Diabete mata lider da oposição moçambicano em momento crucial de negociação da paz

Dhlakama na campanha das presidenciais de 2014. Teve então 36,6% dos votos; Nyusi alcançou 56%

  |  EPA

Dirigiu a Renamo desde 1979, então em luta contra a Frelimo. Assinou o Acordo de Paz de 1992, que pôs fim a 16 anos de guerra civil. Acusou sempre o poder de fraude eleitoral

Afonso Dhlakama morreu nesta quinta-feira aos 65 anos nas matas da Gorongosa, morte que sucede num momento crucial das negociações que decorriam entre o líder da Renamo e o presidente Filipe Nyusi para o total desarmamento dos elementos do principal partido de oposição em Moçambique e sua integração nas forças armadas do país.

A Renamo confirmou a morte ao final do dia e anunciou que o corpo do seu líder será transferido sexta-feira para o hospital central da Beira. Um grupo de dirigentes do partido estava a caminho da Gorongosa.

A causa da morte terá sido resultado de uma crise de diabetes. Dhlakama, que liderava a Renamo desde 1979 (após a morte de André Matsangaissa, que fundara o movimento em 1977), negociava com o presidente moçambicano uma revisão da Constituição que permita a designação dos administradores de distrito pelos governadores das províncias, a serem eleitos nas eleições gerais de 2019. Esta questão assim como a completa desmobilização das forças da Renamo têm estado no centro das negociações entre os dois dirigentes.

O desaparecimento de Dhlakama a pouco mais de um ano das eleições vem colocar um sério desafio à Renamo, que teve sempre, nas cinco presidenciais realizadas em Moçambique desde o Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, a 4 de outubro de 1992, o seu líder histórico como candidato e grande responsável pela estratégia do partido.

Dhlakama, desde a primeira votação em 1994, sempre contestou os resultados que, invariavelmente, deram a vitória ao candidato da Frelimo, no poder desde 1975, e a maioria a este partido. Nas presidenciais de outubro de 1994, tem 33,7 % dos votos; Joaquim Chissano ganhou com 53,3%. Nas legislativas, a Frelimo somou 44,3%, a Renamo 37,7. No ciclo eleitoral de 1999, Chissano obteve 52,2% e Dhlakama 47,7%. O padrão dos resultados ir-se-á repetindo até 2014, quando Nyusi teve 57% dos votos e Dhlakama 36,6%.

As sucessivas derrotas de Dhlakama e da Renamo, a que não foram alheias fraudes eleitorais, de acordo com a análise de observadores independentes, levaram o antigo guerrilheiro a endurecer o discurso. Após quase 16 anos de guerra civil (1977-1992) e a paz trazida pelo Acordo de Roma, em 2012, pela primeira vez Dhlakama deixou a capital, Maputo, com o argumento de que tinha a vida em perigo. Desde então e até 2017 viveu-se um conflito de baixa intensidade entre a Renamo e o governo, com o líder da antiga guerrilha em parte incerta, após as forças governamentais atacarem a base de Sadjundjira (Gorongosa) e o desalojarem em outubro de 2013.

Só em 2014 reapareceu em Maputo para a assinatura de um acordo de cessação de hostilidades, a 5 de setembro, com o presidente Armando Guebuza. Mas pouco depois das eleições de outubro do mesmo ano, deixou de novo a capital moçambicana, abrindo a crise político-militar mais séria desde 1992. Começou pouco depois um longo e acidentado processo negocial que só terminaria em 2017, com a assinatura de um acordo de cessar-fogo entre a Renamo e o poder político em Maputo.

“Parceiro estratégico”

Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte do líder da Renamo numa mensagem enviada a Filipe Nyusi, destacando o relevo de Dhlakama como “interlocutor privilegiado nos caminhos do diálogo, da paz e da concórdia” em Moçambique. Neste país, a primeira reação veio da segunda maior força da oposição, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), com o seu líder e antigo dirigente da Renamo até 2009, Daviz Simango, a classificar o desaparecimento de Dhlakama como “uma grande tragédia nacional”.

Posteriormente, a Frelimo, através do porta-voz Caifadine Manasse, citado pela Lusa, considerou que o líder da Renamo “era um parceiro estratégico” e “estava a percorrer um caminho para a paz”. O mesmo porta-voz afirmou-se convicto de que a Renamo não deixará as negociações em curso e que irá trabalhar para a consolidação da paz e da estabilidade em Moçambique.

Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 na localidade de Mangunde, numa família onde o pai era régulo – fator importante na política em África. Por causa do envolvimento desde jovem, primeiro, com a Frelimo, depois na guerrilha contra o regime de Maputo, Dhlakama não teve grande educação formal. No entanto, nunca desistiu de se cultivar e de receber formação, quer a partir da África do Sul quer de diferentes círculos europeus (entre os quais portugueses) e americanos que, a partir dos anos 80, vão apoiar a Renamo. Casado desde 1980, era pai de oito filhos.

 

https://www.dn.pt/mundo/interior/terminou-a-longa-guerrilha-de-afonso-dhlakama-9306193.html?utm_source=Push&utm_medium=Web

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Diabete afeta cerca de um milhão de moçambicanos

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Maputo, 06 Abr (AIM) – O Ministério da Saúde (MISAU) estima em pouco mais de um milhão o número de pessoas que padecem das diabetes no país, daí o apelo no sentido de haver maior vigilância e envolvimento, a todos os níveis, para prevenir o aumento dos casos da doença.

A informação foi revelada pela directora nacional adjunta de Saúde Pública, Benigna Matsinhe, que falava hoje em Maputo numa conferência de imprensa destinada a anunciar as actividades que vão marcar, quinta-feira, as festividades do Dia Mundial da Saúde.

No país, segundo a fonte, as autoridades da saúde elegeram a diabetes, uma doença de saúde pública, e as comemorações vão decorrer sob o lema “Vença a Diabetes: Expande a Prevenção, Fortaleça os Cuidados e Reforce a Vigilância”.

Os estudos feitos em 2005 revelaram que existiam, no país, em número cumulativo, cerca de 16 mil pessoas mas que em número absoluto eram cerca de sete mil doentes registados. No entanto, se for tomado em conta que a percentagem da prevalência registada aumentou com o crescimento do universo populacional o número também subiu.

Mas, Benigna Matsinhe afirmou que as unidades sanitárias estão preparadas para diagnosticar e tratar a doença, devendo a sociedade procurar envolver-se nos esforços de prevenção, até porque ela é uma doença silenciosa.

Existem dois principais tipos de diabetes. A do tipo 1 de pacientes dependentes da insulina que é responsável pela redução de glicemia no sangue através da sua transformação e entrada às células.

A diabetes do tipo 2 é aquela que afecta os pacientes não dependentes da insulina e constitui a forma mais comum e ocorre geralmente em pessoas com mais de 30 anos, muito embora seja também frequente em pessoas mais jovens.

Esta forma é originada por factores como obesidade, maus hábitos alimentares, o sedentarismo, o tabagismo, consumo excessivo de álcool. Nos maiores centros urbanos, em particular, assiste-se a um aumento assustador do nível de consumo de álcool. Muitos jovens aliam-se ao vício do álcool, o que aumenta o risco de contrair a doença.

Os principais sintomas se manifestam através da vontade de urinar muito, estar sempre com fome e com vontade de comer, sede inacabável, mas também pode ser através da visão turva do paciente, infecções frequentes na pele.

“A diabetes constitui um problema de saúde pública. Se olharmos para os dados mundiais de 2014 vemos que 387 milhões de diabéticos existiam no mundo e as projecções mostram que a continuar neste ritmo o aumento será em cerca de 93 por cento o que significa que até ao ano 2035 o mundo terá 41 milhões de doentes”, explicou Matsinhe.

A tendência da diabetes, segundo Matsinhe, também está a acontecer com relação a hipertensão, doença não transmissível mas que está a crescer a ritmo galopante no país e no mundo.

O exercício físico, o combate a obesidade, consumir alimentos nutritivos (frutas e vegetais) e mudar de certa forma o estilo de vida são algumas das medidas que podem contribuir para reduzir o risco da doença.
http://noticias.sapo.mz/aim/artigo/11051906042016155240.html