Minas do apartheid travam crescimento no sul de Angola

Carlos Paulino | Cuito Cuanavale
12 de Julho, 2016

Fotografia: Carlos Paulino | Cuito Cuanavale

A presença de um grande número de minas condiciona a execução de importantes projectos sociais na região do Cuito Cuanavale, na província do Cuando Cubango, 28 anos depois da célebre batalha, decorrida de 15 de Novembro de 1987 a 23 Março de 1988.

Para dificultar a perseguição por parte das tropas angolanas e cubanas, após a derrota no Triângulo do Tumpo, as forças do regime do apartheid procederam à colocação massiva de minas durante a chamada “Operação Displace”. De 30 de Abril a 29 de Agosto de 1988, foram minados cerca de 36.800 hectares.

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Desde o início da desminagem, em 2005, a Halo Trust removeu e destruiu mais de 22 mil minas anti-pessoal, oito mil anti-tanque e dois mil uxos (engenhos não detonados), o que permitiu limpar uma área de cerca de quatro milhões de metros quadrados.
Apesar desses esforços, a região regista ainda grandes extensões com minas. Para acelerar a desminagem, o processo foi reforçado pela Engenharia Militar e o Instituto Nacional de Desminagem (INAD), mas o número de efectivos é insuficiente.
O processo de remoção é complexo e exige muita precaução, pela forma como os engenhos foram plantados. Trata-se de minas sobrepostas, reforçadas com projécteis de grande calibre, incluindo bombas de avião.

Mobilizar recursos

Além de impedir a circulação de pessoas e mercadorias, as minas levam ao adiamento da construção de importantes infra-estruturas, como a do parque temático sobre a Batalha do Cuito Cuanavale. O chefe dos Serviços de Inteligência Militar das Forças Armadas Angolanas (FAA), general António José Maria, esteve no Cuito Cuanavale, acompanhado do director do Gabinete do Presidente da República, Nito Cunha, do secretário de Estado da Construção, António Teixeira Flor, e do director da Unidade Técnica para o Investimento Privado, Norberto Garcia.
No final da visita aos locais onde se desenrolaram os combates, com realce para o bairro Sá Maria e o Triângulo do Tumpo, a alta patente das FAA defendeu a mobilização de recursos financeiros para acelerar a remoção dos engenhos explosivos.
José Maria salientou que a Halo Trust teve o efectivo reduzido devido à crise económica, o que afectou a sua capacidade de intervenção. A operadora de desminagem necessita, nesta altura, de pelo menos dois milhões dólares para continuar a desenvolver o seu trabalho. Caso contrário, deve parar a actividade nos próximos dias.

Nova batalha

José Maria destacou que o processo de desminagem no Cuito Cuanavale constitui uma nova batalha para os angolanos e deve merecer especial atenção, no sentido de preservar-se vidas humanas antes de se executar qualquer projecto.
“Se fizemos o combate para travar os sul-africanos, agora, neste novo contexto em que nós estamos, temos de unir forças para acabar com as minas nesta localidade, que foi bastante crucial para libertar a região Sul do continente africano”, destacou.
O general afirmou que o alto nível de contaminação por minas condiciona o desenvolvimento socioeconómico que tanto se almeja para o Cuito Cuanavale. Segundo o chefe dos Serviços de Inteligência Militar, passados 28 desde a batalha, os habitantes desta localidade ainda vivem sérias dificuldades por causa dos engenhos explosivos que impedem a execução de projectos.
“Conforme conseguimos a maturidade operacional para vencer as tropas sul-africanas, agora, vamos também transmitir ao mundo que somos capazes de desminar esta circunscrição e tornar o Cuando Cubango uma área livre de minas”, afirmou.
Por essa razão, disse, convidou o director do Gabinete do Presidente da República, o secretário de Estado da Construção e o director da Unidade Técnica para o Investimento Privado, para ajudarem nesta grande empreitada.

Apoio garantido

O director da Unidade Técnica para o Investimento Privado, Norberto Garcia, garantiu atrair  investimentos para o município do Cuito Cuanavale, para que o cenário de guerra seja transformado em locais turísticos que valorizem a História de Angola.
Norberto Garcia prometeu que, a partir de agora, as atenções vão estar viradas para angariar fundos que permitam tornar realidade o projecto que vai atrair turistas para a localidade e o bem-estar dos seus habitantes.

Parque temático

O parque temático, a ser implantado numa área de cerca de mil hectares, ao longo das margens dos rios Cuito e Cuanavale, vai contar com zonas de exposição do armamento usado durante a batalha do Cuito Cuanavale, restaurantes, estabelecimentos comerciais, unidades hoteleiras, piscinas e parques de diversão.
A área onde vai ser implantado o projecto tem floresta, fauna e recursos hídricos, bases fundamentais para a construção do primeiro parque temático em Angola e de referência internacional.
Com a exposição de meios militares, o mesmo vai permitir aos visitantes terem noção dos acontecimentos durante a batalha, do espírito de resistência, coragem, determinação e superação dos angolanos. O início da construção do parque depende do fim do processo de desminagem, agora a ser desenvolvido pela Halo Trust, INAD e  pela Brigada de Engenharia Militar.

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