Ministra angolana divulga bastidores do dossier Mbanza Kongo: Patrimônio Mundial da Humanidade

Victor Mayala | Mbanza Kongo

26 de Julho, 2017

A ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, apresentou, oficialmente ontem, em Mbanza Kongo, província do Zaire, o feito de inscrição da cidade na lista do Património Mundial da Humanidade, alcançado a oito deste mês em Cracóvia, Polónia, durante a 41.ª sessão do Comité do Património Mundial da Unesco.

Ministro Bornito de Sousa (ao centro) recebeu das mãos de Carolina Cerqueira e Joanes André a mensagem de reconhecimento ao Chefe de Estado
Fotografia: Garcia Mayatoko | Mbanza Kongo | Edições Novembro

Na cerimónia testemunhada pelo embaixador de Angola junto da Unesco, Sita José, ministros da Administração do Território e dos Transportes e de três antigos ministros da Cultura, Carolina Cerqueira disse que o acontecimento enche de orgulho todos os angolanos de Cabinda ao Cunene e na diáspora que manifestaram a alegria e a auto-estima da nação angolana.
“Viemos aqui apresentar, oficialmente, esta conquista e celebrar com as populações locais que jogaram um papel preponderante no decorrer deste processo, que culminou com o reconhecimento internacional do valor histórico e cultural deste sítio, que é uma referência não só para Angola como para a região da África Austral”, disse.
Para a ministra da Cultura, esta região do continente albergou um dos reinos mais organizados política, económica e socialmente daquela época e que hoje tem o mérito de, séculos depois, mostrar um testemunho único excepcional de uma tradição e de uma civilização viva.
A governante lembrou que a classificação de Mbanza Kongo como Património Mundial da Humanidade resultou do trabalho aturado e de grande qualidade técnica e de investigação multidisciplinar excelentes iniciada há três décadas e que foi acompanhado com um intenso trabalho de diplomacia cultural junto da União Africana, CPLP, países da África Central e do Comité do Património Mundial da Unesco, de que Angola faz parte desde 2015.
“Foi determinante a entrega, dedicação, empenho, resiliência e alto sentido de patriotismo dos quadros angolanos, em particular do Ministério da Cultura, do Governo da provínica do Zaire, de universidades, das autoridades tradicionais, religiosas, militares e da sociedade  em geral”, sublinhou Carolina Cerqueira.
Segundo a ministra, compete agora à Comissão de Gestão do Sítio, instituída pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, dar seguimento às orientações e recomendações emanadas pelo Comité do Património Mundial. Entre outros desafios, avançou a ministra, deve ser levado a cabo um conjunto de tarefas, entre as quais se destaca a realização do Festicongo, uma actividade conjunta entre a República Democrática do Congo (RDC), Congo Brazzaville e Gabão, para a transmissão das práticas tradicionais do lumbo às novas gerações como fonte de inspiração das boas práticas, costumes e desenvolvimento das indústrias culturais, como fomento do turismo e da economia local, através da geração de postos de trabalho e promoção do desenvolvimento sustentado.
“Com estas premissas, estamos convictos de que Mbanza Kongo pode ser um grande centro de atracção turística e de investigação, num futuro próximo”, afirmou a ministra da Cultura que destacou o papel dos precursores do projecto “Mbanza Kongo – cidade a desenterrar para preservar”, os ex-ministros da Cultura, Ana Maria de Oliveira, Boaventura Cardoso e Rosa Cruz e Silva, incluindo o mentor do projecto, o malogrado professor Emanuel Esteves.
Após o acto, a ministra da Cultura concedeu uma conferência de imprensa, onde, de forma pormenorizada, esclareceu os aspectos inerentes ao desenrolar de todo o processo que culminou com a inscrição de Mbanza Kongo na lista de Património Mundial da Humanidade.
A governante afirmou também, no acto ocorrido à margem das celebrações da 16.ª edição das Festas da Cidade de Mbanza Kongo, que Angola apresentou à Unesco mais três propostas de sítios a serem inscritos, como são os casos das pinturas rupestres de Tchitundu Hulo, no Namibe, o Corredor do Kwanza e a cidade do Cuito Cuanavale.

População precisa de ser educada a preservar a cidade

O embaixador de Angola junto da Unesco, Sita José, afirmou ontem em Mbanza Kongo que agora é preciso continuar a educar a população para a necessidade da conservação do património, além de recomendar maior rigor na gestão e divulgação dos símbolos aprovados dentro do perímetro de protecção.
O governador provincial do Zaire, Joanes André, entregou ao ministro da Administração do Território, Bornito de Sousa, uma mensagem para o Presidente da República, cujo teor refere-se à sua dedicação e sapiência evidenciadas e que permitiram que o projecto tivesse êxito.
O projecto para a inscrição de Mbanza Congo na lista do Património Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) foi lançado em 2007, nesta cidade, com a realização da II Mesa Redonda Internacional denominada “Mbanza Congo, cidade a desenterrar para preservar”.
Desde a fundação do Reino do Kongo no século XIII, a cidade de Mbanza Kongo foi a capital, o centro político, económico, social e cultural, sede do rei e a sua corte e centro das decisões.
Mbanza Kongo foi, no século XVII, a maior vila da Costa Ocidental da África Central, com uma densidade populacional de 40 mil habitantes (nativos) e quatro mil europeus.
Com o seu declínio, a cidade de Mbanza Kongo que se encontrava no centro do reino em plena “idade de ouro” transformou-se numa vila mística e espiritual do grupo etnolinguístico kikongo e albergou as repúblicas de Angola, Democrática do Congo, Congo Brazzaville e Gabão.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/cultura/patrimonio/ministra_da_cultura_divulga_bastidores_do_dossier_no_zaire

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Ray Phiri, músico de jazz sul-africano

 

Músico de jazz sul-africano Ray Phiri morreu aos 70 anos Presidente sul-africano, Jacob Zuma, considerou a morte do músico “uma grande perda para a África do Sul e para toda a indústria musical”.

O músico de jazz sul-africano Ray Phiri, que fundou a banda Stimela e atuou com Paul Simon, na digressão de “Graceland”, morreu esta quarta-feira, de cancro, aos 70 anos, avançou a Associated Press. O presidente sul-africano, Jacob Zuma, considerou a morte do músico “uma grande perda para a África do Sul e para toda a indústria musical”. Phiri, vocalista e guitarrista, conhecido pela versatilidade no jazz, em ritmos indígenas sul-africanos e outros estilos, recebeu vários prêmios musicais no seu país de origem.

Uma das últimas atuações de Ray Phiri foi festival Azgo, que se realizou na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique, no passado dia 20 de maio. “Ray Phiri foi sempre impulsionado por uma profunda curiosidade pelo mundo que o rodeia e pela paixão de fazer música, que se encontra profundamente enraizada no país onde nasceu, e nenhuma destas forças diminuiu com o passar dos anos”, lia-se na apresentação do programa do festival moçambicano. “Sou um estudante da vida e jamais irei parar de descobrir, criar e explorar”, disse Phiri, citado pela organização do festival Azgo. “Nunca foi meu objetivo fazer música comercial, mas sim, em vez disso, transformar a música sul-africana em algo respeitável. No final, quando tudo o mais desaparece, o que sobra é a nossa arte”, destacou o festival Azgo, no perfil do músico.

http://www.cmjornal.pt/cultura/detalhe/musico-de-jazz-sul-africano-ray-phiri-morreu-aos-70-anos?ref=cultura_outras

Brasil ganha 21º patrimônio histórico da Unesco: o Cais do Valongo

Após uma longa jornada pelo Atlântico, africanos esquálidos eram mantidos na região portuária em chamadas casas de engorda para se recuperarem. Depois, eram vendidos e levados a trabalhar em plantações de várias regiões, além de serem empregados em

Cais do Valongo, Rio de Janeiro

Porto de chegada de quase um milhão de escravos africanos, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, foi declarado Patrimônio Mundial da Unesco, a agência cultural da ONU.

Esse é o 21º patrimônio histórico reconhecido pela ONU no país, em uma lista que inclui centros históricos, parques nacionais e áreas preservadas em várias regiões.

O Brasil foi o principal destino de escravos africanos nas Américas, e o Cais do Valongo se tornou o maior porto de entrada deles no país até meados do século 19. Ele ficou por décadas aterrado e sua riqueza começou a ser redescoberta durante o trabalho de revitalização da zona portuária do Rio para as Olimpíadas de 2016.

“É o mais importante vestígio físico da chegada dos escravos africanos ao continente americano”, disse, em nota, a Unesco.

A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogea, disse que, “o Valongo merece estar junto de lugares como Hiroshima e Auschwitz para nos fazer lembrar das partes da história da humanidade que não podemos esquecer”.

Segundo o Iphan, o desembarque de escravos no Rio foi integralmente concentrado na região da Praia do Valongo a partir de 1774, e ali “se instalou o mercado de escravos que, além das casas de comércio, incluía um cemitério e um lazareto”.

ObjetosDireito de imagemPORTO MARAVILHA/CDURP
Image captionCom as obras do Porto Maravilha, foram encontrados milhares de objetos pessoais mas também pratos e talheres da época

O calçamento de pedra que constitui o Sítio Arqueológico do Cais do Valongo foi parte das obras de infraestrutura realizadas em 1811, “com o incremento do tráfico e o fluxo de outras mercadorias”.

Após a declaração da República no Brasil, em 1889, o cais do Valongo foi aterrado. Com as obras do Porto Maravilha, foram encontrados milhares de objetos pessoais na região, como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava.

Vista da Pedra do Sal
Muitos ex-escravos se estabeleceram na área e formaram o que se conhece como Pequena África

Sepultura coletiva Muitos, no entanto, não sobreviviam. A poucos quarteirões do cais está um cemitério onde, entre 1770 e 1830, milhares de escravos foram enterrados. Restos desse local foram encontrados por acaso em 2011, quando um casal reformava sua casa na área e se deparou com ossos e crânios.

O tráfico de escravos estrangeiros foi banido em 1831, mas continuou ilegalmente até a escravidão ser abolida no país, em 1888.

Cerca de quatro milhões de escravos chegaram ao Brasil entre os séculos 17 ao 19, o que representa quase 40% dos escravos que desembarcaram nas Américas.

A partir de 2012, o Cais do Valongo passou a fazer parte de um circuito histórico de celebração da herança africana no Rio.

Esse não é o único patrimônio da Humanidade brasileiro a figurar na lista da Unesco. Conheça abaixo outras 20 atrações que ganharam o mesmo status:

  1. Cidade de Ouro Preto (MG)
  2. Centro histórico de Olinda (PE)
  3. Ruínas de São Miguel das Missões (RS)
  4. Centro histórico de Salvador (BA)
  5. Santuário de Bom Jesus do Congonhas (MG)
  6. Parque Nacional do Iguaçu (PR)
  7. Brasília (DF)
  8. Parque Nacional da Serra da Capivara (PI)
  9. Centro histórico de São Luís (MA)
  10. Áreas protegidas de Mata Atlântica do Sudeste (PR e SP)
  11. Reservas de Mata Atlântica da Costa do Descobrimento (BA e ES)
  12. Centro histórico de Diamantina (MG)
  13. Complexo de Conservação da Amazônia Central (AM)
  14. Área de conservação do Pantanal (MT)
  15. Ilhas do Atlântico: Reservas de Fernando de Noronha (PE) e Atol das Rocas (RN)
  16. Áreas protegidas do Cerrado: Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas (GO)
  17. Centro histórico da Cidade de Goiás (GO)
  18. Praça de São Francisco na cidade de São Cristóvão (SE)
  19. Cidade do Rio de Janeiro (RJ)
  20. Conjunto moderno da Pampulha (MG)

Paulina Chiziane: Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem conosco”

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A liberdade é um tema que preocupa Paulina Chiziane. Por isso, o novo livro da autora, O canto dos escravos, investe na libertação individual e colectiva como recurso fundamental. Falando do livro, Chiziane explica por que aposta, desta vez, numa obra em verso ao mesmo tempo que tece um comentário sobre a actualidade do país: “Somos independentes, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco”. E a escritora não fica por aí, neste quesito, avança que a dívida externa pode acabar num neo-colonialismo que prejudique todos os moçambicanos. Para que tal não acontece, a escritora sugere que a luta pela liberdade seja cada vez mais permanente. Além disso, depois de ano passado ter dito que não voltaria a escrever, Paulina Chiziane volta a falar do assunto, com um esclarecimento aos seus leitores.

O canto dos escravos é título do seu novo livro, que aglutina, em 120 páginas, muitos séculos de História. Por quê?

Este livro foi inspirado no nosso hino nacional, que nos diz, a certa altura: “Na memória de África e do mundo”. Então, comecei a caminhar, em busca dessa memória e da nossa História. Primeiro, escrevi um texto muito grande, era massudo. No entanto, com esses anos todos que tenho de escrita, apercebi-me que, algumas vezes, a leitura de um livro volumoso é um privilégio de poucos. Fui comprimindo o texto até que aparecesse, agora, em verso, O canto dos escravos, no qual falo do percurso dos africanos no país e fora do continente. Com este livro celebro a existência do negro, da dor, da alegria e da esperança em seis capítulos, de modo a torna-lo um diálogo entre o passado, o presente e o futuro.

 

A Paulina Chiziane que temos neste livro parece mensageira da liberdade. Concorda com isso?

Não gosto da palavra mensageira. Os meus livros todos, se for a verificar, têm um denominador comum: a liberdade, da mulher, dos grupos socialmente silenciados, do pobre e de todas as coisas, embora os temas sejam diferentes. Eu canto a liberdade que quero para mim e para os que me rodeiam. Por outro lado, verifiquei que na verdade o planeta terra tem dois continentes africanos: uma África que é esta que temos aqui e outra na América. Mas não há comunicação perfeita entre as duas Áfricas. Por isso, o livro não é tão simples assim porque move sentimentos, emoções, pensamentos e vivências, colocando esperanças nesta vida de ser negro. Este livro é para todos, porque nas escolas falamos da escravatura apenas em duas linhas e mais nada.

 

Os escravos aqui parecem ser a metáfora de um cidadão oprimido. Quis que assim fosse?

É assim, eu não quero falar de metáforas. O que quero é dizer que esta realidade existe. O escravo, ao morrer ontem, de certeza que tinha um sonho, a liberdade que possuímos hoje. Portanto, sou independente hoje porque alguém um dia lutou, sofreu e morreu. Custa-me ver que, algumas vezes, deitamos fora esta independência e liberdade que temos hoje. E não estamos a ensinar o suficiente para que as novas gerações saibam que têm responsabilidades. Ter independência não é estar livre. Somos independente, mas os fantasmas do colonialismo ainda vivem connosco. Então, este livro também é uma chamada de atenção que pretende nos lembrar que a liberdade ganha-se e perde-se. Por exemplo, a dívida externa, não sabemos como foi contraída, mas pode vir a renovar um colonialismo ou mesmo uma escravatura contra o nosso povo.

 

E mesmo a propósito disso, uma voz do livro diz: “os colonos já se foram, mas deixaram capangas/ Fiéis guardiões dos fantasmas do passado”…

As pessoas em Moçambique têm medo, de dizer a verdade, de trabalhar e de dizer aquilo que não foi revelado. Os meus últimos livros provam isto, porque, com a sua publicação, levantaram-se vozes que falaram de proibições no lugar onde não existem. Nós somos prisioneiros dos fantasmas do passado. Por exemplo, quando estava para lançar O 7º juramento, algumas pessoas daqui de Moçambique escreveram artigos para publicar nos jornais de Portugal, de modo a frisar que “o que a Paulina escreveu não é propriamente a nossa cultura e nós não concordamos muito com esse tipo de escrita”. Mas, porque o livro ganhou uma vida própria, os capangas do passado tiveram que refazer os seus discursos.

 

Quem são esses capangas, esses escravos?

Alguns, são bem formados, mas a mente está presa, com medo de um patrão invisível. Não se libertam a si próprio e nem permitem que o seu povo se liberte também. O meu diálogo com o leitor neste livro é para uma autolibertação.

 

Como a Paulina vê a liberdade? É uma possibilidade?

Vejo como uma necessidade que se deve alcançar e preservar.

 

Por quê faz do canto, ao invés das armas, por exemplo, um instrumento propenso à liberdade?

Procuremos perceber como é que os negros que foram para a escravatura sobreviveram, vivendo numa tortura sem fim. O canto, a dança, são artes que preenchem o lado invisível do ser humano, fazendo do Homem muito forte. E quem for a ler atentamente este livro, vai perceber que alguns dos versos são letras de música, dá para ler e cantar.

 

Escreveu o livro chorando?

Não vou mentir. Até agora, há textos que leio e fico deprimida. Por exemplo, o primeiro texto do livro, “O testamento de um escravo”. Quando o leio, ainda divago no espaço. O último, “O canto de esperança”, também mexe comigo. É um texto que me coloca de pé e deixa-me com vontade de enfrentar o mundo.

 

E o que lhe faz pensar que o canto pode triunfar?

O canto não pode, vai triunfar, se cantarmos, resistirmos e estudarmos em colectivo. Se trabalharmos em conjunto, não haverá força que nos derrube. A liberdade é esta possibilidade de fazer com que a minha voz possa ser ouvida.

 

“Em nome da salvação conheci os caminhos da perdição”. Este seu verso é muito profundo.

É verdade, e qualquer negro no mundo pode-lhe dizer isto. É o discurso do opressor, uma realidade amarga.

 

Não teme que a chamem “escritora racista” pelo compromisso que este livro tem com Homem preto?

Já me chamaram vários nomes e não é isso que me vai preocupar. Pensar no que me vão chamar pode ser uma outra prisão, outra escravatura. Mas repara que não falei de raça, falei de genocídio. Agora, se o genocídio foi para os pretos, de que mais vou falar? Não se trata de promover xenofobia. Falo da humanidade.

 

O FIM DA ESCRITA OU O PRINCÍPIO DE UM RECOMEÇO?

Num dos programas que fizemos juntos, disse que já não voltaria a escrever e que estava farta de tanta incompreensão. Um ano depois, as prateleiras ganham mais um livro seu. Mudou de ideia?

Não, não mudei de ideias. Uma coisa é publicar e outra é escrever. Quando conversamos há um ano, já tinha esse trabalho pronto. Agora é que publico. Aliás, tenho uma série de trabalhos escritos, apenas à espera de ocasião para publicar. Escrever? Já chega.

 

Neste O canto dos escravos as entidades não cedem a qualquer tipo de submissão. Pelo contrário, lutam para ultrapassar dificuldades. Por quê a autora não teria a mesma persistência, nessa árdua tentativa de fintar o que a faz dizer basta à escrita?

Cansaço é um estado físico. A vista, a coluna, às vezes, cansam-se. E a vontade de escrever diminui. Às vezes, essas dificuldades são um motor. Mas quero agradecer a todos aqueles que não confiaram em mim. Sou daquele tipo de pessoas que, quando enfrenta uma dificuldade ou quando não é bem compreendida não desiste, porque acredita que um dia vai ser compreendida. Enfim, olhar para o computador, agora, hiiii…, cansa… Entre as mulheres que escreveram ou escrevem neste país sou das que trouxe mais polémicas e assuntos para reflexão. De Vez em quando é bom sossegar. Quando se fala muito da pessoa, às vezes, a mesma pode não se sentir em paz, por haver demasiada invasão da sua vida íntima. Enfim, acima de tudo, estou cansada e gostaria de convidar àqueles que um dia julgaram que estivesse enganada no meu percurso que mostrassem também a força que têm. O meu percurso foi feito de muita luta, sempre em busca da compreensão.

 

Sente que ainda é alvo dessas “cotoveladas’ que existem na literatura moçambicana?

Ainda sou e agora piorou. Há pessoas que só ficam à espera de ver o nosso trabalho para apedrejar ao invés de nos aproximar para propor melhorias à nossa obra. Esse sentido de ajuda, colaboração, é o que gostaria de ver dos donos da língua.

 

Nos últimos livros seus temos uma escrita muito virada ao real. Deixou para o passado a ficção que calha em A balada ou em O 7º Juramento?

Todos os meus livros têm um denominador comum, o que muda é o crescimento. Apercebi-me que, se quero dialogar, tenho de ser curta, incisiva, breve e, algumas vezes, mesmo cesárea, reajustando-me de acordo com a minha experiência. E eu estou a escrever o que me apetece.

 

É o que é graças aos seus primeiros cinco livros. De tal forma que, por mais que não tivesse escrito mais, a sua marca continuaria bem registada. Se tivesse começado a carreira com os seus cinco últimos livros, acha que também seria essa menina do mundo que hoje merece tanto reconhecimento?

Não fiz nada de novo. Se for a ver a literatura de Noémia de Sousa e Craveirinha, fizeram este tipo de percurso. Noémia de Sousa fez denúncia e foi reconhecida dentro e fora do país. Não me venham dizer que é preciso escrever para agradar o outro, de modo que possamos ter reconhecimento. Sinceramente, acredito que teria reconhecimento da mesma maneira, porque reconhecimento é um produto de luta, não é nenhuma dádiva. Teria sucesso na mesma, pode crer.

 

Já agora, teve dificuldades de publicação ao longo desses anos?

Internamente, sim, mas fora não. E essa é outra parte da estória interessante. Tive muitas mais dificuldades no país do que fora, sempre. E continua assim.

 

Como é que Paulina Chiziane quer ser lembrada pelos seus leitores?

Sei lá. A única coisa que me dá alegria é saber que os meus livros são cada dia mais reconhecidos. E é muita sorte, porque há escritores que são reconhecidos só depois da morte. Eu não. Tive a oportunidade de olhar para traz e dizer que trabalhei e colhi. Para mim isso basta, o que vier virá. Não estou preocupado com o futuro. Se alguém leu o meu trabalho e inspirou-se, que faça melhor do que fiz. Há uma geração muito mais nova, com melhores tecnologias, que deve continuar a luta pela liberdade.

 

Uma luta pela liberdade que inclui perdão pelos que nos escravizaram. Por quê perdoar?

É preciso perdoar para limpar o coração. O ódio é um peso, faz mal à cabeça e destrói o relacionamento com o outro. É preciso perdoar, esquecer é que não.

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Que leiam O canto dos escravos, porque, quem quiser compor, até pode conseguir boas cantigas.

 

Perfil

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, já lá vão 62 anos. Estreia-se em livro em 1990, com o lançamento de Balada de amor ao vento. O seu repertório literário inclui Ventos do apocalipse;O 7º juramento; Niketche; As andorinhas; O Alegre canto da perdiz; Na mão de Deus; Por quem vibram os tambores do além? Ngoma Yethu e, agora, O canto dos escravos. É Prémio Literário José Craveirinha e soma várias condecorações e homenagens, como Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo governo português. Em 2015, foi homenageada pela SOICO, pelos 25 anos de carreira e 60 anos de vida. Este ano foi homenageada no FliPoços, no Brasil, e condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul pelo governo brasileiro, em Maputo.

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/45544-somos-prisioneiros-dos-fantasmas-do-nosso-passado.html

 

 

 

Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo agora é Patrimônio Mundial,

kongo.jpgCom a elevação do Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo ao estatuto de Património Mundial, facto ocorrido sábado por via da votação unânime dos membros do Comité do Património Mundial, abriu-se historicamente um importante precedente para Angola.

Foi o culminar de um longo processo que passou a ser denominado “Dossier Mbanza Kongo-Cidade a Desenterrar para Preservar” e que muito orgulha toda a equipa por detrás do árduo trabalho que convenceu a UNESCO.
Partindo do princípio de que “nem só do pão vive o homem”, todos os angolanos têm motivo para regozijo por essa conquista cultural, obviamente com o potencial para dinamizar outras áreas, nomeadamente a académica, a turística e a recreativa.
Afinal, além desta memorável saga, que começou há cerca de dez anos e há dois com a submissão oficial da candidatura, por parte das autoridades angolanas para que Mbanza Kongo fosse elevada a Património da Humanidade, seguem-se outras iniciativas que precisam de ser promovidas. O país ganha assim motivação para que, para os mesmos efeitos, as candidaturas do Corredor do Cuanza e das cavernas em que se encontram as famosas pinturas rupestres do Tchitundo Hulu, no Namibe, ganhem vida e sejam símbolos patrimoniais de toda a humanidade.
A UNESCO adoptou em 1972 a Convenção do Património Mundial, Cultural e Natural, que tem por objectivo proteger os bens patrimoniais dotados de um valor universal excepcional. E nesta senda, numerosos países membros daquela instituição da ONU vocacionada à educação, ciência e cultura realizaram inscrições e submeteram à apreciação da mesma propostas para elevação de sítios históricos, edificações com grande valor patrimonial.
Angola não pode ser excepção, forçada quase que natural e culturalmente pela vasta riqueza patrimonial de Cabinda ao Cunene, faz todo o sentido que, dentro dos parâmetros da UNESCO, constituam Património

da Humanidade.
Insistimos que temos no país, sem sombra de dúvidas, numerosos locais cujo valor cultural têm todas as condições para preencher os requisitos para Património da Humanidade.
Temos de trabalhar muito para que, nos próximos tempos, possamos ser bem sucedidos na aplicação de mais candidaturas de locais naturais ou sítios, que pela sua relevância histórica e cultural mereçam ser elevados a Património da Humanidade.
As vantagens que decorrem disso tudo não podem ser minimizados, na medida em que isso pode colocar Angola e os seus locais de interesse cultural, particularizando-se aqui a consagração de Mbanza Kongo, na rota do turismo interno e externo. Vale a pena ponderar e preparar-se pelo que vem a seguir, nomeadamente os desafios para correspondermos aos feitos desta importante empreitada sob o signo do Dossier Mbanza Kongo-Cidade a Desenterrar para Preservar.
E é internamente onde as maiores preocupações culturais devem começar ou passar a ser amplamente exploradas para que, além de conhecermos exactamente a dimensão e qualidade do nosso património, saibamos preservá-lo como mandam as regras.
É salutar saber que o ensino incorpora já grande parte da riqueza histórica e  cultural dos bens que o país agendou para esta campanha de candidaturas para Património da Humanidade, agora com  Mbanza Kongo, e como esperamos depois com o Corredor do Cuanza e com as Cavernas do Tchitundo Hulu, no Namibe.
Atendendo a essa espécie de “exposição museológica” a que vai estar submetido o Centro Histórico da Cidade de Mbanza Kongo, precisamos de estar preparados, fazer bem os trabalhos de casa.  Está de parabéns a cidade histórica de Mbanza Kongo.

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/editorial/parabens_mbanza_kongo

“Rostos de Loanda”: o teatro angolano que emocionou os brasileiros

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Ontem a noite, no bairro tradicional da cidade de São Paulo , ao lado do Museu do Ipiranga, um dos lugares mais marcantes da história do Brasil, tive o privilégio de assistir a peça “Rostos de Loanda”, no teatro do Sesc Ipiranga.  Na platéia de quinta feira,  destacava-se a presença de angolanos que acompanhavam a peça cantando e rindo muito dos episódios que se sucediam no belíssimo espetáculo.

Para pessoas como eu que não visitam Luanda há muito tempo, foi maravilhoso poder ouvir o sotaque luandino, os problemas do dia a dia de quem vem a cidade em mudança frenética, com a explosão imobiliária.

Impressiona saber da violência policial numa cidade que cresceu junto com as desigualdades sociais e  o aumento da pobreza, tipica  situação de uma grande metrópole. O humor da peça é muito bem realizado, com um ritmo agradável que te aproxima dos atores.

Excelentes atores como Wime Braúlio, Luís da Costa, Elizabeth Rodrigues, Rodrigo Fernandes, Eliseu Diogo, José Teixeira, Serafina Muhongo, Rosa Sousa, Mariana António, Sizainga Francisco e Sidónio Domingos. Uma representação que merece ser vista e revista muitas vezes

A peça infelizmente ficou em uma curtíssima duração, uma pena.

A peça narra a história de rostos que marcaram a cidade de Loanda – hoje conhecida como Luanda. Figuras que norteiam a cultura e o imaginário angolano em Rostos de Loanda, do Grupo Colectivo Miragens de TeatroDSC_2014-1.jpg

Retrata a vida de João Muleta, um deficiente que, após se embriagar, vê figuras importantes que marcaram a história da cidade. Em suas visões, aparecem Salvador Correia de Sá e Benevides, Dom Miguel de Melo e o fundador da cidade, Paulo Dias de Novais, além do Grupo Ngola Ritmos, os músicos Urbano de Castro, Minguito, Luís Visconde, entre outros. Um misto de história e realidade que marcaram a sociedade angolana e que são retratadas por estas figuras.rostosdeloanda

A peça foi inserida no  Festival Yesu Luso – Teatro em Língua Portuguesa,  do idioma que  é o quarto mais falado no mundo. Mas, às vezes, parece caminhar isolado, solitário. “O que nos choca é o gigantesco afastamento entre as pátrias falantes dessa mesma língua. Um silêncio, um abismo, uma distância, no que se refere às relações sociais entre a maioria dos países lusófonos”, comenta Arieta, curadora do .rostos-de-loanda.jpg

A peça angolana emocionou a plateia brasileira e deixará saudades.

 

Lobolo e a exploração da mulher moçambicana

 

lobolo 25Campanha de sensibilização contra o casamento prematuro enfrenta  obstáculos.

O lobolo, um ritual tradicional que vigora um pouco por todo o país onde um dote, em dinheiro ou noutro valor, se oferece à família da rapariga em troca do matrimónio, tem emperrado as denúncias de casos de violação sexual de menores e casamentos prematuros em Manica.

“Nós continuamos a apelar à sociedade para garantir o futuro das raparigas e para não as entregar em casamento”, concluiu Cecília Ernesto.

O Tribunal Judicial Provincial de Manica, centro, condenou a 19 anos de prisão um homem que deu a filha de 12 anos para pagar uma dívida de 600 meticais em bebidas alcoólicas.

O juiz condenou à mesma pena o comerciante de 45 anos, Alberto Malote, que aceitou a menor.

A rapariga viu-se transformada em esposa à força de um comerciante, mas foi resgatada por uma organização não governamental que continua a cuidar dela.

A sentença foi proferida a 18 de Abril, mas só hoje foi relatada à Lusa pela ONG Levanta Mulher e Siga o seu Caminho (Lemusica), que pretende fazer da história um exemplo na luta contra o casamento forçado.

A história aconteceu depois de o pai, Augusto Vasco, se ter mostrado incapaz de pagar uma divida de 600 meticais – cerca de oito euros – pelo que bebeu durante vários meses.

Ao ter conhecimento do caso, a organização não governamental Levanta Mulher e Siga o seu Caminho (Lemusica) avançou com um processo em tribunal.

“Nós avançámos e resgatámos com sucesso a menina que se tinha tornado mulher do comerciante”, disse à Lusa, Cecília Ernesto, dirigente da ONG.

A sentença prevê ainda a atribuição de uma indemnização de 30 mil meticais à vitima.

Este é um dos 105 casos de resgaste de raparigas menores que aquela organização feminina já fez em cinco distritos da província de Manica, nos últimos 15 meses.

Em 2016, cem casos de casamentos prematuros foram denunciados através de nove clubes de rapariga, que funcionam nas escolas e nas comunidades, criados no âmbito de uma campanha que pretende reduzir o índice de abuso sexual de menores e casamentos prematuros.

Dos cem casos de 2016, os membros da organização conseguiram resgatar 80 menores e 20 mudaram de residência antes de chegarem junto delas.

Em Moçambique, metade das mulheres com idades entre os 20 e 24 anos de idade casaram-se quando eram menores – 14% das quais antes dos 15 anos, segundo dados do UNICEF, que em conjunto com o governo lançou uma estratégia nacional de Prevenção e Combate aos Casamentos Prematuros, para vigorar até 2019.

http://noticias.sapo.mz/info/artigo/1504231.html

 

Presidente português reconhece injustiça da escravatura em visita a Gorée – Senegal

 

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O Presidente português considerou na quinta-feira, no Senegal, que o poder político reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

 

Marcelo Rebelo de Sousa deixou esta mensagem no final de uma visita a uma antiga casa de escravos do tempo dos holandeses, na ilha de Gorée, ou Goreia, em frente a Dacar, capital do Senegal, lugar que foi um entreposto do tráfico desde o século XVI, sob domínio português, até ao século XIX, e onde o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura.maison des esclaves.jpg
Marcelo Rebelo de Sousa iniciou na terça-feira uma visita de Estado de dois dias ao Senegal, a primeira de um Presidente português a este país da África Ocidental, antiga colónia francesa, que se tornou independente em 1960.
Ao falar primeiro em francês, o Chefe de Estado português declarou que “quando nós abolimos a escravatura em Portugal, pela mão do Marquês de Pombal, em 1761 – e depois alargámos essa abolição mais tarde, no século XIX, demasiado tarde -, essa decisão do poder político português foi um reconhecimento da dignidade do homem, do respeito por um estatuto correspondente a essa dignidade”.
“Nessa medida, nós reconhecemos também o que havia de injusto e de sacrifício nos direitos humanos, como diríamos hoje em dia, numa situação que foi abolida”, acrescentou o estadista.

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Depois, Marcelo Rebelo de Sousa repetiu a mensagem em português: “Recordei que Portugal aboliu, pela mão do Marquês de Pombal, pela primeira vez, a escravatura, numa parte do seu território em 1761 – embora só alargasse essa abolição definitivamente no século XIX -, e que nesse momento, ao abolir, aderiu a um ideal humanista que estava virado para o futuro”.
Essa decisão reconhecia o que tinha havido de injusto, o que tinha havido de condenável no comportamento anterior, relativamente a séculos em que esses direitos não foram devidamente reconhecidos, reiterou o Presidente.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, o que fica de mais importante desta visita à “Casa dos Escravos” de Gorée é “a lição de esperança num futuro melhor” e a ideia de que “é preciso continuar a lutar pelos direitos humanos, contra as formas de escravatura que existem, contra as opressões, contra as ditaduras, contra os totalitarismos”. “Ainda hoje, infelizmente, é tão necessário”, lamentou o Chefe de Estado de Portugal. No segundo dia em Dacar, o Chefe de Estado português foi também à Casa-Museu Léopold Senghor, primeiro Presidente do Senegal, e participou num debate com professores e alunos de língua portuguesa.

Integração na CPLP

O Presidente português considerou que o Senegal “fala português” e tem “uma porta aberta” para assumir “um papel essencial” na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da qual já é membro observador. Em declarações aos jornalistas na ilha de Gorée, Marcelo Rebelo de Sousa disse que é impressionante a presença da língua portuguesa neste país, que tem 46 mil jovens a falar português. O Senegal fica próximo de dois países lusófonos. As ilhas de Cabo Verde estão em frente à sua costa, a cerca de 600 quilómetros, e faz fronteira com a Guiné-Bissau a sul, aproximando-se de Portugal também pela sua importância regional e pela língua portuguesa, que ali é estudada por milhares de alunos. Desde 2008, tem estatuto de observador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A comunidade portuguesa ronda as 200 pessoas, embora apenas cerca de 50 estejam registadas nos serviços consulares. A ilha de Gorée é um património da Humanidade classificado pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 1978 e representa um memorial da escravatura. De Gorée, foram embarcados escravos de África para as Américas até ao século XIX e a ilha mantém como memória e símbolo desse passado uma “Casa dos Escravos”, do tempo dos holandeses, ligada ao mar por uma “Porta do Não Retorno”.
Foi nesta ilha, a menos de 20 minutos de barco da capital do Senegal, que o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura em 1992, quando afirmou: “A partir deste santuário africano do sofrimento negro, imploramos o perdão do céu.”
Em 2005, dias depois da morte do Papa João Paulo II, o então Presidente do Brasil, Lula da Silva, visitou Gorée e repetiu esse gesto. Embora referindo que não tinha “nenhuma responsabilidade com o que aconteceu” no período da escravatura, declarou “Perdão pelo que fizemos aos negros”.
Os navegadores portugueses foram os primeiros a chegar a esta ilha, em 1444, num feito atribuído a Dinis Dias, e deram-lhe o nome de Ilha da Palma. Depois, no período filipino, foi tomada pelos holandeses e posteriormente pelos franceses, pelos ingleses e novamente pelos franceses.
Além de João Paulo II e de Lula da Silva outras personalidades mundiais visitaram a histórica ilha de Gorée. O então primeiro-ministro francês, Michel Rocard, visitou a região em 1981. Também três Presidentes norte-americanos, Bill Clinton em 1998, George W. Bush em 2008 e Barack Hussein Obama em 2013 visitaram a ilha senegalesa e aí assumiram o “mea culpa” dos respectivos Estados na escravatura. Estima-se que pelo menos 12 milhões de escravos africanos tenham sido capturados e retirados do continente, ao longo do triste período do comércio negreiro.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/portugal_reconhece_injustica_da_escravatura

Edward Enninful, director da revista Vogue britânica

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A primeira vez em cem anos de história, a Vogue britânica escolheu um homem negro para director da revista. Edward Enninful, do Gana, prepara-se para dirigir uma das mais influentes publicações de moda do mundo.Edward Enninful

Num comunicado, a Condé Nast International, empresa que detém a Vogue, descreveu Enninful como “uma figura influente nas comunidades da moda, Hollywood e música, que molda o espírito cultural da época”.Edward Enninful,

Enninful chegou a Londres aos 16 anos, onde começou a carreira no mundo da moda. Três anos depois, chegou a director da revista “i-D”, tornando-se no mais jovem na história da publicação.

Com 45 anos, o ganês foi condecorado em Outubro passado com o título Officer of the Most Excellent Order of the British Empire pelo seu contributo para a moda.

O novo cargo da Vogue britânica será assumido a 1 de Agosto.

Teatro moçambicano: “As pessoas não podem pensar que vão ao teatro para rir”

JOAQUIMMATAVEL

Joaquim Matavel conta que o FITI é movido pela vontade de contribuir para a promoção da cultura

O Festival Internacional Teatro de Inverno (FITI) é o mais longo movimento cultural que acontece em Moçambique e o único que reúne grupos e companhias teatrais anualmente. A acontecer em Maio, durante um mês, a plataforma pretende trazer, pela primeira vez, grupos de Portugal. Joaquim Matavel, coordenador do FITI, contou ao “O País” o que move esta máquina há 14 anos num país em que as artes são insustentáveis.

O que move esta máquina que há 14 anos está a fazer história em Moçambique e a influenciar grupos locais a terem projecção no exterior?

Vontade de fazer… Vontade de contribuir para o desenvolvimento da promoção da cultura moçambicana e em particular do teatro moçambicano. Mas, acima de tudo, muita vontade de poder fazer a diferença numa sociedade em que estamos toda a hora a reclamar de alguma coisa que não está bem.

Acredito que é por isso que faz sentido a seguinte reflexão: “os primeiros passos são inúteis quando não se chega ao fim”.

Este é um provérbio oriental que nós nos apropriamos dele. Fizemos a primeira edição deste festival, hoje internacional. Em 2004, decidimos que não podíamos mais parar. E porque os grupos amadores, que desde o início fizeram parte, acharam que foi uma alternativa muito boa, dentro de um ambiente em que temos falta de espaço para a prática do teatro e temos fraco patrocínio ou quase nenhum. Então, o festival apareceu como uma oportunidade para os grupos se apresentarem. E não só: a oportunidade para os grupos trocarem experiência e uns aprenderem com os outros, como também impulsarem aquilo que é o associativismo cultural.

O festival tem uma constante evolução. A partir de algum momento, o movimento ficou internacional. Que projecção ganhou no mundo?

Deixou de ser algo doméstico, algo só moçambicano. Passou a ser também, em primeiro lugar, dos angolanos. Os grupos de teatro angolanos nesta altura, em Angola, apresentam as suas obras, fazem as suas criações na perspectiva de se internacionalizarem, apresentando-se no FITI, em Maputo. Os grupos brasileiros também. Temos companhias brasileiras que sempre estão à espera que se abram candidaturas para poderem chegar a Moçambique e trazer o melhor do que se faz no Brasil. E hoje temos contacto, temos solicitações de várias partes do mundo, de gente que precisa vir a Moçambique e apresentar as suas criações.

Qual é o seu sentimento pelo facto de muitos grupos terem a possibilidade de apresentarem as suas peças apenas no festival?

É um sentimento dúbio. Por um lado, é uma frustração, mas ao mesmo tempo, é uma alegria muito grande. E posso dizer, com toda certeza e sem pestanejar, que o festival é catalizador para que existam grupos de teatro a formarem-se nas escolas e nos bairros a nível da cidade de Maputo e não só.

Qual é a relação entre o FITI e o Ministério da Cultura e Turismo?

O papel do Governo seria de criar cada vez mais programas e planos melhores para o desenvolvimento cultural no país. Deveria ser o papel do Ministério da Cultura e Turismo, de municípios e direcções provinciais resgatar aqueles cinemas que nalgum momento foram privatizados; deviam devolver às práticas culturais e erguer novos espaços para a prática cultural, porque, se a memória não me trai, não existe nenhuma sala construída pelo nosso Governo no período pós-independência que sirva para as artes.

Tendo em conta que o teatro é uma vertente artística que pauta pela divulgação de várias mensagens de crítica sociopolítica e não só, podemos assumir que durante um mês de festival temos um espaço de aprendizagem?

É um espaço para dar voz aos sem voz, por isso durante muito tempo fomos insistindo que este festival não tem lema. Cada grupo, cada companhia vai trazer o que de melhor tiver, vai trazer a abordagem que quiser, desde que esteja ali a manifestar-se. Vai trazer arte, crítica social, sátira, comédia ou tragicomédia, desde que seja uma mensagem que sirva para construir a sociedade moçambicana e o cidadão moçambicano.

Qual é o retorno das autoridades governamentais e da sociedade no geral em relação a prestação do festival?

O público é muito grato ao festival; os fazedores de teatro também o são, como também os estudantes e professores de teatro. As nossas estruturas governamentais… essas deviam, nesta altura, também começar a olhar para o festival como algo que representa este país, que é a bandeira deste país. Há um grande distanciamento entre aquilo que é a produção e a execução do festival e a intervenção do nosso Governo, do nosso Ministério, do nosso Município naquilo que poderia ser o apoio para que Moçambique tivesse um movimento teatral.

Além dos espectáculos, o festival agrega outras actividades, designadamente as oficinas, os debates, homenagens e concertos musicais. Quais são os novos paradigmas que advém dos debates, um conceito que chamam de “Papu Kultura”?

Foi considerando que o teatro não é para qualquer um (risos); é um exercício que precisa ser pensado. As pessoas não podem pensar que vão ao teatro para rir. As pessoas vão ao teatro para poder encontrar espelhos, para interiorizar as suas ideias, para refletir sobre a própria condição humana e os problemas do dia-a-dia. Outro paradigma é a necessidade de se criar uma forma de casar o teatro com a escrita. Escrevemos muito, mas essa escrita não chega ao palco. Por outro lado, por que essas peças teatrais não podem ser matéria para a construção de livros?

Ano passado foi lançada a revista “Ser ou não ser”. O que este conceito vem mudar na história do FITI?

A revista surge do “Papu Kultura”, com a necessidade de registar o que acontece no nosso teatro. Longe de pensar num livro, decidimos pensar numa revista. Trazendo a revista tivemos outras constatações. A primeira é que escrevemos muito pouco sobre teatro e, segundo, há pouca gente que analisa as obras de arte.

http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/44188-o-teatro-nao-e-para-qualquer-um.html