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O que os jornais sul africanos estão escrevendo sobre as queimadas na Amazônia

queimadaEnquanto Bolsonaro incinera a Amazônia, ações urgentes são necessárias para a justiça climática

Mary Galvin , Patrick Bond5 de set de 2019 às 00:00

A queima da Amazônia é o sinal mais claro de que a busca capitalista por lucros – condenando as “externalidades” ambientais – está na raiz da crise climática. (Reuters / Ricardo Moraes)

 

 

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A África do Sul precisava de outro lembrete de alto nível sobre o caos climático, depois da seca na Cidade do Cabo em 2015 e 2018; os dois ciclones de março a abril que devastaram Moçambique, Malawi e Zimbábue e mataram mais de 1 000 de nossos vizinhos; e a “Durban Rain Bomb” da segunda-feira de Páscoa, que caiu 170 mm naquele dia, deixando 71 pessoas mortas?

A menos que tomemos medidas, o clima extremo será amplificado ainda mais, por um inferno extremo. Atualmente, mais de 72.000 incêndios estão acontecendo na Amazônia, a maior e mais biodiversa floresta tropical do mundo, com 55 milhões de anos. As vidas dos povos indígenas que dependem da floresta receberam atenção limitada, com o foco mundial principalmente nas mudanças climáticas.
A Amazônia é um sumidouro de carbono que armazena dióxido de carbono e a destruição da floresta libera quantidades enormes na atmosfera.

O desmatamento na Amazônia havia caído 70% entre 2004 e 2012, graças à restrição do governo do Partido dos Trabalhadores ao plantio, exploração madeireira e mineração abusivas. O Brasil adotou leis que protegem metade da Amazônia e seus povos indígenas, o que significa que 80% da floresta ainda está de pé. No entanto, 30% dessa área não está sob proteção legal.

O novo presidente de direita do Brasil, Jair Bolsanaro, está destruindo a Amazônia para beneficiar as elites que o elegeram nessa plataforma. O resultado desse ecocídio é um aumento de 84% nos incêndios em 2019 em comparação a 2018. Os incêndios foram principalmente intencionalmente para limpar terras para fazendas de gado, fazendas de soja e plantações de óleo de palma.

Isso aumenta a probabilidade de mudança climática descontrolada. Se perdermos mais um quinto da Amazônia, um ciclo de “retorno” será acionado: uma cascata de colapso que está além da intervenção humana. No geral, a floresta amazônica possui cerca de 90 bilhões de toneladas de carbono, o que equivaleria a uma década de emissões globais de carbono na atmosfera.

A tarefa imediata é apagar os incêndios. A crescente intensidade da pressão global está finalmente forçando Bolsanaro a agir. Ele está respondendo como uma criança petulante, típica da nova marca de líderes extremamente conservadores, acusando organizações não-governamentais de tentar fazê-lo parecer ruim e os líderes mundiais de insultá-lo. Ele está afirmando que o mundo está minando a soberania do Brasil sobre a Amazônia – não dada incorretamente o que está em jogo – e exigiu um pedido de desculpas do presidente francês Emmanuel Macron antes de aceitar a insignificante oferta de ajuda de US $ 20 milhões do G7. Finalmente, na última sexta-feira, Bolsonaro convocou 43 mil soldados e dois aviões para ajudar a apagar incêndios e impedir o desmatamento ilegal.

O que pode ampliar ainda mais a pressão? Nas mídias sociais, as pessoas postam pedidos de boicote aos produtos produzidos em terras desmatadas. Deveríamos parar de comer carne alimentada por essas plantações de soja e reduzir o consumo de produtos de papel. O mundo precisa demonstrar um corte dramático na demanda, porque normalmente leva anos para os mercados se ajustarem. Além de declarações generalizadas sobre o vegetarianismo, outra abordagem seria as sanções das pessoas contra os produtos brasileiros, a fim de punir as empresas que apóiam o governo Bolsonaro. O inferno na Amazônia é apenas uma razão, pois Bolsonaro, como o presidente dos EUA, Donald Trump, merece sanções por muitos outros motivos.

Segundo Maria Luísa Mendonça, diretora da Rede de Justiça Social e Direitos Humanos no Brasil, “a comunidade internacional precisa pedir um boicote às principais mercadorias produzidas pelo agronegócio: carne bovina, soja, cana e madeira. Acho que essa é a única mensagem que terá efeito em pressionar a administração Bolsonaro, porque ele não acredita nas mudanças climáticas e está implementando políticas que estão dando sinal verde para o desmatamento. ”

Em meados de novembro, o presidente Cyril Ramaphosa deve se juntar à cúpula do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (Brics), que Bolsonaro sediará em Brasília – e qual a melhor hora para um boicote contra um homem que, em de qualquer forma, prioriza sua aliança com o colega Trump negador do clima antes de outras considerações?

Esses são alguns dos “palitos” que precisamos usar, mas outros sugerem que damos a Bolsonaro mais “cenouras”. Alguns banqueiros, burocratas e até organizações não-governamentais conservadoras acreditam na “natureza mercantilizante”, compensando o governo brasileiro por proteger os ativos naturais como “compensações de carbono”. Poderíamos pagar ao Brasil para não destruir a floresta tropical mais importante do mundo?

Surgiram esquemas de incentivos equivocados para proteger a floresta, como o ‘Fundo Amazônia’ de 2010, criado pelos governos da Noruega e da Alemanha, desperdiçando milhões em pagamentos a grandes e médios agricultores. Os chamados financiamento das Nações Unidas ‘Redução de Emissões por Degradação e Desmatamento de Florestas’ (‘REDD’) e esquemas similares de compensação são vítimas de todos os tipos de fraudes, sem mencionar incêndios em massa (como exposto em https: // redd-monitor .org /).

Questionada sobre sua opinião na televisão Democracy Now , Mendonça responde: “Ajudando o governo Bolsonaro? Eu não acho que isso vai ajudar muito. Acho que precisamos apoiar comunidades indígenas, pequenos agricultores, que estão protegendo suas terras e que produzem mais de 70% dos alimentos para nossos mercados internos. ”Um grupo respeitado que está fazendo exatamente isso é o Amazon Watch .

Mais recursos e solidariedade para com os defensores do clima são vitais para combater a lógica econômica que impulsiona os destruidores do clima. Os lucros agro-corporativos da Amazônia valem cerca de US $ 20 bilhões por ano. Surgiram esquemas de incentivos equivocados, como o “Fundo Amazônia” de 2010, criado pelos governos da Noruega e da Alemanha, que desperdiçou milhões em pagamentos a grandes e médios agricultores. Os chamados financiamentos das Nações Unidas para Redução de Emissões por Degradação e Desmatamento de Florestas (Redd) e esquemas similares de compensação são vítimas de todos os tipos de golpes, para não mencionar incêndios maciços, como exposto no Redd-Monitor .

Aqueles na África do Sul que se preocupam com o clima e os direitos dos povos indígenas têm oportunidades de se juntar à luta. O dia 5 de setembro é um dia global de ação de protesto, incluindo vigílias nas embaixadas brasileiras, como a da 152 Dallas Avenue, em Pretória. No dia anterior, o departamento de relações internacionais da Universidade de Witwatersrand estava realizando um workshop sobre a Carta da Justiça Climática do Povo.

Então, em 20 de setembro, é esperada uma greve climática sem precedentes às sextas-feiras para o futuro em todos os países, pois as crianças lideram o mundo exigindo cortes imediatos de emissões e rápida adoção de energia renovável a 100%, além de investimentos maciços em uma economia e sociedade verdes. Os locais de protesto na África do Sul incluem a sede da Sasol em Sandton, o Conselho da Cidade de Joburg e a legislatura provincial de Gauteng, entre outros.

Devido à dependência herdada do “complexo energético mineral” viciado em carvão do apartheid, a média da África do Sul é o 11º poluidor mais alto do mundo entre os países com mais de 10 milhões de pessoas. Nessa categoria, nossas emissões por pessoa e por unidade de produção econômica são a terceira mais alta da Terra (atrás apenas do Cazaquistão e da República Tcheca). Portanto, temos uma obrigação especial de agir.

O imposto de carbono aplicado pelo tesouro à grande indústria em junho foi vergonhosamente simbólico, em US $ 0,43 por tonelada, comparado ao imposto sueco de US $ 132 por tonelada.

E porque, devido ao apartheid e ao patriarcado, a grande maioria dos benefícios da indústria do carvão, da fundição e do alto carbono foi amplamente para a minoria rica, branca e masculina da África do Sul, essa luta é uma extensão lógica de campanhas locais de longa data para equidade racial, de gênero e de classe.

Mas, como lembra a incansável ativista Greta Thunberg, de 16 anos, agora é uma questão de justiça geracional – e nossos filhos estão absolutamente corretos em demonstrar raiva contra os adultos por, como eles dizem, roubar nosso futuro.

A queima da Amazônia é o sinal mais claro de que a busca capitalista por lucros – condenando as “externalidades” ambientais – está na raiz da crise climática. Em vez de se apegar ao que sabemos e aos confortos que temos ou ansiamos, aqueles de nós com um estilo de vida confortável precisam questionar a estrutura de poder dominada pela empresa e, de uma maneira pessoal, se comprometer com uma existência que transcende o desejo materialista do consumidor. guloseimas.

Mas e todos os trabalhadores e comunidades dependentes da indústria de carvão e alto carbono? Todos nós precisamos imaginar e exigir uma genuína transição justa dos meios de subsistência ameaçadores do clima, não apenas a retórica vazia dos políticos. Um exemplo disso é a campanha Million Climate Jobs , que, se implementada adequadamente, até o sindicato dos metalúrgicos gigantes apoiará .

A queima da Amazônia é o sinal mais claro de que a busca capitalista por lucros está na raiz da crise climática. Em vez de se apegar ao que sabemos e aos confortos que temos ou ansiamos, aqueles de nós com um estilo de vida confortável precisam questionar a estrutura de poder dominada pela empresa e, de uma maneira pessoal, se comprometer com uma existência que transcende o desejo materialista de consumidor guloseimas.

Para o bem de nosso futuro comum, a resposta à catástrofe climática deve ser urgente, racional e justa. Os líderes e a sociedade sul-africanos devem assumir uma posição particularmente forte, porque há muito em jogo, porque devemos muita “dívida climática” com nossos filhos e vizinhos e porque temos a capacidade de tomar ações significativas, pessoal e politicamente.

Mary Galvin e Patrick Bond são ativistas acadêmicos que trabalham em questões de justiça climática, com base no Departamento de Antropologia e Estudos de Desenvolvimento da Universidade de Joanesburgo e na Escola de Governança Wits, respectivamente

 

Fonte: https://mg.co.za/article/2019-09-05-00-as-bolsonaro-incinerates-the-amazon-urgent-action-is-needed-for-climate-justice

O DIA DA VALDETE

b2868338-36cf-4a58-a213-d6e5db6b7812No dia 4 de julho de 2019 a história da luta contra o racismo em São Paulo será considerado um grande dia. Vivemos  um período de muito pessimismo, diante de um quadro adverso para implementação de políticas para promoção da igualdade racial em   governos estaduais e federal, o que occorreu hoje em São Paulo é digno de registro .

Graças a competente  articulação política de gestoras negras do município de São Paulo, podemos celebrar a realização do evento :“ A gestão da organização na atenção das doenças crônicas: A Hipertensão arterial e o Diabete mellitus na População Negra.” Promovido para capacitar, informar sobre ahipertensão arterial eo diabete mellitus quase mil técnicos do município de São Paulo.261f258e-9818-4e7d-b9fa-65101470d40f

Um evento sonhado, esperado, articulado pacientemente por  dez anos, pela enfermeira Valdete Ferreira dos Santos- Assessora Técnica dae Saúde da População Negra do Município de São Paulo, que contou com o apoio da Subsecretaria de Direitos Humanos Elisa Lucas.d8bfe4d1-e054-4bba-86b2-1577d0138f19

O professor e pesquisador Luis Eduardo, do Instituto de Saúde da Secretaria Estadual da Saúde,  comentava  entusiasmado a realização de um evento com quase mil gestores da Atenção Básica da Secretaria da Saúde de São Paulo. Com um objetivo claro de informar sobre linha de  cuidados sobre a hipertensão arterial e as doenças doenças cardiovasculares renais na população negra.f00d06a0-3346-4913-b88a-1c716a3332d2

Um passo muito importante porque ele esta vindo articulado com linha de cuidado, protocolo de atendimento e formaçao dos médicos sobre a prescriçao medicamentosa para hipertensão na população negra.

As doenças do aparelho circulatório representam um importante problema de saúde pública no Brasil. Por sua vez, o diabetes mellitus (DM) constitui-se em um dos principais fatores de risco para as doenças do aparelho circulatório. Entre as conseqüências mais freqüentes do diabete mellitus encontram-se o infarto agudo do miocárdio (IAM), o acidente vascular encefálico (AVE), a insuficiência renal crônica, as amputações de pés e pernas, a cegueira definitiva, os abortos e as mortes perinatais. f6473117-ec9c-4a3d-a105-cefb6da78f25

É um processo complexo e que exigiu muita paciência e dedicação, pois a apresentação de dados durante a manhã chuvosa dessa quinta feira surpreendeu positivamente e deu esperança na continuidade da formação de médicos, enfermeiros e técnicos na linha de cuidados sobre a hipertensão e o diabete mellitus . Graças a   presença maciça de coordenadores regionais . gerentes e técnicos de todas as unidades de saúde da atenção básica do maior município da América Latina.

Um dia para ficar na história na luta em defesa da vida da população negra de São Paulo

OEA recebe movimentos negros do Brasil

Essa será a primeira vez desde a Conferência de Durban, na África do Sul, em 2001, que missão oficial brasileira composta exclusivamente por movimentos negros participa de um encontro para fazer denúncia internacional

OEA recebe 14 membros de movimentos negros em maio | Foto: Rosa Caldeira/Ponte Jornalismo

A CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) da OEA (Organização dos Estados Americanos) vai receber 14 ativistas e militantes dos movimentos negros brasileiros para falar sobre o pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que pretende modificar o sistema penal e denunciar violações dos direitos da população negra no Brasil. A comitiva será composta por 10 mulheres e 4 homens de 7 estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Goiás, Pará e Maranhão.

Sediado na Universidade de West Indies, em Kingston, Jamaica o evento celebra o marco do 172º Período de Sessões e a participação do grupo brasileiro será em 9 de maio. A última participação em missão oficial brasileira exclusiva dos movimentos negros em fóruns de denúncia internacional aconteceu em 2001, na África do Sul, durante a Conferência de Durban – um movimento protagonizado por mulheres negras latino americanas, que, na época, teve como uma das líderes Sueli Carneiro.

Em entrevista à Ponte, Iêda Leal de Souza, coordenadora nacional do MNU (Movimento Negro Unificado), que participará da audiência pública, enfatiza a importância dos movimentos negros se unirem e construírem debates internacionais como este da OEA. “A luta contra o racismo não está sendo fácil no nosso país. Esse conjunto de mulheres e homens indo para essa reunião importante, não só fazer as denúncias da forma que o negro vem sendo tratado nesse país, mas, também para gente reunir forças para continuar lutando e decidir os caminhos que vamos traçar daqui pra frente”, defende Iêda.

Para ela, o caminho está na reorganização do movimento e na vigilância contínua. “Vamos redobrar a nossa vigilância, vamos continuar lutando, mas temos a necessidade de incluir novas parcerias e espaços pra gente denunciar e tirar situações bastantes positivas para ter um diálogo com o governo brasileiro e continuar reafirmando que o negro nesse país vai ter que ter muito respeito de quem dirige e a compreensão de que nós somos uma nação grandiosa, somos 60% dessa população, por isso a necessidade da nossa reorganização e desses diálogos internacionais”, argumenta a coordenadora do MNU.

Iêda explica também o que o pacote anticrime representa para o Movimento Negro Unificado. “De fato, ele representa a criminalização do povo. Não se apresentou nada de novo, não se tem nada pedagógico. O que tem, na verdade, é uma coisa punitiva. E esse punitivismo dá crédito para quem poderia ajudar na segurança das pessoas, mas na verdade diz para elas que elas estão autorizadas a continuar exterminando o povo negro. Nós não podemos concordar com isso”, critica Souza.

O documento protocolado à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), em fevereiro de 2019, teve assinatura de 39 entidades da sociedade civil organizada e representantes de movimentos negros e periféricos. O ofício pede um posicionamento do órgão sobre as medidas e que seja disponibilizado um observador internacional para acompanhar o caso no Brasil. Entre os pontos do projeto que mais colocam em risco a população negra, as entidades destacam a proposta de prisão em segunda instância, que aumentará o número de presos no país, e o menor rigor na punição e apuração de casos de homicídio cometidos por agentes de segurança do Estado.

“O conjunto de propostas, que visa alterar leis federais na área penal, processual penal e de combate à violência, tem gerado, desde sua apresentação pública em 4 de fevereiro de 2019, amplo debate e muitas críticas por parte de juristas, acadêmicos, especialistas e sobretudo das organizações da sociedade civil. A gravidade que tais modificações podem representar à segurança pública e à vida de milhares de cidadãos e cidadãs brasileiras, sobretudo da população negra e pobre, nos motiva a apresentar este documento a esta Comissão”, explica o texto do ofício, que começa com uma frase do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de incentivo à violência de Estado: “Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim! O policial que não atira em ninguém e atiram nele não é policial.”

Mia Couto; “A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

O escritor moçambicano conversa com o EL PAÍS sobre escrita, política e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros

Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. “Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida”, conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.

Mia Couto descobriu-se poeta aos 14 anos — o primeiro poema foi feito para o pai e publicado sem a autorização do jovem escritor no Diário da Beira, algo que, à época, lhe fez querer “morrer de vergonha”. A prosa chegou anos mais tarde, quando começou a trabalhar como repórter em um jornal, como infiltrado da luta clandestina pela independência de Moçambique. “Aí comecei a ter a tentação de escrever, de inventar mundos paralelos”, lembra. Quando conheceu a lírica de João Guimarães Rosa, soube que ia por bom caminho. O escritor moçambicano visitou recentemente diversas capitais do Brasil para falar sobre a obra-prima do brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956), que acaba de ganhar uma nova edição da Companhia das Letras. Numa dessas vindas, conversou com o EL PAÍS, em São Paulo, sobre a influência desse livro em sua escrita, sexismo na literatura e sobre como as palavras reinventam-se e seguem vivas, firmes, mesmo quando tudo ao redor se destrói.

Pergunta. Quando você conheceu a literatura de Guimarães Rosa?

Resposta.  Ele chegou a mim através de Luandino Vieira, um escritor angolano que me influenciou muito. Meu primeiro livro de contos foi muito marcado pela escrita do Luandino, que deixava que as vozes da rua entrassem na história e fossem elas próprias personagens. E um dia ele falou comigo e disse: “Vai até a fonte, que está no Brasil. Eu mesmo fui influenciado pelo Guimarães Rosa”. Em 1985, quando Moçambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu não conseguia ter ligação com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotocópia d’A terceira margem do rio. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a própria vocação de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimarães. Depois fiquei anos tentando voltar e encontrá-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a Grande Sertão: Veredas. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro não foi fácil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. É como se de repente houvesse uma revelação, não sobre o que ele estava contando, mas sobre mim próprio.

P. Qual foi essa revelação?

R.  O que o Guimarães fez foi uma abertura de caminho, uma espécie de luz verde, uma autorização, dizendo “você pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim”, deixando que as vozes chamadas não cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na história e no próprio narrador. Quando cheguei a Grande Sertão, eu já estava embriagado dessa literatura.

P. Dar esse protagonismo às vozes das personagens, como se brotassem sozinhas das páginas do livro, é a grande contribuição de Guimarães Rosa à literatura lusófona?

R. Eu acho que tudo o que ele faz é quase um milagre, principalmente tendo o pé em uma coisa muito perigosa, que é o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debruçando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interrogações da humanidade. Do ponto de vista da literatura lusófona africana, foi uma contribuição mais ao nível do tratamento linguístico, ver como ele contava aquilo por meio de uma linguagem poética.

P.  Qual seu trecho favorito de Grande Sertão?

R. É o momento em que o Riobaldo sobe numa grande pedra, olha para o vão abaixo e diz que parece que é como se a gente tivesse um brinquedo, que é o mundo. Essa coisa de transformar o mundo em uma coisa com a qual podemos brincar é uma espécie de revolução de uma infância que foi tolhida. Isso me tocou.

P. Vê similaridades entre sua obra e a de Guimarães Rosa?

“Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor”

R.  Acho que não tem muita coisa. Só isso que eu, agora já menos, mas em um certo momento deixei-me encantar por essa brincriação, que era jogar com as palavras, reinventá-las, muito motivado por uma coisa que vem de dentro. Isto é, os moçambicanos têm vivas e falam em seu cotidiano outras línguas que não o português, e há um momento muito feliz para um escritor, que é perceber que sua língua não está acabada, não está feita. Por exemplo, eu todo dia recolho palavras novas na rua, palavras que não são criações literárias. Isso é um alimento muito grande. Por exemplo, as pessoas dizem arrumário para dizer armário. A palavra arrumário tem muito mais sentido, não só porque é o lugar onde arrumamos as coisas, mas porque, se revisitarmos a história, o armário era o lugar onde se guardavam as armas. Essa relação da língua com uma coisa que é nossa, mas não é, que tem profundidade e história, é muito salutar para nos reportarmos ao que Guimarães Rosa dizia sobre o malefício de uma linguagem funcional, uma linguagem que serve só para uma comunicação imediata.

P. O contato com a literatura brasileira tem ampliado seu vocabulário de brincriação?

R. Sim, porque o Brasil tem esse desafio de dizer sua cultura em uma língua que era a língua do outro. O país teve que encontrar isso, então há uma relação muito mais criativa, de fruição da língua portuguesa, mais do que existe em Portugal, onde o idioma é tão próprio que é difícil brincar com ele.

P. Quais são os brasileiros e brasileiras que você mais lê?

R. Eu sou da poesia e fico estagnado no tempo, então sou muito ligado também ao Carlos Drummond de Andrade, ao João Cabral de Melo Neto mais ainda, à Hilda Hilst, Manoel de Barros…

P. Do que escreveria se fosse brasileiro?

R. Não sei. Vejo, sobretudo aqui em São Paulo, uma nova geração que vive um lado da escrita muito curioso, uma escrita sem lugar, que fala sobre o próprio drama do escritor, que não precisa tanto de uma história. Eu não seria capaz de fazer isso, porque eu teria que viver em uma grande cidade como esta, o que me arrancaria da relação com a terra, a terra como se fosse uma criatura viva. Eu teria que escrever sobre o sertão, como o Guimarães (risos), porque ele conseguiu essa relação com um lugar que não é lugar nenhum, que ele inventou a partir de vozes que dizem coisas poderosas.

P. Você já disse que na África não há realismo mágico, mas sim um “realismo real”. Acredita que acontece o mesmo no Brasil?

R.  Vejo muito a África nas pessoas daqui, mesmo naquelas que, aparentemente, não têm relação histórica com o continente. A África impregnou muito o Brasil, desde a relação com o tempo, com o corpo, essa fronteira muito fluída entre a rua e a casa, o íntimo e o público, não é? A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam.

Podemos escrever uns sobre os outros. Antes, havia uma interdição: os africanos que escrevessem sobre Europa ou América não eram considerados, porque existia aquela obrigação de o africano ser “autêntico”. Não sabemos o que é isso de ser “autêntico”, mas, para atender aos critérios de aceitação da crítica, pediam uma “África tradicional”, tinha que ter uma fogueira, uma feiticeira e esse tipo de estereótipo que identifica uma “África autêntica”. A nova geração de escritores africanos libertou-se dessa africanidade imposta desde fora e hoje há muitos escrevendo sobre o mundo inteiro.

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Mia Couto, durante a entrevista. CAMILA SVENSON

Um africano pode escrever sobre o Brasil, mas não é o meu caso. Porque eu transportaria tanto a minha infância para qualquer lugar que eu fosse, que estaria sempre escrevendo num mesmo lugar, que é minha cidade. Agora que aconteceu o ciclone, percebi como isso tudo que era um chão que parecia estável, que parecia definitivo, de repente pode fazer-se frágil. Entrei em pânico, porque pensei que tinha perdido meu lugar de infância, mas quando visitei a Beira, percebi que uma cidade é feita, sobretudo, de pessoas. E as pessoas estavam ali, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar histórias. Ali eu percebi que não, não acabou.

P. Uma parte de seu futuro romance se passa em uma igreja de Beira, que foi destruída pelo ciclone Idai. De que modo isso lhe afetou?

R. Agora que tive tempo de pensar minha relação com a escrita do Guimarães Rosa, vi que, no fundo, o que ele entrega é essa possibilidade nossa de fazermos de um lugar uma coisa sonhada, alguma coisa que é mítica, que não faz parte da geografia. Percebi que essa minha cidade é uma cidade que inventei. Aliás, isso é muito concreto, porque quando estou a falar com meus irmãos com muito entusiasmo sobre coisas que se passaram na nossa infância, eles me dizem “não foi assim, nunca aconteceu isso”. Eu ignoro, porque, para mim, aconteceu.

P. Você pensou em contar as histórias de sobrevivência de Beira, tanto das pessoas quanto de sua cultura, depois do ciclone?

R. De repente, tenho que repensar o romance que já comecei, e tenho um certo pudor em me aproveitar da circunstância dramática. Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor. Se eu faço qualquer coisa em relação a esse tema, será como cidadão, ajudando os outros, sem interesse literário. Pensei, sim, em fazer um registro daquelas pessoas foram heróis, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca terão protagonismo. Penso em fazer isso de maneira prática e didática para contar aos jovens que há gente que não tem rosto nem nome, mas que é capaz de gestos como esses. Eu e minha família [por meio da Fundação Mia Couto] faremos um livrinho com o depoimento dessas pessoas.

P. O romance, então, está provisoriamente suspenso?

R. Tenho que repensá-lo. E eu cheguei a um momento que é muito triste para mim, que é quando já sei o que vai acontecer, então adio o máximo possível. Como ter vontade de escrever se eu já sei o que é a história?

P. A nova obra já tem nome?

R.   Eu vou dando nome aos livros à medida que eles vão se revelando. O nome que estava vivo, que me guiava, era um nome quase premonitório em relação a essa situação, porque era algo como Antes de nascer, vi rios e mares. E, de fato, foram rios e mares que engoliram aquela cidade.

P. Você diz-se surpreso com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro à Moçambique depois da tragédia, considerando os laços culturais e históricos entre ambos países. Considerou-a pequena. [Além da ajuda financeira, o Governo enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho, e decidiu manter a equipe de salvamento no país depois que o ciclone Kenneth, o segundo desde março, atingiu o norte de Moçambique nas últimas semanas].

R.  Sim, mas gostaria de dizer uma coisa também para me defender, porque parece que é pouco polido da minha parte, estando Moçambique a receber e eu a dizer que é pouco. Mas realmente esperávamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fração dessa gente que telefonou e escreveu já cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro.

“A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

Mas acho que mais grave até do que o Governo dar pouco, foi como a notícia chegou tão tardiamente aqui. Falei com amigos brasileiros que só uma semana depois da tragédia acordaram para uma coisa que, em outros países, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, já contavam. Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distantes, já estivemos mais próximos.

Quando eu cheguei aqui há 15 anos, a África ainda era muito mistificada, mas isso mudou com políticas de aproximação do Governo Lula, por exemplo. Por outro lado, o próprio Brasil é muito grande para perceber o que está a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que é difícil olhar para fora, e esse fora tem um critério, obviamente: estar mais próximo dos Estados Unidos e da Europa. O país não se reconhece nem na chamada América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente.

P. Qual o papel da literatura para o país reconhecer a si mesmo?

R. Em Moçambique, como a África como “grande mãe” está sempre tão presente, tivemos que desmistificá-la e perceber que há várias Áfricas, várias nações, e contar essa diversidade.

P.  Em Terra Sonâmbula, você conta a guerra civil moçambicana e defende que a literatura tem a missão de revisitar o passado, mas sem a tentação de atribuir culpas. De que maneira política e literatura relacionam-se e como a primeira deve refletir a atualidade?

R. Tanto a política quanto a literatura são construções narrativas. Mas a construção da narrativa literária é uma mentira que não mente, enquanto a política faz o inverso. É discutir a verdade, pensar como hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio. A literatura pode mostrar esses que são chamados “os outros” —essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos. A literatura lembra a importância do diálogo. Nós chegamos a essa conclusão em Moçambique depois de uma guerra civil que começou com a diabolização do outro, até o ponto em que eu não falava com determinada pessoa só porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milhão de mortos depois, a gente viu que teríamos que conversar.

P. É possível escrever sobre o passado sem apontar culpas mesmo revisitando episódios como, por exemplo, uma ditadura militar?

R. O que a literatura pode fazer é mostrar que aquele que estava do outro lado, apesar de tudo, mesmo que fosse um torturador, por exemplo, tinha conflitos internos. Que ele não era assim porque tinha um demônio dentro de si. Mas isso não tem a ver com o que podemos ajuizar como justificável. A literatura não pode atenuar o peso que as vítimas têm. O sangue que essa gente derramou não pode ser lavado por meio da literatura.

P. Aos 17 anos, você abandonou a faculdade de Medicina para alistar-se à luta clandestina pela independência de Moçambique. De que maneira a militância política influenciou seu trabalho? Quando escreve, você ainda é aquele rapaz de 17 anos?

R.  Eu acho que sou sempre, mesmo quando não estou escrevendo. Aquela entrega a uma causa me marcou muito, porque eu tinha a crença absoluta de que estava fazendo uma coisa que não era por mim, mas pelos outros, para mudar o mundo, mesmo que uma parte desse mundo tombasse em cima de mim, porque eu fazia parte de uma minoria privilegiada e eu queria derrubar o sistema que sustentava esse privilégio. Era uma coisa que, para mim, não sendo eu religioso e tendo uma formação como ateu, não tenha escapado a essa ideia cristã de me redimir com qualquer coisa que traga como pecado original, não sei. Eu me alistei porque havia também uma razão moral. Nosso lema era “somos os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios”. Isso foi verdade nos primeiros anos. Quando chegou a guerra civil, não havia o que comer. Eu estava na fila, esperando horas para uma pequena loja abrir e, muitas vezes, não havia nada dentro. Não quero nunca mais passar por essa experiência. Eu saía de casa todos os dias sem saber o que ia trazer de comer para os meus filhos, e isso durou não um dia ou um mês, mas anos. Só suportamos isso porque sabíamos que estávamos juntos.

P. Por falar em privilégios, quando se fala hoje em literatura africana, temos autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, mas os nomes mais venerados ainda são aqueles como Mia Couto, José Eduardo Agualusa ou J. M. Coetzee. É preciso ser um homem branco para ser considerado escritor na África?

R.  Isso vai acabar rapidamente. É uma herança histórica que a atual geração de escritores africanos vai enterrar. Eu e Agualusa somos resultados desse mundo em que nós [homens brancos] éramos os educados, os que recebíamos formação, mas isso já está mudando. Todos os escritores moçambicanos que eu conheço são negros. Alguns deles têm, realmente, grande mérito. Está a surgir em Moçambique e Angola uma educação para que as pessoas dominem a literatura e os instrumentos para escrever, então não é tanto uma questão política, nesse sentido.

Acredito que talvez haja, sim, a percepção de que eu e Agualusa, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha família criamos uma Fundação para promover a literatura entre jovens moçambicanos —e quando digo moçambicanos, automaticamente estou a dizer negros— e ajudá-los a publicar seus livros e construir espaços de debate literário.

Em relação ao sexismo, aí sim a luta é mais complicada. Estão vivos ainda preceitos e preconceitos que realmente afastam a mulher desse reconhecimento. Temos a Paulina Chiziane, que, felizmente, já está lançada no mundo e é bem aceita. Mas, no início, por ser mulher e por acreditar que uma mulher possa contar histórias e que possa falar de coisas da intimidade, da sexualidade, ela sofreu muito e quase fez um auto-exílio.

P. Seu nome é um dos mais celebrados quando se fala em literatura lusófona. Em 2013, você ganhou o Prêmio Camões, assim como José Saramago. Você sonha com honrarias maiores? O Nobel, talvez?

R. Não penso nisso, não. E, quando penso, penso que é impossível.

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/cultura/1555598858_754829.html

Mia Couto:Brsil se distancia da África

Mia Couto: ‘O Brasil voltou a virar as costas para a África’. Confira a entrevistaAutor moçambicano mais traduzido da história vem ao Recife para discutir sobre sua relação com Guimarães Rosa

 

Por: Emannuel Bento – Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/04/2019 08:01 Atualizado em: 15/04/2019 13:24

Foto: Mia Couto/Divulgação
Foto: Mia Couto/Divulgação

Mia Couto, o autor moçambicano mais traduzido da história, tem percorrido capitais de todo o Brasil para discutir sobre sua relação com João Guimarães Rosa, representante do modernismo e um dos maiores escritores brasileiros do século 20. Mas por que um intelectual da África para falar sobre um mineiro de apelo regionalista, que tinha o Sertão brasileiro como cenário favorito? Justamente para comprovar sua onipresença e atemporalidade. O Moçambique ainda estava imerso em uma longeva guerra civil pela independência quando Couto conheceu a obra de Rosa. O jovem conseguiu um exemplar – em xerox – de A terceira margem do rio (1962), que demarcou um “antes e depois” na sua perspectiva sobre o fazer literário.

A agenda de palestras de Mia Couto no Brasil é uma ação da Companhia das Letras para divulgar a nova edição de Grande Sertão: Veredas (552 páginas, R$ 84,90), a obra mais canônica de João. O evento de lançamento no Recife será amanhã, às 19h, no auditório G1 e G2 da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com mediação do jornalista Schneider Carpeggiani, editor do selo Suplemento Pernambuco. Os ingressos gratuitos foram disponibilizados na última sexta-feira e, devido à notoriedade do convidado, todos os 470 lugares já foram ocupados. Por isso, uma vídeo transmissão do evento será realizada.
O relançamento de Grande Sertão: Veredas conta com cronologia ilustrada, indicações de leituras e célebres ensaios publicados sobre o romance, escritos por nomes como Clarice Lispector, Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão e Silviano Santiago. O clássico acompanha o jagunço Riobaldo, sua relação ambígua com o personagem Diadorim e todo um contexto que nos leva a enxergar o Sertão como um local universal, que nos traz à tona um mergulho profundo na alma humana. “O Sertão é dentro da gente”, já diz a célebre frase da obra.

Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação
Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação

“Li Grande Sertão quando já tinha lido os outros livros do Guimarães e realmente custou-me entrar no livro. Aquilo me surgia como outra coisa. E Rosa sabia disso, ele próprio dizia que escreveu esse romance numa espécie de transe. Foi preciso insistir, mas valeu a pena”, revela Couto, em entrevista ao Viver.

Após o lançamento, ele continuará na capital pernambucana para participar do encontro literário Dois Dedos de Prosa, realizado na quarta-feira, às 9h, também na Unicap. A reunião pretende discutir sobre o “ser da linguagem”, em desdobramentos literários e ético-estéticos. Também busca promover um canal entre o autor e a recepção de suas obras, com reflexões para teoria literária e outras ciências da linguagem. Couto é um nome notório para discussões nesse sentido por ter contribuído significativamente para recriar a língua portuguesa, incorporando vocabulários e estruturas de Moçambique.
Sua narrativa se aproxima do realismo mágico, um movimento popular nas literaturas de língua latinas, com uma escrita que remete a Guimarães Rosa, mas também a Jorge Amado. É conhecido por um texto poético e profundo, onde cada frase tem muito a dizer. Nada está lá por acaso. Esse modelo marca sua extensa obra literária que inclui romances, crônicas, poesias e contos, com números publicados em mais de 22 países. Seu lançamento mais recente é O terrorista elegante e outras histórias (Editora Tusquets, 176 páginas), escrito junto com o angolano José Eduardo Agualusa. A publicação traz três peças e uma entrevista de Couto para Agualusa.
 
Entrevista – Mia Couto, escritor
 
Como o João Guimarães Rosa lhe influenciou?
Influenciou muito, mais do que qualquer outro autor do mundo. Porque ele me mostrou um caminho, me ajudou a resolver esse divórcio entre as vozes do meu mundo e a escrita. Foi o que ele fez: a sua linguagem poética colocou em diálogo as falas do sertanejo e a escrita urbana e erudita. Moçambique é um país que vive em absoluto na oralidade. Rosa me deu a licença poética que eu necessitava. Todos os contos são pequenas obras-primas. Talvez Sagarana tenha sido o menos surpreendente. Mas eu comecei pelas Primeiras estórias. E esse encontro me marcou definitivamente.
 
Em Grande Sertão, o personagem Diadorim representa as diversas ambiguidades e paradoxos. Ele é personificação do bem e do mal, do feminino e do masculino, da certeza e da dúvida. Concorda que seja uma característica que dialoga com a nossa “modernidade líquida”, em que a noção de verdade está sendo corrompida pelo mundo digital?
A grande literatura alimenta-se sempre dessas ambiguidades, dos mal entendidos e dos espaços cinzentos que ficam entre as grandes certezas. O livro é realmente muito atual. Mas tenho uma certa resistência na classificação dos tempos, como se fossem sucessões de mundos novos. A construção da mentira pelos poderes políticos não é uma novidade. Ela agora tem meios de difusão nunca antes vistos, justamente pelas redes sociais. De alguma forma, a história que aprendemos nas escolas já foi objeto de uma reconstrução, a partir dos interesses dominantes. Felizmente, hoje estamos mais atentos a essa manipulação.
 
Tem acompanhado a literatura contemporânea do Brasil? Como a enxerga?
Muito pouco, confesso. Esses livros não chegam a Moçambique, infelizmente. Do que conheço, quero ressaltar Julian Fuks. Há ali uma escrita densa e sólida, com um enorme domínio de um autor que ainda é bem jovem. Posso falar mais do Moçambique, onde há muita gente surgindo e alguns dos novos nomes são muito promissores. Estou muito feliz, pois houve tempo estagnado. A tendência dominante continua a ser a poesia. Mas também aqui há vozes absolutamente originais, mantendo uma inteligente aliança entre a originalidade e a crítica social.
Historicamente, consegue encontrar similaridades entre a literatura brasileira e a moçambicana (além da língua portuguesa)?
Não creio serem comparáveis. Mas existe uma descoberta de caminhos próprios que nos é comum. E aconteceu sobretudo na fase do modernismo brasileiro e que consiste na busca de um “idioma” que traduzisse a individualidade do Brasil face à língua do outro, que era obviamente Portugal. Essa mesma luta a tivemos em Moçambique. E o Brasil foi uma enorme fonte de inspiração.
O Brasil é a maior comunidade lusófona do mundo. Isso tem provocado alguma “hegemonia cultural” do país, sobretudo em relação à África?
Não creio. O que há a dizer – e talvez a lamentar – é um distanciamento do Brasil em relação à África. Nos últimos 15 anos, houve uma clara melhoria nesse alheamento. Hoje os brasileiros conhecem melhor as Áfricas no plural, pelo menos. Já não idealizam tanto o continente africano. Mas creio que, a nível das políticas externas, o Brasil de hoje tenha voltado a estar de costas viradas para África.
“Estar de costas” em que sentido?
O Brasil é uma nação enorme, uma nação continental e justamente por isso virou as costas até mesmo à América Latina. Ficou alheio à própria geografia da qual faz parte. Não posso fazer nenhum juízo, não sou brasileiro. A aproximação com a África terá que ser fruto de uma clara intenção governamental, pois, em relação aos brasileiros médios, eu acredito que essa vontade de proximidade esteja resolvida.
O contexto político do Brasil tem causado certo estranhamento no cenário internacional. Qual o seu olhar externo, como moçambicano?
É difícil analisar um contexto político do Brasil externamente, porque o que nos chega são notícias estranhas e desgarradas. Fico muito preocupado com a maior parte dessas notícias, confesso. Alguns desses pronunciamentos são difíceis de classificar. Chego a imaginar que esses pronunciamentos são feitos para criar uma espécie de distração, como aconteceu na recente política norte-americana, em que Donald Trump fazia declarações bombásticas (não tanto, confesso, como as que escuto vindas agora das autoridades brasileiras). Enquanto nos entretemos com essa nova forma de poder, consequências severas para as políticas sociais e ambientais são colocadas em marcha.

Brasil é um dos maiores produtores de lixo plástico do mundo

País fica atrás apenas de EUA, China e Índia, com cada brasileiro gerando um quilo de lixo plástico por semana, aponta relatório do WWF. Apenas 1,2% do material produzido é reciclado.

    
Lixão no Rio de JaneiroÍndice de reciclagem de plástico no Brasil está bem abaixo da média mundial

No ranking dos maiores poluidores do planeta, o Brasil aparece em quarto lugar quanto à produção de lixo plástico. Por ano, o país gera 11,3 milhões de toneladas desse resíduo – número três vezes maior que sua produção anual de café, por exemplo.

No ranking dos maiores produtores de lixo plástico, o Brasil é precedido apenas por Estados Unidos (70,8 milhões de toneladas), China (54,7 milhões) e Índia (19,3 milhões). Na Europa Ocidental, a liderança é da Alemanha (8,2 milhões).

Os dados fazem parte do relatório internacional Global Plastics Report, levantamento do WWF divulgado nesta terça-feira (05/03), que aborda o impacto do plástico no meio ambiente, na economia e na sociedade. Para o estudo, a organização foi além dos números da geração desse tipo de lixo nas residências.

“Esse trabalho foi feito com base nas premissas do Banco Mundial, que engloba também os resíduos plásticos industriais, da construção civil, lixo eletrônico e agrícolas”, detalha Gabriela Yamaguchi, do WWF Brasil.

Segundo o relatório, o brasileiro produz um quilo de lixo plástico por semana – uma das maiores médias mundiais.

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“É uma produção alta porque, assim como China, Índia, Indonésia, o Brasil é um país de dimensões continentais, com uma sociedade de consumo em ascensão, onde também há um certo crescimento da infraestrutura”, analisa Yamaguchi.

Fabricado para ser usado apenas uma vez na grande maioria dos casos, o plástico é em grande parte descartado na natureza e acaba chegando aos oceanos. Estima-se que 10 milhões de toneladas vão parar nos mares a cada ano – o que equivale a 417 mil contêineres com capacidade máxima.

Além de matar e contaminar animais marinhos, pequenos fragmentos do material, os chamados microplásticos, já são encontrados até em humanos. Um estudo científico divulgado no fim de 2018 estimou que até 50% da população mundial tenha microplásticos no intestino, incorporado por meio da ingestão de alimentos e água.

Uso e reciclagem

Embora esteja entre os maiores poluidores, o Brasil ainda está abaixo da média mundial de reciclagem. O relatório calcula que o país recicla apenas 1,28% do total de plástico produzido no país  – índice inferior aos à média global de 9%.

Entre os diferentes tipos de material, o PET é o que se sai melhor: cerca de 60% do que é produzido é reciclado, sendo transformado em fios para a indústria têxtil, por exemplo.

“Os números gerais ainda são tímidos. Não avançamos muito na implantação da coleta seletiva, dos programas de inserção de catadores, de acordos setoriais”, avalia Sylmara Gonçalves Dias, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

Quase dez anos depois da criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, o Brasil está aquém do que era esperado no combate ao lixo plástico, pontua Dias.

“As fontes de poluição são múltiplas. Não adianta nada restringir um tipo de uso e achar que está fazendo alguma coisa”, diz, fazendo referência a leis recentes que banem canudos de plástico, por exemplo.

“É uma enganação que só mascara a complexidade do problema. É preciso olhar para tudo: copo, fralda descartável, sacolinha, garrafas, partes plásticas de produtos maiores.”

Antes do consumo

Na avaliação de Yamaguchi, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei de 2010, é positiva, mas insuficiente. “O Brasil e o mundo têm um déficit legal em que a responsabilização pela coleta e o tratamento do resíduo não estão bem definidos para quem produz esses materiais”, afirma.

A representante do WWF defende uma mudança de paradigma e leis mais rígidas. “Não é suficiente cuidar só do pós-consumo, da reciclagem. É preciso reduzir a produção de plástico no planeta, substituir por outros materiais, inovar.”

Mesmo que toda a geração desse material fosse interrompida de imediato, o volume já despejado na natureza levaria centenas de anos para ser degradado. “Estamos nos afogando com tanto lixo. O plástico é um barato que saiu caro: o valor dele não condiz com o impacto que causa em todos nós”, afirma Yamaguchi.

Na próxima semana, a assembleia do Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (PNUMA) discute em Nairóbi, no Quênia, um acordo global para banir plásticos e microplásticos dos oceanos.

Para o WWF, seria um primeiro passo para responsabilizar produtores de plástico no que diz respeito aos custos de tratamento e coleta dos resíduos.

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Nigéria quer estabelecer acordo de cooperação técnica com o Brasil

A ministra de Estado da Indústria do país africano, Hajiya Aisha Abubakar, esteve em reunião no Brasil na semana passada; setor de óleo e gás e serviços financeiros também estão no foco

Exportações e importações entre Brasil e o continente africano

O conhecimento e a tecnologia que o Brasil possui nos setores da produção agrícola, automotivo, serviços financeiros e de óleo e gás estão no foco dos interesses do governo e das empresas da Nigéria.

Na semana passada, uma delegação nigeriana chefiada pela ministra de Estado da Indústria, Comércio e Investimentos do país africano, Hajiya Aisha Abubakar, esteve no Brasil para discutir esses temas com o governo e setor privado nacional.

Em entrevista ao DCI, Abubakar contou que a reunião com a Secretaria de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Economia, na última terça (26), discutiu formas de cooperação bilateral, mas que não houve um acordo mais propositivo.

“Há muitas oportunidades de colaboração entre Nigéria e o Brasil. Para nós, nos interessa, particularmente, o conhecimento brasileiro na área da agricultura, serviços financeiros, setor automotivo e de construção civil”, destacou a ministra nigeriana.

Na reunião, também foi debatido como as duas nações podem integrar as suas cadeias de produção e internacionalizar suas empresas.

O diretor-geral do Bank of Industry da Nigéria, Leonard Kange, reforçou que o interesse nigeriano no know-how (conhecimento prático) brasileiro, especialmente na agricultura, está relacionado com as similaridades que os dois países têm em termos de clima, população e indústria. Além do setores elencados pela ministra da Indústria, Kange cita que a tecnologia brasileira na área de petróleo e gás natural é outra necessidade da Nigéria neste momento.mapa-nigeria

Números das trocasEm 2018, a balança comercial do Brasil com a Nigéria ficou deficitária em US$ 964 milhões, decorrente de exportações no valor de US$ 667 milhões e importações de US$ 1,631 bilhão. Dentre os principais produtos que o Brasil vende para a Nigéria, estão o açúcar em bruto (56%), ônibus (17%), fumo (4,6%) e tratores (2%). Já as nossas compras da Nigéria são, basicamente, petróleo em bruto (84%), seguido de ureia (8,2%) e gás natural (6,8%), segundo dados do Ministério da Economia.

A presidente da Câmara de Comércio Brasil África (Ecowas Brazil), Silvana Saraiva, afirma, por outro lado, que o processo de diversificação da economia não só da Nigéria, como de outros países africanos é uma oportunidade para o Brasil ampliar suas exportações.

“Muitos países africanos estão com crescimento acelerado, o que tem possibilitado a diversificação das suas economias. Porém o Brasil não tem aproveitado essa potencialidade”, diz Saraiva. O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) prevê que o Produto Interno Bruto (PIB) do continente africano cresça 4,0% em 2019 e 4,1% em 2020.

A presidente da Ecowas Brazil afirma que, como a indústria africana ainda não está fortalecida, as oportunidades de exportação e investimentos na África estão na área de máquinas e equipamentos, além de tecnologia, seja na forma de oferta de serviços, conhecimento e mercadorias.

Central business district on Lagos Island, Lagos, Nigeria, 2009

Central business district on Lagos Island, Lagos, Nigeria, 2009

“Falta ao empresário brasileiro ter mais conhecimento do mercado consumidor africano e saber que os bancos de lá, por exemplo, estão bastante fortalecidos”, ressalta Saraiva. Em relação às nossas importações, a presidente da Ecowas Brazil diz que as compras brasileiras de manteiga de karité da Nigéria e de pasta de cacau da Costa do Marfim tem crescido, porém ainda há potencial para uma expansão maior.

A balança comercial do Brasil com a África ficou positiva em US$ 1,558 bilhão em 2018, resultado de exportações no valor de US$ 8,1 bilhões e importações de US$ 6,6 bilhões. Nossas vendas à África se concentram em açúcar, carnes e minério de ferro, enquanto as compras, em petróleo bruto.

 

Fontehttps://www.dci.com.br/economia/nigeria-tem-interesse-em-importar-a-tecnologia-brasileira-em-agricultura-1.790768

Por que nós brasileiros devemos acompanhar as eleições na Nigéria?

Nigeria_oil_26Amanhã dia 16 de fevereiro de 2019,  dos 203 milhões de habitantes da Nigéria , 84 milhões se registraram para eleger, além do presidente, a composição do Parlamento. E isto interessa muito aos brasileiros. Por que?

A Nigéria é o país mais populoso da África e o sétimo no planeta, maior potência petroleira do continente e 13ª maior produtora do mundo.  Os Nigerianos fora do país —no Brasil, são cerca de 8.000, segundo a embaixada— não têm o direito de votar.

 

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a Nigéria é o único país da África Ocidental com o qual o Brasil mantém Mecanismo de Diálogo Estratégico.

Em novembro de 2013, realizou-se, em Brasília, a I Sessão do Mecanismo, ocasião em que foram criados nove Grupos de Trabalho sobre agricultura, segurança alimentar e desenvolvimento agrário, temas consulares e jurídicos, defesa, mineração, energia, comércio e investimentos, cultura e infraestrutura.

A Nigéria figurou até recentemente entre os dez principais parceiros comerciais do Brasil no mundo.

 

O Brasil fechou um acordo de crédito deUS$ 1,1,bilhão de dólares  para financiar  a venda de máquinas e equipamentos agrícolas  para a Nigéria, pretende ainda  formar mais de 10000 técnicos agrícolas. Um dos objetivos é também enfrentar a concorrência da China.

Segundo o embaixador brasileiro na Nigéria, Ricardo Guerra de Araujo: “ o que nos diferencia da China é que o palno de négocio cobre toda a cadeia de valor, incluindo montagem de equipamentos em solo nigeriano e treinamento para quem vai operá-los, além de fornecimento de fertilizantes, sementes, pesticidas, markentig ( ferramentas) de comercialização chegando até o consumidor”

O Banco Islâmico de Desenvolvimento e a Agência Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF)  deverão assegurar  a garantia de crédito.

 

A Nigéria havia propost o um crédito de 10 bilhões, mas o Brasil achou melhor ir mais devagar. A Fundação Getúlio Vargas é a entidade que elaborou o projeto, que pretende modernizar a agricultura da Nigéria.

 

A Embraer recebeu,  neste mês de fevereiro de 2019, junto com a parceira americana Sierra Nevada Corporation (SNC) uma encomenda de 12 aeronaves para aa Força Aérea da Nigéria. Os aviões são de ataque leve e treinamento avançado do A-29 Super Tucano serão utilizados em missões de apoio aéreo tático.

 

Entre 2006 e  2016 o o Brasil acumulou um déficit de impressionantes US$ 57,7 bilhões com a Nigéria.

A Nigéria e é o maior deficit do Brasil nesse período com qualquer outro entre os seus parceiros  no comércio internacional. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Desde que começou a importar petróleo da Nigéria, na década de 1980, o Brasil sempre teve uma relação comercial deficitária com o país africano. No ano 2000, as exportações brasileiras para aquele país totalizaram US$  247 milhões e as importações atingiram a cifra de US$ 734 milhões, gerando um saldo negativo de US$ 487 milhões.

De lá para cá o desequilíbrio na balança comercial entre os dois países não parou de crescer. O saldo em favor dos nigerianos atingiu o valor máximo em 2013, quando as vendas daquele país concentradas em petróleo, nafta para a petroquímica e gás natural somaram US$ 9,648 bilhões, ao passo em que as vendas brasileiras foram de apenas US$ 876 milhões, gerando um deficit de  US$ 8,772 bilhões.

 

Se você tinha dúvidas por que temos que acompanhar as eleições na Nigéria é bom registrar que somos dficitários no comercio com os nigerianos. E eu nem comentei as questões culturais e religiosas que temos com os nigerianos.

Angola é um dos melhores lugares para investimentos em África

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A selecção é baseada na nossa pesquisa local, metodologia própria de previsões e cálculos relativamente ao risco quantitativo”, lê-se no relatório \’Africa Investment Risk Report 2019\’, enviado aos investidores e a que a Lusa teve acesso.

A selecção, explicam os analistas liderados por Robert Besseling, “apresenta algumas das nossas previsões de risco para este ano e sinaliza potenciais oportunidades de negócio e novos investimentos”, num conjunto de estimativas que leva em linha de conta “os principais motivos para os riscos políticos e de segurança e económico, bem como outras tendências de mais longo prazo que podem determinar a trajectória de risco de um país”.

A consultora EXX Africa considera que Angola beneficia do programa com o FMI, levando a mais investimentos, com “oportunidades imediatas” no petróleo, mas apontou a banca e as dívidas da Sonangol como riscos de médio prazo.

De acordo com o \’Africa Investment Risk Report 2019\’, Angola, que aparece novamente na lista, desta vez em segundo lugar a seguir à Etiópia, quando no ano passado tinha estado em primeiro, é apresentada como um país cuja “economia vai recuperar em 2019 com a perspectiva de aumento dos níveis de produção de petróleo e apoio financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI)”.

O programa de 3,7 mil milhões de dólares aprovado pelo Fundo Monetário Internacional vai “acrescentar legitimidade à trajectória reformista do Presidente João Lourenço”, o que fará com que, “aumentando o cumprimento das condições macroeconómicas e de abordagem às políticas, o optimismo do mercado face a uma já de si promissora economia, deve melhorar ainda mais”.

O início da recuperação económica em Angola vai beneficiar da presença do FMI para garantir políticas favoráveis ao mercado, “que vão facilitar o ambiente de negócios, que por sua vez levará a mais investimento e expansão, de um ponto de vista geral”.

Há, apontam os analistas, “oportunidades imediatas para o sector do petróleo e gás em Angola nas rondas de licitação deste ano, que são passos concretos para reverter a tendência decrescente de produção”.

Apesar da opinião positiva, a EXX Africa aponta também alguns riscos a médio prazo, nomeadamente as “dívidas massivas” da companhia nacional de petróleo, a Sonangol, e do sector bancário, que continua “exposto politicamente”.

Os bancos, afirmam os analistas, “precisam urgentemente de uma ronda de consolidação para melhorar a qualidade dos activos e os riscos sobre a moeda externa”, notando que “com a dívida pública em cerca de 70 por cento do PIB, o crédito interno é agora crucial para o financiamento do Estado”.

Outro dos riscos apontados por esta consultora tem a ver com a política contra a corrupção e favorável à liberalização económica: “Apesar de a política altamente popular de combate à corrupção e promoção de uma plataforma de liberalização económica ser dirigida para a diluição do domínio da antiga elite política e económica, os projectos de infra-estrutura vão estar em risco de cancelamento ou revisão”, concluem os analistas.

No sector da construção, aponta o director da consultora EXX Africa, “há grandes projectos de infra-estruturas, como o aeroporto internacional de Luanda, o projecto do porto de Caio ou a hidroeléctrica Caculo Cabaça, que deverão sofrer alterações de contratos por parte do Estado e riscos reputacionais para os empreiteiros, bem como prováveis atrasos, já que os acordos assinados pelo anterior Governo estão a ser reexaminados pelo actual”.

http://jornaldeangola.sapo.ao/economia/consultora_recomenda_angola_aos_investidores