Juninho Pernambucano tece criticas duras ao jornalismo esportivo

Juninho Pernambucano: “Sofri censura ao vivo na TV. Nenhum jornalista me defendeu”

Na primeira entrevista após deixar a Globo, o ex-jogador reitera críticas à imprensa e conta como o futebol ajudou a despertar sua consciência política

Juninho Pernambuco saiu da Globo

Juninho Pernambucano, quando ainda era comentarista do grupo Globo. DIVULGAÇÃO

Heptacampeão francês pelo Lyon e ídolo do Vasco, o ex-meia Juninho Pernambucano acaba de se mudar para os Estados Unidos. Estabelecido em Los Angeles, tomou a decisão de respirar novos ares pela família. Aos 43 anos, está prestes a se tornar avô e vai acompanhar de perto as últimas semanas de gravidez da filha mais velha, Giovanna. Ele explica que a saída do Brasil não foi motivada pelo rompimento de contrato com a Rede Globo, onde era comentarista de futebol desde 2014. Em entrevista ao EL PAÍS, Juninho reclama ter sofrido censura na emissora por questionar o trabalho da imprensa, especialmente o dos setoristas. “Até o episódio da minha saída, seria injusto dizer que eu fui impedido de falar”, afirma. No fim de abril, durante o programa em que opinou que os jornalistas que cobrem os clubes “são muito piores hoje em dia”, a direção de jornalismo do SporTV, canal fechado de esportes da Globo, emitiu uma nota oficial condenando os comentários do ex-jogador.

Além da reprimenda lida ao vivo, que o levou a pedir demissão, ele conta que já havia acumulado desgastes com companheiros de emissora (leia a resposta da TV no fim da entrevista). “Discussões pesadas, de apontar o dedo na cara e tudo mais. Só não teve vias de fato.” Apesar de ostentar um diploma em gestão pela UEFA, Juninho não manifesta interesse em atuar nos bastidores do futebol. Por enquanto, seu único plano é passar uma temporada aprimorando o inglês e, ainda que à distância, se manter ativo no debate político nacional.

Pergunta. O futebol está em seu horizonte nessa nova etapa no exterior?

Resposta. Depois que saí da Globo, eu fiquei pensando no que fazer. Ainda não achei um caminho. Não me sinto pronto nem com vontade de voltar ao futebol.

P. Nem como dirigente?

R. Recebi uma proposta do Lyon, mas preferi esperar. Tenho capacidade para ser dirigente, só que, pela bagunça total no Brasil e pelo que conheço da imprensa, não faria isso agora. Joguei futebol por 20 anos. Sempre tive na cabeça que não poderia precisar de ninguém depois que eu parasse. Para não correr o risco de vender minha alma e meu caráter, só gastei 30% do que ganhei como jogador. Me preparei para isso. Investi 70% dos meus rendimentos.

P. Nem como comentarista?

R. De jeito nenhum. Perdi a confiança na imprensa.

P. Por causa do episódio com a Globo?

R. Tá gravando? Pode gravar, porque eu falo pra caramba. O que aconteceu foi o seguinte… Quando fui pra imprensa, me assustei com o desconhecimento generalizado. O futebol mudou muito. Chegaram a ciência, a nutrição, a psicologia, a análise de desempenho… Hoje o jogador corre muito mais, tem mais músculos, reage mais rápido. O espaço no campo ficou reduzido. Só que a imprensa ainda não entendeu essa evolução. Ela se agarra ao saudosismo: “Ah, mas no tempo de fulano era assim”. Não são todos, mas a maioria dos jornalistas desconhece o jogo.

“A imprensa oprime o jogador. Quer que ele seja visto apenas como um marginal, um ignorante”

P. Desconhece em que sentido?

R. Grande parte da imprensa joga contra a evolução do futebol. Eles [jornalistas] precisam da gente, os ex-jogadores, para complementar o que não conseguem enxergar. Fui censurado na Globo por denunciar que tinha setorista vendido, que se envolve com sacanagem. É o setorista que pauta o noticiário, porque cobre de perto os jogos e treinamentos. Quando ele se prostitui, fode o ambiente no clube. É preciso combater o que tá errado lá embaixo na cadeia de produção do jornalismo para pautar coisas mais sérias. E aí, em pleno ano de 2018, sofri censura ao vivo na TV. Nenhum jornalista me defendeu. Pelo contrário, ainda fui humilhado pelo Milton Neves [apresentador da Band], que deu uma tuitada me ridicularizando. Antes, já tinha recebido ameaças de torcedores. Se eu fui censurado e ameaçado, significa que toda a imprensa também foi, meu amigo. E ninguém compreendeu isso, talvez por ignorância ou medo de perder o emprego.

P. Antes da crítica aos setoristas, você foi impedido de falar na emissora?

R. No fim de 2013, quando já tinha planos de parar de jogar, me ligaram da Globo perguntando se eu estava disposto a comentar a Copa de 2014. Respondi que me interessava. Mas, se ainda estivesse jogando futebol, não faria. Aí parei de jogar e assinei contrato de um mês com eles. Renovei por mais dois anos. Depois, mais três. Meu contrato iria até o fim do ano que vem. Durante esse período até o episódio da minha saída, seria injusto dizer que eu fui impedido de falar. Mas briguei com os três principais narradores e o principal repórter da casa. Briga grande, discussão pesada, de apontar o dedo na cara e tudo mais em reuniões. Só não teve vias de fato. Queria dar minha opinião e não aceitavam. Diziam que eu falava muito, que interrompia demais. Balançavam a cabeça achando ruim se eu me alongava no comentário durante a transmissão. Sofria pressão por querer dizer o que penso. Mas me contrataram para dar opinião. Eu criticava quem tivesse que criticar. Enquanto a Globo me deixou trabalhar, fiz minha parte. Saí de consciência limpa. Não vendi minha alma nem meu caráter.

P. O clima, então, já não era dos melhores, certo?

R. A relação azedou quando eu critiquei o Vinicius Junior [após um clássico contra o Botafogo]. Fui ameaçado de morte pela torcida do Flamengo, dei queixa na delegacia. Esperava um suporte, mas não recebi apoio de ninguém na emissora. A partir dali a coisa não ficou legal. Como já estava tudo esquematizado para eu ir pra Rússia, não quis deixar os caras na mão. Mas eu abandonaria o barco depois da Copa.

P. Ter passado por um constrangimento no ar antecipou a ruptura?

R. Aquela nota interrompendo o programa [Seleção SporTV] para me censurar partiu de um diretor covarde, que eu ainda não sei o nome. Foi a gota d’água. Na mesma semana, decidi não prestar mais serviços à Globo e pedi para sair.

P. Acredita que o fato de ter manifestado publicamente suas posições políticas interferiu no desgaste com a Globo?

R. Eu espero que não, mas, provavelmente, sim. Durante a Copa do Mundo, a Globo soltou um comunicado pedindo para que os funcionários tivessem cuidado com os posicionamentos políticos em redes sociais. Acho que, a partir do momento em que você tá em casa, a vida é sua. Você posta o que quiser. Jornalista que abre mão de rede social a pedido do patrão, indiretamente, vende seu caráter ao chefe.

P. O que mais te decepcionou em sua passagem pela crônica esportiva?

R. A falta de humildade dos jornalistas. Gostam de ironizar ex-jogador por cometer erro de português, mas a gente agrega outro tipo de conhecimento, velho. Sabe qual é a diferença do atleta para o jornalista? É que nós aprendemos desde criança que existe alguém melhor que a gente. Quando entramos pra jogar, pensamos: “Caralho, aquele cara ali é bom, hein?”. Aprendemos a respeitar nosso adversário. Posso até odiá-lo, mas nunca vou desejar que desapareça, porque eu preciso dele para ser melhor. O jornalista não tem essa capacidade porque nunca entrou em campo. Não tenho a escrita, o vocabulário ou o estudo do jornalista, mas tenho outra visão de mundo. Foi muito feio observar de perto essa soberba. Como que alguém que nunca pisou num gramado pode ter tanta certeza de uma coisa? Passei a vida inteira sendo criticado. Me disseram coisas absurdas na época em que eu jogava e continuo vivo. Por que não posso criticar a imprensa?

P. Suas ressalvas vão além da questão com os setoristas dos clubes?

R. Como é que a imprensa deixou o Eurico Miranda ficar tanto tempo no poder? Em 2015, ele renovou o contrato do Vasco com a televisão. Quando a Globo adianta a verba dos direitos de transmissão, ela presta um desserviço ao futebol, porque não ensina o dirigente a administrar o dinheiro. E aí os clubes caíram num buraco. Mas gostam de ficar enganando o torcedor dizendo que a solução é trocar técnico, tirar jogador, contratar não sei quem… Eu não sirvo pra enganar torcedor. Times como o Vasco precisam de um trabalho sério, de longo prazo, sete a dez anos, para aspirar alguma mudança definitiva. E o que acontece? Quando perde, sai matéria detonando tudo, em vez de aprofundar nas causas. Outro negócio que me chocou: fazendo Campeonato Estadual, os caras não falam o nome dos jogadores de time pequeno. Parece que o time grande joga contra um fantasma. Quando eu ia comentar jogo do Volta Redonda, por exemplo, ligava pro assessor do clube para pegar informação de todos os jogadores, o esquema tático do técnico. Se o fulano joga bem, preciso saber o nome dele pra elogiar. Ou pra criticar, se jogar mal. Essas situações que observei me entristeceram para caralho.

P. Você não se via em conflito interno por trabalhar num lugar tão diferente de suas visões?

R. Não adianta pagar caríssimo pelo campeonato se você não protege o espetáculo. Eu brigava por isso lá na Globo. Queria mostrar pra eles que um calendário melhor deixaria o produto deles melhor. Tem jogo quarta e domingo no Brasil, porra. Ninguém aguenta. Está tudo associado ao dinheiro. Atleta não é máquina. Pra jogar bem, ele precisa se recuperar. Não pode ter jogo do Campeonato Brasileiro em data FIFA. E a falta de conhecimento da imprensa sobre esses detalhes me espantou. Todo mundo evoluiu. Por que a imprensa não pode evoluir? A análise ainda se resume a eleger o herói e o vilão. Isso é muito perigoso. Olha o recado que passam para a sociedade: ou você é craque ou você é um merda. Por que às vezes o atleta brasileiro amarela? Porque sabe que vai ser massacrado quando perder. Cria-se o pavor da derrota, que influencia no rendimento. O torcedor entra nessa lógica, quer saber quem foi o culpado.

“Me revolto quando vejo jogador e ex-jogador de direita. Nós viemos de baixo, fomos criados com a massa. Como vamos ficar do lado de lá? Vai apoiar Bolsonaro, meu irmão?”

P. Certa vez, você disse que o Renê, lateral do Flamengo, só era criticado por ser nordestino, e esse comentário gerou bastante repercussão…

R. Quando cobram 180 reais num ingresso, quem tá no estádio é outro tipo de público. Os jogos do Flamengo hoje são feitos pra quem mora na Zona Sul e na Barra da Tijuca. Tenho embasamento para falar do Renê. Quem são os jogadores que a torcida do Flamengo mais pega no pé? Muralha, que tinha um corte de cabelo todo diferente. Márcio Araújo, negro. Rodinei, que, de forma absurda e desrespeitosa, é chamado de “porca gorda”. Pará e Renê, que vieram das regiões Norte e Nordeste. Como comentarista, percebi que já havia uma campanha dos torcedores contra o Renê, mas, em campo, eu não via um desempenho tão ruim. Pelo contrário. Ele é um dos melhores laterais marcadores do Brasil. E o time não perde só por causa de um cara. Outros jogadores, que tinham performance abaixo, eram analisados de maneira diferente. Mas isso faz parte da nossa cultura elitista. E o próximo da lista será o Vitinho, que também é negro. O inconsciente toma conta. Só falam de quanto ele ganha e quanto custou, mas ninguém leva em consideração que o cara veio da Rússia e vai demorar a se readaptar. “Ah, mas ganha bem pra isso”. Porra, é ser humano. Sabe de onde ele veio? Sabe com foi a infância dele, tudo que ele viveu pra chegar até aqui?

P. Na época, o Flamengo emitiu uma nota dizendo que sua torcida não é racista.

R. Claro que a torcida do Flamengo não é racista, velho. Mas uma parte da torcida que paga 180 reais pra ir no jogo é racista sim, assim como parte da torcida do Vasco e de outros times grandes. Como pode um torcedor do clube que aceitou os negros, onde os operários construíram o próprio estádio, ser racista? O cara é torcedor de time popular. Como pode ser fascista? Isso é doença. Só pegam no pé dos mesmos. Se apaixonam por jogador que não tem muito valor técnico, mas uma aparência melhor. Eu vim do Nordeste, pô! Sei bem como é.

P. Sofreu muitas críticas preconceituosas?

R. Todo mundo passa por isso, meu amigo. Quem joga futebol escuta muita coisa preconceituosa, dentro e fora do estádio, incluindo a análise da imprensa. Não se faz a crítica técnica, mas humilhando o jogador. Tem que ter limite na hora de criticar. O cara tem família, os filhos vão pra escola, ouvem um monte de besteira. A pressão é muito grande. O Alex conta que o pai dele passou mal de tanto ouvir crítica do Galvão Bueno na TV. É algo que se repete.

P. Enxerga certo preconceito de classe na crítica da imprensa aos jogadores?

 

R. Existe o preconceito, mas também o interesse em marginalizar o atleta. A verdade é que a imprensa oprime o jogador. Quer que ele seja visto apenas como um marginal, um ignorante. Não sou formado em nada. Mas eu nasci em Recife, cheguei ao Rio com 19 anos, morei oito anos na França e dois no Catar, mais seis meses nos Estados Unidos. Visitei mais de 40 países jogando futebol. Será que a vida não me ensinou outras coisas? Sabe por que o atleta homossexual não se assume? Porque ele tem medo da repercussão na imprensa. Medo de ser humilhado. Outra coisa que sou totalmente contra: entrevista na beira do campo. Jogador tem que ir pro vestiário, tomar banho e esfriar a cabeça. Naquele momento, ele não está em sua plenitude de sobriedade. No calor da emoção, o que o cara diz ali, depois de 90 minutos de esforço intenso, pode sair do contexto ou não ser o que ele realmente queria dizer.

P. Por que tão poucos jogadores se posicionam politicamente?

R. A carreira do jogador é curta. O futebol exige tanta dedicação que você acaba se alienando. Entendo o atleta que ainda está jogando e prefere não se posicionar. Mas o ex-atleta que tem uma boa qualidade de vida não falar nada sobre a situação do país é inadmissível.

P. Foi por isso que você passou a se posicionar mais após a aposentadoria dos gramados?

R. Minha consciência política e minha responsabilidade como cidadão se desenvolveram muito mais depois que parei de jogar. Antes, quando aparecia notícia de que um político tinha morrido, eu dizia: “Menos um pra roubar”. Aprendi as coisas lendo, viajando o mundo e observando como tudo funciona para emitir minha opinião. Mas é claro que o jogador jovem, que não é amigo de jornalista e não tem ninguém pra protegê-lo, vai ser engolido ao se posicionar. Acaba evitando gastar energia com isso para se concentrar no seu ganha-pão.

P. A passagem pela França ajudou a amadurecer sua consciência política?

R. O que me despertou para a política foi o lado humano dos franceses. Eu pensava que o brasileiro era solidário. Enchia a boca pra dizer isso. Mas que mentira, velho. O francês é solidário para caralho. Tem os extremistas, a parte que despreza os muçulmanos, racista. Mas a maioria do povo francês é humanamente evoluída. Vi jogador mais novo receber proposta para ganhar o dobro em outro clube e recusar porque era da cidade, não queria sair de lá. E eu não entendia. Só olhava pelo lado financeiro. Essa era minha mentalidade. Vi também jogadores que saíram de países muito mais pobres que o nosso, em guerra civil, terem mais respeito ao próximo e educação que a gente. Nós somos muito gananciosos. Só sei disso porque morei fora do Brasil. O futebol me ensinou a enxergar o mundo. Quem salvou minha vida foi o futebol.

P. Se refere à ganância do brasileiro em geral?

Juninho e a família, em Los Angeles.
Juninho e a família, em Los Angeles. ARQUIVO PESSOAL

R. Olha, quem tem dinheiro vivo, lucra com essa situação caótica do país, com o dólar nas alturas. Eu joguei 10 anos no exterior, recebendo em moeda estrangeira, só gastei 30% do que ganhei, tudo declarado, certo? O patrimônio que tenho investido lá fora só aumenta. Como o povo está feliz com esse sistema se ainda tem criança morrendo de fome no país, pô? Isso é injusto! A classe mais rica precisa de sensibilidade. Todos nós, brasileiros, gostamos de dinheiro. Mas, quando a ganância cresce demais, a distância para os mais pobres fica muito grande e a violência dispara. A riqueza não pode ficar na mão de poucos. É egoísmo. E tudo começa na linha de largada. Eu luto para que as oportunidades não fiquem só na mão de quem já tem privilégios. Como vamos falar de meritocracia? Meritocracia existe no esporte, onde treina todo mundo junto e o melhor tem que jogar. Mas, num país como o Brasil, não dá pra falar em meritocracia. Uma minoria larga bem à frente e quer exigir que os retardatários sejam alguém na vida. Essa corrida nunca vai ser justa.

P. Você se reconhece como privilegiado nesse sistema?

R. Eu ganhava 60 paus lá na Globo pra trabalhar duas vezes por semana. Já estou em uma boa condição. Poderia ficar calado, feliz da vida e levando vantagem, já que o sistema só está me ajudando. Mas que felicidade é essa? O brasileiro perdeu a autoestima, anda de cabeça baixa na rua. Tem uma molecada aí de 20, 30 anos que ainda mora com os pais e passa o dia inteiro na frente da TV, uma geração desiludida. Não é esse o país que eu quero para minhas filhas.

P. Viver numa casa com quatro mulheres também influencia sua visão de mundo?

R. Reconheço que ainda sou um machista em desconstrução, porque foi a educação que recebi. Aceito essa condição para poder evoluir. Aprendo todo dia com minhas filhas, vendo a luta das mulheres para ter direitos iguais no Brasil.

“O que as pessoas odeiam no Lula é a aparência, a origem, o sotaque, a história e a popularidade”

P. Assim como ex-colegas do futebol, você tem planos de entrar para a política?

R. Ainda não sei. Estou esperando a vida me mostrar o que devo fazer. Nunca me envolvi com nenhum político, nunca fiz campanha pra ninguém. Conheci o Lula pessoalmente quando o Brasil jogou contra o Haiti, em 2004. Ele foi lá, agradeceu a gente e deu uma carta para cada um. Foi a única vez que estive com ele. Eu o admiro muito. Ninguém vai apagar o que ele fez por esse país. O Lula é um senhor de 72 anos que está sendo massacrado. Por que as pessoas odeiam o Lula? O que odeiam nele é a aparência, a origem, o sotaque, a história e a popularidade. Se fizer um teste de ódio nas ruas, colocando um boneco do Lula ao lado de um do Aécio, vai sobrar para o Lula. Nem se compara. A elite exerce um domínio mental. Funcionário usar roupa branca na sua casa, uma coisa do tempo da escravidão. Como tenho boa condição, eu vivia entre os bacanas, morava em condomínio de rico. E via o pai passando esse ódio pro filho, uma coisa surreal.

P. Como analisa o cenário político no Brasil nesses últimos anos?

R. Nossa democracia é muito jovem, mas o básico seria entender que o voto tem peso igual. Negro, branco, pobre, rico: nenhum voto vale mais que outro. O problema é que, depois de tanto tempo de esquerda no governo, o desespero pela retomada do poder cegou algumas pessoas. Precisou de quantos para tirar a Dilma? Aécio, Eduardo Cunha, Temer e… A imprensa, pô! Rasgaram nossos votos e nos levaram a esse terror. Que tirassem a Dilma agora, nas urnas. Por pior que estivesse o país, não chegaria nessa situação, em que um extremista é cotado à presidência. Pode escrever aí: a grande mídia vai apoiar o Bolsonaro se ele for pro segundo turno.

P. Algumas personalidades do futebol também, não?

R. Muitos brasileiros ignoram que outros foram torturados e assassinados na ditadura. É desesperador ver gente apoiando intervenção militar. O Exército existe para defender o país, proteger as fronteiras, não para matar brasileiro na favela. Eles não foram treinados pra isso. Dizem que eu defendo bandido. Mas a gente tem que parar com essa história de achar que todo crime é igual. Uma coisa é assassino, outra é o cara que rouba. Não posso colocar um jovem de 18 anos que roubou num presídio. Ali é categoria de base para o crime. Quando o cara sai, ele quer se vingar da sociedade. Por isso que eu me revolto quando vejo jogador e ex-jogador de direita. Nós viemos de baixo, fomos criados com a massa. Como vamos ficar do lado de lá? Vai apoiar Bolsonaro, meu irmão?

P. Por envolver a paixão, o meio do futebol é um terreno fértil para a intolerância. Como fez para se blindar desse ambiente, sobretudo jogando em outros países?

R. Uma das minhas filhas nasceu em Recife, as outras duas, em Lyon. Minha neta vai ser filha de nordestina com americano descendente de chineses. Será que não tem diversidade na minha família? Sou um cidadão do mundo. Não posso ser intolerante com as diferenças. A única ressalva são os extremistas. Será que um cara que crê na existência de “raças humanas” e propaga discurso de ódiomerece a democracia?

P. Nota paralelos entre o futebol e a política?

R. O futebol está tão perdido quanto o Brasil. A diferença é que o futebol ainda tem o talento a seu favor e pode demorar menos para sair do buraco.

GLOBO NEGA CENSURA

Procurado pela reportagem, o departamento de comunicação da Rede Globo enviou um posicionamento sobre as falas de Juninho:

Como funcionário do Esporte da Globo, Juninho Pernambucano foi tratado sempre com profissionalismo e respeito, e jamais sofreu qualquer tipo de censura. A nota citada por ele na entrevista ao EL PAÍS e divulgada pela Globo afirmava, sem deixar margem à dúvida, que Juninho tinha direito à sua opinião, que era e continuaria sendo livre. O texto apenas deixava claro que o canal SporTV não concordava com as críticas, as acusações e a generalização feitas pelo então comentarista contra um grupo de profissionais, que incluía seus próprios companheiros de trabalho. E reforçava a confiança nos mais de 30 setoristas que trabalham no Grupo Globo. A nota foi lida ao vivo e diante do próprio Juninho, o que não caracteriza a “covardia” que ele relaciona ao episódio.

Sobre outro episódio citado na entrevista, Juninho Pernambucano relatou, em fevereiro, ter sofrido ameaças de torcedores do Flamengo após uma discussão nas redes sociais. Por isso, pediu para não comentar a final da Taça Guanabara, para a qual estava escalado. Em respeito ao profissional, o pedido foi imediatamente atendido e ele foi retirado da equipe que trabalhou na partida.

 

Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/19/deportes/1537394219_927623.html?id_externo_rsoc=FB_CC

ONU e União Africana criticam a “prolongada crise política” na Guiné-Bissau

As Nações Unidas e a União Africana estão preocupadas com “prolongada crise política” na Guiné-Bissau e criticaram as ações que “procuram obstruir e evitar uma resolução da crise”.

As Nações Unidas e a União Africana expressaram este sábado a sua “preocupação com a prolongada crise política” na Guiné-Bissau, criticaram as ações que “procuram obstruir e evitar uma resolução da crise” e admitiram “medidas adicionais”.

Numa declaração conjunta, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, e o presidente da Comissão da União Africana (UA), Moussa Faki Mahamat, “expressam a sua preocupação com a prolongada crise política na Guiné-Bissau, apesar das múltiplas oportunidades oferecidas aos principais interessados políticos para chegar a um acordo consensual”.

Os dois responsáveis “criticam as ações que estão a ser tomadas por aqueles que procuram obstruir e evitar uma resolução da crise”.

Além disso, a ONU e a UA condenam “as recentes medidas tomadas pelas autoridades nacionais para evitar que o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) reúna e realize o seu congresso, incluindo a ordem dada aos serviços de segurança nacional para evacuar e fechar a sede do partido”.

A polícia guineense desalojou algumas centenas de militantes e dirigentes da sede do PAIGC, na segunda-feira passada, alegando cumprimento de ordens judiciais, em virtude de disputas entre alas antagónicas daquele partido.

O cerco da sede do PAIGC vigorou entre a madrugada de segunda-feira e a tarde de quinta-feira. O congresso do partido, que devia ter começado na terça-feira, só ocorreu na quinta-feira à noite.

Na declaração, Guterres e Mahamat apelam “a todas as autoridades relevantes para que respeitem rigorosamente os direitos humanos internacionais e o direito humanitário e removam imediatamente todas as restrições ao direito à reunião pacífica, à participação política e à liberdade de expressão”.

As duas instituições advertem também que estão preparadas para aplicar “medidas adicionais, caso a situação o justifique”.

Os dois líderes afirmam ainda subscrever “plenamente” as recentes decisões da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), que impôs desde quinta-feira sanções às individualidades e instituições da Guiné-Bissau que estejam a impedir que se acabe com a crise política no país lusófono.

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Além disso, as duas organizações internacionais reiteram o seu apoio ao Acordo de Conacri — celebrado em outubro de 2016 -, recordando que prevê, entre outros aspetos, “a nomeação de um primeiro-ministro consensual”.

A ONU e a UA apelam ainda aos principais atores políticos que implementem “de forma fiel e urgente o acordo, bem como o roteiro da CEDEAO que todos subscreveram”.

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O PAIGC, partido vencedor das últimas legislativas, rejeitou esta semana o nome de Artur Silva, o sexto primeiro-ministro nomeado pelo Presidente guineense, José Mário Vaz, desde que demitiu o Governo deste partido, liderado por Domingos Simões Pereira, em agosto de 2015.

O triste drama de uma mulher nigeriana

 

O drama da mulher nigeriana ao pedir em casamento seu amigo. O vídeo mais visto no continente africano, no dia de hoje , mostra o drama de uma mulher que está em um shopping e pergunta sobre um homem,  se alguém o viu. Ela faz gesto mostrando que ele é alto.

Ela está com vestido preto, com sapatos de salto alto dourados e ainda carrega uma bolsa. Uma elegância discreta, que mostra cuidado, não está só, acompanhada de uma amiga que parece ser mais jovem, com uma roupa mais simples, esportiva e usa sandálias.  ela está ali como uma testemunha e uma entusiasta, um apoio ao que vai ocorrer naquele lugar. Uma amiga confidente.

Passados alguns segundos esse homem de camisa preta e chapéu desce uma escada rolante. e num gesto teatral a mulher se ajoelha e tira uma caixa onde tem um anel e oferece ao homem. Este está acompanhado e fica atônito, sem saber o que fazer.

Demora uma eternidade para se aproximar da mulher, conversa com seu amigo, mostra indecisão, não sabe se fica no lugar ou vai embora. São segundos que no vídeo parecem horas.

Em frente, está a mulher, que fica imóvel, pensando será que ele vai aceitar o meu pedido de casamento? . Ao seu lado está de pé sua amiga que procura ajudá-la, acreditando em um desfecho positivo, faz gestos e pede para que o homem se aproxime.

A hesitação do pretendente, as expressões de dúvidas de quem parece não acreditar o que está acontecendo, aumenta o drama da situação, com as pessoas em sua volta, o  cobram por uma atitude , uma reação. Entre risos e olhares de surpresa.

O homem caminha, com passos lentos, sem a firmezav de quem vai tomar uma decisão. Sua aproximação vem acompanhado de um peso, que ele deve carregar. Se ela foi levada a essa decisão, não foi atoa -devo ter feito algum gesto, que a levou  a ter tanta confiança de que poderia aceitar o seu inusitado pedido de casamento. Pena nos encontros passados, nas  falas, conversas, do que disse, nos olhares, nos apertos de mãos, nos abraços e beijos de despedida.

Ele se aproxima e pede que se levante, abraça  mulher , que permaneceu ajoelhada durante muito tempo, pois esse momento é o mais importante de sua vida. Um gesto de coragem de dizer que ama e quer passar o resto de sua vida com ele. Ele a abraça e se a levanta do chão e sussurra algumas palavras. Ele se afasta. A mulher entra em desespero. Dhora, grita, sai correndo pelo saguão do shopping.

Todos a sua volta se perguntam o que aconteceu, o que será que ele disse de tão terrível, que levou a mulher ao soltar um grito, com lágrimas, e muito choro.

-Sou casado. Foram essas duas palavras.

Não há conversas longas, ele é direto, não pede desculpas. Só diz que é casado. Casado? Sim casado e, ela como fica agora? Precisará ser amparada, pois está marcada pelo símbolo da rejeição pública. Alguns irão se questionar se ela devia ter se preparado para receber uma negativa. uma mulher apaixonada, cega por qualquer obstáculo, disposta a tudo. Não pensaria jamais em uma negativa. Há sinais, códigos, movimentos do corpo que selam a cumplicidade entre um casal.

O mundo inteiro que acessou o vídeo, fica solidário a ela. E se perguntam como esse canalha deixou isso acontecer?  Será que ele deu motivos? São íntimos? Filho de uma puta, sacana, aproveitador de mulheres, vagabundo. Não faltaria adjetivos para expressar o sentimento de revolta por te levado essa mulher a humilhação e o desespero. Uma mulher apaixonada

A solidariedade nesse momento é para com a mulher, que se expôs,  num gesto magnânimo de amor , despojado de vergonhas, com muita coragem, beleza, ela estava com sua melhor roupa, toda maquiada Fez uma grande preparação, pois repito era o maior e mais importante momento de sua vida. Este gesto exigiu coragem, conversa com as amigas e provavelmente consultas com familiares.

Sim, ele deve ser um canalha, um mulherengo que se aproveitou da situação de fragilidade da mulher. E por que nunca disse que era casado?

Ele responde que eram só amigos, sem ser íntimos.

Na internet as opiniões se dividem, mas há sem dúvida uma solidariedade a essa mulher que foi levada ao desespero.

 

 

Celso Amorim tece duras críticas à politica externa brasileira

celso amorim

O Brasil deixou de ter uma política externa e um projeto nacional. Na verdade, o que existe hoje é um projeto anti-nação, um assustador processo de desnacionalização e de destruição de ativos nacionais. O diagnóstico é do ex-ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, que participou nesta quarta-feira (25) da sétima edição do Fórum de Grandes Debates, promovido pela presidência da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Amorim foi recebido, no final da tarde, pelo presidente da Assembleia, deputado Edegar Pretto (PT), conversou com jornalistas e, logo e seguida, proferiu uma conferência no auditório Dante Barone. O ex-chanceler do governo Lula criticou os rumos da política externa brasileira no governo Temer que, segundo ele, abandonaram completamente o protagonismo que o Brasil vinha exercendo nos últimos anos, voltando a assumir uma postura subalterna aos interesses econômicos e políticos de Washington.

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“A Lava Jato promoveu uma brutal criminalização de tudo, inclusive, de práticas absolutamente normais, feitas em todos os países.” A declaração é do diplomata e ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim, que participou como palestrante da 7ª edição do Fórum dos Grandes Debates da Assembleia Legislativa na noite desta quarta-feira (25). O evento, que ocorreu no Teatro Dante Barone, tratou do tema A Política Externa Brasileira e o Desenvolvimento.

Última edição
Ao anunciar que o evento da quarta-feira é a última edição do ano do Fórum dos Grandes Debates, o presidente da Assembleia Legislativa, Edegar Pretto (PT), afirmou que a presença do embaixador Celso Amorim tem como objetivo lançar luzes sobre o papel da política externa no desenvolvimento do País. “Ele é uma cabeça iluminada, que irá nos ajudar a refletir sobre um tema que está mais presente no nosso dia a dia do que pensamos. Precisamos olhar para além de nosso muro para que possamos entender o momento que atravessamos”, declarou.

Os deputados Altemir Torteli (PT), Adão Villaverde (PT), Miriam Marroni (PT), Tarcísio Zimmermann (PT), Zé Nunes (PT) e Ronaldo Santini (PTB) acompanharam a palestra do diplomata. O painel foi coordenado pelo professor Benedito Tadeu Cézar, membro do Comitê Gaúcho do Projeto Brasil Nação

Na avaliação do embaixador, ao colocar grande número de empresas jub-júdice, a operação da Polícia Federal contribuiu para a destruição de ativos nacionais. “Mais do que privatizações, há um processo em curso de desnacionalização de nossas empresas. Não se vê empresa nacional comprando ativos na área do petróleo ou na área elétrica. São grandes grupos internacionais ou estatais estrangeiras que estão se apoderando de nossas riquezas”, apontou.

Política externa ativa e altiva
Amorim apresentou uma trajetória da política externa brasileira nos governos Lula e Dilma, lembrando seus principais marcos, como a criação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), após o surgimento do IBAS (Índia. Brasil e África do Sul). “O IBAS foi uma iniciativa do segundo dia do governo Lula, que abriu espaço para os BRICS”, lembrou.

O embaixador elencou ainda as iniciativas para a integração da América do Sul e fortalecimento do Mercosul. “Uma das grandes mentiras da grande mídia é que o Mercosul não deu certo. Até 2012, o comércio na região cresceu 12 vezes contra um avanço três vezes menor do comércio mundial”, comparou.

Ele lembrou ainda que o Brasil teve papel central na eliminação dos subsídios agrícolas pagos pelos países ricos, ao liderar uma aliança de 110 nações na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A saída da atual crise, na sua opinião, passa pelo fortalecimento da democracia e pela distribuição de renda. Ele considera também que a questão racial no Brasil está tomando proporções “bastante preocupantes”.

O Brasil, acrescentou Celso Amorim, era chamado para facilitar conversas na America Latina, na África e no Oriente Médio. “O Brasil estava a frente dessas conversas. Agora, não está nem a reboque. Está parado lá atrás. Todo mundo olha hoje e pergunta: onde está o Brasil? O Brasil hoje vai nas reuniões dos organismos internacionais para cumprir tabela, não apresenta nenhuma iniciativa. Nós sempre tínhamos uma iniciativa nova. O próprio G-20 nasceu, entre outros fatores, pelo papel que o Brasil passou a desempenhar no cenário internacional. O nosso país tinha um papel muito importante no cenário internacional, tanto na parte econômica como na parte política. O Brasil foi chamado para intervir em questões envolvendo o Oriente Médio. Muita gente questionou o envolvimento do Brasil no Irã. Mas não foi o Brasil que quis se envolver no Irã. O presidente do Estados Unidos, Barack Obama, pediu que o Brasil ajudasse, apenas para dar um exemplo”.
Celso Amorim falou sobre as relações entre a política externa e o desenvolvimento, na Assembleia Legislativa. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Falando sobre o cenário internacional, Celso Amorim avaliou que o mundo pode estar entrando, mais do que na era Trump, na “era Xi”, uma referência ao novo presidente da China, Xi Jinping. O grande fato novo, enfatizou, é o crescimento da China, não só o crescimento econômico, mas a disposição desse país em assumir uma postura de liderança. O ex-chanceler lembrou que, na primeira reunião dos BRICS (grupo que reúne Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul), a China não mostrava muito engajamento, ao contrário do Brasil e da Rússia. Hoje, a China desempenha um papel central, sendo a sede, inclusive, do banco dos BRICS. “No último congresso do Partido Comunista chinês ficou claro não só o fortalecimento do presidente Xi, como também uma disposição de atuar com liderança”.

Questionado sobre o futuro dos BRICS a partir da mudança política ocorrida no Brasil, Celso Amorim disse não acreditar que o país saia dessa iniciativa. “Por mais subserviente que a nossa classe empresarial possa ser, há fortes interesses econômicos em jogo, como os do agronegócio que exporta muito para esses países. Por mais voltado ideologicamente para Washington que possa ser o atual governo, não vejo a possibilidade de o Brasil sair dos BRICS. Acho que há aí um mínimo de pragmatismo que não permite que eles saiam. Só não vão tomar nenhuma iniciativa, até porque não têm nenhuma credibilidade para lançar alguma coisa nova. Vão indo na rabeira. Hoje, nestes encontros internacionais, ninguém quer tirar foto com o Temer. Na época do Lula, todo mundo queria aparecer na foto com ele”.

Amorim manifestou preocupação, por outro lado, com a destruição dos ativos nacionais, que estão sendo entregues a outros países. Para ele, o que está ocorrendo no governo Temer não é propriamente uma privatização, mas sim uma desnacionalização. “Comparando com o que está acontecendo hoje, Roberto Campos seria considerado um desenvolvimentista desvairado. “Muitos dos nossos ativos estão sendo comprados por estatais de outros países. O que não presta é a estatal brasileira, a estatal de outros países serve? As empresas brasileiras ficaram sob suspeita com essa questão da Lava Jato, de uma maneira que não se vê em país nenhum. A Volkswagen teve um problema sério recentemente com a falsificação de resultados envolvendo um software de meio ambiente. Você ouve falar que a Alemanha está destruindo a Volkswagen por isso? Aqui há uma autoflagelação que está a toda velocidade”.
“Quando os Estados quiseram vender os aviões F-18 para o Brasil teve carta da Condolezza Rice, da Hillary Clinton”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)
Na opinião do diplomata, a Lava Jato acabou provocando a criminalizando coisas que são absolutamente normais como oferecer subsídios para um investimento na África, por exemplo. “Está sendo colocado como tráfico de influência uma coisa que todos os países fazem. Pergunte ao rei da Suécia, ao presidente da França ou ao presidente dos Estados Unidos o que eles fazem? Quando os Estados quiseram vender os aviões F-18 para o Brasil teve carta da Condolezza Rice, da Hillary Clinton. Essas coisas são normais. No Brasil, tudo isso foi criminalizado. Fico até com pena dos diplomatas brasileiros. Eu não sei o que eu faria se eu fosse um diplomata brasileiro no exterior diante de uma oportunidade comercial para uma empresa brasileira. Ele vai pensar: melhor não falar nem fazer nada, senão vão dizer que estou sendo corrompido”.

Celso Amorim questionou também alguns mitos que ficam sendo repetidos pela grande imprensa como se fossem verdade, como o suposto fracasso do Mercosul. “Uma das mentiras mais repetidas é que o Mercosul deu errado. Desde a criação do Mercosul até 2014, o comércio envolvendo os países do bloco cresceu 12 vezes, enquanto, no mesmo período, o comércio mundial cresceu cinco vezes. Que fracasso é esse?”.

Na avaliação de Celso Amorim, a política externa brasileira praticamente desapareceu. “O Brasil tem participado de certas reuniões, meio na lógica de cumprir tabela. Não se tem notícia de nenhuma iniciativa importante, como houve sobretudo no governo Lula. Pode ser que tenha alguma coisa acontecendo e o problema seja com o porta-voz que não está comunicando”, ironizou. “Nas poucas coisas em que parece haver uma orientação”, acrescentou, “eu não concordo com ela”. Celso Amorim citou o exemplo da Venezuela:

“Você pode ter a preferência que quiser, mas não pode, em uma situação grave envolvendo um país vizinho ao nosso, se dar ao luxo de não contribuir para a construção de um diálogo. Eu fico chocado quando ouço que o Brasil não pode participar de uma mediação na Venezuela porque tomou partido. Acusavam o presidente Lula de ter uma política externa ideológica, mas o Brasil ouvia a oposição da Venezuela da mesma forma que ouvia o governo. Quando havia uma disputa entre a Venezuela e a Colômbia, que tinha um governo de centro-direita, o Brasil participava tentando construir uma situação de diálogo, pois nos interessava a paz e esta se baseia no diálogo. O que o país não pode é se auto-excluir do diálogo, o que aconteceu confessadamente”.

Ele classificou de gravíssima o fato de o governo americano ter ameaçado de usar as forças armadas no país vizinho. “Nunca houve uma ameaça deste tipo em relação a países da América do Sul. Isso é gravíssimo. Hoje, foi a Venezuela. Amanhã, poderá ser qualquer outra nação”, alertou.

Ao analisar a imagem do Brasil no exterior, Amorim afirmou que a mudança do conceito de trabalho escravo, promovida pelo governo Temer, representou um golpe para o País. “É uma vergonha. O Brasil passou da condição de exemplo mundial no combate ao trabalho escravo para uma situação em que só reconhece a escravidão se houver restrição do direito de ir e vir. Praticamente, exige a presença do grilhão. Obviamente, isso reflete na política externa e provoca perda de respeitabilidade e prestígio para o País”, frisou.

Fontes: http://www2.al.rs.gov.br/forumdemocratico/Notícias/Notícia/tabid/3240/IdOrigem/1/IdMateria/311916/Default.aspx

https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/324478/Todo-mundo-olha-hoje-e-pergunta-onde-est%C3%A1-o-Brasil-diz-Celso-Amorim.htm

 

Irene Neto condena “desvios monumentais, descarados e obscenos” de Angola

A deputada angolana Irene Neto, do MPLA –  filha do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto (1922-1979), e da escritora Maria Eugénia Neto -, considera que a atual Constituição “limita a democracia”.  Numa entrevista ao “Novo Jornal”, a parlamentar diz que  a atual Constituição da República de Angola (CRA) “não serve os interesses estratégicos da Nação”, critica a governação de José Eduardo dos Santos e o presidencialismo “quase imperial” e admite a possibilidade de no futuro se candidatar a Presidente da República. Afirma também que após a morte do pai foram cometidos “desvios monumentais”


África 21 Digital, com Panapress


“A CRA precisa de ser alterada porque limita a democracia, restringe as liberdades fundamentais e bloqueia o funcionamento de uma economia de mercado (…), porque concentra e centraliza o poder numa única pessoa”, afirma

A CRA instituiu um presidencialismo “quase imperial” que asfixia a democracia e desmantela os contrapoderes, constata a filha do dirigente da luta de libertação nacional contra o colonialismo português e primeiro presidente de Angola.

Irene Neto considera que a concentração pessoal do poder de decisão bloqueia a economia “que necessita de liberdade e de escolhas rápidas, diárias, racionais e informadas”.

“Angola é demasiado grande e complexa para depender de uma única pessoa. Atualmente é impossível decidir sobre tudo. O engarrafamento e os atrasos nas decisões prejudicam a economia. Angola é um país livre com cidadãos racionais. A democracia demanda divisão de trabalho e de poderes. Demanda contrapoderes, descentralização e equilíbrios”, avalia Irene Neto, numa alusão ao regime de José Eduardo dos Santos, no poder em Angola há quatro décadas.

Assembleia “esvaziada, passiva e subalternizada”

Irene Neto considera igualmente que a interpretação da CRA feita pelo Tribunal Constitucional restringiu a ação dos deputados cuja competência de controlo e fiscalização da ação governativa passou a ser exercida apenas através da análise e aprovação do Orçamento Geral do Estado, da Conta Geral do Estado e autorizações específicas ao poder Executivo.

Nesta situação, a Assembleia Nacional (AN, Parlamento) ficou “esvaziada, passiva e subalternizada” e perdeu iniciativa e autonomia, diz a deputada na entrevista ao Novo Jornal.

“A questão da separação dos poderes, executivo e legislativo, com base neste sistema de base presidencial, em que o Executivo é um órgão unipessoal, com independência política em relação à Assembleia Nacional, apesar de advir de um sistema de eleição parlamentar, frena a possibilidade de haver uma fiscalização mais direta”, enfatiza.

Para a deputada do partido maioritário, trata-se de uma subordinação política “inaceitável”, porque o âmbito da função política da Assembleia Nacional “fica subtraído de certa forma, pois limita-se a sua ação à função constitucional principal, que é a função legiferante”.

Na entrevista, Irene Neto defende a necessidade de os políticos serem coerentes, lembrando que o facto de o slogan do seu partido ser  “corrigir o que está mal” é revelador de que o MPLA “reconhece que há insuficiências, há erros e práticas nocivas”.

“Não sou a única pessoa no MPLA que o vê e diz. Se assim fosse, este slogan não teria surgido. Quando um candidato presidencial se baseia nesta linha de rumo, está tudo dito”, afirma, acrescentando que muitos colegas seus no Parlamento,  se não todos, “partilham a minha opinião”.

O MPLA tem de mudar para melhor e tem de praticar o que apregoa, não fazer letra morta dos seus princípios fundacionais e “não brincar com o povo”, diz.

“Desvios monumentais”

A parlamentar condena também o que chama de “desvios monumentais, descarados e obscenos” ocorridos no país, logo após a morte do seu pai, criando-se “um clima de impunidade que a guerra civil, prolongada desnecessariamente, permitiu e a mudança de regime político acelerou”.

Na entrevista, Irene Neto denuncia a criação de uma “burguesia nacional escolhida a dedo e não por mérito próprio, com a delapidação do erário público para a acumulação primitiva de capital de alguns eleitos em detrimento da maioria”.

Sobre a hipótese de um dia se candidatar a Presidente República, ela não descarta esta possibilidade, exprimindo a sua convicção de que se tal acontecer terá “certamente” o apoio dos militantes do MPLA.

https://africa21digital.com/2017/07/11/29626/

Prosavana continua a gerar protestos em Moçambique

mediaembrapa.br

Um comunicado de mais de 80 organizações não governamentais de todo o mundo denuncia a “irregularidade” de um mecanismo de diálogo implementado pelos gestores do controverso programa ProSAVANA. Em causa continua a expropriação de camponeses moçambicanos no corredor de Nacala, norte de Moçambique para viabilizar este projeto implicando também o Brasil e o Japão.

Este é um projecto agroalimentar prevendo a entrega de 14 milhões de hectares de terras a interesses brasileiros no agro-negócio para produção de soja, milho e outros cereais.

Estes deveriam ser exportados, posteriormente, por multinacionais japonesas.

Um programa que tem merecido um coro de críticas em Moçambique, mas também no Japão e mesmo no Brasil.

A JICA, Agência de cooperação internacional do Japão, procurou estabelecer agora um interlocutor junto da sociedade civil neste programa.

Um programa de seleção denunciado porém por um vasto rol de organizações do ramo de vários países, incluindo as moçambicanas Justiça ambiental, Liga dos direitos humanos, União nacional dos camponeses, Livaningo, comissões diocesana e arquidiocesana da justiça e paz de Nampula ou a ADECRU, Associação académica para o desenvolvimento das comunidades rurais.

http://pt.rfi.fr/mocambique/20161108-prosavana-contestado-em-mocambique-e-nao-so