A Segurança Alimentar da Republica Democrática do Congo é profundamente preocupante

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Responsável do Programa Alimentar Mundial alerta que é imperativo que a ajuda chegue rapidamente ao terreno.

O Iémen, a Somália, o Sudão do Sul e a Nigéria são os países mais afectados pela fome

Num país já marcado por confrontos e instabilidade política, a República Democrática do Congo vê-se perante uma nova crise: existem mais de três milhões de pessoas no país (incluindo milhares de crianças) em risco de morrerem à fome, segundo disse à BBC o director do Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas, David Beasley. “Precisamos de ajuda, e precisamos dela agora”, alertou o representante.

Estamos a falar de centenas de milhares de crianças que morrerão nos próximos meses, se não arranjarmos, em primeiro lugar, financiamento; em segundo, comida; e, em terceiro, acesso aos locais”, acrescentou, em declarações à BBC. Para já, diz Beasley, só têm 1% dos fundos que precisam e a chegada da ajuda ao terreno pode complicar-se com o início da época de chuvas. “Nem consigo imaginar o quão horrível será” se se esperar mais algumas semanas até receber os fundos, confessou.

Segundo dados do Programa Alimentar Mundial (PAM) morreram 5,4 milhões de pessoas entre os anos de 1998 e 2007 na sequência de guerras e conflitos no país – não só em consequência directa mas também por fome e doenças que poderiam ser tratadas ou evitadas. Mais de um milhão e meio de pessoas tiveram de abandonar as suas casas para fugir à violência.

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Num cenário que considera desastroso, o representante das Nações Unidas conta que viu na região de Kasai, no epicentro dos problemas, um cenário de destruição: casas queimadas e crianças seriamente desnutridas e perturbadas. A República Democrática do Congo é uma das nações com a taxa mais elevada de mortalidade infantil. Além disso, 8% das crianças com menos de cinco anos sofrem de subnutrição crónica e 43% sofrem de subnutrição e revelam atrasos no crescimento. Situado no Centro de África, este é o segundo maior país do continente e tem uma população de 72,7 milhões de habitantes, sendo que 63% deles vivem abaixo do limiar de pobreza.

O representante das Nações Unidas também foi partilhando relatos da sua viagem pela República do Congo no Twitter. “Visitei hoje a vila de Nyanzale na República Democrática do Congo – ouvi tantos pedidos para acabar os conflitos que impulsionam a fome”, lê-se num deles. “Não me deito a pensar nas crianças que alimentámos hoje. Deito-me a chorar por todas aquelas que não alimentámos”, escreveu ainda.

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E o cenário repete-se por outros países. No site do PAM das Nações Unidas, lê-se que 20 milhões de pessoas estão em risco de morrer de fome por todo o mundo e que, se não for prestada assistência, cerca de 600 mil crianças podem vir a morrer nos próximos meses. O Iémen, a Somália, o Sudão do Sul e a Nigéria são os países mais afectados.

Ainda que a situação tenha acalmado nos últimos meses, a República Democrática do Congo está a ser assolada por uma onda de violência desde a crise política de Dezembro, quando o Presidente Joseph Kabila recusou abandonar o poder no final do mandato – e recusa marcar novas eleições apesar de o seu terceiro mandato (que deveria ser também o último, segundo a Constituição) já ter expirado há nove meses. Na altura, o director-executivo da Human Rights Watch, Kenneth Roth, alertava que havia “um sério risco” que o Congo pudesse “mergulhar na violência generalizada e no caos nos próximos dias, com repercussões potencialmente voláteis em toda a região”.

Em Março deste ano, a milícia rebelde Kamuina Nsapu capturou e decapitou cerca de 40 agentes da polícia, na província de Kasai. Ainda em Março, os corpos de dois funcionários das Nações Unidas que estavam desaparecidos foram encontrados na região. Os dois funcionários – um norte-americano de 34 anos e uma sueca de 36 anos, assim como um intérprete de nacionalidade congolesa – estavam a investigar crimes e violações dos direitos humanos no país. No início deste mês, morreram cerca de 30 pessoas (a maioria civis) numa emboscada no Noroeste do país.

 

https://www.publico.pt/2017/10/29/mundo/noticia/precisamos-de-ajuda-e-precisamos-dela-agora-o-apelo-para-os-milhoes-que-podem-morrer-de-fome-1790724

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Crianças da Republica Democrática do Congo, Sudão do Sul, Nigéria e Etiópia são vitimas da pobreza

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Nova Iorque (RV) – São as crianças que pagam o preço mais alto pelas crises, sobretudo na África, revela o relatório publicado pelas Nações Unidas segundo o qual, 60% das crianças africanas – cerca de 300 milhões – são pobres, obrigadas a viver com menos de 1,25 dólares ao dia. É a maior cifra já registrada.

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“Estas cifras são preocupantes”, comentaram funcionários da ONU, citados pelas agências.

“Na África e na Ásia meridional a incidência da pobreza entre as crianças é respectivamente de 66 e de 50%, muito mais elevada do que em qualquer outra parte do globo”.

Em 39 países da África subsaariana, os jovens com menos de 18 anos, são o grupo social mais numeroso entre os pobres.

Crianças com menos de 9 anos

A condição pior – segundo os especialistas da ONU –  é aquela vivida pelas crianças com menos de nove anos. No Sudão do Sul, Nigéria e Etiópia, ao menos nove crianças em cada dez vivem em condições de grave miséria.14142_artigo__41111356_13_beninpeeter

África Subsaariana com maior percentual de crianças extremamente pobres

Esta análise soma-se àquela fornecida pelo Fundo para as Crianças do Banco Mundial, publicada em outubro passado, segundo o qual a África Subsaariana não somente tem o maior número de crianças que vivem em pobreza (49%), mas tem o maior percentual de crianças extremamente pobres (51%).

“As crianças – afirmou o Vice-Diretor Executivo do Unicef, Justin Forsyth – têm o dobro de probabilidade do que um adulto de viver em pobreza extrema, mas têm menos instrumentos do que um adulto para enfrentar a pobreza por causa das doenças, da mortalidade infantil e do carente desenvolvimento na primeira infância”.

Fome na rica República Democrática do Congo

Existem países, no entanto, em que a situação é mais dramática, como na República Democrática do Congo, que paradoxalmente, é um dos mais ricos do continente.

Mas é justamente devido à exploração indiscriminada dos recursos do sub-solo – em particular o ouro, o coltam e a cassiterita – que  o leste do Congo continua a viver uma situação de grave instabilidade e violência, com consequências dramáticas para a população local.

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Tem depois a Nigéria, onde o terrorismo do Boko Haram dilacerou o território e a população.

Nos primeiros meses de 2017 foram destruídos 53 povoados e mortas mais de 800 pessoas, sobretudo crianças.

E por trás da luta contra o terrorismo se escondem muitas vezes interesses de homens poderosos, que nestes anos especularam e se enriqueceram às custas da vítimas.

(JE – L’Osservatore Romano)

 

Crianças guineenses estão fora da escola

11495190_770x433_acf_croppedQuase um quarto das crianças guineenses, cerca de 23 por cento, não vão à escola, segundo um relatório divulgado esta quarta-feira pelo Plan Internacional, uma organização não-governamental, que atua na Guiné-Bissau. O relatório, baseado em estudos recentes, aponta que as crianças portadoras de deficiências e as do sexo feminino são as que menos frequentam a escola na Guiné-Bissau, enfatizou Alassan Drabo, representante do Plan em Bissau.

A juntar a esta realidade está ainda o facto de a taxa de abandono escolar ser de 18 por cento, sublinhou Drabo ao apresentar um relatório em que a organização reclama “a implementação de políticas para uma Educação Inclusiva, Equitativa e de Qualidade na Guiné-Bissau”.

https://s.frames.news/cards/abandono-escolar/

Perante o ministro guineense da Educação, Sandji Faty, o representante do Plan Internacional apontou a zona leste do país como a região onde mais se concentram crianças fora do sistema educativo formal.

O estudo indica que “questões socioculturais” impedem que “grande número de pessoas” dessa zona estejam dentro do sistema educativo. As regiões do leste da Guiné-Bissau, Bafatá e Gabú, são habitadas maioritariamente por indivíduos islamizados.

O ministro guineense da Educação concordou com o panorama desenhado pelo Plan Internacional, sobretudo em relação às comunidades predominantemente de indivíduos islamizados, mas afirmou que o trabalho que tem sido feito “já apresenta bons resultados”.

Sandji Faty diz estar em curso “uma mudança do paradigma” nestas comunidades, em que os pais agora mandam as suas crianças para a escola formal e pedem abertura de mais estabelecimentos do ensino formal. Dantes o ensino, naquelas comunidades, limitava-se ao Corão, precisou o ministro, para destacar a “mudança das mentalidades”, também fruto do trabalho de organizações como o Plan, disse.

“Até parece que houve um click com grandes comunidades a pedirem a abertura de escolas”, sublinhou Sandji Faty enfatizando o número crescente de meninas nas turmas em certas comunidades islamizadas.

Há dez, quinze anos atrás, por exemplo, era impensável ver numa ‘tabanca’ escolas em que as meninas são em maior número que os rapazes”, afirmou o governante.

O representante do Plan na Guiné-Bissau corroborou a realidade destacada pelo ministro, mas salientou que a tendência é acontecer que conforme as crianças avançam nos níveis de escolaridade as do sexo feminino e as portadoras de deficiências tendem a “ficar para trás”

Combate a desnutrição não acompanha o desenvolvimento econômico de Moçambique

A activista social e presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, Graça Machel

Graça Machel, wife of Nelson Mandela, in 2012
A activista social e presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade FDC, Graça Machel, alerta para o impacto da desnutrição crónica sobre as futuras gerações em Moçambique.

Se Moçambique não adoptar medidas energéticas para travar a subida galopante dos índices de desnutrição crónica, actualmente fixadas em 43 por cento, corre o risco de ter gerações de pessoas incapazes de pensar por si próprias e manter-se desta forma o ciclo vicioso… O alerta é da activista social Graça Machel.

“Estamos a dizer que 43% parece uma coisa normal. Senhores é metade, metade das crianças dos 0 aos 5 anos. (…) Quando dizemos uma geração, uma geração de uma maneira geral são 30 anos e portanto se não não quebrarmos agora, daqui a 60 anos nós vamos continuar a lidar com os mesmos problemas”, revelou Graça Machel.

A activista social e presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade FDC, falava durante o Painel Global sobre a Agricultura e sistemas alimentares para a nutrição que decorre na capital moçambicana e junta o governo, a sociedade civil e os parceiros.

http://pt.rfi.fr/mocambique/20170628-mocambique-bracos-com-desnutricao-cronica

Brasil : Ministério Público apura racismo institucional em shopping de SP

Abertura de inquérito é motivada por caso de pai abordado por segurança quando jantava com filho negro no Pátio Higienópolis

Felipe Cordeiro, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2017 |

SÃO PAULO – O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu nesta terça-feira, 13, um inquérito civil para investigar possíveis práticas racistas do Shopping Pátio Higienópolis, na região central da capital paulista, após o artista plástico Enio Jorge Arizio Squeff, de 73 anos, acusar o estabelecimento de discriminar seu filho de 7.

Shopping Higienópolis
O Shopping Pátio Higienópolis se localiza na região central de São Paulo Foto: Kathia Tamanaha/Estadão

No dia 2, Squeff jantava com o menino no shopping quando uma segurança o abordou e perguntou se o garoto estava o incomodando. “Ela viu uma criança negra e imediatamente assumiu que se tratava de um pedinte”, contou o pai ao Estado na semana passada.

“Meu filho estava do meu lado, com o uniforme (do Colégio Nossa Senhora de Sion, localizado na mesma rua do shopping) e a mochila. Isso não significou nada, apenas a cor da pele dele foi o suficiente para o julgamento de que ele seria um pedinte”, disse.

Segundo Squeff, a funcionária teria dito que tinha ordens da direção do shopping para não deixar “mendigos importunarem os clientes”. Ao ser informada que o menino era filho do artista plástico, a mulher pediu desculpas.

“Ela ficou muito sem graça e disse que só cumpria as ordens da casa, que também é negra e tem muito respeito pelos negros. Mas ela não tem respeito, ela assumiu o racismo dos patrões.”

O MP informou, em nota, que o artista plástico foi convidado a comparecer à Promotoria de Justiça para ser ouvido.

A promotoria determinou que o Pátio Higienópolis preste, em 30 dias, esclarecimentos sobre o caso e informe quais orientações dá aos funcionários em relação à abordagem de pessoas supostamente pedintes ou em situação de rua. Além disso, o MP quer saber quais são os critérios usados pelo centro comercial para a escolha de pessoas a serem abordadas e se há alguma orientação dada quanto a aspectos étnicos.

‘Racismo institucional’

Para o promotor de Justiça Eduardo Ferreira Valério, que instaurou o inquérito, o caso e o diálogo sugerem que o estabelecimento pratica “racismo institucional”.

(O shopping Pátio Higienópolis) orienta seus trabalhadores a abordar e expulsar pedintes, entendendo como tal pessoas negras. Mesmo que seja uma criança e mesmo que seja uma criança com o uniforme de uma tradicional escola privada do bairro”, declarou o promotor. “Mas, sendo uma criança negra, é tida como indesejada, a quem há de se negar acesso aos seus direitos.”

Valério argumentou que a Constituição Federal estabelece a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

O promotor citou ainda o Estatuto da Igualdade Racial, “destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica”.

O Shopping Pátio Higienópolis afirmou, em nota, “que todos os frequentadores são e serão sempre bem-vindos, sem qualquer tipo de discriminação”. “O empreendimento lamenta profundamente pelo fato isolado ocorrido, destaca que não compactua com este tipo de procedimento e esclarece ainda que reorientou a colaboradora envolvida”, disse o estabelecimento.

 

É revoltante saber que crio meu filho em sociedade que discrimina pela cor da pele’

Enio Squeff jantava com o filho de 7 anos, que é negro, quando foi abordado por uma segurança do Shopping Higienópolis

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO – O artista plástico Enio Squeff, de 73 anos, jantava com o filho de 7 anos no Shopping Higienópolis, na região central de São Paulo, quando uma segurança o abordou e perguntou se o menino estava o incomodando. “Ela viu uma criança negra e imediatamente assumiu que se tratava de um pedinte”, contou o pai ao Estado.

O episódio aconteceu na sexta-feira, depois de Squeff buscar o menino na escola, na mesma rua do shopping. “Meu filho estava do meu lado, com o uniforme e a mochila. Isso não significou nada, apenas a cor da pele dele foi o suficiente para o julgamento de que ele seria um pedinte”, disse.

Fachada do Shopping Pátio Higienópolis
Pai acusa que segurança do Shopping Pátio Higienópolis confundiu seu filho com um mendigo por ser negro. Foto: Marcio Fernandes/ESTADÃO

Segundo Squeff, a segurança teria dito que tinha ordens da direção do shopping para não deixar “mendigos importunarem os clientes”. Ao ser informada que o menino era filho do artista plástico, a mulher pediu desculpas. “Ela ficou muito sem graça e disse que só cumpria as ordens da casa, que também é negra e tem muito respeito pelos negros. Mas ela não tem respeito, ela assumiu o racismo dos patrões.”

 

Criança em Angola aspira ser prioridade

Fotografia: Edições Novembro

O Ministério da Assistência e Reinserção Social declarou, ontem, num comunicado, por ocasião do Dia Internacional da Criança, que é hoje assinalado, que “os 11 compromissos com a criança têm um carácter prioritário no planeamento nacional, orientam as políticas, programas, serviços e acções públicas de protecção e desenvolvimento integral, visando o bem-estar da criança angolana”.

 

No documento, o departamento ministerial lembrou que, em 2016, a Organização das Nações Unidas estabeleceu 17 objectivos, que constituem a Agenda de Desenvolvimento Sustentável para até 2030, e que estão em consonância com os 11 compromissos a favor da criança definidos pelo Governo.
O Ministério da Assistência e Reinserção Social acentua que os 11 compromissos com a criança asseguram as duas prerrogativas maiores, que a sociedade e o Estado devem conferir à criança na protecção dos seus direitos, que são cuidados e responsabilidades.
O documento assegura que, desde a instituição destes compromissos, inúmeros progressos foram alcançados na melhoria do acesso ao registo de nascimento, aos programas de saúde materno-infantil, à educação, à protecção social, à segurança alimentar e à água potável, o que levou a uma redução das taxas de mortalidade infantil e de insucesso escolar.
A declaração afirma que continua a ser preocupação do Governo a violência de que são vítimas muitas crianças, fundamentalmente a praticada no seio familiar.
Em Angola, o lema para a comemoração deste ano da efeméride é “Pela criança, Angola sempre comprometida”, informa o comunicado do Ministério da Assistência e Reinserção Social, que felicita todas as crianças angolanas e reafirma o compromisso do Governo em continuar a desenvolver esforços para garantir as condições que possibilitem a protecção efectiva dos seus direitos e a promoção do seu desenvolvimento integral.
O Executivo, através do Ministério da Assistência e Reinserção Social, rendeu uma homenagem às crianças da República Democrática do Congo, vítimas de uma migração forçada, muitas delas não acompanhadas, em busca de protecção e segurança em Angola.
O Dia Internacional da Criança, instituída pela ONU em 1950, é uma data de reflexão, em que os governos reiteram a importância da observância dos direitos da criança e encorajam a participação de todos os actores sociais na aplicação dos princípios estabelecidos na Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança. Hoje, a Organização de Pioneiros Agostinho Neto (OPA) abre a Jornada da Criança, que é realizada até 16 deste mês, dia dedicado à criança africana.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/sociedade/compromissos_com_a_crianca_mantem_caracter_prioritario

Boa notícia! Tecnologia da informação incentiva à leitura na África

Livros digitais sem fins lucrativosera-digital

Garotos beneficiados pela ONG Worldreader cuja missão é missão ‘levar livros digitais a cada criança e a sua família, com o objetivo de melhorar suas vidas’| © Redes Sociais

Além dos projetos de conectividade promovidos por Facebook – ou por outras empresas como Google, com seu projeto Loon –, quais projetos sem fins lucrativos estão sendo impulsionados na África no terreno específico da leitura e edição digital? Também aqui poderíamos mencionar iniciativas filantrópicas procedentes de atores internacionais. O exemplo mais importante é talvez Worldreader. Fundada em 2010 por David Risher – ex-executivo da Microsoft e da Amazon –, esta organização sem fins lucrativos coloca como sua missão “levar livros digitais a cada criança e a sua família, com o objetivo de melhorar suas vidas”. Se no começo – tal como apontávamos no relatório de 2011 – esta entidade só usava dispositivos Kindle, em 2012 incorporou os celulares como plataforma adicional. O catálogo deles chega hoje aos quase 40.000 títulos escritos em 43 idiomas, que foram disponibilizados por 150 editoras, dos quais quase a metade são africanos. Em termos de impacto, os livros digitais da Worldreader alcançaram quase 4 milhões de pessoas em 50 países, principalmente na África. Para esta tarefa, a entidade se associou com diferentes empresas tecnológicas, especialmente com o Facebook – para aparecer listada em FreeBasics –, com a Microsoft – para o desenvolvimento do aplicativo de leitura, entre outros – e com a Amazon – para a organização e a hospedagem dos dados. Vale a pena esclarecer que, em princípio, a Worldreader não doa os dispositivos, estes devem ser financiados por terceiros – chamados “sponsors” – ou pelas próprias escolas e bibliotecas, que devem escolher entre dois tipos de pacotes:

  1. O “blue box”, que contém 50 Kindles carregados com 100 textos (custo: US$ 7 mil).
  2. Ou o “book pack”, que contém entre 100 e 200 textos, mas sem dispositivos, já que estes devem ser disponibilizados pela escola ou biblioteca (US$ 4,5 mil).

Observamos também que a Worldreader não se dedica somente à tarefa de facilitar a leitura, também realiza um acompanhamento exaustivo de todos os dados envolvidos. Isso pode ser visto, por exemplo, no relatório do projeto LEAP, realizado pela Worldreader e o Serviço Nacional de Bibliotecas do Quênia (KNLS), com financiamiento da fundação Bill & Melinda Gates. O programa apresentou, entre seus objetivos, estudar durante o ano de 2014 o uso, função e adoção dos dispositivos Kindle no contexto das bibliotecas. O relatório posterior – bastante detalhado – explica que esta aprendizagem servirá para compreender “a expansão dos programas de leitura digital nas bibliotecas do Quênia e da África Subsaariana”. Por outro lado, em agosto de 2016, no marco da iniciativa Kindle Reading Fund, a Amazon anunciou que doaria milhares de Kindles para apoiar programas de leitura no mundo em desenvolvimento e que colaboraria novamente com a Worldreader para colocar em marcha o projeto LEAP 2.0 em 61 bibliotecas do Quênia.

A Worldreader – que tem uma ampla cobertura da imprensa internacional – pode aumentar sua presença no ecossistema do livro digital africano, à medida que forem se somando novas instituições – tanto públicas como privadas – ao projeto. Contudo, seria importante perguntar se não está repetindo aqui um esquema parecido com o do Facebook com Internet.org/FreeBasics, especialmente pelo fato de que as corporações intervindo extraem dados muito valiosos – tais como preferências temáticas, hábitos de leitura, entre outros –, obtidos de um modo muito simples e que poderiam significar uma vantagem decisiva quando chegar o momento de vender conteúdos digitais ou dispositivos, tanto aos governos quanto aos indivíduos.

 

Além das iniciativas internacionais, existem na África numerosos projetos sem fins lucrativos realizados por entidades locais e FunDza é, talvez, o mais conhecido. Criado em 2012 pela equipe da editora Cover2Cover, esta organização tem a proposta de estimular a leitura entre adolescentes e jovens adultos da África do Sul. Através do seu website – especialmente adaptado às telas de celulares – e de seu aplicativo para Android, FunDza oferece um catálogo de centenas de livros digitais gratuitos – contos, poesias e textos de não ficção. Em 2015, suas atividades beneficiaram cerca de 400.000 usuários que, no conjunto leram mais de 10 milhões de páginas. Os livros do FunDza estão incluídos nos serviços de FreeBasics na África do Sul e em outros países do continente, como Nigéria e Gana. Ao mesmo tempo, o site YoZa – que apresentamos no relatório de 2011 como um dos pioneiros no terreno da leitura móvel na África Subsaariana – cedeu sus textos à plataforma, para sua posterior distribuição.

Zimkhitha Mlanzeli – autora e editora do FunDza – faz uma interessante reflexãosobre a importância de utilizar os celulares no terreno da leitura:

“Os jovens querem ler sobre temas que conhecem, em uma linguagem compreensível. Os contos que escrevo falam diretamente com eles, que conseguem ver o mundo através dos olhos de cada personagem. Sei disso pelos comentários que me enviam. Também ajuda muito o fato de que minhas histórias são compartilhadas no lugar que os jovens passam a maior parte do tempo: em seus celulares. Meu celular não é meu melhor amigo – não consigo ficar olhando para ele o tempo todo. Mas eles conseguem. E precisamos fechar essa brecha que nos separa.”

Outro projeto relevante – também com sede na África do Sul – é o Book Dash, focado desde 2014 na criação colaborativa de livros infantis. As obras são oferecidas com uma licença Creative Commons, tanto em PDF pronto para imprimir como em formato original – InDesign –, para possíveis readaptações. Book Dash surgiu em certa medida como resultado das lições que seu principal impulsionador, o especialista em publicações digitais Arthur Attwell, extraiu da experiência de Paperight, uma plataforma que – como apresentamos no relatório de 2011 –, distribuía ebooks para imprimir em cibercafés e que precisou fechar suas portas no final de 2014. Em seu balanço retrospectivo, Attwell enumera diferentes fatores que podem ter dificultado o avanço do empreendimento, entre os quais poderíamos destacar os seguintes:

  • as publicações oferecidas gratuitamente por Paperight eram muito solicitadas pelos usuários; no entanto, quando a empresa tentou cobrar por elas – inclusive somas modestas, como 1 ou 2 dólares por cópia –, a demanda caiu abruptamente;
  • as editoras tradicionais que forneciam os textos originais não pareciam dispostas a explorar o novo modelo de negócio, de modo que só entregavam seus títulos menos atraentes.

É neste contexto que, para Attwell, faz muito sentido a ideia de distribuir conteúdos digitais com licenças abertas, como propõe a Book Dash:

Capa do livro What is it?, editado pela Book Dash

Capa do livro What is it?, editado pela Book Dash

“Na África do Sul, as soluções comerciais não alcançaram o sucesso esperado: se os clientes são apenas uns poucos early-adopters, então nunca haverá um mercado significativo. Para a maioria dos sul-africanos, os livros são um luxo ao qual jamais poderão ter acesso”.Por outro lado, a iniciativa African Storybook – impulsionada pelo Instituto Sul-africano de Educação à Distância (SAIDE) – oferece a possibilidade de criar, traduzir e adaptar livros ilustrados para um público infantil: suas mais de 400 obras, que foram traduzidas para 60 línguas do continente, podem ser baixadas de maneira gratuita, tanto para leitura digital como para impressão. Finalmente, Bookly e Nal’ibali também utilizaram as novas tecnologias – em especial dos aplicativos de Mxit – para distribuir conteúdos editoriais.

Em janeiro de 2015, com o patrocínio do Instituto Goethe, várias organizações e empreendimentos sociais citados anteriormente se encontraram em Joanesburgo. O encontro tomou como ponto de partida o relatório da UNESCO Leitura na era da mobilidade de 2014 e teve como objetivo discutir as oportunidades e os desafios da alfabetização e a leitura através dos celulares.

Publicações educativas distribuídas por agregadores e startups locais.

Nos últimos anos, surgiu na África um número considerável de empreendimentos digitais focados nos conteúdos educativos. Com sede em Nairóbi, o agregador Ekitabuabastece de livros eletrônicos 650 escolas da África oriental. A empresa tirou seu nome da palavra “Kitabu” – que significa “livro” no idioma suaíli – e em apenas 4 anos conseguiu criar um catálogo de 500.000 títulos em formato PDF e EPUB, fornecidos por mais de 40 editoras, tanto locais quanto internacionais.

E-limu, é outra empresa queniana que vende conteúdos pensados para os alunos de escolas primárias. Os materiais são distribuídos através de um aplicativo criado para dispositivos Android. No começo, a E-limu entregava os materiais pré-carregados em tablets, para evitar o problema da falta de conectividade. No entanto, a proposta deixava dois problemas sem resposta: 1) como fariam para atualizar os conteúdos? e 2) como iam assegurar a durabilidade dos dispositivos? Para enfrentar esses desafios, E-limu recorreu à BRCK: este empreendimento – surgido como tantos outros da incubadora local iHub – fabrica um tablet ultrarresistente chamado Kio e umroteador WiFi que capta sinais de celulares e é ideal para oferecer conectividade em regiões que não possuem acesso à Internet fixa, inclusive sem eletricidade.

Também podemos mencionar aqui o caso do QuickDo-BookBox, um serviço concebido em 2011 pelo engenheiro informático de Camarões – radicado na França – Dominique Buendé, para “converter e distribuir conteúdos em países do Sul, “especialmente em universidades, bibliotecas e centros culturais. QuickDo-BookBox oferece terminais dotados de 500.000 livros eletrônicos de diversas editoras, que podem ser baixados de tablets concebidas ad hoc. O projeto terminou ganhando oprêmio Orange dado a empreendedores sociais africanos (2013) e o prêmio ao empreendedor africano na França (2014).

Também lançado em 2011, Snapplify constitui um dos principais agregadores digitais do continente. Com escritórios em Durbanville, Londres e Nova York, esta empresa distribui os livros eletrônicos de mais de 250 editoras e os integra em sua plataforma de educação virtual. Em 2014, Snapplify apresentou SnappBox, um dispositivo que permite aos estudantes terem acesso aos conteúdos eletrônicos através de uma intranet, em vez da Internet.

Agregadores gerais e lojas por assinatura

Além dos empreendimentos tecnológicos que distribuem conteúdos educativos, existem diversos agregadores gerais e plataformas que propõem um catálogo deebooks por assinatura. Lançado em 2014 por Algérie Télécom, o site Fimaktabatioferece livros digitais de centenas de editoras. O acesso a seus dois portais – acadêmico e geral – custa 22 dólares por ano e pode ser abonado através de cartões pré-pagos. Além disso, a empresa impulsionou a criação da Nooonbooks, uma loja exclusivamente focada em textos em árabe, com mais de 30.000 títulos de ciências exatas, administração, ciências humanas, direito e cultura geral.

Fundado pela empreendedora nigeriana – residente no Reino Unido – Gersy Ifeanyi Ejimofo também em 2014, o projeto Digitalback Books propõe diversos títulos de literatura africana com um custo de assinatura mensal de 13 dólares. As obras podem ser lidas em aparelhos móveis, tanto Android como iOS.

O projeto egípcio Kotobarabia foi um dos primeiros agregadores de livros eletrônicos em árabe do mundo. Desde 2005, já digitalizou milhões de páginas e tem como principais clientes as bibliotecas dos EUA e da Europa.

Kotobi é outra plataforma com sede no Egito. Lançada pela Vodafone em 2014, essa livraria digital comercializa títulos em EPUB e está voltada principalmente para os aparelhos móveis. Uma das vantagens de Kotobi é que os pagamentos não são realizados apenas por cartão de crédito, mas também pela conta do telefone e até por SMS. Assim, não é casual que a plataforma tenha crescido consideravelmente: seu aplicativo para Android foi descarregado mais de 500.000 vezes, por usuários que consumiram mais de 1 milhão de livros. Com uma linha parecida ao que falávamos sobre comércio eletrônico africano, para Alaa Zaher – responsável pela área de Estratégia e Inovação de Vodafone e promotor do projeto Kotobi –, as limitações da distribuição física podem se transformar em uma grande oportunidade para a venda digital:

“Os leitores que moram fora das grandes cidades sempre se queixam da falta de livrarias. Querem ler, mas não encontram livros. Eles acabam vindo à Feira do Livro do Cairo uma vez por ano e voltam para suas cidades com bolsas cheias de exemplares. Esse é o segmento que temos como alvo. Nosso objetivo de longo prazo é fornecer livros digitais a todo o mundo árabe.”

No próximo artigo: as editoras africanas na era digital; os audiolivros: um formato em crescimento; a autoedição e a impressão sob demanda.

Octavio Kulesz é formado em Filosofia pela Universidade de Buenos Aires e atualmente dirige a Teseo, uma das principais editoras digitais acadêmicas da Argentina. Em 2010, criou a rede Digital Minds Network, junto com Ramy Habeeb (do Egito) e Arthur Attwell (da África do Sul), com o objetivo de estimular o surgimento de projetos eletrônicos em mercados emergentes. Em 2011, escreveu o renomado estudo La edición digital en los países en desarrollo, com apoio da Aliança Internacional de Editores Independentes e da Fundação Prince Claus. Sua coluna busca apresentar um panorama dos principais avanços da edição eletrônica nos países em desenvolvimento. Tablets latino-americanos, leitura em celulares na África, revoluções de redes sociais no mundo árabe, titãs do hardware russos, softwares de última geração na Índia e colossos digitais chineses: a edição digital no Sul mostra um dinamismo tanto acelerado quanto

http://www.publishnews.com.br/materias/2017/02/07/a-edicao-digital-na-era-da-mobilidade-africa-2/3

Violação dos direitos da criança nos sistema de ensino de Angola

juv-mplaO presidente da Comissão Nacional de Pais e Encarregados de Educação Angolana – Amigos da Criança, Manuel Diogo, denunciou a má gestão das contribuições dos pais pelas direções das escolas. Manuel Diogo falava em exclusivo ao Jornal de Angola na sequência de denúncias de cobranças ilegais que se registaram nas escolas públicas do ensino geral e secundário em todo o país.

 

 

A Constituição e a Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino garantem a gratuitidade do ensino da iniciação à nona classe. Porém, várias escolas condicionaram as confirmações e matrículas de muitos alunos ao pagamento de valores monetários. O Jornal de Angola denunciou a ilegalidade e as direcções provinciais da Educação reagiram. No Uíge, as direcções das escolas foram obrigadas a devolver o dinheiro a cada encarregado de educação. Em Luanda, o Gabinete Provincial da Educação fez um inquérito e apurou a recepção de 202 milhões de kwanzas e decidiu entregar às comissões de pais e encarregados de educação para  a gestão deste dinheiro. Manuel Diogo disse que existem denúncias de directores e professores que abusam sexualmente das alunas e defende a mudança dessa gente. O presidente da Comissão Nacional de Pais e Encarregados de Educação Angolana – Amigos da Criança disse que em caso de persistência de violação à Lei e dos abusos às crianças, a sua instituição vai levar vários gestores escolares às barras dos tribunais.

Jornal de Angola – O que é a Comissão Nacional de Pais e Encarregados de Educação Angolana – Amigos da Criança?

Manuel Diogo – Nós somos parceiros sociais do Ministério da Educação há mais de sete anos. Colaboramos em matéria de programas, metodologia e orientações. Por orientação do Gabinete do Vice-Presidente da República, há anos atrás, conseguimos dinamizar os núcleos provinciais da comissão de pais em todo o país. Criámos  comissões provinciais, núcleos municipais e comissões de pais e encarregados de educação em cada instituição de ensino. Muitas dessas comissões foram empossadas pelos  governadores provinciais. Já estamos em condições de dialogar, materializar toda e qualquer orientação do Ministério da Educação.

Jornal de Angola – A que estruturas do Estado reportam as vossas preocupações?

Manuel Diogo – A nossa comissão, dentro das províncias,  reporta  directamente ao gabinete do governador provincial e, consequentemente, aos gabinetes da direcção provincial da Educação. Somos considerados parceiros sociais do governo e membros da sociedade civil. A nível nacional, reportamos ao Ministério da Educação e eu sou membro do Conselho da Família do Ministério da Família e Promoção da Mulher.

Jornal de Angola – Há interacção entre os pais e as direcções das escolas?

Manuel Diogo – Há interacção porque são todos membros da Comissão Nacional. Nós credenciamos e eles funcionam   a nível nacional. Nós não temos problemas no relacionamento com as direcções das escolas. Muitas vezes aparecemos como conselheiros dos gestores escolares e dos directores dos gabinetes provinciais. Recentemente, o director do Gabinete Provincial de Luanda disse que nós temos estado a intervir na construção de algumas salas de aulas, na reposição de alguns materiais gastáveis nalgumas escolas e vários apoios que nós temos dado. É neste sentido que temos interagido com os gestores escolares.

Jornal de Angola – Quais são os principais assuntos de que velam?

Manuel Diogo – Não há interferência séria na gestão escolar. Nós deixamos esta parte para as direcções das escolas. Nós intervimos na política educativa. A política educativa é aquela que visa as condições de acomodação dos alunos, ou seja, o tratamento, aproveitamento escolar dos alunos e em matéria de higiene escolar. Nós estamos neste mecanismo para realizar, aconselhar e orientar os gestores escolares. Mas em breve nós vamos estar dentro da gestão escolar, porque pensamos evoluir para uma comissão do Conselho Nacional da Educação. Este é um outro projecto que já está adiantado dentro do Ministério da Educação, que vai permitir aos pais  interferirem na gestão escolar.

Jornal de Angola – Qual tem sido o papel dos encarregados de educação no acompanhamento da educação dos alunos?

Manuel Domingos – As escolas que cobraram ilegalmente o dinheiro não têm queixas  porque ao longo de ano lectivo 2016 decorreram   reuniões colectivas de concertação, houve muito trabalho conjunto. Mas podemos dizer que a consciência das pessoas ainda está aquém das preocupações da realidade angolana. Não havia motivos para estes atropelos. Vejamos que nesta ou na próxima semana, a inspecção escolar vai ter encontros com os gestores escolares. Tudo para uma abordagem da gestão escolar. Tudo para uma melhor conduta de gestão escolar. Se ao longo do ano lectivo de 2016 tivemos um  trabalho árduo, houve várias reuniões de concertação, não havia necessidade destes atropelos, de cobranças ilegais.

Jornal de Angola – Quem orienta estas cobranças ilegais nas escolas?


Manuel Domingos
– Neste momento, pela estatística apresentada pelo director do gabinete provincial, é  uma iniciativa individual de cada gestor escolar.

Jornal de Angola – Onde está o dinheiro cobrado de forma ilegal?

Manuel Domingos – É isso que nós estamos a questionar. Já que o próprio gestor máximo da província de Luanda conseguiu discernir os valores, estamos à espera que esses valores sejam declarados em que conta foram depositados e quais são as necessidades primárias que nós podemos atacar. Conhecemos as enormes necessidades das escolas.

Jornal de Angola – Que apelo deixa?

Manuel Domingos
– O nosso apelo vai no sentido de rotação de directores das escolas. Há directores que estão há mais de 15 anos a dirigir a mesma escola e pensam que as escolas são lavras deles. Eles apropriaram-se das escolas. E também há muito assédio sexual nas escolas, sobretudo no ensino privado. Muitos professores e directores de escolas têm abusado sexualmente das alunas. Várias vezes encontrámos directores fechados nos gabinetes com alunas. Dificilmente encontramos um aluno fechado no gabinete com o director. Se eles fogem às regras, nós temos mecanismos como a Polícia, que tem estado a trabalhar nas instituições escolares. Então aí está o nosso alerta para eles. Porque todas essas situações são do conhecimento da Brigada Escolar da Polícia Nacional.

Jornal de Angola – Como tem sido a comparticipação dos pais, uma vez que a Constituição e a Lei garantem Educação gratuita da iniciação à nona classe?

Manuel DiogoAs nossas comparticipações sempre foram na medida da matrícula das crianças e na passagem dos certificados. Isto é um hábito antigo. É um hábito que não é instituído por documento algum, mas é óbvio que é por necessidade individual de cada instituição de ensino. Esses valores  têm sido acompanhados por pais e encarregados de educação. Muitas instituições escolares já têm dado informação do descaminho desses valores. É óbvio que pelas necessidades das instituições escolares é compreensível, porque os valores são gastos na compra de cisternas de água, aquisição de papel e de material gastável de higiene, assim como para a acomodação de pessoal eventual. E nós achamos que essa situação é pacífica. A nossa surpresa são as novas medidas de gestão administrativa. Nós não devemos ditar regras que apanhem de surpresa os gestores escolares.

Jornal de Angola – O que é que considera surpresa?

Manuel Diogo
– Eu considero surpresa porque as cobranças, ditas ilegais, decorrem quase todos os anos lectivos e em todo o país. O que considero surpresa para nós é o facto de terem dito que os gestores escolares devem devolver estes valores à Comissão de Pais e Encarregados de Educação para a gestão desse dinheiro. Como disse, essa situação é pacífica. Ademais, estes valores já foram gastos. Cada instituição escolar cobrou ao longo de todos estes anos e gastou. De que forma é que eles vão poder devolver à Comissão de Pais para fazer a gestão? É impossível.

Jornal de Angola – Que avaliação faz quando uma escola impede uma criança de se inscrever por falta de pagamento?

Manuel Diogo – Devemos primar pela educação dos gestores escolares a perceberem bem a Lei. A segunda coisa, devemos apetrechar as escolas para  poderem resolver as questões que  surgirem. As escolas não violaram a Lei propositadamente. Nós não as podemos incriminar publicamente como meros violadores. Durante as visitas que temos feito às instituições escolares, a situação de precariedade que encontramos é de lamentar. E eu diria mesmo que aqueles que cobraram  valores iguais ou superiores a 18 mil kwanzas, por cada aluno, não é nada para os gastos que eles fazem.

Jornal de Angola – Que avaliação faz das cobranças ilegais feitas em Luanda e nas outras províncias?

Manuel Diogo – Nós reconhecemos o esforço de cada um de nós. O gabinete provincial de Luanda fez o seu inquérito. Nós fizemos o nosso inquérito. Nós temos documentos de visitas que deviam ter sido feitas em conjunto, mas não foi possível por questões de calendário. A partir daí cada um foi pelo seu caminho para fazer o levantamento das cobranças ilícitas. Nós começámos a fazer o levantamento desde o fecho do ano lectivo, em Novembro. Esses valores começaram a ser cobrados a partir da elaboração dos certificados, transferência de alunos e agora com as matrículas. É uma acumulação de cobranças. É aí onde nós salientamos que a nossa associação não se vai imiscuir na gestão financeira da gestão escolar. Tudo o que eles aferiram para nós não é estranho. O inquérito foi muito mal feito. Devia  partir da educação financeira dos gestores escolares. As cobranças não começaram este ano e o inquérito tinha de ser mais abrangente.

Jornal de Angola – O que quer dizer com a educação financeira dos gestores escolares?

Manuel Domingos
– A educação financeira é a forma de gerir os bens públicos numa instituição. A instituição é do Estado. Vejamos, se nós cobrarmos aos nossos parceiros que são pais e encarregados de educação 10.000 kwanzas, eu com uma educação financeira tenho de aplicar esses 10.000 kwanzas nas necessidades reais da escola. E eu tenho de estar consciente que tenho de prestar contas. É isto que se chama educação financeira.

Jornal de Angola – Nas escolas não há educação financeira?

Manuel Diogo
– Por todas as escolas onde passámos, ainda não há. Nós constatámos que há todo o aparato, organigrama da instituição ­escolar, director, director pedagógico, subdirector administrativo e outras funções afins. Se nós formos perguntar ao subdirector administrativo, temos disparidade com o subdirector pedagógico. Então esta disparidade da educação financeira significa que não há educação financeira. Numa instituição onde há educação financeira a corrente de informação dos gastos dos valores corre simultaneamente. Se os pais fazem uma contribuição para a construção de salas de aulas é preciso que o gestor escolar fique à frente desta construção, dizendo  com documentos comprovativos que “o bloco custou x, o cimento custou x, a areia custou x e empregou na compra da água x”. Se isto acontecer, esta escola tem uma educação financeira.

Jornal de Angola – O senhor está a dizer que as direcções das escolas não gerem bem as contribuições dos pais?

Manuel Domingos – Julgamos que os gestores escolares, nesta parte de gerir os fundos que advêm das comparticipações dos pais, ainda não têm tido uma gestão digna. Mas é preciso que nós caminhemos para lá, porque até ao momento as nossas relações com as instituições escolares são boas. Primamos por relações saudáveis, porque, como disse, vamos fazer parte da gestão dos valores financeiros.

Jornal de Angola – A direcção do Gabinete Provincial da Educação de Luanda prometeu entregar a gestão dos mais de 202 milhões de kwanzas às comissões de pais e encarregados nas escolas. Foram consultados?

Manuel Domingos – Nós fomos sim consultados. Em primeira instância, gratificamos as declarações do director do Gabinete Provincial da Educação de Luanda por nos ter  dado a grande responsabilidade de fazermos a gestão destes valores. O que é preciso fazer é realmente estarmos concentrados às necessidades das escolas para o gasto dos valores arrecadados. Por outro lado, não deixamos de louvar a grande experiência que o Gabinete Provincial de Luanda fez, de inquirir a arrecadação feita. Penso que é uma experiência louvável que vai servir a nível nacional. É um exemplo e nós pensamos que em breve todos vamos caminhar no mesmo sentido.

Jornal de Angola – O Jornal de Angola ouviu alguns directores provinciais. No Uíge, as escolas que receberam dinheiro de forma ilegal foram obrigadas a devolver o montante arrecadado aos encarregados de educação. Qual é a vossa opinião?

Manuel Domingos – Bem, há vários termos que estão a ser empregues. Os dinheiros não serão devolvidos a pais e encarregados de educação, mas sim às comissões de pais e encarregados de educação, a nível das escolas. Então vamos concentrar os gastos em cada instituição de ensino e acompanharmos os seus gastos. É a única participação que nós queremos dar na gestão destes valores. A partir daí julgamos que todos nós estamos cientes que esta educação vai ser contínua. É possível que nos próximos anos lectivos não se vão  repetir os mesmos erros deste ano lectivo.

Jornal de Angola – Como está o ambiente entre os pais?


Manuel Domingos
– Nós estamos a receber os descontentamentos dos pais sobre esta situação em todo o país. É óbvio e é pacífico. O momento é crítico. Os salários da função pública foram pagos bastante tarde. As necessidades dos nossos filhos apertam. Então não é fácil o pai ou encarregado de educação fazer a ginástica para ver este ou aquele problema resolvido. As instituições escolares, todas elas pedem as fotocópias dos certificados autenticados. Uma autenticação de uma fotocópia tem valores acima das possibilidades de muitos pais e encarregados de educação. Custam acima de 2.000 kwanzas. Onde reclamar? Há um descontentamento muito grande.

Jornal de Angola – As cobranças no ensino geral são as únicas que vos preocupam? 

Manuel Domingos – Nós, no ensino geral, estamos a tirar crianças para ingressar no ensino superior. O ensino superior publicou o valor de 4.000 a 6.000 kwanzas para a inscrição. A inscrição, como se sabe, não  é garantia de acesso ao ensino superior. Tudo depende das provas de acesso e só entram os melhores. Se então é uma coisa sem garantia de ingresso não deviam cobrar valores tãos altos. Porque a criança pode não entrar na faculdade e o dinheiro já está lá. Qual é a necessidade de se cobrar tanto dinheiro? E qual é o destino deste dinheiro? É nisso que as instituições públicas deviam reflectir. As instituições do Estado deviam compreender isso, porque eles também são funcionários públicos.

Jornal de Angola – A vossa associação é amiga da criança. Como reagem quando há violação dos direitos da criança?

Manuel Domingos – Dizia a  ministra da Família e Promoção da Mulher, num dos últimos conselhos consultivos, que nós não podemos estar de braços atados. Vamos continuar a defender a criança com todas as nossas forças. Nós temos de estar de braços abertos para defender o elo mais fraco da sociedade angolana, que é a criança. Julgamos que temos esperança. Melhores momentos virão para as nossas crianças. Somos nós os homens que devemos educar-nos e educar o futuro, que são as nossas crianças. Não podemos permitir todos estes atropelos contra a criança.

Jornal de Angola – Que garantias existem para travarem estes atropelos?

Manuel Domingos – Nós já vivemos  momentos mais difíceis. Na altura em que não existia o Ministério da Família e Promoção da Mulher, a violação era  abismal. Hoje reduziu  bastante. Na altura que não havia a Comissão Nacional de Pais e Encarregados de Educação, as violações eram constantes. Hoje diminuíram bastante. Quando vamos inspeccionar algo, as pessoas tendem a corrigir-se.   Temos esperança de que nos próximos anos as coisas vão melhorar muito mais. Em anos atrás, defendemos a passagem dos certificados das crianças atempadamente. Hoje, as coisas melhoraram. Defendemos a matrícula dos alunos no ensino superior que pudesse obedecer ao calendário do Ministério da Educação e hoje as coisas estão corrigidas. Estamos a trabalhar.

Jornal de Angola – Têm recorrido às instituições do Estado que garantem a defesa dos direitos fundamentais da criança?

Manuel Domingos
– Lamentamos a violação dos direitos da criança. Há anos foi criada a Brigada da Polícia Escolar. A Brigada Escolar é um policiamento que tem a missão de cuidar das instituições escolares e encaminhar os casos mais complicados às esquadras da Polícia. É já um passo. Os tribunais têm estado a trabalhar connosco empre que há denúncia de atropelos dos direitos da criança, como a  não passagem de classe por mero capricho do responsável da escola, a não-aceitação da  matrícula e a exclusão escolar dos deficientes.

Jornal de Angola – Muitas escolas no país condicionaram a matrícula das crianças ao pagamento de dinheiro. Como reagiram?


Manuel Domingos
– Todas essas situações que atropelam as melhores regras de educação social da criança e aqueles que cobram valores ilicitamente, a qualquer altura nós vamos accionar os mecanismos legais para chamá-los à razão. Os mecanismos são diversos. Todas as instituições estão a trabalhar connosco. Nós temos a Polícia Económica, que tem estado a trabalhar connosco. A colaboração com a Polícia Económica tem estado a dar frutos nas instituições escolares no que diz respeito a cobranças ilícitas de muita documentação. Até agora ainda não temos casos graves que nos pudessem levar aos tribunais, mas se houver não temos problema de enfrentar este ou aquele gestor escolar diante dos tribunais.

Jornal de Angola – E os que receberam dinheiro de forma ilícita?


Manuel Domingos
– Nós voltamos a dizer que nós estamos de braços abertos pela coragem que o director do Gabinete Provincial de Educação teve de inquirir esta inconformidade. A um dado momento também estaremos de braços abertos para acompanhar a devolução desse dinheiro e a sua aplicabilidade nos sítios certos.

Jornal de Angola – Como é que a Comissão de Pais e Encarregados de Educação vai actuar a nível de Luanda?

Manuel Domingos – A Comissão Nacional de Pais e Encarregados de Educação – Amigos da Criança em Luanda não tem problemas. Foram empossados os coordenadores dos núcleos municipais, comunais, na presença da Brigada da Polícia Escolar. Luanda tem um aparato de grande confiança. É preciso educarmos a consciência do funcionário público. É preciso trabalharmos na consciência das pessoas para que Luanda tenha uma imagem de capital do país.

Jornal de Angola – O que gostava de dizer mais?

Manuel Domingos
– Nesta altura,  gostávamos que o Executivo angolano pudesse implementar uma grande dinâmica na entrega dos profissionais da educação prometidos. Porque o ano lectivo está quase a começar e os docentes prometidos até agora não foram admitidos a nível nacional e isto vai criar um outro constrangimento. Pedimos um grande esforço do Executivo para implementar grande dinamismo para  que estes profissionais sejam admitidos.

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/as_cobrancas_no_ensino_publico_ja_vem_de_longe

Menina-prodígio de quatro anos que já leu mais de mil livros

Garotinha norte-americana ganhou as manchetes depois de “trabalhar” como a chefe da maior biblioteca do mundo por um dia; veja história incrível

Segundo a mãe de Dalyiah, a menina tem o objetivo de chegar aos 1.500 livros devorados até setembro
REPRODUÇÃO/USA TODAY- 17.01.17

Segundo a mãe de Dalyiah, a menina tem o objetivo de chegar aos 1.500 livros devorados até setembro

 A paternidade traz alguns desafios universais, como a necessidade básica de zelar pelo bem-estar e pela educação de nossos filhos. Mas há também aquelas missões particulares, que pintam ao longo da construção da personalidade dos pequenos que colocamos neste mundo. Geralmente, são as próprias crianças que indicam o caminho a seguir, ao mostrarem potencial na prática esportiva ou um talento natural para a música, por exemplo.

Pois bem. Lá em casa, meus filhos nasceram cercados por livros , revistas e telas. Culpa dos pais, claro, e do ofício de ambos. Não deu outra: estamos criando dois leitores contumazes, que atravessam os anos consumindo todo tipo de literatura, da cultura pop a obras clássicas. Não preciso dizer que o orgulho deste pai babão é gigante.

Talvez, exatamente por isso, fiquei de cara com a história da menina Daliyah Marie Arana, de Gainsville, nos Estados Unidos. Conforme sua mãe Haleema Arana contou ao jornal “USA Today”, desde sempre a garotinha ouvia com atenção as histórias lidas por ela e seu marido, pai da criança. Então, quando Dalyiah tinha apenas um ano e meio, eles perceberam que ela conseguia reconhecer uma série de palavras.

E foi assim que tudo começou. “Nós sabemos de onde isso vem”, diz Haleema. “Esses pequenos cérebros são capazes de absorver muita coisa. Eles simplesmente aprendem.”

Na semana passada, a pequena foi convidada para curtir um dia que deve ficar registrado em seu HD cerebral
REPRODUÇÃO/USA TODAY – 17.01.17

Na semana passada, a pequena foi convidada para curtir um dia que deve ficar registrado em seu HD cerebral

A história de Daliyah logo ganhou  repercussão nacional nos Estados Unidos. Tanto que, na semana passada, a pequena foi convidada para curtir um dia que deve ficar registrado em seu HD cerebral por um bom tempo.

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No dia 11 de janeiro, Daliyah “trabalhou” como chefe da Biblioteca do Congresso, em Washington. O prédio guarda nada menos que 155 milhões de tomos em seus corredores, o que garante a ele o título de maior biblioteca em atividade do planeta. Recebida por Carla Hayden, 14º bibliotecária-chefe do Congresso Americano, a pequena passeou pelos corredores, posou para fotos e, claro, parou para ler alguma coisinha.

Segundo a mãe de Dalyiah, a menina tem o objetivo de chegar aos 1.500 livros devorados até setembro, quando irá para a escola pela primeira vez.

E você, caro leitor, quantos livros terá lido até lá?

Fonte: Último Segundo – iG @ http://ultimosegundo.ig.com.br/colunas/do-bem/2017-01-17/livros-menina.html

Como o apartheid prejudicou a educação na África do Sul

Quais os motivos de o país estar tão atrasado em relação às outras nações?

Como o apartheid prejudicou a educação na África do Sul
A diferença das notas dos testes entre 20% das melhores escolas e o resto é maior do que em quase todos os outros países (Foto: Pixnio)

Em uma pesquisa de avaliação de sistemas educacionais elaborada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) em 2015, a África do Sul foi classificada em 75º lugar no ranking de 76 países. Em novembro, no Trends in International Mathematics and Science Study (TIMSS), um teste quadrienal de avaliação do conhecimento em matemática e ciências realizado com 580 mil alunos em 57 países, a África do Sul ficou na última posição ou quase na última em diversos rankings, embora sua pontuação tenha melhorado desde 2011.

O nível de conhecimento das crianças é inferior ao de outras regiões pobres do continente. Uma proporção de 27% dos alunos que frequentaram a escola durante seis anos não sabem ler, em comparação com 4% na Tanzânia e 19% no Zimbábue. Depois de cinco anos na escola quase metade dos alunos não sabe que o resultado da divisão de 24 por três é oito. Só 37% das crianças que se matriculam na escola são aprovadas no exame de seleção; apenas 4% concluem os estudos.

De acordo com Nic Spaull da Universidade de Stellenbosch, a África do Sul tem um sistema educacional mais desigual do mundo. A diferença das notas dos testes entre 20% das melhores escolas e o resto é maior do que em quase todos os outros países. Dos 200 alunos negros que frequentam a escola só um tem um desempenho suficiente para estudar engenharia. Dez alunos brancos têm o mesmo resultado.

Muitos dos problemas são originários do apartheid. Segundo a Lei de Educação Bantu promulgada em 1953, os brancos teriam uma educação melhor do que os negros. A segregação racial era tão forte que, na opinião de Hendrik Verwoerd, o futuro primeiro-ministro na época encarregado da educação no país, os negros receberiam uma educação suficiente para serem apenas “rachadores de lenha e carregadores de água”.

Os alunos negros recebiam cerca de um quinto dos recursos destinados aos estudantes brancos. No currículo deles o ensino de matemática e ciências era quase inexistente. Muitas das escolas independentes administradas pelas igrejas, que ofereciam uma boa educação nos bairros de negros fecharam.

Depois que Nelson Mandela foi eleito presidente em 1994, o governo expandiu o acesso à escolaridade. O governo também substituiu o sistema educacional baseado na segregação racial pela divisão de riqueza. As escolas em áreas mais pobres recebiam mais financiamento do Estado. As escolas em áreas mais ricas podiam cobrar uma mensalidade.

Em teoria, essas escolas tinham de aceitar crianças cujos pais não podiam pagar as mensalidades. Na prática eram fortalezas de privilégios. Ainda existem cerca de 500 escolas construídas com lama, sobretudo na província do Cabo Oriental. Por sua vez, a província do Cabo Ocidental tem um dos maiores campus do hemisfério sul, com gramados para o jogo de críquete e croquet.

No entanto, o dinheiro não é o responsável pela situação educacional lamentável da África do Sul. Poucos países gastam tanto com educação, com retornos tão medíocres. Os gastos com a educação no país equivalem a 6,4% do PIB; a média nos países da União Europeia (UE) é de 4,8%. Ainda mais importante do que o dinheiro é a ausência de cobrança de resultados e a péssima qualidade da maioria dos professores. O Sindicato Democrático dos Professores da África do Sul (SADTU), aliado ao Congresso Nacional Africano (CNA), o principal partido político do país, é um elemento decisivo no fracasso do ensino na África do Sul.

http://opiniaoenoticia.com.br/internacional/como-o-apartheid-prejudicou-a-educacao-na-africa-do-sul/