OEA recebe movimentos negros do Brasil

Essa será a primeira vez desde a Conferência de Durban, na África do Sul, em 2001, que missão oficial brasileira composta exclusivamente por movimentos negros participa de um encontro para fazer denúncia internacional

OEA recebe 14 membros de movimentos negros em maio | Foto: Rosa Caldeira/Ponte Jornalismo

A CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) da OEA (Organização dos Estados Americanos) vai receber 14 ativistas e militantes dos movimentos negros brasileiros para falar sobre o pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que pretende modificar o sistema penal e denunciar violações dos direitos da população negra no Brasil. A comitiva será composta por 10 mulheres e 4 homens de 7 estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Goiás, Pará e Maranhão.

Sediado na Universidade de West Indies, em Kingston, Jamaica o evento celebra o marco do 172º Período de Sessões e a participação do grupo brasileiro será em 9 de maio. A última participação em missão oficial brasileira exclusiva dos movimentos negros em fóruns de denúncia internacional aconteceu em 2001, na África do Sul, durante a Conferência de Durban – um movimento protagonizado por mulheres negras latino americanas, que, na época, teve como uma das líderes Sueli Carneiro.

Em entrevista à Ponte, Iêda Leal de Souza, coordenadora nacional do MNU (Movimento Negro Unificado), que participará da audiência pública, enfatiza a importância dos movimentos negros se unirem e construírem debates internacionais como este da OEA. “A luta contra o racismo não está sendo fácil no nosso país. Esse conjunto de mulheres e homens indo para essa reunião importante, não só fazer as denúncias da forma que o negro vem sendo tratado nesse país, mas, também para gente reunir forças para continuar lutando e decidir os caminhos que vamos traçar daqui pra frente”, defende Iêda.

Para ela, o caminho está na reorganização do movimento e na vigilância contínua. “Vamos redobrar a nossa vigilância, vamos continuar lutando, mas temos a necessidade de incluir novas parcerias e espaços pra gente denunciar e tirar situações bastantes positivas para ter um diálogo com o governo brasileiro e continuar reafirmando que o negro nesse país vai ter que ter muito respeito de quem dirige e a compreensão de que nós somos uma nação grandiosa, somos 60% dessa população, por isso a necessidade da nossa reorganização e desses diálogos internacionais”, argumenta a coordenadora do MNU.

Iêda explica também o que o pacote anticrime representa para o Movimento Negro Unificado. “De fato, ele representa a criminalização do povo. Não se apresentou nada de novo, não se tem nada pedagógico. O que tem, na verdade, é uma coisa punitiva. E esse punitivismo dá crédito para quem poderia ajudar na segurança das pessoas, mas na verdade diz para elas que elas estão autorizadas a continuar exterminando o povo negro. Nós não podemos concordar com isso”, critica Souza.

O documento protocolado à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos), em fevereiro de 2019, teve assinatura de 39 entidades da sociedade civil organizada e representantes de movimentos negros e periféricos. O ofício pede um posicionamento do órgão sobre as medidas e que seja disponibilizado um observador internacional para acompanhar o caso no Brasil. Entre os pontos do projeto que mais colocam em risco a população negra, as entidades destacam a proposta de prisão em segunda instância, que aumentará o número de presos no país, e o menor rigor na punição e apuração de casos de homicídio cometidos por agentes de segurança do Estado.

“O conjunto de propostas, que visa alterar leis federais na área penal, processual penal e de combate à violência, tem gerado, desde sua apresentação pública em 4 de fevereiro de 2019, amplo debate e muitas críticas por parte de juristas, acadêmicos, especialistas e sobretudo das organizações da sociedade civil. A gravidade que tais modificações podem representar à segurança pública e à vida de milhares de cidadãos e cidadãs brasileiras, sobretudo da população negra e pobre, nos motiva a apresentar este documento a esta Comissão”, explica o texto do ofício, que começa com uma frase do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de incentivo à violência de Estado: “Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim! O policial que não atira em ninguém e atiram nele não é policial.”

Mia Couto; “A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

O escritor moçambicano conversa com o EL PAÍS sobre escrita, política e o ciclone Idai, que quase destruiu sua cidade natal e demorou a ser notado pelos brasileiros

Antes de aprender a ler livros, Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) aprendeu a ler a terra. A grande diversão de seu pai, um poeta que teve que exilar-se de Portugal devido a perseguições políticas, era passear com os filhos ao longo da linha do trem para buscar pequenas pedras brilhantes no meio da poeira. “Ele ensinou-nos a olhar para as coisas que pareciam sem valor. E, sem nunca nos obrigar a ler, ensinou-nos a ler a vida”, conta António Emílio Leite Couto —Mia é um pseudônimo— em uma sala de reunião de um arranha-céu de São Paulo. Com uma camiseta azul (um tanto amassada) da mesma tonalidade de seus olhos e uma calça jeans, o escritor parece haver caído de repente no espaço onde, no recinto ao lado, homens e mulheres em blazers e paletós discutem negócios. Por vezes, as vozes do grupo elevam-se, ainda que sutilmente, mas o suficiente para contrastar com o tom monocórdio e pausado do escritor moçambicano, que, em sua fala tranquila, constrói elucubrações literárias e metáforas a cada segundo.

Mia Couto descobriu-se poeta aos 14 anos — o primeiro poema foi feito para o pai e publicado sem a autorização do jovem escritor no Diário da Beira, algo que, à época, lhe fez querer “morrer de vergonha”. A prosa chegou anos mais tarde, quando começou a trabalhar como repórter em um jornal, como infiltrado da luta clandestina pela independência de Moçambique. “Aí comecei a ter a tentação de escrever, de inventar mundos paralelos”, lembra. Quando conheceu a lírica de João Guimarães Rosa, soube que ia por bom caminho. O escritor moçambicano visitou recentemente diversas capitais do Brasil para falar sobre a obra-prima do brasileiro, Grande Sertão: Veredas (1956), que acaba de ganhar uma nova edição da Companhia das Letras. Numa dessas vindas, conversou com o EL PAÍS, em São Paulo, sobre a influência desse livro em sua escrita, sexismo na literatura e sobre como as palavras reinventam-se e seguem vivas, firmes, mesmo quando tudo ao redor se destrói.

Pergunta. Quando você conheceu a literatura de Guimarães Rosa?

Resposta.  Ele chegou a mim através de Luandino Vieira, um escritor angolano que me influenciou muito. Meu primeiro livro de contos foi muito marcado pela escrita do Luandino, que deixava que as vozes da rua entrassem na história e fossem elas próprias personagens. E um dia ele falou comigo e disse: “Vai até a fonte, que está no Brasil. Eu mesmo fui influenciado pelo Guimarães Rosa”. Em 1985, quando Moçambique vivia uma guerra civil que nos fechava para o mundo, eu não conseguia ter ligação com o Brasil, mas um amigo trouxe-me uma fotocópia d’A terceira margem do rio. Eu estava no processo de criar meu segundo livro de contos, e aquilo foi como se eu tivesse descoberto a própria vocação de escrever. Esse foi meu primeiro grande contato com Guimarães. Depois fiquei anos tentando voltar e encontrá-lo em livros e mais tempo ainda demorei em chegar a Grande Sertão: Veredas. E, quando cheguei a ele, mesmo tendo passado pelos contos, o primeiro encontro não foi fácil. Eu acho que tinha medo, continuo tendo. É como se de repente houvesse uma revelação, não sobre o que ele estava contando, mas sobre mim próprio.

P. Qual foi essa revelação?

R.  O que o Guimarães fez foi uma abertura de caminho, uma espécie de luz verde, uma autorização, dizendo “você pode ir por este caminho, pode-se fazer literatura assim”, deixando que as vozes chamadas não cultas, que as vozes das pessoas do campo pudessem remexer na história e no próprio narrador. Quando cheguei a Grande Sertão, eu já estava embriagado dessa literatura.

P. Dar esse protagonismo às vozes das personagens, como se brotassem sozinhas das páginas do livro, é a grande contribuição de Guimarães Rosa à literatura lusófona?

R. Eu acho que tudo o que ele faz é quase um milagre, principalmente tendo o pé em uma coisa muito perigosa, que é o pitoresco, que pode ser considerado regionalista, e, ao mesmo tempo, debruçando-se sobre os grandes temas do mundo, as grandes interrogações da humanidade. Do ponto de vista da literatura lusófona africana, foi uma contribuição mais ao nível do tratamento linguístico, ver como ele contava aquilo por meio de uma linguagem poética.

P.  Qual seu trecho favorito de Grande Sertão?

R. É o momento em que o Riobaldo sobe numa grande pedra, olha para o vão abaixo e diz que parece que é como se a gente tivesse um brinquedo, que é o mundo. Essa coisa de transformar o mundo em uma coisa com a qual podemos brincar é uma espécie de revolução de uma infância que foi tolhida. Isso me tocou.

P. Vê similaridades entre sua obra e a de Guimarães Rosa?

“Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor”

R.  Acho que não tem muita coisa. Só isso que eu, agora já menos, mas em um certo momento deixei-me encantar por essa brincriação, que era jogar com as palavras, reinventá-las, muito motivado por uma coisa que vem de dentro. Isto é, os moçambicanos têm vivas e falam em seu cotidiano outras línguas que não o português, e há um momento muito feliz para um escritor, que é perceber que sua língua não está acabada, não está feita. Por exemplo, eu todo dia recolho palavras novas na rua, palavras que não são criações literárias. Isso é um alimento muito grande. Por exemplo, as pessoas dizem arrumário para dizer armário. A palavra arrumário tem muito mais sentido, não só porque é o lugar onde arrumamos as coisas, mas porque, se revisitarmos a história, o armário era o lugar onde se guardavam as armas. Essa relação da língua com uma coisa que é nossa, mas não é, que tem profundidade e história, é muito salutar para nos reportarmos ao que Guimarães Rosa dizia sobre o malefício de uma linguagem funcional, uma linguagem que serve só para uma comunicação imediata.

P. O contato com a literatura brasileira tem ampliado seu vocabulário de brincriação?

R. Sim, porque o Brasil tem esse desafio de dizer sua cultura em uma língua que era a língua do outro. O país teve que encontrar isso, então há uma relação muito mais criativa, de fruição da língua portuguesa, mais do que existe em Portugal, onde o idioma é tão próprio que é difícil brincar com ele.

P. Quais são os brasileiros e brasileiras que você mais lê?

R. Eu sou da poesia e fico estagnado no tempo, então sou muito ligado também ao Carlos Drummond de Andrade, ao João Cabral de Melo Neto mais ainda, à Hilda Hilst, Manoel de Barros…

P. Do que escreveria se fosse brasileiro?

R. Não sei. Vejo, sobretudo aqui em São Paulo, uma nova geração que vive um lado da escrita muito curioso, uma escrita sem lugar, que fala sobre o próprio drama do escritor, que não precisa tanto de uma história. Eu não seria capaz de fazer isso, porque eu teria que viver em uma grande cidade como esta, o que me arrancaria da relação com a terra, a terra como se fosse uma criatura viva. Eu teria que escrever sobre o sertão, como o Guimarães (risos), porque ele conseguiu essa relação com um lugar que não é lugar nenhum, que ele inventou a partir de vozes que dizem coisas poderosas.

P. Você já disse que na África não há realismo mágico, mas sim um “realismo real”. Acredita que acontece o mesmo no Brasil?

R.  Vejo muito a África nas pessoas daqui, mesmo naquelas que, aparentemente, não têm relação histórica com o continente. A África impregnou muito o Brasil, desde a relação com o tempo, com o corpo, essa fronteira muito fluída entre a rua e a casa, o íntimo e o público, não é? A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam.

Podemos escrever uns sobre os outros. Antes, havia uma interdição: os africanos que escrevessem sobre Europa ou América não eram considerados, porque existia aquela obrigação de o africano ser “autêntico”. Não sabemos o que é isso de ser “autêntico”, mas, para atender aos critérios de aceitação da crítica, pediam uma “África tradicional”, tinha que ter uma fogueira, uma feiticeira e esse tipo de estereótipo que identifica uma “África autêntica”. A nova geração de escritores africanos libertou-se dessa africanidade imposta desde fora e hoje há muitos escrevendo sobre o mundo inteiro.

Mia Coutoampliar foto
Mia Couto, durante a entrevista. CAMILA SVENSON

Um africano pode escrever sobre o Brasil, mas não é o meu caso. Porque eu transportaria tanto a minha infância para qualquer lugar que eu fosse, que estaria sempre escrevendo num mesmo lugar, que é minha cidade. Agora que aconteceu o ciclone, percebi como isso tudo que era um chão que parecia estável, que parecia definitivo, de repente pode fazer-se frágil. Entrei em pânico, porque pensei que tinha perdido meu lugar de infância, mas quando visitei a Beira, percebi que uma cidade é feita, sobretudo, de pessoas. E as pessoas estavam ali, lutando, reconstruindo as casas e ainda com capacidade de contar histórias. Ali eu percebi que não, não acabou.

P. Uma parte de seu futuro romance se passa em uma igreja de Beira, que foi destruída pelo ciclone Idai. De que modo isso lhe afetou?

R. Agora que tive tempo de pensar minha relação com a escrita do Guimarães Rosa, vi que, no fundo, o que ele entrega é essa possibilidade nossa de fazermos de um lugar uma coisa sonhada, alguma coisa que é mítica, que não faz parte da geografia. Percebi que essa minha cidade é uma cidade que inventei. Aliás, isso é muito concreto, porque quando estou a falar com meus irmãos com muito entusiasmo sobre coisas que se passaram na nossa infância, eles me dizem “não foi assim, nunca aconteceu isso”. Eu ignoro, porque, para mim, aconteceu.

P. Você pensou em contar as histórias de sobrevivência de Beira, tanto das pessoas quanto de sua cultura, depois do ciclone?

R. De repente, tenho que repensar o romance que já comecei, e tenho um certo pudor em me aproveitar da circunstância dramática. Quando o sofrimento é tão intenso, eu acho que não tem cabimento meu papel como escritor. Se eu faço qualquer coisa em relação a esse tema, será como cidadão, ajudando os outros, sem interesse literário. Pensei, sim, em fazer um registro daquelas pessoas foram heróis, que salvaram, que se entregaram, que arriscaram a vida e que nunca terão protagonismo. Penso em fazer isso de maneira prática e didática para contar aos jovens que há gente que não tem rosto nem nome, mas que é capaz de gestos como esses. Eu e minha família [por meio da Fundação Mia Couto] faremos um livrinho com o depoimento dessas pessoas.

P. O romance, então, está provisoriamente suspenso?

R. Tenho que repensá-lo. E eu cheguei a um momento que é muito triste para mim, que é quando já sei o que vai acontecer, então adio o máximo possível. Como ter vontade de escrever se eu já sei o que é a história?

P. A nova obra já tem nome?

R.   Eu vou dando nome aos livros à medida que eles vão se revelando. O nome que estava vivo, que me guiava, era um nome quase premonitório em relação a essa situação, porque era algo como Antes de nascer, vi rios e mares. E, de fato, foram rios e mares que engoliram aquela cidade.

P. Você diz-se surpreso com a ajuda destinada pelo Governo brasileiro à Moçambique depois da tragédia, considerando os laços culturais e históricos entre ambos países. Considerou-a pequena. [Além da ajuda financeira, o Governo enviou 40 bombeiros que atuaram no desastre de Brumadinho, e decidiu manter a equipe de salvamento no país depois que o ciclone Kenneth, o segundo desde março, atingiu o norte de Moçambique nas últimas semanas].

R.  Sim, mas gostaria de dizer uma coisa também para me defender, porque parece que é pouco polido da minha parte, estando Moçambique a receber e eu a dizer que é pouco. Mas realmente esperávamos mais do Brasil, porque eu recebia tantos contatos de tanta gente que queria ajudar que me parece que uma pequena fração dessa gente que telefonou e escreveu já cobriria os 100 mil euros enviados pelo Governo brasileiro.

“A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam”

Mas acho que mais grave até do que o Governo dar pouco, foi como a notícia chegou tão tardiamente aqui. Falei com amigos brasileiros que só uma semana depois da tragédia acordaram para uma coisa que, em outros países, a BBC e a Al Jazeera, por exemplo, já contavam. Doeu ver como África e Moçambique ficaram tão distantes, já estivemos mais próximos.

Quando eu cheguei aqui há 15 anos, a África ainda era muito mistificada, mas isso mudou com políticas de aproximação do Governo Lula, por exemplo. Por outro lado, o próprio Brasil é muito grande para perceber o que está a acontecer fora. O Brasil tem tanto dentro que é difícil olhar para fora, e esse fora tem um critério, obviamente: estar mais próximo dos Estados Unidos e da Europa. O país não se reconhece nem na chamada América Latina, algo que é estranho para nós, porque a África vive a si própria como uma entidade. Os africanos cantam a África como se fosse uma espécie de grande nação. Quando o Brasil fizer isso, vai se abrir para o continente.

P. Qual o papel da literatura para o país reconhecer a si mesmo?

R. Em Moçambique, como a África como “grande mãe” está sempre tão presente, tivemos que desmistificá-la e perceber que há várias Áfricas, várias nações, e contar essa diversidade.

P.  Em Terra Sonâmbula, você conta a guerra civil moçambicana e defende que a literatura tem a missão de revisitar o passado, mas sem a tentação de atribuir culpas. De que maneira política e literatura relacionam-se e como a primeira deve refletir a atualidade?

R. Tanto a política quanto a literatura são construções narrativas. Mas a construção da narrativa literária é uma mentira que não mente, enquanto a política faz o inverso. É discutir a verdade, pensar como hoje a política se constrói muito a partir da mentira, isto é de uma narrativa pobre, que vai de encontro aos medos, aos fantasmas, à criação de ódio. A literatura pode mostrar esses que são chamados “os outros” —essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos. A literatura lembra a importância do diálogo. Nós chegamos a essa conclusão em Moçambique depois de uma guerra civil que começou com a diabolização do outro, até o ponto em que eu não falava com determinada pessoa só porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milhão de mortos depois, a gente viu que teríamos que conversar.

P. É possível escrever sobre o passado sem apontar culpas mesmo revisitando episódios como, por exemplo, uma ditadura militar?

R. O que a literatura pode fazer é mostrar que aquele que estava do outro lado, apesar de tudo, mesmo que fosse um torturador, por exemplo, tinha conflitos internos. Que ele não era assim porque tinha um demônio dentro de si. Mas isso não tem a ver com o que podemos ajuizar como justificável. A literatura não pode atenuar o peso que as vítimas têm. O sangue que essa gente derramou não pode ser lavado por meio da literatura.

P. Aos 17 anos, você abandonou a faculdade de Medicina para alistar-se à luta clandestina pela independência de Moçambique. De que maneira a militância política influenciou seu trabalho? Quando escreve, você ainda é aquele rapaz de 17 anos?

R.  Eu acho que sou sempre, mesmo quando não estou escrevendo. Aquela entrega a uma causa me marcou muito, porque eu tinha a crença absoluta de que estava fazendo uma coisa que não era por mim, mas pelos outros, para mudar o mundo, mesmo que uma parte desse mundo tombasse em cima de mim, porque eu fazia parte de uma minoria privilegiada e eu queria derrubar o sistema que sustentava esse privilégio. Era uma coisa que, para mim, não sendo eu religioso e tendo uma formação como ateu, não tenha escapado a essa ideia cristã de me redimir com qualquer coisa que traga como pecado original, não sei. Eu me alistei porque havia também uma razão moral. Nosso lema era “somos os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios”. Isso foi verdade nos primeiros anos. Quando chegou a guerra civil, não havia o que comer. Eu estava na fila, esperando horas para uma pequena loja abrir e, muitas vezes, não havia nada dentro. Não quero nunca mais passar por essa experiência. Eu saía de casa todos os dias sem saber o que ia trazer de comer para os meus filhos, e isso durou não um dia ou um mês, mas anos. Só suportamos isso porque sabíamos que estávamos juntos.

P. Por falar em privilégios, quando se fala hoje em literatura africana, temos autoras como Chimamanda Ngozi Adichie, mas os nomes mais venerados ainda são aqueles como Mia Couto, José Eduardo Agualusa ou J. M. Coetzee. É preciso ser um homem branco para ser considerado escritor na África?

R.  Isso vai acabar rapidamente. É uma herança histórica que a atual geração de escritores africanos vai enterrar. Eu e Agualusa somos resultados desse mundo em que nós [homens brancos] éramos os educados, os que recebíamos formação, mas isso já está mudando. Todos os escritores moçambicanos que eu conheço são negros. Alguns deles têm, realmente, grande mérito. Está a surgir em Moçambique e Angola uma educação para que as pessoas dominem a literatura e os instrumentos para escrever, então não é tanto uma questão política, nesse sentido.

Acredito que talvez haja, sim, a percepção de que eu e Agualusa, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha família criamos uma Fundação para promover a literatura entre jovens moçambicanos —e quando digo moçambicanos, automaticamente estou a dizer negros— e ajudá-los a publicar seus livros e construir espaços de debate literário.

Em relação ao sexismo, aí sim a luta é mais complicada. Estão vivos ainda preceitos e preconceitos que realmente afastam a mulher desse reconhecimento. Temos a Paulina Chiziane, que, felizmente, já está lançada no mundo e é bem aceita. Mas, no início, por ser mulher e por acreditar que uma mulher possa contar histórias e que possa falar de coisas da intimidade, da sexualidade, ela sofreu muito e quase fez um auto-exílio.

P. Seu nome é um dos mais celebrados quando se fala em literatura lusófona. Em 2013, você ganhou o Prêmio Camões, assim como José Saramago. Você sonha com honrarias maiores? O Nobel, talvez?

R. Não penso nisso, não. E, quando penso, penso que é impossível.

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/cultura/1555598858_754829.html

Cem dias sob o dominio dos perversos

Eliane Brum

Cem dias sob o domínio dos perversos

A vida no Brasil de Bolsonaro: um Governo que faz oposição a si mesmo como estratégia para se manter no poder, sequestra o debate nacional, transforma um país inteiro em refém e estimula a matança dos mais frágeiseliane_1-foto-Curadoria.png

Os 100 dias do Governo Bolsonaro fizeram do Brasil o principal laboratório de uma experiência cujas consequências podem ser mais destruidoras do que mesmo os mais críticos previam. Não há precedentes históricos para a operação de poder de Jair Bolsonaro (PSL). Ao inventar a antipresidência, Bolsonaro forjou também um governo que simula a sua própria oposição. Ao fazer a sua própria oposição, neutraliza a oposição de fato. Ao lançar declarações polêmicas para o público, o governo também domina a pauta do debate nacional, bloqueando qualquer possibilidade de debate real. O bolsonarismo ocupa todos os papéis, inclusive o de simular oposição e crítica, destruindo a política e interditando a democracia. Ao ditar o ritmo e o conteúdo dos dias, converteu um país inteiro em refém.

violência de agentes das forças de segurança do Estado nos primeiros 100 dias do ano, como a execução de 11 suspeitos em Guararema (SP), pela polícia militar, e os 80 tiros disparados contra o carro de uma família por militares no Rio de Janeiro, pode apontar a ampliação do que já era evidente no Brasil: a licença para matar. Mais frágeis entre os frágeis, os ataques a moradores de rua podem demonstrar uma sociedade adoecida pelo ódio: em apenas três meses e 10 dias, pelo menos oito mendigos foram queimados vivos no Brasil. Bolsonaro não puxou o gatilho nem ateou fogo, mas é legítimo afirmar que um Governo que estimula a guerra entre brasileiros, elogia policiais que matam suspeitos e promove o armamento da população tem responsabilidade sobre a violência.

 

Este artigo é dividido em três partes: perversão, barbárie e resistência.

1) A Perversão

Tanto a oposição quanto a imprensa quanto a sociedade civil organizada e até mesmo grande parte da população estão vivendo no ritmo dos espasmos calculados que o bolsonarismo injeta nos dias. É por essa razão que me refiro à “perversão” no título deste artigo. Estamos sob o jugo de perversos, que corrompem o poder que receberam pelo voto para impedir o exercício da democracia.

Como tem a máquina do Estado nas mãos, podem controlar a pauta. Não só a do país, mas também o tema das conversas cotidianas dos brasileiros, no horário do almoço ou junto à máquina do café ou mesmo na mesa do bar. O que Bolsonaro aprontará hoje? O que os bolsojuniores dirão nas redes sociais? Qual será o novo delírio do bolsochanceler? Quem o bolsoguru vai detonar dessa vez? Qual será a bolsopolêmica do dia? Essa tem sido a agenda do país.

Mas essa é apenas parte da operação. Para ela, Bolsonaro teve como mentor seu ídolo Donald Trump. O bolsonarismo, porém, vai muito mais longe. Ele simula também a oposição. Assim, a sociedade compra a falsa premissa de que há uma disputa. A disputa, porém, não é real. Toda a disputa está sendo neutralizada. Quando chamo Bolsonaro de “antipresidente”, não estou fazendo uma graça. Ser antipresidente é conceito.

O bolsonarismo simula a sua própria oposição, neutralizando a oposição real e silenciando o debate

Quem é o principal opositor da reforma da Previdência do ultraliberal Paulo Guedes, ministro da Economia? Não é o PT ou o PSOL ou a CUT ou associações de aposentados. O principal crítico da reforma do “superministro” é aquele que nomeou o superministro exatamente para fazer a reforma da Previdência. O principal crítico é Bolsonaro, o antipresidente.

Como quando diz que, “no fundo, eu não gostaria de fazer a reforma da Previdência”. Ou quando diz que a proposta de capitalização da Previdência “não é essencial” nesse momento. Ou quando afirmou que poderia diminuir a idade mínima para mulheres se aposentarem. É Bolsonaro o maior boicotador da reforma do seu próprio Governo.

Enquanto ele é ao mesmo tempo situação e oposição, não sabemos qual é a reforma que a oposição real propõe para o lugar desta que foi levada ao Congresso. Não há crítica real nem projeto alternativo com ressonância no debate público. E, se não há, é preciso perceber que, então, não há oposição de fato. Quem ouve falar da oposição? Alguém conhece as ideias da oposição, caso elas existam? Quais são os debates do país que não sejam os colocados pelo próprio Bolsonaro e sua corte em doses diárias calculadas?

É pelo mesmo mecanismo que o bolsonarismo controla as oposições internas do Governo. Os exemplos são constantes e numerosos. Mas o uso mais impressionante foi a recente ofensiva contra a memória da ditadura militar. Bolsonaro mandou seu porta-voz, justamente um general, dizer que ele havia ordenado que o golpe de 1964, que completou 55 anos em 31 de março, recebesse as “comemorações devidas” pelas Forças Armadas. Era ordem de Bolsonaro, mas quem estava dizendo era um general da ativa, o que potencializa a imagem que interessa a Bolsonaro infiltrar na cabeça dos brasileiros.

Ao mandar comemorar o golpe de 1964, Bolsonaro deu um golpe na ala militar do seu próprio governo

Aparentemente, Bolsonaro estava, mais uma vez, enaltecendo os militares e dando seguimento ao seu compromisso de fraudar a história, apagando os crimes do regime de exceção. Na prática, porém, Bolsonaro deu também um golpe na ala militar do seu próprio Governo. Como é notório e escrevi aqui já em janeiro, os militares estão assumindo – e se esforçando para assumir – a posição de adultos da sala ou controladores do caos criado por Bolsonaro e sua corte barulhenta. Estão assumindo a imagem de equilíbrio num Governo de desequilibrados.

Esse papel é bem calculado. A desenvoltura do vice general Hamilton Mourão, porém, tem incomodado a bolsomonarquia. O que pode então ser mais efetivo do que, num momento em que mesmo pessoas da esquerda têm se deixado seduzir pelo “equilíbrio” e “carisma” de Mourão, lembrar ao país que a ditadura dos generais sequestrou, torturou e assassinou civis?

Bolsonaro promoveu a memória dos crimes da ditadura pelo avesso, negando-os e elogiando-os. Poucas vezes a violência do regime autoritário foi tão lembrada e descrita quanto neste 31 de março. Foi Bolsonaro quem menos deixou esquecer os mais de 400 opositores mortos e 8 mil indígenas assassinados, assim como as dezenas de milhares de civis torturados. Para manter os generais no cabresto, Bolsonaro os jogou na fogueira da opinião pública fingindo que os defendia.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro lembrou aos generais que são ele e sua corte aparentemente tresloucada quem faz o serviço sujo de enaltecer torturadores e impedir que pleitos como o da revisão da lei de anistia, que até hoje impediu os agentes do Estado de serem julgados pelos crimes cometidos durante a ditadura, vão adiante. Como berrou o guru do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho, em um de seus ataques recentes contra o general da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo da presidência: “Sem mim, Santos Cruz, você estaria levando cusparadas na porta do Clube Militar e baixando a cabeça como tantos de seus colegas de farda”.

A ditadura deixou marcas tão fundas na sociedade brasileira que mesmo perseguidos pelo regime se referem a generais com um respeito temeroso. Nenhum “esquerdista” ousou dizer publicamente o que Olavo de Carvalho disse, ao chamar os generais de “bando de cagões”. Mais uma vez, o ataque, a réplica e a tréplica se passaram dentro do próprio Governo, enquanto a sociedade se mobilizava para impedir “as comemorações devidas”.

A exaltação do golpe militar de 1964 serviu também como balão de ensaio para testar a capacidade das instituições de fazer a lei valer. Mais uma vez, Bolsonaro pôde constatar o quanto as instituições brasileiras são fracas. E alguns de seus personagens, particularmente no judiciário, tremendamente covardes. Não fosse a Defensoria Pública da União, que entrou com uma ação na justiça para impedir as comemorações de crimes contra a humanidade, nada além de “recomendações” para que o Governo não celebrasse o sequestro, a tortura e o assassinato de brasileiros. Patético.

Bolsonaro finge que não nomeou o ministro que demitiu

Outro exemplo é a demissão do ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez para colocar em seu lugar outro que pode ser ainda pior. Bolsonaro fritou o ministro que ele mesmo nomeou e o demitiu pelo Twitter. Ao fazê-lo, agiu como se outra pessoa o tivesse nomeado – e não ele mesmo. Chamou-o de “pessoa simpática, amável e competente”, mas sem capacidade de “gestão” e sem “expertise”. Mas quem foi o gestor que nomeou alguém sem capacidade de gestão e expertise para um ministério estratégico para o país? E como classificar um gestor que faz isso? Mais uma vez, Bolsonaro age como se estivesse fora e dentro ao mesmo tempo, fosse governo e opositor do governo simultaneamente.

Mesmo as minorias que promoveram alguns dos melhores exemplos de ativismo dos últimos anos passaram a assistir à disputa do Governo contra o Governo como espectadores passivos. Quem lutou pela ampliação dos instrumentos da democracia parece estar se iludindo que berrar nas redes sociais, também dominadas pelo bolsonarismo, é algum tipo de ação. A participação democrática nunca esteve tão nula.

A estratégia bem sucedida, neste caso, é a falsa disputa da “nova política” contra a “velha política”. O bate-boca entre Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), é só rebaixamento da política, de qualquer política. Se a oposição ao Governo é Maia, parlamentar de um partido fisiológico de direita, qual é a oposição? Bolsonaro e Maia estão no mesmo campo ideológico. Não há nenhuma disputa de fundo estrutural entre os dois, seja sobre a Previdência ou sobre qualquer outro assunto de interesse do país.

O mecanismo se reproduz também na imprensa. Aparentemente, parte da mídia é crítica ao Governo Bolsonaro. E, sob certo aspecto, é comprovadamente crítica. Mas a qual Governo Bolsonaro? Se Bolsonaro é mostrado como o irresponsável que é, o contraponto de responsabilidade, especialmente na economia, seriam outros núcleos de seu próprio Governo, conforme apresentado por parte da imprensa. Quando o insensato Bolsonaro atrapalha Guedes, o projeto neoliberal ganha um verniz de sensatez que jamais teria de outro modo.

Diante do populismo de extrema direita de Bolsonaro e seus companheiros de outros países, o neoliberalismo é apresentado como a melhor saída para a crise que ele mesmo criou. Mas Bolsonaro e seus semelhantes são os produtos mais recentes do neoliberalismo – e não algo fora dele. Onde então está o contraditório de fato? Qual é o espaço para um outro projeto de Brasil? Cadê as alternativas reais? Quais são as ideias? Onde elas estão sendo discutidas com ressonância, já que sem ressonância não adianta?

Bolsonaro governa contra o governo para manter a popularidade entre suas milícias

A imprensa ao mesmo tempo reflete e alimenta a paralisia da sociedade. Os cem dias mostraram que o Governo Bolsonaro é ainda pior do que o fenômeno Bolsonaro. Bolsonaro não se tornará presidente, “não vestirá a liturgia do cargo”, como esperam alguns. Não porque é incapaz, mas porque não quer. Bolsonaro sabe que só se mantém no poder como antipresidente, como enfatizei em artigo anterior. Bolsonaro só pode manter o poder mantendo a guerra ativa.

Recente pesquisa do Datafolha mostrou que ele é o presidente pior avaliado num início de governo desde a redemocratização do país. Mas Bolsonaro aposta que é suficiente manter a popularidade entre suas milícias e age para elas. Bolsonaro está dentro, mas ao mesmo tempo está fora, governando com sua corte e seus súditos. Governando contra o Governo. Essa é a única estratégia disponível para Bolsonaro continuar sendo Bolsonaro.

A oposição, assim como a maioria da população, foi condenada à reação, o que bloqueia qualquer possibilidade de ação. Se alguém sempre jogar a bola na sua direção, você sempre terá que rebater a bola. E quando pegar esta e liberar as mãos, outra bola é jogada. Assim, você vai estar sempre de mãos ocupadas, tentando não ser atingido. Todo o seu tempo e energia são gastos em rebater as bolas que jogam em você. Deste modo, você não consegue tomar nenhuma decisão ou fazer qualquer outro movimento. Também não consegue planejar sua vida ou construir um projeto. É uma comparação tosca, mas fácil de entender. É assim que o governo Bolsonaro tem usado o poder para controlar o conteúdo dos dias e impedir a disputa política legítima das ideias e projetos.

2) A Barbárie

Mesmo a parcela mais organizada das minorias que tanto Bolsonaro atacou na eleição parece estar em transe, sem saber como agir diante dessa operação perversa do poder. Ao reagir, tem adotado o mesmo discurso daqueles que as oprimem, o que amplia a vitória do bolsonarismo.

Um exemplo. O vídeo divulgado por Bolsonaro no Carnaval, mostrando uma cena de “golden shower”, foi definido como “pornográfico” por muitos dos que se opõem a Bolsonaro. Mas este é o conceito de pornografia da turma do antipresidente. Adotá-lo é comungar de uma visão preconceituosa e moralista da sexualidade. É questionável que dois homens façam sexo no espaço público e este é um ponto importante. Não deveriam e não poderiam. Mas não é questionável o ato de duas pessoas adultas fazerem sexo consentido da forma que bem entenderem, inclusive um urinando no outro. O ato pornográfico é o de Bolsonaro, oficialmente presidente da República, divulgar o vídeo nas redes sociais. É dele a obscenidade. A pornografia não está na cena, mas no ato de divulgar a cena pelas redes sociais. Diferenciar uma coisa da outra é fundamental.

O discurso de ódio e de repressão à sexualidade está se infiltrando no país e sendo reproduzido mesmo pela esquerda

Outro exemplo. Quando a oposição tenta desqualificar o deputado federal Alexandre Frota (PSL) porque ele é ator pornô está apenas se igualando ao adversário. Qual é o problema de ser ator pornô? Só os moralistas do pseudoevangelismo desqualificam pessoas por terem trabalhos ligados ao sexo. Alexandre Frota deve ser criticado pelas suas péssimas ideias e projetos para o país, não porque fazia sexo em filmes para ganhar a vida. Criticá-lo por isso é jogar no campo do bolsonarismo e é também ser intelectualmente desonesto. Cada vez mais parte da esquerda tem se deixado contaminar, como se fosse possível deslegitimar o adversário usando o mesmo discurso de ódio.

Na mesma linha, o problema do ministro da Justiça, Sergio Moro, não é o fato de ele falar “conge” em vez de “cônjuge”, como fez por duas vezes durante audiência pública no Senado. Ridicularizar os erros das pessoas na forma de falar é prática das piores elites, aquelas que se mantêm como elite também porque detêm o monopólio da linguagem. Poderia se esperar que Moro falasse a chamada “norma culta da língua portuguesa” de forma correta, já que teve educação formal tradicional. Mas a disputa política deve se dar no campo das ideias e projetos.

O problema de Moro é ter, como juiz, interferido no resultado da eleição. E, em seguida, ser ministro daquele que suas ações como funcionário público ajudaram a eleger. O problema de Moro é criar um pacote anticrime que, na prática, pode autorizar os policiais a cometerem crimes. Pela proposta do ministro da Justiça, os policiais podem invocar “legítima defesa” ao matar um suspeito, alegando “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Neste caso, a pena pode ser reduzida pela metade ou mesmo anulada. O problema de Moro que interessa ao país não é, definitivamente, usar “conge” em vez de “cônjuge”.

Moradores de rua estão sendo incendiados vivos no Brasil: entre janeiro e o início de abril já foram pelo menos oito

Compreender como o discurso de ódiovai se imiscuindo na mente de quem acredita estar se contrapondo ao ódio é eticamente obrigatório. Se o governo de Bolsonaro é também oposição e crítica ao próprio Governo, isso não significa que ele não tenha um projeto e que este projeto não esteja se impondo rapidamente ao país. Tem e está. Somos hoje um país muito pior do que fomos. E somos hoje um povo muito pior do que fomos. Parte do objetivo dos violentos e dos odiadores é normalizar a violência e o ódio pela repetição. O bolsonarismo tem conseguido realizar esse projeto com uma velocidade espantosa.

Apenas em 2019 ( e escrevo na primeira quinzena de abril), pelo menos oito – OITO – moradores de rua foram queimados vivos no Brasil. Este é apenas um levantamento feito com base no noticiário, pode ser mais. Em 1 de janeiro, um morador de rua de 27 anos foi incendiado quando dormia em Ponta Grossa, no Paraná. Alguém passou, jogou álcool e colocou fogo no seu corpo. Teve mais de 40% do corpo queimado. Em 21 de janeiro, um morador de rua foi encontrado incendiado e morto numa praça de Curitiba, capital paranaense. Quatro dias depois, em 25 de janeiro, José Alves de Mello, 56 anos, também morador de rua, foi agredido e queimado num imóvel abandonado da Grande Curitiba. Em 27 de fevereiro, uma moradora de rua foi queimada quando dormia embaixo de um viaduto, no Recife, capital do estado de Pernambuco. Ela sobreviveu. Em 17 de março, José Augusto Cordeiro da Silva, 27 anos, acordou já em chamas embaixo de uma marquise na cidade de Arapiraca, no estado de Alagoas. Morreu no hospital. Em 1 de abril, um homem aparentando 30 e poucos anos morreu carbonizado próximo à escada rolante de uma estação de trem em Santo André, no ABC Paulista. O caso foi registrado como “morte suspeita”. Em 3 de abril, Roberto Pedro da Silva, 46 anos, foi incendiado quando dormia numa obra abandonada em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul. Um homem teria jogado combustível e ateado fogo em seu corpo. Em 7 de abril, um morador de rua aparentando 30 anos foi agredido a pedradas e incendiado no interior de um ginásio de esportes em Águas Lindas de Goiás, no entorno do Distrito Federal.

Se fôssemos gente decente de um país decente, pararíamos exigindo o fim da barbárie.

Em 4 de abril, policiais militares mataram 11 dos 25 suspeitos de assaltar bancos no município de Guararema, na Grande São Paulo. O governador do estado, João Doria (PSDB), afirmou que vai condecorá-los. Até bem pouco tempo atrás, um governador não ousaria dar medalhas a policiais que assassinaram suspeitos. Em nenhum país democrático do mundo matar suspeitos é considerado um bom desempenho policial. Pelo contrário.

Se fôssemos um país decente de gente decente, pararíamos diante da barbárie representada pelo massacre dos mais frágeis

No Brasil, que oficialmente não tem pena de morte, o governador do maior estado do país elogia e premia a execução de suspeitos por agentes da lei. Em março, a polícia paulista matou 64 pessoas. Bem mais do que em 2018, no mesmo mês, quando houve 43 homicídios por parte de policiais, o que já era uma enormidade. Autorizada pelas autoridades, a polícia brasileira, conhecida por ser uma das que mais mata no mundo, mostra que neste ano já começou a matar mais.

Se fôssemos um país decente de gente decente, pararíamos diante da barbárie cometida por agentes da lei com autorização e estímulo de autoridades que não foram eleitas para promover a quebra do Estado de Direito.

No último domingo, 7 de abril, militares dispararam 80 tiros – OITENTA – contra o carro de Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, um músico negro que levava a sua família a um chá de bebê em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. Ele morreu fuzilado. Seu filho de 7 anos viu o pai sangrar e soldados do Exército de seu país rirem do desespero da mãe. Graças a uma lei sancionada por Michel Temer, em 2017, os militares que atacaram uma família civil serão julgados não pela justiça comum, mas pela militar, que comprovadamente é corporativa e conivente com os crimes.

Se fôssemos um país decente de gente decente pararíamos diante da barbárie e exigiríamos justiça.

3) A Resistência

O Brasil se espanta muito menos do que há bem pouco tempo atrás com o cotidiano de exceção. É justamente assim que o totalitarismo se instala. Pelas frestas do que se chama normalidade. Pelas mentes no senso comum e nas horas do dia. Depois, é só oficializar. O Brasil já vive sob o horror da exceção. A falsificação da realidade, a corrupção das palavras e a perversão dos conceitos são parte da violência que se instalou no Brasil. São parte do método. Essa violência subjetiva tem resultados bem objetivos – e multiplica, como os números já começam a apontar, a violência contra os corpos. Não quaisquer corpos, mas os corpos dos mais frágeis.

É urgente se unir para resgatar o que resta de democracia no Brasil antes que o autoritarismo se instale por completo

O desafio – urgente, porque já não há mais tempo – é resgatar o que resta de democracia no Brasil. É pela pressão popular que as instituições podem se fortalecer ao serem lembradas que não servem aos donos do poder nem aos interesses de seus membros, mas à sociedade e à Constituição. É pela pressão por outros diálogos e outras ideias e outras realidades que ainda respiram no país que a imprensa pode abrir espaço para o pluralismo real. É pela pressão por justiça e pelo levante contra a barbárie que podemos salvar nossa própria alma adoecida pelos dias.

O resgate da democracia pelo que ainda resta dela, aqui e ali, não será tarefa de outros. Como já escrevi antes, só há nós mesmos. Nós, os que resistimos a entregar o Brasil para os perversos que hoje o governam – e o governam também pelo controle dos espasmos diários que impõem aos brasileiros.

Eu gostaria de dizer: “Acordem!”. Mas não é que os brasileiros estejam dormindo. Parece mais uma paralisia, a paralisia do refém, daquele que vive o horror de estar entregue ao controle do perverso. Não é mais desespero, é pavor. Precisamos encontrar caminhos para romper o controle, sair do jugo dos perversos, tirar a pauta dos dias de suas mãos.

Como?

Essa resposta ninguém vai construir sozinho. A minha é que precisamos criar o “comum”. O que aqui chamo de comum é o que nos mantêm amalgamados, o que permite que, ao conversarmos, partimos do consenso de que a cadeira é cadeira e a laranja é laranja e que nenhum de nós dois sente na laranja e coma a cadeira (leia aqui). Os perversos corromperam a palavra – e têm repetido que a cadeira é laranja. Só por isso podem dizer que o Brasil está ameaçado pelo “comunismo” ou que o nazismo é de “esquerda” ou que o aquecimento global é um “complô marxista”. Essas três afirmações, apenas como exemplo, não têm lastro na realidade. É o mesmo que dizer que laranja é cadeira. Apenas que menos gente tem clareza do que foi o nazismo e do que é o comunismo e do que é o aquecimento global, tornando mais fácil embrulhar as coisas.

Precisamos voltar a encarnar as palavras ou enlouqueceremos todos

Eles repetem e repetem, assim como tantas outras corrupções da realidade, porque corromperam o voto que receberam ao usar a estrutura do Estado para produzir mentiras. É assim que os perversos enlouquecem uma população inteira – e a submetem: dizendo que laranja é cadeira dia após dia. As palavras deixam de significar, a linguagem é rompida e corrompida e a conversa se torna impossível. Como você vai falar com alguém sobre laranjas se o outro acha que laranja é cadeira? É isso que hoje acontece no Brasil, e este ataque é desferido diariamente pelas redes sociais dominadas pelo bolsonarismo.

Precisamos voltar a encarnar as palavras. Ou enlouqueceremos todos. A criação do comum começa pela linguagem (Escrevi sobre isso aqui e aqui). Precisamos também criar comunidade. Não comunidade de internautas que ficam gritando cada um atrás da sua tela. Mas comunidade real, que exige presença, exige corpo, exige debate, exige negociação, exige compartilhamento real. Não há nada que os regimes de exceção temam mais do que pessoas que se juntam para fazer coisas juntas. É por isso que Bolsonaro tanto critica o ativismo e os ativistas – e já deu vários passos na direção da criminalização do ativismo e dos ativistas.

O ativista é aquele que deixa o conforto do seu umbigo e do seu entorno protegido para exercer a solidariedade. Governos como o de Bolsonaro agem para que cada um veja o outro como inimigo, e por isso temem o ativismo. Os bolsonaristas se alimentam da guerra porque a guerra separa as pessoas e faz com que elas não tenham tempo para criar futuro. A solidariedade é um gesto temido pelos autoritários. Por que você não está em casa lustrando o seu umbigo, é o que gostariam de perguntar? Ao corromper as palavras, é também esse o objetivo. Condenar cada um à prisão do seu silêncio (ou do seu eco), incapaz de alcançar o outro pela falta de uma linguagem comum.

O governo quer que você fique em casa lustrando o seu umbigo. Levante-se!

Assim, tentam eliminar a solidariedade à bala. Ou exilá-la. Mandá-la para fora do país que privatizaram para si. Bolsonaro disse isso com todas as letras. É o que tem feito com os movimentos sociais e suas lideranças. É também por isso que é necessário uma polícia com autorização para matar, como quer Bolsonaro, e como obedece Sergio Moro.

A polícia, cada vez mais, se torna também ela uma milícia privada dos donos do poder. Deixa de exercer seu dever constitucional de proteger a população para exercer a guerra contra a população. Durante a intervenção federal no Rio, policiais civis e militares mataram 1.543 pessoas. Em 2018, um em cada quatro homicídios no Rio de Janeiro foi cometido por um policial – e isso segundo os registros das próprias polícias. Ninguém tem qualquer dúvida que a maioria dos mortos é negra – e é pobre.

Quando vai para as ruas nos protestos, o que a polícia reprime não é o que chama de “baderneiros” ou “vândalos”, mas a solidariedade. Ao bater nos corpos, sufocá-los com bombas de gás lacrimogêneo, o que querem é controlar os corpos, castigá-los porque em vez de ficarem trancados em casa coçando a barriga foram às ruas lutar pelo coletivo. Como assim você luta pelo outro e não apenas por si mesmo? Como você ousa ser solidário se a regra do neoliberalismo é cuidar apenas de si e dos seus?

Resistir ao medo e se juntar para criar futuro é o ato primeiro de resistência. Se nos encarcerarmos em casa, como o governo quer, armados também, como o governo quer, atirando uns nos outros, como o governo quer, a guerra continuará sendo ampliada, porque só assim os perversos nos mantêm sob controle e se mantêm no poder. Se contarmos apenas como um não podemos nada. Temos que ser um+ um+ um. E então poderemos muito.

A arte é também um instrumento poderoso. Não foi por outro motivo que ela foi tachada de “pornográfica” e “pedófila” pelas milícias da internet nos últimos anos. Não é por outro motivo que o bolsonarismo investe contra a lei Rouanet e desmonta os mecanismos culturais. A arte não é firula. Ela tira as pessoas do lugar. Ela faz pensar. Ela questiona o poder. E ela junta os diferentes.

Precisamos fazer arte. Mais uma vez, vou indicar aqui o livro da Pussy Riot Nadya Tolokonikova (Pussy Riotum guia punk para o ativismo político, Ubu Editora, 2019). A arte é um ato ao alcance de todos nós. O maior golpe contra o Governo do déspota Vladimir Putin veio de um bando de garotas que não sabe nem cantar nem tocar direito, mas fazem arte tocando e cantando o ridículo dos perversos.

Rir. Precisamos rir. Rir junto com o outro, não rir do desespero do outro. É o perverso que gosta de rir sozinho, é o perverso que goza da dor do outro, como faz Bolsonaro, como riram os soldados que deram 80 tiros no carro da família que ia para um chá de bebê. O deles não é riso, é esgar. Já o riso junto com o outro tem uma enorme potência.

Vamos rir juntos dos perversos que nos governam e começar a imaginar um futuro onde queremos viver

Vamos rir juntos dos perversos que nos governam. Vamos responder ao seu ódio com riso. Vamos responder à tentativa de controle dos nossos corpos exercendo a autonomia com os nossos corpos. Vamos libertar as palavras fazendo poesia. Como escrevi tantas vezes aqui: vamos rir por desaforo. E amar livremente.

Rir despudoradamente diante de suas metralhadoras de perdigotos. O ódio não é para nós, o ódio é para os fracos. Vamos afrontá-los denunciando o ridículo do que são. Vamos praticar a desobediência às regras que não criamos. Temos que desobedecer a esse desgoverno. É assim que se quebra o jugo dos perversos. Levando-os suficientemente a sério para não levá-los a sério.

E temos que começar a imaginar o futuro. É assim que o futuro começa, sendo imaginado. Ninguém consegue viver num presente sem futuro. Mas é impossível controlar quem é capaz de imaginar depois que já começou a imaginar. A imaginação é a melhor companheira do riso.

Sim, ninguém solta a mão de ninguém. Mas não vamos ficar segurando as mãos uns dos outros paralisados e em pânico. Vamos rir e criar futuro. Juntos. Lembrem-se que “a alegria é a prova dos nove”. Nos cem dias que já dura o domínio oficial dos perversos, foi o Carnaval quem mais desafiou o exercício autoritário do poder. Pela alegria, pela sátira, pelo riso, pelos corpos nas ruas.

Não há lei que nos obrigue a obedecer a um Governo de perversos. Desobedeçam aos senhores do ódio. Os próximos cem dias – e todos os outros que virão – precisam voltar a nos pertencer.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/10/opinion/1554907780_837463.html?fbclid=IwAR2ObP5AWl7vrL_vySpTvv-G6S-ODvc2bJso5bpSXjkSK188L6-KAuYoAnU

O adolescente não é responsável pela maior parte da violência

Levantamento com adolescentes presos destrói senso comum sobre criminalidade

Porta-voz do Instituto Sou da Paz, responsável pela pesquisa, entende que reduzir maioridade penal não reduz a violência

Igor Carvalho

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Do total de pessoas presas no período, 9% eram adolescentes  - Créditos: Foto: USP Imagens
Do total de pessoas presas no período, 9% eram adolescentes / Foto: USP Imagens

Uma pesquisa inédita feita pelo Instituto Sou da Paz mostra que apenas 1,6% dos 20.521 mil jovens apreendidos em São Paulo no ano de 2018 cometeram homicídios, latrocínio, extorsão mediante sequestro ou estupro. O levantamento feito pela entidade contraria os argumentos dos setores que defendem a redução da maioridade penal como solução para a violência.

A porta-voz do Instituto Sou da Paz, Ana Carolina Pekny, diz que o “sensacionalismo midiático” reforça o senso comum a respeito das infrações executadas por menores de idade. “As pessoas tendem a imaginar que os adolescentes que cometem algum crime cometem atos muito bárbaros, porque os atos que repercutem na imprensa são esses mais violentos mesmo. Mas o que os dados mostram é que a minoria cometeu atos violentos”, afirma.

Para Pekny, a pesquisa pode amparar uma nova perspectiva sobre a maioridade penal, que tornou-se um debate recorrente nas casas legislativas. “O adolescente não é responsável pela maior parte da violência e nem por grande parte da violência. Então, não adianta acharmos que reduzir a maioridade penal vai reduzir a violência. Além disso, sabemos como está nosso sistema carcerário, completamente dominado por facções criminosas. Se colocarmos adolescente ali, só vamos fornecer mão de obra para o crime organizado”, explica.

Lei de Drogas

Em 51,1% dos casos que geraram a apreensão de um adolescente, o motivo foi tráfico de drogas. Em 2,1%, o porte de drogas foi o pretexto da detenção. Os dados reforçam o potencial da Lei 11.343, conhecida como Lei de Drogas, de 2006, na expansão da população carcerária brasileira.

Segundo Pekny, o dado revela que a política adotada pelas forças policiais está equivocada: “De fato, preocupa esse percentual tão elevado de adolescentes apreendidos por tráfico, porque sabemos que são adolescentes que não representam nada na cadeia do tráfico. Então, sabemos que é um tipo de apreensão que não causa impacto sobre o crime”.

Por meio da Lei de Acesso a Informação (LAI), o instituto mostrou que o encarceramento dos 20.521 mil jovens que foram apreendidos no estado de São Paulo representa 9% do total de prisões efetuadas pela polícia paulista em todo o ano de 2018.

Edição: Daniel Giovanaz

Fonte:https://www.brasildefato.com.br/2019/04/11/dos-205-mil-jovens-apreendidos-em-sao-paulo-em-2018-16-cometeram-crimes-violentos/index.html?fbclid=IwAR0JeITK0Wr-RpLmYZU5-3JF9U5DytOovfTZkxFaFvK9DavHIqySeIPn_ns

O sucesso das cotas nas Universidades brasileiras

Desde implantação das cotas, mais do que dobrou o número de negros nas universidades brasileiras
A psicóloga Josilene de Oliveira Foto: Barbara Lopes / Agência O Globo
A psicóloga Josilene de Oliveira Foto: Barbara Lopes / Agência O Globo

Quando foi aprovada no vestibular de psicologia, Josilene de Oliveira pegou a bicicleta Caloi que lhe fazia companhia desde a infância e se pôs a pedalar. Com um sorriso estampado no rosto, ela cruzava as ruas de Parque Flora, bairro da Baixada Fluminense, como quem comemora uma conquista há muito esperada. A 46 quilômetros dali, em Curicica, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a dona de casa Ofélia Ventura não se preocupou em fazer surpresa e contou às duas filhas que a aprovação havia chegado. Luciene Ventura seria caloura do curso de matemática, e Luciana passaria os próximos cinco anos estudando engenharia química.

Ao serem aprovadas no vestibular, Josilene e as irmãs Ventura fariam parte dos 3.055 cotistas que há 15 anos inauguraram o sistema de cotas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a primeira instituição pública de ensino a implementar a medida. Adotadas durante o governo Lula, as ações afirmativas fizeram o percentual de universitários negros dobrar, mas o valor continua distante daquele alcançado pela população branca. Crítico à medida, Bolsonaro já a classificou de “coitadismo” e indicou que pretende extingui-la.

“Entrar na faculdade abriu minha mente, proporcionou amizades que jamais teria e melhorou minha autoestima. A universidade mudou minha vida”, definiu Josilene, que passou a almejar o diploma universitário quando uma pesquisa escolar revelou que, entre os pais de seus colegas, poucos haviam feito faculdade. “Aí eu decidi que teria nível superior. Falei que meus filhos teriam pais com nível superior.” Ao comentar sobre o objetivo, no entanto, algumas pessoas ressaltavam os percalços da prova, outras faziam questão de lembrá-la sobre o risco de ficar desempregada. E, em virtude de uma dificuldade de concentração, na escola se via tachada de “lerdinha”.

“Ouvi muitas palavras negativas. Então já fui para o vestibular achando que não ia conseguir. Quando tirei um resultado mínimo, vi que era possível e comecei a estudar.” Para se preparar, ela tinha aulas pela manhã no pré-vestibular, à noite na escola e, ao voltar para casa, continuava estudando, não raro até de madrugada. As idas à biblioteca tornaram-se parte de sua rotina. Se as dúvidas se avolumavam, não demorava a pedir ajuda aos professores. “Acham que, porque entrou por meio das ações afirmativas, a pessoa não estudou. Pelo contrário. Eu estudei muito.”

A educação sempre teve lugar cativo em sua casa. Se quisesse sair para brincar, o dever tinha de ser feito com antecedência. Quando as vagas a uma escola pública tornaram-se concorridas, a mãe passou a madrugada na fila para lhe garantir a matrícula. “Achava que tinha de melhorar. O meu pai passou fome, passou muita dificuldade. Já que não tivemos esse problema, pensei em conquistar uma outra coisa, como um carro, algo que a gente nunca teve.” O carro Oliveira já conseguiu, agora pretende ser professora universitária, quem sabe até da Uerj. Por ora, atua no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase) e leciona na Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec). Para ela, as ações afirmativas foram basilares para essa ascensão social. “Estou bem realizada. Ainda não cheguei aonde quero chegar, mas consegui bastante.”

A psicóloga Josilene de Oliveira, formada pela Uerj Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
A psicóloga Josilene de Oliveira, formada pela Uerj Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo

Aos olhos de Ofélia Ventura, educação também era um meio pelo qual Luciana e Luciene poderiam aspirar a uma vida melhor. Ela queria para as filhas tudo que não havia tido: uma vida profissional, acesso a educação de qualidade e, sobretudo, oportunidades. Vê-las aprovadas no vestibular foi resultado de um trabalho que incluiu cursos e horas de estudo. Apesar disso, comentários nos corredores da Uerj afirmavam não ser aquele um espaço para elas. “Ouvia o tempo inteiro que os alunos eram totalmente contra as cotas. Que era um absurdo, que eu tinha de entrar pelos méritos das notas, e não por essas vagas reservadas para negros”, afirmou Luciana. Ao entrar na faculdade de matemática, a experiência por que Luciene passou não foi diferente. “O clima era péssimo. Todo mundo achava uma injustiça o fato de as pessoas terem conseguido entrar por cota. Não respeitavam e diziam mesmo que não achavam correto, que o critério deveria ser a capacidade”, disse ela.

“A incorporação de cotas pela Uerj é uma história banhada de conflitos e desafios. Basta lembrar que vários departamentos fizeram atos contra as cotas ali ainda em 2001”, comentou Luiz Augusto Campos, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj (Iesp-Uerj). Para ele, o conceito de mérito que sustentou boa parte das críticas às cotas é simplista na medida em que atrela inteligência à nota no vestibular. O que a prova seria capaz de mensurar, analisou o acadêmico, é a qualidade da educação recebida pelo estudante, não o potencial cognitivo dele. “Em alguns setores da sociedade, imperava a ideia de que tem mais capacidade de aprendizado quem tem as maiores notas no vestibular. Isso é falso. Tiram as maiores notas no vestibular os alunos que tiveram acesso a uma condição privilegiada.”

Levantamento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em 2016 mostrou que, entre as 150 escolas com os melhores resultados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), apenas seis eram públicas, quatro delas federais e duas estaduais. Para cursar o terceiro ano no colégio mais bem avaliado do ranking, o estudante teria de desembolsar pelo menos R$ 2.933 por mês. Já no segundo lugar, a mensalidade para o último ano do ensino médio gira em torno de R$ 3.260. O salário mínimo, no entanto, ainda não chega a mil reais. “Isso faz com que essas pessoas tenham acesso a menos conteúdo não por terem menos capacidade de aprendizado, mas por não terem tido acesso a espaços onde existe uma circulação mais efetiva desse conteúdo”, destacou Campos. Um dos grandes desafios para Luciene foi justamente se adequar ao ritmo das aulas.

Vinda de uma escola pública, ela teve de recuperar as lacunas educacionais assim que entrou na graduação, e isso incluía estudar aos finais de semana e levar um livro a tiracolo quando ia à praia. Precisava ainda se formar em menos tempo para assumir a vaga a que foi aprovada em um concurso público. Após três anos, a carioca saiu da faculdade com um diploma e uma certeza — a partir daquele momento nada a distinguia de seus colegas não cotistas. “Hoje atuo como funcionária pública. Sou competente no que faço porque tive uma boa educação na Uerj. Lá comecei a ter um ensino de qualidade. Aí, sim, consegui reconhecer que tive oportunidades iguais.”

A engenheira Luciana Ventura, formada pela UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo
A engenheira Luciana Ventura, formada pela UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo

DESIGUALDADE HISTÓRICA

Segundo dados do IBGE, o número de universitários negros saltou de 5,5% em 2005 para 12,8% em 2015, mas ainda continua longe dos 26,5% alcançados pela população branca. Para quem defende as ações afirmativas, a medida é uma forma de diminuir essa desigualdade e reparar erros históricos. Luciene partilha dessa opinião. Em suas palavras, pessoas negras ainda encontram entraves no acesso à educação de qualidade e a boas oportunidades profissionais. Muito disso, explicou ela, tem a ver com uma herança escravocrata que custa a desaparecer. “Abolir a escravidão não foi suficiente. É preciso dar condições. E, durante a escravidão, não deram condições aos negros. Isso é o retrato do passado e esse retrato ainda persiste.”

De acordo com a primeira Constituição do Brasil, promulgada em 1824, todos os cidadãos deveriam ter acesso à instrução primária gratuita. Como o conceito de cidadania não se aplicava a escravizados — vistos e tratados como mercadoria — na prática esses indivíduos estavam alijados do acesso formal à educação. A impossibilidade fica nítida em 1854, quando o Decreto Couto Ferraz foi promulgado, orientando as diretrizes educacionais na Corte Imperial. De acordo com a medida, não poderiam estudar meninos com moléstias contagiosas, crianças não vacinadas e pessoas escravizadas.

Antes disso, porém, a maioria das províncias já impunha barreiras legais à escolarização dos cativos, seguindo o precedente aberto por Minas Gerais, em 1835. Durante o mesmo período, na maior parte do sul dos Estados Unidos, as chamadas Anti Literacy Laws (leis anti-letramento) também proibiam a alfabetização de negros e previam duras penas a quem descumprisse a medida. Acusado de ensinar negros livres a ler e escrever, William Luke, um professor branco do Alabama, foi enforcado em 1870 pelo grupo terrorista Ku Klux Klan. Aqui no Brasil o censo de 1872, o primeiro realizado no país, revelava uma população em que 99% dos escravizados eram analfabetos. Mas havia as exceções.

Missivas, poemas, cartas de alforria. Tudo isso tem ajudado pesquisadores a redesenhar a historiografia tradicional, mostrando que a palavra escrita poderia estar presente também na senzala. “Se inicialmente se pensava o escravo como um escravo-coisa, um escravo coitadinho, com o tempo se passou a perceber que eles eram detentores de sua própria ação. Eles produziram inúmeras resistências em atos cotidianos”, explicou Marialva Barbosa, doutora em história e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um desses atos era ser letrado em um país que esperava de um negro apenas a ignorância. “O letramento tinha um simbolismo muito importante: dava a eles a percepção de que tinham capacidade. Saber ler e escrever era a possibilidade de produzir atos de simbolismo, atos de auto-reconhecimento e astúcias para viver.” Ao se apropriar de maneira informal de um saber que deveria ser exclusivo às elites brancas, esses indivíduos ocupavam simbolicamente um lugar melhor na sociedade.

Para ilustrar isso, a pesquisadora recorreu a documentos que anunciavam fuga de pessoas escravizadas e constatou que os alfabetizados não eram descritos apenas por atributos físicos. Expressões como “fala bem”, “sabe ler”, “é inteligente” sinalizavam marcas distintivas consideradas incomuns a um negro. “E tem o aspecto mais interessante, que é o simbolismo da escrita. O que concedia a liberdade a eles era um papel cheio de letras. A carta de alforria era algo escrito. Em última instância, para eles, a escrita equivalia à liberdade.”

A professora de matemática Luciene Ventura, formada na UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo
A professora de matemática Luciene Ventura, formada na UERJ Foto: Emily Almeida / Agência O Globo

ALTO DESEMPENHO

Vozes e cores misturavam-se nos corredores que levam à turma 1012. Era fim de recreio, e Luciene desviava de alunos que seguiam apressados em direção às salas. Ao entrar na turma onde daria aula de matemática, ela não tardou a pedir que abrissem o livro na página 32. Em meio ao burburinho que se seguiu, uma jovem questionou preocupada: “E quem não tem livro? Desce?”. A resposta em tom quase ofendido veio rápido: “Não, só tiro aluno que está atrapalhando a aula. Eu preciso dar aula, senão não tem por que vir”. Apesar do 1,63 metro de altura, Luciene parece ganhar alguns centímetros quando se põe a falar. A voz alterna momentos de ternura com instantes de rigidez. Caminhando entre as carteiras, ela lia o enunciado enquanto a sala se enchia aos poucos.

“Essa turma é uma turma que colabora. Nem todas são assim. Claro que existem aqueles que não fazem a parte deles como alunos. A gente tenta incentivar, mas as estrelas são para aqueles que querem atingi-las. Quem deseja atingir as estrelas, vai atrás disso.” Luciana Ventura parece fazer coro à opinião da irmã. Depois de formada, a engenheira química fez mestrado na Uerj, doutorado na PUC-Rio e trabalhou por dois anos como gerente de qualidade do ar do Rio de Janeiro. Em 2018, seguiu para os Estados Unidos, onde fez pós-doutorado na Universidade da Califórnia.

“Hoje me se sinto realizada. Tudo o que queria alcançar antes dos 35 anos eu alcancei. Tenho casa própria, viajei para dentro e para fora do Brasil, tenho um carro e tudo isso graças à educação e às ações afirmativas.” Para além de garantir um futuro profissional, a dedicação à faculdade servia também como resposta àqueles que estigmatizavam quem se valeu das ações afirmativas. “A gente encarava as críticas mostrando nossos resultados. Sempre me destaquei na turma e hoje, quando retorno à universidade, os professores me reconhecem pelo nome.”

“”HOJE ME SE SINTO REALIZADA. TUDO O QUE QUERIA ALCANÇAR ANTES DOS 35 ANOS EU ALCANCEI.””

LUCIANA VENTURA
Sobre conquistas após se formar na faculdade

O bom desempenho dos cotistas não foi um caso isolado. Embora em geral tenham notas menores no vestibular, uma vez na universidade o rendimento deles se equipara ou até mesmo supera o de seus colegas. Uma pesquisa feita pela Uerj no primeiro semestre de 2003 constatou a aprovação de 49% dos cotistas, contra 47% dos não cotistas. O temor de que haveria uma evasão em massa também não se concretizou. De acordo com dados da instituição, 50,4% dos alunos que entraram por meio das ações afirmativas em 2003 concluíram o curso, enquanto esse percentual é de 40,4% para quem entrou sem a reserva de vagas.

A psicóloga Josilene de Oliveira posa na Uerj, faculdade em que se formou Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo
A psicóloga Josilene de Oliveira posa na Uerj, faculdade em que se formou Foto: Bárbara Lopes / Agência O Globo

Em 2017, uma comissão instaurada pela Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) avaliou o sistema de cotas e concluiu que não há diferenças significativas no rendimento de cotistas e não cotistas. “A análise dos dados apresentados permite desmistificar a ideia de que a cota provocaria um decréscimo de qualidade do ensino em instituições públicas de ensino superior do Estado do Rio de Janeiro”, diz o relatório elaborado pelo órgão. O documento mostra ainda que, entre 2003 e 2016, 26% dos cotistas da Uerj abandonaram o curso, enquanto esse percentual sobe para 37% no caso dos não cotistas.

Os resultados da Uerj refletem em boa medida o que foi constatado em âmbito nacional. Jacques Wainer, professor do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Tatiana Melguizo, professora da University of Southern California, analisaram os resultados de 1 milhão de universitários no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) e constaram que cotistas tiveram rendimento semelhante àqueles que não entraram pelas ações afirmativas. “O resultado importante disso”, comentou Wainer “é a conclusão de que, pelo menos até aquele período, os alunos cotistas saíram com a mesma qualidade que seus colegas de classe, ou seja, o problema não é a universidade, e sim o resto da sociedade. No caso do cotista que se formou em odontologia, eu vou ter medo dele? Não, ele é tão bom quanto seus colegas de turma.”

“Onde está o dentista?” Essa é uma pergunta que Marina (nome fictício) está particularmente acostumada a responder. Formada pela Uerj, ela faz parte da primeira geração de cotistas e sabe bem como o preconceito costuma se manifestar. Ainda na graduação, presenciou um professor afirmar ser aquele um curso caro, e que quem não tivesse dinheiro deveria fazer outra coisa. Já foi recusada de antemão por uma empregadora que, ao perceber ser ela a candidata mais bem qualificada, se viu obrigada a contratá-la. E hoje precisa lidar com o racismo na clínica em que trabalha. “Ainda existe preconceito em relação a minha cor. Até porque é difícil encontrar um negro que seja dentista. A minha auxiliar é branca e os pacientes se reportam a ela como se fosse a dentista e, depois, percebem que a dentista sou eu. Ela fica em uma posição bastante constrangedora por precisar desfazer a confusão.”

A professora de Matemática Luciene Ventura, formada pela Uerj Foto: Emily Almeida / Agência O Globo
A professora de Matemática Luciene Ventura, formada pela Uerj Foto: Emily Almeida / Agência O Globo

Marina diz perceber desafios à inserção profissional dos negros num país onde 63,7% dessas pessoas estão desempregadas e 66,7% atuam como ambulantes. Para não fazer parte desta estatística, a dentista busca aperfeiçoamento profissional com frequência, algo que seus pais sempre lhe ensinaram. “O ensino médio completo não ia adiantar nada. A faculdade também não. A gente sempre precisa buscar algo a mais para ter uma colocação no mercado e conseguir sobreviver dentro dessas adversidades.” De acordo com ela, os clãs familiares que existem na odontologia tornam o mercado ainda mais restrito. Por essa razão, escolheu atuar no funcionalismo público, onde, em geral, a escolha não passa por critérios pessoais.

Diferentemente de muitos cotistas, que precisaram trancar a faculdade por falta de auxílio financeiro, ela encontrou na família a ajuda necessária para se manter na graduação. “Tive suporte financeiro e emocional para mostrar que era possível. Com muito esforço e abdicação deles também. Deixaram de fazer várias coisas para permitir que a gente estudasse. E, hoje em dia, graças a Deus, me considero uma pessoa estabilizada na profissão.” Seja na universidade, seja no mercado de trabalho, resistir é uma palavra que ela considera apropriada para definir a experiência do negro no Brasil.

“Você está na contramão de tudo. Precisa ter força para ultrapassar todas as barreiras que te colocam e, ainda assim, é pisado por ser negro.” A necessidade de empreender grandes esforços para driblar obstáculos pôde ser observada com frequência na fala da primeira geração de cotistas. Ora é preciso estudar até nas horas de lazer para preencher lacunas educacionais, ora tem-se de lidar com a hostilidade de colegas e professores. De acordo com a socióloga Vânia Penha-Lopes, professora da Bloomfield College e membro do seminário para assuntos brasileiros da Universidade Columbia, essa realidade não é restrita a algumas pessoas.

“Nós vivemos em uma sociedade racista. Para o negro ser considerado bom, ele tem de ser excelente, porque se ele for bom, será visto pelas pessoas como medíocre. Em 2006, participei de um encontro de mulheres afro-latinas de muitos países e todas ouvimos o mesmo discurso dos pais: “Você tem de ser a melhor, senão ninguém vai te levar a sério”. De acordo com a pesquisadora, essa lógica pode trazer prejuízos psicológicos na medida em que o esforço empreendido muitas vezes esbarra nos limites impostos pelo racismo. “De um lado está o indivíduo se esforçando, de outro está a sociedade dizendo que ele é uma porcaria. Então a pessoa tem de ter o apoio muito grande da família e dos amigos para não pirar.”

Penha-Lopes explicou que toda essa dedicação de negras e negros para obter ensino formal se justifica porque eles enxergam no diploma um caminho em direção ao progresso financeiro. “Para quem veio da escravatura, a educação era o único meio. As escolas públicas do sul dos Estados Unidos foram fundadas por ex-escravos, porque os libertos viam a educação como uma forma de ascensão. Imagina o esforço de pessoas iletradas para construir escolas, para contratar professores.” Apesar disso, ela destacou que muitos fazendeiros retiravam crianças das carteiras escolares para que elas ocupassem lugar na colheita de algodão. “Era um esforço muito grande, mas era a única maneira, porque o governo não deu nada a ninguém.”

Para a advogada Clarissa França, mais que uma forma de ascender socialmente, a educação foi também um instrumento de sobrevivência. Filha de médicos, ela cresceu em um mundo de escolas particulares, onde destoava em uma paisagem pouco diversa. “Minha infância foi perpassada pelo racismo. Você é sempre o feio, sempre aquele que está fora do padrão. Como pessoa, você vai traçando suas estratégias para sobreviver. A minha estratégia foi estudar. Sempre fui uma das melhores alunas porque essa era a minha estratégia de destaque já que eu era o diferente. Eu não me via entre iguais.” Em 2003, ao entrar na faculdade de Direito da Uerj, França passou a ver outro cenário. Naquele ano, começou a estar com pessoas que, como ela, tinham a pele preta e o cabelo crespo. Naquele ano, afirmou, começou a se enxergar como negra.

“”NÓS VIVEMOS EM UMA SOCIEDADE RACISTA. PARA O NEGRO SER CONSIDERADO BOM, ELE TEM DE SER EXCELENTE, PORQUE SE ELE FOR BOM, SERÁ VISTO PELAS PESSOAS COMO MEDÍOCRE.” ”

VÂNIA PENHA-LOPES, PROFESSORA DA BLOOMFIELD COLLEGE

Desigualdade racial no Brasil

Durante a graduação, França fez parte do primeiro coletivo de alunos cotistas da Uerj. O grupo se organizou para pleitear melhorias na infraestrutura universitária, que estava longe de conseguir suprir a demanda do novo público. De acordo com a advogada, não havia alojamento para aqueles que moravam em outro município, bandejão para quem não conseguia pagar pela comida, nem mesmo bibliotecas que emprestassem livro. Após meses sem bolsa-auxílio, os alunos em vulnerabilidade social receberam uma ajuda financeira insuficiente para quem fazia uso de múltiplos meios de transporte. “As cotas foram impostas, mas não houve uma lei para implementar a política de assistência. As cotas foram estabelecidas, mas ninguém pensou na permanência.”

RESISTENCIA INTERNA

Em 28 de dezembro de 2000, o então o governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, sancionou a lei 3.524 reservando 50% das vagas das universidades estaduais para todos aqueles que tivessem cursado o ensino médio e fundamental na rede pública. Em 9 de novembro do ano seguinte, foi a vez da lei 3.708 ser aprovada, determinando que 40% das vagas deveriam ser ocupadas por alunos negros e pardos. A Uerj foi pega de surpresa pelas decisões e não teve qualquer papel na formulação de ambas as medidas, cabendo a ela apenas executá-las. “Nós não estávamos prevenidos, avisados pelo governador sobre essa propositura. E, na verdade, o projeto de lei que ele encaminhou para a Assembleia Legislativa era curto e sem nenhum tipo de explicação”, lembrou Nilcea Freire, reitora da instituição durante o período.

Essa ausência de detalhes explica em parte por que alunos e professores não viram as determinações com bons olhos. Em 2002, uma pesquisa realizada pela instituição mostrou que as cotas raciais eram reprovadas por 57,4% dos alunos e por 39,5% dos professores. No caso das vagas destinadas a estudantes de escolas públicas, a reprovação aumentava, chegando a 65,7% para alunos e a 50,6% para professores. À época, muitas eram as dúvidas. Como a universidade deveria implementar a medida? Haveria bolsa-auxílio para estudantes em vulnerabilidade social? Os alunos vindos de escolas públicas teriam alguma ajuda para driblar eventuais defasagens educacionais? Em meio a tantas perguntas e nenhum diálogo, o incômodo com o governo estadual foi inevitável.

“Existiu ressentimento pela ausência de discussão com a universidade, que tem a sua autonomia. Foi um processo que não primou pela discussão democrática”, definiu a ex-reitora. Além de questões de ordem prática, havia o temor de que as cotas pudessem precipitar uma guerra racial entre brancos e negros. Tida como elitizada, a faculdade de medicina gerava especial apreensão. Para saber se haveria algum conflito, Freire decidiu assistir à recepção dos calouros da faculdade e o que viu não poderia ser mais diferente do esperado.

“Quando os estudantes chegaram ao auditório principal, percebia-se claramente quem eram os cotistas e os não cotistas não pela cor da pele, não por qualquer outro elemento que não fosse o brilho nos olhos deles. Aquela cara de ‘eu conquistei este lugar’. Enquanto os alunos de classe média estavam de bermuda, com uma postura de ‘este lugar já estava destinado a mim’, os cotistas estavam ali orgulhosos. Eles colocaram as melhores roupas que tinham. Havia uma postura muito respeitosa em relação à universidade.” Freire comentou ainda que a implantação das cotas descortinou de uma só vez a baixíssima presença de universitários negros e o reduzido número de docentes que não fossem brancos. “Parei um dia e consegui contar em duas mãos quantos professores negros conhecia na universidade.” Em 2003, havia 1.970 docentes na Uerj.

Embora não tenha ocorrido uma guerra racial, França percebeu uma nítida cisão entre cotistas e não cotistas. Era possível notar visualmente a divisão, com cotistas sentados em um lado da sala e não cotistas em outro. Havia inclusive uma espécie de porta-voz de cada um dos segmentos para representá-los durante os acalorados debates que aconteciam em sala de aula. Mas lidar com os professores poderia ser ainda mais desafiador. Para ela, os docentes tinham uma expectativa sobre os alunos da instituição que já não correspondia à realidade. “Eles partiam de uma ideia de que aluno Uerj tinha de terminar o curso em cinco anos, não trabalhava e não fazia algumas coisas que, para esse novo público, não era o que acontecia, e a universidade não tinha sensibilidade para entender isso.”

Um episódio em especial a marcou. A advogada tinha aula com um professor cujo escritório oferecia a determinados alunos estágios remunerados, mas dentre os escolhidos a ausência de negros saltava aos olhos. França e outros cotistas decidiram então questionar a postura do docente. “Mas é que, em meu escritório, só entra gente que tem média acima de 9.5.”, ele justificou. “Existem três negros com média acima de 9.5 falando com o senhor.” A resposta não deixou alternativa. Ainda que contrariado, ele contratou um dos alunos. Se na sala de aula a relação com os professores era delicada, nos corredores o contato com os seguranças gerava semelhante hostilidade.

Ao circular juntos, os alunos negros não raro eram seguidos por vigias enquanto estudantes brancos cutucavam uns aos outros como que para alertar sobre um perigo iminente. Aqueles que entraram pela reserva de vagas não escaparam nem mesmo da preocupação do reitor. Clarissa lembra que ela e alguns alunos negros foram chamados na reitoria só para ouvir que a chapa que formavam para concorrer ao diretório estudantil estava tirando a paz da universidade. Para explicar essas situações, a advogada especula que ver negros unidos é uma imagem que ainda gera apreensão e desconforto. “O racismo enfraquece. Se uma pessoa negra não se enxerga enquanto tal, não tem por que ela se unir aos seus. E essa tomada de consciência racial gera medo porque ela é capaz de promover mudanças estruturais.”

Fora dos muros da universidade o ambiente não era menos desafiador. Por ocasião dos Jogos Jurídicos, competição esportiva que reúne as principais faculdades de direito do estado, as torcidas da PUC-Rio e da UFRJ gritavam como demérito para os alunos da Uerj que na instituição havia apenas negros, que o reitor da universidade seria o sul-africano Nelson Mandela. “Foi algo muito agressivo e, como mulher negra, era muito importante estar com outros negros ali. Quando em grupo, a gente se blinda mais, a gente consegue se proteger”, comentou. Em junho de 2017, os Jogos Jurídicos voltaram a ser palco de episódios de racismo, quando torcedores da PUC-Rio imitaram macacos para ofender estudantes negros da Uerj.

Apesar do clima de tensão dentro e fora da universidade, França não esconde o orgulho de ter feito parte da primeira geração de cotistas. Para ela, que atualmente é diretora jurídica e administrativa de uma empresa, a universidade representa a reconexão com suas raízes. “A Uerj foi o lugar em que me descobri enquanto uma pessoa com uma história, que pertence a um grupo, que merece estar naquele espaço. Estar na Uerj e ser uma cotista mudou minha vida.” Quando fala sobre os estudos, a advogada faz lembrar aquela menina aplicada que costumava ser a primeira da classe. “O que sou hoje é graças à educação. Se minha mãe e meu pai tinham alguma condição, era para a gente estudar. Não somos herdeiros de nada. Não temos indicação nem nome. A educação é tudo.

 

Fonte: https://epoca.globo.com/primeiros-cotistas-da-uerj-refletem-sucesso-do-programa-15-anos-depois-23595995

Mia Couto:Brsil se distancia da África

Mia Couto: ‘O Brasil voltou a virar as costas para a África’. Confira a entrevistaAutor moçambicano mais traduzido da história vem ao Recife para discutir sobre sua relação com Guimarães Rosa

 

Por: Emannuel Bento – Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/04/2019 08:01 Atualizado em: 15/04/2019 13:24

Foto: Mia Couto/Divulgação
Foto: Mia Couto/Divulgação

Mia Couto, o autor moçambicano mais traduzido da história, tem percorrido capitais de todo o Brasil para discutir sobre sua relação com João Guimarães Rosa, representante do modernismo e um dos maiores escritores brasileiros do século 20. Mas por que um intelectual da África para falar sobre um mineiro de apelo regionalista, que tinha o Sertão brasileiro como cenário favorito? Justamente para comprovar sua onipresença e atemporalidade. O Moçambique ainda estava imerso em uma longeva guerra civil pela independência quando Couto conheceu a obra de Rosa. O jovem conseguiu um exemplar – em xerox – de A terceira margem do rio (1962), que demarcou um “antes e depois” na sua perspectiva sobre o fazer literário.

A agenda de palestras de Mia Couto no Brasil é uma ação da Companhia das Letras para divulgar a nova edição de Grande Sertão: Veredas (552 páginas, R$ 84,90), a obra mais canônica de João. O evento de lançamento no Recife será amanhã, às 19h, no auditório G1 e G2 da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com mediação do jornalista Schneider Carpeggiani, editor do selo Suplemento Pernambuco. Os ingressos gratuitos foram disponibilizados na última sexta-feira e, devido à notoriedade do convidado, todos os 470 lugares já foram ocupados. Por isso, uma vídeo transmissão do evento será realizada.
O relançamento de Grande Sertão: Veredas conta com cronologia ilustrada, indicações de leituras e célebres ensaios publicados sobre o romance, escritos por nomes como Clarice Lispector, Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão e Silviano Santiago. O clássico acompanha o jagunço Riobaldo, sua relação ambígua com o personagem Diadorim e todo um contexto que nos leva a enxergar o Sertão como um local universal, que nos traz à tona um mergulho profundo na alma humana. “O Sertão é dentro da gente”, já diz a célebre frase da obra.

Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação
Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação

“Li Grande Sertão quando já tinha lido os outros livros do Guimarães e realmente custou-me entrar no livro. Aquilo me surgia como outra coisa. E Rosa sabia disso, ele próprio dizia que escreveu esse romance numa espécie de transe. Foi preciso insistir, mas valeu a pena”, revela Couto, em entrevista ao Viver.

Após o lançamento, ele continuará na capital pernambucana para participar do encontro literário Dois Dedos de Prosa, realizado na quarta-feira, às 9h, também na Unicap. A reunião pretende discutir sobre o “ser da linguagem”, em desdobramentos literários e ético-estéticos. Também busca promover um canal entre o autor e a recepção de suas obras, com reflexões para teoria literária e outras ciências da linguagem. Couto é um nome notório para discussões nesse sentido por ter contribuído significativamente para recriar a língua portuguesa, incorporando vocabulários e estruturas de Moçambique.
Sua narrativa se aproxima do realismo mágico, um movimento popular nas literaturas de língua latinas, com uma escrita que remete a Guimarães Rosa, mas também a Jorge Amado. É conhecido por um texto poético e profundo, onde cada frase tem muito a dizer. Nada está lá por acaso. Esse modelo marca sua extensa obra literária que inclui romances, crônicas, poesias e contos, com números publicados em mais de 22 países. Seu lançamento mais recente é O terrorista elegante e outras histórias (Editora Tusquets, 176 páginas), escrito junto com o angolano José Eduardo Agualusa. A publicação traz três peças e uma entrevista de Couto para Agualusa.
 
Entrevista – Mia Couto, escritor
 
Como o João Guimarães Rosa lhe influenciou?
Influenciou muito, mais do que qualquer outro autor do mundo. Porque ele me mostrou um caminho, me ajudou a resolver esse divórcio entre as vozes do meu mundo e a escrita. Foi o que ele fez: a sua linguagem poética colocou em diálogo as falas do sertanejo e a escrita urbana e erudita. Moçambique é um país que vive em absoluto na oralidade. Rosa me deu a licença poética que eu necessitava. Todos os contos são pequenas obras-primas. Talvez Sagarana tenha sido o menos surpreendente. Mas eu comecei pelas Primeiras estórias. E esse encontro me marcou definitivamente.
 
Em Grande Sertão, o personagem Diadorim representa as diversas ambiguidades e paradoxos. Ele é personificação do bem e do mal, do feminino e do masculino, da certeza e da dúvida. Concorda que seja uma característica que dialoga com a nossa “modernidade líquida”, em que a noção de verdade está sendo corrompida pelo mundo digital?
A grande literatura alimenta-se sempre dessas ambiguidades, dos mal entendidos e dos espaços cinzentos que ficam entre as grandes certezas. O livro é realmente muito atual. Mas tenho uma certa resistência na classificação dos tempos, como se fossem sucessões de mundos novos. A construção da mentira pelos poderes políticos não é uma novidade. Ela agora tem meios de difusão nunca antes vistos, justamente pelas redes sociais. De alguma forma, a história que aprendemos nas escolas já foi objeto de uma reconstrução, a partir dos interesses dominantes. Felizmente, hoje estamos mais atentos a essa manipulação.
 
Tem acompanhado a literatura contemporânea do Brasil? Como a enxerga?
Muito pouco, confesso. Esses livros não chegam a Moçambique, infelizmente. Do que conheço, quero ressaltar Julian Fuks. Há ali uma escrita densa e sólida, com um enorme domínio de um autor que ainda é bem jovem. Posso falar mais do Moçambique, onde há muita gente surgindo e alguns dos novos nomes são muito promissores. Estou muito feliz, pois houve tempo estagnado. A tendência dominante continua a ser a poesia. Mas também aqui há vozes absolutamente originais, mantendo uma inteligente aliança entre a originalidade e a crítica social.
Historicamente, consegue encontrar similaridades entre a literatura brasileira e a moçambicana (além da língua portuguesa)?
Não creio serem comparáveis. Mas existe uma descoberta de caminhos próprios que nos é comum. E aconteceu sobretudo na fase do modernismo brasileiro e que consiste na busca de um “idioma” que traduzisse a individualidade do Brasil face à língua do outro, que era obviamente Portugal. Essa mesma luta a tivemos em Moçambique. E o Brasil foi uma enorme fonte de inspiração.
O Brasil é a maior comunidade lusófona do mundo. Isso tem provocado alguma “hegemonia cultural” do país, sobretudo em relação à África?
Não creio. O que há a dizer – e talvez a lamentar – é um distanciamento do Brasil em relação à África. Nos últimos 15 anos, houve uma clara melhoria nesse alheamento. Hoje os brasileiros conhecem melhor as Áfricas no plural, pelo menos. Já não idealizam tanto o continente africano. Mas creio que, a nível das políticas externas, o Brasil de hoje tenha voltado a estar de costas viradas para África.
“Estar de costas” em que sentido?
O Brasil é uma nação enorme, uma nação continental e justamente por isso virou as costas até mesmo à América Latina. Ficou alheio à própria geografia da qual faz parte. Não posso fazer nenhum juízo, não sou brasileiro. A aproximação com a África terá que ser fruto de uma clara intenção governamental, pois, em relação aos brasileiros médios, eu acredito que essa vontade de proximidade esteja resolvida.
O contexto político do Brasil tem causado certo estranhamento no cenário internacional. Qual o seu olhar externo, como moçambicano?
É difícil analisar um contexto político do Brasil externamente, porque o que nos chega são notícias estranhas e desgarradas. Fico muito preocupado com a maior parte dessas notícias, confesso. Alguns desses pronunciamentos são difíceis de classificar. Chego a imaginar que esses pronunciamentos são feitos para criar uma espécie de distração, como aconteceu na recente política norte-americana, em que Donald Trump fazia declarações bombásticas (não tanto, confesso, como as que escuto vindas agora das autoridades brasileiras). Enquanto nos entretemos com essa nova forma de poder, consequências severas para as políticas sociais e ambientais são colocadas em marcha.

Por que nós brasileiros devemos acompanhar as eleições na Nigéria?

Nigeria_oil_26Amanhã dia 16 de fevereiro de 2019,  dos 203 milhões de habitantes da Nigéria , 84 milhões se registraram para eleger, além do presidente, a composição do Parlamento. E isto interessa muito aos brasileiros. Por que?

A Nigéria é o país mais populoso da África e o sétimo no planeta, maior potência petroleira do continente e 13ª maior produtora do mundo.  Os Nigerianos fora do país —no Brasil, são cerca de 8.000, segundo a embaixada— não têm o direito de votar.

 

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a Nigéria é o único país da África Ocidental com o qual o Brasil mantém Mecanismo de Diálogo Estratégico.

Em novembro de 2013, realizou-se, em Brasília, a I Sessão do Mecanismo, ocasião em que foram criados nove Grupos de Trabalho sobre agricultura, segurança alimentar e desenvolvimento agrário, temas consulares e jurídicos, defesa, mineração, energia, comércio e investimentos, cultura e infraestrutura.

A Nigéria figurou até recentemente entre os dez principais parceiros comerciais do Brasil no mundo.

 

O Brasil fechou um acordo de crédito deUS$ 1,1,bilhão de dólares  para financiar  a venda de máquinas e equipamentos agrícolas  para a Nigéria, pretende ainda  formar mais de 10000 técnicos agrícolas. Um dos objetivos é também enfrentar a concorrência da China.

Segundo o embaixador brasileiro na Nigéria, Ricardo Guerra de Araujo: “ o que nos diferencia da China é que o palno de négocio cobre toda a cadeia de valor, incluindo montagem de equipamentos em solo nigeriano e treinamento para quem vai operá-los, além de fornecimento de fertilizantes, sementes, pesticidas, markentig ( ferramentas) de comercialização chegando até o consumidor”

O Banco Islâmico de Desenvolvimento e a Agência Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF)  deverão assegurar  a garantia de crédito.

 

A Nigéria havia propost o um crédito de 10 bilhões, mas o Brasil achou melhor ir mais devagar. A Fundação Getúlio Vargas é a entidade que elaborou o projeto, que pretende modernizar a agricultura da Nigéria.

 

A Embraer recebeu,  neste mês de fevereiro de 2019, junto com a parceira americana Sierra Nevada Corporation (SNC) uma encomenda de 12 aeronaves para aa Força Aérea da Nigéria. Os aviões são de ataque leve e treinamento avançado do A-29 Super Tucano serão utilizados em missões de apoio aéreo tático.

 

Entre 2006 e  2016 o o Brasil acumulou um déficit de impressionantes US$ 57,7 bilhões com a Nigéria.

A Nigéria e é o maior deficit do Brasil nesse período com qualquer outro entre os seus parceiros  no comércio internacional. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Desde que começou a importar petróleo da Nigéria, na década de 1980, o Brasil sempre teve uma relação comercial deficitária com o país africano. No ano 2000, as exportações brasileiras para aquele país totalizaram US$  247 milhões e as importações atingiram a cifra de US$ 734 milhões, gerando um saldo negativo de US$ 487 milhões.

De lá para cá o desequilíbrio na balança comercial entre os dois países não parou de crescer. O saldo em favor dos nigerianos atingiu o valor máximo em 2013, quando as vendas daquele país concentradas em petróleo, nafta para a petroquímica e gás natural somaram US$ 9,648 bilhões, ao passo em que as vendas brasileiras foram de apenas US$ 876 milhões, gerando um deficit de  US$ 8,772 bilhões.

 

Se você tinha dúvidas por que temos que acompanhar as eleições na Nigéria é bom registrar que somos dficitários no comercio com os nigerianos. E eu nem comentei as questões culturais e religiosas que temos com os nigerianos.

Paises da África Ocidental interessados no setor sucroalcooleiro do Brasil

45ae676d-3841-459f-9578-dbbc755cc41cEmpreendedores brasileiros têm uma boa notícia. Ainda em novembro, de 20 a 30, dois grupos virão da África para o Brasil com objetivo de investir nos setores sucroalcooleiro, de produção de energia por biomassa e agrícola.

Na bagagem, os empresários africanos devem trazer cerca de 7 bilhões de dólares para investimento nos setores, o que deve movimentar essas indústrias neste último bimestre do ano.

 

O responsável por promover a vinda e por recepcionar os investidores é a Ecowas Chamber of Commerce Brazil (ECOWAS), a qual representa a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) – bloco formado por 15 países africanos (Nigéria, Gâmbia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal, Benin, Togo, Niger, Libéria, Serra Leoa, Guiné Bissau, Guiné, Burkina Faso, Mali e Chade).

US$ 2 bilhões no setor de energia e sucroalcooleiro

Um dos grupos de investidores vêm da Nigéria com 2,6 bilhões dólares de olho em aplicar capital nos setores sucroalcooleiro e produção de energia por meio de biomassa.

Eles acreditam que o Brasil é o melhor parceiro para o programa de produção de álcool e açúcar na Nigéria com vistas no desenvolvimento da indústria automobilística no país.

A presidente da ECOWAS e também realizadora da Feafro International Business Fair, Silvana Saraiva, acredita que os negócios serão promissores devido ao alto nível tecnológico das organizações brasileiras. “Em tempos de crise, será um alívio internacionalizar as empresas e transferir conhecimento”, afirma.

Oportunidades para a agricultura

O mês continua movimentado com a vinda do Forum For Agricultural Research In África (FARA), que também será recepcionado pela ECOWAS BRAZIL, e pretende investir quase US$5 bilhões em agricultura.

A ECOWAS assinou um acordo de cooperação com a FARA em maio deste ano e, após isso, ambas promoveram o lançamento do programa “HELP – Holistic Empowerment for Liverlihood Program”, o qual pretende diminuir a fome nos países mais pobres da África.

O FARA é uma organização continental, a qual é responsável por coordenador e defender pesquisas agrícolas para o desenvolvimento, servindo como apoio técnico da Comissão da União Africana em temas relacionados à ciência agrícola, tecnologia e inovação.

Nos dias 22 e 23 de novembro, os representantes da ECOWAS e da FARA também estarão no Brasil para participar do 6º Fórum Brasil África, em Salvador (BA). O evento deste ano terá como tema central “Empoderamento Juvenil – Transformação para alcançar o Desenvolvimento Sustentável” e contará com a presença de líderes de diversos países da África.

Website: http://www.ecowaschamber.com.br

O que a cultura tem a ver com a vitória de Bolsonaro?

A-redencao-de-CamO plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas

O fenômeno de Jair Bolsonaro é explicado por uma teia complexa de elementos interligados e interdependentes. É uma questão de representatividade ultraconservadora; é resultado de uma militarização histórica da política brasileira; é fruto de uma minimização dos debates travados sobre notícias falsas que vêm sendo alertados por entidades competentes desde antes das eleições.

Também é produto de um financiamento milionário de Caixa 2, ignorado pela justiça; é emblema da doutrinação evangélica fundamentalista; está em sintonia com uma onda reacionária internacional; constrói-se em cima de uma prática antiga de caça aos comunistas para preservação do liberalismo; passa pela pouca reflexão feita sobre o que de fato foi o período da ditadura civil-militar no Brasil.

Não fossem todos esses motivos já suficientes, Bolsonaro ainda se vangloria com o ódio ao Lula e ao PT, construído minuciosamente para que houvesse um inimigo comum a ser derrotado; aproveita-se do clamor pelo novo, mesmo que este novo tenha três décadas de cargo político.

A lista é longa e apesar de cada motivo elencado suscitar outros tantos debates, existe ainda um elemento importantíssimo, situado no centro deste episódio: a cultura, analisada aqui como uma política nacional antes mesmo de existir nação.

Um dos pilares que balizaram a colonização do Brasil é de ordem cultural. Os invasores europeus chegaram aqui exterminando os povos indígenas e seus costumes, catequisando os sobreviventes e silenciando as identidades originárias para que fizessem caber o que os portugueses queriam. Diminuíram seus artefatos, chamaram-nos de “primitivos”.

Sequestraram africanos negros, especialmente das regiões atuais de Angola, Moçambique e Nigéria, para escravizá-los no território colonial pelo trabalho, pelo pensamento e pelos costumes. Não deixavam que dançassem, não deixavam que capoeirassem, não deixavam que falassem sua própria língua ou fizessem rituais religiosos. Condenaram os orixás e forçaram por cima de tudo um Deus único, com D maiúsculo.

Foi um intenso e violento processo de aculturação, lançado como projeto político sobre os povos indígenas, a população negra africana e seus descendentes, que hoje são a grande maioria dos brasileiros, mesmo que a população tenha fenótipo majoritariamente branco. Há sempre uma gota de sangue indígena ou negra nas nossas veias.

O plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas. Esse processo também é complexo: a consolidação de uma cultura hegemônica sobre outra passa desde por políticas de estado, como a política de branqueamento praticada no século XIX (que transbordou da questão colorista para os modos e costumes), como passa também por uma simples mas genuína necessidade de pertencimento. Identidades existem e são importantes porque criam sensação de vínculo com o território e com o grupo social, cria empatia e consciência de coletividade.

Se apagam uma identidade aqui, procura-se outra acolá, que será encontrada na coletividade mobilizadora mais próxima, que atualmente reside muito provavelmente em uma igreja fundamentalista ou em um grupo de Whatsapp recheado de ficções. Isso explica em partes a existência de algumas figuras pertencentes a minorias sociais que apoiam um presidente explicitamente contrário a minorias. Suas identidades originais foram negadas há gerações.

Órfãos de raízes não se entendem como indivíduos ameaçados pelo discurso de Bolsonaro, mesmo que a evidência esteja na cara. E mais do que isso, enxergam no militar reformado uma referência de sucesso. Querem ser brancos de olhos claros, patriarcas da família, severos, rigorosos, temidos e, por isso, respeitados. Querem ser “civilizados” (era essa a desculpa da política de branqueamento de dois séculos atrás).

Em um país tão rico como o Brasil, o projeto de construção de uma nação, criado pela monarquia branca colonizadora, colocou em prática ações para anulação de identidades seguida de hegemonização de uma cultura tida como superior, como forma de manutenção de um poder cruel, apesar de disfarçado de boas intenções.

Existe ainda mais um elemento que deve ser colocado na conta da cultura. Se ela foi historicamente usada para divulgação de um discurso oficial injusto e desigual, é por ela que as identidades silenciadas podem se emancipar. Os poderosos sabem bem disso e exatamente por isso negligenciam a cultura atualmente. Nunca há recursos para nada, e quando há, ele é questionado. “Um absurdo construir museu com pessoas morrendo em hospitais”, vão dizer.

Detalhe do quadro a Redenção de Cam. A obra aborda as controversas teorias raciais do fim do século XIX e o fenômeno da busca do “embranquecimento”

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Quase todos os países da América do Sul que passaram por ditaduras nas décadas de 1960-1970 têm hoje museus, mesmo que pequenos, que expõem a catástrofe e o absurdo dos regimes. O Brasil não tem. Em São Paulo, existe o Memorial da Resistência, dedicado à preservação das memórias e da repressão política do Brasil republicano, localizado no antigo DOPS, mas ainda não é suficiente para dar conta da necessidade urgente que existe de reflexão e entendimento do que foi o período ditatorial no país.

O funcionamento pleno e eficiente de instituições assim depende de investimento, recurso para pesquisa e manutenção. Se isso não aconteceu até hoje, não é agora, com Bolsonaro e todo o Congresso reacionário eleito, que vai acontecer. E cá entre nós, está bem óbvio que não há interesse algum do poder vigente em promover uma reflexão sobre a ditadura no Brasil.

Na sociedade domesticada, administrada e colonizada, a cultura é uma das ferramentas de emancipação mais eficientes que existem. É pela cultura que se alerta para as raízes de um povo e para sua história. É por ela que o pensamento crítico se desenvolve. A democracia e a igualdade tão clamadas nas ruas (e nas redes sociais) passam necessariamente pela cultura. A negligência a ela sempre elegerá Bolsonaros na história. Este era o plano, não era? Deu certo para eles. A reversão da situação só poderá ser efetivada quando a cultura for tratada e alimentada como a revolucionária que é.

 

Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

Fontehttps://diplomatique.org.br/o-que-a-cultura-tem-a-ver-com-a-vitoria-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0dTO7rzLkpy7C-oLLDRw6ro_drvHrOqU26kdwtyjGuG3HNqB-idg1J7eE