Como o Zimbabwe enfrentou o problema de saúde mental no país

Avós voluntárias
Image captionAs avós voluntárias participam do projeto sem treinamento médico, mas conseguem bons resultados (Crédito: Cynthia R Matonhodze)

Certa noite, o psiquiatra zimbabuano Dixon Chibanda recebeu uma ligação de um médico em uma emergência. Uma mulher de 26 anos chamada Erica, que Chibanda havia tratado no passado, havia tentado suicídio. O médico disse que precisava da ajuda de Chibanda para que Erica não repetisse a tentativa.

A paciente estava em um hospital a mais de 160km de distância de Harare, no Zimbábue. Então, Chibanda e a mãe de Erica bolaram um plano por telefone. Assim que ela fosse liberada do hospital, sua mãe a levaria para ver Chibanda e reavalariar o tratamento.

Duas semanas se passaram e Chibanda não teve notícias de Erica. Até que recebeu uma ligação da mãe da paciente dizendo que ela havia se matado três dias antes.

“Por que você não veio a Harare?”, Chibanda perguntou. “Nós havíamos combinado que assim que ela fosse liberada vocês viriam até mim!”

“Nós não tínhamos os US$ 15 da tarifa de ônibus para ir a Harare”, disse a mãe.

A resposta deixou o médico sem palavras. Nos meses seguintes, ele se sentiu assombrado pelo caso. A falta de acesso à saúde de Erica devido à distância e ao custo não era uma exceção e sim a regra em muitos países.

No mundo, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). A depressão é a maior causa de problemas de saúde e contribui para 800 mil suicídios por ano, a maioria em países em desenvolvimento.

zi-area“Pensar demais”

Ninguém sabe quantos habitantes do Zimbábue sofrem de “kufungisisa”, a palavra local para depressão (significa literalmente “pensar demais” em shona, a língua local). Mas Chibanda tem certeza de que o número é alto. “No Zimbábue, gostamos de dizer que temos quatro gerações de trauma psicológico”, diz ele, citando a Guerra Civil da Rodésia, o massacre de Matabeleland e outras atrocidades.

Mesmo assim, os que sofrem de depressão têm poucas opções em razão da escassez de profissionais da saúde mental. Chibanda, diretor da Iniciativa Africana de Pesquisa dobre Saúde Mental e professor de psiquiatria da Universidade do Zimbábue e da London School of Hygiene and Tropical Medicine, é um dos apenas 12 psiquiatras trabalhando no país. A população do Zimbábue é de 16 milhões de pessoas.

Essas estatísticas desanimadoras são comuns na África subsaariana, onde a proporção de psiquiatras e psicólogos para cada cidadão é um a cada 1,5 milhão.

Image captionDesde 2006, Chibanda e sua equipe ensinaram a mais de 400 avós técnicas de terapia com evidências científicas (Crédito: Cynthia R Matonhodze)

Ao quebrar a cabeça sobre possíveis soluções para o problema, o médico chegou a uma solução peculiar: vovós. Desde 2006, Chibanda e sua equipe ensinaram a mais de 400 avós técnicas de terapia com evidências científicas que elas praticam gratuitamente em mais de 70 comunidades no Zimbábue.

Somente em 2017, o Banco da Amizade, como é chamado o programa, ajudou mais de 30 mil pessoas. O método foi avaliado empiricamente e expandido para outros países, incluindo os Estados Unidos.

Chibanda acredita que o programa pode servir como modelo para qualquer comunidade, cidade ou país interessado em oferecer serviços de saúde mental acessíveis e altamente eficazes para seus habitantes. “Imagine se pudéssemos criar uma rede global de avós em toda grande cidade do mundo.”

Ele sempre soube que queria se tornar médico, mas a dermatologia e a pediatria eram seus interesses iniciais. Foi uma tragédia que o levou à psiquiatria. Enquanto estudava medicina na República Tcheca, um colega de classe se matou. “Era um cara muito alegre, ninguém esperava que ele pudesse acabar com a própria vida”, diz ele. “Mas, aparentemente, estava depressivo e nenhum de nós percebeu.”

Chibanda se tornou psiquiatra, mas só percebeu o tamanho do problema no Zimbábue com a Operação Murambatsvina (“limpe a sujeira”), campanha do governo em 2005 de limpeza forçada de favelas que deixou 700 mil pessoas sem lar. Quando visitou as comunidades após a campanha, ele encontrou taxas extremamente altas de estresse pós-traumático e outros problemas de saúde mental.

Image captionCaixa com a pergunta ‘como você está se sentindo?’, uma estratégia para começar conversas sobre saúde mental no Zimbábue (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

Em meio a esse trabalho, Erica se suicidou, o que deu ainda mais urgência à busca de Chibanda por uma solução para os habitantes de seu país.

Ele era o único psiquiatra no Zimbábue trabalhando no setor público de saúde, mas seus supervisores lhe disseram que não tinham recursos. Todas as enfermeiras estavam ocupadas com problemas de HIV e cuidados maternais e infantis, e todos os quartos do hospital estavam cheios. Eles poderiam, porém, emprestar 14 avós e dar acesso ao espaço externo do hospital.

Em vez de jogar tudo para o alto, Chibanda teve a ideia do Banco da Amizade. “Muitas pessoas acham que sou um gênio por ter tido essa ideia, mas não é verdade. Eu só tive de trabalhar com o que tinha”.

Isso não significa que inicialmente ele achasse que a ideia fosse funcionar. As avós, voluntárias da comunidade, não tinham experiência com terapia de saúde mental e a maioria tinha pouca educação formal. “Eu estava cético quanto a usar mulheres idosas”, ele admite. E não era o único a pensar assim. “Muitas pessoas acharam a ideia ridícula”, diz ele. “Meus colegas me disseram que não fazia sentido”.

Sem qualquer outra opção, Chibanda começou a treinar as avós da melhor maneira que podia. Primeiro, ele tentou aderir à terminologia desenvolvida no Ocidente, usando palavras como “depressão” e “ideação suicida”. Mas as avós lhe disseram que isso não iria funcionar. Para atingir as pessoas, elas insistiram, era preciso se comunicar por meio de conceitos culturalmente enraizados com os quais as pessoas poderiam se identificar.

Em outras palavras, elas precisavam falar a língua dos pacientes. Então, além do treinamento formal que receberam, elas trabalharam juntas para incorporar conceitos da cultura shona sobre abrir a mente, fortalecer e animar o espírito.

“O treinamento em si tem base em terapia fundamentada mas também em conceitos indígenas”, diz Chibanda. “Eu acho que essa é uma das razões do sucesso, porque realmente conseguiu montar esse quebra-cabeça usando conhecimento e sabedoria.”

Eficaz e replicável

A Vó Chinhoyi, como é conhecida por aqui, está no programa Banco da Amizade desde o início. “Eu entrei no programa porque queria ajudar as pessoas na comunidade”, diz. “Era demais, as pessoas depressivas. Havia tantas e eu queria diminuir o número.”

“Eu sempre fui assim, de querer ajudar os outros”, diz ela, com um sorriso e encolhendo os ombros. “Eu valorizo tanto os seres humanos.”

Image captionA avó Rudo Chinhoyi, de camiseta azul, cercada por alguns de seus três filhos, nove netos e oito bisnetos (Crédito: Rachel Nuwer)

Chinhoyi, que tem 72 anos, perdeu a conta do número de pessoas que ela tratou diariamente durante os últimos dez anos ou mais. Ela encontra pessoas com HIV, viciadas em drogas, pessoas que sofrem pobreza e fome, casais infelizes, idosos solitários e mulheres jovens, solteiras e grávidas.

Independentemente da história ou das circunstâncias, ela começa suas sessões sempre do mesmo jeito: “eu me apresento e digo ‘qual é o seu problema? Me conte tudo e eu vou lhe ajudar com as minhas palavras'”.

Após ouvir a história da pessoa, Chinhoyi guia o paciente até que ele ou ela chegue sozinho à conclusão. Então, até que o problema seja completamente resolvido, ela acompanha a pessoa de tempos em tempos para garantir que ela esteja seguindo o plano.

Certa vez, por exemplo, Chinhoyi encontrou um homem cuja esposa havia fugido com o dono da casa que alugavam. “O marido queria uma faca para atacar o casal, mas eu o convenci a não fazê-lo”, diz Chinhoyi. “Eu disse a ele, ‘se você for preso, suas crianças vão ficar sozinhas, não vale a pena'”. Em vez de apelar para a violência, o homem se divorciou e agora está feliz e casado de novo.

Por ter vindo das mesmas comunidades que seus pacientes, ela e as outras avós muitas vezes passaram pelos mesmos traumas sociais. Ainda assim, Chibanda e seus colegas ficaram surpresos com as baixas taxas de estresse pós-traumático e outros males de saúde mental entre as senhoras. “O que vemos nelas é essa incrível resiliência diante da adversidade”, diz ele.

Image captionUm Banco da Amizade em Malawi (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

As avós também não parecem ficar exaustas apesar de ouvirem, dia após dia, pessoas à beira de uma crise . “Nós estamos explorando os motivos para isso, mas o que parece estar emergindo é esse conceito de altruísmo, em que as avós realmente sentem que estão ganhando algo ou fazendo a diferença na vida dos outros”, diz Chibanda.

Comprovação científica

Em 2009, Chibanda já tinha certeza de que o programa estava funcionando, tanto em termos de melhorar a qualidade de vida dos participantes quanto de diminuir os índices de suicídio. O departamento de saúde da cidade de Harare, que paga pela iniciativa, estava completamente de acordo e os pacientes eram regularmente indicados a partir de hospitais, escolas, delegacias, entre outros.

Mas para que o Banco da Amizade fosse reconhecido e replicado ao redor do mundo, Chibanda precisava primeiro comprovar cientificamente que funciona.

Em 2016, Chibanda – em colaboração com colegas do Zimbábue e do Reino Unido – publicaram os resultados de um teste de controle sobre a eficiência do programa no periódico da Associação Médica Americana.

Os pesquisadores dividiram 600 pessoas com sintomas de depressão em dois grupos diferentes. Eles perceberam que, após seis meses, o grupo que tinha visto as avós tinham sintomas significativamente baixos de depressão comparados ao grupo que passou por um tratamento convencional.

“Nós ficamos maravilhados com os resultados, que apontaram que a intervenção tem um grande efeito sobre a vida diária das pessoas e habilidade para funcionar”, diz Victoria Simms, epidemiologista da London School of Hygiene and Tropical Medicine e co-autora do estudo. “É sobre dar às pessoas as ferramentas que precisam para resolver seus próprios problemas.”

Outros dois testes científicos estão sendo feitos agora, diz ela, incluindo um examinando um programa jovem do Banco da Amizade em Harare e outro que é especialmente para pessoas jovens com HIV.

O programa também expandiu para vários outros países e, ao fazê-lo, Chibanda e seus colegas descobriram não apenas que ele é bem adaptável a outras culturas mas que as avós não são as únicas capazes de oferecer terapia com eficiência. Em Malawi, o Banco da Amizade usa terapeutas idosos homens e mulheres, enquanto Zanzibar usa homens e mulheres mais jovens.

Os terapeutas da cidade de Nova York são os mais diversos, com pessoas de todas as idades e raças, alguns da comunidade LGBTQ. “Nós trabalhamos em todas as pontas”, diz Takeesha White, diretora-executiva do Escritório de Planejamento Estratégico e Comunicações do Departamento de Saúde de Nova York do Centro para Igualdade de Saúde. “A população de Nova York é muito ampla.”

Image captionO programa, afirma Chibanda, pode servir de modelo para qualquer comunidade (Crédito: The Friendship Bench Zimbabwe)

Muitos dos terapeutas de Nova York já foram viciados ou passaram por outros desafios de vida. “Nós estamos comprometidos a ter pessoas com experiência de vida que conseguem falar a linguagem da recuperação e sobre lidar com vício”, diz White. “Quando vê, você não está em um banco, mas dentro de uma conversa calorosa com alguém que se importa e entende.”

Os bancos de Nova York, que são pintados de um laranja brilhante, iniciaram seus pilotos em 2016 e foram lançados em meados de 2017 atraindo 30 mil pessoas durante seu primeiro ano. A cidade até agora tem três bancos permanentes nos bairros de Bronx, Brooklyn e Harlem e o programa organiza bancos móveis em festivais, igrejas, parques, feiras de comida e outros eventos.

Os terapeutas do Banco da Amizade também se disponibilizam logo após tragédias comunitárias, incluindo um recente suicídio em público no leste de Harlem.

“Quando eu visitei Nova York, eu fiquei surpreendido ao descobrir que os problemas que os nova-iorquinos passam são muito parecidos com os daqui de Zimbábue”, diz Chibanda. “São assuntos relacionados a solidão, acesso a saúde e sobre saber que o que você está passando é tratável.”

Enquanto há muito mais psiquiatras que trabalham em Nova York do que no Zimbábue em termos de proporção de médicos para habitantes – um para cada 6.000 pessoas em Nova York – o acesso à saúde ainda é problemático na cidade, especialmente para os menos privilegiados. O mesmo acontece em outros lugares do mundo. “Essa não é uma solução para países de baixa renda”, diz Simms. “Isso pode ser uma solução que qualquer país do mundo pode se beneficiar”.

Fonte:https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-46283465?ocid=socialflow_facebook

O que a cultura tem a ver com a vitória de Bolsonaro?

A-redencao-de-CamO plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas

O fenômeno de Jair Bolsonaro é explicado por uma teia complexa de elementos interligados e interdependentes. É uma questão de representatividade ultraconservadora; é resultado de uma militarização histórica da política brasileira; é fruto de uma minimização dos debates travados sobre notícias falsas que vêm sendo alertados por entidades competentes desde antes das eleições.

Também é produto de um financiamento milionário de Caixa 2, ignorado pela justiça; é emblema da doutrinação evangélica fundamentalista; está em sintonia com uma onda reacionária internacional; constrói-se em cima de uma prática antiga de caça aos comunistas para preservação do liberalismo; passa pela pouca reflexão feita sobre o que de fato foi o período da ditadura civil-militar no Brasil.

Não fossem todos esses motivos já suficientes, Bolsonaro ainda se vangloria com o ódio ao Lula e ao PT, construído minuciosamente para que houvesse um inimigo comum a ser derrotado; aproveita-se do clamor pelo novo, mesmo que este novo tenha três décadas de cargo político.

A lista é longa e apesar de cada motivo elencado suscitar outros tantos debates, existe ainda um elemento importantíssimo, situado no centro deste episódio: a cultura, analisada aqui como uma política nacional antes mesmo de existir nação.

Um dos pilares que balizaram a colonização do Brasil é de ordem cultural. Os invasores europeus chegaram aqui exterminando os povos indígenas e seus costumes, catequisando os sobreviventes e silenciando as identidades originárias para que fizessem caber o que os portugueses queriam. Diminuíram seus artefatos, chamaram-nos de “primitivos”.

Sequestraram africanos negros, especialmente das regiões atuais de Angola, Moçambique e Nigéria, para escravizá-los no território colonial pelo trabalho, pelo pensamento e pelos costumes. Não deixavam que dançassem, não deixavam que capoeirassem, não deixavam que falassem sua própria língua ou fizessem rituais religiosos. Condenaram os orixás e forçaram por cima de tudo um Deus único, com D maiúsculo.

Foi um intenso e violento processo de aculturação, lançado como projeto político sobre os povos indígenas, a população negra africana e seus descendentes, que hoje são a grande maioria dos brasileiros, mesmo que a população tenha fenótipo majoritariamente branco. Há sempre uma gota de sangue indígena ou negra nas nossas veias.

O plano é cruel. Primeiro se acultura, anulam-se as identidades de um povo torturado, para depois encaixar a hegemonia europeia, branca, de costumes, de crenças, de práticas. Esse processo também é complexo: a consolidação de uma cultura hegemônica sobre outra passa desde por políticas de estado, como a política de branqueamento praticada no século XIX (que transbordou da questão colorista para os modos e costumes), como passa também por uma simples mas genuína necessidade de pertencimento. Identidades existem e são importantes porque criam sensação de vínculo com o território e com o grupo social, cria empatia e consciência de coletividade.

Se apagam uma identidade aqui, procura-se outra acolá, que será encontrada na coletividade mobilizadora mais próxima, que atualmente reside muito provavelmente em uma igreja fundamentalista ou em um grupo de Whatsapp recheado de ficções. Isso explica em partes a existência de algumas figuras pertencentes a minorias sociais que apoiam um presidente explicitamente contrário a minorias. Suas identidades originais foram negadas há gerações.

Órfãos de raízes não se entendem como indivíduos ameaçados pelo discurso de Bolsonaro, mesmo que a evidência esteja na cara. E mais do que isso, enxergam no militar reformado uma referência de sucesso. Querem ser brancos de olhos claros, patriarcas da família, severos, rigorosos, temidos e, por isso, respeitados. Querem ser “civilizados” (era essa a desculpa da política de branqueamento de dois séculos atrás).

Em um país tão rico como o Brasil, o projeto de construção de uma nação, criado pela monarquia branca colonizadora, colocou em prática ações para anulação de identidades seguida de hegemonização de uma cultura tida como superior, como forma de manutenção de um poder cruel, apesar de disfarçado de boas intenções.

Existe ainda mais um elemento que deve ser colocado na conta da cultura. Se ela foi historicamente usada para divulgação de um discurso oficial injusto e desigual, é por ela que as identidades silenciadas podem se emancipar. Os poderosos sabem bem disso e exatamente por isso negligenciam a cultura atualmente. Nunca há recursos para nada, e quando há, ele é questionado. “Um absurdo construir museu com pessoas morrendo em hospitais”, vão dizer.

Detalhe do quadro a Redenção de Cam. A obra aborda as controversas teorias raciais do fim do século XIX e o fenômeno da busca do “embranquecimento”

A-redencao-de-Cam

Quase todos os países da América do Sul que passaram por ditaduras nas décadas de 1960-1970 têm hoje museus, mesmo que pequenos, que expõem a catástrofe e o absurdo dos regimes. O Brasil não tem. Em São Paulo, existe o Memorial da Resistência, dedicado à preservação das memórias e da repressão política do Brasil republicano, localizado no antigo DOPS, mas ainda não é suficiente para dar conta da necessidade urgente que existe de reflexão e entendimento do que foi o período ditatorial no país.

O funcionamento pleno e eficiente de instituições assim depende de investimento, recurso para pesquisa e manutenção. Se isso não aconteceu até hoje, não é agora, com Bolsonaro e todo o Congresso reacionário eleito, que vai acontecer. E cá entre nós, está bem óbvio que não há interesse algum do poder vigente em promover uma reflexão sobre a ditadura no Brasil.

Na sociedade domesticada, administrada e colonizada, a cultura é uma das ferramentas de emancipação mais eficientes que existem. É pela cultura que se alerta para as raízes de um povo e para sua história. É por ela que o pensamento crítico se desenvolve. A democracia e a igualdade tão clamadas nas ruas (e nas redes sociais) passam necessariamente pela cultura. A negligência a ela sempre elegerá Bolsonaros na história. Este era o plano, não era? Deu certo para eles. A reversão da situação só poderá ser efetivada quando a cultura for tratada e alimentada como a revolucionária que é.

 

Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em artes, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

Fontehttps://diplomatique.org.br/o-que-a-cultura-tem-a-ver-com-a-vitoria-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0dTO7rzLkpy7C-oLLDRw6ro_drvHrOqU26kdwtyjGuG3HNqB-idg1J7eE

 

Escritor angolano, Manuel Rui, analisa as eleições no Brasil e cita Ivone Lara

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Manuel Rui

Quando eu era adolescente, os correligionários de meu pai que se reuniam na Livraria Brasileira ou no Centro Espírita na loja do senhor Matos, eram apodados, na cidade de Nova Lisboa, por contra a situação, anticristos, mais tarde apareceu a designação do reviralho até à de anti-salazaristas.

Foi durante as eleições em que Humberto Delgado fez tremer Salazar, o director do meu colégio, engenheiros, médicos e outros profissionais fugidos para Angola por mor do sistema, lembro-me do professor Jofre de quem fui encontrar um trabalho publicado na revista “Vértice”, de Coimbra, um estudo, não me recorda o título, sobre o ensino e o racismo em Nova Lisboa. Fiquei emocionado pois eu estava na posição de redactor daquela revista de cultura anti-fascista e Jofre já havia falecido. Meu pai foi preso durante as eleições. Entretanto, o meu grupo que à noite colocava propaganda de Humberto Delgado e rasgava os da situação colados por uma malandragem chefiada pelo Girão que havia de ser um grande radialista no Bié, começava a aprender essa dicotomia direita esquerda. Nós éramos de esquerda. Hoje ainda sou de esquerda reconhecendo os equívocos do socialismo real que conheci e rejeitei pela ausência da liberdade.
Mas afinal como nasce a dicotomia direita esquerda? Pelas “calendas” a origem do conceito de “esquerda” aparece, como postura político-ideológica, durante as Assembleias Constituintes francesas do séc. XVIII. Após a Revolução Francesa (1789) os parlamentares representantes da aristocracia conservadora sentavam-se do lado direito da Assembleia para não se misturarem com a plebe. Os “comuns,” que pertenciam às classes mais humildes, adeptos do revolucionismo, ficavam do lado esquerdo da sala. De início, trabalhadores e camponeses não faziam parte da Assembleia e, paradoxalmente, os primeiros representantes da esquerda terão sido os capitalistas burgueses contra a aristocracia. Com o desenrolar dos tempos, as definições de esquerda e direita foram objecto de transformações e novas interpretações de tal forma que hoje a esquerda engloba os social-democratas, os socialistas democráticos,  os ambientalistas e os progressistas. Autoritários e igualitários serão exemplos de extrema-esquerda. Os partidos de direita incluem os conservadores, os democratas-cristãos, os liberais e os nacionalistas. Na extrema-direita podem-se listar o ditatorialismo, o nazismo e o fascismo. Simplificando, a esquerda defende o igualitarismo, as implantações de políticas públicas como saúde e ensino, a luta pelos movimentos populares, sociais e de minorias e a direita aparece como defensora de mais liberdade individual, preservação religiosa e conservação das tradições. Marx não havia nascido ainda (1818-1883) e, portanto, é preciso não esquecer que os conceitos de socialismo e comunismo vão aparecer muito mais tarde.
Marx escreveu: “os filósofos somente interpretam o Mundo, de diversas maneiras. O ponto, entretanto, é mudá-lo.” E o filósofo francês Alexis Tocqueville (1805-1859) afirmava que “as instituições humanas podem ser mudadas, mas não o homem: qualquer que seja o esforço geral de uma comunidade para fazer seus membros iguais e semelhantes, o orgulho pessoal dos indivíduos sempre buscará elevar-se acima da linha e formar em algum lugar uma desigualdade para a sua própria vantagem.” Porque crónica não é de minúcia como ensaio político, partimos para a democracia (do grego demos-povo e kratos-poder) que se pode definir em essência como o regime em que todos os cidadãos elegíveis participam directa ou indirectamente por voto na eleição dos dirigentes políticos.
Todo este nosso cronicar coloca a realidade que vivemos com a cibernética, as energias sujas e as limpas, os migrantes, a velocidade de comunicações e a nova acepção dos géneros com a legitimação da homossexualidade, os casamentos de pessoas do mesmo sexo e um Mundo com disseminação de conflitos armados por todos os continentes ou países que vivem em paz mas em clima de guerra urbana constante como acontece no Brasil. Passando pelos movimentos populistas que abundam na Europa, com arame farpado nas fronteiras como a Hungria, é bom repensar o conceito de democracia num tempo em que os políticos são profissionais, quase com dinastias com acontece no Brasil em que o pai é senador e o filho deputado… Aliás, assim como o futebol já não é desporto mas indústria desportiva, a política já não é política mas uma indústria do poder. Se ponderarmos bem nas afirmações públicas do candidato de direita, capitão subalternado por um general, constatamos que em democracia, neste caso, pode-se fazer a defesa do racismo, por exemplo, num país onde há uma lei contra o racismo…mas, sendo o 2.º país negro do Mundo a seguir à Nigéria, o racismo continua, brasileiros são os brancos, os negros afro-brasileiros e os índios indígenas, em nenhum debate televisivo se colocou. O certo é que o muadiê segue adiante e somos a colocar a ideia de que se as democracias não deviam impedir os movimentos ou partidos que sejam contra os direitos humanos, não permitindo movimentos ou partidos neonazis… qualquer dia surge um movimento contra mulheres… Mesmo em Portugal há movimentos neonazis que fazem duelos como aconteceu entre grupos motares ou um grupo que atacava negros, chefiado por um conhecido nome que aqui se não escreve para não sujar a crónica. Em suma, é necessário delimitar a democracia pois em nome dela já o macaco… o resto vocês sabem. Mas custa muito ver o Brasil de Ivone Lara e ouvir, como estou fazendo agora, “Sonho meu/ Sonho meu/Vai levar esta saudade sonho meu/ com a sua liberdade sonho meu…”

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/sopa_&_almoco/brasil_esquerda_direita_um_dois

Irene Neto , defende o patrimônio cultural angolano

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A necessidade da preservação e contínua divulgação do património material e imaterial do país foi advogada, segunda-feira, em Mbanza Kongo, pela presidente do Conselho de Administração da Fundação António Agostinho Neto (FAAN), Irene Neto.

Falando num encontro com jornalistas de diversos órgãos públicos e privados, Irene Neto sublinhou a necessidade de manter viva a memória colectiva da actual geração para que não caia no desconhecimento.

Josefina Massango: uma atriz de teatro moçambicano

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Josefina Massango é das actrizes mais experientes no país. Recentemente, participou na gravação do filme Ruth, estreado em Maputo semana passada. Nesta entrevista, a actriz fala da sua participação nesta produção cinematográfica preparada, igualmente, para ser série de tv. Além disso, Massango deixa um comentário sobre a qualidade dos actuais actores moçambicanos.

Desempenha o papel de mãe de Eusébio, no filme Ruth. Como foi encarnar essa personagem?

Estaria a mentir se dissesse que foi um trabalho como qualquer um. Aqui havia uma responsabilidade acrescida porque não estamos a falar de uma figura qualquer. Ainda assim, dediquei ao personagem toda entrega que dedico às outras.

Com o mesmo rigor?

Tem que ser. Essa é a palavra-chave para o artista. O rigor é mestre de tudo. Se não formos rigorosos com aquilo que fazemos, se calhar, passamos à personagem o que constitui o nosso dia-a-dia. É preciso sonhar com o personagem, namorar e dialogar com o personagem e viver com ela aqueles dias em que antecedem o trabalho. É preciso sonhar e amar com o personagem.

E como é que se aprende a sonhar com o personagem?

É muito simples. Desde o primeiro momento que nos atribuem o personagem, logo devemos começar a fazer uma viagem com ela, na base do texto que nos permite perceber o papel ao longo da história.

E esta é uma viagem quase sempre solitária…

Muitas vezes é. E é esta disciplina que os actores são convidados a ter.

No caso do papel interpretado no Ruth, teve que recuar no tempo?

Para este personagem não. Mesmo porque esse exercício depende de cada realizador. Uma das coisas que me pediram para este personagem é a questão do peso, não no sentido massa corporal, mas no das coisas que se dizem, na maneira como a mãe do Eusébio aparece e na estrutura daquela mulher. E, também por isso, a responsabilidade foi maior, porque, no fundo, tinha que retratar o desconhecido sobre uma figura que é muito conhecida.

O que lhe foi pedido interferiu na maneira como preparou a personagem?

Sem dúvidas. É necessário e é bom que isso aconteça. Até porque, quando estamos diante de um desafio destes, próximos às filmagens, as pessoas que nos conhecessem vão notando alguma diferença em nós porque estamos a exercitar o papel. E nós até gostamos desse feedback de as pessoas estarem a notar uma diferença entre o eu, no meu dia-dia, e quando estou a fazer o exercício para o personagem.

Precisou de voltar a percorrer as ruas da Mafalala, quer do ponto de vista real ou virtual, de modo a familiarizar-se com o papel?

Cresci brincando na Mafalala. Conheço aqueles becos todos. Os meus melhores amigos ainda hoje residem na Mafalala – refiro-me, por exemplo, a mamã Marieta, que, sempre que posso, vou lá ter para comer uns rissóis que ela bem faz. Cresci naquele mundo, mas, com este filme, tive, sim, de ir várias vezes, até para, em conversas, saber como era a forma de estar lá, mesmo porque vivi 17 anos em Portugal e há coisas que ali mudaram. Mas a memória do espaço, daquela vivência, os sons e o resto ainda existe em mim.

O papel de mãe de Eusébio foi atribuído a Josefina depois de um casting. Este tipo de vitórias ainda dá-lhe gozo?

Sim. Qualquer actor ainda tem esse momento de satisfação, quando isso acontece. Os castings são aquelas coisas muito chatas. Confesso, são muito chatas, mas também necessárias, porque os realizadores querem testar alguma coisa. Aliás, casos há em que os castings têm a ver com a questão da imagem e com a necessidade de se perceber que aquela figura vai bater com certo actor. E hoje em dia acontece eu estar nos castings com colegas de longa data e, inclusive, novos formados por mim. Dependendo do que o realizador quer, ele faz a sua escolha. E quando se é escolhido, naturalmente, há momentos de grande satisfação e de grande responsabilidade.

Ao ver o filme na estreia, já com público alargado, o que lhe ocorreu?

Muitas vezes, eu não gosto de me ver, é estranho. Para mim, depois do filme, tem que se passar para outra coisa. Se me perguntar qual era a personagem, até pode acontecer não conseguir responder daqui a dois meses, porque já estou noutro papel.

Desliga-se facilmente das personagens?

Neste caso do Ruth é difícil porque o filme ainda está a correr. Neste momento ainda estou a viver a mãe do Eusébio. Mas, geralmente, sim. Desligo-me.

É professora de teatro. Sente-se pressionada, quando está a preparar um papel, pela ideia de que os seus alunos actores vão exigir mais de si?

Não. De forma nenhuma. Se um dia isso acontecer, nós estamos acabados como actores. As camadas mais jovens têm tanto para nos ensinar que nós só devemos estar abertos para receber… Aliás, há actores que têm privilégio de partilhar o palco com quem estão a formar. É uma experiência única. Com isso recuperamos momentos que julgávamos perdidos. Pessoalmente, tenho prazer de fazer isso.

Como está o país em termos de qualidade de actores neste contexto em que temos um curso de teatro e muitos grupos a surgirem?

É impensável para alguém que se encontra a trabalhar na área de formação em teatro não ter uma postura optimista em relação a esta questão. Sinto que há coisas que se conquistaram, que se deve conquistar e devem ser recuperadas. Há um conjunto de coisas que estão a acontecer e são positivas. Mas há coisas sobre as quais devemos reflectir. Eu sou de uma geração em que o teatro, no país, era algo quase obrigatório, porque haviam apresentações que mexiam com as pessoas, como ainda hoje mexem. Na altura, não ir ao teatro e não saber o que se passou num certo final de semana, significava ficar sem assunto.

Era como perder o capítulo de uma telenovela, hoje?

Mais ou menos isso. Aliás, essas duas coisas caminhavam juntas. Lembro-me que, na altura, depois das 20h, dificilmente mantinha-se os expectadores no teatro porque havia hora da telenovela. Sinto que estamos a dar passos positivos e o público está mais exigente agora. Ainda por cima, porque há gente formada no teatro. Faltam meios, é verdade, mas isso também é um motor para estimularmos a criatividade.

O que gostava de ter no nosso teatro?

Melhores condições. Por exemplo, uma sala municipal, um equipamento de iluminação para os espectáculos à disposição. Muitas vezes não há. Gostava de ter uma série de coisas que fazem com que o espectáculo, de facto, aconteça. No meu caso, eu faço muita investigação dentro desta área e quero continuar a estar em palco e no cinema. Há muitos sonhos e eu vivo nesse desejo de que o sonho não deve acabar, porque isso é o motor do que pretendemos fazer. Eu sonho com o sonho.

 

A vossa geração não foi um produto de escola, entendo, no sentido de lá terem recebido ferramentas teóricas sobre teatro. Hoje, o que a escola está a acrescentar à qualidade dos novos actores?

Estaria a mentir se dissesse que não há uma escola por detrás do teatro que se fazia no meu tempo. Havia uma escola, a escola primária. Nós viemos de lá. Aquele espaço é que nos levou a tomar o gosto e a desenvolver outras áreas. E nós temos que recuperar isso. Hoje, nós estamos a lidar com estudantes que vão parar ao ensino superior em teatro sem as bases que nós, em tempos, adquirimos na escola primária. Então, aí, é preciso dar tempo ao tempo. Eu tive escola, e a minha escola foi a 24 de Julho, onde fizemos muitas actividades culturais e eu tomei gosto nisso. Seja como for, os novos actores, nossos estudantes, trazem consigo o gosto, o prazer, esse querer…

E o compromisso?

De certa forma… Porque essa escolha de fazer teatro é feita pelo indivíduo, e nem é uma escolha, arrisco-me dizer, que um pai faça pelo seu filho. Se, hoje, vimos artistas, é porque essa escolha partiu deles e eles têm um compromisso com essa escolha. Isso é o que diferencia a arte e o ser artista de muitas outras áreas.

Palco ou cinema, o que prefere?

Gosto de tudo isso, embora o palco seja o local onde tenho mais liberdade. No cinema estamos um pouco limitados, mas o actor tem que lidar com isso. Embora goste de estar nos dois espaços, o teatro é aquele que me dá mais liberdade, ainda que o processo de preparação dos papéis seja mais complexos no teatro.

É vantajoso para o actor partir do teatro para o cinema e não o contrário?

Eu ando à procura dessa resposta.

O que espera que venha a ser o Ruth?

Que contribua para que, em outras áreas, surja o atrevimento de se imortalizar certas figuras, artisticamente.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro que vejam FITI, Comboio de sal e açúcar e o livro Os pilares da terra.

fonte: http://opais.sapo.mz/josefina-massango-ou-uma-entrevista-a-mae-de-eusebio

Obra de arte nos EUA faz sucesso com Marrielle Franco e Martin Luther King

Da coluna de Ancelmo Gois, no O Globo:

Veja só esta obra de André de Castro, artista carioca radicado nos EUA. Traz os rostos de Marielle Franco, cuja execução, hoje, completa 55 dias, e Martin Luther King Jr., cujo assassinato completou 50 anos em abril. A serigrafia faz parte de “Abismo e resistência”, exposição que abre quinta, agora, na Opus Gallery, em NY. Além do caso Marielle, a mostra abordará também temas como o controle de armas nos EUA. A ideia é trazer a exposição para o Brasil.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/exposicao-nos-eua-poe-lado-a-lado-os-rostos-de-marielle-e-martin-luther-king/