Confirmado , João Lourenço é o novo Presidente de Angola

João Lourenço é o novo Presidente de Angola. Os resultados finais das eleições gerais de 23 de agosto foram divulgados pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE). Confirmam João Lourenço como novo Presidente de Angola com 61% dos votos alcançados pelo MPLA.

Em conferência de imprensa o presidente da CNE angolana divulgou os resultados definitivos das eleições gerais. Bornito de Sousa será o novo vice-Presidente da República.

O MPLA venceu com mais de 4,1 milhões de votos e conseguiu 150 deputados – maioria qualificada – na Assembleia Nacional, que conta com 220 assentos. Menos 25 do que nas eleições de 2012.

A UNITA é a segunda força política mais votada, com 26,67% dos votos e mais de 1,81 milhões de votos. Garantiu 51 deputados.

A coligação de partidos Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral (CASA-CE) obteve 643,9 mil votos, o que corresponde a 9,44% da votação global e 16 assentos na Assembleia Nacional. Nas eleições de 2012, a CASA-CE tinha conseguido apenas oito mandatos.

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O Partido da Renovação Social (PRS) alcançou 92,2 mil votos (1,35%), elegendo dois deputados, enquanto a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) conseguiu 63,6 mil votos (0,9%) e elegeu um parlamentar.

A Aliança Patriótica Nacional (APN) reuniu 34,9 mil votos, ficando sem representação parlamentar.

De acordo com a Constituição angolana, o cabeça de lista do partido mais votado em eleições gerais é automaticamente nomeado Presidente da República.

Desta forma, João Lourenço sucede a José Eduardo dos Santos, que liderava o país desde 1979.Quem é João Lourenço, o novo Presidente de Angola
O general João Lourenço, ex-ministro da Defesa angolano, é um militar na reserva que gosta de xadrez e de andar a cavalo.

É casado e pai de seis filhos. De acordo com a biografia oficial no Ministério da Defesa, fala, além de português, inglês, russo e espanhol.

Tem formação em artilharia pesada, exerceu as funções de comissário político das FAPLA, o antigo exército do MPLA, e entre 1991 e 1998 foi secretário do Bureau Politico para a informação.

João Lourenço chegou a chefe da bancada parlamentar do MPLA e entre 1998 e 2003 desempenhou as funções de secretário-geral do MPLA e de presidente da Comissão Constitucional.

Demonstrou nessa altura disponibilidade para concorrer à liderança do partido, depois de José Eduardo dos Santos ter admitido a saída, passando então, até 2014, para as funções de primeiro vice-presidente da Assembleia Nacional, mudança que foi conotada publicamente com uma travessia no deserto, por ter assumido a vontade de avançar com a candidatura.

Nascido a 05 de março de 1954 na cidade do Lobito, província de Benguela, João Lourenço formou-se, militarmente, na antiga União Soviética, entre 1978 e 1982, de onde trouxe igualmente uma formação superior em Ciências Históricas.

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Numa entrevista à agência de notícias EFE após as eleições, João Lourenço prometeu ser reformador, ao estilo Deng Xiaoping, rejeitando a classificação de “Gorbachev angolano”, por suceder à prolongada liderança de José Eduardo dos Santos.

“Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas certamente não Gorbachev, Deng Xiaoping, sim”, afirmou João Lourenço, militar formado na União Soviética.

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Deng Xiaoping foi secretário-geral do Partido Comunista Chinês e líder político da República Popular da China entre 1978 e 1992, tendo criado o designado socialismo de mercado, regime vigente na China moderna e que posteriormente foi adaptado MPLA para Angola.

Tal como na campanha eleitoral, João Lourenço relativizou a convivência com José Eduardo dos Santos como presidente do MPLA: “O Presidente Dos Santos é uma personalidade muito respeitada, tanto dentro do partido como por um conjunto da sociedade e não é anormal que o presidente do partido no poder não seja ele próprio o Presidente da República. Apenas para citar um caso, Donald Trump é o Presidente dos Estados Unidos mas não do Partido Republicano”, afirmou.João Lourenço garante abertura ao diálogoO futuro Presidente de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço, assegurou hoje “abertura ao diálogo permanente com as demais forças políticas do país”, propondo-se ainda “incentivar e praticar ambiente de concórdia” para o engrandecimento de Angola.

“Aos líderes dos demais partidos concorrentes gostaria de manifestar também os nossos agradecimentos pela sua participação no processo eleitoral, manifestar a nossa abertura para o diálogo permanente nas instituições, desde que isso concorra para o engrandecimento do nosso país”, disse João Lourenço, na sua primeira declaração após o anúncio dos resultados das eleições gerais de 23 de agosto, da qual saiu vencedor o MPLA, com 61,07% dos votos.

João Lourenço convidou as forças concorrentes a juntarem-se à cerimónia de investidura. “Para a qual seguramente estão, à partida, convidados, o que contribuirá para este ambiente de concórdia que nos propusemos incentivar e praticar”, referiu.

O terceiro Presidente da República de Angola, em 42 anos de independência, considerou ainda que com este desfecho das eleições, “a vitória não é apenas do MPLA”, mas “de todo o povo angolano”, para quem prometeu “trabalhar com dedicação e total entrega”.

“Convido assim todos os angolanos a darem a mão e comemorarem, em conjunto, de forma efusiva, alegre e entusiasta esta vitória, sem excessos e dentro do respeito ao próximo e apelamos as autoridades que desencorajem qualquer ato de intolerância política, que eventualmente possa surgir em qualquer parte do território nacional”, apelou.

João Manuel Gonçalves Lourenço, que terá como vice-presidente, Bornito Baltazar Diogo de Sousa, garantiu ainda na sua comunicação que o próximo Governo vai trabalhar no sentido de “afastar as práticas e comportamentos reprováveis”, que “provavelmente estarão na base de tanta abstenção”.

Estas eleições, assinalou, “decorreram dentro dos padrões internacionais, num clima de paz e harmonia, salvo alguns casos prontamente identificados, condenados e repudiados pela sociedade”, tendo os observadores internacionais declarado “por sua honra que as eleições foram livres e justas e que tiveram um alto nível de organização”.

O recém-eleito Presidente da República de Angola criticou ainda a onda de contestações, sobretudo dos partidos concorrentes, em torno dos resultados que, à partida, davam já vitória ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), face aos dados provisórios divulgados anteriormente pela CNE.

“A tentativa de incitação à desobediência civil só vem demonstrar que essas forças políticas não respeitam a vontade popular expressa nas urnas, porque entendem haver formas ilegais de anular essa mesma vontade popular e desta forma constituir o tão propalado Governo Inclusivo e Participativo, mas que no caso concreto o povo não sufragou”, apontou.

Ou ainda, “qual cabula malfeita, enveredar pela chamada geringonça, que terá acontecido em outras paragens, onde o povo não deu 61% dos votos válidos, nenhuma maioria qualificada de mais de dois terços a nenhum dos concorrentes”, disse, referindo ao acordo de Governo em Portugal

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/joao-lourenco-confirmado-novo-presidente-de-angola_n1025469

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Quênia vive clima de tensão pós eleição e vitória de Uhuru Kenyatta

Nairobi – O líder da oposição queniana, Raila Odinga, 72 anps, prometeu domingo que não se renderá até que seja reconhecida a sua vitória nas eleições presidenciais, vencidas pelo presidente , enquanto aumentava a pressão para que acalmasse os seus simpatizantes.

RAILA ODINGA, LÍDER DA OPOSIÇÃO NO QUÉNIA

FOTO: ANGOP

Na sua primeira aparição pública desde sexta-feira à noite, Odinga também pediu aos seus simpatizantes para não irem trabalhar nesta segunda de manhã, após a pressão da comunidade internacional para que interviesse no sentido de arrefecer os ânimos no período pós-eleitoral, em que os distúrbios já deixaram 16 mortos desde sexta-feira.

O opositor anunciou que iria explicar na próxima terça-feira “o caminho a seguir” pelo seu partido político e assinalou: “Ainda não perdemos. Não cederemos”, insistiu em Kibera, subúrbio de Nairobi, reduto da oposição.

Confrontos violentos foram registados domingo na comunidade de Mathare, subúrbio de Nairobi, entre membros da etnia kikuyu, ligada ao presidente reeleito, Uhuru Kenyatta, e integrantes da etnia luos, apoiantes do opositor derrotado nas urnas.

A violência irrompeu depois que os luos incendiaram estabelecimentos de comerciantes kikuyus, provocando uma batalha campal entre ambos os grupos. Dois homens morreram.

Os incidentes ocorreram após uma visita de Odinga a Mathare para se encontrar com a família de uma menina de nove anos que morreu baleada na manhã de sábado quando estava na varanda no quarto andar de um prédio.

Odinga visitou o subúrbio de Kibera, onde, diante de milhares de apoiantes, afirmou que não aceitaria os resultados da eleição presidencial “roubada”, segundo ele, por Kenyatta.

“Ainda não perdemos. Não baixaremos a guarda. Esperem que anuncie o que deve ser feito, depois de amanhã”, assinalou no domingo.

Kenyatta foi reeleito presidente na noite de sexta-feira, para um segundo mandato de cinco anos, com 54,27% dos votos, frente a 44,74% de Odinga, segundo resultados oficiais. A oposição questiona os números.

Após o anúncio da vitória de Kenyatta, houve cenas de violência e saques em redutos da oposição, no Oeste do país e nos subúrbios de Nairobi, com um saldo de 16 mortos até a noite deste sábado.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou Odinga a enviar “uma mensagem clara a seus simpatizantes para que se abstenham de recorrer à violência”. União Europeia e Reino Unido também fez um apelo por moderação, e felicitaram Kenyatta por sua vitória.

A coligação opositora, Nasa, afirma que Odinga venceu as eleições, cujo resultado responde, segundo ela, a uma manipulação electrónica do sistema de transmissão da contagem de votos usado pela comissão eleitoral. Mas descartou recorrer à Suprema Corte, como fez, em vão, em 2013.

A derrota deste ano é a quarta em eleições presidenciais sofrida por Odinga, após as de 1997, 2007 e 2013.

Embora a repressão policial esteja sendo firme, o ministro do Interior, Fred Matiangi, garante que a polícia não lançou mão do “uso desproporcional da força contra nenhum manifestante, em nenhum lugar do país”.

Na manhã de domingo, em Mathare, um dos subúrbios de Nairobi mais afectados pela violência, comerciantes reabriam suas lojas.

“Queremos ouvir o que Raila tem a dizer. Será ele que nos guiará. Se nos disser para sair às ruas, sairemos. Se quiser que fiquemos em casa, ficaremos”, declarou o cabeleireiro de Humpfrey Songole, 25, horas antes de Odinga se pronunciar em Kibera.

Os distúrbios actuais diferem do conflito de há 10 anos, que deixou mais de 1,1 mil mortos e 600 mil deslocados. Apesar de reflectirem antigas divisões tribais, no momento estão circunscritos aos redutos da oposição.

O contexto político também é diferente: após as eleições de 2007, a maioria dos confrontos opuseram os kikuyu de Kenyatta aos kalenjin, etnias actualmente aliadas. De fato, o vice-presidente William Ruto é um kalenjin.

Actualmente, apenas a etnia luo, à qual pertence Odinga, parece estar mobilizada.

http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2017/7/33/Quenia-Lider-oposicao-promete-continuar-contestar-vitoria-Kenyatta,beec95fd-beae-4215-a628-30879fa6ce67.html

Presidente da Gambia está isolado internacionalmente

Eleazar Van-Dúnem |

Fotografia: Martial Trezzini | Pool/ AFP

A crise política na Gâmbia, que desde terça-feira está em Estado de Sítio por decreto de Yahya Jammeh, cujo mandato legítimo terminou hoje, é até agora o maior teste para a política de prevenção de conflitos que o novo Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, e a União Africana querem privilegiar.

 

Perante o Conselho de Segurança , António Guterres disse recentemente que a organização gasta muito tempo e recursos na resposta às crises, sublinhando que as pessoas pagam um preço alto demais e defendendo “uma nova abordagem” baseada na mediação de conflitos e na “diplomacia pela paz” e mais empenho “para prevenir a guerra e apoiar a paz ao invés de nos concentrarmos em responder aos conflitos”.
O mundo espera de António Guterres um papel mais activo na tentativa de resolução dos problemas internacionais e acredita, como afirmou recentemente o Presidente angolano José Eduardo dos Santos, que o novo Secretário-Geral da ONU vai dar um “notável impulso a uma nova abordagem dos problemas internacionais”.
O conflito na Gâmbia, por conseguinte, é a oportunidade para António Guterres demonstrar uma diplomacia preventiva mais actuante que busque soluções efectivas para os conflitos actuais e evite novos conflitos, rompendo deste modo com o consulado de Ban Ki-moon, muito criticado pela sua inacção.
Para a União Africana, é uma oportunidade para que possa adoptar um novo paradigma e enviar uma clara mensagem aos líderes africanos sedentos de poder, a de que já não vai permitir que líderes depostos pela vontade do povo manifestada nas urnas governem à revelia da soberania popular. A crise na Gâmbia ainda não resvalou para uma guerra civil, mas o evoluir da situação caminha para tal, a menos que a ONU e a União Africana invertam o percurso.
A organização mundial e a entidade regional, que defendem o mesmo “modus operandis” e cooperam em matéria de paz e segurança, também serão marcados, pela positiva ou pela negativa, sobretudo o mandato de António Guterres e a actuação da União Africana.

Mediação de Marrocos

A France Press noticiou, citando um site de informação marroquino, que Marrocos promove “uma mediação discreta” na Gâmbia para convencer Yahya Jammeh a abandonar o poder. De acordo com a fonte, que cita “meios diplomáticos concordantes”, o ministro marroquino dos Negócios Estrangeiros, Nasser Bourita, e Yassine Mansouri, chefe dos serviços de inteligência externa, “cumprem há alguns dias” uma “missão delicada em Banjul” para o agora Presidente ilegítimo “ceder o poder e aceitar a derrota nas eleições com a eventualidade de uma retirada dourada em Marrocos”.
Solicitado pela France Press para confirmar essas informações, o Governo marroquino recusou-se a comentar. Rabat mantém boas relações com a Gâmbia.

Intervenção militar

Vários meios de comunicação sociais noticiaram esta semana, citando fontes do Governo e do Exército nigeriano, que a Comunidade Económica de Desenvolvimento da África Ocidental (CEDEAO) prepara uma intervenção militar na Gâmbia, caso Yahya Jammeh continue a recusar abandonar o poder.
Entre os países implicados na acção destacam-se a Nigéria e o Senegal, que têm uma força conjunta para desdobrar em território gambiano. “Tomou-se a decisão de não permitir que o Presidente cessante da Gâmbia permaneça no poder e isso vai ocorrer através de uma intervenção militar, a menos que Yahya Jammeh renuncie”, disse uma fonte militar citada pela Prensa Latina.
“Vamos mobilizar-nos muito rápido para Dacar, no Senegal”, disse outra fonte, citada pela France Press, que mencionou o envio de “pilotos, técnicos e pessoal de manutenção dos aviões” relacionado “com os acontecimentos em curso na Gâmbia”. Especialistas militares convergem na ideia de que as Forças Armadas gambianas “não têm capacidade de enfrentar uma eventual força regional” se avançar a intervenção militar.

Yahya Jammeh isolado   

No plano interno, o Presidente cessante está cada vez mais isolado. Quatro novos ministros deixaram o Governo já assolado por uma série de demissões, noticiou na terça-feira a agência de notícias France Press citando fonte próxima do poder.
Os últimos ministros a demitir-se são o dos Negócios Estrangeiros, Neneh Macdoual-Gaye, das Finanças, Abdou Colley, do Comércio, Abdou Jobe e do Turismo, Benjamin Roberts, disse uma fonte próxima do governo cessante, que pediu anonimato.
Benjamin Roberts foi nomeado na segunda-feira para as Finanças, em substituição de Abdou Colley, mas permaneceu menos de 24 horas no cargo. Os ministros da Informação e dos Desportos tinham sido substituídos na semana passada.
Mudanças também ocorreram no Exército, onde oficiais que se recusam a apoiar Yahya Jammeh contra o Presidente eleito Adama Barrow, como solicitado pelos comandantes da Guarda republicana, que garante a protecção do agora Chefe de Estado ilegítimo, foram detidos domingo, segundo fontes dos serviços de segurança e da oposição.
Esta última reclama pela libertação imediata dos militares detidos.
Yahya Jammeh decretou o estado de emergência na terça-feira, justificando a medida com “um nível de ingerência estrangeira excepcional e sem precedentes” no processo eleitoral do país – em pronunciamento transmitido pela televisão e no qual lamentou “a atmosfera hostil injustificada que ameaça a soberania, a paz e a estabilidade”.
O agora Presidente ilegítimo diz querer permanecer no cargo até que a Justiça se pronuncie sobre o recurso apresentado por si.
A Constituição da Gâmbia estabelece que o estado de emergência dura sete dias a partir do decreto, mas pode ser prorrogado por até 90 dias com a aprovação do Parlamento, que já deu sinal verde para tal.
O estado de emergência, refere, vigora até o Tribunal Supremo se pronunciar em relação a uma reivindicação do partido de Yahya Jammeh sobre alegadas irregularidades na votação.
O Tribunal Supremo devia ter decidido o caso no dia 10, mas adiou a decisão para Maio, por alegada falta de juízes para uma deliberação

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/africa/jammeh_sem_legitimidade_pode_ser_obrigado_a_sair

Partido de Mandela sofre recuo inédito na África do Sul. Por que isso aconteceu?

  • Rafael Iandoli

Após 22 anos de hegemonia na cena política nacional, o ANC recebeu nas urnas um alerta de que precisa promover reformulações estruturais

FOTO: JAMES OATWAY/REUTERS

Partido da situação, ANC sofreu derrotas importantes

ELEITORA DEPOSITA SEU VOTO EM ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA ÁFRICA DO SUL

Os eleitores sul-africanos foram às urnas na quarta-feira (03) para escolher seus governantes municipais, que ficarão no cargo pelos próximos cinco anos. Os resultados apontam para a maior retração do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês) desde o estabelecimento da democracia multirracial, em 1994, solidificada com a eleição do candidato do partido, Nelson Mandela, à presidência do país.

Apesar de ainda obter a maioria dos votos no somatório nacional, pela primeira vez o ANC não chegou à marca dos 60% de votos, estacionando nos 53,9%. O resultado confirma um cenário de cansaço e desilusão com o partido, que desde o fim do Apartheid exerce o papel de situação.

Ainda mais doloroso para Jacob Zuma, atual presidente sul-africano e um dos líderes do ANC, é perder o controle de dois dos principais municípios do país: a capital, Pretoria, e Nelson Mandela Bay, famoso por ser a origem de diversos combatentes do Apartheid. Joanesburgo, principal centro econômico do país, ficou sob controle do ANC por pouco, com uma diferença de 6% para o maior partido de oposição – Aliança Democrática (DA, na sigla em inglês) – e sem garantir maioria absoluta.

TRÊS PARTIDOS COM MAIS VOTOS

Apoiado no histórico de libertação do racismo institucionalizado que persistiu de 1948 a 1994 em nível nacional, e mais especificamente na imagem de Mandela, o ANC se manteve hegemônico sem precisar fazer grandes esforços nas últimas duas décadas. Acomodou-se com uma confiança tão grande que seu secretário-geral, Gwede Mantashe, chegou a dizer que o partido era “escolhido por deus” para liderar o país.

Apesar do avanço da oposição, sobretudo nas áreas urbanas da África do Sul, onde as populações utilizam menos serviços públicos garantidos pelo governo federal, o principal motivo da fragilização do ANC, escancarado na última semana, é a desmobilização de suas bases.

Algumas cidades que são redutos do partido apresentaram números baixíssimos de comparecimento às urnas – o voto não é obrigatório por lá, como é no Brasil. Em alguns casos, menos de 5% dos eleitores registrados votaram, mesmo em locais que confirmaram a vitória do ANC. O recado foi dado: a insatisfação está posta, e o partido terá de mudar sua postura.

Para especialistas, apesar de perder força, o ANC tampouco pode ter sua força questionada, uma vez que contou por muitos anos não apenas com o apoio, mas também com o carinho de seus eleitores. Os laços afetivos que a população negra possui com o partido não são fáceis de serem quebrados. Os negros representam aproximadamente 80% dos sul-africanos.

“Muitas pessoas que estão desapontadas com o ANC tampouco conseguem votar em um partido que reconhecem como sendo dominado por brancos”

Shireen Hassim

Professor de política na Universidade de Witwatersrand, em entrevista ao jornal britânico “The Guardian

Origens da decepção

A África do Sul nunca se recuperou totalmente da crise econômica global que teve início em 2008. O ANC é visto como um partido que não teve a capacidade de retomar o crescimento e nem mesmo de contornar os problemas sociais derivados da crise. Somado a isso, acusações de corrupção e favorecimentos pessoais envolvendo a imagem do atual presidente Jacob Zuma contribuíram para aumentar o desgaste do partido de Mandela.

Dois principais fatores

ESTAGNAÇÃO ECONÔMICA E DESEMPREGO

Com uma economia dependente da exportação decommodities, e em plena fase de desindustrialização, a crise econômica mundial fez com que os principais compradores dos produtos sul-africanos – China, União Europeia e Estados Unidos – diminuíssem os gastos, afetando a entrada de dinheiro no país. Tal cenário contribuiu para o aumento do desemprego, que hoje atinge 25% da mão de obra. Sem demonstrar sinais de melhora, a capacidade do governo de retomar o crescimento passou a ser questionada.

CRESCE A FALTA DE POSTOS DE TRABALHO

CORRUPÇÃO

Além dos problemas nacionais que acabam rebatendo no partido em forma de críticas, o ANC é alvo também de acusações diretas de corrupção. O presidente Jacob Zuma já foi condenado em 2016 pela Corte Constitucional a devolver meio milhão de dólares aos cofres públicos, sob a alegação de que teria usado a verba para fazer reformas em um imóvel particular. O presidente também é acusado de permitir que uma família de ricos empresários comandasse as decisões de seu gabinete.

Impacto para 2019

FOTO: SIPHIWE SIBEKO/REUTERS

País africano estabeleceu pior desempenho do ANC desde o fim do Apartheid

PRESIDENTE DA ÁFRICA DO SUL, JACOB ZUMA, ANUNCIA RESULTADO DAS ELEIÇÕES

Assim como a maioria das eleições locais ao redor do mundo, o encolhimento do ANC nas municipais é mais importante pelo que ele representa para o panorama nacional do que, de fato, pelas cidades que a oposição conquistou.

O resultado é histórico, e o que se espera do partido de Zuma a partir de agora é repensar sua organização interna e sua estratégia política. A certeza do sucesso evitou que o partido evoluísse e acompanhasse as mudanças no país, conforme membros do partido constataram à imprensa após as eleições.

Nomes importantes do ANC se pronunciaram. Mavuso Msimang, líder histórico da legenda, foi um deles. Ele disse ao jornal americano “Washington Post” que “os eleitores responderam à arrogância da minha organização”.

Para a oposição, as eleições representavam, na prática, um referendo sobre o trabalho de Zuma. A notícia foi boa, tanto para o DA, de direita, quanto para o menor ‘Combatentes pela Liberdade Econômica’ (EFF), de esquerda, criado por dissidentes do ANC. Eles agora veem a possibilidade de uma disputa pelo poder, antes impossível em um país praticamente monopartidário.

“Chamamos essa de ‘eleição da mudança’ porque sentimos que foi um referendo sobre Jacob Zuma enquanto figura nacional, mas também tivemos um referendo sobre o futuro da África do Sul”

Mmusi Maimane

Primeiro líder negro da Aliança Democrática, em entrevista à rádio local “702”

O papel da dinâmica racial nas eleições

FOTO: JAMES OATWAY/REUTERS

Congresso Nacional Africano, partido de Mandela, faz propaganda eleitoral na África do Sul

CARRO DE CAMPANHA DO PARTIDO DA SITUAÇÃO, ANC, NO NORTE DE JOANESBURGO

Apesar do Apartheid ter terminado oficialmente em 1994, a desigualdade racial ainda tem um papel fundamental na dinâmica social e econômica da África do Sul.

A consolidação dos direitos iguais para negros e brancos não inseriu automaticamente os negros na economia formal, o que hoje se reflete em uma nova divisão populacional: os integrados na economia (tanto brancos quanto negros), e os não-integrados (majoritariamente negros).

Mesmo entre a população negra de classe média, permanece o sentimento de desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Duas populações vivendo em mundos distintos possuem, por consequência, demandas eleitorais também distintas.

Hoje, o ANC tem dificuldades em representar e conversar com ambos os lados, tornando urgente para sua sobrevivência uma reformulação estratégica.

“Temos de olhar para nós mesmos nos olhos e dizer ‘o que aconteceu?’ Não acreditamos que nenhuma outra organização na África do Sul ofereça uma solução melhor do que a do ANC. Se nós temos soluções melhores, o que deu errado?”

Jackson Mthembu

Membro do ANC, que ocupa um cargo semelhante ao líder de bancada de partido no Brasil

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/08/09/Partido-de-Mandela-sofre-recuo-in%C3%A9dito-na-%C3%81frica-do-Sul.-Por-que-isso-aconteceu

Os Recados das Eleições na África do Sul

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Os resultados das eleições municipais na África do Sul realizadas na última quarta-feira introduziram mudanças significativas no xadrez político da pátria de Nelson Político. Pela primeira vez desde que o Congresso Nacional Africano (ANC) ascendeu ao poder, em 1994, o histórico partido mobilizou menos de 60% da preferência dos cidadãos. Por sua vez, ao obter mais 40% dos votos, a oposição alcançou o melhor resultado de sempre, infligindo pela via democrática um golpe suficientemente duro para estremecer as estruturas do ANC. Com os citados resultados o país mais ao sul do continente africano assiste ao redesenhar do mapa político a nível do poder local. Doravante, o ANC passará a ver nos partidos Aliança Democrática (DA) e Economic Freedom Fighters (EFF) dois fortes candidatos a quebrarem a hegemonia que alcançou aquando das primeiras eleições democráticas da era pós-apartheid.

Depreende-se, para já, o fim do ciclo de eleições com vencedores antecipados. O ANC está claramente a enfrentar momentos menos bons. O envolvimento de membros do partido em escândalos de corrupção e o desgaste da imagem pública do Presidente Jacob Zuma terão contribuído para o pior resultado eleitoral obtido pelo lendário partido. É acentuado o índice de insatisfação pelo desempenho de Jacob Zuma que, amparado pela maioria parlamentar, escapou em Abril a uma moção de destituição. Antes porém, foi obrigado pelo Tribunal Constitucional a devolver aos cofres do Estado mais de 15 milhões de dólares gastos com benfeitorias na sua residência privada. O pedido de desculpas endereçado pelo Presidente à nação não bastou para apagar o facto da memória colectiva.

Observadores da cena política sul-africana estimam que apoiantes tradicionais do ANC vêm trocando este por outros partidos. É grande o desencanto face a vários incumprimentos do programa eleitoral do ANC. Vinte e dois anos depois das mudanças democráticas o desemprego mantém-se altos em patamares. A criminalidade e a deficiente segurança pública continuam a figurar entre os problemas de primeira linha. Enquanto isso, a classe média diminuiu o poder aquisitivo. A política do black empowrement (empoderamento) ficou aquém das expectativas, além de ter sido beliscada também por episódios de corrupção. Para parte significativa dos cidadãos a elite política demarcou-se das promessas de redobrar a luta por justiça social, diminuição da pobreza e direitos iguais. A crise económica consubstanciada na desvalorização do rand, a moeda local e a consequente diminuição do poder compra da população contribuíram para o quase descalabro do ANC.

A Aliança Democrática, principal partido da oposição que representava a elite branca na era do apartheid ganha o rótulo de grande vencedora das eleições municipais, embora o ANC tenha ganho no cômputo geral. Actualmente liderado por Mmusi Maimane, primeiro negro a desempenhar tal função, Aliança que já administrava Cape Town, cidade sede do parlamento sul-africano, voltou a conquistar a preferência do eleitorado com margens expressivas. Outra conquista de realce foi testemunhada em Port Elizabeth, baptizada como Nelson Mandela Bay e que é considerada um importante polo económico e político da África do Sul.

As cidades de Pretória, capital política da África do Sul e Joanesburgo, principal centro económico-financeiro do país podem revelar igualmente resultados surpreendentes pela negativa para o ANC que nem na terra natal do presidente Zuma conseguiu assegurar a vitória. O responsável pela derrota com sabor a humilhação foi o partido Inkhata Zulu, bastante influente na região do Kwazulu Natal.

A partir dos resultados das eleições realizadas na quarta-feira o ANC deve aprender a negociar no sentido de fazer alianças políticas com vista a governar com estabilidade. Tanto a dúvida em relação ao futuro quanto a certeza de o panorama político sul-africano jamais será como antes, fazem prever um pleito eleitoral renhido em 2019. Pode ser o princípio do fim da hegemonia do ANC. O eleitorado negro que constituía a principal base de apoio do partido que ascendeu ao poder com Nelson Mandela parece ter reagido positivamente ao piscar de olhos da Aliança Democrática. O passado associado ao apartheid ficou lá atrás. Por seu turno, Julius Molema, o polémico líder do Economic Freedom Fighters e antigo presidente do braço juvenil do ANC, promete fragmentar ainda mais o partido que o projectou.

Nos próximos tempos o partido governante na África do sul vai precisar muitíssimo mais do que promessas eleitorais bem estruturadas para convencer os sul-africanos a voltarem no seu projecto de governo. Políticas públicas à altura dos gigantescos desafios do país a par de competências para implementar boas práticas de governação deverão integrar qualquer pacote que se pretenda aliciante. O eleitorado dá mostras de associar a administração ao exercício do voto. Salta à vista o amadurecimento político que permite votar em partidos com propostas diferenciadas e, desse modo, escapar a suposta lógica do voto seguro na legenda partidária do coração. À vista desarmada os resultados do último pleito eleitoral na África do Sul transmitem inequivocamente a ideia de que não basta ser histórico para vencer eleições.

Os Recados das Eleições na África do Sul

Partido de Mandela perde a capital da África do Sul nas municipais

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Joanesburgo – O Congresso Nacional Africano (CNA), o partido no poder na África do Sul, viveu neste sábado um revés histórico nas eleições municipais ao perder na capital, Pretória, frente ao principal partido da oposição, a Aliança Democrática (DA).

O partido também registrou um recuo histórico no restante do país, perdendo a sua maioria nas cidades mais importantes.

Em todo o país, é a primeira vez que o Congresso Nacional Africano conquista um número tão baixo de votos (53,9%) desde sua chegada no poder, ao final da ditadura racista do apartheid e o advento da democracia em 1994.

Em Tshwane, a metrópole que engloba Pretoria, a DA conseguiu 43,1% de los votos contra el 41,2% obtido pelo CNA, que governava com maioria absoluta a cidade, segundo os resultados publicados depois da apuração das eleições de quarta passada.

O partido opositor de centro-direita também venceu em Port Elizabeth, a sexta cidade mais populosa da África do Sul.

Mais de 26 milhões de eleitores estavam convocados a votar nas eleições municipais que, segundo a Comissão Eleitoral, foram realizados sem incidentes.

Este recuo “aconteceu mais rapidamente e em maior proporção do que imaginávamos. Foi um choque para todos”, considera o analista político independente Ralph Mathekga.

Nos últimos anos, mesmo após a retirada da figura histórica do partido, Nelson Mandela, o CNA estava acostumado a vencer confortavelmente todas as eleições com mais de 60% dos votos. Mas estas municipais mudam a situação.

Tais resultados poderiam colocar em apuros o presidente Jacob Zuma. Neste sábado à noite, durante um discurso por ocasião do anúncio dos resultados pela Comissão Eleitoral, o Chefe de Estado elogiou as “eleições altamente disputadas, tais como deveriam ser em uma democracia”.

Jacob Zuma deve completar o seu mandato em três anos, mas o partido pode ser tentado a encurtar o seu reinado para evitar um declínio ainda mais grave nas urnas nas eleições gerais de 2019.

À frente da África do Sul desde 2009, o reinado de Zuma tem sido marcado por uma série de escândalos.

Como exemplo, este sábado, seu discurso foi interrompido por quatro jovens mulheres que exibiam cartazes em frente ao palanque para recordar um caso de estupro em que Zuma foi inocentado há dez anos.

Os seus problemas legais, no entanto, ainda são atuais, uma vez que foi condenado a pagar 500.000 dólares por utilizar dinheiro público para reformar a sua casa em Nkandla (sul), que, ironicamente, votou por um outro partido diferente do ANC.

Mas, apesar de seus sucessos retumbantes em Port Elizabeth e Pretória, o DA não conseguiu obter a maioria absoluta e terá de se aliar a outros partidos para governar estas cidades.

Na capital, os liberais da AD vão certamente atrair os Combatentes para a Liberdade Econômica (FEP) de Julius Malema, que foi expulso do CNA.

http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2016/7/31/Partido-Mandela-perde-capital-Africa-Sul-nas-municipais,f6f1aad8-cfe6-4198-a9ac-fd270d21d176.html