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Alou Cissé o unico negro técnico de futebol na Copa do Mundo em 2018

cisseA seleção de Senegal estreia hoje pela Copa do Mundo sob o comando do único treinador negro do torneio, Aliou Cissé, de 42 anos.

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Como jogador, Cissé foi capitão da melhor seleção de Senegal de todos os tempos, aquela que chegou até as quartas de final na Copa do Mundo de 2002, após deixar França, Uruguai e Suécia no caminho.

Como técnico, levou seu país às quartas de final da Olimpíada de Londres em 2012. Depois de vários bons resultados com as seleções de base, foi promovido e classificou Senegal para a Copa do Mundo de 2018.cisse6

Na véspera de sua estreia na Rússia Aliou Cissé revelou algum orgulho e algum incômodo com o fato de ser o único técnico negro entre os 32 que estão na Rússia para a Copa do Mundo.

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– É verdade, sou o único negro, mas este é um longo debate e não tem a ver com futebol. O futebol é um esporte universal, a cor da pele não deveria ser algo relevante. Mas sim, é importante ter um técnico negro – comentou o treinador

Em seu país, Cissé costuma ouvir críticas por ser pragmático demais – especialmente porque Senegal hoje conta com meias rápidos e atacantes perigosos, como Sadio Mané, o craque do Liverpool.

O estilo mais pragmático imposto por Cissé serviu para Senegal voltar a disputar uma Copa do Mundo após 16 anos e talvez seja o melhor caminho para uma seleção africana finalmente superar a barreira das quartas de final.

– Tenho certeza que um time africano vai vencer a Copa do Mundo. Vinte anos atrás, seleções africanas vinham só para completar a Copa, fazer parte. Já mostramos que podemos fazer muito mais. Temos muitas dificuldades em nossos países, mas não temos nenhum tipo de complexo. E precisamos de técnicos africanos para isso – disse.

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Boubakar Keita: “Não há intercâmbios entre os cientistas africanos”


Professor Boubakar Namory Keita
Professor Boubakar Namory Keita

Boubakar Keita diz que isso prejudica o continente

A falta de contactos entre cientistas e investigadores africanos é ”um grande desafio” para o desenvolvimento de África, disse Boubakar Namory Keita professor de história e e antropologia na Universidade Agostinho Neto.

“Não há um grande intercambio entre as universidades angolanas, entre a intelectualidade angolana os centros de estudos angolanos e os seus congéneres de outros pais africanos mesmo os mais próximos como Namíbia África do Sul congo e outros”, disse Keita.

“Infelizmente isto é um grande deficit e faz parte dos actuais desafios que se colocam ao continente africano”, acrescentou o professor para quem esta situação “faz parte dos inúmeros problemas que o continente vive na ciência e na investigação cientifica”.

“So se observam focos isolados e infelizmente não há grande troca de experiencias não há um intercambio efectivo permanente entre as regiões”, disse.

“Existem mais intercâmbios entre Angola e Portugal, entre Angola e o Brasil do que entre Angola e o Senegal ou o Mali Burkina Faso”, afirmou Keita acrescentando que isso “é uma herança colonial “.

Keita falava por ocasião da publicação pela Mayamba Editoria e a a faculdade de ciências sociais a obra “Contribuição endógena para a escrita da história da África Negra – Ensaio sobre a obra de Cheikh Anta Diop.

O acto visou saudar o Dia de África – 25 de Maio e os 40 Anos da Independência de Angola, sob o lema “Angola 40 Anos – Independência, Paz, Unidade Nacional e Desenvolvimento”.

Keita disse que Diop “desconstruiu toda uma mitologia em volta do passado da África, em volta daquilo que África era capaz e irá ser”.

Para Keita Diop “teve que desmantelar e desconstruir um conjunto de mitos em volta do passado e da capacidade dos negros africano para construir novos paradigmas novos modelos”.

“Faltava essa pequena luz que possibilitava uma outra contribuição do passado da África Negra para podermos fazer uma historia objectiva mas não uma historia partidária ou subjectiva” disse o professor da Universidade Agostinho Neto.

https://www.voaportugues.com/a/no-h-contactos-entre-investigadores-africanos-professor-da-universidade-agostinho-neto/2802014.html

Boubacar Keita: “Eu sou de opinião que a democracia não pode ser universal.”

Boubacar Keita1O historiador Boubacar Keita, um eminente professor universitário, assume, em entrevista ao Jornal de Angola, desilusões de gerações anteriores e exorta a juventude a mostrar capacidade de se levantar, apesar dos problemas com que se debate.

Dia do continente instituído há 55 anos
Fotografia: Domiano Fernandes | Edições Novembro

Ainda faz sentido comemorar, efusivamente, o 25 de Maio como Dia de África?
Sim. Ainda é relevante comemorar o dia do Continente. Será sempre um aniversário, imbuído no nascimento da Organização da Unidade Africana (OUA). Apesar das dificuldades e desilusões, não podemos esquecer que se trata da única grande organização que o continente tem. Não podemos deixar de comemorar o aniversário de um filho, porque deixou de nos agradar. É, até, mais indispensável, nas condições actuais, frente às dificuldades e questionamentos de gerações um tanto perdidas (objectiva e subjectivamente) nos meandros de projectos fracassados.

Mas esse “filho” nunca atingiu a maturidade que se estendesse até às gerações actuais?
Será preciso revitalizar, consolidar, construir. A OUA tinha projectos de toda a ordem, que visavam dar um novo ponto de partida a toda África, depois do colapso colonial. Deveria abarcar todas as áreas, da política à cultura. Mas os anos foram passando, o mundo foi evoluindo e encontrámos várias fases, sendo a última a globalização, com a sua estrutura e particularidades, que acabaram, mais uma vez, por tocar toda a esfera da vida do continente. Portanto, a evolução após Adis-Abeba fez-se nestas condições. Estão aí as fontes das razões das desilusões, dos fracassos e dos progressos.

Houve algum progresso?
Houve progressos. Por isso, é preciso comemorar. A União Africana ainda é a única organização que temos e pode oferecer ainda muita coisa, porque tem projectos que podem ser levados a bom porto. A actual geração não tem o direito de parar pelo caminho. Estou convencido de que os nossos filhos devem questionar sempre, e cada vez mais, dispondo, para além da educação, de informações que sirvam de ferramentas.

A África foi prejudicada pela globalização?
Antes de tudo, a globalização é um quadro mundial, com um novo posicionamento para todas as partes integrantes. Dentro desse conjunto, encontramos países diversamente posicionados, que realmente construíram relações bilaterais e multilaterais individualmente, em função dos seus interesses. Tudo isso perfaz a complexidade deste quadro, no qual não é fácil mover-se. África começou bem, para fazer frente aos desafios deste novo quadro. Mas, grosso modo, não foi capaz de segurar as rédeas perante determinadas evoluções, de modo que, em alguns domínios, fica bastante prejudicada. Mas, sendo pragmáticos, entendemos que este quadro é indispensável. É resultante da evolução do mundo, com as suas relações complexas.

Ou seja, vive-se a lei do mais forte?
Nem sempre essas relações são compreensíveis, porque cada Estado evolui mais ou menos em função dos seus interesses. E é extremamente difícil, se não mesmo quase impossível, conciliar esses interesses. E neste jogo vencem os mais poderosos, os melhor preparados, as chamadas potências actuais: China, Estados Unidos e o conjunto da União Europeia, com a Rússia em destaque. Neste contexto, a África aparece como o anel mais fraco e, consequentemente, sofre ainda mais nesta concorrência, que é o único jogo dentro deste quadro. Todos os concorrentes têm de ter algo a propor e algo a exigir. Os que não tiverem nada a propor dificilmente poderão receber ou então se contentam com o que lhe será imposto, mesmo que não corresponda às suas necessidades reais. Francamente, acho que África está a viver isso, por várias razões.

Pode exemplificar?
Do ponto de vista económico, porque ainda não conseguiu ultrapassar a fase da acumulação primitiva. Continua a ser mero fornecedor de matéria prima. Sabemos que no mundo actual um fornecedor de matéria prima não tem grande capacidade de desenvolvimento. No plano político, é quase a mesma coisa. África parou de inventar, de criar novas instituições políticas e jurídicas para enriquecer esta democracia universal. Mais uma vez, posiciona-se como uma ingénua consumidora da ideia de democracia que vem de outros pontos.

Podemos ter outra perspectiva da dita “democracia”?
Sim. Eu sou de opinião que a democracia não pode ser universal. A democracia, como ferramenta, instituição ou factor de desenvolvimento, é universal. Agora, os critérios da democracia é que não podem ser universais. Devem depender da história e da cultura de cada povo. Sem levarmos em consideração o património identitário, não pode haver uma democracia actuante. Não podemos aplicar a democracia americana, russa, chinesa ou polaca para o nosso desenvolvimento. Isso é um “bluff”. A democracia é quadro e factor de desenvolvimento. Porque se deve respeitar o que cada um quer, para assim todos levarem subsídios para a construção dessa democracia que quer ser chamada de universal. Sem isto, não há democracia universal.

Esta “ingenuidade” sustenta a ideia de que “a razão é helénica e a emoção africana”?
Não é verdade que a razão seja helénica e a emoção negra e que o homem negro se caracterize tão somente pela sua emotividade, este sentimento classificado como o mais baixo possível, em relação à razão. Nesta breve referência, acho que isso levanta muitos problemas, desde o pré-colonial aos dias actuais. Tudo isto pode ser verdade. Mas não menos verdade é que, quan-do saímos do período pré-colonial para o colonial, muita coisa mudou. Eu costumo dizer que, objectivamente, as sociedades africanas colonizadas foram desestruturadas, embora alguns acreditem que tenham sido reestruturadas.

Pode explicar?
Para as potências colonizadoras, convinha proceder assim, em defesa dos seus interesses efectivos, nos territórios colonizados. Para elas, objectivamente estava tudo certo, do ponto de vista da política colonial. A independência das ex-colónias veio com este legado. Não houve praticamente o menor esforço de reestruturar aquilo que tinha sido desestruturado. Passamos para a nova época com este legado, totalmente viciado.
Em 1958, na Conferência dos Povos de África, organizada por Kwame Nkrumah, em Accra,  uma das recomendações foi reorganizar as economias, para poder consolidar a independência dos países. A ideia deve ter passado despercebida ou os líderes não deram a devida importância. Repetiu-se em 1963, já em Addis-Abeba.

Como entender o contínuo marasmo, se já estamos livres e temos capital humano?
O resultado é que os quadros, numa primeira fase, foram formados fora de África. Depois, começaram a estabelecer-se internamente as instituições de ensino superior. Repare que aqui também, na concepção dos currículos, baseamo-nos, em muito, nos currículos das antigas potências colonizadoras. Até hoje, debatemos pormenores e estruturas curriculares em função dos países colonizadores. Cada um defende o tipo de currículo no qual estudou. E isso é um grande problema. Não houve e não há nenhum esforço de criatividade. Não inventamos nada.

Ainda somos o resultado “anormal” de consequências coloniais?
Fica-se com essa ideia. Actualmente, a democracia que elegemos para desenvolver os nossos países nem é da nossa invenção. Adoptámos e sequer nos conseguimos adaptar a ela. Eleições periódicas e multipartidárias, legitimidade a partir do povo, isso tudo é muito bonito. Mas analisemos: qual é o nível de educação dos nossos povos? Uma das exigências da democracia e, simultaneamente, um dos momentos importantes da consulta popular para se chegar à legitimidade, é propor o projecto de sociedade. Paradoxalmente, muito poucos africanos sabem sequer fazer o cálculo para se atingir o salário mínimo.

Como encontrar o caminho?
Para inventarmos ou criarmos, podemos encontrar critérios na África pré-colonial. Eu tenho a impressão de que ainda há líderes africanos que tentam conciliar os dois critérios. Há uma tendência nítida em revisitar as Constituições antigas, no sentido de mudar o número de mandatos. Geralmente, a maior parte das constituições em África proclamam dois mandatos consecutivos. Tem sido recorrente a tendência de serem ilimitados. Isso é um critério pré-colonial. Mas, para que isso seja legal, tem de ser acompanhado por outras instituições e o povo deve estar presente. Porque antes eram monarquias. Os monarcas de então tinham preocupação efectiva com aquilo que o povo  pensava e este estava representado no conselho dos anciãos, que não tinha nenhuma espécie de compromisso com quem quer que fosse.

Será isto o que falta à actual classe política africana?
Todos os líderes actuais falam de anseios e preocupação do povo. Mas como se explicam as constantes manifestações populares contra as suas políticas? Acho que não deveria haver. Naquelas épocas, o soberano que deixava de trabalhar em benefício do povo era compulsivamente destituído pelo conselho dos anciãos. Os bons podiam ficar no cargo até morrer. É isso que alguns líderes querem conciliar: o moderno com o antigo. Querem tirar do antigo o que lhes convém, neste caso, o carácter ilimitado do número de  mandatos, sem, no entanto, se preocuparem realmente com o povo, desviando dinheiro. Antigamente, nenhum soberano poderia ter bens fora do território.

A quem culpar, pela pilhagem de países riquíssimos? O Congo Democrático é um exemplo …  
O Congo Democrático é escandalosamente rico. Mas, depois de Patrice Lumumba, todos os líderes que passaram por lá foram do piorio. Não encontro outro termo adequado, até porque o decoro não servirá para nada neste caso. Foram quase todos grandes bandidos. A RDC tem muito potencial. É um dos países africanos com maior capital em recursos humanos, além da incalculável riqueza em recursos naturais. Mesmo assim, podemos constatar que tudo isso não é suficiente, porque bastou chegarem ao poder indivíduos obscuros, iletrados, que não tiveram (na sua maioria) conhecimento profundo daquilo que o Congo é de facto. Se tivessem, a atitude seria outra.

Há quem alegue que o problema está nas ingerências. Corrobora?
Se há ingerência é porque os donos a permitem. Os donos é que abrem as portas de casa para os forasteiros entrarem. Ninguém, que eu saiba, forçou as portas do Congo. O Congo não foi vítima de invasão externa americana, francesa ou belga. Não foi. Os próprios líderes, de uma ou de outra forma, é que abrem as portas. E a dívida externa é o resultado da má gestão. Se alguém gere mal o seu dinheiro, acaba empobrecido. Depois, se quiser viver, tem de pedir ajuda. Caricaturando mais uma vez o escândalo das lideranças africanas, quan-do a dívida externa é X, a riqueza individual de cada líder é X+1.

Mas tivemos o caso Kadafi …
Tinha grandes sonhos.

Morreu por isso?
Como sempre, todos os africanos que tentaram efectivar este tipo de sonho foram directa ou indirectamente eliminados. Começou com Kwame Nkrumah. Naquela altura, ainda não havia a petulância de atacar, via armada, um país africano abertamente. E isso foi sempre orquestrado para enfraquecer o alcance de políticas sérias e desacreditar sonhos. Deste modo, ficamos alinhados à lógica de que “o povo quando tem fome não tem ouvidos, perde a razão”. Basta agir à volta disso, torná-lo esfomeado a ponto de perder a razão.
Isso levou, no caso de Nkrumah, a não realização de projectos de unidade sub-regionais que desenhara. Naquela altura, o Ghana, apesar de possuir poucos quadros, ainda assim ajudava países como Mali e a Guiné. Muitos africanos desconhecem isso. Na década de 60, esses países tinham cooperantes ghanenses, para superar determinadas urgências, principalmente, na medicina. Isso nunca agradou à Bélgica, França, Estados Unidos ou Grã-Bretanha.

Foi, também, o caso de Tomás Sankara?
A época 70-80 é tida como a década dos golpes de estado militares, perpetrados por jovens elites dos exércitos, apoiadas por pessoas que não se viam agradadas por esses dirigentes. Foi o caso de Thomas Sankara. E todo o mundo sabe, não só os burquinabes, mas toda a África consciente sabe disso. O grande mal de Thomas Sankara foi ter dito que iríamos produzir aquilo que vestimos, comemos e ter relações internacionais em função dos nossos interes-ses. Kadafi tinha os mesmos sonhos e projectos. Ajudava a pagar quotas de países com má gestão, a ponto de não ter interesse em pagar às organizações internacionais. E tinha uma ideia lúcida sobre determinadas organizações internacionais. Isso saturou a paciência dos grandes do mundo.

 “África ainda não conseguiu negar o desenvolvimento”

No fundo, África continua ou não a ser uma espécie de “escrava económica”?
Sim. A economia africana produz-se da ilusão. Eu simplesmente tenho de reconhecer que hoje há uma ilusão de que temos economias saudáveis, cientificamente construídas e geridas. Tudo isto é uma ilusão, um engano terrível. Os modelos e paradigmas da nossa gestão económica foram construídos a partir do outro. Essa é a realidade. E a globalização impõe-nos colaborar obrigatoriamente com o FMI e outras instituições. Digo que “nos obrigam”, porque as regras e as estruturas da economia mundial estão de tal forma, que dificilmente poderíamos gerir as nossas matérias-primas, sem passar por eles. A tecnologia usada para a produção não é nossa. São várias as fases para tornar os nossos recursos alavancas reais do desenvolvimento. É por isso que digo que podemos fazer discussões fervorosas nos parlamentos mas, acima de tudo, sem querer exagerar, depende da “boa vontade de fora”.

E o que dizer da abertura da moralização da justiça, estando a África do Sul na proa?
É um bom modelo. Mas gostaria de ver até onde vai. Não que estruturalmente não tenha confiança na capacidade do negro africano em fazer algo de grande. O problema não é este. Há muitos e diversos condicionalismos. Por enquanto, a África do Sul é de fato o grande exemplo.

Somos, de facto, de um continente “maldito”?
Depende! Maldição do ponto de vista da nossa incapacidade de compreender que herdámos histórica e logicamente um fardo? Mas, como ser humanos inteligentes, deveríamos tentar adaptar este quadro às nossas realidades, a fim de eliminar o seu peso e consequências nefastas. Ora, deste ponto de vista, até agora parece uma maldição. Há mais de quarenta anos que África é independente, mas ainda não conseguimos chegar ao desenvolvimento. A maioria dos países do continente não tem sequer água potável. Com a energia passa-se a mesma coisa.

  “A juventude ficou abafada”

O problema tem a ver também com o quadros?
Paradoxalmente. África quer-se  desenvolver com países normais. Os países importam coisas de um país normal. Quero com isto dizer que estas coisas todas funcionam com energia. E isso é anti-desenvolvimento.
Temos quadros muito bem formados, que até são chamados como consultores internacionais.
Mas quando se trata dos seus respectivos países, curiosamente, fazem o contrário. Deste ponto de vista, parece sim uma maldição. Embora, objectivamente falando, não é uma maldição,mas apenas um momento com quadros desta natureza.

E à juventude, o que o professor tem a dizer?
Sem demagogia, embora a juventude também não seja culpada, mas parece que ficou tão abafada pelos problemas, realidades negativas dessa África, que deixou também de ter criatividade. Na minha opinião, a força da juventude deve estar nisso e não no poder que detém. Deve mostrar capacidade de se levantar, apesar dos problemas que estão em cima de si. Mas parece que a emigração tem sido a única via, mesmo que custe a vida de muitos.

PERFIL

Nome 
Boubacar Namory Keita.

Doutorado 
(Ph. D) em Ciências Históricas pela Universidade de Leninegrado, Rússia, desde 1977.

Profissão
É professor titular de História e Antropologia Africana na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto. Orienta trabalhos de Licenciatura em História e Antropologia, desde 1987 e de Doutoramento, desde 2013.

Publicações
“História da África Negra” (2009); “Cheikh Anta Diop” (2009).

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/africa_deve_criar_modelo__proprio_de_democracia#foto

100 dias do Presidente da África do Sul decepciona segundo o partido da oposição

Prestes a completar 100 dias na presidência da África do Sul, Cyril Ramaphosa é visto pela oposição com uma crescente desconfiança perdendo, gradualmente, o benefício da dúvida que lhe foi dado, depois do seu discurso de tomada de posse proferido a 15 de Fevereiro.

 

 

Opositores de Cyril Ramaphosa acusam o Chefe de Estado de falta de cumprimento das promessas
Fotografia: DR

Num recente encontro com jornalistas, o líder da Aliança Democrática, principal partido da oposição, referiu-se a Cyril Ramaphosa como o homem das “oportunidades perdidas”.
Segundo Mmusi Maimane, o Presidente da República lidera um “Governo frágil”, resultante de um partido “politicamente dividido” e que vai “perdendo as oportunidades que o contexto internacional lhe oferece”.
Mmusi Maimane refere que o Presidente da República está a perder as lutas em que se empenhou para combater o desemprego e os actos de corrupção e nepotismo.
Para o líder da Aliança Democrática, o principal problema é que o Presidente escolheu para o Governo pessoas que estão comprometidas com as fragilidades há muito existentes no sistema económico e, por isso mesmo, impossibilitadas de dar resposta positiva à necessidade de combater a corrupção.
Outra das críticas que o líder da oposição aponta a Cyril Ramaphosa tem a ver com o facto de, contrariamente ao que havia prometido em meados de Fevereiro, quando tomou posse, ter constituído um Governo com 35 ministros e 37 vice-ministros.
“O Presidente prometeu um Governo pequeno, mas eficaz, mas em vez disso trouxe um Governo grande e que não funciona, uma vez que não existe uma clara separação de competências entre os diversos ministérios”, disse no encontro com jornalistas convocados para fazer o balanço dos primeiros 100 dias de governação de Cyril Ramaphosa.
Outra crítica feita por Mmusi Maimane tem a ver com o facto do Governo continuar sem pagar as avultadas dívidas contraídas junto de alguns fornecedores nacionais, o que estará a contribuir para o despedimento de muitos trabalhadores, uma vez que os patrões ficam sem dinheiro para lhes pagar.
O aumento da criminalidade e o agravamento do comportamento social e moral de alguns ministros, sobretudo os que estão envolvidos em casos de corrupção e de nepotismo, são factores que segundo o líder da oposição não ajudam no balanço que se faz aos primeiros 100 dias da presidência de Cyril Ramaphosa.

A “sombra” de Jacob Zuma

Maimane afirmou também que não apoia as emendas constitucionais que o Presidente pretende efectuar, no sentido de facilitar a criação de uma nova elite económica através de financiamentos a empresários negros, defendendo que o Estado não tem dinheiro para interferir naquilo que deve ser a lei do mercado.
“O desenvolvimento da economia sul-africana não pode ser influenciado com dinheiro do Estado, mas sim através da lei do mercado que deve ditar as regras para o seu funcionamento”, assegurou.
Para o líder da oposição, seria bom que “quando se fala da política seguida por Cyril Ramaphosa, se tivesse em conta o facto dele ter sido Vice-Presidente de Jacob Zuma, durante quatro anos, “sendo conhecidas as suas expressões de solidariedade”.
Apesar de, oficialmente, apenas no dia 26 deste mês se completarem os primeiros 100 dias da presidência de Cyril Ramaphosa, já se pode fazer um breve apanhado daquilo que foram as suas principais acções políticas com impacto directo na governação.
Para compor o executivo, Ramaphosa decidiu não reconduzir do tempo de Jacob Zuma o chefe dos serviços de Segurança do Estado, Arthur Fraser.
Para o Governo, o Presidente decidiu chamar de volta Nhalanhla Nene e Pravin Gordhan para coordenarem a equipa responsável pelas Finanças do país.
Uma outra decisão de vulto permite que a justiça recolha testemunhos de agentes do Estado, sem necessidade de levantamento de imunidades sempre que estejam em causa processos passíveis de procedimentos criminais.
Mais recentemente, Cyril Ramaphosa assinou um decreto que coloca sob a administração nacional do Estado a provincial de North West.
Pelo meio está a promessa de alterações à lei que permitirá ao Governo expropriar e entregar fazendas a agricultores interessados na sua exploração.
Trata-se de uma lei polémica, uma vez que envolve diferentes sensibilidades sociais e que pode provocar fortes tensões raciais, uma vez que a oposição política tem insistido na ideia de que se trata de uma forma de prejudicar fazendeiros brancos para beneficiar fazendeiros negros.

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/africa/oposicao_sul-africana_faz_balanco_negativo_1

Bispos católicos pedem “serenidade e humildade” depois da morte de Dhlakama

A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) pediu hoje “serenidade e humildade” face à morte de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, exortando o principal partido da oposição a saber reerguer-se para honrar o compromisso com a paz.
Bispos católicos moçambicanos pedem “serenidade e humildade”

“É um momento doloroso para o país, porque morre um grande protagonista e peça-chave para a paz, mas os moçambicanos devem reagir a este acontecimento com serenidade e humildade”, disse à Lusa o porta-voz da CEM e bispo de Chimoio, centro de Moçambique, João Nunes.

João Nunes assinalou que Afonso Dhlakama entendeu o clamor do país pelo fim da violência nos vários ciclos de confrontação militar que opuseram a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas.

“Nas circunstâncias mais difíceis, compreendeu que a paz era muito importante e agiu como interlocutor válido”, declarou João Nunes.

Para o porta-voz do CEM, o líder da Renamo voltou a encontrar o caminho da paz quando recentemente chegou a acordo com o Presidente da República, Filipe Nyusi, sobre a proposta de revisão pontual da Constituição da República visando o aprofundamento da descentralização.

“A Renamo deve ter a determinação de se reerguer deste momento duro provocado pela perda e honrar o compromisso que o seu líder tinha manifestado para com a paz”, afirmou.

João Nunes apelou à Frente de Libertação Moçambicana (Frelimo), partido no poder, para que actue com humildade e sentido de Estado, trabalhando com a Renamo para a estabilidade do país.

“O rumo em direcção à paz não deve sofrer desvios, a Frelimo deve ter a coragem de sempre colocar o interesse nacional acima de quaisquer outros”, frisou.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/bispos-catolicos-mocambicanos-pedem-serenidade-e-humildade

África do Sul faz histórico acordo de indenização sobre a silicose em trabalhadores de minas de ouro

 

 

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Um terço de todo o ouro já extraído veio de minas sul-africanas, que, durante décadas sob o colonialismo e o apartheid, dependiam da exploração do trabalho de milhões de trabalhadores negros em condições perigosas e quentes. Profundamente subterrâneos, os trabalhadores corriam o risco de inalar poeira de sílica, danificando os pulmões de forma irreparável com os sintomas aparentes anos ou décadas depois.

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Sete gigantes do setor de mineração na África do Sul assinaram nesta quinta-feira um acordo histórico de quase 5 bilhões de rands (395 milhões de dólares) para a indenização de dezenas de milhares de trabalhadores que contraíram silicose ,”compensação significativa” aos doentes de silicose e tuberculose pulmonar que trabalhavam nas minas de ouro da África do Sul, algumas das mais profundas do mundo, a partir dos anos 1960..

As  empresas envolvidas são Harmony Gold ( HARJ.J ), Gold Fields ( GFIJ.J ), a African Rainbow Minerals ( ARIJ.J ), Sibanye-Stillwater ( SGLJ.J ), a AngloGold Ashanti ( ANGJ.J ) e Anglo American ( AAL.L ).A Anglo American não tem mais ativos de ouro, mas historicamente era um produtor de ouro

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O processo foi lançado há quase seis anos em nome de mineiros que sofriam de silicose, uma doença pulmonar fatal contatada pela inalação de poeira de sílica em minas de ouro.

Quase todos os reclamantes são mineiros negros da África do Sul e países vizinhos como o Lesoto, a quem os críticos dizem que não receberam proteção adequada durante e mesmo após o fim do regime do apartheid em 1994.

O acordo, resultado de uma ação coletiva dos mineiros, foi assinado diante da imprensa em Johannesburgo após vários meses de negociações e entrará em vigor após a validação pela justiça sul-africana.

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silicose é uma doença pulmonar causada pela inalação de sílica. O pó de sílica é o elemento principal que constitui a areia, fazendo com que a doença acometa principalmente mineiros, cortadores de arenito e de granito, operários das fundições e oleiros. Também àqueles em que os trabalhos implicam na utilização de jatos de areia, na construção de túneis e na fabricação de sabões abrasivos, que requerem quantidades elevadas de pó de sílica.

Em fevereiro, Graham Briggs, presidente do grupo de trabalho, disse que o acordo foi visto dentro de “meses”. Além dos 5 bilhões de rand que as empresas fizeram em provisões, há 4 bilhões de rands disponíveis de um fundo de compensação ao qual a indústria vem contribuindo há anos.

Cabo Verde fica a 4 horas do Brasil: uma janela de oportunidades

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Apenas quatro horas de voo separam o país-arquipélago de Cabo Verde, que fica na costa ocidental da África, do Nordeste do Brasil  Há  voos para Fortaleza, Recife e, nos próximos meses,  inaugurará a rota  para Salvador. Uma nova frequência também está programada para operar no Recife, aumentando de dois para três o número de voos semanais”, destacou o CEO da Cabo Verde Airlines, Mário Chaves, durante encontro com imprensa e agentes de viagem pernambucanos que foram conhecer as potencialidades do destino.

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A companhia aérea está em processo de privatização que deve ser finalizado ainda em 2018, passando a contar com a gestão da islandesa Loftleidir Icelandic. O reflexo já pode ser visto na renovação da frota de aeronaves e no posicionamento da companhia. Uma das primeiras iniciativas da nova administração foi mudar de aeroporto. Antes conhecida como TACV Airlines, a empresa voava para a cidade de Praia, capital do País. A mudança para o Sal não foi apenas uma questão focada no turismo, embora isso faça parte de uma importante estratégia para incrementar uma das principais vocações da economia local. O terminal de passageiros do Sal oferece melhor estrutura operacional para funcionar como hub intercontinental da empresa.

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O turismo hoje representa 23% do PIB do país, estimulado sobretudo pelos ingleses e alemães, que são os principais “consumidores” dos atrativos da ilha: mar de águas cristalinas, sol o ano inteiro e resorts all inclusive de altíssimo padrão. Para nós, brasileiros, ainda há a vantagem de se falar português e a gentileza do cabo-verdiano – conhecida como morabeza. Desvantagem talvez seja o câmbio. Como 95% do turismo é advindo da Europa, o euro é a moeda corrente. Nem pense em levar dólar, que poucos lugares aceitam. Para este ano, a previsão é de que 800 mil turistas internacionais passem por Cabo Verde.

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Com a chegada dos visitantes, a geografia do Sal também vai tomando novos contornos. Há pouco mais de um ano, a capital “turística” de Cabo Verde vive um boom imobiliário. O que se vê é uma cidade em constante reforma. Sobretudo da rede hoteleira, que está em franca expansão, ampliando quartos e erguendo quatro novos hotéis, numa soma que vai elevar em três mil o número de leitos disponíveis. Hoje, a capacidade hoteleira está no limite, ultrapassando 90% de ocupação na alta estação (inverno europeu).

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A chegada dos novos leitos, a reforma dos aeroportos (três dos quatro terminais internacionais do país foram reformados em menos de um ano), e o novo posicionamento da companhia aérea faz com que o Brasil, mais especificamente o Nordeste, esteja na mira do destino. “O passageiro da Cabo Verde Airlines pode sair do Recife, passar até sete dias no País sem custo adicional no bilhete, e seguir viagem para Lisboa, Milão e Paris”, explicou Mário Chaves. “Vamos iniciar uma operação em Salvador e outras cidades do Brasil estão em nossos planos futuros”, disse o executivo português, que atuou como piloto da TAP por 17 anos. As tarifas também são um diferencial. É possível viajar a Cabo Verde a partir de 400 dólares. Se o destino for Lisboa, Paris ou Milão, o bilhete sai a partir de 600 dólares. A companhia opera com Boeing B757 com 160 lugares em econômica e 22 lugares Comfort Class.

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Em relação a novas conexões que liguem o Brasil à Europa, a partir de Cabo Verde, Chaves revelou que existem mais seis destinos que estão sendo estudados para aumentar a capilaridade da companhia. “Teremos um ou dois destinos a serem incrementados já a partir de 2019”.

Brasil / Cabo Verde

Brasil / Cabo Verde

O programa stopover é uma ótima oportunidade para o turista brasileiro que tem como destino a Europa de conhecer a Ilha do Sal e estender o passeio para as demais ilhas de Cabo Verde. Muito por causa dos atrativos – praias de águas cristalinas, temperatura amena e diversidade cultural e geográfica – o turismo tem grande potencial de crescimento.

Neste ano, Cabo Verde inaugurou o seu primeiro cassino – o Cassino Royal, na Ilha do Sal – e outros três estão previstos, nas ilhas da Boa Vista, Maio e Santiago. “Esse tipo de operação atrai turistas de alto poder aquisitivo. Tanto que, entre 2019 e 2020 está prevista a inauguração do maior cassino de Cabo Verde, que ficará em Praia (a capital), com investimento de 250 milhões de dólares”, comenta o cônsul de Cabo Verde em Pernambuco, Ricardo Galdino. O empreendimento ficará em um antigo presídio, que será transformado em um hotel de luxo, erguido por investidores de Macau, na China.

A área de Tecnologia da Informação também está em franca expansão, com PIB em torno dos 15%. Por lá, o Núcleo Operacional da Sociedade de Informação (NOSI) já exporta tecnologia para a Comunidade dos Países da África Oeste. “Fico muito orgulhoso com a intercessão que Cabo Verde tem com o CESAR, em Pernambuco, e percebo que empresas do Porto Digital começam a se aproximar”, destaca Galdino.

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Para o cônsul, há muitas oportunidades de aproximação entre Brasil e África. “Os países europeus já fazem isso há muito tempo”, comenta. O consulado, inclusive, está em articulação com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) para, em julho, realizar um road show para apresentar o destino e possibilitar a descoberta de novas oportunidades de negócios.

Cabo Verde trabalha com plataforma de reexportação, que permite que qualquer produto manufaturado ou beneficiado em até 30% no país tenha isenção de impostos nos países destino: Estados Unidos, Canadá, toda União Europeia e África Oeste. Seis mil itens entre calçados, confecção e pesacados fazem parte dessa plataforma, que hoje corrresponde a entre 15% a 18 % do comércio local

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/economia/pernambuco/noticia/2018/04/15/cabo-verde-airlines-mira-clientes-do-nordeste-brasileiro-335327.php

Winnie Mandela a guerreira

methodetimesprodwebbincad37a0c-3688-11e8-b5b4-b935584040f4‘Sou o produto das massas do meu país e o produto do meu inimigo’, disse um dia aquela que foi a primeira primeira-dama negra da história da África do Sul. Winnie Madikizela-Mandela, fervorosa combatente anti-apartheid, figura cimeira da luta dos direitos dos negros, morreu esta semana aos 81 anos. Ainda deputada, com direito a funeral de Estado, apesar das manchas de violência do seu passado.

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Nelson Mandela teve 27 anos de prisão para aplacar os seus demónios, apaziguar o espírito, renunciar à violência e construir uma ideia política de reconciliação. A mesma que veio a aplicar depois de sair da prisão, em 1990; a mesma que pôs em prática como o primeiro Presidente negro da África do Sul. Conter a sede de vingança, harmonizar inimigos, reconciliar a maioria negra que sofreu com a minoria branca que a fez sofrer. Winnie Madikizela-Mandela não passou pelo mesmo: a sua luta infatigável pela libertação do marido – com quem casou aos 22 anos – teve marcas de violência, sofridas, sobretudo, mas também impostas. Não admira que a sua ideia de uma África do Sul libertada da subjugação feroz do apartheid fosse menos pacífica e incluísse uma certa dose de violência.GCIS_Mamma_Winnie.width-800

«Mandela dececionou-nos. Concordou com um mau acordo para os negros. Economicamente, continuamos de fora. A economia é muito ‘branca’. Tem alguns exemplos negros, mas muitos daqueles que deram a sua vida pela luta morreram sem ser recompensados», afirmou quem um dia disse de si: «Eu sou produto das massas do meu país e o produto do meu inimigo.»

O seu caminho de luta foi sempre mais violento, mais olho por olho, dente por dente – passou pela prisão, 18 meses no final dos anos 1960 (escreveu sobre a experiência no livro 491 Days), foi deportada para uma zona rural em 1976. Nunca desistiu de lutar nem de recorrer à violência quando necessário.

Nos anos 1980 criou um clube, o Mandela United Football Club (MUFC), que era menos uma equipa de futebol e mais uma milícia armada ao serviço da sua vontade. Dentre as várias mortes atribuídas ao MUFC, uma ficou-lhe marcada para sempre como uma mancha infame: o assassínio, em 1988, de Stompie Sepei, um jovem ativista do MUFC de 15 anos, raptado e torturado por ter relações sexuais impróprias com um pastor metodista e acusado de ser informador da polícia.

Jerry Richardson, braço-direito e guarda-costas de Winnie, acusado e condenado a prisão perpétua pela morte de Stompie, implicou a sua líder no caso e chegou a afirmar na Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul: «As minhas mãos estão hoje cheias de sangue porque me disseram para matar e eu faço o que me mandam.»

Richardson confessou o envolvimento em quatro homicídios, mas a comissão investigou 18 mortes atribuídas ao MUFC. Winnie Mandela chegou a ser condenada pela participação na morte do jovem de 15 anos (Richardson garantiu que foi ela quem começou a tortura), mas a pena de seis anos de prisão a que foi primeiramente condenada acabou reduzida em recurso a uma multa de 3200 dólares. Não seria a sua única vez a braços com a justiça. Anos mais tarde, em 2003, seria condenada por roubo e fraude a seis anos de prisão, pelo desvio de 120 mil dólares da Liga de Mulheres do Congresso Nacional Africano (ANC na sigla em inglês), que liderava. Mais uma vez, o recurso favoreceu-a, o tribunal deixou cair a acusação de roubo e reduziu a pena para três anos e seis meses.

Mas mesmo com todas as sombras biográficas, nunca a sua figura deixou de ser vista com respeito dentro do ANC e desde 1994 que foi sempre eleita deputada. Em 2009, quando Jacob Zuma (o ex-presidente que recentemente se demitiu) chegou ao poder, figurou como número cinco nas listas do ANC ao Parlamento sul-africano, sinal de proximidade política que rapidamente haveria de ganhar distância.mandela-2-4

Entre o brilho desse dia inesquecível de 1990 em que caminhou de mão dada e punho erguido ao lado do marido, acabado de ser libertado da prisão (divorciou-se em 1996, quando era primeira-dama) e todas as sombras que lhe toldaram a biografia, Winnie Madikizela nunca deixou de ser uma lutadora: «Sim, no princípio tinha medo. Mas não há muitas coisas que eles te possam fazer. Mais do que isso, só a morte. Só te podem matar e, como pode ver, ainda aqui estou.» Até esta segunda-feira, quando sucumbiu à doença, tinha 81 anos.

 

Jeune Afrique: “Lula (re)descobriu a África”

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Escrito por Edouard Bailby

Luiz Inácio Lula da Silva, líder carismático do maior país da América Latina, revolucionou as relações entre o Brasil e o continente africano.

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregar o poder a seu sucessor em 1º de janeiro de 2011, ele terá dado uma nova dimensão às relações de seu país com a África. ” Visitei vinte e sete países africanos”, disse ele recentemente, “mais do que todos os chefes de Estado brasileiros reunidos em nossa história. De fato, desde a independência, em 1822, os líderes do maior país da América Latina foram, de fato, extremamente raros para pisar no outro lado do Atlântico Sul. Em oito anos, Lulaquintuplicou a quantidade de relações comerciais, que subiu de US $ 5 bilhões em 2002 [3,8 bilhões de euros, Ed]] para mais de 26 bilhões este ano, mas ele incentivou principalmente empresas brasileiras a investir em infraestrutura .

Até meados do XX ° século , o Brasil tinha apenas uma embaixada na África sub-saariana. Um porto de escala para navios mercantes entre a Europa e a América do Sul, Dakar foi escolhido por razões geográficas óbvias. Por outro lado, nem uma única representação diplomática ou comercial em outros países. No entanto, os 4,5 milhões de escravos deportados para o Brasil afetaram profundamente este país de língua portuguesa e contribuíram muito para o seu desenvolvimento. Não foi até 1961 que o presidente Janio Quadros nomeou um embaixador negro em Gana. Encorajados, os brasileiros fundaram uma Câmara de Comércio Brasil-África. Sem sucesso.

Ao tomar o poder em 1964, os generais brasileiros entenderam a importância estratégica do Atlântico Sul – foi então na guerra fria – e desenvolveram uma doutrina favorável à estabilidade política em ambos os lados do oceano. Assim, eles foram os primeiros no mundo ocidental a reconhecer o governo marxista do Movimento Popular de Libertação de Angola, enquanto em casa eles aprisionaram os comunistas. Livros escolares para africanos de língua portuguesa começaram a ser impressos no Brasil. No arquipélago de Cabo Verde, o revolucionário método de alfabetização de Paulo Freire foi posto em prática nas escolas desde a independência. Posteriormente, algumas empresas brasileiras ganharam uma posição na África Subsaariana.

Tudo mudou com Lula, que, desde o início de seu primeiro mandato , deixou claro que faria da África uma das prioridades de sua política externa  : “Temos raízes neste continente, vamos nos renovar com nossas identidade nacional. ”

Vindo de origens populares , cuja herança ancestral conhece, abriu mais de quinze embaixadas e estimulou empresas brasileiras a investir prioritariamente nos cinco países de língua portuguesa. Recentemente, as autoridades moçambicanas deram o sinal verde à empresa Camargo Corrêa para a construção da barragem de Mphanda Nkuma no rio Zambeze. A quinta maior construtora do mundo, a Odebrecht, que emprega 129 mil pessoas, foi encarregada de realizar trabalhos importantes em vários outros países africanos. Quanto à Petrobras, a petroleira, ela está interessada em exploração offshore.

Ao contrário dos chineses, que trazem centenas de trabalhadores de seu país, os brasileiros empregam mão-de-obra local sob a orientação de seus engenheiros. As relações com a população e as autoridades são facilitadas. Recentemente, o governo de Brasília assinou acordos de cooperação técnica. Um dos mais importantes diz respeito à melhoria da qualidade do algodão em quatro países de língua francesa: Benin, Burkina Faso, Mali e Chade.

Os brasileiros ganharam uma posição na África. Agora será necessário contar com eles. Em todas as áreas.

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* Jornalista e escritor, especialista em América Latina e Caribe.

Fonte:http://www.jeuneafrique.com/194609/politique/comment-gr-ce-lula-le-br-sil-a-re-d-couvert-l-afrique/

“Le Monde”:Concorrência da China, India, Turquia e Brasil na Africa mudaram o mercado africano

 

Para um observador casual tornou-se difícil  manter os mercados africanos  concedido a empresas s Europeias. O modelo ocidental, cujo apelo antes parecia inabalável, está agora a braços com modelos concorrentes inspirados por novos parceiros de África , a primeira das quais a China e Índia .

Mais de um século de intercâmbios tendenciosos, mas também de admiração cruzada e proximidade cultural, poderiam criar a ilusão de uma fluidez inalterável entre um Ocidente seguro de seu modelo e uma África entusiasmada pelo know-how que precisava para assegurar- lhe um futuro próspero.

Algumas ideias herdadas, muitas vezes reprimidas

O traço parece forçado? Ao contrário, acreditamos que não devemos nos enganar sobre este ponto: vários atores econômicos na África – nem todos verdadeiros – de empresas a instituições de financiamento do desenvolvimento são condicionados por essas idéias herdadas, muitas vezes reprimidas, mas que não ficam menos grávidas.

Quantos desses líderes empresariais, investidores e comerciantes, que algumas vezes formam as sutilezas da negociação no estilo chinês, a etiqueta meticulosa das monarquias do Golfo, os equilíbrios políticos mais sutis da América Latina, têm sido os mesmos? perguntas sobre como abordar seus parceiros africanos?

 

Porque a língua, a história compartilhada, o contato diário com várias diásporas dar uma sensação de facilidade e coniventes ao comércio entre africanos e europeus, é fácil esquecer que essa proximidade cultural é frequentemente o resultado dos próprios africanos . Com efeito, são mais frequentemente eles que falam línguas europeias do que os europeus que falam bamileke, ioruba, bambara, fon, tshiluba ou swahili. Muitos africanos que sabem as datas-chave na história do Ocidente e muito poucos europeus que pode citar os das grandes civilizações africanas, a Cultura Nok aos grandes reinos e impérios de Axum, a Grande Zimbabwe , Kanem ou Mali.

Esse conhecimento ou “sensibilidade” é útil para fazer negócios? Não necessariamente, alguns podem pensar . E mesmo que considerem a parte cultural importante, sustentam que, a partir de agora, é necessário, antes de tudo, construir relações essencialmente com base no respeito da regra e dos interesses mútuos.

Um dos pilares da futura ordem mundial

Isso é verdade em todas as circunstâncias e especialmente nas trocas puramente comerciais, mas não deveríamos encontrar um equilíbrio entre a regra e os interesses mútuos e o respeito pelas culturas, sensibilidades, expectativas um do outro? Um equilíbrio que também leva em conta as populações, seus representantes envolvidos em grandes projetos de investimento e a necessária ”  licença social para operar”  ?

As mundo muda, assim como o equilíbrio geral em que se baseou desde o XIX th  século. A China renasce, a Índia segue em frente, a Coréia, o Brasil e a Turquia estão se espalhando e trazendo consigo o ressurgimento de um espírito de cooperação entre os países do “Sul”, que agora têm os meios de suas ambições.

Quanto à Europa , diante desses Golias econômicos e demográficos, não pesará mais de 6% da população mundial até 2030. O padrão de vida de sua população , limitado por seus recursos naturais e demográficos, dependerá mais do que nunca de recursos comerciais e financeiros externos.

E a África, hoje muitas vezes equivocadamente considerada um ator menor na economia mundial, mas cujos recursos humanos e naturais fazem dela um dos principais pilares da futura ordem mundial, já é o campo privilegiado da competição empresarial. de todos os continentes – o exemplo das terras raras, essencial no mundo eletrônico, é significativo.

A Europa tem os ativos para construir um forte eixo com a África

O cumprimento das regras é um pré-requisito essencial nessa relação de confiança, mas é apenas um pré-requisito para investimentos de longo prazo. Os empreendedores ocidentais devem a muitos deles mais consideração pelas realidades locais, costumes, leis consuetudinárias, história e sensibilidades de seus parceiros. Isso é ainda mais verdadeiro para todos os investidores estrangeiros, sejam eles chineses, russos ou brasileiros.

 

Os europeus devem se beneficiar de suas conexões históricas e conhecimento do continente que “novos investidores” não têm . E, no entanto, é o oposto que está acontecendo hoje, porque são muitas vezes bloqueados por essa abordagem histórica. A Europa tem todos os recursos para construir um forte eixo com a África.

E estamos convencidos de que um novo relacionamento, ancorado em um conhecimento melhor e verdadeiro de valores, filosofias, sensibilidades, expectativas, especialmente de populações, bem como formas de fazer e dizer , reabrirá aos investidores não apenas as portas mas também os corações e a confiança dos seus parceiros africanos.

Por Aminata Niane, consultora internacional, ex-diretora geral da Agência Nacional de Promoção de Investimentos e Grandes Projetos do Senegal (APIX); Marlyn Mouliom Roosalem, Diretora Associada do Afriland First Bank e ex-Ministra do Comércio e Indústria da África Central  ; Didier Acouetey, fundador e presidente executivo da AfricSearch; Alexandre Maymat, Chefe da África, Ásia, Mediterrâneo e Ultramar , Serviços Bancários Internacionais e Serviços Financeiros da Société Générale; Stéphane BrabantAdvogado do Tribunal, sócio da Herbert Smith Freehils LLP Paris , co-presidente do grupo Áfricano

http://www.lemonde.fr/afrique/article/2018/04/05/les-entrepreneurs-occidentaux-doivent-faire-preuve-de-plus-d-egards-pour-les-realites-africaines_5281175_3212.html