A revolução digital está tragando o mundo do trabalho

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Seria necessário ser cego para negar a necessidade fundamental de reforma das leis trabalhistas. No decorrer da história, os avanços tecnológicos sempre levaram à reestruturação das instituições. Foi o caso nas revoluções industriais do passado, que depois de derrubar a velha ordem – ao abrir as comportas para a proletarização, a colonização e a industrialização da guerra e do extermínio — resultaram na reconstrução de instituições internacionais e na invenção do Estado de bem-estar social.

O período de paz e prosperidade desfrutado por países europeus no pós-II Guerra pode ser creditado a esse novo tipo de Estado e às fundações sobre as quais ele foi construído: serviços públicos integrados e eficientes, uma rede de segurança social cobrindo toda a população e leis trabalhistas que garantiam aos trabalhadores um nível mínimo de proteção.

Essas instituições, nascidas na segunda revolução industrial, foram agora colocadas em questão, minadas por políticas neoliberais que levam a uma corrida social, fiscal e ambiental de rebaixamento entre as nações; e pela revolução digital, que está tragando o mundo do trabalho – manual ou do conhecimento 1. Não se espera que trabalhadores “conectados” sigam ordens como robôs, mas que, ao contrario, respondam em tempo real à informação que recebem. Esses fatores políticos e tecnológicos trabalham juntos. Ainda assim, eles não poderiam ser associados, porque o neoliberalismo é uma escolha política reversível, enquanto a revolução digital é um fato irreversível que pode servir a diferentes fins políticos.

As mudanças tecnológicas que alimentam os atuais debates sobre automação, fim do trabalho e “uberização” têm duplo sentido. Podem tanto aprofundar a desumanização do trabalho engendrada pelo taylorismo quanto levar à adoção de “condições humanas de trabalho” estipuladas na Declaração de Filadélfia, o documento essencial da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Este texto propõe-se a assegurar empregos em que os trabalhadores tenham “a satisfação de dar a mais completa medida de sua habilidade e realização e façam sua maior contribuição ao bem-estar comum” 2. Essa perspectiva seria um aprimoramento do modelo de trabalho assalariado, ao invés de um retorno à “mercantilização do trabalho”.

Emprego no século 21: um acordo em evolução

Até os anos 1970, o emprego envolvia uma barganha: obediência em troca de segurança. Os empregados renunciavam a qualquer tipo de autonomia sobre seu trabalho em troca de um número limitado de horas de trabalho, negociação coletiva e proteção contra a perda do emprego. Esse modelo, implementado de várias formas legais em todas as nações industrializadas, reduziu a justiça social aos termos quantitativos da troca de trabalho e segurança física no trabalho e liberdade aos sindicatos. Mas o trabalho em si – seu conteúdo e conduta – era excluído dessa barganha. Tanto na sociedade capitalista como nos países “comunistas”, o trabalho era considerado uma questão de “organização científica” – ou o chamado taylorismo. Não havia lugar para a autonomia, que existia somente para executivos sênior e autoempregados.

A revolução digital oferece uma chance a todos os trabalhadores de adquirir maior autonomia. Mas, ao mesmo tempo, ameaça sujeitar todo o mundo – incluindo os autoempregados, executivos e categorias profissionais – a formas agravadas de desumanização do trabalho. Essa revolução não é limitada à difusão das novas tecnologias. Ela está mudando o centro de gravidade do poder econômico, agora menos concentrado na propriedade material dos meios de produção do que na propriedade intelectual dos sistemas de informação. Hoje, esse poder não é exercido principalmente por meio de ordens a serem seguidas – mas de objetivos a serem alcançados.

Ao contrário de revoluções industriais anteriores, não são as habilidades físicas que as novas tecnologias poupam e superam – mas as ações mentais. Mais precisamente, as capacidades de memorização e cálculo, que podem ser usadas para a execução de qualquer tarefa programável. Estas tecnologias são incrivelmente poderosas, rápidas e obedientes mas também, como diz o cientista da computação Gérard Berry, totalmente estúpidas 3. Elas possibilitariam aos humanos concentrar-se no lado “poético” do trabalho – aquele que requer imaginação, detalhe e criatividade e, portanto, não é programável.

A revolução digital será também uma fonte de novos perigos se, ao invés de colocar computadores a serviço dos humanos, organizar o trabalho humano no modelo de trabalho dos computadores. Ao invés da subordinação dar lugar a maior autonomia, o trabalho tomaria a forma de subordinação a números. Equivaleria a estender à mente a garra que o taylorismo mantinha sobre o corpo.

Essa tentativa quixotesca de programar seres humanos aliena-os da experiência da realidade. Ela explica o crescimento de problemas de saúde mental e o aumento do mesmo tipo de fraude contábil já vista nas economias planejadas da União Soviética. Encarregado de atingir metas impossíveis, um trabalhador tem pouca escolha: ou se afunda em depressão, ou joga com o sistema para satisfazer indicadores de desempenho fora da realidade. A fantasia cibernética subjacente à governança por números adequa-se perfeitamente à promessa neoliberal de globalização. Mais precisamente à autorregulação de uma “grande sociedade aberta” pelas forças de um mercado que tudo abarca. Essa é a razão por que esse tipo de governo está se espalhando, em detrimento do que a Declaração Universal de Direitos Humanos define como Estado de Direito.

Não é, portanto, nas velhas fórmulas do neoliberalismo que podemos buscar as ferramentas legais para dominar a tecnologia de informação e civilizar seu uso de modo a libertar, ao invés de alienar, a mente humana. Essas fórmulas, administradas em doses maciças no decorrer dos últimos quarenta anos, ajudaram a formatar o mundo em que vivemos. Um mundo de uso abusivo dos recursos naturais e dominação da economia pelas finanças, gerando nitidamente o crescimento de desigualdades de todos os tipos, a migração em massa de pessoas que fogem da guerra e da pobreza, a volta da violência religiosa e do nacionalismo, o declínio da democracia e o crescimento do poder de homens fortes com ideias fracas. Diria o senso comum que, ao invés de insistir no erro, aplicando mecanicamente as “reformas estruturais” prescritas pelos responsáveis por esse desastre, deveríamos aprender com esses erros, particularmente no campo das leis.

O que é particular no neoliberalismo – e o diferencia do liberalismo clássico – é o modo como ele trata as leis em geral, e as leis trabalhistas em particular. Elas passam a ser vistas como um produto legislativo em competição num mercado internacional de regulações em que reina suprema a corrida para rebaixar os padrões sociais, fiscais e ambientais. O Estado de Direito é portanto substituído pelo “shopping” legal, subordinando a lei a cálculos econômicos ao invés do contrário.

Redesenhar as leis trabalhistas, olhando além do emprego

Como os governos não querem mais assumir nenhuma das principais alavancas macroeconômicas que afetam o emprego (controle de moeda e das fronteiras, taxa de câmbio, gasto público), eles empurram com mais força a última alavanca que restou: as leis trabalhistas, que são tidas como um obstáculo ao emprego. Embora nenhum estudo sério dê suporte a esse argumento.

Como os limites ao “direito” de demitir foram abolidos, as promessas extraordinárias que acompanham cada nova desregulação do mercado de trabalho nunca se materializaram. As taxas de desemprego continuam muito altas 4. Mas não tem havido revisão das leis empresariais (elas permitem, por exemplo, recompra de ações que levam ao enriquecimento dos acionistas sem dar nada em troca, destruindo o capital e minando o investimento), das leis contábeis, ou das leis sobre finanças (tais como a existência de bancos privados que são “muito grandes para falir” e que portanto usufruem de uma inviolabilidade negada a Estados endividados) 5. Os efeitos negativos de tais mudanças, nos investimentos e no emprego, estão provados. No noticiário atual, reduzir a indenização por demissão injusta é visto como “reforma corajosa”, enquanto limitar os ganhos de opções de ações que um executivo pode receber em razão de tais demissões é tido como “demagogia”.

Qualquer reforma séria das leis trabalhistas deveria ter como alvo mais democracia econômica – ou a própria democracia política continuará a se dissolver. Idealmente, reformas verdadeiras deveriam dar a todo mundo mais autonomia e controle sobre suas vidas profissionais, criando mais salvaguardas ativas, que permitam às pessoas tomar iniciativas, e complementar as salvaguardas passivas herdadas do modelo fordista. Mas isso não pode ser feito sem levar em conta as profundas mudanças na organização das empresas e do trabalho que vêm ocorrendo desde os anos 1980.

A primeira condição para tal reforma seria estender as leis do trabalho para além do emprego, de modo a que protejam todos os tipos de trabalho economicamente dependente. Hoje, a revolução digital e o modelo destart-up estão ressuscitando esperanças de empoderamento por meio do autoemprego e pequenas cooperativas. Mas na realidade as linhas entre autoemprego independente e autoemprego dependente estão sendo apagadas, com os trabalhadores presos por laços de fidelidade que reduzem sua autonomia em vários graus. Do mesmo modo, a ideia de que plataformas digitais que reúnem trabalhadores e usuários de seus serviços beneficiará o autoemprego não é confirmada pelos fatos, como demonstram as ações coletivas apresentadas por motoristas da Uber, com algum sucesso, para forçar a empresa a reconhecê-los como empregados.

Face a essa mudança, a dependência econômica deveria ser o critério essencial para um contrato de emprego, como recomendado por uma série de propostas provocadoras elaboradas por um grupo de acadêmicos franceses 6. Adotar esse critério simplificaria as leis do trabalho e ligaria o grau de proteção recebido pelos trabalhadores à sua dependência. A gestão de resultados tem sido acompanhada pelo retorno da velha estrutura legal da “propriedade feudal”, na qual um arrendatário garantiria lealdade ao dono da terra em troca do direito de trabalhar um lote de terra. O ressurgimento de tais laços tornou-se possível devido a ferramentas digitais que permitem aos proprietários controlar o trabalho de outros sem lhes dar ordens.

Esses laços de lealdade formam a estrutura legal da economia de rede e são encontrados, de diferentes modos, em todos os níveis de trabalho: dos chefes executivos sujeitos aos caprichos dos acionistas ou clientes até os empregados assalariados, de quem é demandada flexibilidade – eles têm de estar disponíveis o tempo inteiro. Os debates sobre a uberização iluminam a necessidade de uma estrutura legal que possa manter as promessas (de autonomia) e mitigar os riscos (de exploração) inerentes a essas situações de lealdade.

Reformas visionárias

Neste novo contexto, qualquer reforma que coloque no centro das relações de trabalho as negociações diretas entre patrões e empregados é irrelevante. Este enfoque pode ter sido adequado nos Estados Unidos em 1935, quando a Lei Nacional de Relações de Trabalho foi adotada como parte do New Deal. Mas ele não resolve os problemas colocados pela organização atual do trabalho – interconectada e transnacional.

A primeira questão é: que mecanismos permitem aos trabalhadores recuperar algum grau de controle sobre o sentido e o conteúdo de seu trabalho? Na França, o direito dos assalariados à expressão coletiva, consagrado nas Leis Auroy, de 1982, inauguraram este processo, que poderia ter prosseguido se a concepção e a organização do trabalho tivessem se transformado em ponto de negociação coletiva e consciência individual. Hoje, este tema é tratado apenas de modo negativo, quando o trabalho, sob a ordem atual, leva a suicídios ou distúrbios psicossociais. É preciso voltar a tratá-lo de modo propositivo.

É preciso que haja condições de conduzir negociações coletivas nos níveis corretos, não apenas no de cada indústria ou empresa. Dois destes níveis merecem atenção particular: o da cadeia produtiva e o do território. Tal tipo de negociação permitiria que aflorassem, por exemplo, os interesses específicos de empresas hoje dependentes. Elas poderiam articular-se os empregados, diante do poder das companhias de que todos dependem. Também permitiria envolver todas as partes interessadas no dinamismo de uma dada região. O cara-a-cara dinâmico entre empregador e empregado, numa empresa ou num ramo de produção, deixou de ser adequado. É preciso convocar a presença de outras partes, em torno da mesa de negociação.

Uma terceira ideia para uma reforma verdadeira tem a ver com a partilha de responsabilidades no interior das redes de empresas. Estas redes permitem que quem as controla exerça poder econômico intenso, mas exima-se de suas responsabilidades em relação a subordinados. Trata-se, portanto, de ligar a responsabilidade de cada membro da rede ao grau de autonomia de que de fato desfruta 7. Tal reforma permitiria clarear as áreas cinzentas existentes em torno do conceito contemporâneo de “responsabilidade social” – que representa, para o neoliberalismo, o que o paternalismo foi para o liberalismo. Onde necessário, a mudança obrigaria a empresa dominante a responder conjuntamente por danos causado pelas organizações que ela cria e controla.

No plano internacional, deveríamos assumir por inteiro a sentença inscrita na Carta de Filadélfia da OIT. “O fracasso de qualquer nação em assegurar condições humanas para o trabalho é um obstáculo no caminho de outras nações, que desejam melhorar as condições em seus próprios países”. E deveríamos levar em conta que a divisão internacional do trabalho e nosso impacto ambiental sobre o planeta são temas inseparáveis.

Padrões sociais e ambientais devem ter, portanto, a mesma força legal que as normas que regem o comércio internacional. Isso exigirá a criação de um órgão para disputas internacionais com poder de autorizar os países que asseguram trabalho digno e proteção do ambiente a fechar seus mercados para os que não os respeitam 8. No plano regional, blocos como a União Europeia poderiam recuperar legitimidade política liderando tal reforma e renovando um compromisso adotado em seus tratados – em relação a “condições melhores de vida e trabalho, para tornar possível sua harmonização”, ao invés de encorajar uma corrida social e fiscal rumo ao fundo do poço, como ocorre hoje.

Uma reforma ambiciosa das leis trabalhistas deveria incluir também o trabalho hoje não pago – como o cuidado com as crianças e os parentes idosos, vital para a sociedade e hoje ignorado pelos indicadores econômicos. Desde que a luz artificial tornou possível o trabalho durante as 24 horas do dia, as leis trabalhistas ofereceram uma estrutura espacial e temporal compatível com nosso relógio biológico e o direito humano ao respeito pela vida privada e familiar. Esta estrutura é agora ameaçada pelo neoliberalismo e pela tecnologia da informação, que juntas estendem o trabalho assalariado para todos os lugares e todas as horas 9. O preço, particularmente em termos de vida familiar, é exorbitante – mas nunca reconhecido por aqueles obcecados com o trabalho aos domingos e às noites. Exatamente o que está destruindo os últimos vestígios de tempo social que escaparam à mercantilização da vida humana.

Notas:

[1] Michel Volle (2017). Anatomie de l’entreprise. Pathologies et diagnostic. In Pierre Musso (Ed.), L’Entreprise contre l’État? Manucius, Paris.

[2] Declaração de Filadélfia (1944).

[3] Gérard Berry (2008). Pourquoi et comment le monde devient numérique. Annuaire du Collège de France.

[4] A taxa oficial de desemprego é de 11,1% na Itália, 17,8% na Espanha e 21,8% na Grécia.

[5] Ao substituir um antigo princípio de contabilidade, este padrão indexa o valor dos ativos de uma empresa a seu preço de mercado estimado, destacando o que é riqueza puramente hipotética. Ver, de Jacques Richard (2005). “Une comptabilité sur mesure pour les actionnaires”. Le Monde diplomatique, Novembro de 2005.

[6] Emmanuel Dockès (2017). Proposition de code du travail. Dalloz, Paris.

[7] Alain Supiot e Mireille Delmas-Marty (2015). Prendre la responsabilité au sérieux. PUF, Paris.

[8] O uso de novas formas de ação coletiva, incluindo o boicote a certos produtos, também deveria ser reconhecisdo com ou direito inerente à liberdade de associação e ao direito de organização.

[9] Laurent Lesnard (2009). La famille désarticulée. Les nouvelles contraintes de l’emploi du temps. PUF, Paris.

Alain Supiot é um jurista francês especializado em Direito do Trabalho. É diretor do Instituto de Estudos Avançados de Nantes. Como Professor de Direito, é membro do Instituto Universitário da França.

http://www.dmtemdebate.com.br/como-transformar-as-leis-do-trabalho-no-seculo-21/

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Mulheres negras cientistas brasileiras

Acadêmicas das áreas de humanas, exatas e biológicas que superaram machismo acadêmico e o racismo

Norma Odara

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Sonia Guimarães no lançamento do filme "Estrelas Além do Tempo" - Créditos: Reprodução/Norma Odara
Sonia Guimarães no lançamento do filme “Estrelas Além do Tempo” / Reprodução/Norma Odara

No Brasil, 54% da população se autodeclara preta ou parda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2015. No entanto, no mesmo ano, somente 12,8% dos jovens negros de 18 a 24 anos (considerando homens e mulheres) chegaram ao nível superior, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números mostram que o espaço acadêmico ainda é pouco ocupado por mulheres negras e, as poucas que alcançam destaque, o conseguem com muito esforço e resistência.

Diante deste cenário adverso, o Brasil de Fato elaborou uma lista reconhecendo o talento e o sucesso de cientistas negras brasileiras do ramo das exatas, humanas e biológicas, que superaram o machismo acadêmico e o racismo. Confira:

1. Enedina Alves 

Enedina Alves Marques foi a primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil. Nascida em 1913, de família pobre, ela cursou engenharia e se formou aos 30 anos no Instituto de Engenharia do Paraná (IEP). Em agosto de 1981, foi vítima de um infarte.

O cineasta Paulo Munhoz e o historiador Sandro Luis Fernando pesquisaram a vida de Enedina e pretendem lançar um documentário sobre sua vida pessoal e acadêmica.

Enedina Alves/ Arquivo

2.  Viviane dos Santos Barbosa

A baiana Viviane dos Santos Barbosa cursou bacharelado em engenharia química e bioquímica pela Delft University of Technology, na Holanda, e se formou em mestre em nanotecnologia na mesma instituição.

Ela cursou química industrial por dois anos na Universidade Federal da Bahia, mas, nos anos 90, decidiu ir para Holanda. Lá desenvolveu uma pesquisa com catalisadores (que aceleram reações) através da mistura de Paladium e Platina.

O projeto foi premiado em 2010, durante a conferência científica internacional, na cidade de Helsinki, na Finlândia, onde competiu com outros 800 trabalhos.

Viviane dos Santos Barbosa/Arquivo Fapesp

3. Maria Beatriz do Nascimento

Nasceu em Aracaju (SE) em 1942, e migrou com seus dez irmãos e seus pais para o Rio de Janeiro, na década de 50. Cursou história na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aos 28 anos de idade. Fez pós-graduação na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1981.

Beatriz dedicou sua vida para que a temática étnico-racial ganhasse visibilidade no Brasil. Foi responsável por formar um grupo de ativistas negras e negros chamado Grupo de Trabalho André Rebouças (GTAR), na Universidade Federal Fluminense, em meados dos anos 1983, almejando o envolvimento do corpo docente nos estudos sobre África.

Seus artigos foram publicados na Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de diversas entrevistas e depoimentos à grande mídia.

Maria Beatriz Nascimento/Arquivo

4. Sonia Guimarães

Sonia sonhava em ser engenheira, mas foi em sua última opção do vestibular, em 1970. Na época, ela prestou física no Mapofei, um vestibular criado em 1969 para a área de exatas nas universidades Instituto Mauá de Tecnologia, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), e se apaixonou.

Hoje, Sonia é a primeira negra brasileira doutora em física pela University of Manchester Institute of Science and Technology e compõe, há 24 anos, o corpo docente do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Ela atua na área de física aplicada, com ênfase em Propriedade Eletróticas de Ligas Semicondutoras Crescidas Epitaxialmente, e já conduziu pesquisas sobre sensores de radiação infravermelha.

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5. Simone Maia Evaristo

A bióloga e citotecnologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Simone Maia é presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (Anacito). É a única brasileira no quadro de membros ativo, como membro diretor da Academia Internacional de Citologia (IAC).

Atualmente é supervisora na área de ensino técnico do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e sua missão tem sido divulgar o papel do controle do câncer.

Simone Maia Evaristo, à esquerda, de camisa branca/Reprodução/Facebook

6. Luiza Bairros

Luiza Bairros foi uma das vozes mais respeitadas no combate à discriminação racial no Brasil e compôs o Movimento Negro Unificado (MNU). A ativista negra foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) durante o segundo governo Dilma Rousseff (PT), e faleceu em julho do ano passado, enquanto ainda tramitava o processo de impeachment da presidenta.

Luiza era mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em sociologia pela Michigan State University (EUA). Sua graduação foi em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGS) e especializou-se em Planejamento Regional pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Valter Campanato/Agência Brasil

7. Anita Canavarro

É professora de química na Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Ciências pela Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). Fundou, em 2009, o grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências (CIATA) do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (CIATA-LPEQI/UFG) com a proposta de “ descolonizar” o estudo de ciências.

Além disso é presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), que busca promover a superação do racismo por meio da educação, defendendo e zelando pela manutenção de pesquisas com financiamento público.

Anitta Cavarro/Foto: Portal Catarinas

8. Katemari Rosa

Desde criança, a gaúcha Katemari Rosa foi apaixonada por física, observava as estrelas e sonhava em alçá-las. Hoje, é formada em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em filosofia e em história das ciências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Ciências pela Universidade de Columbia, em Nova York.

Ao longo de sua trajetória, Katemari começou a reparar no racismo dentro de seu campo de atuação e, em 2015, iniciou a pesquisa “Contando nossa história: negras e negros nas ciências, tecnologias e engenharias no Brasil”, com o intuito de criar um banco de histórias de negros e negras cientistas brasileiros.

Atualmente é professora na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e se preocupa com a formação de professores que inspirem jovens negros para área das ciências.

Katemari Rosa/Foto: Divulgação/Página pessoal

Quem são as cientistas negras brasileiras?

As mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000

São Paulo 
Sonia Guimarães no ITA.
Sonia Guimarães no ITA. ROOSEVELT CÁSSIO

Quando criança, Sonia Guimarães era a segunda melhor aluna da sala e adorava matemática. No primário, ficou entre as cinco melhores da classe. Estudava de tarde, mas quem se destacava tinha a chance de ir para a turma da manhã. Sonia não foi porque foi preterida pela filha de uma das funcionárias, que havia pleiteado a vaga. “Quem tiraram? A pretinha. Eu me senti depreciada por isso”, lembra ela. A hoje professora de Física no Instituto Tecnológico da Aeronáutica(ITA), uma das instituições de ensino mais conceituadas e concorridas do país, lembra que essa não foi a única passagem de racismo que a marcou em sua vida. Mas, apesar da torcida contra, conseguiu o primeiro título de doutorado em física concedido a uma mulher negra brasileira.

Ela, porém, sequer sabia dessa deferência. “Descobri por acaso quando o site Black Women of Brazil fez uma matéria. Nem meus chefes no ITA sabem disso! Alguns alunos descobriram porque eles pesquisam sobre mim na internet”. Estudante de escola pública durante toda a vida, Sonia trabalhava na adolescência e todo seu dinheiro era destinado a pagar o cursinho, já que fazia ensino médio técnico. Sonhava em ser engenheira civil. Para realizar seu sonho prestou Mapofei, um vestibular que na década de 1970 dava vagas para as grandes faculdades de engenharia deSão Paulo. Mas foi orientada por um professor a colocar como opções no vestibular os cursos que tivessem menor procura. Sua escolha foi para física. “No segundo ano [do curso], eu prestei vestibular para engenharia civil, mas comecei a ter aula de física que estuda materiais sólidos, e me apaixonei”.

saga de Sonia faz um paralelo com a de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughanque faziam parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época em que negros não podiam nem mesmo usar os mesmo banheiros que funcionários brancos na Agência. Elas são as protagonistas do filme Estrelas Além do Tempo. A presença de mulheres negras na ciência também é mínima no Brasil. Embora o país tenha 52% de negros, somente em 2013 soube-se quantos deles estavam na área científica.

Foi nesse ano que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) solicitou que os pesquisadores brasileiros informassem raça e cor em seus lattes. Um estudo feito em 2015 tendo como base essas informações, mostra que entre 91.103 bolsistas da instituição cursando pós-graduação, seja em formato de Mestrado, Doutorado ou Iniciação Científica, as mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000, ou 5,5%.

Essa pouca diversidade colabora para que a ciência produzida no Brasil seja descolada da necessidade da população, avalia Anna Maria Canavarro Benite, presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). Embora o país seja um dos maiores produtores de artigos científicos, ocupando o 13º lugar no ranking elaborado pela empresa Thomson Reuters, essa produção é descolada da necessidade da população. “O Brasil produz muito. Mas, por exemplo, agora o país vive um surto de febre amarela e essas pesquisas não ajudam a vida prática da sociedade”, afirma.

Anita Canavarro, como é conhecida, também é professora de química da Universidade Federal de Goiás(UFG) e dedica sua carreira a “descolonizar” o currículo da disciplina nas escolas públicas. A professora chama de “descolonização” a necessidade de colocar o negro como sujeito produtor da tecnologia. “Nós temos traços de apagamento e invisibilização. Vários artefatos tecnológicos utilizados no Brasil são datados desde antes da chegada do colonizador e até hoje não são creditados”, explica Anita. A indústria de mineração, por exemplo, utiliza colunas de destilação que tem arquitetura semelhante à de fornos africanos. Já a indústria de mineração utiliza até os dias atuais processos já utilizados por povos africanos que faziam fundição de ferro, explica ela. “Ao mesmo tempo, a primeira Constituição do Brasil proibia negros de irem à escola alegando que eles possuíam moléstias contagiosas”.

Antes de ser cientista, a presidenta ABPN era uma moradora da Baixada Fluminense que se aproximou das ciências exatas porque percebeu que os cursos ligados à licenciatura eram menos disputados na Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ), quando iniciou sua graduação em 2001. “Uma vez no curso, eu me apaixonei pelos processos de transformação da matéria. Hoje minha leitura de mundo é muito ligada a isso”.

Ao contrário de Anita e Sonia, Katemari Rosa sempre foi apaixonada pela ciência. “Eu escolhi fazer física porque eu quis descobrir o céu, quando criança me apaixonei por astronomia”, diz ela. A maioria dos astrônomos são formados em física e por isso seguiu o curso, explica.

Gaúcha, Katemari estudou no atual Instituto Federal do Rio Grande do Sul(IFRS), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Foi no campus que ela pôde frequentar o observatório e o planetário da universidade.

Quando ela olha para trás, se lembra de casos de racismo que sofreu, mas que na época não identificava como tal, como quando a funcionária da escola que cuidava de estágios a indicou para uma vaga de assistente de dentista. Além de atender telefone e fazer coisas específicas da função, foi orientada a lavar a louça do consultório. “A funcionária jamais indicaria uma daquelas meninas brancas para essa vaga”.

O maior choque que teve, porém, foi quando se mudou para Salvador para fazer o Mestrado. A cidade com mais negros no Brasil tinha uma universidade pública que não espelhava isso, já que no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA) havia apenas um professor negro. “A gente tem dificuldade de atribuir ao racismo porque isso significa que existem pessoas pensando que a gente é menos gente. Trata-se de um mecanismo de defesa, como dizia Derrick Bell”, reflete ela, citando o primeiro professor negro de Direito em Harvard nos anos 1970. “É difícil de explicar e só quem sente, sabe. A gente tem essas sensações, mesmo que não atribua ao racismo, na experiência cotidiana”.

A física atualmente trabalha na Universidade Federal de Campina Grande(UFCG), onde concentra seus esforços para formar novos professores que entendam a necessidade de inspirar jovens a seguir no caminho das ciências. “Uma das minhas alunas fez um projeto para examinar livros didáticos de física do ensino médio. Nas imagens analisadas, as pessoas negras só apareciam na parte de mecânica, velocistas africanos ou jogadores de futebol”, relata. As negras estavam empurrando carrinho de bebê. “E a gente pensa que física não tem nada a ver mas está cheio de imagens que reforçam o papel da mulher, o papel do negro. Nós aprendemos desde cedo onde são nossos lugares”.

A química Denise Fungaro, por outro lado, confessa que não se atentava para a inexistência de professores e colegas negros quando entrou na Universidade de São Paulo (USP) em 1983. “Eu não sofria discriminação. Nunca tive professores negros, mas como a avaliação é feita através de provas não tem como a pessoa te discriminar”, afirma. “Hoje entendo que eu era exceção, a única aluna negra no curso em um país onde 52% da população é negra”. Ela acabou de ser agraciada com o prêmio Kurt Politzer, concedido pela Associação Brasileira de Indústria Química (ABIQUIM), mas seu desejo é servir de inspiração para sua filha que tem três anos. “Eu quero que ela saiba que pode ser bem-sucedida em outras áreas que não sejam exclusivamente artísticas ou esportivas”.

Enquanto isso, Sonia Guimarães pensa em se aposentar do ITA, mas não sabe quando. Na conversa com o EL PAÍS, lembra dos tempos em que trabalhou na Itália e em que estudou na Inglaterra, enquanto dá entrevistas para meninas do ensino médio, através do projeto “Elas nas Exatas”. Tornou-se também voluntária ensinando inglês para que outros jovens negros realizem seus sonhos de uma formação no exterior

 

Fonte;https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/ciencia/1487948035_323512.html

“O sonho é um óraculo probalítico”

 

Sidarta Ribeiro é diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e desenvolve pesquisas sobre sono, sonho, memória e plasticidade neuronal. Veja a entrevista que ele deu à Bárbara Nóbrega, de O Globo.

Conte algo que não sei.

O sono é muito importante para consolidar uma memória. Até recentemente, não existia demonstração científica de que sonhar com alguma coisa efetivamente muda o seu desempenho durante a vida de vigília. Essa evidência já existe, alguns laboratórios estudam isso, principalmente em Harvard. Existe uma relação sinérgica entre sono, exercício físico e alimentação. A escola lida com a alimentação, mas lida muito mal com o sono, que é reprimido. Além disso, o exercício físico é relegado ao último horário da grade e não é integrado às outras disciplinas.

Como o exercício físico pode ajudar a memória e o aprendizado?

Os professores acham que aprender matemática, geografia, história não tem a ver com exercício físico, mas o exercício físico combinado à estimulação com novas situações gera uma neurogênese no hipocampo, ou seja, a adição de novos neurônios em uma região cerebral que é muito importante para a aquisição de memória. Um regime adequado de exercícios físicos, alimentação e de sono otimiza a capacidade de aprender.

E qual a importância do sonho na melhoria do desempenho em vigília?

Quando uma pessoa joga no computador e sonha com aquele jogo, seu desempenho é melhor do que se não dormir e ficar só pensando no jogo. A reativação das memórias durante o sono tem efeitos bem diferentes do que a reativação de memórias durante a vigília.

Qual a relação da Humanidade com o sonho?

As pessoas levantam da cama imediatamente após o relógio tocar, poucas fazem um diário de sonhos, só quem está em psicanálise ou tem ligação com uma população tradicional. Nas populações tradicionais, o trabalho de sonho é diário. Os índios se reúnem de manhã e contam os seus sonhos. Mas se pensarmos simplesmente em Fisiologia e Psicologia, ainda assim há evidências suficientes de que focar a atenção no sonho proporciona um aumento de introspecção, revela o que está acontecendo agora. Quando uma pessoa está passando por problemas graves, os sonhos são muito transparentes. Quando não estão, são difíceis de entender. Tem a ver com a função do sonho que, na minha concepção, é um oráculo probabilístico. O sonho é uma simulação do futuro provável com base no passado, recente ou não. Tomando como base o ontem, como será amanhã?

O que é esse oráculo probabilístico?

Quando a gente entra na vida da cultura, não temos só mais três necessidades — comer, manter-se vivo e procriar — , temos muitas! O sonho de uma pessoa de classe média contemporânea, que não esteja passando por um grave problema, é uma tentativa de prever o futuro com variáveis demais, então elas são todas de baixo peso. Porém, se você passa por uma doença grave na família, um acidente de carro ou um insucesso amoroso, a pessoa começa a ter sonhos que são muito fáceis de interpretar. O oráculo probabilístico evoluiu em mamíferos no sonho R.E.M. de longa duração para tentar prever o futuro. A ciência não tem problema com o oráculo, desde que ele seja probabilístico. Agora, quando entramos em um ambiente da cultura em que as necessidades são múltiplas, esse oráculo fica quebrado se não prestamos atenção a ele, se nem sequer falarmos sobre ele.

Tem gente que não sonha?

Pouquíssimas pessoas não sonham, só quem tem uma lesão rara em determinadas áreas do cérebro. O que acontece é que as pessoas não prestam atenção aos sonhos.

Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/sidarta-ribeiro-neurocientista-sonho-um-oraculo-probabilistico-22708269#ixzz5GMLDkk9n

Senegalesa quer capacitar meninas e mulheres para ciência e tecnologia

Uma das pessoas mais poderosas da África quer capacitar meninas e mulheres para a Ciência e a Tecnologia. Em entrevista exclusiva a EXAME, ela explica como

São Paulo – Ela foi abandonada pela mãe enquanto criança na zona rural do Senegal, não teve acesso à educação na infância e juventude e foi traficada para a França.

Mariéme Jamme se recusou a continuar parte das estatísticas que atormentam mulheres marginalizadas e aprendeu sozinha a ler e a escrever aos 16 anos. Dois anos depois, vivendo no Reino Unido, dominava sete linguagens diferentes de programação, uma habilidade que lhe garantiu empregos em grandes corporações.

Com a cabeça naquelas que não conseguiram deixar os ciclos de violência e exclusão que ela mesma conheceu, Mariéme virou ativista e criou projetos para inserir jovens senegalesas no mundo das Ciências Exatas. Ainda assim, sentia que suas ações não estavam criando impactos suficientes para mudar a realidade dessas pessoas. Queria mais.

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Criou, então, o iamtheCODE, que, segundo ela, é um dos maiores e “talvez o primeiro” movimento criado na África que tem impacto global. O projeto está hoje presente em 60 países e atua a partir da mobilização de governos e iniciativa privada na capacitação de meninas e mulheres para a Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. O objetivo? Ensinar um milhão delas a programar até 2030.

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“Por anos, meninas e mulheres foram deixadas para trás, especialmente em países como o Brasil, países da África e do Oriente Médio. Precisamos prestar atenção nisso”, avaliou em entrevista exclusiva a EXAME. “Quero garantir que elas tenham a capacitação e a confiança de que podem conseguir empregos em empresas desses setores”, reforçou.

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Mariéme teve o trabalho reconhecido pela Unicef e foi eleita uma das mulheres mais poderosas da África pela revista Forbes. Por telefone, falou a EXAME sobre a chegada de iamtheCODE no Brasil, empoderamento em comunidades marginalizadas e os desafios de agir em lugares nos quais a visão tradicional dos gêneros ainda é a realidade.

Abaixo, confira a entrevista:

EXAME – Por que é importante ensinar programação?

Mariéme – O importante não é apenas aprender a programar, mas sim inserir as pessoas no mundo digital, que é a direção em que estamos caminhando. Há muitos desafios por aí, especialmente com a robótica e a automação impactando os empregos, e são muitas as tendências para os próximos dez anos. Se não capacitarmos as mulheres nessas áreas, vão ficar para trás.

Acredito que é importante trabalharmos não só a capacitação em programação, mas também a educação digital como um todo, ensinar essas mulheres a procurarem por dados e soluções para seus problemas. Nosso objetivo é o de garantir que elas estejam sempre bem-informadas para tomar as suas decisões.

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EXAME – Essa é essa premissa por trás do movimento iamtheCODE? Pode nos contar um pouco mais sobre o projeto?

Mariéme – O iamtheCODE é um dos maiores, talvez o primeiro, movimento criado na África e que tem impacto global e foi criado por mim a partir da minha própria frustração.

Na época em que a ideia surgiu, eu estava aprendendo a ensinar meninas a programar e investigando como dar acesso à essa educação para as mulheres. No entanto, não conseguia ver os impactos das minhas ações nos governos e no setor privado. Assim, decidi criar algo holístico em que pudesse mobilizar essas pessoas a realmente investir na educação.

Educação não pode ser caridade. As meninas que cresceram em favelas, por exemplo, não deveriam estar ali, mas estão porque alguém não está fazendo o seu trabalho. Queremos transformar as meninas da favela em mulheres bem-sucedidas, dar para essas pessoas esperança e oportunidades.

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EXAME – IamtheCODE agora está presente em 60 países. Em muitos deles, a sociedade ainda enxerga os gêneros a partir dos seus papeis tradicionais. Como convencer as pessoas da importância de ensinar programação para meninas e mulheres?

Mariéme – É muito desafiador e, ao mesmo tempo, animador, pois está claro que não podemos mais excluir as meninas e as mulheres das narrativas. Já tiramos coisas demais delas nos últimos anos.

Na semana passada, eu estava em Gana para uma palestra. Nela, um homem se levantou e perguntou por quê estávamos falando apenas sobre a capacitação de meninas e mulheres. Eu respondi que entendia que se essas medidas não impactassem os meninos, eles também ficariam para trás. E esse é também um desafio, ainda há muitas pessoas que não acreditam que as mulheres deveriam estar nessas discussões.

Mas esse é também o nosso trabalho e é por isso que iamtheCODE é tão importante: educamos, informamos e realizamos trabalhos de advocacy para conscientizar os governantes sobre importância da inclusão feminina.

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EXAME – Quais os planos para iamtheCODE no Brasil?

Mariéme – Temos uma empresa britânica parceira que está presente em São Paulo e nossa intenção é a de iniciar as operações dos clubes de programação em Salvador, São Paulo e Recife ainda neste mês. A expectativa é a de que todos os clubes estejam em atividade até o fim de maio.

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EXAME – O projeto também pretende inserir essas meninas e mulheres no mercado de trabalho?

Mariéme – Estamos falando de comunidades marginalizadas, especialmente a negra, portanto, nossa prioridade é inspirá-las, mostrá-las que não é por serem negras que não podem ser bem-sucedidas no Brasil. Depois, queremos realmente ajudá-las a ter a confiança de que vão aprender e de que podem trabalhar em uma empresa de tecnologia.

Nosso objetivo é o de auxiliá-las a conseguir esse emprego no final da jornada. Até o momento, trabalhamos com meninas entre 11 e 18 anos de idade, mas já estamos olhando para a geração seguinte, jovens entre 18 e 25 anos.

Especificamente sobre o Brasil, o sistema ainda é muito racista e não acho que está pronto para contratar pessoas negras na Tecnologia e da Inovação. Não desejamos tornar isso uma questão racial, mas vejo que o maior desafio no país é o de encontrar pessoas que estejam dispostas a dar uma chance para as minorias.

Uma das coisas que queremos fazer no Brasil é convidar as mulheres que fazem parte desse mundo a terem mais compaixão e empatia. Acho que ainda não há muito interesse em ajudar as minorias, mas espero conseguir mostrar que a tecnologia não conhece barreiras, passaportes, raças.

Temos meninas programando em São Francisco (Estados Unidos) e no Quênia. Então, o problema não é conhecimento, mas sim inclusão e quero garantir as pessoas entendam e falem sobre o assunto.

trip272-marieme-header.jpgEXAME – Sua história de vida é impressionante. Quando você olha para trás, como se sente?

Mariéme – É uma lição de humildade, mas é fruto de trabalho duro. Me sinto lisonjeada de ter a atenção da imprensa, de ver as pessoas interessadas na minha história e é por isso que quero deixar meu legado no mundo e nas meninas.

Minha história não me define, sou o exemplo de pessoa que foi pobre, marginalizada e que conseguiu ser bem-sucedida. Mas, o Reino Unido me deu oportunidades: vivo em um país que reconheceu meu valor. Então, quero devolver para a sociedade, pois todos os dias milhões de meninas são traficadas, violadas, abusadas, discriminadas e ninguém faz nada.

É evidente que, se você der para uma menina habilidades e oportunidades para pensar e se educar, ela será muito bem-sucedida.

Esta senegalesa tem um plano para ensinar 1 milhão de meninas a programar

11 de fevereiro, “Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência”

 

O dia 11 de Fevereiro foi instituído pela Organização da Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) para comemorar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Este dia constitui uma oportunidade para todos apoiarem a sua integração na ciência, com o intuito de chamar a atenção para a necessidade de se continuar os esforços na redução das diferenças de gênero na ciência.

Mensagem conjunta de Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO e Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora executiva da ONU Mulheres por ocasião do Dia Internacional de Mulheres e das Meninas na Ciência

e Phumzile Mlambo-Ngcuka1

Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO

Nosso futuro será marcado pelo progresso científico e tecnológico, assim como nosso passado. Esse progresso futuro será melhor quando se basear no talento integral, na criatividade e nas ideias de mulheres e meninas na ciência.

A maioria dos países, industrializados ou não, estão longe de alcançar a paridade de gênero nas disciplinas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (Science, Technology, Engineering and Mathematics –  STEM) em todos os âmbtios do sistema educacional. Esse deficit alimenta a lacuna no emprego. De acordo com estimativas do Instituto de Estatísticas da UNESCO (UIS), as mulheres atualmente representam menos de 30% da força de trabalho de pesquisa e desenvolvimento em todo o mundo.

O rápido crescimento dos setores de ciência e tecnologia são vitais para as economias nacionais. Lidar com alguns dos maiores desafios da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável – da melhoria do sistema de saúde ao combate da mudança climática – dependerá de aproveitar todos os talentos. Isso significa que precisamos alcançar um aumento significativo no número de mulheres que entram e permanecem nas carreiras de STEM.

Uma das principais ferramentas para combater a desigualdade de gênero nas ciências é desmantelar as barreiras para meninas e mulheres em casa, na sala de aula e no local de trabalho. Isso requer mudar de atitudes e desafiar os estereótipos. Precisamos combater percepções preconceituosas entre professores, empregadores, colegas e pais quanto à adequação de meninas e mulheres jovens na educação científica  – ou na aprendizagem da ciência de modo geral –, nas carreiras científicas e nas lideranças e coordenações no âmbito acadêmico.

É difícil para as meninas acreditarem em si mesmas como cientistas, exploradoras, inovadoras, engenheiras e inventoras quando as imagens que vêem nas mídias sociais, nos livros didáticos e na publicidade refletem os papéis estreitos e limitantes de gênero. É por isso que a ONU Mulheres está liderando a iniciativa Aliança Sem Estereótipo (Unstereotype Alliance), que incentiva anunciantes de publicidade, empresas de tecnologia e influenciadores a banir retratos antigos e estereotipados de gênero em publicidade que possam diminuir ou limitar o papel das mulheres na sociedade. Essas representações imprecisas podem dificultar as carreiras das mulheres, inclusive como inovadoras científicas.

relatório do Painel de Alto Nível sobre Empoderamento Econômico Feminino de 2017 do Secretário-Geral da ONU (link externo em inglês) explorou o impacto dessas normas sociais adversas e ressaltou a necessidade do diálogo com crianças e adolescentes, de modo que tanto as meninas como os meninos se vejam como igualmente capazes desde a primeira infância. Ele também analisou maneiras de promover modelos positivos como um dos principais impulsionadores da mudança para aumentar a participação econômica das mulheres em todo o mundo.

Mulheres fortes mais experientes podem mostrar às mulheres e às meninas o caminho para a liderança acadêmica, a pesquisa e os negócios ao longo de suas carreiras. É por isso que a UNESCO, juntamente com a Fundação L’Oréal, por duas décadas, tem incentivado as mulheres cientistas por meio do prêmio For Women for Science Awards, criado para celebrar as conquistas das mulheres cientistas. O nosso recentemente lançado Manifesto “For Women in Science”, é um apelo para incentivar o talento das mulheres, ao apoiar a educação de meninas em disciplinas STEM e ao garantir a igualdade de oportunidades, de modo que elas participem plenamente e liderem o amplo espectro de órgãos científicos de alto nível.

A ONU Mulheres e a UNESCO estão engajadas em continuar trabalhando no Sistema das Nações Unidas e com todos os nossos parceiros da sociedade pública, privada e civil para garantir que as meninas e as mulheres sejam representadas de forma mais igualitária, que a elas sejam concedidas todas as oportunidades que precisam para prosperar em disciplinas relacionadas à ciência, e para que façam as descobertas inovadoras do futuro.

Fonte:http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/joint_message_from_unesco_and_un_women_for_the_international/

Marco legal da Ciência , Tecnologia e Inovação é regulamentado no Brasil

ban_854b30e8d2ebb29b9c763c187a1084b9Diário Oficial da União de hoje (8) publicou decreto que regulamenta o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação (Lei nº 13.243/2016)  e  traz a expectativa de desburocratizar as atividades de pesquisa e inovação no país. As novas regras criam mecanismos para integrar instituições científicas e tecnológicas e incentiva investimentos em pesquisa.

 

De acordo com o ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o novo marco legal deve simplificar a celebração de convênios para a promoção da pesquisa pública; facilitar a internacionalização de instituições científicas e tecnológicas e aumentar a interação elas e as empresas.

Deve ainda incrementar a promoção de ecossistemas de inovação; diversificar instrumentos financeiros de apoio à inovação e permitir maior compartilhamento de recursos entre entes públicos e privados.

Outros pontos são a simplificação de procedimentos de importação de bens e insumos para pesquisa; novos estímulos para a realização de encomendas tecnológicas e flexibilidade no remanejamento entre recursos orçamentários.

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro, que participou da reunião no Palácio do Planalto, avaliou como positivo o regulamento do marco e lembrou que é resultado de anos de discussões.

“Vemos isso como um ponto positivo para a integração maior da ciência, tecnologia e inovação no país. Temos a preocupação clara de destravar uma série de dificuldades legais que o Brasil tradicionalmente tem para a ciência funcionar; dar mais flexibilidade para a ação da ciência é muito importante. Como essa regulamentação vai chegar na ponta, nas empresas, nas instituições de pesquisa, isso vai ser um processo de construção”.

 

http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=08/02/2018&jornal=515&pagina=10&totalArquivos=180

Ser inventor é só para crianças ricas

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Vários estudos documentam o imenso talento que se perde devido à desigualdade social e de gênero

Meninos de famílias abastadas têm acesso muito mais fácil à inovação.
Meninos de famílias abastadas têm acesso muito mais fácil à inovação. US ETV

Se você pensa que existem carreiras elitistas, como a diplomacia e a magistratura, talvez deva considerar os inovadores. Estudos recentes revelam uma realidade bem diferente do estereótipo do gênio inventor que vive sem um tostão, encerrado numa garagem com seu talento e o suor de sua testa. A profissão de inventor é muito pouco igualitária, com injustos filtros que impedem o acesso de mulheresminorias e, essencialmente, pessoas com famílias de poucos recursos. O principal talento necessário para ser um inovador de sucesso é ter pais com dinheiro.

“Transformar-se em inventor depende de duas coisas nos EUA: se destacar em matemática e ciências e ter uma família rica”, concluem os autores

Um menino criado numa das famílias que compõem o 1% mais rico da população tem 10 vezes mais chances de se transformar em inventor do que outro educado por pais com renda abaixo da média, sem importar as notas que tenham, segundo o estudo “Quem se torna um inventor nos EUA”, publicado recentemente. As crianças que mais se destacam na aula de matemática, por exemplo, têm muito mais probabilidade de se tornarem inventores – mas somente se vierem de famílias de alta renda. É pouco provável que as crianças com bom desempenho em matemática e de famílias de baixa renda ou minorias consigam seguir essa carreira.

“Transformar-se em inventor depende de duas coisas nos Estados Unidos: se destacar em matemática e ciências e ter uma família rica”, concluem os autores do trabalho. Assim, uma criança de família pobre que se sobressai em matemática tem as mesmas chances de triunfar como inovador que as de uma criança rica com notas medíocres nessa matéria.

“[A desigualdade] pode se dever a fatores intangíveis, como a falta de acesso à rede de amigos e contatos familiares”, explica Palomeras

O estudo analisa, com uma quantidade excepcional de dados, o perfil sociodemográfico de 1,2 milhão de inventores nos EUA, considerando a renda familiar, as notas escolares e as patentes registradas. Tudo começa muito antes da universidade. “Os estudantes de famílias de baixa e alta rendas nas universidades com maiores quantidades de inventores (por exemplo, o MIT) continuam patenteando a um ritmo relativamente similar, apoiando a noção de que os fatores que afetam as crianças antes de ingressar no mercado de trabalho são determinantes para quem se transforma em inventor”, afirmam os pesquisadores do estudo, liderado por Raj Chetty, da Universidade Stanford.

Poderia se pensar que a desigualdade dos EUA é pouco representativa além de suas fronteiras. Mas outro estudo recente, “A origem social dos inventores”, sobre os inventores na Finlândia, obteve resultados similares. Na Finlândia, um país com educação igualitária e gratuita, com pouca discriminação a priori no mercado de trabalho, os pesquisadores encontraram uma má gestão do talento, “que afeta sobretudo os indivíduos de alto coeficiente de inteligência”. Os autores da pesquisa focaram nesse fator, o da capacidade cognitiva, em vez das notas escolares, mas encontraram um padrão idêntico ao dos EUA: as possibilidades de se transformar em inventor na idade adulta aumentam à medida que cresce a renda da família, disparando quando chega ao topo das famílias mais ricas. As capacidades de meninas e meninos são um fator secundário também na Finlândia, um dos países mais igualitários do mundo. A educação dos pais afeta decisivamente as possibilidades dos filhos, um fator que em muitos países tem um vínculo direto com sua renda. “A relação entre a renda dos pais e a probabilidade de se tornar um inventor se baseia na educação dos pais, tanto diretamente como através de seu impacto na educação do filho”, explicam os autores, liderados por Philippe Aghion, do College de France, em Paris.

Também há uma gigantesca disparidade de gênero: só 4,2% dos inventores europeus são mulheres. E recebem 14% menos que seus colegas homens por patentes de alta qualidade

Como funciona esse mecanismo? “Pode influir de muitas formas intangíveis: se os pais não têm a educação adequada, talvez não saibam que há oportunidades que seus filhos estejam perdendo; ou porque não têm referentes em seu entorno; ou porque não têm acesso à rede de amigos e contatos da família”, explica Neus Palomeras, economista da Universidad Carlos III, em Madri. Há uma década, Palomeras participou do primeiro estudo que tentava estabelecer um perfil dos inventores europeus, “Inventores e processos de invenção na Europa”. Por exemplo, só 26% tinham doutorado e 77% diploma universitário.7-cientistas-negros-que-vocc3aa-deveria-conhecer-fb1.png

Mas talvez o que mais chamou a atenção naquele estudo, assim como nos atuais, seja o espaço praticamente residual deixado às mulheres: em sua amostra de 9.000 europeus com patentes importantes, só 2,8% eram inventoras. No estudo de 2016 “É um trabalho de homem: renda e diferença de gênero na pesquisa industrial”, que abordou esse problema, apenas 4,2% dos 9.700 inventores de 23 países eram mulheres (8,3% na Espanha; 2,4% na Suécia), que além disso recebiam 14% menos que seus colegas homens com o mesmo nível de produtividade de patentes de alta qualidade. Nos EUA, a equipe de Chetty estima que haja 18% de inventoras na geração nascida em 1980, contra 7% na geração de 1940.

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Uma criança de família pobre que se sobressai em matemática tem as mesmas chances de triunfar como inovador que as de uma criança rica com notas medíocres na matéria

Trata-se de um enorme problema de desigualdade de gênero que, como em outros casos, começa na infância. No estudo do Chetty sobre os EUA, as meninas estavam tão longe de ter acesso a essa carreira inovadora quanto os meninos de famílias sem recursos ou de minorias étnicas. “Se as meninas estivessem tão expostas a inventoras quanto os meninos a inventores, a disparidade de gênero na inovação se reduziria à metade”, calcula a equipe do estudo. Essa ideia tem sido implementada em diversas iniciativas, como a de cientistas mulheres que compartilham suas experiências com suas alunas, além da campanha espanhola 11 de Fevereiro, que promove a vocação das estudantes por ocasião do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

Por essa razão, os autores falam de “Einsteins perdidos”: são todos esses cérebros que não podem contribuir com seu talento inovador para a sociedade. “Se as mulheres, as minorias e as crianças de famílias de baixa renda inventassem no mesmo ritmo que os homens brancos de famílias de alta renda, a taxa de inovação nos EUA seria quadruplicada”, calcula a equipe de Chetty. “Seriam pessoas que poderiam substituir outras menos produtivas em seus cargos ou que poderiam levar ao mercado uma ideia de qualidade que ajudasse a aumentar a inovação”, diz Palomeras.

Na Finlândia, um dos países mais igualitários, as oportunidades também aumentam à medida que a renda familiar cresce

A desigualdade de gênero, pelo menos nos EUA, foi ligeiramente corrigida. Mas a desigualdade de classe nem sempre foi assim. Entre 1880 e 1940, a renda do pai se relacionava positivamente com a chance de o filho se tornar um inventor – mas, ao contrário de agora, a educação da criança era mais decisiva, segundo um estudo publicado em 2017 sobre a idade de ouro dos inventores norte-americanos. Como afirma Chetty no The New York Times, a “criatividade está amplamente distribuída; as oportunidades, não.”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/26/ciencia/1514291186_766622.html3

Gana cria importante projeto no campo da astronomia

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Não é preciso ser rico para isso, basta vontade política, começando lá de baixo. Gana por exemplo. Tem o 87º PIB do mundo. O Uruguay está em 79º. Eles tem a 126ª renda per capita do mundo. Nós que somos essa desgraça, estamos em 80. Mesmo assim eles conseguem juntar uns caraminguás e investir em ciência.

O mais recente projeto é o radio-observatório de Kuntunse. Os cientistas conseguiram uma antiga antena de comunicação doada pela Vodafone, e com apoio do governo transformaram as instalações em um radiotelescópio.

Esse equipamento não só permitirá observações sofisticadas, como será integrado a telescópios em outros países, inclusive Europa e África do Sul. Através de um processo de interferometria, é criada uma antena virtual com milhares de km, possibilitando muito mais resolução.

O custo do projeto foi de US$ 9,2 milhões, ou “você me fez dar pause em Game of Thrones pra ISSO?” em valores de políticos brasileiros. Foi bancado pelo African Renaissance and International Cooperation Fund, um Departamento que promove investimentos pacíficos em países africanos.

A meta agora é incluir Astronomia nas universidades locais, assim não será mais preciso ir para o exterior estudar. Dickson Adomako, diretor do Instituto Ganense de Tecnologia e Ciência Espacial ressalta que o observatório será uma chance dos astrônomos botarem a mão na massa, saindo do campo teórico.

O observatório foi inaugurado quinta-feira passada pelo presidente Nana Addo Dankwa Akufo-Addo, e descrito como o começo de uma nova era de pesquisa e cooperação internacional, incluindo a African Very Long Baseline Interferometry Network.ghana-radio-astronomy-observatory.jpg

Essa iniciativa vinda de um país tão pobre mostra que não importa o seu tamanho. Ninguém é tão pequeno que não possa olhar pra cima e sonhar com as estrelas.

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Brasil e Senegal renovam acordo de cooperação técnico e cientifico

 

 

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Os senadores aprovaram nesta terça-feira (27/6) o acordo de cooperação científica e tecnológica entre Brasil e Senegal, celebrado em maio de 2010. O texto (PDS 9/2017) segue agora para promulgação.brasil-x-senegal

O objetivo do acordo é contribuir para expandir e fortalecer os laços entre as comunidades científicas dos dois países, por meio de condições favoráveis para atividades de cooperação. Há previsão de eventos bilaterais, intercâmbio de informações científicas e tecnológicas, custeio de atividades e facilitação do trânsito de pessoal e equipamentos necessários à pesquisa conjunta.

O texto do acordo também prevê intercâmbio de cientistas, pesquisadores, peritos, bolsistas e participantes de cursos, colóquios ou qualquer outro evento na área científica; comunicação, troca de informações e de documentação científicas e tecnológicas; organização, no plano bilateral, de fóruns, seminários e cursos científicos e tecnológicos; identificação de problemas científicos e tecnológicos; formulação e implementação de programas conjuntos de pesquisa; aplicação dos resultados de pesquisas na economia, indústria, agricultura, medicina e outros.Vanessa-Grazzotin-senado

A matéria teve parecer favorável da relatora na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). Ela diz que as comunidades científicas do Brasil e do Senegal irão se beneficiar do intercâmbio de técnicas e conhecimentos. Ela cita como exemplos a cooperação entre bibliotecas científicas, centros de informação científica e tecnológica, instituições científicas para o intercâmbio de livros, publicações periódicas e bibliografias, intercâmbio de informações e de documentos completos por meio de redes de comunicação e informação eletrônica e visitação recíproca de cientistas em várias áreas do conhecimento.

Registrando que em junho do ano passado (2016), pesquisadores do Instituto Pauster de Dakar, no Senegal, participaram ativamente do combate ao surto de Ebola na África, estiveram em São Paulo para ajudar cientistas brasileiros no combate ao vírus zika, transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti. O grupo chegou à capital paulista para se juntar à Rede Zika, criada por cientistas, professores e alunos de instituições e laboratórios para investigar o vírus e o aumento no número de casos de microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré no país.cientistas zika.jpg

Liderados por Amadou Alpha Sall, renomado especialista em epidemia e controles virais, os senegaleses têm o desafio de treinar pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e ajudá-los na implantação de um teste rápido e eficaz para diagnosticar a doença, feito por sorologia. Durante o surto de ebola, os cientistas conseguiram criar um teste que detectava a doença em apenas 15 minutos. A análise rápida permitiu o diagnóstico em locais afetados pela epidemia que atingiu o Oeste da África.6ijpsnijefo5bddtobblqyi67 cientistas