Mulheres negras cientistas brasileiras

Acadêmicas das áreas de humanas, exatas e biológicas que superaram machismo acadêmico e o racismo

Norma Odara

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

,

Sonia Guimarães no lançamento do filme "Estrelas Além do Tempo" - Créditos: Reprodução/Norma Odara
Sonia Guimarães no lançamento do filme “Estrelas Além do Tempo” / Reprodução/Norma Odara

No Brasil, 54% da população se autodeclara preta ou parda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada em 2015. No entanto, no mesmo ano, somente 12,8% dos jovens negros de 18 a 24 anos (considerando homens e mulheres) chegaram ao nível superior, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números mostram que o espaço acadêmico ainda é pouco ocupado por mulheres negras e, as poucas que alcançam destaque, o conseguem com muito esforço e resistência.

Diante deste cenário adverso, o Brasil de Fato elaborou uma lista reconhecendo o talento e o sucesso de cientistas negras brasileiras do ramo das exatas, humanas e biológicas, que superaram o machismo acadêmico e o racismo. Confira:

1. Enedina Alves 

Enedina Alves Marques foi a primeira mulher negra a se formar em engenharia no Brasil. Nascida em 1913, de família pobre, ela cursou engenharia e se formou aos 30 anos no Instituto de Engenharia do Paraná (IEP). Em agosto de 1981, foi vítima de um infarte.

O cineasta Paulo Munhoz e o historiador Sandro Luis Fernando pesquisaram a vida de Enedina e pretendem lançar um documentário sobre sua vida pessoal e acadêmica.

Enedina Alves/ Arquivo

2.  Viviane dos Santos Barbosa

A baiana Viviane dos Santos Barbosa cursou bacharelado em engenharia química e bioquímica pela Delft University of Technology, na Holanda, e se formou em mestre em nanotecnologia na mesma instituição.

Ela cursou química industrial por dois anos na Universidade Federal da Bahia, mas, nos anos 90, decidiu ir para Holanda. Lá desenvolveu uma pesquisa com catalisadores (que aceleram reações) através da mistura de Paladium e Platina.

O projeto foi premiado em 2010, durante a conferência científica internacional, na cidade de Helsinki, na Finlândia, onde competiu com outros 800 trabalhos.

Viviane dos Santos Barbosa/Arquivo Fapesp

3. Maria Beatriz do Nascimento

Nasceu em Aracaju (SE) em 1942, e migrou com seus dez irmãos e seus pais para o Rio de Janeiro, na década de 50. Cursou história na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aos 28 anos de idade. Fez pós-graduação na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1981.

Beatriz dedicou sua vida para que a temática étnico-racial ganhasse visibilidade no Brasil. Foi responsável por formar um grupo de ativistas negras e negros chamado Grupo de Trabalho André Rebouças (GTAR), na Universidade Federal Fluminense, em meados dos anos 1983, almejando o envolvimento do corpo docente nos estudos sobre África.

Seus artigos foram publicados na Revista de Cultura Vozes, Estudos Afro-Asiáticos e Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, além de diversas entrevistas e depoimentos à grande mídia.

Maria Beatriz Nascimento/Arquivo

4. Sonia Guimarães

Sonia sonhava em ser engenheira, mas foi em sua última opção do vestibular, em 1970. Na época, ela prestou física no Mapofei, um vestibular criado em 1969 para a área de exatas nas universidades Instituto Mauá de Tecnologia, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e na Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), e se apaixonou.

Hoje, Sonia é a primeira negra brasileira doutora em física pela University of Manchester Institute of Science and Technology e compõe, há 24 anos, o corpo docente do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA).

Ela atua na área de física aplicada, com ênfase em Propriedade Eletróticas de Ligas Semicondutoras Crescidas Epitaxialmente, e já conduziu pesquisas sobre sensores de radiação infravermelha.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fbrasildefato%2Fvideos%2F1323146117733349%2F&show_text=0&width=560

5. Simone Maia Evaristo

A bióloga e citotecnologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Simone Maia é presidente da Associação Nacional de Citotecnologia (Anacito). É a única brasileira no quadro de membros ativo, como membro diretor da Academia Internacional de Citologia (IAC).

Atualmente é supervisora na área de ensino técnico do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e sua missão tem sido divulgar o papel do controle do câncer.

Simone Maia Evaristo, à esquerda, de camisa branca/Reprodução/Facebook

6. Luiza Bairros

Luiza Bairros foi uma das vozes mais respeitadas no combate à discriminação racial no Brasil e compôs o Movimento Negro Unificado (MNU). A ativista negra foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) durante o segundo governo Dilma Rousseff (PT), e faleceu em julho do ano passado, enquanto ainda tramitava o processo de impeachment da presidenta.

Luiza era mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em sociologia pela Michigan State University (EUA). Sua graduação foi em Administração Pública e de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGS) e especializou-se em Planejamento Regional pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Valter Campanato/Agência Brasil

7. Anita Canavarro

É professora de química na Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Ciências pela Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ). Fundou, em 2009, o grupo de Estudos sobre a Descolonização do Currículo de Ciências (CIATA) do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (CIATA-LPEQI/UFG) com a proposta de “ descolonizar” o estudo de ciências.

Além disso é presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), que busca promover a superação do racismo por meio da educação, defendendo e zelando pela manutenção de pesquisas com financiamento público.

Anitta Cavarro/Foto: Portal Catarinas

8. Katemari Rosa

Desde criança, a gaúcha Katemari Rosa foi apaixonada por física, observava as estrelas e sonhava em alçá-las. Hoje, é formada em física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre em filosofia e em história das ciências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora em Ciências pela Universidade de Columbia, em Nova York.

Ao longo de sua trajetória, Katemari começou a reparar no racismo dentro de seu campo de atuação e, em 2015, iniciou a pesquisa “Contando nossa história: negras e negros nas ciências, tecnologias e engenharias no Brasil”, com o intuito de criar um banco de histórias de negros e negras cientistas brasileiros.

Atualmente é professora na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e se preocupa com a formação de professores que inspirem jovens negros para área das ciências.

Katemari Rosa/Foto: Divulgação/Página pessoal

Advertisements

Quem são as cientistas negras brasileiras?

As mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000

São Paulo 
Sonia Guimarães no ITA.
Sonia Guimarães no ITA. ROOSEVELT CÁSSIO

Quando criança, Sonia Guimarães era a segunda melhor aluna da sala e adorava matemática. No primário, ficou entre as cinco melhores da classe. Estudava de tarde, mas quem se destacava tinha a chance de ir para a turma da manhã. Sonia não foi porque foi preterida pela filha de uma das funcionárias, que havia pleiteado a vaga. “Quem tiraram? A pretinha. Eu me senti depreciada por isso”, lembra ela. A hoje professora de Física no Instituto Tecnológico da Aeronáutica(ITA), uma das instituições de ensino mais conceituadas e concorridas do país, lembra que essa não foi a única passagem de racismo que a marcou em sua vida. Mas, apesar da torcida contra, conseguiu o primeiro título de doutorado em física concedido a uma mulher negra brasileira.

Ela, porém, sequer sabia dessa deferência. “Descobri por acaso quando o site Black Women of Brazil fez uma matéria. Nem meus chefes no ITA sabem disso! Alguns alunos descobriram porque eles pesquisam sobre mim na internet”. Estudante de escola pública durante toda a vida, Sonia trabalhava na adolescência e todo seu dinheiro era destinado a pagar o cursinho, já que fazia ensino médio técnico. Sonhava em ser engenheira civil. Para realizar seu sonho prestou Mapofei, um vestibular que na década de 1970 dava vagas para as grandes faculdades de engenharia deSão Paulo. Mas foi orientada por um professor a colocar como opções no vestibular os cursos que tivessem menor procura. Sua escolha foi para física. “No segundo ano [do curso], eu prestei vestibular para engenharia civil, mas comecei a ter aula de física que estuda materiais sólidos, e me apaixonei”.

saga de Sonia faz um paralelo com a de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughanque faziam parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época em que negros não podiam nem mesmo usar os mesmo banheiros que funcionários brancos na Agência. Elas são as protagonistas do filme Estrelas Além do Tempo. A presença de mulheres negras na ciência também é mínima no Brasil. Embora o país tenha 52% de negros, somente em 2013 soube-se quantos deles estavam na área científica.

Foi nesse ano que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) solicitou que os pesquisadores brasileiros informassem raça e cor em seus lattes. Um estudo feito em 2015 tendo como base essas informações, mostra que entre 91.103 bolsistas da instituição cursando pós-graduação, seja em formato de Mestrado, Doutorado ou Iniciação Científica, as mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000, ou 5,5%.

Essa pouca diversidade colabora para que a ciência produzida no Brasil seja descolada da necessidade da população, avalia Anna Maria Canavarro Benite, presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). Embora o país seja um dos maiores produtores de artigos científicos, ocupando o 13º lugar no ranking elaborado pela empresa Thomson Reuters, essa produção é descolada da necessidade da população. “O Brasil produz muito. Mas, por exemplo, agora o país vive um surto de febre amarela e essas pesquisas não ajudam a vida prática da sociedade”, afirma.

Anita Canavarro, como é conhecida, também é professora de química da Universidade Federal de Goiás(UFG) e dedica sua carreira a “descolonizar” o currículo da disciplina nas escolas públicas. A professora chama de “descolonização” a necessidade de colocar o negro como sujeito produtor da tecnologia. “Nós temos traços de apagamento e invisibilização. Vários artefatos tecnológicos utilizados no Brasil são datados desde antes da chegada do colonizador e até hoje não são creditados”, explica Anita. A indústria de mineração, por exemplo, utiliza colunas de destilação que tem arquitetura semelhante à de fornos africanos. Já a indústria de mineração utiliza até os dias atuais processos já utilizados por povos africanos que faziam fundição de ferro, explica ela. “Ao mesmo tempo, a primeira Constituição do Brasil proibia negros de irem à escola alegando que eles possuíam moléstias contagiosas”.

Antes de ser cientista, a presidenta ABPN era uma moradora da Baixada Fluminense que se aproximou das ciências exatas porque percebeu que os cursos ligados à licenciatura eram menos disputados na Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ), quando iniciou sua graduação em 2001. “Uma vez no curso, eu me apaixonei pelos processos de transformação da matéria. Hoje minha leitura de mundo é muito ligada a isso”.

Ao contrário de Anita e Sonia, Katemari Rosa sempre foi apaixonada pela ciência. “Eu escolhi fazer física porque eu quis descobrir o céu, quando criança me apaixonei por astronomia”, diz ela. A maioria dos astrônomos são formados em física e por isso seguiu o curso, explica.

Gaúcha, Katemari estudou no atual Instituto Federal do Rio Grande do Sul(IFRS), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Foi no campus que ela pôde frequentar o observatório e o planetário da universidade.

Quando ela olha para trás, se lembra de casos de racismo que sofreu, mas que na época não identificava como tal, como quando a funcionária da escola que cuidava de estágios a indicou para uma vaga de assistente de dentista. Além de atender telefone e fazer coisas específicas da função, foi orientada a lavar a louça do consultório. “A funcionária jamais indicaria uma daquelas meninas brancas para essa vaga”.

O maior choque que teve, porém, foi quando se mudou para Salvador para fazer o Mestrado. A cidade com mais negros no Brasil tinha uma universidade pública que não espelhava isso, já que no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA) havia apenas um professor negro. “A gente tem dificuldade de atribuir ao racismo porque isso significa que existem pessoas pensando que a gente é menos gente. Trata-se de um mecanismo de defesa, como dizia Derrick Bell”, reflete ela, citando o primeiro professor negro de Direito em Harvard nos anos 1970. “É difícil de explicar e só quem sente, sabe. A gente tem essas sensações, mesmo que não atribua ao racismo, na experiência cotidiana”.

A física atualmente trabalha na Universidade Federal de Campina Grande(UFCG), onde concentra seus esforços para formar novos professores que entendam a necessidade de inspirar jovens a seguir no caminho das ciências. “Uma das minhas alunas fez um projeto para examinar livros didáticos de física do ensino médio. Nas imagens analisadas, as pessoas negras só apareciam na parte de mecânica, velocistas africanos ou jogadores de futebol”, relata. As negras estavam empurrando carrinho de bebê. “E a gente pensa que física não tem nada a ver mas está cheio de imagens que reforçam o papel da mulher, o papel do negro. Nós aprendemos desde cedo onde são nossos lugares”.

A química Denise Fungaro, por outro lado, confessa que não se atentava para a inexistência de professores e colegas negros quando entrou na Universidade de São Paulo (USP) em 1983. “Eu não sofria discriminação. Nunca tive professores negros, mas como a avaliação é feita através de provas não tem como a pessoa te discriminar”, afirma. “Hoje entendo que eu era exceção, a única aluna negra no curso em um país onde 52% da população é negra”. Ela acabou de ser agraciada com o prêmio Kurt Politzer, concedido pela Associação Brasileira de Indústria Química (ABIQUIM), mas seu desejo é servir de inspiração para sua filha que tem três anos. “Eu quero que ela saiba que pode ser bem-sucedida em outras áreas que não sejam exclusivamente artísticas ou esportivas”.

Enquanto isso, Sonia Guimarães pensa em se aposentar do ITA, mas não sabe quando. Na conversa com o EL PAÍS, lembra dos tempos em que trabalhou na Itália e em que estudou na Inglaterra, enquanto dá entrevistas para meninas do ensino médio, através do projeto “Elas nas Exatas”. Tornou-se também voluntária ensinando inglês para que outros jovens negros realizem seus sonhos de uma formação no exterior

 

Fonte;https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/ciencia/1487948035_323512.html

Senegalesa quer capacitar meninas e mulheres para ciência e tecnologia

Uma das pessoas mais poderosas da África quer capacitar meninas e mulheres para a Ciência e a Tecnologia. Em entrevista exclusiva a EXAME, ela explica como

São Paulo – Ela foi abandonada pela mãe enquanto criança na zona rural do Senegal, não teve acesso à educação na infância e juventude e foi traficada para a França.

Mariéme Jamme se recusou a continuar parte das estatísticas que atormentam mulheres marginalizadas e aprendeu sozinha a ler e a escrever aos 16 anos. Dois anos depois, vivendo no Reino Unido, dominava sete linguagens diferentes de programação, uma habilidade que lhe garantiu empregos em grandes corporações.

Com a cabeça naquelas que não conseguiram deixar os ciclos de violência e exclusão que ela mesma conheceu, Mariéme virou ativista e criou projetos para inserir jovens senegalesas no mundo das Ciências Exatas. Ainda assim, sentia que suas ações não estavam criando impactos suficientes para mudar a realidade dessas pessoas. Queria mais.

Piecing-it-together.jpg

Criou, então, o iamtheCODE, que, segundo ela, é um dos maiores e “talvez o primeiro” movimento criado na África que tem impacto global. O projeto está hoje presente em 60 países e atua a partir da mobilização de governos e iniciativa privada na capacitação de meninas e mulheres para a Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. O objetivo? Ensinar um milhão delas a programar até 2030.

Our-Kano.png

“Por anos, meninas e mulheres foram deixadas para trás, especialmente em países como o Brasil, países da África e do Oriente Médio. Precisamos prestar atenção nisso”, avaliou em entrevista exclusiva a EXAME. “Quero garantir que elas tenham a capacitação e a confiança de que podem conseguir empregos em empresas desses setores”, reforçou.

Looking-on.jpg

Mariéme teve o trabalho reconhecido pela Unicef e foi eleita uma das mulheres mais poderosas da África pela revista Forbes. Por telefone, falou a EXAME sobre a chegada de iamtheCODE no Brasil, empoderamento em comunidades marginalizadas e os desafios de agir em lugares nos quais a visão tradicional dos gêneros ainda é a realidade.

Abaixo, confira a entrevista:

EXAME – Por que é importante ensinar programação?

Mariéme – O importante não é apenas aprender a programar, mas sim inserir as pessoas no mundo digital, que é a direção em que estamos caminhando. Há muitos desafios por aí, especialmente com a robótica e a automação impactando os empregos, e são muitas as tendências para os próximos dez anos. Se não capacitarmos as mulheres nessas áreas, vão ficar para trás.

Acredito que é importante trabalharmos não só a capacitação em programação, mas também a educação digital como um todo, ensinar essas mulheres a procurarem por dados e soluções para seus problemas. Nosso objetivo é o de garantir que elas estejam sempre bem-informadas para tomar as suas decisões.

Marieme-Jamme

EXAME – Essa é essa premissa por trás do movimento iamtheCODE? Pode nos contar um pouco mais sobre o projeto?

Mariéme – O iamtheCODE é um dos maiores, talvez o primeiro, movimento criado na África e que tem impacto global e foi criado por mim a partir da minha própria frustração.

Na época em que a ideia surgiu, eu estava aprendendo a ensinar meninas a programar e investigando como dar acesso à essa educação para as mulheres. No entanto, não conseguia ver os impactos das minhas ações nos governos e no setor privado. Assim, decidi criar algo holístico em que pudesse mobilizar essas pessoas a realmente investir na educação.

Educação não pode ser caridade. As meninas que cresceram em favelas, por exemplo, não deveriam estar ali, mas estão porque alguém não está fazendo o seu trabalho. Queremos transformar as meninas da favela em mulheres bem-sucedidas, dar para essas pessoas esperança e oportunidades.

m

EXAME – IamtheCODE agora está presente em 60 países. Em muitos deles, a sociedade ainda enxerga os gêneros a partir dos seus papeis tradicionais. Como convencer as pessoas da importância de ensinar programação para meninas e mulheres?

Mariéme – É muito desafiador e, ao mesmo tempo, animador, pois está claro que não podemos mais excluir as meninas e as mulheres das narrativas. Já tiramos coisas demais delas nos últimos anos.

Na semana passada, eu estava em Gana para uma palestra. Nela, um homem se levantou e perguntou por quê estávamos falando apenas sobre a capacitação de meninas e mulheres. Eu respondi que entendia que se essas medidas não impactassem os meninos, eles também ficariam para trás. E esse é também um desafio, ainda há muitas pessoas que não acreditam que as mulheres deveriam estar nessas discussões.

Mas esse é também o nosso trabalho e é por isso que iamtheCODE é tão importante: educamos, informamos e realizamos trabalhos de advocacy para conscientizar os governantes sobre importância da inclusão feminina.

mariama

EXAME – Quais os planos para iamtheCODE no Brasil?

Mariéme – Temos uma empresa britânica parceira que está presente em São Paulo e nossa intenção é a de iniciar as operações dos clubes de programação em Salvador, São Paulo e Recife ainda neste mês. A expectativa é a de que todos os clubes estejam em atividade até o fim de maio.

mariamme

EXAME – O projeto também pretende inserir essas meninas e mulheres no mercado de trabalho?

Mariéme – Estamos falando de comunidades marginalizadas, especialmente a negra, portanto, nossa prioridade é inspirá-las, mostrá-las que não é por serem negras que não podem ser bem-sucedidas no Brasil. Depois, queremos realmente ajudá-las a ter a confiança de que vão aprender e de que podem trabalhar em uma empresa de tecnologia.

Nosso objetivo é o de auxiliá-las a conseguir esse emprego no final da jornada. Até o momento, trabalhamos com meninas entre 11 e 18 anos de idade, mas já estamos olhando para a geração seguinte, jovens entre 18 e 25 anos.

Especificamente sobre o Brasil, o sistema ainda é muito racista e não acho que está pronto para contratar pessoas negras na Tecnologia e da Inovação. Não desejamos tornar isso uma questão racial, mas vejo que o maior desafio no país é o de encontrar pessoas que estejam dispostas a dar uma chance para as minorias.

Uma das coisas que queremos fazer no Brasil é convidar as mulheres que fazem parte desse mundo a terem mais compaixão e empatia. Acho que ainda não há muito interesse em ajudar as minorias, mas espero conseguir mostrar que a tecnologia não conhece barreiras, passaportes, raças.

Temos meninas programando em São Francisco (Estados Unidos) e no Quênia. Então, o problema não é conhecimento, mas sim inclusão e quero garantir as pessoas entendam e falem sobre o assunto.

trip272-marieme-header.jpgEXAME – Sua história de vida é impressionante. Quando você olha para trás, como se sente?

Mariéme – É uma lição de humildade, mas é fruto de trabalho duro. Me sinto lisonjeada de ter a atenção da imprensa, de ver as pessoas interessadas na minha história e é por isso que quero deixar meu legado no mundo e nas meninas.

Minha história não me define, sou o exemplo de pessoa que foi pobre, marginalizada e que conseguiu ser bem-sucedida. Mas, o Reino Unido me deu oportunidades: vivo em um país que reconheceu meu valor. Então, quero devolver para a sociedade, pois todos os dias milhões de meninas são traficadas, violadas, abusadas, discriminadas e ninguém faz nada.

É evidente que, se você der para uma menina habilidades e oportunidades para pensar e se educar, ela será muito bem-sucedida.

Esta senegalesa tem um plano para ensinar 1 milhão de meninas a programar

Ser inventor é só para crianças ricas

0000000000,9

Vários estudos documentam o imenso talento que se perde devido à desigualdade social e de gênero

Meninos de famílias abastadas têm acesso muito mais fácil à inovação.
Meninos de famílias abastadas têm acesso muito mais fácil à inovação. US ETV

Se você pensa que existem carreiras elitistas, como a diplomacia e a magistratura, talvez deva considerar os inovadores. Estudos recentes revelam uma realidade bem diferente do estereótipo do gênio inventor que vive sem um tostão, encerrado numa garagem com seu talento e o suor de sua testa. A profissão de inventor é muito pouco igualitária, com injustos filtros que impedem o acesso de mulheresminorias e, essencialmente, pessoas com famílias de poucos recursos. O principal talento necessário para ser um inovador de sucesso é ter pais com dinheiro.

“Transformar-se em inventor depende de duas coisas nos EUA: se destacar em matemática e ciências e ter uma família rica”, concluem os autores

Um menino criado numa das famílias que compõem o 1% mais rico da população tem 10 vezes mais chances de se transformar em inventor do que outro educado por pais com renda abaixo da média, sem importar as notas que tenham, segundo o estudo “Quem se torna um inventor nos EUA”, publicado recentemente. As crianças que mais se destacam na aula de matemática, por exemplo, têm muito mais probabilidade de se tornarem inventores – mas somente se vierem de famílias de alta renda. É pouco provável que as crianças com bom desempenho em matemática e de famílias de baixa renda ou minorias consigam seguir essa carreira.

“Transformar-se em inventor depende de duas coisas nos Estados Unidos: se destacar em matemática e ciências e ter uma família rica”, concluem os autores do trabalho. Assim, uma criança de família pobre que se sobressai em matemática tem as mesmas chances de triunfar como inovador que as de uma criança rica com notas medíocres nessa matéria.

“[A desigualdade] pode se dever a fatores intangíveis, como a falta de acesso à rede de amigos e contatos familiares”, explica Palomeras

O estudo analisa, com uma quantidade excepcional de dados, o perfil sociodemográfico de 1,2 milhão de inventores nos EUA, considerando a renda familiar, as notas escolares e as patentes registradas. Tudo começa muito antes da universidade. “Os estudantes de famílias de baixa e alta rendas nas universidades com maiores quantidades de inventores (por exemplo, o MIT) continuam patenteando a um ritmo relativamente similar, apoiando a noção de que os fatores que afetam as crianças antes de ingressar no mercado de trabalho são determinantes para quem se transforma em inventor”, afirmam os pesquisadores do estudo, liderado por Raj Chetty, da Universidade Stanford.

Poderia se pensar que a desigualdade dos EUA é pouco representativa além de suas fronteiras. Mas outro estudo recente, “A origem social dos inventores”, sobre os inventores na Finlândia, obteve resultados similares. Na Finlândia, um país com educação igualitária e gratuita, com pouca discriminação a priori no mercado de trabalho, os pesquisadores encontraram uma má gestão do talento, “que afeta sobretudo os indivíduos de alto coeficiente de inteligência”. Os autores da pesquisa focaram nesse fator, o da capacidade cognitiva, em vez das notas escolares, mas encontraram um padrão idêntico ao dos EUA: as possibilidades de se transformar em inventor na idade adulta aumentam à medida que cresce a renda da família, disparando quando chega ao topo das famílias mais ricas. As capacidades de meninas e meninos são um fator secundário também na Finlândia, um dos países mais igualitários do mundo. A educação dos pais afeta decisivamente as possibilidades dos filhos, um fator que em muitos países tem um vínculo direto com sua renda. “A relação entre a renda dos pais e a probabilidade de se tornar um inventor se baseia na educação dos pais, tanto diretamente como através de seu impacto na educação do filho”, explicam os autores, liderados por Philippe Aghion, do College de France, em Paris.

Também há uma gigantesca disparidade de gênero: só 4,2% dos inventores europeus são mulheres. E recebem 14% menos que seus colegas homens por patentes de alta qualidade

Como funciona esse mecanismo? “Pode influir de muitas formas intangíveis: se os pais não têm a educação adequada, talvez não saibam que há oportunidades que seus filhos estejam perdendo; ou porque não têm referentes em seu entorno; ou porque não têm acesso à rede de amigos e contatos da família”, explica Neus Palomeras, economista da Universidad Carlos III, em Madri. Há uma década, Palomeras participou do primeiro estudo que tentava estabelecer um perfil dos inventores europeus, “Inventores e processos de invenção na Europa”. Por exemplo, só 26% tinham doutorado e 77% diploma universitário.7-cientistas-negros-que-vocc3aa-deveria-conhecer-fb1.png

Mas talvez o que mais chamou a atenção naquele estudo, assim como nos atuais, seja o espaço praticamente residual deixado às mulheres: em sua amostra de 9.000 europeus com patentes importantes, só 2,8% eram inventoras. No estudo de 2016 “É um trabalho de homem: renda e diferença de gênero na pesquisa industrial”, que abordou esse problema, apenas 4,2% dos 9.700 inventores de 23 países eram mulheres (8,3% na Espanha; 2,4% na Suécia), que além disso recebiam 14% menos que seus colegas homens com o mesmo nível de produtividade de patentes de alta qualidade. Nos EUA, a equipe de Chetty estima que haja 18% de inventoras na geração nascida em 1980, contra 7% na geração de 1940.

_estrelas_alem_do_tempo.png

Uma criança de família pobre que se sobressai em matemática tem as mesmas chances de triunfar como inovador que as de uma criança rica com notas medíocres na matéria

Trata-se de um enorme problema de desigualdade de gênero que, como em outros casos, começa na infância. No estudo do Chetty sobre os EUA, as meninas estavam tão longe de ter acesso a essa carreira inovadora quanto os meninos de famílias sem recursos ou de minorias étnicas. “Se as meninas estivessem tão expostas a inventoras quanto os meninos a inventores, a disparidade de gênero na inovação se reduziria à metade”, calcula a equipe do estudo. Essa ideia tem sido implementada em diversas iniciativas, como a de cientistas mulheres que compartilham suas experiências com suas alunas, além da campanha espanhola 11 de Fevereiro, que promove a vocação das estudantes por ocasião do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

Por essa razão, os autores falam de “Einsteins perdidos”: são todos esses cérebros que não podem contribuir com seu talento inovador para a sociedade. “Se as mulheres, as minorias e as crianças de famílias de baixa renda inventassem no mesmo ritmo que os homens brancos de famílias de alta renda, a taxa de inovação nos EUA seria quadruplicada”, calcula a equipe de Chetty. “Seriam pessoas que poderiam substituir outras menos produtivas em seus cargos ou que poderiam levar ao mercado uma ideia de qualidade que ajudasse a aumentar a inovação”, diz Palomeras.

Na Finlândia, um dos países mais igualitários, as oportunidades também aumentam à medida que a renda familiar cresce

A desigualdade de gênero, pelo menos nos EUA, foi ligeiramente corrigida. Mas a desigualdade de classe nem sempre foi assim. Entre 1880 e 1940, a renda do pai se relacionava positivamente com a chance de o filho se tornar um inventor – mas, ao contrário de agora, a educação da criança era mais decisiva, segundo um estudo publicado em 2017 sobre a idade de ouro dos inventores norte-americanos. Como afirma Chetty no The New York Times, a “criatividade está amplamente distribuída; as oportunidades, não.”

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/26/ciencia/1514291186_766622.html3

Gana cria importante projeto no campo da astronomia

-astronomy-observatory-machine.-2

Não é preciso ser rico para isso, basta vontade política, começando lá de baixo. Gana por exemplo. Tem o 87º PIB do mundo. O Uruguay está em 79º. Eles tem a 126ª renda per capita do mundo. Nós que somos essa desgraça, estamos em 80. Mesmo assim eles conseguem juntar uns caraminguás e investir em ciência.

O mais recente projeto é o radio-observatório de Kuntunse. Os cientistas conseguiram uma antiga antena de comunicação doada pela Vodafone, e com apoio do governo transformaram as instalações em um radiotelescópio.

Esse equipamento não só permitirá observações sofisticadas, como será integrado a telescópios em outros países, inclusive Europa e África do Sul. Através de um processo de interferometria, é criada uma antena virtual com milhares de km, possibilitando muito mais resolução.

O custo do projeto foi de US$ 9,2 milhões, ou “você me fez dar pause em Game of Thrones pra ISSO?” em valores de políticos brasileiros. Foi bancado pelo African Renaissance and International Cooperation Fund, um Departamento que promove investimentos pacíficos em países africanos.

A meta agora é incluir Astronomia nas universidades locais, assim não será mais preciso ir para o exterior estudar. Dickson Adomako, diretor do Instituto Ganense de Tecnologia e Ciência Espacial ressalta que o observatório será uma chance dos astrônomos botarem a mão na massa, saindo do campo teórico.

O observatório foi inaugurado quinta-feira passada pelo presidente Nana Addo Dankwa Akufo-Addo, e descrito como o começo de uma nova era de pesquisa e cooperação internacional, incluindo a African Very Long Baseline Interferometry Network.ghana-radio-astronomy-observatory.jpg

Essa iniciativa vinda de um país tão pobre mostra que não importa o seu tamanho. Ninguém é tão pequeno que não possa olhar pra cima e sonhar com as estrelas.

president-akufo-addo-unveiling-the-plaque-for-the-launch-of-the-ghana-radio-astronomy-observatory

 

Brasil e Senegal renovam acordo de cooperação técnico e cientifico

 

 

dakar.jpg

Os senadores aprovaram nesta terça-feira (27/6) o acordo de cooperação científica e tecnológica entre Brasil e Senegal, celebrado em maio de 2010. O texto (PDS 9/2017) segue agora para promulgação.brasil-x-senegal

O objetivo do acordo é contribuir para expandir e fortalecer os laços entre as comunidades científicas dos dois países, por meio de condições favoráveis para atividades de cooperação. Há previsão de eventos bilaterais, intercâmbio de informações científicas e tecnológicas, custeio de atividades e facilitação do trânsito de pessoal e equipamentos necessários à pesquisa conjunta.

O texto do acordo também prevê intercâmbio de cientistas, pesquisadores, peritos, bolsistas e participantes de cursos, colóquios ou qualquer outro evento na área científica; comunicação, troca de informações e de documentação científicas e tecnológicas; organização, no plano bilateral, de fóruns, seminários e cursos científicos e tecnológicos; identificação de problemas científicos e tecnológicos; formulação e implementação de programas conjuntos de pesquisa; aplicação dos resultados de pesquisas na economia, indústria, agricultura, medicina e outros.Vanessa-Grazzotin-senado

A matéria teve parecer favorável da relatora na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). Ela diz que as comunidades científicas do Brasil e do Senegal irão se beneficiar do intercâmbio de técnicas e conhecimentos. Ela cita como exemplos a cooperação entre bibliotecas científicas, centros de informação científica e tecnológica, instituições científicas para o intercâmbio de livros, publicações periódicas e bibliografias, intercâmbio de informações e de documentos completos por meio de redes de comunicação e informação eletrônica e visitação recíproca de cientistas em várias áreas do conhecimento.

Registrando que em junho do ano passado (2016), pesquisadores do Instituto Pauster de Dakar, no Senegal, participaram ativamente do combate ao surto de Ebola na África, estiveram em São Paulo para ajudar cientistas brasileiros no combate ao vírus zika, transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti. O grupo chegou à capital paulista para se juntar à Rede Zika, criada por cientistas, professores e alunos de instituições e laboratórios para investigar o vírus e o aumento no número de casos de microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré no país.cientistas zika.jpg

Liderados por Amadou Alpha Sall, renomado especialista em epidemia e controles virais, os senegaleses têm o desafio de treinar pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e ajudá-los na implantação de um teste rápido e eficaz para diagnosticar a doença, feito por sorologia. Durante o surto de ebola, os cientistas conseguiram criar um teste que detectava a doença em apenas 15 minutos. A análise rápida permitiu o diagnóstico em locais afetados pela epidemia que atingiu o Oeste da África.6ijpsnijefo5bddtobblqyi67 cientistas

Mulher negra e cientista brasileira narra epopeia de sua vida

‘Passei fome, mas tracei meta de conseguir vencer’, diz mulher que enfrentou preconceitos e se tornou cientista

Joana D’Arc Félix de Souza superou infância pobre e chegou a uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Ela atua na ETEC em Franca, SP, em pesquisas para preservar meio ambiente.

joana-darc.jpg

Aos 4 anos, a pequena Joana D’Arc começou a trilhar um caminho incentivado pelos conselhos do pai. Filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume, ela encontrou nos estudos a chave para transformar uma vida de grandes dificuldades.

Hoje, aos 53 anos, a cientista PhD em química e professora Joana D’Arc Félix de Souza conquistou status visionário por sua atuação em pesquisas com o objetivo de poupar o meio ambiente de agressões e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

“Já dormi com fome, já passei fome, mas eu coloquei uma meta no meu caminho: a de conseguir vencer”, diz.

20141219Simplicidade que transforma

Joana nasceu em Franca (SP) no seio de uma família com poucos recursos financeiros. Sem condições de mantê-la em uma creche, a mãe optou por levar a caçula para o trabalho todos os dias. A patroa, diretora do Sesi, descobriu uma habilidade precoce na menina, que aprendeu a ler aos 4 anos.

“Para eu ficar quietinha minha mãe me ensinou a ler os jornais que tinham na casa. Teve certo dia que a diretora me viu vendo os jornais e disse ‘Você está vendo as figurinhas?’, e eu disse ‘Não, eu estou lendo’. E ela me deu a primeira oportunidade para estudar.”

A menina foi matriculada na primeira série de uma das turmas do Sesi e conseguiu acompanhar os colegas. O antigo colegial foi concluído quando ela tinha 14 anos, na Escola Estadual Torquato Caleiro, e com isso, surgiu o desejo de ingressar em uma universidade.

“Os meninos começaram a falar de vestibular para poder fazer a faculdade e começou a me despertar aquele ‘eu também quero fazer alguma coisa’ e eu fui conversando com a professora sobre como eu fazia para passar no vestibular. Ela me arrumou todas as apostilas do filho que fez cursinho para eu estudar”, lembra.joana-darc5

Mesmo sem dinheiro e sem ideia de como seria a vida longe da família, já que precisaria estudar em uma universidade pública fora de Franca, Joana ouviu os conselhos do pai e dedicou-se a longas jornadas de estudo com o material emprestado do filho da professora.

“Meu pai estudou só até a 8ª série e a minha mãe foi até a 4ª série. Então, o meu pai sempre incentivou bastante. Ele falava ‘mesmo a gente não tendo condições, a gente vai fazer o máximo, o possível e o impossível para você estudar”, diz.

O trabalho do pai no curtume, local onde o couro cru é quimicamente tratado para ser utilizado na produção de artigos como sapatos, também foi responsável pela escolha da graduação de Joana.

“Eu queria fazer química porque eu via os químicos trabalhando nos curtumes e achava bonito. A gente era tão mal informada que eu achava que químicos só trabalhavam em curtume. Então, o meu objetivo era fazer química para trabalhar no curtume.”

Ela foi em frente no sonho de conquistar uma vaga nas disputadas Unicamp, USP e UNESP. Foi aprovada em todas e escolheu com segurança a universidade em Campinas (SP), distante 330 quilômetros de casa.joana-darc3

A pesquisadora Joana D’Arc coleciona 53 prêmios ao longo da carreira Franca-SP (Foto: Stella Reis/EPTV)

Os desafios

Ainda adolescente, se mudou sozinha na década de 1980 para a cidade grande e passou a viver em um pensionato com pessoas diferentes e de todos os lugares do país. O patrão do pai de Joana também ajudou com algumas despesas, mas não tardou até que as primeiras dificuldades começassem a aparecer.

“Aos finais de semana e em muitas outras noites eu dormi com fome. Eu via aquelas meninas com bolsas, com sorvetes e era muito difícil ver tudo aquilo e não ter condições de comprar. Mas, eu via que a minha mãe não parava de trabalhar, era uma vida sofrida, e criei esse objetivo: eu vou em frente para conseguir.”

No segundo semestre do primeiro ano de graduação, Joana começou a fazer a iniciação científica e passou a receber uma bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Os R$ 300 mensais foram um alívio para a jovem estudante até o fim do curso. Com o primeiro pagamento em mãos, ela correu direto para a padaria e comprou R$ 20 em doces. “Comi tudo sozinha”, lembra. Parte do dinheiro, cerca de R$ 100, ainda eram enviados para ajudar os pais em Franca.

Na Unicamp, Joana ampliou o currículo e tornou-se doutora em química industrial, em 1994. Os artigos publicados sobre a síntese de fármacos renderam a ela um convite para fazer o pós-doutorado em uma das instituições mais prestigiadas do mundo, a Universidade Harvard, nos EUA.

A pesquisadora rumou então para Cambridge para avançar em mais uma etapa promissora da carreira. O assunto de sua tese acabou surpreendendo os orientadores. “Quando eu fui fazer o pós-doc a sugestão era trabalhar com reaproveitamento de resíduos e meu orientador me falou ‘você quer trazer um problema brasileiro?’. Meu pai já tinha sugerido para eu levar os resíduos do curtume aqui para ver o que eu podia fazer.”

Mas, Joana viu seus planos mudarem de rumo inesperadamente em outubro de 2002, com duas perdas avassaladoras. Primeiro, a irmã. Um mês e três dias depois, o pai. As mudanças a fizeram repensar a vida.

“Meu pai sentiu muito a morte da minha irmã e, depois de um mês e três dias, ele faleceu. O meu objetivo era ficar nos Estados Unidos, mas, minha mãe ficou muito doente e o marido da minha irmã foi morar com ela, com as crianças. Eu resolvi voltar para ajudar a minha mãe na criação dos meus sobrinhos.”

Joana atua como coordenadora na ETEC em Franca e coleciona 56 prêmios (Foto: Stella Reis/EPTV)

Escola da mudança

A decisão, por mais difícil que tenha sido, foi a melhor a ser tomada, considera a pesquisadora. O ponto final à vida nos EUA acabou revelando à Joana uma nova oportunidade. Ao invés da carteira de aluno, ela passou a ocupar um lugar superior na sala de aula, o do professor.

Há 12 anos, ela passou a atuar na Escola Técnica Estadual (ETEC) em Franca e começou a desenvolver projetos de pesquisa, conquistando discípulos e prêmios – 56 no total.

“Desenvolvi uma cultura muito interessante aqui na escola, porque os alunos achavam que o curso técnico era o máximo que eles iriam chegar. Eles começaram a ver que existia uma universidade e que eles poderiam fazer uma pós-graduação, ter uma vida acadêmica ou trabalhar em uma indústria.”

Ao lado dos alunos, Joana desenvolveu o trabalho que rendeu-lhe o prêmio Kurt Politizer de Tecnologia 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim), um reconhecimento aos projetos de inovação tecnológica na área. A pesquisa diz respeito à utilização da pele suína em transplantes realizados em seres humanos. A ideia de pesquisar o assunto surgiu quando um trabalhador em Franca sofreu graves lesões ao derrubar um galão de ácido sulfúrico sobre o corpo por acidente. A vítima era parente de um aluno de Joana.

“Ele me contou a história e começou a falar sobre transplantes de pele. Comecei a pesquisar quais tipos de peles animais eram compatíveis com a humana e a que mais se aproximava era a suína, com 78% de compatibilidade. Eu quis descobrir o que faria chegar aos 100% e fomos purificando até alcançar o objetivo.”

Segundo a pesquisadora, o Brasil possui apenas quatro bancos de pele e eles trabalham com restos de peles de cirurgias plásticas, já que as pessoas desconhecem o processo de doação. De acordo com Joana, uma indústria farmacêutica do Rio de Janeiro está interessada em uma transferência de tecnologia.

Por causa do conhecimento sobre as atividades nos curtumes em Franca, a pesquisadora também atua em soluções para que os resíduos do couro não afetem o meio ambiente. Atualmente, ela trabalha no desenvolvimento do chamado cimento ósseo, que usa o colágeno do couro e a hidroxiapatita extraída da escama de peixes.

“Se em um acidente a pessoa perde parte do osso, o médico vai remover a parte perdida, fechar a cirurgia e esse cimento ósseo vai favorecer o crescimento do osso novo. Enquanto ele cresce, o cimento vai ser absorvido sem rejeição.”

Segundo a pesquisadora, países como Holanda e Estados Unidos estão interessados na tecnologia desenvolvida na ETEC.

Joana recebe o prêmio Kurt Politizer, da Abquim, em 2014 (Foto: Assessoria de imprensa ETEC)

Preconceito a fez mais forte

Aos 53 anos, Joana se recorda do preconceito vivido tanto na juventude quanto nos dias de hoje, mas acredita que os episódios a fizeram mais forte e a ajudaram a chegar ao lugar que tanto sonhava.

“Me lembro de uma passagem que me chateou muito na escola. Na hora do intervalo alguns alunos da minha sala danificaram alguns bancos, quebraram algumas coisas. Quando voltamos para a sala, a diretora falou ‘pessoas do nível de vocês nunca vão conseguir nada. Pessoas que os pais vêm trazer de bicicleta na escola nunca vão conseguir ser nada’. As palavras más daquela diretora me ajudaram a vencer na vida.”

Joana tem quatro sobrinhos e eles decidiram seguir os passos da tia na carreira. A professora acredita que o estímulo ao estudo seja seu maior legado aos jovens da família e aos alunos. Ela replica deste modo o que recebeu de herança do pai.

“Eu me sinto realizada por não ter sido impedida por nenhum obstáculo, não ter desistido. Vejo a contribuição que eu estou dando ao meio ambiente e me sinto lisonjeada. Também me sinto bem por poder passar um pouco do meu conhecimento a um aluno e sentir o reconhecimento que eles têm. Sempre procurei incentivar porque é o estudo que vai colocá-lo onde você almeja chegar. É a única coisa que ninguém te rouba. Me sinto gratificada por meus sobrinhos poderem estudar sem preocupação com o que vão jantar ou almoçar, por poder dar a eles uma vida mais tranquila.”

*Sob a supervisão de Thaisa Figueiredo

Joana entre alunos que recebem todo seu incentivo na pesquisa em Franca-SP (Foto: Assessoria de imprensa ETEC)

http://g1.globo.com/sp/ribeirao-preto-franca/noticia/passei-fome-mas-tracei-meta-de-conseguir-vencer-diz-mulher-que-enfrentou-preconceitos-e-se-tornou-cientista.ghtml