Spike Lee:“Usam o medo das pessoas. Isso não é novo, é a forma como o fascismo costuma jogar”

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Publicado em 12 novembro, 2018 8:22 am

De Víctor Usón no El País Brasil.

Spike Lee evita mencionar o nome de Donald Trump, prefere chamá-lo de “agente laranja” ou, algumas vezes, de “filho da puta”. “Na minha cabeça soa melhor assim”, afirma, enquanto ri. É um ferrenho opositor das políticas do presidente americano, um duro ativista que costuma usar o nome da arma química utilizada pelos EUA na Guerra do Vietnã para se referir a Trump.

Lee responde de forma direta e contundente: “É um racista”. Suas frases, marcantes e concisas, brilham no quarto do resort de luxo no qual recebe a imprensa. Vestido com tênis, boné e jaqueta prateada, o cineasta olha fixamente através de seus grandes óculos azuis antes de continuar falando: “Você não o ouviu dizer que os mexicanos são uns violadores, assassinos e narcotraficantes?”, conta ao EL PAÍS no festival de cinema de Los Cabos, no México.

Suas palavras soam ainda mais contundentes em território mexicano e não muito longe da fronteira que Donald Trump se empenha em fortificar. Tijuana, que fica a norte de Los Cabos e faz fronteira com os EUA, será a porta de entrada da caravana migrante que tanto enfurece o presidente americano. “Que Deus os abençoe, vocês não estão fazendo nada de errado”, afirma Lee.

Ele lança dardos envenenados contra o presidente americano e lhe faltam adjetivos para definir sua política migratória. “Separar as mães de seus filhos é algo diabólico, uma barbárie”, assinala, concentrando sua esperança em que isso não ocorra depois da iminente chegada dos mais de 6.000 centro-americanos que se dirigem para o posto fronteiriço de Tijuana. “Só tentam ter uma vida melhor e estão fazendo um grande sacrifício para conseguir”, recorda Lee.

Mas sua cruzada não é dirigida apenas contra Trump, ela se estende por todo o planeta: “Não é só o agente laranja, o do Brasil [o presidente eleito Jair Bolsonaro] é igualmente ruim. Ocorre em nível global. Temos de combater essas pessoas”. A vitória de Jair Bolsonaro e o avanço de partidos populistas na Europa o levam a ficar em alerta para a chegada de velhos fantasmas do passado. “Usam o medo das pessoas. Isso não é novo, é a forma como o fascismo costuma jogar”, sustenta o cineasta.

(…)

Spike Lee. Foto: Wikimedia Commons
Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/cineasta-spike-lee-fascismo-usa-o-medo-nao-e-so-trump-bolsonaro-e-igualmente-ruim/

O que a cultura tem a ver com a vitória de Bolsonaro?

A-redencao-de-CamO plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas

O fenômeno de Jair Bolsonaro é explicado por uma teia complexa de elementos interligados e interdependentes. É uma questão de representatividade ultraconservadora; é resultado de uma militarização histórica da política brasileira; é fruto de uma minimização dos debates travados sobre notícias falsas que vêm sendo alertados por entidades competentes desde antes das eleições.

Também é produto de um financiamento milionário de Caixa 2, ignorado pela justiça; é emblema da doutrinação evangélica fundamentalista; está em sintonia com uma onda reacionária internacional; constrói-se em cima de uma prática antiga de caça aos comunistas para preservação do liberalismo; passa pela pouca reflexão feita sobre o que de fato foi o período da ditadura civil-militar no Brasil.

Não fossem todos esses motivos já suficientes, Bolsonaro ainda se vangloria com o ódio ao Lula e ao PT, construído minuciosamente para que houvesse um inimigo comum a ser derrotado; aproveita-se do clamor pelo novo, mesmo que este novo tenha três décadas de cargo político.

A lista é longa e apesar de cada motivo elencado suscitar outros tantos debates, existe ainda um elemento importantíssimo, situado no centro deste episódio: a cultura, analisada aqui como uma política nacional antes mesmo de existir nação.

Um dos pilares que balizaram a colonização do Brasil é de ordem cultural. Os invasores europeus chegaram aqui exterminando os povos indígenas e seus costumes, catequisando os sobreviventes e silenciando as identidades originárias para que fizessem caber o que os portugueses queriam. Diminuíram seus artefatos, chamaram-nos de “primitivos”.

Sequestraram africanos negros, especialmente das regiões atuais de Angola, Moçambique e Nigéria, para escravizá-los no território colonial pelo trabalho, pelo pensamento e pelos costumes. Não deixavam que dançassem, não deixavam que capoeirassem, não deixavam que falassem sua própria língua ou fizessem rituais religiosos. Condenaram os orixás e forçaram por cima de tudo um Deus único, com D maiúsculo.

Foi um intenso e violento processo de aculturação, lançado como projeto político sobre os povos indígenas, a população negra africana e seus descendentes, que hoje são a grande maioria dos brasileiros, mesmo que a população tenha fenótipo majoritariamente branco. Há sempre uma gota de sangue indígena ou negra nas nossas veias.

O plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas. Esse processo também é complexo: a consolidação de uma cultura hegemônica sobre outra passa desde por políticas de estado, como a política de branqueamento praticada no século XIX (que transbordou da questão colorista para os modos e costumes), como passa também por uma simples mas genuína necessidade de pertencimento. Identidades existem e são importantes porque criam sensação de vínculo com o território e com o grupo social, cria empatia e consciência de coletividade.

Se apagam uma identidade aqui, procura-se outra acolá, que será encontrada na coletividade mobilizadora mais próxima, que atualmente reside muito provavelmente em uma igreja fundamentalista ou em um grupo de Whatsapp recheado de ficções. Isso explica em partes a existência de algumas figuras pertencentes a minorias sociais que apoiam um presidente explicitamente contrário a minorias. Suas identidades originais foram negadas há gerações.

Órfãos de raízes não se entendem como indivíduos ameaçados pelo discurso de Bolsonaro, mesmo que a evidência esteja na cara. E mais do que isso, enxergam no militar reformado uma referência de sucesso. Querem ser brancos de olhos claros, patriarcas da família, severos, rigorosos, temidos e, por isso, respeitados. Querem ser “civilizados” (era essa a desculpa da política de branqueamento de dois séculos atrás).

Em um país tão rico como o Brasil, o projeto de construção de uma nação, criado pela monarquia branca colonizadora, colocou em prática ações para anulação de identidades seguida de hegemonização de uma cultura tida como superior, como forma de manutenção de um poder cruel, apesar de disfarçado de boas intenções.

Existe ainda mais um elemento que deve ser colocado na conta da cultura. Se ela foi historicamente usada para divulgação de um discurso oficial injusto e desigual, é por ela que as identidades silenciadas podem se emancipar. Os poderosos sabem bem disso e exatamente por isso negligenciam a cultura atualmente. Nunca há recursos para nada, e quando há, ele é questionado. “Um absurdo construir museu com pessoas morrendo em hospitais”, vão dizer.

Detalhe do quadro a Redenção de Cam. A obra aborda as controversas teorias raciais do fim do século XIX e o fenômeno da busca do “embranquecimento”

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Quase todos os países da América do Sul que passaram por ditaduras nas décadas de 1960-1970 têm hoje museus, mesmo que pequenos, que expõem a catástrofe e o absurdo dos regimes. O Brasil não tem. Em São Paulo, existe o Memorial da Resistência, dedicado à preservação das memórias e da repressão política do Brasil republicano, localizado no antigo DOPS, mas ainda não é suficiente para dar conta da necessidade urgente que existe de reflexão e entendimento do que foi o período ditatorial no país.

O funcionamento pleno e eficiente de instituições assim depende de investimento, recurso para pesquisa e manutenção. Se isso não aconteceu até hoje, não é agora, com Bolsonaro e todo o Congresso reacionário eleito, que vai acontecer. E cá entre nós, está bem óbvio que não há interesse algum do poder vigente em promover uma reflexão sobre a ditadura no Brasil.

Na sociedade domesticada, administrada e colonizada, a cultura é uma das ferramentas de emancipação mais eficientes que existem. É pela cultura que se alerta para as raízes de um povo e para sua história. É por ela que o pensamento crítico se desenvolve. A democracia e a igualdade tão clamadas nas ruas (e nas redes sociais) passam necessariamente pela cultura. A negligência a ela sempre elegerá Bolsonaros na história. Este era o plano, não era? Deu certo para eles. A reversão da situação só poderá ser efetivada quando a cultura for tratada e alimentada como a revolucionária que é.

 

Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

Fontehttps://diplomatique.org.br/o-que-a-cultura-tem-a-ver-com-a-vitoria-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0dTO7rzLkpy7C-oLLDRw6ro_drvHrOqU26kdwtyjGuG3HNqB-idg1J7eE

 

Gana aos 60 anos: Lembrar Kwame Nkrumah

O Gana celebra o sexagésimo aniversário da sua independência. Cidadãos recordam o primeiro Presidente ganês, Kwame Nkrumah.

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Neste 6 de março, dia em que o Gana comemora o sexagésimo aniversário da sua independência, recordar Kwame Nkrumah é incontornável: “Atualmente, o nome de Nkrumah está envolto em mistério e controvérsia”, diz Atsu Aryee, da Universidade do Gana.

No passado, era diferente. Quando o Gana conquistou a independência da Grã-Bretanha em 1957, os apoiantes de Nkrumah aclamaram-no em massa. “Finalmente chegou ao fim a batalha! O Gana, a nossa pátria amada, será, a partir de agora, livre para sempre”, afirmou Nkrumah na altura. Em resposta, a multidão gritava “viva!”

Nos primeiros anos depois da independência, o Governo de Kwame Nkrumah colocou em prática um programa económico ambicioso, com o objetivo de colocar o país, tradicionalmente rural, no mapa dos países industrializados. As barragens hidroelétricas construídas ao longo do rio Volta ainda hoje são vistas como marcos da engenharia africana e é nelas que o Gana continua a confiar para garantir a produção energética no país de 27 milhões de habitantes. Mas nem todos os projetos de Nkrumah resultaram. As grandes empresas geridas pelo Estado foram, na maior parte dos casos, mal sucedidas, acumulando enormes dívidas ao longo dos anos, sobretudo devido à má gestão e à corrupção.

Os ganeses conheceram então um outro lado de Kwame Nkrumah. O líder político tornou-se cada vez mais autoritário, tendência que culminou na transformação do Gana num Estado de partido único, em 1964, e na auto-proclamação de Nkrumah como Presidente eterno. Milhares de cidadãos viram-se obrigados a abandonar o país. Com a economia em queda livre, a popularidade de Nkrumah também decresceu. Um golpe militar colocou um ponto final na era Nkrumah, quando o Presidente se ausentou do país para uma visita de Estado à China, em 1966.

Ghana Kwame NkrumahKwame Nkrumah é lembrado como um herói da luta contra o colonialismo

Legado cada vez mais esquecido?

Hoje a imagem de Kwame Nkrumah é mais positiva: Os observadores dizem que o líder histórico contribuiu de maneira decisiva para que o Gana goze atualmente de uma certa estabilidade política.

“O legado mais importante de Nkrumah é o patriotismo e o nacionalismo que ele incutiu no povo enquanto esteve no poder”, diz o politólogo Atsu Aryee. “É esta noção de que somos todos ganeses, que temos um país e que é preciso manter a estabilidade.”

Mas, embora muitas crianças e jovens continuem a visitar o mausoléu de Kwame Nkrumah em Accra, poucas parecem compreender o seu legado: “Nkrumah ainda é um nome importante no Gana, pois conduziu o Gana à independência. Mas muitos jovens conhecem apenas o nome e já não conhecem as suas políticas enquanto Presidente e primeiro-ministro”, afirma Burkhardt Hellemann, chefe do escritório da fundação alemã Konrad Adenauer na capital do Gana, próxima ao partido no poder na Alemanha, a CDU.

“Ainda dá para ver que o nome de Nkrumah tem alguma influência, mas as suas políticas pouco ou nada influenciam os debates políticos deste país hoje em dia”, diz. O partido criado por Nkrumah em 1949, o Partido da Convenção do Povo (CPP, na sigla em inglês) desempenha hoje um papel menor na arena política ganesa.


Ainda assim, muitos na África subsaariana continuam a lembrar o legado de Nkrumah. Em 2004, a revista “New African” pediu aos leitores para elegerem os maiores líderes africanos de todos os tempos e Nkrumah ficou em segundo lugar, atrás do ex-Presidente sul-africano e líder da luta anti-apartheid Nelson Mandela.

Nkrumah defendia uma união pan-africana para contrabalançar a influência ocidental. Ele foi um dos fundadores da Organização da Unidade Africana, predecessora da União Africana (UA).

“Ainda se fala dos conceitos de Nkrumah nos corredores da UA”, conta o historiador nigeriano Toyin Falola.

Mas, apesar de a União ter hoje mais influência no continente, a concretização da ideia de Nkrumah de criar uns “Estados Unidos de África” está muito longe, sublinha Falola.

“Depois de Mbeki e Obasanjo saírem, não há líderes africanos dinâmicos que advoguem a ideia. Os países parecem interessar-se apenas nos seus assuntos, concentrando-se na sua política interna, preocupados com o declínio das suas economias. Portanto, a ideia do pan-africanismo foi tirada de cima da mesa.”

http://www.dw.com/pt-002/gana-aos-60-anos-lembrar-kwame-nkrumah/a-37819580

Jovens descontentes insurgem contra hierarcas africana

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Nairóbi, 16 dez (EFE).- A onda de descontentamento social que começou a florescer há alguns anos ganhou força em 2016 em diversas regiões da África Subsaariana, onde os jovens se sentem enganados por regimes autoritários de líderes que uma vez lutaram para libertar seus países.
 
As ruas da África do Sul foram tomadas este ano por estudantes revoltados com um governo que não garante educação a todas as classes sociais, por cidadãos fartos da corrupção que afeta a administração de seu presidente, Jacob Zuma, atual líder do partido que terminou, precisamente, com o apartheid.
 
 
 
“O descontentamento popular com o Congresso Nacional Africano (no poder na África do Sul desde o fim do sistema racista) está vinculada a um sentimento de setores que estão fartos dos regimes corruptos”, diz o Instituto para Estudos de Segurança (ISS, em inglês).
 
A frustração com o autoritarismo, a falta de transparência e de ambição para melhorar a vida do povo levou à mudança em 2014 em Burkina Fasso, que ainda hoje segue inspirando os movimentos populares que cruzam o continente, com sucesso irregular e diferentes motivações.
 
No sul, alguns daqueles que um dia foram heróis contra a opressão colonial se transformaram em velhos presidentes que se negam a ceder o posto e violam diariamente os direitos de seus cidadãos.
 
Robert Mugabe, o nonagenário presidente do Zimbábue, se transformou em um herói africano após favorecer a reconciliação no fim da guerra civil de seu país.
 
Três décadas depois, não só ostenta a honra de ser o líder mais idoso do mundo, mas o de ter imergido o antigo celeiro da África em um abismo econômico e institucional que suscitou uma violenta resposta social sem precedentes.
 
Nos vizinhos Angola e Moçambique, as forças que um dia lideraram movimentos de libertação (o Movimento Popular de Libertação de Angola e a Frente de Libertação de Moçambique) se transformaram em aparatos repressores da oposição e dos cidadãos.
 
“Os jovens estão acusando aqueles que estiveram no poder desde a independência de acumularem riqueza através da corrupção e de não fazerem nada para aliviar a pobreza”, enfatiza o ISS.
 
A origem deste sentimento tem uma explicação simples para o diretor para a África do observatório britânico Chatham House, Alex Vines: os eleitores jovens cresceram alheios aos dias do colonialismo, mas sofrem diariamente com o desemprego e a desigualdade.
 
“Foram incapazes de encontrar emprego e oportunidades e de expandir a riqueza, o que fez com que as desigualdades aumentassem, e os hierarcas do partido se tornaram muito ricos”, disse Vines em Pretória, na África do Sul.
 
Mais ao norte, a falta de eleições livres e justas estão alimentando os protestos: Uganda, Burundi, República Democrática do Congo e Etiópia viveram este ano violentos movimentos de contestação a seus líderes, que resistem a deixar seus cargos, passando por cima das leis.
 
Durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o atleta Feyisa Lelisa cruzou os braços no ar ao terminar em segundo lugar e conquistar a medalha de prata na maratona, um gesto que denunciava a repressão do governo da Etiópia contra a etnia oromo durante a maior onda de protestos no país.
 
Os oromo, assim como os muitos jovens que pagaram com suas vidas em outros países africanos, não reivindicam apenas mais democracia, enfraquecida pela falta de uma tradição eleitoral e pelo neopatrimonialismo, mas, sobretudo, uma “vida melhor”.
 
“Estamos determinados a impulsionar uma solidariedade e unidade dos povos da África para construir o futuro que queremos: o direito à paz, à inclusão social e à prosperidade compartilhada”, adverte a denominada “Declaração de Kilimanjaro”, adotada em uma cúpula extraordinária em agosto em Arusha (Tanzânia).
 
Naquela reunião, grupos da sociedade civil, religiosos, sindicatos, mulheres, jovens e parlamentares tomaram a decisão de “construir um movimento pan-africano que reconheça os direitos e liberdades” do povo deste continente.
 
Um movimento que, mais uma vez, ultrapassa as fronteiras das diferentes nações africanas para não mais libertá-los do jugo colonial, mas de seus novos opressores: dirigentes que, na maioria dos casos, sequer puderam escolher.