Conselho de Segurança da ONU aprovou o cumprimento do Acordo de Conacri na Guiné Bissau

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O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou hoje uma declaração presidencial a pedir o cumprimento do Acordo de Conacri e a nomeação de um novo primeiro-ministro na Guiné-Bissau.

A declaração diz que o Acordo de Conacri, que prevê a formação de um governo consensual integrado por todos os partidos representados no parlamento e a nomeação de um primeiro-ministro de consenso e de confiança do chefe de Estado, é “a ferramenta principal para uma resolução pacifica da crise política” e diz que o documento oferece uma “oportunidade histórica”.

“O Conselho de Segurança expressa preocupação profunda com o impasse político na Guiné-Bissau, devido à incapacidade dos seus líderes atingirem uma solução consensual e duradoura, como fica demonstrado com o falhanço da Assembleia Nacional em realizar sessões plenárias desde janeiro de 2016 e com o falhanço de quatro governos consecutivos em aprovar um programa de governo e um orçamento nacional”, lê-se na declaração.

Os membros do Conselho de Segurança lembram “os efeitos negativos da crise política na população civil” e pedem “a todos os atores políticos que coloquem os interesses do povo da Guiné-Bissau acima de quaisquer outras considerações”.

“O Conselho de Segurança sublinha a importância de preparar as eleições legislativas e presidenciais, calendarizadas para 2018 e 2019, sobretudo atualizando o registo de eleitores”, defende a organização.

A declaração do presidente do Conselho de Segurança elogia a extensão por três meses da missão Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) no país, sublinhando o seu “papel positivo na estabilização do país.”

As notícias do crescimento económico são bem recebidas, mas os estados membros dizem que “com as causas da instabilidade por resolver”, estes ganhos “podem não ser sustentáveis.”

O organismo volta a pedir uma reforma do setor da segurança, um combate à corrupção reforçando o sistema judicial e uma melhoria da administração pública da Guiné-Bissau.

“O Conselho de Segurança mostra preocupação para com os desafios colocados pelas ameaças terroristas e outras ameaças, como o extremismo violento, que podem conduzir a terrorismo e crime organizado internacional, como tráfico de drogas e pessoas”, lê-se no documento.

A declaração não se refere à revisão das sanções impostas a 10 militares da Guiné-Bissau, algo que foi defendido pelo presidente do Comité de Sanções para o país, Elbio Rosselli, embaixador permanente do Uruguai na ONU.

Segundo o “What`s in Blue”, uma publicação do Conselho de Segurança, “vários estados membros parecem estar contra a retirada de indivíduos da lista” porque “acreditam que manter essa designação cria um desincentivo a possíveis interferências pelos militares numa situação que ainda é muito frágil.”

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/conselho-de-seguranca-pede-implementacao-de-acordo-de-conacri-na-guine-bissau_n1026951

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Os símbolos da Namíbia e a libertação de Nelson Mandela

por José Ribeiro |

O mês de Fevereiro de 1990, no “day after” dos Acordos de Nova Iorque e nos 15 meses que levaram à Independência da Namíbia, teve uma importância capital na vida dos povos da Namíbia e da África do Sul.

Para a Namíbia, porque foram adoptados os símbolos nacionais (a Bandeira e o Brasão) e a nova Constituição, factos que deixavam transparecer que estava tudo preparado para que a 21 de Março de 1990, data marcada para a proclamação da independência, nascesse a República da Namíbia. Para a África do Sul, porque foram legalizados os movimentos que lutavam contra o apartheid, o ANC, o PAC e o SACP e, fundamentalmente, porque foi libertado Nelson Mandela. Até ali, estas duas decisões condicionavam o início das negociações “abertas” para a construção de um Estado democrático entre os movimentos anti-apartheid, liderados pelo ANC, e o Governo do Presidente Frederick De Klerk.

Perto da Independência

Nesta perspectiva, o mês de Fevereiro de 1990 foi extremamente importante para o povo namibiano, não só porque os novos Símbolos Nacionais foram publicamente apresentados, mas, sobretudo, porque a nova Constituição foi finalmente aprovada. Ambos são instrumentos indispensáveis para todo e qualquer povo que almeja ser independente.  A 2 de Fevereiro de 1990, Hidipo Livius Hamutenya, presidente do Sub-Comité dos Símbolos Nacionais que desde Novembro de 1989 levou a cabo um processo de consulta pública para a sua escolha, convocou uma conferência de imprensa para apresentar os elementos representativos da luta do povo namibiano pela unidade nacional. Durante o encontro com os jornalistas, Hamutenya explicou em pormenor o significado de cada um dos símbolos.

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Na Bandeira, referiu Hamutenya, o vermelho representava o recurso mais importante da Namíbia, o seu povo, o seu heroísmo e a sua determinação em construir um futuro de igualdade de oportunidades para todos. O branco simbolizava a paz e a unidade. O verde simbolizava a vegetação do país e os recursos agrícolas. O azul simboliza o céu, o Oceano Atlântico, os recursos marinhos da Namíbia e a importância da chuva num país com poucos recursos hídricos. O sol na Bandeira simboliza a vida e a energia. Quanto ao Brasão, segundo Hamutenya, está repleto de simbolismo nacional. Havia um escudo com a reprodução da Bandeira Nacional. No topo do escudo estava uma águia-pesqueira africana. Nos flancos do escudo, dois antílopes Órix, representando a coragem, a elegância e o orgulho. Na base, um exemplo da flora do deserto, uma Welwítschia, símbolo da sobrevivência e da força nacional. Por fim, o lema nacional: “Unity, Liberty , Justice”.

Desta forma, o povo namibiano, depois de muitos anos submetido ao domínio, primeiro, alemão (1885-1915) e, depois, sul-africano (1915-1990), adoptando símbolos que representavam realidades alheias, viu nascer um ponto de viragem neste capítulo. A partir dessa data, os namibianos, outrora subjugados e divididos, podiam finalmente estar orgulhosos de ter uma Bandeira e um Brasão que representavam a diversidade étnica integrada no seu território. Assim, a 9 de Fevereiro de 1990, na parte frontal do edifício do Parlamento namibiano, a Assembleia Constituinte adoptou, por unanimidade, a nova Constituição, num acto que marcou simbólica e materialmente o fim da era de opressão colonial e a resistência ao estrangeiro.
Este acto de grande importância para um povo que lutou pela sua soberania começou a ser preparado a 21 de Novembro de 1989, quando foi criada a Comissão Constitucional, presidida por Hage Geingob e que contou com a participação de representantes de todos os partidos com assento na Assembleia Constituinte, órgão que teve a responsabilidade de coordenar o trabalho de elaboração da Constituição da República da Namíbia.
Os esforços empreendidos por todos os intervenientes foram determinantes para que, em tempo recorde, 80 dias, a 9 de Fevereiro, os namibianos tivessem a sua Constituição, que entraria em vigor a 21 de Março.
Embora a Constituição da Namíbia tivesse sido, para surpresa de todos, aprovada por unanimidade em apenas 80 dias, foi preciso muita dedicação e trabalho árduo para que esta conquista se materializasse. Na verdade, se se considerar que todos os partidos com assento na Assembleia Constituinte estiveram representados na Comissão Constitucional e que grande parte dos mesmos fossem inimigos confessos até à realização das eleições gerais realizadas sob os auspícios das Nações Unidas, entre 7 e 11 de Novembro de 1989, pode-se perceber que foi preciso muita coragem, patriotismo, magnanimidade e bom senso de todas as partes para porem de lado as diferenças e para o milagre dos 80 dias ser concretizado.

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A um mês do grande acontecimento, a Namíbia tinha agora todas as condições criadas para que a 21 de Março de 1990 fosse proclamada a tão esperada Independência. Tinha um Presidente eleito, Sam Nujoma, uma Assembleia Constituinte, os Símbolos Nacionais (Bandeira, Brasão) e uma Constituição.1.jpg

Apartheid é por fim vergado

Quanto à África do Sul, o mês de Fevereiro de 1990 foi um período de fortes marcas e grande significado histórico. É o período de legalização do ANC e da libertação de Nelson Mandela, acontecimentos que serviram de catalizadores para o processo de reformas impulsionado por De Klerk que visava fazer da África do Sul um Estado democrático.
A 2 de Fevereiro de 1990, Frederick de Klerk, Presidente da África do Sul, anunciou, no Parlamento, a abolição da Lei nº 34/1960 das Organizações Ilícitas, uma lei que impedia os movimentos anti-apartheid, nomeadamente oANC, o PAC e o SACP, de realizarem qualquer actividade de massas. Com esta decisão, o Governo legalizou as três formações, trinta anos depois de terem sido condenadas à clandestinidade e ao exílio.
É importante recuar trinta anos para perceber as razões pelas quais o Governo sul-africano havia tomado a decisão de criminalizar os movimentos anti-apartheid.
Depois do Massacre de Sharpeville, ocorrido a 21 de Março de 1960, quando a polícia sul-africana, para dispersar uma manifestação de cerca de 2.000 pessoas que protestavam contra a Lei do Passe, disparou indiscriminadamente contra uma multidão desarmada, provocando 69 mortos e 186 feridos, as autoridades sul-africanas impuseram uma série de medidas repressivas para impedirem qualquer pretensão retaliadora dos movimentos anti-apartheid.
Com a intensificação das leis repressivas, os movimentos anti-apartheid perceberam que o apartheid não desmoronaria sem luta armada e em 1961 o ANC e o SACP criaram o Umkhonto We Sizwe (MK), conhecido como o braço armado do ANC. Dadas as dificuldades de se movimentar dentro do seu território, a partir de 1963 o ANC começou a estabelecer bases militares no estrangeiro, tendo criado campos de treinos de guerrilha em alguns países africanos, nomeadamente na Tanzânia e na Zâmbia e mais tarde em Moçambique e Angola.
“Em Angola”, comenta hoje ao Jornal de Angola um especialista em História Militar, “o ANC tinha o campo de treinos de Catengue, na província de Benguela, que foi alvo de um ataque da Força Aérea Sul-Africana (SAAF) em Março de 1979 e o campo de Viana, em Luanda, a sua mais importante base em Angola, que entre Julho e Agosto de 1987 foi igualmente alvo de ataques desencadeados pelas SADF, com a Operação ‘Appliance’ e a Operação ‘Radcol’, ataques que visavam, primeiro, desencorajar o Governo angolano e com isso motivar a retirada do apoio de Angola ao ANC e, em seguida, conseguir a interdição do território dos países da África Austral ao principal movimento da oposição ao apartheid, o ANC, obrigando-o a operar mais longe das fronteiras sul-africanas.”
“Esta táctica de intimidação resultou com Moçambique”, sublinha o especialista militar, um oficial general das Forças Armadas Angolanas (FAA). “Com efeito, cedendo à pressão dos sul-africanos, o governo moçambicano assinou o Acordo de Nkomati, a 16 de Março de 1984. Segundo o acordo, o então Presidente sul-africano, Peter Willem Botha, comprometeu-se a deixar de apoiar a Renamo. Em contrapartida, o Presidente moçambicano na altura, Samora Moisés Machel, comprometeu-se a deixar de apoiar o ANC.”
“Mas em Angola, alvo de agressões e invasões sistemáticas das SADF”, acrescentou o analista militar, “a vontade do apartheid não vingou. O Presidente José Eduardo dos Santos estava enraizado na determinação popular em enfrentar a agressão e nos ensinamentos do primeiro Presidente de Angola, o médico humanista António Agostinho Neto. Num dos seus discursos, Neto disse que não poderíamos considerar o nosso país verdadeiramente livre se outros povos do continente se encontrassem ainda sob o jugo colonial e noutro proclamou que no Zimbabwe, na Namíbia e na África do Sul estava a continuação da nossa luta. No estado de guerra em que a África Austral estava colocada, o Presidente José Eduardo dos Santos não cedeu à pressão. Apesar dos riscos evidentes, mas ciente da justeza da medida para a libertação e o desenvolvimento regional, decidiu manter as bases militares do ANC no território angolano.

“Se o doutor Agostinho Neto, detentor de uma visão pan-africanista, lançou as sementes daquilo que veio a ser o mote da política externa angolana, particularmente até 1994, ano em que as muralhas do apartheid foram definitivamente destruídas com a chegada do ANC ao poder, coube a José Eduardo dos Santos, homem inquebrantável e de génio político, militar e diplomático, dar continuidade a esse pensamento e materializá-lo com acções concretas, que se afiguraram fundamentais para a paz e a estabilidade, não só de Angola ou da África Austral, mas de todo o continente africano”, acentuou o especialista das FAA.
É consensual, com efeito, que a ajuda angolana ao povo sul-africano durante os anos de exílio do ANC (1960-1990) foi, historicamente, de grande valia e representou o ponto de viragem na história da África do Sul. Este facto foi reconhecido pelo próprio Mandela, após a saída da prisão, durante a visita que fez a Luanda em 10 de Maio de 1990, ao discursar no então chamado Largo 1º de Maio. Disse Mandela nesse sítio, falando para a multidão que o foi ver naquilo que é hoje a Praça da Independência: “Todos sabem que existem fortes laços políticos entre o MPLA e o ANC, entre o povo de Angola e o povo da África do Sul. Angola, como sabem, também foi a nossa principal base militar, sobretudo a partir de 1976, quando uma geração de estudantes e jovens saiu da África do Sul, em particular do Soweto, para receber treino militar para libertar o seu país pela força das armas. O ANC levou estes jovens para Angola. Este foi, realmente, um grande ponto de viragem na história da África do Sul. Porque, como resultado do apoio generoso que recebemos do Governo e do Povo de Angola, estes jovens conseguiram treinar e, em seguida, intensificar a luta armada no nosso país”.

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Mandela agradece a Angola

A libertação de Mandela ocorre a 11 de Fevereiro de 1990. O Governo racista, depois de o manter na prisão durante 27 anos, tomou esta medida que veio a ser de extrema importância para o fim do apartheid. A decisão foi anunciada antes. No momento em que Frederick De Klerk, na abertura do ano Parlamentar, a 2 de Fevereiro de 1990, anunciou a medida, estava claro que a prisão de Mandela tinha os dias contados. Ao dirigir-se aos deputados, De Klerk disse que “gostaria de deixar claro que o Governo tomou a firme decisão de libertar, incondicionalmente, o Sr. Mandela”, que estava “determinado a finalizar este assunto com a máxima urgência” e que “em breve o Governo tomará uma decisão sobre a data da sua libertação”.
“A pretensão de Frederick de Klerk veio a materializar-se apenas nove dias depois de a anunciar, para gáudio do povo sul-africano que, associando esta decisão a outras medidas tomadas por De Klerk, começava agora a acreditar no desmoronamento dos muros do apartheid”, sublinha o analista.
A libertação do líder do ANC foi antecedida de um encontro, na prisão, a 5 de Julho de 1988, entre o Presidente Pieter Botha e Nelson Mandela. A minoria branca queria ter a garantia de Mandela de que não iria enveredar pela violência e a luta armada. Mandela deu garantias e honrou a palavra. Ao contrário de Jonas Savimbi, que várias vezes prometeu a paz e sempre voltou à guerra.

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“Embora Frederick De Klerk tivesse sido o decisor da libertação de Mandela, de facto as bases para a sua libertação foram lançadas muito antes, a 23 de Março de 1988, quando valorosos combatentes das FAPLA derrotaram incontestavelmente as SADF e as tropas da UNITA de Jonas Savimbi na Batalha do Cuito Cuanavale, travada no Triângulo do Tumpo, e forçaram o regime do apartheid a aceitar a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que deram origem à implementação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, sobre a independência da Namíbia, à libertação de Nelson Mandela e ao fim do regime de segregação racial que vigorava na África do Sul. A medida de De Klerk de libertação do ícone da luta anti-apartheid foi um reflexo lógico da grande batalha”, reforça o oficial superior das FAA.
A prova do papel decisivo de Angola é dada em Luanda. Depois de livre, quando Nelson Mandela veio a Luanda, fez um discurso carregado de emoção. Nele, disse entre muitas outras coisas, o seguinte: “O progresso alcançado na nossa luta armada deve-se, em grande parte, a Angola… Nós agradecemos ao Presidente (José Eduardo dos Santos), ao Governo e ao povo de Angola, pela ajuda que nos foi dada”.
Apesar da euforia dos acontecimentos de Fevereiro, o desmantelamento da máquina segregacionista levou ainda tempo e as transformações entre 1989 e 1993 sobrepuseram-se a qualquer plano de perpetuação da minoria branca. Mandela, após a libertação, tornou-se uma das personalidades mais solicitadas do mundo e a legitimidade da sua liderança foi reconhecida numa digressão que realizou por 34 países ocidentais para combater a publicidade negativa engendrada pela violência na África do Sul. A distinção de Mandela e De Klerk com o Nobel da Paz em 1994 contribuiu para que as eleições nesse ano ganhassem notoriedade internacional. O pleito decorreu de forma pacífica e Mandela venceu as eleições por 62,65 por cento dos votos, tornando-se Presidente da República Sul-Africana e pondo em funções, em seguida, um Governo de unificação nacional, que ficou marcado pelo perdão e pela reconciliação. Mas ao mesmo tempo pelas dificuldades de acabar com as injustiças históricas.

“OBRIGADO” DE NELSON MANDELA AO POVO ANGOLANO

“Não permitiremos que o nosso país interfira nos assuntos de Angola”

Para que não persistam as dúvidas sobre o pensamento de Nelson Mandela sobre o reconhecimento do papel de Angola na destruição do regime de apartheid na África do Sul, reproduzimos o célebre discurso proferido pelo líder do ANC e Prémio Nobel da Paz em Luanda, a 10 de Maio de 1990.
“Camarada Presidente, Chefe do Governo, principais membros do MPLA, membros do corpo diplomático e outros ilustres convidados e camaradas,
É uma honra e um prazer para mim e para a minha delegação estar em território angolano. Eu nunca tive a honra de encontrar-me com o Camarada Presidente Agostinho Neto. Mas, já em 1959, nós ouvíamos falar dele. Nós conhecíamo-lo como o corajoso e dedicado defensor da liberdade e líder do MPLA. Quando recebi o convite para visitar Angola, fiz questão que o Camarada Presidente dos Santos me permitisse visitar o túmulo do Camarada Presidente Agostinho Neto.
Esta manhã, no avião que voava de Lusaka para Luanda, tive a oportunidade de ver o programa que estava preparado para a minha visita. E custava-me acreditar quando vi que, de facto, o Camarada Presidente dos Santos arranjou formas de proporcionar-me uma visita ao túmulo do fundador da Angola democrática. Esta manhã eu coloquei uma coroa de flores no seu túmulo. Poucos momentos na minha vida tocaram-me tanto como quando vi o seu túmulo.
Eu voltarei ao meu país, África do Sul, com a forte convicção de que o dia da libertação não está muito longe. Ao longo dos anos em que cumprí a sentença de prisão perpétua na África do Sul, ouvi falar do nome do camarada Dos Santos. Eu conheci-o, pela primeira vez, em Lusaka, em Fevereiro deste ano. Eu tive a honra de encontrá-lo novamente hoje. Ainda mais importante, tive a honra e o prazer de dirigir-me a vocês, neste estádio, hoje. Pelo que eu vi hoje, o que eu vi dele, o que eu vi de vocês, não tenho nenhuma dúvida de que o povo de Angola vencerá.
É triste que esta grande e bela pátria, com tantas riquezas que poderiam ser exploradas em benefício do povo angolano, tenha sido assolada de cima a baixo por uma guerra civil que foi concebida pela África do Sul e outras forças hostis. Neste conflito, toda a OUA, os Estados da Linha de Frente, o Movimento Não-Alinhado e as forças democráticas do mundo apoiam plenamente o MPLA, as FAPLA e o povo de Angola na sua luta pela libertação do País de todas as forças de reacção e de conservadorismo. O ANC e a esmagadora maioria do povo da África do Sul estão entre os milhões que apoiam a vossa luta para unir o país. Nós temos observado os movimentos em curso para trazer a paz ao país. Apoiamos esta medida, mas, ainda mais, quando as mudanças democráticas acontecerem na África do Sul – que esperamos não estar muito longe – não permitiremos que o nosso país interfira nos assuntos de Angola.
Todos sabem que há fortes laços políticos entre o MPLA e o ANC, entre o povo de Angola e o povo da África do Sul. Essas boas relações foram desenvolvidas no curso da luta dolorosa que vocês, o povo de Angola e o povo da África do Sul, ainda estão a travar este momento. Esses fortes e belos laços manifestam-se nas nossas relações de trabalho ao nível internacional, na UA-União Africana, nas Nações Unidas, no Movimento Não-Alinhado e noutros organismos internacionais.
Angola, como sabem, também tem sido a nossa principal base militar, especialmente a partir de 1976. Em 1976, uma geração de estudantes e de jovens saiu da África do Sul – em particular de Soweto – para receber treino militar para libertar o seu país pela força das armas. O ANC trouxe estes jovens para Angola a fim de receberem treino militar. Este foi certamente um grande ponto de viragem na história da África do Sul. Porque, como resultado do generoso apoio que recebemos do governo e do povo de Angola, estes jovens conseguiram treinar e, em seguida, intensificar a luta armada no nosso país. O progresso alcançado na nossa luta armada deve-se, em grande parte, a Angola. Angola permitiu-nos não só receber armas de países amigos no exterior, mas também permitiu-nos construir bases e deu-nos a liberdade de treinar os nossos soldados e impor sobre eles os nossos padrões, valores e a disciplina necessária. Isto permitiu-nos melhorar a qualidade da formação, o que resultou no rápido desenvolvimento da nossa luta.
Nós esperamos que um dia também nós sejamos livres, como vocês são. Nesse dia, convidaremos para a nossa celebração, para a celebração do nosso povo, todos os Chefes de Estado que nos ajudaram no nosso momento de necessidade. Um destes Chefes de Estado que certamente será convidado e cuja contribuição para a nossa luta será expressamente reconhecida é, tão simplesmente, o Camarada Presidente Dos Santos.
Sei apenas de uma ocasião em que um homem foi morto por aqueles que o admiravam, porque o amam. Eu devo advertir o Camarada Dos Santos que teremos de mobilizar uma grande força para protegê-lo daqueles povos da África do Sul que o amam. Todo aquele que estiver presente nessas celebrações vai querer tocá-lo, apertar a sua mão e agradecer directamente pelo que fez. Portanto, nós prestamos homenagem ao Presidente, ao Governo e ao povo de Angola, pela ajuda que nos foi dada.
Nós sabemos – isto é igualmente importante – o papel crucial desempenhado pelo Governo e pelo povo de Angola no decurso da luta da Namíbia para libertar aquele país. Através do papel crucial que tem sido desempenhado pelo Governo e pelo povo deste país, foi possível que a Namíbia estivesse livre, que fosse um país livre.
Nós prestamos também homenagem à República de Cuba e ao Camarada Fidel Castro. Em tamanho, a República de Cuba é um país pequeno. Cuba não é tão rico como os antigos países industrializados do mundo. Mas, há uma coisa que faz com que esse país esteja acima da cabeça e dos ombros da maioria dos países do mundo: é o seu amor pelos direitos humanos e pela liberdade. Inspirado por estas necessidades básicas, Cuba reuniu-se em torno de Angola quando esta foi atacada por forças hostis da África do Sul e de outras partes do mundo. Mas hoje estou em Angola e um dia vou visitar aquele grande país e poder expressar o meu apreço directamente ao Camarada Fidel Castro e ao povo cubano.
Há outro país que desde há muito apoia Angola, que é a União Soviética. Um dia visitarei a União Soviética. Eu agradeço pessoalmente ao camarada Gorbachev pelo que fez para garantir a defesa da liberdade, da independência política e da integridade territorial de Angola. Há, naturalmente, muitos países no mundo – talvez muitos para confirmar – que também deram algum tipo de ajuda para o desenvolvimento da vossa luta. E nós também estamos em dívida para com eles.
A minha última palavra para vocês é que, quando passamos por dificuldades é mais fácil esquecer quando se tem muitos amigos poderosos. Poderoso não pelas armas de destruição que possuem. Poderoso, não porque alguns entre vocês, uma minoria de indivíduos entre vocês, possuem grandes somas de dinheiro e outras formas de riqueza. Poderoso porque amam os direitos humanos e estão preparados para dar as suas próprias vidas, para libertar os seres humanos em todo o mundo, para torná-los felizes e seguros. Vocês têm este tipo de amigos poderosos. Todos eles desejam-vos força, paz e sucesso em tudo o que vocês fazem. Acima de tudo, desejamos ao Camarada Presidente Dos Santos força e sucesso. Ele conduziu-vos muito bem. Ele teve uma contribuição importante na luta pela liberdade nesta região. E nós desejamos que ele, o seu Governo e o seu partido tenham saúde e amor em tudo o que fizerem.
Viva o MPLA! Viva as Forças Armadas Populares, FAPLA! A Luta [A multidão responde: “Continua!”] [A luta continua!]”

CRONOLOGIA DOS ACONTECIMENTOS

Apartheid discriminou os bosquímanos

Na sua obra “Chronology of Namibia History – From Pre-Historial Yimes to Independent Namibia”, Klaus Dierks descreve os principais acontecimentos assinalados no mês de Fevereiro de 1990 na Namibia:
2 de Fevereiro de 1990 –
A bandeira e os símbolos nacionais são adoptados para a nova nação.
7 de Fevereiro – 
Após a nomeação do Governo Sombra a 21 de Dezembro de 1989, vários ministros do governo e altos funcionários participam no Grupo de Trabalho Tripartido sobre a questão dos Bosquímanos, criado em Dezembro de 1989.
8 de Fevereiro –
O ministro das Finanças nomeado, Otto Herrigel, anuncia, no seu primeiro discurso oficial, que a Namíbia independente pretende permanecer na União Aduaneira da África Austral (SACU). Herrigel anuncia a criação de um banco central independente (Bank of Namibia).
9 de Fevereiro –
A Assembleia Constituinte adopta, por unanimidade, a nova Constituição. 14 de Fevereiro – As Forças de Defesa Sul-Africanas (SADF) perguntam aos ex-soldados Bosquímanos (San ou Khoesan) das unidades militares se querem ir para a África do Sul.
14 de Fevereiro –
O nomeado ministro dos Assuntos Internos, Hifikepunye Pohamba, faltando apenas algumas semanas para o fim do mandato da UNTAG, declara que a SWAPO pediu a sete países (Canadá, Alemanha, Gana, Índia, Nigéria, Paquistão e Suécia) que mantivessem o seu corpo policial da UNCIVPOL, após o fim do mandato. Quanto ao Exército Nacional, o núcleo da futura Força de Defesa da Namíbia (FDN) estaria já criado e treinado, com a ajuda do batalhão queniano, até 21 de Março de 1990.
16 de Fevereiro –
A Assembleia Constituinte elege por unanimidade Sam Shafiishuna Nujoma Presidente do futuro Estado independente.
20 de Fevereiro –
O vice-ministro para as Obras, Transportes e Comunicações, Klaus Dierks, desloca-se a Luanda, a fim de preparar um acordo para a reconstrução da estrada destruída de Oshikango, na fronteira entre a Namíbia e Angola para o Lubango e o Namibe (Corredor do Namibe).
27 de Fevereiro –
Dierks anuncia políticas orientadoras para o sector de transportes e comunicações para a Namíbia independente. Em primeiro lugar, as infra-estruturas de transportes e telecomunicações deviam ser equilibradas com a criação de infra-estruturas de engenharia nas regiões do país até agora negligenciadas, especialmente a Ovambolândia.
Finais de Fevereiro –
Depois de uma visita oficial a Angola (21 de Janeiro), Nujoma agradece ao Congo, à Argélia, à Líbia e ao Kuwait pelo apoio concedido à luta de libertação da Namíbia.

http://jornaldeangola.sapo.ao/reportagem/os_simbolos_da_namibia_e_a_libertacao_de_nelson_mandela

Oposição parlamentar angolana discorda do processo eleitoral

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Josina de Carvalho |
12 de Agosto, 2016

Fotografia: Paulo Mulaza

O projecto de alteração à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais foi ontem aprovado na Assembleia Nacional sem o voto da oposição, que abandonou a sala em desacordo com a permanência do documento e outros dois diplomas na agenda da sessão.

O documento, assim como a proposta de lei do Sistema de Informação e Gestão dos Processos Eleitorais, que foi de iniciativa legislativa da bancada parlamentar da UNITA, faz parte do Plano de Tarefas para a Realização de Eleições Gerais e Autárquicas, aprovado em Maio do ano passado por unanimidade pela Assembleia Nacional.
Na sua declaração de voto, o MPLA afirmou que a decisão de votar favoravelmente os diplomas “sinaliza e expressa, claramente, a sua boa-fé e o seu engajamento na execução do referido Plano, no âmbito da concretização continuada dos ciclos eleitorais, consagrados na Constituição da República de Angola e na lei, superando os obstáculos e os constrangimentos que possam surgir de modo a assegurar a realização tempestiva das eleições”.
O partido no poder considera que, “embora a iniciativa legislativa seja da oposição e não conste, de forma expressa, do plano legislativo do MPLA, o interesse público e o sentido de Estado deve prevalecer, para a consolidação da democracia, sem prejuízo do cumprimento rigoroso da Constituição e da Lei”.
Em conferência de imprensa, a oposição justificou a retirada da sala com o argumento de que pretendia mais tempo para analisar os documentos. Para Adalberto da Costa Júnior, da UNITA, foram introduzidas alterações profundas ao Projecto de Lei Orgânica que aprova o Regimento da Assembleia Nacional e ao Projeto de Lei de Alteração à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais, que não puderam ser cuidadosamente analisadas, por apenas tomarem contacto com os documentos há duas semanas.  O líder da bancada parlamentar da CASA-CE, André Mendes de Carvalho, explicou que a Assembleia Nacional acordou dar um tratamento diferenciado ao processo de aprovação do Projeto de Lei de Alteração à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais, no sentido de se buscar alguma concertação no concernente às linhas de força do diploma.
“Este plano é uma plataforma de diálogo para encontrarmos alguns consensos sobre o pacote de leis sobre o processo eleitoral, no qual faz parte o Projecto de Lei de Alteração à Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais. Mas agora nos foi dito que esta lei deve seguir o processo normal de aprovação”, disse líder da bancada parlamentar  da CASA-CE, para acrescentar que, apesar da atitude de abandono da reunião plenária, o seu partido está aberto ao diálogo e à troca de impressões sobre os diplomas em causa.
O deputado do PRS, Benedito Daniel, defendeu que as questões parlamentares devem ser tratadas por todos os deputados e não pela maioria parlamentar, de forma absoluta, porque “as questões da Nação não estão diretamente ligadas à proporcionalidade, mas à representatividade parlamentar”.
Lucas Ngonda, da FNLA, justifica o abandono da sala como uma chamada de atenção ao partido no poder e refere que os partidos da oposição entendem que o país tem de caminhar com os próprios pés, razão pela qual aprovaram o Plano de Tarefas para a Realização de Eleições Gerais e Autárquicas. “Entristece-nos agora assistir à ruptura completa da esperança daqueles que acompanharam a votação deste plano e aplaudiram a Assembleia Nacional pelo consenso conseguido”, lamentou.

Justificações do MPLA

Em declarações à imprensa, o deputado João Martins, do grupo parlamentar do MPLA, considerou a postura da oposição um bloqueio, que resulta da impreparação e indisponibilidade para participar nos pleitos eleitorais e assumir responsabilidades políticas institucionais.
A oposição, afirmou, demonstrou ser “um menino mimado que, contrariado, assume posições extremas e radicais”, como o abandono da reunião plenária, em que seria votado o Projecto de Lei Orgânica do Sistema de Informação e Gestão dos Processos Eleitorais da sua própria iniciativa.  Para o deputado João Martins, há impreparação e indisponibilidade da oposição para debater com profundidade, seriedade e realismo o que deve ser introduzido no sistema eleitoral.
O deputado do MPLA disse ainda que os partidos da oposição desviam claramente a essência do sistema eleitoral, quando fazem pronunciamentos públicos.
“Dizem que a realização do actos que vão produzir a actualização de dados dos cidadãos maiores e dos que podem participar no processo eleitoral deve ser uma responsabilidade do órgãos da administração eleitoral independente. Isto demonstra uma clara tentativa de criar confusão e suspeição a nível dos cidadãos”, sublinhou o deputado do MPLA.
Os órgãos da administração eleitoral independente, esclareceu, em nenhum país do mundo realizam actos materiais cuja responsabilidade impende sobre os órgãos de soberania. “Se a Administração eleitoral independente realizasse actos que habilitassem os cidadãos a votar, também podia realizar actos que pudessem impedir ou inviabilizar uma candidatura de uma partido político, cidadão, deputado ou Presidente da República”, acrescentou o deputado do MPLA, reafirmando que estas tarefas são próprias dos órgãos de soberania.

Gratuitidade do ensino

Os deputados aprovaram, ainda na sessão de ontem, a proposta de Lei de Bases do Sistema de Educação que estende a gratuidade do ensino até à 9ª classe.
De acordo com o diploma, a gratuitidade no Sistema de Educação traduz-se na isenção de qualquer pagamento pela inscrição, assistência às aulas, material escolar e apoio social, como a merenda escolar, para todos os indivíduos que frequentam o ensino primário nas instituições públicas de ensino.
De acordo ainda com o diploma aprovado na sessão de ontem, o Estado deve criar progressivamente as condições necessárias para tornar gratuita a classe da iniciação e o I ciclo do ensino secundário nas instituições públicas de ensino.
O pagamento da inscrição, da assistência às aulas, do material escolar e de outros encargos, no II Ciclo do Ensino Secundário e Ensino Superior, é responsabilidade dos pais, encarregados de Educação ou dos próprios alunos, em caso de maior idade.
O Estado coloca à disposição mecanismos de apoio social para os quais podem candidatar-se os alunos que reúnam os critérios estabelecidos nos termos da lei e define o valor das propinas, das taxas e dos emolumentos praticados nas Instituições de Ensino, com base no regime de preços vigiados, em critérios de qualidade e em função da classificação obtida no processo de avaliação.
Na sessão foram ainda aprovados o projecto de Lei de Alteração à Lei do Orçamento Geral do Estado, a proposta de lei de Alteração à Lei do Patrimônio Público e a proposta que aprova o Regime Jurídico das Contrapartidas.
Para a sessão plenária de hoje, o destaque vai para a aprovação do pacote legislativo da Comunicação Social, também enquadrado no Plano de Tarefas para a Realização de Eleições Gerais e Autárquicas.

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