Thabo Mbeki e outros na sombra

Thabo Mbeki,
Faustino Henrique |
 
 
 
Depois de abandonar a Presidência da África do Sul, Thabo Mbeki tem adoptado uma postura “lowprofile”, exactamente como mandam as regras elementares da política, sem deixar o exercício normal da cidadania e a intervenção política.
Mal abandonou o poder passou a ser uma espécie de bode expiatório de tudo um pouco, levando a sua fundação e, não raras vezes ele próprio, a sair em defesa do seu nome e do partido no poder, o ANC.
Os mais próximos encaram este pesado fardo como o preço inevitável a pagar numa altura em que nem tudo vai bem na vida política e económica de uma das maiores economias de África.
Depois de ver o seu nome ligado aos laços que o actual Presidente Jacob Zuma possui com a família Gupta, o ex-Chefe de Estado desmentiu que tenha sido intermediário do vínculo amistoso.
Os Gupta, uma família de origem indiana que possui vários negócios espalhados pelo país, ofereceram-se para reembolsar ao Estado 100 milhões de rands, valor imposto pelos tribunais ao Presidente Zuma por causa da reabilitação da sua casa de campo, na localidade de Nkandla.
Os indianos espalhados pela África Austral, que tiveram um papel de relevo na luta anti-apartheid, surgem nos últimos tempos ligados a acções de conspiração contra o poder do ANC e aliados na região.
O Presidente Zuma admitiu os erros cometidos, fez um pedido público de desculpas sobre os gastos nas obras de reparação da sua casa de campo, embora prevaleça a “mancha”, tal como referiu o chefe da bancada parlamentar do ANC, Jackson Mthembu.
Numa altura em que o chamado “Zuptagate”, escândalo envolvendo o Presidente Zuma e os Gupta, ainda faz eco na sociedade sul-africana, Mbeki distanciou-se do papel que lhe tem sido atribuído de ter apresentado o seu então Vice-Presidente àquela família.
Em Abril, escreveu uma longa carta publicada pelos meios de comunicação, na qual reagiu ao acórdão do Tribunal Constitucional sobre este “caso”, sobre o papel do Presidente Jacob Zuma e sobre a Constituição. Mbeki elogiou a decisão do Tribunal Constitucional quando concluiu que o Presidente Zuma falhou ao não cumprir com disposições constantes do juramento da tomada de posse, nomeadamente, “respeitar e fazer respeitar a Constituição”.
Mbeki negou que tenha promovido conspirações contra companheiros de partido, contrariando as especulações que o incluíam nos esforços para ver determinadas figuras fora da corrida à liderança do partido. Economista formado em Londres e tido como tecnocrata que serviria como uma mais-valia na gestão da África do Sul apôs a geração de Mandela, Mbeki pediu que não o associassem a excessos do exercício autocrático do poder, intolerância, escândalos e conspirações contra dirigentes do ANC. Um dos casos de conspiração política, hoje totalmente esclarecido, teve a ver com o seu envolvimento, na altura ainda no poder, no “caso” Nkambule, envolvendo figuras de peso do partido.
Recentemente, perante o Freedom Park, um memorial que homenageia os sul-africanos e estrangeiros que deram a vida pela liberdade dos povos, Mbeki questionou o papel da sociedade civil e a falta de ativismo em defesa da Constituição. “Acho que se houvesse uma melhor familiaridade com a Constituição, então veríamos em termos quantitativos e qualitativos mais ativismo e intervenção social em defesa da Constituição”, disse o Thabo Mbeki, filho do lendário combatente anti-apartheid Govan Mbeki.
O ex Presidente Mbeki não deixou de lançar farpas ao poder, dizendo que as lideranças devem basear a sua actuação em função da verdade, do conhecimento exato dos desafios do país para uma melhor tomada de decisão.
Embora se mantenha na sombra, Thabo Mbeki tem procurado abandonar o “lowprofile” a favor de intervenções esporádicas em defesa do seu consulado, a favor de maior empenho do Executivo, dinamismo das estruturas do ANC e resposta aos problemas das populações.
 
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