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Tanzânia vai exigir à Alemanha indenizações por crimes da era colonial

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O Governo da Tanzânia vai interpor uma ação judicial para obrigar a Alemanha, antiga potência colonial, a pagar indemnizações por alegadas atrocidades cometidas há mais de um século, anunciou hoje o ministro da Defesa.

O Executivo tanzaniano vai tentar obter compensações por dezenas de milhares de pessoas que passaram fome, foram torturadas e mortas pelas forças alemãs que tentavam dominar tribos rebeldes, disse o ministro, Hussein Mwinyi, no parlamento.

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“Vamos analisar os passos dados pelos Governos do Quénia e da Namíbia para obterem reparações dos Governos do Reino Unido e da Alemanha, respetivamente”, declarou.

A embaixada alemã em Dodoma não emitiu ainda qualquer reação a este anúncio.

A Alemanha governou a Tanzânia, então conhecida como Tanganica, de 1890 a 1919, e enfrenta pedidos de indemnização de outra antiga colónia africana, a Namíbia.

Em janeiro, a Alemanha disse que poderá fazer pagamentos à Namíbia pelo assassínio de 65.000 pessoas durante a sua ocupação colonial, um episódio que é considerado por alguns o primeiro genocídio do século XX.

Estão ainda em curso negociações com o Governo namibiano sobre esta questão.

Na Tanzânia, as forças alemãs foram acusadas de diversos crimes, entre os quais de fazer a população passar fome, após a revolta tribal conhecida como Maji Maji.

Ao exigir indemnizações, o país da África Oriental está a seguir o recente exemplo do vizinho Quénia, onde um grupo de cidadãos idosos foi indemnizado pelo Governo britânico por atos de tortura perpetrados pelas autoridades coloniais britânicas.

Em 2013, o Executivo do Reino Unido disse “lamentar sinceramente” os atos de tortura levados a cabo contra os quenianos que combatiam pela libertação do jugo colonial nas décadas de 1950 e 1960. Pagou também cerca de 21,5 milhões de dólares (20 milhões de euros) aos 5.200 quenianos que se provou terem sido torturados, ou cerca de 4.100 dólares por vítima queniana.

https://www.noticiasaominuto.com/mundo/738172/tanzania-vai-exigir-a-alemanha-indemnizacoes-por-crimes-da-era-colonial

 

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Qual o modelo o Brasil deve seguir na exploração do petróleo: Nigéria ou Noruega?

por Paulo Moreira Leite

Reação na Petrobras: “querem trocar a Noruega pela Nigéria”

Num evento que marca a primeiro reação de empresários diante do desmanche da Petrobras e do setor industrial  promovido pelo governo Michel Temer, nesta quinta-feira irá ocorrer uma reunião no Anexo IV da Câmara dos Deputados, em Brasília. Estarão presentes deputados ligados a Frente Parlamentar em Defesa da Engenharia, Infraestrutura e Desenvolvimento Nacional e dirigentes de entidades representativas da Engenharia e da Indústria. O assunto é a defesa da indústria, em particular da política de conteúdo local mínimo,  uma proposta que permitiu a recuperação da Petrobras durante os governos Lula e Dilma, e que esteve por trás da criação do parque industrial de São Paulo durante o governo de Juscelino Kubitscheck, na década de 1950. Um dos articuladores do encontro, Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, falou ao 247 sobre o significado político do evento. “A indústria, mesmo aqueles setores que apoiaram o impeachment, despertou para a gravidade do desmonte que está ocorrendo no país e começa a ir atrás do prejuízo” afirma Celestino. “Estão querendo trocar um modelo bem sucedido, inspirado pela Noruega, por um desastre econômico e social, cujo símbolo entre estudiosos é a Nigéria.”

BRASIL 247 — Por que tantos setores da indústria resolveram reagir à política econômica do governo Temer-Meirelles e defender uma política de conteúdo local mínimo?

PEDRO CELESTINO — O desconforto da indústria com a política econômica não é recente. Juros altos e câmbio apreciado têm, ao longo do tempo, efeito devastador sobre as cadeias produtivas. Aqui não houve desindustrialização no sentido clássico porque a indústria, mantendo a instalação fabril, passou a importar componentes que antes ela mesma produzia. De 2015 para cá aplicou-se uma política de exclusivo interesse do capital financeiro, que veio a se acentuar com a posse de Michel Temer, cuja visão é absolutamente descompromissada com o interesse nacional. Haja vista o que ocorre com a Petrobrás, submetida a um autêntico desmonte, para que passe a ser produtora, por algum tempo, de petróleo bruto, já que abriu mão até de explorar a maior reserva descoberta no planeta nos últimos 30 anos, a do Pré Sal. Desfaz-se, sem transparência, a toque de caixa, de ativos valiosos, comprometendo irreversivelmente seu futuro como empresa integrada de petróleo, como as grandes congêneres mundiais. São 60 anos de história irresponsavelmente destruídos. A indústria de óleo e gás aqui instalada despertou para a gravidade do desmonte na discussão, em curso, da política de conteúdo local mínimo, que as petroleiras estrangeiras, desta vez com decidido apoio da Petrobras, querem revogar.

247 — Por que tantos estudiosos falam que o governo Temer está trocando o modelo da Noruega pelo da Nigéria?

CELESTINO — O bem sucedido esforço de recuperação da Petrobras na ultima década e meia tinha como base a demanda de projetos, máquinas e equipamentos necessários à exploração do pré-sal. Por essa razão, a Noruega serviu de modelo e como exemplo. Ali, a indústria do petróleo funcionou para alavancar o desenvolvimento, arrancando o país de uma posição atrasada entre vizinhos europeus para se transformar em uma nação próspera do ponto de vista da economia e equilibrada como sociedade, que hoje possui um dos mais altos Índices de Desenvolvimento Humano do planeta. Destruída a Petrobrás, as empresas estrangeiras se apossarão do nosso petróleo, sem compromisso de prestar qualquer contrapartida em termos de transferência de tecnologias, geração de empregos — a não ser os de baixa ou nenhuma qualificação, que não interessam aos trabalhadores de seus países —  e pagamento de impostos. É o que ocorre na Nigéria.

247 — O que ocorre na Nigéria?

CELESTINO — Embora este país esteja entre os maiores produtores de petróleo do mundo, 70% da sua população vive abaixo da linha de pobreza e a taxa de desemprego é superior a 20%. Este país é um barril de pólvora.  É o que acontecerá conosco, se a Petrobrás deixar de cumprir o seu papel histórico, o de âncora do nosso desenvolvimento industrial.

247 — Dá para explicar a importância desta “âncora”?

CELESTINO — É preciso entender que a superação do atraso econômico de um país não é um processo inevitável, uma felicidade garantida que está ao alcance de todos, em qualquer época. É necessário que, em determinados momentos, sejam tomadas medidas concretas que podem estimular — ou atrasar — estes avanços. As empresas que podem concentrar essas decisões são “âncoras” e aqui no Brasil a principal delas é a Petrobrás. Por que? Porque estamos falando de uma empresa responsável pela formação de cadeia de mais de 5000 fornecedores, nacionais e estrangeiros, com uma capacidade de intervenção sobre o conjunto da economia, com efeitos reconhecidos sobre a qualidade de vida da sociedade, fruto da criação de centenas de milhares de empregos. Essa  indústria trava agora batalha decisiva para a sua sobrevivência, pois é simplesmente impossível competir com produtos importados com absoluta isenção fiscal, a do Repetro, o maior programa de renúncia fiscal da nossa história, vigente há 20 anos e que se quer prorrogar, sob a alegação de facilitar vultosos investimentos estrangeiros.

247 — Qual o balanço que podemos fazer da política de conteúdo local mínimo, seja do ponto de vista da indústria nacional e da criação de empregos?

CELESTINO — Desde a década de 1950, em particular a partir do governo Juscelino, as políticas de conteúdo local mínimo, aliadas a taxas de juros diferenciadas para investimentos, possibilitaram a rápida industrialização do Brasil. Essa foi a grande mudança ocorrida em nosso país, que permitiu a construção de um parque industrial respeitável pelo tamanho e pela relativa sofisticação tecnológica, eliminando aquela visão de que o Brasil estava condenado a ser uma grande nação agrícola e atrasada.  Sem o BNDE e sem  o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), que estabeleceu metas de progressiva nacionalização de partes e componentes de veículos automotores, São Paulo não teria se transformado na nossa locomotiva industrial. Mesmo o desenvolvimento mais recente do agronegócio, que não tem relação com o latifúndio retrógrado do passado, não teria sido possível sem aquele parque industrial. Também não podemos deixar de lembrar um ponto importante, reconhecido em artigo recente de José Velloso, presidente da Abimaq (Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos) onde escreveu: “Desde o primeiro leilão de blocos exploratórios, em 1999, as exigências de conteúdo local têm sido empregadas como ferramenta de desenvolvimento nacional conduzida com sucesso pela Petrobras. Àquela época a Petrobras adquiria mais de 65% de suas demandas de bens no Brasil. Portanto a Política de Conteúdo Local não nasceu no governo anterior e sim no Governo de FHC.”

247 — A curto prazo, a exigência de conteúdo local pode implicar em custos maiores, que acabam prejudicando o consumidor?

CELESTINO — É uma visão simplista, que conduz a erros graves, a partir da noção de de que produzir aqui é mais caro para o consumidor. Sem produção local não há emprego, e sem emprego não há como sustentar uma população de mais de 200 milhões de pessoas — e tudo se torna  insuportavelmente caro. Se não valorizarmos o nosso mercado interno, um dos maiores do mundo, teremos como resultado a queda na renda, empobrecimento e mesmo a miséria.  Ninguém discute mais, hoje, o fracasso, do ponto de vista da maioria da população, dos acordos de livre comércio. Frutos de uma globalização sem limites, estes acordos  resultaram na desindustrialização e no empobrecimento. Ninguém pode explicar a vitória de Donald Trump em regiões operárias dos Estados Unidos, que tradicionalmente votavam nos candidatos do Partido Democrata, sem compreender que milhões de eleitores  expressaram a indignação contra a exportação de empregos que foram para a China e outros países onde os salários são mais baixos. Este foi o fator que decidiu a eleição. O discurso de Trump sobre economia e mesmo determinadas medidas práticas, como a retirada do Tratado do Pacífico, procuram dar uma resposta a isso. Enquanto isso aqui, o governo Temer está na contramão do de Trump, abrindo indiscriminadamente a nossa economia à dominação estrangeira.

247 — Mesmo setores do empresariado que se beneficiaram — legitimamente — de uma política de conteúdo local na Petrobrás apoiaram o  impeachment da presidente Dilma. Hoje, criticam o governo que, há menos de um ano,  ajudaram a instalar. Como entender isso?

CELESTINO — O empresariado apoiou o impeachment sem ter uma noção clara do que iria ocorrer. Embarcou na ilusão de que bastava afastar a presidente para o país voltar a crescer e se desenvolver. Agora paga o preço da aventura. Já percebeu que, a seguir neste caminho aberto de forma radical e sem freios  a integração do Brasil no mercado global será vantajosa apenas para produtores de grãos, carne e minérios, sem falar no setor financeiro. Mas não haverá lugar para a indústria aqui instalada, nacional ou estrangeira. Ressalte-se que as multinacionais que vêm para o Brasil, têm como foco atender ao nosso mercado interno.  Não fazem daqui plataforma de exportação, como ocorre em outros lugares.  Comportam-se, assim, como se nacionais fossem. Em contradição com isso, a política econômica do governo Temer-Meirelles possui inúmeros defeitos mas não pode ser acusada de incoerente. A ambição de destruir a indústria se faz com método e persistência. Assim, ao mesmo tempo em que o Banco Central reduz a Selic, decide-se elevar a Taxa de Juros do Longo Prazo, uma medida que tem um efeito óbvio e direto: dificultar as condições de  financiamento da indústria pelo BNDES, o que ajuda a entender a previsão de mais um milhão de postos de trabalho eliminados ao longo deste ano.

247 — Por que era tão difícil perceber que, do ponto de vista dos interesses da indústria, a opção por Temer-Meirelles seria a tragédia que está se revelando?

CELESTINO — É preciso entender que a indústria entrou a reboque na articulação contra o governo Dilma. Basta ver as bancadas que apoiam o governo no Congresso, com uma audácia entreguista como nunca se viu em nossa história, para entender quem liderou o impeachment e manda no Estado brasileiro depois disso. Foram as bancadas do agronegócio, interessadas unicamente na exportação. Foram evangélicos, que funcionam como correia de transmissão de grandes igrejas norte-americanas. Foi o  grande  capital financeiro. O novo governo é dominado por essas forças, que não têm compromisso com o interesse nacional. Com efeito, ao agronegócio interessa apenas bom acesso aos portos e renúncia fiscal, pouco se importando com o mercado interno e a democracia. Quanto aos evangélicos, concentram-se em pautas reacionárias e manifestam absoluta submissão a interesses externos; estão a serviço do desmonte do Estado Nação. E o capital financeiro, desde sempre é a grande sanguessuga da nossa economia.

247 — Por que o governo Dilma não conseguiu apoio da indústria?

CELESTINO — Dilma nunca dialogou com a sociedade, nem mesmo quando tomou medidas corretas, tais como a redução da taxa de juros e o conseqüente alívio da carga fiscal. A última tentativa de aproximação da indústria com o governo Dilma, quando a crise já se encontrava em um nível  profundo e sua popularidade era inferior a 10% se deu em 3 de dezembro de 2015, quando o Eduardo Cunha já havia anunciado a decisão de aceitar a denúncia que levou ao impeachment. Naquela ocasião um conjunto importante de entidades do setor industrial assinou  um documento que propunha uma mudança na orientação econômica. Entre outras coisas, dizia que não era possível “aceitar passivamente as projeções de um 2016 perdido” e propunha construir “a mais rápida transição para a retomada do crescimento e desenvolvimento econômico e social.” Além de reunir as mais importantes centrais sindicais de trabalhadores, o documento trazia a assinatura de  associações comerciais, da Confederação Nacional da Indústria e diversas entidades industriais. Depois de aprovado, fomos a Brasília para uma reunião com Dilma. Nenhum eco! O governo já estava paralisado.

247 — Como explicar, aqui, o impeachment de Dilma?

CELESTINO — No regime presidencialista, quem dá as cartas é o presidente da República, que é o centro do poder de Estado. A presidente Dilma caiu quando deixou de ser o centro de poder, que se deslocou para o Congresso, que tinha disposição e capacidade para fazer isso. O empresariado, como quase toda a sociedade, queria uma solução que superasse a paralisia do Executivo e possibilitasse o funcionamento normal da economia. Iludiu-se. Agora começa a correr atrás do prejuízo.

https://www.brasil247.com/pt/blog/paulomoreiraleite/278916/Rea%C3%A7%C3%A3o-na-Petrobras-%E2%80%9Cquerem-trocar-a-Noruega-pela-Nig%C3%A9ria%E2%80%9D.htm

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Boa notícia! Tecnologia da informação incentiva à leitura na África

Livros digitais sem fins lucrativosera-digital

Garotos beneficiados pela ONG Worldreader cuja missão é missão ‘levar livros digitais a cada criança e a sua família, com o objetivo de melhorar suas vidas’| © Redes Sociais

Além dos projetos de conectividade promovidos por Facebook – ou por outras empresas como Google, com seu projeto Loon –, quais projetos sem fins lucrativos estão sendo impulsionados na África no terreno específico da leitura e edição digital? Também aqui poderíamos mencionar iniciativas filantrópicas procedentes de atores internacionais. O exemplo mais importante é talvez Worldreader. Fundada em 2010 por David Risher – ex-executivo da Microsoft e da Amazon –, esta organização sem fins lucrativos coloca como sua missão “levar livros digitais a cada criança e a sua família, com o objetivo de melhorar suas vidas”. Se no começo – tal como apontávamos no relatório de 2011 – esta entidade só usava dispositivos Kindle, em 2012 incorporou os celulares como plataforma adicional. O catálogo deles chega hoje aos quase 40.000 títulos escritos em 43 idiomas, que foram disponibilizados por 150 editoras, dos quais quase a metade são africanos. Em termos de impacto, os livros digitais da Worldreader alcançaram quase 4 milhões de pessoas em 50 países, principalmente na África. Para esta tarefa, a entidade se associou com diferentes empresas tecnológicas, especialmente com o Facebook – para aparecer listada em FreeBasics –, com a Microsoft – para o desenvolvimento do aplicativo de leitura, entre outros – e com a Amazon – para a organização e a hospedagem dos dados. Vale a pena esclarecer que, em princípio, a Worldreader não doa os dispositivos, estes devem ser financiados por terceiros – chamados “sponsors” – ou pelas próprias escolas e bibliotecas, que devem escolher entre dois tipos de pacotes:

  1. O “blue box”, que contém 50 Kindles carregados com 100 textos (custo: US$ 7 mil).
  2. Ou o “book pack”, que contém entre 100 e 200 textos, mas sem dispositivos, já que estes devem ser disponibilizados pela escola ou biblioteca (US$ 4,5 mil).

Observamos também que a Worldreader não se dedica somente à tarefa de facilitar a leitura, também realiza um acompanhamento exaustivo de todos os dados envolvidos. Isso pode ser visto, por exemplo, no relatório do projeto LEAP, realizado pela Worldreader e o Serviço Nacional de Bibliotecas do Quênia (KNLS), com financiamiento da fundação Bill & Melinda Gates. O programa apresentou, entre seus objetivos, estudar durante o ano de 2014 o uso, função e adoção dos dispositivos Kindle no contexto das bibliotecas. O relatório posterior – bastante detalhado – explica que esta aprendizagem servirá para compreender “a expansão dos programas de leitura digital nas bibliotecas do Quênia e da África Subsaariana”. Por outro lado, em agosto de 2016, no marco da iniciativa Kindle Reading Fund, a Amazon anunciou que doaria milhares de Kindles para apoiar programas de leitura no mundo em desenvolvimento e que colaboraria novamente com a Worldreader para colocar em marcha o projeto LEAP 2.0 em 61 bibliotecas do Quênia.

A Worldreader – que tem uma ampla cobertura da imprensa internacional – pode aumentar sua presença no ecossistema do livro digital africano, à medida que forem se somando novas instituições – tanto públicas como privadas – ao projeto. Contudo, seria importante perguntar se não está repetindo aqui um esquema parecido com o do Facebook com Internet.org/FreeBasics, especialmente pelo fato de que as corporações intervindo extraem dados muito valiosos – tais como preferências temáticas, hábitos de leitura, entre outros –, obtidos de um modo muito simples e que poderiam significar uma vantagem decisiva quando chegar o momento de vender conteúdos digitais ou dispositivos, tanto aos governos quanto aos indivíduos.

 

Além das iniciativas internacionais, existem na África numerosos projetos sem fins lucrativos realizados por entidades locais e FunDza é, talvez, o mais conhecido. Criado em 2012 pela equipe da editora Cover2Cover, esta organização tem a proposta de estimular a leitura entre adolescentes e jovens adultos da África do Sul. Através do seu website – especialmente adaptado às telas de celulares – e de seu aplicativo para Android, FunDza oferece um catálogo de centenas de livros digitais gratuitos – contos, poesias e textos de não ficção. Em 2015, suas atividades beneficiaram cerca de 400.000 usuários que, no conjunto leram mais de 10 milhões de páginas. Os livros do FunDza estão incluídos nos serviços de FreeBasics na África do Sul e em outros países do continente, como Nigéria e Gana. Ao mesmo tempo, o site YoZa – que apresentamos no relatório de 2011 como um dos pioneiros no terreno da leitura móvel na África Subsaariana – cedeu sus textos à plataforma, para sua posterior distribuição.

Zimkhitha Mlanzeli – autora e editora do FunDza – faz uma interessante reflexãosobre a importância de utilizar os celulares no terreno da leitura:

“Os jovens querem ler sobre temas que conhecem, em uma linguagem compreensível. Os contos que escrevo falam diretamente com eles, que conseguem ver o mundo através dos olhos de cada personagem. Sei disso pelos comentários que me enviam. Também ajuda muito o fato de que minhas histórias são compartilhadas no lugar que os jovens passam a maior parte do tempo: em seus celulares. Meu celular não é meu melhor amigo – não consigo ficar olhando para ele o tempo todo. Mas eles conseguem. E precisamos fechar essa brecha que nos separa.”

Outro projeto relevante – também com sede na África do Sul – é o Book Dash, focado desde 2014 na criação colaborativa de livros infantis. As obras são oferecidas com uma licença Creative Commons, tanto em PDF pronto para imprimir como em formato original – InDesign –, para possíveis readaptações. Book Dash surgiu em certa medida como resultado das lições que seu principal impulsionador, o especialista em publicações digitais Arthur Attwell, extraiu da experiência de Paperight, uma plataforma que – como apresentamos no relatório de 2011 –, distribuía ebooks para imprimir em cibercafés e que precisou fechar suas portas no final de 2014. Em seu balanço retrospectivo, Attwell enumera diferentes fatores que podem ter dificultado o avanço do empreendimento, entre os quais poderíamos destacar os seguintes:

  • as publicações oferecidas gratuitamente por Paperight eram muito solicitadas pelos usuários; no entanto, quando a empresa tentou cobrar por elas – inclusive somas modestas, como 1 ou 2 dólares por cópia –, a demanda caiu abruptamente;
  • as editoras tradicionais que forneciam os textos originais não pareciam dispostas a explorar o novo modelo de negócio, de modo que só entregavam seus títulos menos atraentes.

É neste contexto que, para Attwell, faz muito sentido a ideia de distribuir conteúdos digitais com licenças abertas, como propõe a Book Dash:

Capa do livro What is it?, editado pela Book Dash

Capa do livro What is it?, editado pela Book Dash

“Na África do Sul, as soluções comerciais não alcançaram o sucesso esperado: se os clientes são apenas uns poucos early-adopters, então nunca haverá um mercado significativo. Para a maioria dos sul-africanos, os livros são um luxo ao qual jamais poderão ter acesso”.Por outro lado, a iniciativa African Storybook – impulsionada pelo Instituto Sul-africano de Educação à Distância (SAIDE) – oferece a possibilidade de criar, traduzir e adaptar livros ilustrados para um público infantil: suas mais de 400 obras, que foram traduzidas para 60 línguas do continente, podem ser baixadas de maneira gratuita, tanto para leitura digital como para impressão. Finalmente, Bookly e Nal’ibali também utilizaram as novas tecnologias – em especial dos aplicativos de Mxit – para distribuir conteúdos editoriais.

Em janeiro de 2015, com o patrocínio do Instituto Goethe, várias organizações e empreendimentos sociais citados anteriormente se encontraram em Joanesburgo. O encontro tomou como ponto de partida o relatório da UNESCO Leitura na era da mobilidade de 2014 e teve como objetivo discutir as oportunidades e os desafios da alfabetização e a leitura através dos celulares.

Publicações educativas distribuídas por agregadores e startups locais.

Nos últimos anos, surgiu na África um número considerável de empreendimentos digitais focados nos conteúdos educativos. Com sede em Nairóbi, o agregador Ekitabuabastece de livros eletrônicos 650 escolas da África oriental. A empresa tirou seu nome da palavra “Kitabu” – que significa “livro” no idioma suaíli – e em apenas 4 anos conseguiu criar um catálogo de 500.000 títulos em formato PDF e EPUB, fornecidos por mais de 40 editoras, tanto locais quanto internacionais.

E-limu, é outra empresa queniana que vende conteúdos pensados para os alunos de escolas primárias. Os materiais são distribuídos através de um aplicativo criado para dispositivos Android. No começo, a E-limu entregava os materiais pré-carregados em tablets, para evitar o problema da falta de conectividade. No entanto, a proposta deixava dois problemas sem resposta: 1) como fariam para atualizar os conteúdos? e 2) como iam assegurar a durabilidade dos dispositivos? Para enfrentar esses desafios, E-limu recorreu à BRCK: este empreendimento – surgido como tantos outros da incubadora local iHub – fabrica um tablet ultrarresistente chamado Kio e umroteador WiFi que capta sinais de celulares e é ideal para oferecer conectividade em regiões que não possuem acesso à Internet fixa, inclusive sem eletricidade.

Também podemos mencionar aqui o caso do QuickDo-BookBox, um serviço concebido em 2011 pelo engenheiro informático de Camarões – radicado na França – Dominique Buendé, para “converter e distribuir conteúdos em países do Sul, “especialmente em universidades, bibliotecas e centros culturais. QuickDo-BookBox oferece terminais dotados de 500.000 livros eletrônicos de diversas editoras, que podem ser baixados de tablets concebidas ad hoc. O projeto terminou ganhando oprêmio Orange dado a empreendedores sociais africanos (2013) e o prêmio ao empreendedor africano na França (2014).

Também lançado em 2011, Snapplify constitui um dos principais agregadores digitais do continente. Com escritórios em Durbanville, Londres e Nova York, esta empresa distribui os livros eletrônicos de mais de 250 editoras e os integra em sua plataforma de educação virtual. Em 2014, Snapplify apresentou SnappBox, um dispositivo que permite aos estudantes terem acesso aos conteúdos eletrônicos através de uma intranet, em vez da Internet.

Agregadores gerais e lojas por assinatura

Além dos empreendimentos tecnológicos que distribuem conteúdos educativos, existem diversos agregadores gerais e plataformas que propõem um catálogo deebooks por assinatura. Lançado em 2014 por Algérie Télécom, o site Fimaktabatioferece livros digitais de centenas de editoras. O acesso a seus dois portais – acadêmico e geral – custa 22 dólares por ano e pode ser abonado através de cartões pré-pagos. Além disso, a empresa impulsionou a criação da Nooonbooks, uma loja exclusivamente focada em textos em árabe, com mais de 30.000 títulos de ciências exatas, administração, ciências humanas, direito e cultura geral.

Fundado pela empreendedora nigeriana – residente no Reino Unido – Gersy Ifeanyi Ejimofo também em 2014, o projeto Digitalback Books propõe diversos títulos de literatura africana com um custo de assinatura mensal de 13 dólares. As obras podem ser lidas em aparelhos móveis, tanto Android como iOS.

O projeto egípcio Kotobarabia foi um dos primeiros agregadores de livros eletrônicos em árabe do mundo. Desde 2005, já digitalizou milhões de páginas e tem como principais clientes as bibliotecas dos EUA e da Europa.

Kotobi é outra plataforma com sede no Egito. Lançada pela Vodafone em 2014, essa livraria digital comercializa títulos em EPUB e está voltada principalmente para os aparelhos móveis. Uma das vantagens de Kotobi é que os pagamentos não são realizados apenas por cartão de crédito, mas também pela conta do telefone e até por SMS. Assim, não é casual que a plataforma tenha crescido consideravelmente: seu aplicativo para Android foi descarregado mais de 500.000 vezes, por usuários que consumiram mais de 1 milhão de livros. Com uma linha parecida ao que falávamos sobre comércio eletrônico africano, para Alaa Zaher – responsável pela área de Estratégia e Inovação de Vodafone e promotor do projeto Kotobi –, as limitações da distribuição física podem se transformar em uma grande oportunidade para a venda digital:

“Os leitores que moram fora das grandes cidades sempre se queixam da falta de livrarias. Querem ler, mas não encontram livros. Eles acabam vindo à Feira do Livro do Cairo uma vez por ano e voltam para suas cidades com bolsas cheias de exemplares. Esse é o segmento que temos como alvo. Nosso objetivo de longo prazo é fornecer livros digitais a todo o mundo árabe.”

No próximo artigo: as editoras africanas na era digital; os audiolivros: um formato em crescimento; a autoedição e a impressão sob demanda.

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb (do Egito) e Arthur Attwell (da África do Sul), com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus. Sua coluna busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto

http://www.publishnews.com.br/materias/2017/02/07/a-edicao-digital-na-era-da-mobilidade-africa-2/3

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A ONU e a União Africana

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Terminou recentemente a cimeira da União Africana, acontecimento que contou com a presença do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que, em intervenção nesta organização continental, deu ênfase à importância de África, continente berço da humanidade, para a resolução dos grandes problemas mundiais.

 

África é considerada como o continente das oportunidades, mas também está marcada por vários problemas, como conflitos armados, terrorismo e crises humanitárias. António Guterres, que foi durante vários anos Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, conhece bem os problemas de África, pelo que não admira que ele tenha um conhecimento profundo dos problemas do continente. Este conhecimento vai certamente ajudá-lo a encontrar, na qualidade de Secretário-Geral da ONU, as vias apropriadas para que muitos problemas de África sejam solucionados.
Guterres tem consciência de que África é um continente com “enorme potencial”, não só em termos econômicos mas também de capacidade de países africanos poderem resolver os seus próprios problemas. O Secretário-Geral da ONU acredita que os africanos podem dar soluções aos seus próprios problemas, e citou como exemplo a recente intervenção da CEDEAO (Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental ) na Gâmbia, com a ajuda das Nações Unidas.
Vivemos hoje num mundo em que há sinais preocupantes de indiferença ao sofrimento humano em várias partes do mundo. É sempre bom que seja um Secretário-Geral da ONU, com todo o prestígio deste cargo, a apelar para a solidariedade com as pessoas que no mundo precisam de ajuda, nomeadamente os refugiados.
Guterres destacou o facto de África continuar aberta às “pessoas que precisam de protecção, quando muitas fronteiras estão a ser fechadas, até mesmo nos países mais desenvolvidos”. O Secretário-Geral da ONU sabe que vivemos momentos difíceis no mundo e que é preciso contar com a África para a resolução de muitos problemas de um continente que alberga um número considerável de refugiados.
A ONU quer uma parceria com a África, e é importante que haja uma colaboração estreita entre as Nações Unidas e a União Africana, porque há problemas complexos por resolver. As Nações Unidas e a União Africana podem constituir uma forte parceria para a promoção da paz, do progresso e da solidariedade.
As situações difíceis por que passam milhares de pessoas no mundo, nomeadamente refugiados, justificam acções permanentes de solidariedade por parte dos Estados e dos políticos em todo o mundo. Guterres chegou a citar, a propósito, uma frase de Samora Machel, o falecido Presidente de Moçambique, segundo a qual “a solidariedade é um acto de união entre aliados lutando em diferentes áreas, mas com os mesmos objectivos e o principal desses é ajudar no desenvolvimento da humanidade no nível mais alto possível”.
É importante que os Estados estejam cada vez mais unidos para enfrentarem em conjunto os mesmos desafios. Cada Estado deve dar uma contribuição para tornar o mundo cada vez melhor. Os políticos ou estadistas africanos, e não só, devem sentir-se na obrigação de trabalhar incessantemente no sentido de se pôr fim às crises humanitárias.
Mas o ideal ainda é que se dê prioridade à prevenção de conflitos ou de outras situações que possam gerar sofrimento para milhões de pessoas. Se prevenirmos conflitos, poderemos evitar que as pessoas tenham de abandonar os seus países de origem, para fugir à violência.
A ONU e a União Africana são duas organizações que, em parceria, podem conjugar esforços para que o continente africano seja um espaço bom para se viver. A África deve tirar partido da qualidade de muitos dos seus recursos humanos, para se focar na construção da prosperidade das populações de um continente que possui riquezas enormes que precisam de ser transformadas, para benefício dos seus povos.
A África já passou por muitas situações dramáticas durante muitos anos. É hora de se pôr fim às tragédias que enfraquecem as instituições dos nossos Estados. É hora de construirmos a paz e instaurarmos definitivamente no continente africano a estabilidade.
Não basta dizer que África é o continente das oportunidades. Que estas oportunidades sejam realmente aproveitadas pelas populações africanas, a fim de que possam ter uma vida digna. Vale a pena citar palavras do Secretário-Geral da ONU dirigidas aos delegados à cimeira da União Africana a propósito das oportunidades em África. “É fundamental que façamos mais para proporcionar aos jovens oportunidades e esperança. Felicito-vos por terem designado 2017 como o ano do aproveitamento do dividendo demográfico através de investimentos na juventude. Mais de três em cada cinco africanos têm menos de 35 anos de idade”, disse António Guterres, que acredita na força da juventude africana para tornar o continente berço da humanidade num espaço de constante prosperidade.

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/editorial/a_onu_e_a_uniao_africana

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Secretário-Geral da ONU critica “visão parcial” sobre o continente africano

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Fotografia: Zacharias Abubeker | AFP

O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, deixou a 28ª Cimeira da União Africana com um forte apelo para a mudança na forma como o continente berço da humanidade é caracterizado pela comunidade internacional e com a promessa de o apoiar na construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis.

 

Ao falar a jornalistas à margem da cimeira que juntou em Addis Abeba dezenas de líderes do continente africano, antes de deixar a capital Etíope, António Guterres defendeu que África deve ser reconhecida pelo potencial de desenvolvimento, economia e governação.
António Guterres lamentou a forma como África é descrita na Europa, Américas e Ásia, denunciou o que chamou de “uma visão parcial de África”, disse ser preciso mudar a narrativa sobre o continente na comunidade internacional e que este deve ser reconhecido “pelo seu enorme potencial.”
O Secretário-Geral das Nações Unidas recordou que África teve o maior crescimento econômico do mundo nos últimos 10 anos e “histórias de sucesso extraordinárias do ponto de vista do desenvolvimento econômico e de governação.”
Uma dessas histórias, prosseguiu, ocorreu há dias com a reacção “exemplar” da Comunidade Econômica dos Países da África Ocidental (CEDEAO) na Gâmbia, que demonstrou “a capacidade de os países africanos se unirem e resolverem os problemas no continente.”
António Guterres lembrou que “o apoio da União Africana e das Nações Unidas ajudou a resolver a crise pós-eleitoral” e disse esperar que esse exemplo “seja seguido noutras partes do mundo.”
O Secretário-Geral da ONU elogiou a União Africana pelo “trabalho muito importante em nome do continente”, manifestou “disposição total da ONU em apoiar plenamente as suas actividades” e destacou “o entendimento integral” entre a ONU, a União Africana e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (Igad) sobre a necessidade de se trabalhar “numa só voz” para pacificar o Sudão do Sul.

Agradecimento a África

No discurso proferido na segunda-feira na União Africana, António Guterres  reiterou o pleno apoio da organização que dirige à construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis na África.
António Guterres, que começou o discurso manifestando solidariedade à União Africana, afirmou que a ONU “tem orgulho dessa parceria” e destacou a cooperação das partes na implementação das agendas 2063 da União Africana, 2030 da ONU e na promoção da paz, da segurança e dos direitos humanos.

samora-machel  Samora Machel
O Secretário-Geral recordou uma frase do ex-Presidente moçambicano, já falecido, Samora Machel, segundo a qual “a solidariedade é um acto de união entre aliados lutando em diferentes áreas, mas com os mesmos objectivos e o principal desses é ajudar no desenvolvimento da humanidade no nível mais alto possível”, para afirmar que a União Africana “trabalha diariamente pela união, paz e progresso para todos.”
E África, prosseguiu, fornece a maioria das forças de paz da ONU.
As nações africanas “estão entre os maiores e mais generosos anfitriões de refugiados do mundo” e as suas fronteiras “continuam abertas às pessoas que precisam de protecção, quando muitas fronteiras estão a ser fechadas, até mesmo nos países mais desenvolvidos.” António Guterres elogiou o continente por incluir algumas das economias que mais crescem no mundo, mas pediu mais atenção para os jovens.
“É fundamental que façamos mais para proporcionar aos jovens oportunidades e esperança. Felicito-vos por terem designado 2017 como o ano do aproveitamento do dividendo demográfico através de investimentos na juventude. Mais de três em cada cinco africanos têm menos de 35 anos de idade”, afirmou.
Para o continente tirar partido deste potencial, António Guterres recomenda mais investimento na educação, na formação e no trabalho condigno e considera “fundamental” envolver os jovens “na construção do seu próprio futuro.” Nesse sentido, prometeu “apoio total” do Sistema das Nações Unidas.  António Guterres disse esperar também trabalhar com a União Africana para reforçar o poder das mulheres africanas, para que estas possam desempenhar o seu papel no desenvolvimento e na paz sustentáveis. Sobre a paz, garantiu que a ONU vai apoiar a iniciativa africana “Silenciar as Armas até 2020”, ou até mesmo antes da data.

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Alpha Condé, o Presidente da Guiné Conacri e líder em exercício da União Africana, convidou António Guterres a participar anualmente num pequeno almoço com Chefes de Estado e de Governo africanos em Janeiro. Para o Secretário-Geral da ONU, estas ocasiões vão servir para interagir com líderes africanos e discutir “de forma muito significativa” as relações entre a União Africana e a ONU.
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Mais apoio ao continente

António Guterres passou das promessas à prática ao liberar, também na segunda-feira, 100 milhões de dólares da verba do Fundo Central de Resposta de Emergência para mais de nove países, oito dos quais Estados africanos.
O Secretário-Geral da ONU disponibilizou o dinheiro para operações humanitárias em nove países com o que considera “crises negligenciadas”, ajudando deste modo mais de 6 milhões de pessoas nos Camarões, na Coreia do Norte, na Líbia, no Madagáscar, no Mali, no Níger, na Nigéria, na Somália e no Uganda. Ao justificar a medida, António Guterres disse que o financiamento é crucial para que agências da ONU e parceiros continuem a apoiar “pessoas que precisam de ajuda tão desesperadamente.”
Boa parte dos 100 milhões de dólares vão para pessoas deslocadas e o financiamento vai ajudar  a garantir cuidados de saúde, abrigo e alimentos para milhões de pessoas que escapam da violência do Boko Haram na Nigéria, no Níger e nos Camarões, explicou.
No Madagáscar, no Mali e na Coreia do Norte, o apoio da ONU segue para os civis que sofrem de desnutrição e com a insegurança alimentar, acrescentou.

 

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/guterres_critica_visao_parcial_sobre_o_continente_africano

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Presidente da Comissão da UA africana critica decisão de Donald Trump


Dlamini-Zuma pede resposta de África

Dlamini-Zuma pede resposta de África

Nkosazana Dlamini-Zuma lamenta que país que recebeu como escravos muita da nossa gente decidiu agora proibir a entrada de refugiados

A presidente da Comissão da União Africana (UA), Nkosazana Dlamini-Zuma, criticou nesta segunda-feira (30) a decisão do Presidente americano de suspender a entrada de cidadãos de sete países, sendo eles três africanos.

“O mesmo país que recebeu como escravos muita da nossa gente durante o comércio transatlântico de escravos decidiu agora proibir a entrada de refugiados de alguns dos nossos países. O que é que vamos fazer em relação a isto?”, perguntou a presidente da Comissão da UA aos chefes de Estado presentes na cimeira da União Africana, que começou hoje, em Addis Abeba, na Etiópia.

Dlamini-Zuma considerou a decisão de Trump como “um dos maiores desafios à união e solidariedade” de África.

António Guterres e refugiados em Africa

O secretário-geral das Nações Unidas também lamentou a decisão do Presidente americano, lembrando que a África é o continente que recebe o maior número de refugiados.

“As fronteiras africanas continuam abertas para todos os refugiados que necessitam de proteção, enquanto as fronteiras em muitos outros países, incluindo nas zonas mais desenvolvidas do mundo, estão a ser fechadas”, afirmou Guterres.

A cimeira elege hoje o presidente e vice-presidente da Comissão Africana.

Para o lugar até agora ocupado por Dlamini-Zuma, concorrem os ministros dos Negócios Estrangeiros do Botsuana, Pelonomi Venson-Moitoi, da Guiné-Equatorial, Agapito Mba Mokuy, do Chade, Moussa Faki e do Quênia, Amina Mohamed, bem como o representante especial das Nações Unidas, o senegalês Abdoulaye Bathily.

http://www.voaportugues.com/a/presidente-comissao-uniao-africana-donald-trump-refugiados/3698407.html

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Gratuidade do ensino superior em debate na África do Sul

 

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Pretoria, 23 jan (Prensa Latina) A viabilidade da educação superior gratuita na África do Sul continua no foco da atenção nacional, ao retomar hoje seus trabalhos uma comissão que avalia o tema.

Segundo se revelou aqui, o estatístico geral Pali Lehohla testemunhará nesta segunda-feira diante do grupo de especialistas.

O painel -instaurado sob proposta do presidente Jacob Zuma- iniciou suas sessões no ano passado no meio dos fortes protestos universitários ocorridos na África do Sul depois de no mês de setembro o governo anunciar uma elevação em 2017 de até oito por cento das quotas de matrículas.

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Apoiadas pelo movimento #FeesMustFall (os impostos devem cair), as manifestações estudantis estenderam-se por numerosas universidades públicas do país.

As audiências recolhem opiniões de diferentes setores com vistas ao informe final que será entregue a Zuma em meados do ano.

O Ministro da Educação Superior Blade Nzimande fez declarações à comissão em outubro, quando recordou que o governo deu importantes passos em matéria de apoio ao setor.

Nzimande já tinha alertado que, por diferentes fatores, é pouco provável que a gratuidade se converta em uma realidade nas universidades da África do Sul.

No entanto, reiterou que o governo logrou grandes avanços na provisão de fundos a estudantes universitários e continuará financiando os pobres, mas descartou a ideia de educação terciária gratuita.

‘Não podemos ter um sistema sem honorários. Os que podem pagar, devem pagar. Um país como o nosso não pode se dar o luxo de ter educação superior gratuita para todos’, enfatizou Nzimande.

Este ensino recebeu aumentos significativos em seus fundos para o ano fiscal 2016/17, apesar das pressões orçamentais provocadas por uma recessão econômica mundial.

Um levantamento estudantil em 2015 derivou na decisão de Zuma de declarar o aumento ‘Zero’ destes valores nas universidades para 2016. rob/dfm/cc

http://www.prensalatina.com.br/index.php?o=rn&id=4873&SEO=estuda-se-a-viabilidade-da-educacao-superior-gratuita-na-africa-do-su

FILE - In this Friday, March 27, 2015 file photo, ExxonMobil CEO Rex Tillerson delivers remarks on the release of a report by the National Petroleum Council on oil drilling in the Arctic, in Washington. On Saturday, Dec. 10, 2016, President-elect Donald Trump moved closer to nominating Tillerson as his secretary of state, meeting privately with the business leader for the second time in a week. (AP Photo/Evan Vucci, File)

Donald Trump poderá mudar a ajuda externa americana aos países africanos

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Donald Trump ,presidente dos Estados Unidos raramente  fala sobre Africa,  mas algumas pistas parecem certas. A ajuda americana aos países africanos diminuirá, e uma  cobrança pelo respeito aos  direitos humanos e governança democrático devera ser abandonada. Uma pista para entender essa mudança possa ser a nomeação de Rex Tillerson para Secretário de Estado americano.

Rex Tillerson, engenheiro e administrador,foi presidente da Corporação Exxon Mobil, e foi nomeado Secretário de Estado dos EUA.

O Secretário de Estado americano, Rex Tillerson, conhece bem o continente africano em  especial os países produtores de petróleo como: Nigéria, Guiné Equatorial, Angola  e Tchad. Países que não gozam de respeitabilidade na defesa e promoção dos direitos humanos. Organizações da sociedade civil como a Oxfam e  a Global Witness, há tempo vem criticando  Tillerson pela presença da Exxon Mobil  nos países africanos,  que  segundo elas contribui com a desigualdades social, pobreza, corrupção e o meio ambienter

Rex Tillerson, durante a arguição no Senado para o cargo de Secretário, fez uma declaração sobre a ajuda  externa americana aos países pobres. Esta ajuda americana , no valor de 50 bilhões de dólares, é traduzida em alimentos, ajuda militar, medicamentos, pessoal técnico entre outras formas

Rex Tillerson, Secretário de Estado dos EUA, afirmou que 70% de ajuda  americana é desviada pela classe dirigente desses países. Afirmou ainda que há forças militares que desviam os recursos, já no aeroporto. É preciso repensar esta forma de ajuda americana, pois 50 bilhões de dólares representam 1% do orçamento americano.

Especialistas que estudam a corrupção em países pobres do mundo, como o professor da Universidade de Copenhagen , Morten Broberg, afirma que não é possível confirmar esses valores sobre os desvios, pois são de difícil investigação.

Mas com a afirmação de Res Tillerson de que o desvio da ajuda externa americana pode chegar a 70%. Não é difícil  prever que haverá mudanças na forma de ajuda americana aos países pobres.

 

 

 

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Moçambique confirma que não vai pagar dívida

Moçambique assume assim que vai entrar em incumprimento financeiro (‘default’), apesar de haver um período de tolerância de 15 dias para o pagamento do cupão de janeiro.

Infografik Schulden Mosambiks, portugiesisch

As autoridades moçambicanas confirmaram esta segunda-feira (16. 01), que não vão pagar a prestação deste mês de janeiro relativa aos títulos de dívida soberana com maturidade em 2023 que deviam vencer na próxima quarta-feira (18.01). Analistas ouvidos pela DW África acham que a decisão não terá um impacto imediato, mas consideram importante que o país continue a trabalhar no sentido de restabelecer a confiança junto dos parceiros internacionais.

O Ministério das Finanças justificou através de um comunicado o não pagamento da prestação de janeiro invocando falta de liquidez durante o ano de 2016, facto que já tinha alertado em outubro último.

No documento, as autoridades moçambicanas indicam que a degradação da situação orçamental e macroeconómica afetou severamente as finanças públicas nacionais, deixando o país com uma capacidade de pagamento da dívida extremamente limitada em 2017 e não dando espaço para fazer o pagamento atempado de juros destes títulos.

O Governo salienta que encara os credores como “parceiros importantes de longo prazo cujo apoio à necessária resolução do processo da dívida vai ser crítico para o futuro sucesso do país”.

Symbolbild IWF Internationaler Währungsfonds (Reuters/K. Kyung-Hoon)

Alerta, igualmente, que para o Fundo Monetário Internacional (FMI) retomar o apoio financeiro a Moçambique vai ser necessário que o país tome medidas com os seus credores externos para colocar a divida numa trajetória sustentável.

Dois bilhões de dólares de dívidas contraídas por três empresas

O FMI e os credores internacionais suspenderam a ajuda a Moçambique em 2016 na sequência da descoberta de dívidas contraídas por três empresas com garantias do Estado em 2013 e 2014 sem o conhecimento do Parlamento e parceiros.

As dívidas avaliadas em cerca de dois mil milhões de dólares foram concedidas as empresas EMATUM, Proindicus e Moçambique Asset Management.

Schiffe von EMATUM in Mosambik (EMATUM)Barcos da EMATUM no porto de Maputo

Este facto elevou o total da dívida moçambicana para cerca de onze bilhões de dólares. As autoridades moçambicanas têm estado a tentar renegociar o pagamento da dívida com os credores, mas estes condicionam o processo aos resultados de uma auditoria internacional e independente ainda em curso.

O analista Adelson Rafael considera não provável que o anúncio do não pagamento da prestação por parte de Moçambique tenha um impacto direto na descida do ‘rating’, e explica: “O nível do qual Moçambique está atualmente é algo como 20 a 30% de incumprimento em relação aos investidores”.

Adelson Rafael admite, no entanto, que este incumprimento pode ter impactos indiretos que seria difícil lista-los neste momento. Mas adianta que “não vai ter implicação na mudança no rating agora mas ela pode ter no futuro e ter também na questão de credibilidade. Enquanto um país que se pretende afirmar muito por conta das questões energéticas, julgo que há que reforçar a crebilidade”.

Por seu turno, o economista Hipólito Hamela também não vê um impacto direto e imediato do incumprimento porque, segundo disse, já houve coisas piores.

Inverter a situação

Hamela é apologista das iniciativas que estão em curso neste momento para inverter a situação.

“Primeiro foi o reconhecimento de que temos a dívida e segundo vamos lá negociar os termos da dívida e vamos avançar para uma coisa plausível para o nosso país e para o nosso povo. Não nos vamos enforcar. Depois prefiro pensar e esperar que o Governo faça tudo que esteja ao seu alcance para conseguir que a gente volte aos bons tempos da ajuda para o desenvolvimento. Olha que esta situação de não pagar (títulos da dívida nos prazos estabelecidos) não é o primeiro país a fazer isso. Por isso é que não estou alarmado.”

Mosambik – Zuschuss für Essen für Rentner (DW/C. Fernandes)

O economista Hipólito Hamela considera que estas iniciativas devem ser acompanhadas por uma redução de uma apetência para o endividamento doméstico, uma vez que, como disse, com o incumprimento no pagamento da prestação o dinheiro vai ficar ainda mais caro para Moçambique no exterior.

“Significa que vai tornar-se insuportável e insustentável ir buscar dinheiro lá fora. Logo pode haver a apetência e tendência de querer ir buscar dinheiro nos bancos comerciais aqui dentro. Isso é que já não vai ser bom porque isso vai ser à custa do sacrifício do sector privado. Ou seja os preços do dinheiro vão aumentar se nós estivermos a pressionar a banca comercial em termos de crédito.

Pagamento da dívida de Moçambique teria dado sinal positivo aos investidores

O economista chefe da consultora Eaglestone considerou esta segunda-feira (16.01) à agência de notícias Lusa que “o cumprimento do pagamento deste cupão [de janeiro por parte de Moçambique] teria dado um sinal positivo aos investidores” internacionais detentores de títulos de dívida.

“O anúncio de ‘default’ não é uma total surpresa face às recentes declarações das autoridades moçambicanas no sentido de proporem aos investidores uma renegociação da dívida; no entanto, julgo que apesar das dificuldades que o país atravessa atualmente, o cumprimento do pagamento deste cupão teria dado um sinal positivo aos investidores dos esforços das autoridades locais em cumprirem com os seus compromissos internacionais”, disse à agência Lusa Tiago Dionísio.

Para o economista-chefe da consultora Eaglestone, a assunção de que o país não vai honrar os compromissos financeiros cria “o risco desta notícia não ser muito bem recebida pela comunidade internacional”.

Impactos indiretos segundo Moody’s

Logo Schriftzug Moody´s (picture alliance/dpa)

A agência de notação financeira Moody’s considera que o incumprimento financeiro de Moçambique “não leva imediatamente” a uma descida do ‘rating’, mas pode ter impactos indiretos na avaliação da qualidade do crédito do país.

“As implicações no ‘rating’ podem variar, mas um falhanço no pagamento, por si só, não é provável que desencadeie uma descida do nosso ‘rating’, já que o nosso ‘rating’ de Caa3 para Moçambique e para os títulos de dívida com maturidade em 2023 já está num nível consistente com incumprimentos financeiros que signifiquem uma perda entre 20 a 30% para os investidores”, disse a Moody’s numa resposta enviada à agência Lusa ainda antes do anúncio de ‘default’ feito pelo Governo moçambicano, na manhã desta segunda-feira (16.01).

Na resposta, a analista sénior para o crédito soberano em África, e que segue de perto a economia de Moçambique, Lucie Villa, explicou que “falhar um pagamento pode ter impactos indiretos, difíceis de antecipar hoje, mas pode, em última análise, levar a uma mudança no ‘rating'”.

Pressões sobre a avaliação são negativas

De resto, a analista lembra que “o ‘rating’ de Caa3 tem uma Perspetiva de Evolução negativa, indicando que as pressões sobre a avaliação são negativas”, ou seja, devem ser revistas em baixa num período entre 12 e 18 meses.

Moçambique confirma que não vai pagar dívida e entra em ‘default’

Questionada sobre se Moçambique não tem mesmo capacidade financeira para pagar quase 60 milhões de euros da prestação de janeiro dos títulos de dívida soberana emitidos em abril do ano passado, Lucie Villa respondeu: “É difícil destrinçar entre a capacidade e a vontade de Moçambique para pagar; a questão é mais se o Governo vai dar prioridade ao serviço da dívida, possivelmente arriscando um corte na despesa ou atrasos nos pagamentos aos outros credores”.

Moçambique mostra “postura de esclarecimento juntos dos credores”

O gabinete de estudos económicos do BPI considerou que o anúncio de Moçambique sobre o não pagamento da prestação de janeiro confirma o que já era esperado e mostra “uma postura de esclarecimento junto dos credores”.

“O anúncio do default por parte de Moçambique acaba por ser uma confirmação do que já era esperado por algumas instituições”, disse a analista que segue o país, Vânia Duarte, à Lusa, acrescentando que “é uma forma de acabar com as expetativas que rodeavam a questão” do pagamento da prestação de janeiro.

“Também é importante notar que, mais uma vez, o Governo moçambicano assume uma postura de esclarecimento junto dos credores, demonstrando o compromisso em assegurar maior transparência dos seus actos”, disse a analista, salientando que é igualmente positivo que o FMI mantenha as conversações e o empenho “em ajudar Moçambique a resolver os seus desafios”.

http://www.dw.com/pt-002/mo%C3%A7ambique-confirma-que-n%C3%A3o-vai-pagar-d%C3%ADvida-e-entra-em-default/a-37151205

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Como o apartheid prejudicou a educação na África do Sul

Quais os motivos de o país estar tão atrasado em relação às outras nações?

Como o apartheid prejudicou a educação na África do Sul
A diferença das notas dos testes entre 20% das melhores escolas e o resto é maior do que em quase todos os outros países (Foto: Pixnio)

Em uma pesquisa de avaliação de sistemas educacionais elaborada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) em 2015, a África do Sul foi classificada em 75º lugar no ranking de 76 países. Em novembro, no Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS), um teste quadrienal de avaliação do conhecimento em matemática e ciências realizado com 580 mil alunos em 57 países, a África do Sul ficou na última posição ou quase na última em diversos rankings, embora sua pontuação tenha melhorado desde 2011.

O nível de conhecimento das crianças é inferior ao de outras regiões pobres do continente. Uma proporção de 27% dos alunos que frequentaram a escola durante seis anos não sabem ler, em comparação com 4% na Tanzânia e 19% no Zimbábue. Depois de cinco anos na escola quase metade dos alunos não sabe que o resultado da divisão de 24 por três é oito. Só 37% das crianças que se matriculam na escola são aprovadas no exame de seleção; apenas 4% concluem os estudos.

De acordo com Nic Spaull da Universidade de Stellenbosch, a África do Sul tem um sistema educacional mais desigual do mundo. A diferença das notas dos testes entre 20% das melhores escolas e o resto é maior do que em quase todos os outros países. Dos 200 alunos negros que frequentam a escola só um tem um desempenho suficiente para estudar engenharia. Dez alunos brancos têm o mesmo resultado.

Muitos dos problemas são originários do apartheid. Segundo a Lei de Educação Bantu promulgada em 1953, os brancos teriam uma educação melhor do que os negros. A segregação racial era tão forte que, na opinião de Hendrik Verwoerd, o futuro primeiro-ministro na época encarregado da educação no país, os negros receberiam uma educação suficiente para serem apenas “rachadores de lenha e carregadores de água”.

Os alunos negros recebiam cerca de um quinto dos recursos destinados aos estudantes brancos. No currículo deles o ensino de matemática e ciências era quase inexistente. Muitas das escolas independentes administradas pelas igrejas, que ofereciam uma boa educação nos bairros de negros fecharam.

Depois que Nelson Mandela foi eleito presidente em 1994, o governo expandiu o acesso à escolaridade. O governo também substituiu o sistema educacional baseado na segregação racial pela divisão de riqueza. As escolas em áreas mais pobres recebiam mais financiamento do Estado. As escolas em áreas mais ricas podiam cobrar uma mensalidade.

Em teoria, essas escolas tinham de aceitar crianças cujos pais não podiam pagar as mensalidades. Na prática eram fortalezas de privilégios. Ainda existem cerca de 500 escolas construídas com lama, sobretudo na província do Cabo Oriental. Por sua vez, a província do Cabo Ocidental tem um dos maiores campus do hemisfério sul, com gramados para o jogo de críquete e croquet.

No entanto, o dinheiro não é o responsável pela situação educacional lamentável da África do Sul. Poucos países gastam tanto com educação, com retornos tão medíocres. Os gastos com a educação no país equivalem a 6,4% do PIB; a média nos países da União Europeia (UE) é de 4,8%. Ainda mais importante do que o dinheiro é a ausência de cobrança de resultados e a péssima qualidade da maioria dos professores. O Sindicato Democrático dos Professores da África do Sul (SADTU), aliado ao Congresso Nacional Africano (CNA), o principal partido político do país, é um elemento decisivo no fracasso do ensino na África do Sul.

http://opiniaoenoticia.com.br/internacional/como-o-apartheid-prejudicou-a-educacao-na-africa-do-sul/