheres, de violência sexual e de gênero, mas o ACNUR acredita que esse número pode ser bem maior, pois muitas vítimas não reportam os casos, nem procuram ajuda.

Com apenas 30% dos fundos necessários para atender às necessidades dos deslocados burundianos, a agência da ONU e seus parceiros estão enfrentando dificuldades para levar a todos serviços vitais como comida, água e abrigo.

Programas a longo prazo como assistência psicológica especializada, educação e oficinas de treinamento, que são cruciais para a prevenção e para o tratamento da violência sexual, caíram no esquecimento.

“Para onde quer que você peça ajuda, existe o impacto da falta de fundos”, lamentou Frech.

Além da violência, burundianos passam fome

Em avaliação publicada nesta semana (1), o PMA calcula que 4,6 milhões de pessoas no Burundi enfrentam insegurança alimentar. Desse contingente, cerca de 590 mil precisariam de assistência emergencial para suprir suas necessidades.

Refugiados do Burundi recebem voucher de alimentos em campo na República Democrática do Congo. Foto: PMA / Leonora Baumann

A escassez de alimentos no país está associada principalmente ao contexto socioeconômico já frágil e que foi agravado pela crise política. Outros fatores por trás da falta de comida incluem enchentes, chuvas e deslizamentos de terra associados ao El Niño e que destruíram safras do Burundi.

A adoção de estratégias extremas para lidar com a pobreza, como a redução dos gastos em insumos da agricultura, e a desestabilização dos mercados também estão entre as causas do atual cenário.

Para atender às necessidades de novos refugiados e os já existentes pelos próximos seis meses, particularmente em Ruanda e Uganda, o PMA requer 57 milhões de dólares.

*Nomes alterados por questões de segurança

Violência sexual vitima homens e mulheres que fogem da crise no Burundi, alerta ACNUR

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