O poder de Grace Mugabe era muito grande

por Victor Carvalho

À medida que vão passando os dias sobre o pedido de demissão apresentado por Robet Mugabe, mais se vai sabendo sobre o poder político que estava nas mãos da sua esposa Grace Mugabe.

Grace Mugabe é acusada de cometer excessos
Fotografia: Jekesai Njikizana | afpAlguns colaboradores do antigo Presidente do Zimbabwe, aos poucos, vão levantando a ponta do véu e revelando episódios que mostram o poder que Grace Mugabe tinha a ponto de dizerem que era ela quem, efectivamente, governou o Zimbabwe nos últimos dois anos. Já no processo de negociação das condições para a sua resignação, Robert Mugabe deixou que fosse a mulher a analisar as propostas apresentadas pelos militares e a elaborar rascunhos das contra-propostas que ele depois apresentaria como suas através do padre Fidelis Mukonori.
Grace Mugabe, segundo alguns colaboradores do antigo Presidente, redigia os discursos que o marido lia e escolhia pessoalmente os dirigentes que ele recebia na sua residência particular.
Era ela também, talvez a recordar os tempos em que foi secretária do Presidente, que elaborava a agenda oficial e particular do marido e escolhia os eventos em que ele devia participar. Foi ela que, no mesmo dia em que o marido assinou a sua carta de demissão, convocou para essa manhã uma reunião de ministros na State House (então já ocupada pelos militares) e na qual, mesmo assim, ainda haviam de comparecer três elementos.
Foi Grace Mugabe, também, quem escreveu a carta a demitir Emmerson Mnangagwa do cargo de Vice-Presidente da República, não se sabendo se Robert Mugabe a assinou com a plena consciência do que estava a fazer.
Outros pormenores sobre o poder que Grace tinha sobre Robert Mugabe estão a ser recolhidos por um jornalista zimbabweano e podem ser em breve revelados em forma de livro.

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Especula-se sobre o montante de recursos desviados pelo governo de Mugabe

O ex-ministro das Finanças do Zimbabué Tendai Biti acredita que será fácil. Já o diretor da organização Corruption Watch antevê dificuldades em conhecer o rasto do dinheiro, grande parte em paraísos fiscais.

defaultRobert e Grace Mugabe

Os tabloides sul-africanos publicam inúmeros artigos sobre as “riquezas incalculáveis” que Robert Mugabe e sua família deverão ter acumulado ao longo de anos de 37 anos de poder. No entanto, não é possível ainda avaliar com precisão quanto o ex-Presidente do Zimbabué e família terão gasto de fundos públicos.

Sabe-se que as festas de aniversário de Mugabe devem ter custado mais de dois milhões de dólares, com cerca de 500 mil dólares só para champanhe e caviar.

Além de uma mansão em Harare com 25 quartos, avaliada em 8,5 milhões de euros, o ex-chefe de Estado do Zimbabué detém, pelo menos, quatro moradias de luxo em Hong Kong e o Palácio de Hamilton, em Sussex, na Inglaterra, avaliado em mais de 400 milhões de euros.

Além disso, há que contabilizar ainda mais de 15 mil hectares de terras, que incluem áreas expropriadas a proprietários brancos. Algumas dessas propriedades foram convertidas em retiros privados e resorts. Robert Mugabe detém também veículos blindados, alguns deles Mercedes, no valor de um milhão de euros, um Rolls-Royce, diversas joias, relógios, diamantes e aplicações financeiras.

A sua esposa Grace Mugabe foi até apelidada de Gucci-Grace devido ao seu estilo de roupa.  Em 2014, chegou a defender o marido, dizendo que ele era o “Presidente mais pobre do mundo”.

Os dois filhos do casal também apreciam uma vida de luxo. Chatunga Mugabe, por exemplo, viveu numa moradia no Dubai com uma mensalidade de 30 mil euros, antes de se mudar para uma residência em Joanesburgo, na África do Sul, com renda de quatro mil dólares.

Recuperar o dinheiro desviado do Zimbabué

Ehemaliger Finanzminister Simbabwes Tendai BitiTendai Biti, ex-ministro das Finanças do Zimbabué

O ministro das Finanças do Zimbabué entre 2009 e 2013, Tendai Biti, foi confrontado com a corrupção no Governo de Mugabe. “O meu maior desafio não foram os milhares que Mugabe roubou, mais os milhões que tinham desaparecido. Hoje, sabemos que foram cerca de 15 milhões de dólares, uma elevada quantia”, lembra Tendai Biti. Para o ex-ministro das Finanças, “uma das principais tarefas do novo Governo é recuperar o dinheiro”.

“Esse dinheiro pertence ao Zimbabué e deve regressar ao país. São cerca de mil milhões de dólares, que pertencem aos zimbabueanos. Será um teste para o novo Governo localizar esse dinheiro. Hoje em dia é fácil. Com todas as regras financeiras internacionais contra a lavagem de dinheiro e de promoção da transparência, deverá ser uma tarefa fácil”, estima Tendai Biti.

Paraísos fiscais

No entanto, Paul Holden, diretor da organização sem fins lucrativos Corruption Watch, acredita que será difícil rastrear o dinheiro de Mugabe. Trazer o dinheiro de volta ao Zimbabué “depende de vários fatores: em primeiro lugar, é preciso descobrir a quantidade de ativos de Mugabe e onde eles estão exatamente. Caso contrário, poder ser muito difícil conhecer o rasto do dinheiro. A maioria do dinheiro está provavelmente localizado no exterior, em paraísos fiscais. Pode levar muito tempo e também ser bastante difícil”, alerta Paul Holden.

Mesmo que se venha a saber onde estão os ativos, será muito difícil provar que o dinheiro foi roubado do Zimbabué, acrescenta o diretor da organização Corruption Watch.

Outros casos mostram o quão difícil pode ser o processo. O ex-Presidente da Nigéria Sani Abacha terá conseguido gastar cinco bilhões em receitas de petróleo fora do país durante seu mandato entre 1993 e 1998. Mas apenas depois de 16 anos uma pequena parte do dinheiro roubado foi trazida de volta à Nigéria.

Será Mnangagwana uma verdadeira alternativa?

A questão que fica é se o sucessor de Robert Mugabe, o antigo vice-Presidente Emmerson Mnangagwana, é o homem certo para promover esse desenvolvimento.

Simbabwe Emmerson Mnangagwa in HarareEmmerson Mnangagwana de regresso ao Zimbabué

“Mnangagwa foi um aliado próximo de Mugabe por mais de 30 anos e, como tal, foi parte do sistema corrupto. Então, a maior parte dos observadores é cética sobre se ele realmente será diferente do seu antecessor”, observa Paul Holden, diretor da organização Corruption Watch.

“A nossa esperança é que a destituição de Mugabe seja o ponto de partida para a transformação do Zimbabué num estado democrático”, acrescenta Holden.

Emmerson Mnangagwana regressou ao Zimbabué, esta quarta-feira (22.11) a fim de tomar posse na sexta-feira (24.11).

No Zimbabwe começa um novo período, ou mais do mesmo?

Harare – Emmerson Mnangagwa, que prepara-se para suceder Robert Mugabe, saudou quarta-feira, em Harare, “o início de uma nova democracia” no Zimbabwe e apelou “todos patriotas” a trabalhar em conjunto, no seu primeiro discurso desde o início da crise, noticiou a AFP.

ZIMBABWE: EMMERSON MNANGAGWA, TOMA POSSE SEXTA-FEIRA COMO PRESIDENTE DO ZIMBABWE.

FOTO: ALBERTO JULIÃO

Prometendo ser “o servidor” do povo, o antigo vice-presidente, 75 anos, que deve ser investido sexta-feira, presidente do país, apelou “todos os zimbabweanos patriotas a reunir-se, a trabalhar em conjunto”.

“Queremos o crescimento da nossa economia, queremos empregos”, disse, numa altura em que o Zimbabwe conhece altos níveis de desemprego, uma falta de liquidez e um endividamento crescente.

Por outro lado, agradeceu o exército que, na sequência da sua demissão, interveio na noite de 14 a 15, sem violência aparente. O responsável revelou ter estado “em contacto permanente” com os responsáveis castrenses durante a crise.

Sob a pressão dos militares, da rua e do seu partido, Robert Mugabe, 93 anos, aceitou terça-feira, demitir-se, após 37 anos na liderança do país.