Burkina Faso aboliu a pena de morte

map burkinafaso“Portugal congratula-se com mais um importante passo no sentido da progressiva abolição universal da pena de morte, esperando que a decisão do Burkina Faso se constitua também como modelo e inspiração para outros países”, afirma a nota do Palácio das Necessidades. Lisboa, acrescenta, aboliu a pena de morte há mais de 150 anos e “opõe-se à sua aplicação em quaisquer circunstâncias e em todos os casos, repudiando todos os argumentos utilizados para a justificar”.

Para as autoridades portuguesas, a pena capital “viola o direito à vida e não respeita a dignidade da pessoa humana”, consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de 1966.

“País pioneiro na abolição da pena de morte, Portugal continuará a pugnar pela abolição universal da pena capital”, afirma ainda a nota do Governo.

O ministro da Justiça do Burkina Faso, Rene Bagoro, afirmou que o novo código penal permitirá “adaptar-se às exigências de certas convenções comunitárias e internacionais” e abrirá caminho para “uma justiça mais credível, equitativa, acessível e eficaz com a aplicação da lei penal”.

A pena de morte não era aplicada desde a década de 1970, mas manteve-se aquando da última reforma do código penal, em 1996. Associações de direitos humanos locais, representantes eclesiásticos e organizações internacionais, como a Amnistia Internacional (AI), reclamaram esta abolição durante a última década.

https://www.publico.pt/2018/06/05/mundo/noticia/portugal-felicita-burkina-faso-pela-abolicao-da-pena-de-morte-1833350

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Obra de arte nos EUA faz sucesso com Marrielle Franco e Martin Luther King

Da coluna de Ancelmo Gois, no O Globo:

Veja só esta obra de André de Castro, artista carioca radicado nos EUA. Traz os rostos de Marielle Franco, cuja execução, hoje, completa 55 dias, e Martin Luther King Jr., cujo assassinato completou 50 anos em abril. A serigrafia faz parte de “Abismo e resistência”, exposição que abre quinta, agora, na Opus Gallery, em NY. Além do caso Marielle, a mostra abordará também temas como o controle de armas nos EUA. A ideia é trazer a exposição para o Brasil.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/exposicao-nos-eua-poe-lado-a-lado-os-rostos-de-marielle-e-martin-luther-king/

Justiça decide verificar cumprimento do ensino da histórai afro-brasileira

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Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil

Pela primeira vez a Justiça foi favorável à verificação do cumprimento da Lei 10.639/2003, que incluiu no currículo oficial da rede de ensino e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. Em decisão unânime, a Quarta Câmara Cível do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro deu provimento ao recurso impetrado pelo Instituo de Pesquisa e Estudos Afro-brasileiros (Ipeafro) e ao Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara).

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O caso específico se refere ao município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e engloba escolas das redes municipal, estadual e particular. No pedido, os autores pleitearam “juntada dos currículos, grades curriculares e conteúdos das escolas requeridas e orientações das autoridades apontadas no polo passivo, para que, em perícia judicial, seja aferido o cumprimento ou descumprimento da lei 10.639/03”. Também são citadas a lei 11.645/2008, que inclui a obrigatoriedade do ensino da história indígena, e a lei 12.288/2010, que institui o Estatuto da Igualdade Racial.

Na decisão, relatada pelo desembargador Antônio Iloízio Barros Bastos, é ressaltado que não há provas quanto ao cumprimento da lei em nenhuma escola. “Até mesmo o acesso ao inquérito resta prejudicado, pois, em que pese a atuação diligente do ilustre Promotor de Justiça signatário do parecer de fls. 546, olvidou-se de mencionar o número do inquérito civil. Dessa forma, a ausência de documentos inviabiliza o direito dos autores de fiscalizar a aplicação da norma, o que evidencia a presença do interesse de agir”.

A decisão aponta também que há apenas alegação por parte dos apelados do cumprimento da referida lei. “Diferente do que afirma o Estado do Rio de Janeiro, de rigor não existe prova, mas sim, quando muito, mera alegação de cumprimento da lei, que não retira dos autores o interesse de agir. Nessa toada, não há falar em inexistência de resultado útil na reforma da sentença, pois persiste o interesse dos autores, no âmbito da legitimação disjuntiva, em tirar suas próprias conclusões a respeito da efetiva observância da lei modo a atender aos interesses coletivos”.

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O advogado do Iara Humberto Adami explicou que já faz mais de uma década que o movimento negro pede na Justiça que a lei 10.639/2003 seja cumprida. “Eu tinha feito, em 2005, representações ao Ministério Público Federal com 15 entidades do movimento negro. Essas denúncias foram espalhadas pelo Brasil, umas 5 mil ações multiplicadas pelos municípios. Daí abriram-se inquéritos civis públicos, com cada promotor ou procurador fazendo o inquérito e intimando as secretarias de educação e as diretoras de escola para saber porque não estava cumprindo a lei. Isso serviu como motivador para as pessoas conhecerem o problema”.

Adami lembrou que na época que integrou os quadros da extinta Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), foram enviados 1.200 ofícios cobrando as universidades públicas e privadas para oferecer formação sobre cultura e história afro-brasileiras. Porém, segundo ele, a maioria dos processos foi arquivado, muitos sem chegar a ser analisados.

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“Nessa decisão de [Duque de] Caxias, o promotor arquivou a denúncia do inquérito civil público, dizendo que estava em funcionamento. Mas não estava, como ainda não está em lugar nenhum. Alguns promotores disseram isso, promotores que não gostavam do tema, promotores evangélicos, que achavam que tudo que se fala em cultura da África é religiosa, aí vão lá e arquivam o inquérito dizendo que a lei está funcionando. Ou por falta de conhecimento, ou por comodidade. Outra promotora, em Itaperuna, arquivou dez inquéritos civis públicos dizendo que a lei era ilegal, inconstitucional e desnecessária”.

Ele disse que 15 anos após a aprovação da lei, os avanços que ocorreram na implementação foram por iniciativas próprias e isoladas de profissionais. “Quando a gente começou as denúncias, tinha quatro nãos: não tem professor, não tem livro, não tem dinheiro e não tem currículo. Hoje, depois desse tempo todo, as professoras de história da África vêm construindo isso, mas não pode dizer que está numa situação confortável. Em muitos lugares que você vai, e eu tenho andado pelo Brasil inteiro, vejo professoras fantásticas de história da África, mas isso não pode ser visto como política pública, sempre depende do esforço pontual e individual. E sem contar com orçamento público”.

Agora, com essa decisão favorável, Adami espera que a Justiça siga o modelo em outras ações e pede união do movimento negro para fazer a inspeção nas escolas.

“Não tem ninguém fiscalizando nada. A escola faz uma capoeira no 13 de maio e um samba no 20 de novembro e diz que está fazendo e tudo bem. Ninguém verifica. O movimento negro vem denunciando há um tempão o descumprimento da lei. Tem coisas boas que estão sendo feitas, mas como iniciativas individuais. Como política não se verifica isso”.adami3

Ainda cabe recurso da decisão de permitir a verificação da aplicação da lei 10.639/2003 no município de Duque de Caxias. A prefeitura informou que, para cumprir a lei, tem promovido capacitações para os docentes por meio da Secretaria Municipal de Educação, “além de grupos de estudos nas unidades escolares para subsidiar discussões com os professores e alunos sobre a temática, de forma ampla e transversal para toda a Rede Municipal de Ensino”.

Fonte;http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-04/justica-decide-verificar-cumprimento-do-ensino-da-historica-afro-brasileira

 

desenho de Winnie

 

Winnie Mandela, ela

a declaração de não-ficção, o vôo em

resolução de ficção,

vívido sobre a paisagem, um suntuoso

dom

para o nosso aquecimento, pomada na lacuna de

nossa ferida

as vezes

gostaria de ser uma menina novamente.

Saltando por uma estrada rural, cantando. 

Ou uma jovem mulher flertando

nenhum cuidado além de curl-tranças e pintura

e não afetando nenhuma mudança, sem desvios, sem

Jangle.

Mas Winnie Mandela, ela,

a Ela da nossa visão, o Código,

o ensaio articulado, a fundação

Mãe, deve

dirigir nosso coro de fabricantes e ampla

música.

Pense em plantas e ervas daninhas bonitas

o deserto.

Eles não podem fazer nada sobre isso (eles  são

contou)

quando o lixo é despejado em suas raízes.

Não tenha dúvidas de que eles estão indignados e

assustado.

Não é o que eles queriam.

– Trecho de Winnie por
Gwedolyn Brooks (1996)gwendolyn-brooks

Não é um engano que Winnie Madikizela-Mandela foi o tema da poesia de uma das melhores poetas americanos, Gwendolyn Brooks, que também passou a ser uma mulher negra. Não, não é um erro. Através da caneta de Brooks, vemos Winnie Mandela tanto pelo que ela era – a “pomada na brecha de nossa ferida” – quanto pelo que ela poderia querer ser – “uma mulher jovem, flertando, sem preocupações além de enrolar e pintar e pintar.” efetuando nenhuma mudança, sem desvios, sem jangle ”.

 

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Mas Winnie Madikizela-Mandela foi chocante. Ela era como uma pulseira no braço de um guerreiro; o nervoso tremor de nervos quando o problema está chegando.

E ainda, neste poema Brooks nos lembra que ela era muito mais. Ela nos lembra, ao se perguntar sobre uma Winnie imaginada – uma criança Winnie – que uma das tragédias do racismo é a medida em que ela impingiu a luta aos negros. Brooks invoca a inocência da infância para nos lembrar que crianças negras quase nunca foram liberadas.

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Na literatura, a criança que pula em uma estrada secundária é quase sempre branca. Nos livros, as crianças negras estão labutando; eles estão sob coação, também “correram” para sempre serem verdadeiramente despreocupados. E assim, ao reimaginar Winnie dessa maneira, Brooks nos pede para lembrar – pelo menos durante o tempo de seu poema – que para não ter “preocupações além das curvas” (como fazem os brancos), os negros sempre foram forçados a subir para a ocasião, e ser maior do que poderíamos querer ser.

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Esta semana, enquanto os sul-africanos prestavam homenagem a Madikizela-Mandela, eu suspeito que a maioria de nós sentiu a perda de sua passagem porque sabemos muito bem o fardo de ter que enfrentar a ocasião.

 

Ela era, de fato, o “sol vermelho brilhante para o nosso aquecimento”. Ainda assim, Brooks nos lembra que talvez Madikizela-Mandela – como o resto de nós que somos negros e mulheres e conscientes do peso dessas responsabilidades – teria preferido que o sol brilhasse igualmente sobre toda a humanidade. Ela teria preferido, imagino, se não houvesse racismo para combater, em primeiro lugar, nenhum demônio do apartheid para matar.

 

Este é o núcleo comovente no centro da tristeza que senti esta semana e a raiva, suponho. Ainda é difícil aceitar, todos esses anos em minha vida, que o sol não brilha igualmente para todos os sul-africanos.

 

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(in the Pic – Mrs Winnie Madikizela Mandela flanked by Deputy President Cyril Ramaphosa and EFF Leader Julius Malema share a light moment). Deputy President Cyril Ramaphosa attends the 80th birthday celebrations of Mrs Winnie Madikizela Mandela held at Mount Nelson Hotel in Cape Town. 14/09/2016, Elmond Jiyane, GCIS

Madikizela-Mandela e seus companheiros que lutaram por uma sociedade mais justa sabiam disso muito antes de eu nascer. Seus esforços facilitaram minha vida e, por isso, não consigo imaginar como esse conhecimento deve ter sido pesado para eles.

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Eu não perdeu meu tempo em me distrair com racistas. Nós vivemos em um país que agora ostensivamente pertence a todos nós. Esta semana, onda após onda de invectivas lavadas em todo o país para atender a notícia da morte de Madikizela-Mandela. Um exército de brancos irados e irritados, que não vêem futuro para si neste país, fez a sua presença conhecida como defensores de um menino cujo nome nunca tocou seus lábios antes e cuja memória não significa nada para eles.

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Instituições da mídia entraram em ação: as que tinham espalhado a fealdade sobre ela através de suas páginas na vida seguiam o mesmo roteiro antigo. Os guerreiros do arco-íris – confusos porque a nova África do Sul não quer falar sobre raiva, mas gosta de falar sobre nossa história compartilhada – não sabiam o que fazer com eles mesmos.

Houve desordem.

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Mas Winnie Madikizela-Mandela “a mãe fundadora da Nação” ainda estava conosco. Pairando entre este mundo e o seguinte, ela enviou um contra-exército. Um batalhão de mulheres e jovens sul-africanos reagiu. Assumimos o trabalho de corrigir o registro e contar as histórias, de questionar a ortodoxia ao seu redor, não porque nos importamos com racistas, mas porque nos importamos com nosso próprio futuro. Nossas respostas não foram distrações – elas foram cruciais para o trabalho de construção da nação.

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Como o poeta Lebo Mashile observou, restaurar e construir os legados das mulheres negras sempre foi deixado para as mulheres negras. Esta semana foi um show de poder – uma demonstração que, como diz o ditado: “Você bate uma mulher, você bate uma pedra.” Como Shireen Hassim, da Universidade de Witwatersrand, observou, nas horas após a morte de Madikizela-Mandela, instituições de mídia saltou para “reconhecer errado” ela – e suas legiões de apoiadores se recusaram a permitir que isso acontecesse.

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No entanto, é crucial notar que Madikizela-Mandela não pertence apenas às mulheres negras. Eu continuo acreditando que a África do Sul ainda pode ser um país que pertence a todos que vivem nele, independentemente da cor da sua pele. Se esse ideal é para ser realizado, então os sul-africanos devem se elevar à ocasião. A história de Mama Winnie, claro, pertence a todos nós. Sua vida vale a pena ser examinada por sua coragem, realização e complexidade. A história dela é tão essencialmente sul-africana, tão fundamentalmente feminista e tão profundamente africana que deve ser ensinada nas escolas – não de passagem, como um apêndice, mas por direito próprio.

 

Depois que Mama  Winnie é colocada para descansar, precisamos continuar o trabalho de construir monumentos para ela. Pode haver algumas estátuas de pedra que são erguidas. Eu não vou me opor a eles. Ainda assim, são os monumentos de carne e osso que mais me interessam: as bolsas de estudos e palestras anuais, os fundos para uniformes escolares e absorventes que devem ser coletados em seu nome, os acampamentos para crianças de vilarejos, os passeios desafiadores que devemos organizar. É através de tudo isso que espero que Madikizela-Mandela seja homenageada.

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Eu imagino duas mulheres velhas que são jovens novamente. Eles se cumprimentam no limiar dos céus. Seus olhos brilham. Gwendolyn pega o braço de Winnie e, juntos, como garotinhas de novo, vejo-os “pulando por uma estrada secundária, cantando”.

Hamba kahle, mamãe.

Sisonke Msimang é o autor de Sempre Outro País: Uma Memória do Exílio e do Lar (Jonathan Ball, 2017)

Sisonke Msimang

 

Fonte: https://mg.co.za/article/2018-04-06-00-reimagining-an-unburdened-winnie

Muito além de ser esposa de Mandela

 

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A maioria dos grandes homens da história quase sempre tem o dom raro de ser apoiada por mulheres fortes, mas muitas vezes complicadas. O falecido ícone sul-africano e um dos maiores homens do século passado, Nelson Mandela, não foi exceção. Sua ex-esposa, Winnie Madikizela-Mandela, que faleceu essa semana, era uma dessas mulheres. Sua fidelidade estóica a Mandela era talvez o vínculo mais forte que mantinha seu próprio compromisso vivo e continha aquela teimosa esperança de que, no final de seu sacrifício, esperá-lo seria um símbolo de amor e solidariedade permanente.

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Ao longo dos 27 anos que o falecido Mandela permaneceu em encarceramento, seu anseio por sua amada Winnie também se tornou simbólico de seu anseio pela amada pátria. Assim, em sua célebre coleção, “Cartas para Winnie”, é muito claro que ela era para Mandela tanto uma âncora emocional quanto uma personificação da esperança patriótica. Sendo humano, a longa ausência de Mandela testou a força de Winnie até os limites e o sistema fez muito para danificá-la.winnie-mandela

É instrutivo sublinhar que Winnie não era apenas mais uma mulher à espera de um marido preso. Ela abraçou e incorporou a luta contra o apartheid com força total. Ela permaneceu na linha de frente da luta contra o regime que oprimia os negros em seu próprio país. Seu papel como um dos líderes do Congresso Nacional Africano (ANC) não se restringiu ao papel das mulheres. Ela também liderou e apoiou a ala juvenil de tal forma que, no final, ela era muito mais do que a esposa de Mandela.

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Como era de se esperar, as maquinações malignas do regime do apartheid lutaram contra Winnie em igual medida. As acusações inventadas, inclusive por assassinato, foram levantadas contra ela. Mesmo onde a lei da evidência bruta forçou um veredicto de culpado, o contexto político de seus supostos crimes nunca foi perdido em seus seguidores e no resto do mundo. Sua seriedade política era mais importante do que os detalhes técnicos da invenção legal.

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Permanece historicamente significativo que quando Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, ele estava de mãos dadas com Winnie; o amor da sua vida e companheiro eterno na luta contra o apartheid e a impunidade racista. Mas então o dano havia sido feito em seu casamento. Tentou, como os dois, fazer o papel em cima da rachadura, os longos anos de separação e as pressões da luta cobraram seu preço. Eventualmente, eles tiveram que seguir caminhos separados. Mas a separação e o divórcio que naturalmente se seguiram se tornaram insignificantes contra o pano de fundo das lutas titânicas que eles suportaram e sobreviveram juntos. O que se seguiu foram entradas em uma mera nota de rodapé humana.

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Com certeza, Winnie tinha seus defeitos e ela nunca se dava bem com eles desde que ela estava sob constante holofote. O governo pós-apartheid liderado por seu ex-marido estabeleceu um Comitê de Verdade e Reconciliação para investigar abusos de direitos humanos no passado e várias atividades violentas foram creditadas a ela durante os anos 80. Mas ela manteve o carinho de muitos de seus apoiadores dentro do ANC que a apelidaram de “Mãe da Nação”. Como figura sênior do ANC, ela também ocupou vários cargos no governo, inclusive sendo vice-ministra de Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia antes de ser demitida por alegações de corrupção. No entanto, isso nem sequer a diminuiu aos olhos de seus partidários.

Como o mundo, portanto, lamenta a morte de Winnie Madikizela-Mandela, é seu papel como uma personagem histórica e os sacrifícios que ela fez por seu país e, de fato, pela raça negra que lega como legados. Como Shakespeare diz no rei Lear: “Após tais sacrifícios, os próprios deuses jogam incenso”.

 

http://allafrica.com/stories/201804030279.html

 

 

Quem foi Winnie Mandela?

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Joanesburgo – Winnie Madikizela-Mandela, nasceu a 26 de Setembro de 1936, na pequena aldeia de Mbongueni, em Bizana, na província de Cabo Oriental (à época o bantustão de Transquei).

Nascida Nomzamo Winifred Zanyiwe Madikizela, ficou mundialmente conhecida como esposa de Nelson Mandela, durante o período da prisão do líder sul-africano.

Com a libertação deste, escândalos do seu alegado envolvimento em crimes e de infidelidade causaram a separação do casal e a consequente perda de prestígio.

O seu nome original, em xossa, era Nomzamo (aquela que tenta). É a quarta de oito filhos de Columbus, ministro das Florestas e Agricultura do governo do bantustão natal e da professora Nomathamsanqa Mzaidume (de nome ocidental Gertrude), que morreu quando Winnie tinha oito anos.Bizana.png

Fez os estudos primários em Bizana e, dali, ingressou na Shawbury High School. Em 1953 mudou-se para Joanesburgo, onde foi admitida na Jan Hofmeyr School of Social Work, onde se formou dois anos depois, ocasião em que recusa uma bolsa dos EUA, optando por trabalhar num hospital para negros da capital.

Durante o seu trabalho realizou uma pesquisa sobre a mortalidade infantil, no subúrbio de Alexandra, o que a levou a interessar-se pela política, envolvendo-se com o Congresso Nacional Africano (ANC).winniw4

Em 1957, conhece Nelson Mandela, que então respondia ao julgamento por traição e casam-se a 19 de Junho de 1958, passando ambos a morar no subúrbio pobre de Soweto. Tiveram duas filhas, Zenani (1959) e Zinzi (1960).

Winnie sofreria as ações persecutórias do regime racista do Apartheid, a partir de 1962: ordens judiciais de restrição que a impediam de trabalhar e de lutar em causas sociais e a mantinham confinada ao distrito de Orlando, em Soweto.winnie1a

Tudo isso aumentou a sua militância e o trabalho clandestino em prol do ANC.

Após enviar as duas filhas para um internato na Swazilândia, visando privá-las das perseguições que os pais sofriam, foi detida em 1969, ao abrigo da Lei anti-terrorismo, passando 17 meses na cadeia e, a partir de 1970, em prisão domiciliar – período em que sofreu vários processos.

Em 1976, durante as revoltas juvenis, criou a Federação das Mulheres Negras e a Associação dos Pais Negros, ambas afiliadas ao Movimento da Consciência Negra – organização que adoptava uma visão positiva da cultura negra.

Este envolvimento levou-a a nova prisão, em 1977, e a sua deportação para o “Estado Livre” de Orange.

Retornando, em 1986, a sua oposição ao regime criou uma milícia particular, travestida de equipa de futebol (o Mandela United Football Club), o que aumentou o seu distanciamento dos demais militantes anti-apartheid, em 1988.mandela-2-4.jpg

Quando da libertação de Mandela, em 11 de Fevereiro de 1990, Winnie ainda apareceu ao seu lado, como a “mama” da luta contra o regime – mas dois anos depois divorciaram-se.

Após isto, ela transformou a sua casa, em Orlando, num museu e adoptou o sobrenome de Madikizela-Mandela. A partir de 1991 vê-se envolvida em diversas polémicas, sendo então banida do ANC e outras instituições, após ser acusada da morte de um jovem militante, que ela suspeitava ser informante da polícia.

Condenada no ano seguinte, teve a prisão comutada em multa; apesar disso, em 1993, retorna ao cenário político, sendo eleita presidenta da Liga das Mulheres do ANC, cargo que ocupou até 2003.

Durante o governo do ex-marido, Winnie ocupou o cargo de Ministra das Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia (1994), mas foi demitida, sob alegação de desvios de fundos.

Em 2003 renuncia à presidência da Liga das Mulheres, mas é eleita para o Comité Executivo Nacional do ANC, durante a sua 52ª Conferência Nacional, em 2009.

Fonte:http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2018/3/14/Winnie-Mandela-Notas-biograficas,fd11232a-de8f-490b-8a16-b63744d38840.html

Vereadora negra de Niterói é ameaçada de morte

Talíria Petrone

Publicado no Brasil de Fato

Única mulher negra e feminista na Câmara Municipal de Niterói (RJ), Talíria Petrone, 32 anos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vem sofrendo ameaças desde o início do mandato.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ela conta como a violência das redes sociais logo se transformou em ameaças reais à sua integridade. No entanto, afirma que embora tenham reforçado a sua segurança, o movimento maior não é de recuo.

A vereadora classifica a execução da também vereador e amiga Marielle Franco, ocorrida há um mês no Rio de Janeiro, como uma tentativa de amedrontamento dos ativistas dos direitos humanos. “Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Marielles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava”, disse.

Na última quarta-feira, 28 de março, a Polícia Civil identificou e interrogou um homem que ameaçava a vereadora Talíria de morte. A parlamentar havia registrado queixa em novembro na 76ª Delegacia de Polícia, em Niterói, depois de receber ligações sistemáticas do suspeito onde ele afirmava que iria explodir a sede do partido com uma bomba.

De acordo com a assessoria da vereadora, o suspeito teria admitido à polícia que fez as ameaças “por motivos políticos”.

Segundo informações divulgadas na imprensa, o suspeito prestou depoimento, mas não foi detido, pois as ameaças configuram como um crime de menor potencial.

taliria.1abConfira a entrevista com a vereadora.

Brasil de Fato: Primeiro gostaria que falasse um pouquinho como você a violência que leva a mortalidade de candidatas e candidatos sendo uma ferramenta do jogo político, que é o que os dados mostram.

Talíria Petrone: Acho que a gente chegou num patamar no Brasil que tem como culminância o assassinato da Marielle. É o ataque ao resto de democracia que não se completou no Brasil e já vem há um tempo uma polarização que cresce no setor de extrema direita, do ódio que se soma a violência na política. É uma urgência que os olhos internacionais se voltem para o Brasil para interromper esse processo de ataque a essa democracia incompleta porque é a possibilidade hoje de dizer, de denunciar a agir nos mínimos marcos da democracia burguesa.  O que eu espero neste momento é que a gente tenha cada vez mais os olhos no mundo. Entendemos que o Brasil é o país que mais assassina ativistas de direitos humanos e o quanto a liberdade de fazer denúncias têm sido interrompida.taliria.1a

 Sim, perfeito. E Talíria, há relatos inclusive de outros companheiros do PSOL que você mesmo estaria sofrendo ameaças sistemáticas de morte, você confirma?

Desde o início do mandato vimos a violência que se manifesta muito nas redes. Recebi mensagens desde “neguinha nojenta”, “volta pra senzala”, até “merece uma 9mm na nuca”, “se eu encontrar mato na paulada”, até que em novembro culminou em ligações sistemáticas para a sede do PSOL em Niterói, pedindo  telefone da “piranha que o povo elegeu”, e dizendo que iria explodir uma bomba. A gente registrou uma queixa na DP 76, agora com isso tudo nada pode ser desprezado. Estamos mais atentos. Tem uma coisa que é apurar o que aconteceu com a Mari [Marielle] mas do que quem apertou o gatilho, mas quem mandou matar e de que esfera do poder veio a ordem porque sabemos que é um crime político, precisamos saber da onde veio esse recado. Essa tentativa de silenciamento das nossas pautas.

Por último, queria que você falasse um pouco quais são as medidas que seu gabinete e o PSOL tomam para garantir sua segurança, algo mudou? 

A gente está conversando com especialistas, não tem muitos detalhes, mas o mais breve possível estaremos circulando de forma mais segura pela cidade. Já estamos tomando mais cuidado e formalizando medidas para andar mais seguro. Acho que é importante dizer que embora estejamos tomando medidas de maior precaução, a gente não está dando nenhum passo atrás. Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Meirelles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava.

Mortes de políticos

Dados compilados pelo Brasil de Fato a partir de dados públicos do TSE, o Datasus e por meio de notícias veiculadas pela imprensa revelam que cerca de 90 prefeitos e vereadores em exercício foram assassinados no Brasil entre 2008 e 2018.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/merece-uma-9-mm-na-nuca-vereadora-do-psol-amiga-de-marielle-e-ameacada-de-morte/

Anistia Internacional denuncia violação dos direitos humanos de empresa chinesa em Moçambique

A Amnistia Internacional acusa a empresa mineira chinesa Haiyu Mozambique Mining de violar as leis moçambicanas e internacionais numa exploração de areias pesadas em Nagonha (Nampula), considerando que a operação mineira resultou no desalojamento de 290 pessoas.


África 21 Digital com Lusa


“A Haiyu violou a legislação nacional nas áreas do ambiente e da exploração mineira. Antes de estabelecer as suas operações, a empresa não consultou os residentes de Nagonha; não realizou uma Avaliação de Impacto Ambiental adequada para identificar os riscos de minerar e despejar areias nas zonas húmidas; e não monitorizou e reportou os seus próprios impactos ambientais ao governo para verificação e aprovação”, indica a Amnistia Internacional num relatório que será hoje apresentado em Maputo.

No relatório “As Nossas Vidas Não Valem Nada – O Custo Humano da Exploração Mineira Chinesa em Nagonha, Moçambique”, a organização de direitos humanos considera que “as práticas da Haiyu transformaram a topografia da área e afetaram o sistema de drenagem das zonas húmidas”, alterações que “tiveram impactos negativos sobre o ambiente e a população local”.

O mais importante desses impactos deu-se na manhã de 07 de fevereiro de 2015, quando uma inundação súbita destruiu parcialmente Nagonha, uma aldeia litoral no distrito de Angoche, na província de Nampula, norte de Moçambique.

“Quarenta e oito casas foram imediatamente arrastadas para o mar, pois a água das inundações abriu um novo canal em direção ao mar que atravessou a aldeia, dividindo em duas a duna sobre a qual a aldeia está situada. As inundações deixaram cerca de 290 pessoas desalojadas. A edilidade local registou mais 173 casas parcialmente destruídas”, recorda a Amnistia Internacional (AI).

Segundo os especialistas consultados pela AI, esta situação deveu-se ao “impacto das operações mineiras da Haiyu (…), nomeadamente o impacto das contínuas descargas de areias da mineração sobre as zonas húmidas e os cursos de água”, o que causou alteração na topografia e, em última análise, as inundações de Nagonha em 2015.

Por outro lado, quando confrontada pelos residentes desalojados de Nagonha para a necessidade de os compensar pelos estragos, a empresa chinesa primeiro recusou e depois apresentou uma proposta considerada inaceitável.

“O plano de reassentamento proposto pela Haiyu era extremamente inadequado e os residentes de Nagonha sentiram-se insultados e recusaram a oferta”, escreve a AI.

Ou seja, para a organização não-governamental, “a Haiyu (…) não seguiu o processo de diligência devida adequado em termos de direitos humanos para identificar, impedir, atenuar e, se necessário, reparar os impactos adversos das suas operações sobre os residentes”.

A AI considera também que o Governo moçambicano sabia que a Haiyu não tinha feito as avaliações de impactos ambientais nem, como é de lei, consultou os residentes em Nagonha para obter deles o “direito de uso e aproveitamento da terra” (DUAT), um direito que estes têm quando vivem num terreno por mais de dez anos.

“O Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural (MITADER) tinha conhecimento de que a Haiyu não tinha consultado e ouvido os residentes de Nagonha para obter a transferência do DUAT” e “sabia que a Haiyu não tinha realizado as auditorias de impacto ambiental”, adianta a AI.

Ainda assim, concluiu a AI, o governo permitiu que a Haiyu avançasse com a exploração mineira em Nagonha.

“Apesar das provas sobre os impactos negativos das operações mineiras sobre as pessoas de Nagonha, o governo permitiu a continuação de práticas de exploração mineira prejudiciais, sem qualquer controlo. (…) As falhas do governo em fazer cumprir a legislação e regulamentos existentes constituem uma omissão evidente no seu dever de proteger os direitos humanos de interferências de atores não estatais”, aponta a ONG.

A Haiyu, que explora areias pesadas em duas concessões em Nampula (Nagonha e Sangage) desde 2011, das quais extrai minerais como a ilmenite, o titânio e o zircão, continua a negar qualquer responsabilidade.

“Em primeiro lugar, as chuvas foram intensas, muito violentas e de uma escala nunca vista durante 100 anos. Isto constitui força maior. Foi uma catástrofe natural e não provocado por atividade humana. Em segundo lugar, a extração de areias pesadas envolve a separação por gravidade e os resíduos (na forma de areia branca, neste caso) são devolvidos ao seu ponto de origem, imediatamente após a separação. 99% da areia permanece no seu ponto de origem e não é extraída. Isto contradiz a ideia de que houve uma alteração no canal para as águas subterrâneas, o que não é verdade”, argumentou a empresa numa mensagem à AI.

Após ouvir especialistas, a AI considerou que “a reivindicação de que as chuvas de Fevereiro de 2015 ‘foram de uma escala nunca vista durante 100 anos’ é falsa”.

A Haiyu continua a despejar areias sobre as zonas húmidas até hoje.

Fonte:https://africa21digital.com/2018/03/28/chinesa-haiyu-viola-leis-de-mocambique-acusa-a-amnistia-internacional/

Entenda por que Marielle era única: os negros na política

Racismo, desigualdade e distribuição desequilibrada de recursos nas campanhas e nos partidos são principais responsáveis pela subrepresentação dos negros na política. Conheça as lideranças e estudiosos que querem mudar esse cenário

publicado 21/03/2018 por PAULA SILVA

Audima

Na Câmara dos deputados, onde há apenas duas deputadas negras, sessão em homenagem a Marielle Franco. (Foto: Lula Marques)

Marielle Franco era uma das 32 vereadoras negras eleitas no Brasil em 2016. Trinta e duas vereadoras de um total de 811 vereadores. Além da avalanche de protestos nas ruas e redes sociais, o assassinato e do motorista Anderson Pedro Gomes levanta discussões sobre a sub-representação de pessoas negras na política.Num país onde pessoas negras são mais da metade da população total (54%, de acordo com o IBGE), é até irônico o fato destes homens brancos da elite carregarem a responsabilidade de representar essas pessoas no Congresso Nacional. Há pretos e pretas ocupando cargos na política, mas são minoria: na Assembleia Legislativa de São Paulo, por exemplo, dos 94 parlamentares em atividade, somente quatro são negros. O único representante negro no Senado é Paulo Paim (PT-RS).

“O racismo estrutural brasileiro é responsável pelo baixo índice de negros e negras nos espaços de visibilidade positiva, prestígio e poder no Brasil”, observa Osmar Teixeira Gaspar, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Em estudo sobre a sub-representação dos negros na política, ele destaca que existe uma mobilização social velada para que os brasileiros que descendem da forçada diáspora africana não ocupem locais importantes de prestígio e destaque, como é o caso da política. Assim, entende-se que quem deve ocupar esses locais são justamente as pessoas brancas e ricas. “Por esse prisma, pode-se compreender que legislar no Brasil seja, supostamente, uma atribuição exclusivamente de brancos ricos”, diz.

“Para poder me colocar em condições de ser candidato, eu precisei sair da minha condição de homem negro periférico, para uma outra condição, a de homem negro de classe média”, lembra Marcio Black, 41 anos, cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Membro do coletivo Bancada Ativista, foi candidato a vereador em 2016 pelo REDE. Ele conta que, para conseguir ser candidato, teve que financiar a própria campanha, já que os partidos de esquerda possuem baixos valores para financiamentos desse tipo. E estes valores são destinados, em sua maioria, para candidatos “com maior apelo eleitoral”, por assim dizer. O que não inclui os pretos e as pretas. Dessa forma, as candidaturas dessas pessoas não alavanca. “Então, os partidos de esquerda por exemplo, que, em tese, deveriam investir mais nessas candidaturas, investem em outras pessoas e não nas candidaturas de pessoas negras.”

Política de cotas: nas assembleias ou nos partidos?

Diante dessa discrepância entre negros e brancos no cenário político, fica a pergunta: o que pode ser feito? O que os partidos podem fazer para que haja uma maior inclusão de candidatos negros?

“Os partidos veem isso como algo setorial, e nós negros não somos setoriais. Nós somos maioria no país”, declara Adriana Vasconcellos, 46 anos, assessora do candidato a Deputado Estadual Toninho Vespoli (PSOL-SP). Ela, que também é professora e lançará sua candidatura a deputada federal em breve pelo mesmo partido, foi candidata a vereadora em 2016, mas não foi eleita. Ela observa que a questão do racismo precisa ser mais levada a sério pelos partidos. “Enquanto não se entender que o debate do racismo tem que ser muito profundo e efetivo, a gente ainda vai ter poucas candidaturas negras, ou vamos ter só alguns pra dizer ‘olha, nós estamos olhando para a pauta.”

A política de cotas no Legislativo seria a solução? Para Marcio Black, sim. Mas não agora. “Eu acho que é uma boa ideia, mas nesse momento investiria mais nas cotas nos partidos, e não nas Assembleias, não no parlamento. A gente ainda não tem negros em posição de se financiarem. A gente não tem coletivos negros que consigam suportar estas candidaturas e a gente não tem partidos investindo nesses projetos. O que pode acontecer é justamente a gente implementar as cotas nos parlamentos, mas a gente não ter pessoas com recursos para poderem ocupar essas vagas.”

Adriana acredita na efetividade das cotas tanto nos partidos quanto nas Assembleias por algumas razões: “Nós somos seres políticos. E o povo preto mais ainda. A gente não começou a fazer política ontem, nós fazemos política desde quando fomos sequestrados. Nós não conseguimos chegar lá devido à falta de acesso à educação que nos foi negado. Ela destaca ainda a questão da auto-estima da população negra. “Porque é colocado pra gente que aquele não é o nosso lugar. É a questão do pertencimento. Por que sempre tem que ter alguém pra falar por mim, e por que essa pessoa sempre tem que ser branca?”, questiona.

Gaspar avalia que, mesmo se beneficiando das lutas políticas dos brasileiros negros e dos benefícios decorrentes destas, boa parte dos brancos pobres no Brasil não se solidariza com os negros. “Em geral, os brancos pobres negam-lhes todo tipo de solidariedade, especialmente nas urnas, colaborando desse modo para colocar rígidos obstáculos à mobilidade social ascendente de negros e negras no Legislativo nacional”, afirma.

Segundo Gaspar, a elite branca continua na política porque um grande número de pessoas brancas pobres vota nela, acreditando que estes homens brancos e ricos podem solucionar os problemas do país. Com essa confiança adquirida, afirma ele, a elite branca presume que pode tomar para si o direito de controlar a política e falar por todos – incluindo as minorias que ignoram. “Por essa razão que advogamos a necessidade imediata de se implementar cotas raciais no Legislativo brasileiro, para reduzir o controle, a influência e a tomada de decisões políticas isoladas por um único grupo de brasileiros; os mais ricos e brancos”, completa o pesquisador.

A representatividade e a direita

Mas existem aqueles que não pensam da mesma forma, ainda que pertencentes a uma minoria social. Talvez o nome mais icônico nesta questão seja o vereador Fernando Holiday (DEM-SP). Entusiasta da política liberal, ele despreza o Movimento Negro e suas pautas com propostas como a revogação da política de cotas raciais e o fim do feriado de 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra.

Ele tornou-se um ícone da direita por meio do Movimento Brasil Livre (MBL), ao lado de seu fundador e amigo Kim Kataguiri. Holiday também é um ícone entre aqueles que compartilham dos mesmos posicionamentos que ele, mas a maioria das lideranças negras discorda de suas bandeiras. “Holiday, a meu ver, faz em seu mandato práticas políticas que podem não ser úteis para a população negra, especialmente para os mais pobres.”

“Eu acho ok ele estar lá, eu não vejo problema”, diz Marcio. “É um corpo negro que está ocupando aquele espaço. Eu acredito que representatividade de fato não é somente o corpo negro estar lá. Esse corpo negro precisa portar um projeto político para a manutenção desses corpos, de uma política que também seja negra para ser realmente representativa.”

O pesquisador da USP acredita que a internet irá auxiliar a população negra a diferenciar estes discursos (tanto da esquerda, quanto da direita e do centro), fazendo com que optem por aqueles que melhor compartilham de suas convicções. A negritude politizada não irá dar seus votos para quem carrega discursos que pouco lhes convém.

“Nesta perspectiva, tenho para mim que políticos e eleitores negros ditos de direita só poderão obter sucesso no seu próprio meio, o qual, a meu ver, é significativamente reduzido para atuação do político negro, pois, a rigor, os eleitores mais conservadores se encontram geralmente entre os mais ricos que, por sua vez, por serem conservadores, podem não apoiar candidaturas negras, salvo quando estas se destinarem a preservar os seus seculares privilégios”.

Recuo?

Para Gaspar, o cenário atual pode prejudicar ainda mais a participação do povo negro na política, visto que o Brasil perpetua as raízes do racismo diariamente em vários aspectos sociais.  Essa rígida estruturação racial acaba desestimulando-os nesse sentido. “Os negros brasileiros se encontram diante de um processo eleitoral extremamente injusto onde os candidatos mais ricos e brancos, geralmente dispõem de tempo livre para tocarem as suas campanhas muito antes do período previsto pela legislação eleitoral.”

O privilégio da branquitude entra aí: a maioria dos candidatos que vemos nas propagandas eleitorais é de homens brancos de classe média alta, com o currículo recheado de mestrados e doutorados nas melhores universidades públicas e particulares do Brasil e do mundo. Estes ganham maior atenção dos eleitores, porque a população acredita que eles têm aquilo que é necessário para administrar uma vida pública. Assim, eles ganham a confiança e o voto dos brasileiros. Enquanto isso, os candidatos de origem periférica ganham a desconfiança e o julgamento por defenderem pautas relacionadas aos Direitos Humanos.  A morte de Marielle Franco pode trazer um estímulo maior para o povo preto politizado e seus eleitores. Então agora seria o melhor momento para que o Movimento Negro se mobilize na corrida eleitoral. “Casos como o da Marielle são para nos fortalecer, porque passaram um recado muito claro para a gente: aqui não é o seu lugar. Aqui não é lugar para preto, não é lugar pra favelado, não é lugar pra quem defende os Direitos Humanos”, afirma Marcio.

Isso pôde ser percebido na repercussão que o caso tomou no dia seguinte do fato: foram convocados atos em nome de Marielle no Brasil inteiro e no exterior; artigos e grandes reportagens foram publicadas contando a história de luta da vereadora e os rumos que o cenário político atual pode tomar depois da fatídica noite de 14 de Março; os partidos de esquerda estão organizando às pressas reuniões para convocar as minorias sociais para a luta nas urnas – para enfrentar  o crescimento do conservadorismo e da confiança de candidatos à Presidência da República com forte apelo popular por entusiastas da extrema-direita, como o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ex-militar da ditadura que possui milhões de seguidores em suas redes sociais.

A luta continua depois do luto

“Se a gente não tivesse mexendo com os donos do poder, se a gente não tivesse incomodando, a Marielle não teria morrido. Então agora a gente precisa aumentar esse incômodo”, diz Marcio.

O que se tem observado é que muita gente passou a conhecer a Marielle e seu trabalho após sua morte. Isso vem gerando um debate importante nas redes sociais sobre a necessidade de se conhecer quem está representando as minorias no Legislativo, principalmente as mulheres negras que estão nessa luta, ainda que em menor número. “Você tem o homem branco, a mulher branca, ainda que em número reduzido, e você tem pouquíssimas mulheres negras”, diz Adriana.

“A História tem nos ensinado que as mulheres negras são nossos pilares de resistência política desde o cativeiro”, reflete Gaspar. Ele também acredita que o ocorrido com Marielle poderá estimular outras jovens negras a enfrentarem o racismo brasileiro a fim de reduzir as diferenças sociais. “Penso que a morte de Mariele Franco não poderá ter sido em vão, mas em prol da luta para se enfrentar os poderosos e as profundas diferenças sociais no Brasil”.

Algumas pretas já estão na luta para mudar essa realidade: Áurea Carolina (PSOL) foi a vereadora mais votada de Belo Horizonte; Talíria Petrone (PSOL) e Verônica Lima (PT) foram as únicas vereadoras negras eleitas na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Talíria era uma grande amiga de Marielle; Benedita da Silva (PT), que já foi governadora do Rio de Janeiro, senadora e atualmente é deputada federal; Leci Brandão (PCdoB) foi a segunda mulher negra eleita deputada federal, sendo reeleita em 2014; Olívia Santana (PCdoB) é secretária de Políticas Públicas para Mulheres do estado da Bahia e já foi vereadora de Salvador; Jupiara Castro é um dos nomes importantes que ajudaram a fundar partidos como PT, PSTU E PSOL. Ela também fundou o Núcleo de Consciência Negra da USP; e outras tantas que ainda virão, porque a luta continua depois do luto.

“Nós estamos no caminho certo. A gente tem que ir pra cima pra eleger ao menos mais duas ou três Marielles”, afirma Marcio. Adriana concorda: “Esse retrocesso todo foi porque eles perceberam que as meninas negras estão se politizando. Eu acredito que vamos ter muito mais Marielles por aí”.

SOBRE @ AUTOR@: PAULA SILVA

Paula Silva
Estudante de Jornalismo, preta, feminista, adora desenho japonês, Star Wars e la

“O Caso do Homem Errado”, de Camila de Moraes

Documentário “O Caso do Homem Errado”, de Camila de Moraes, é segundo longa-metragem dirigido por uma mulher negra exibido comercialmente no país. Filme aborda violência policial contra negros.

Camila Moraes segura cartaz de seu filme em manifestação contra violência policial contra negros, em Porto AlegreCamila de Moraes segura cartaz de seu filme em manifestação contra violência policial contra negros, em Porto Alegre

Pela segunda vez na história do cinema brasileiro, um longa-metragem dirigido exclusivamente por uma mulher negra chega ao circuito comercial. O Caso do Homem Errado, da diretora Camila de Moraes, entra em cartaz no dia 22 de março em Porto Alegre.csm_18122017NR2028_e43ede1f4e

O longa documentário aborda a violência policial contra a juventude negra. Ele foi selecionado em 2017 para o Festival de Cinema de Gramado e ganhou o prêmio de melhor longa-metragem no 9º Festival Internacional de Cine Latino – Latinuy.

A última vez que um longa dirigido por uma negra chegou ao circuito comercial foi em 1984, com o filme de ficção Amor Maldito (1984), de Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra do Brasil.

De acordo com levantamento do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (GEMAA-UERJ), a participação das mulheres em cargos de direção em filmes brasileiros aumentou nas últimas décadas, passando de 3% nos anos 1980 para 10% em 2016. Mas isso não inclui mulheres negras.

Segundo dados da Ancine, dos 142 longas-metragens brasileiros lançados nos cinemas em 2016, 75,4% dos diretores são homens brancos, e 19,7%, mulheres brancas, enquanto homens negros representam apenas 2,1%, e mulheres negras não assinaram nenhuma produção.

Essa ausência nas salas de cinema, no entanto, não condiz com o atual cenário de profissionais e cineastas negros no Brasil. Exemplo disso é o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe, que em 2017 chegou à sua décima edição contando com 66 produções nacionais.

Para Renato Cândido, vice-presidente da Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), a ausência de diretoras negras em cartaz ao longo de 34 anos mostra uma estrutura racista institucionalizada.

“Se os cargos de decisão estão nas mãos de homens brancos. as narrativas dessa branquitude também serão preponderantes”, afirma ele.

O Caso do Homem Errado conta a história de Júlio Cesar de Melo Pinto, homem negro que foi executado pela polícia de Porto Alegre em 1987.

Detido como sendo um dos assaltantes de um supermercado, o operário tinha saído de casa sem RG e sofreu um ataque epilético antes de ser preso erroneamente pela Brigada Militar. Júlio César foi fotografado sendo colocado com vida na viatura, mas meia hora depois chegou ao pronto socorro morto, baleado por dois tiros.

Embora tenha acontecido há mais de 30 anos, o episódio continua atual. Segundo o Mapa da Violência divulgado em 2017 pelo escritório brasileiro da ONU, a cada dez pessoas assassinadas no Brasil, sete são negras. Negros têm 12 vezes mais chances de serem assassinados no Brasil do que não negros. E, dos jovens de 15 a 29 anos, um negro é morto a cada 23 minutos.

Gravação de O Caso do Homem Errado, de Camila MoraesLonga conta a história do operário negro Júlio Cesar de Melo Pinto, que foi executado pela polícia de Porto Alegre em 1987

Os percalços até a sala de cinema

Entre os entraves para chegar à exibição comercial, Moraes aponta tanto a dificuldade para obter financiamento quanto o racismo institucional.

Ela conta que o processo para viabilizar O Caso do Homem Errado começou em 2010 e, apesar da parceria com uma produtora de cinema, só se concretizou a partir do apoio financeiro da comunidade negra de Porto Alegre.

A cineasta conta emocionada que está desde maio procurando uma distribuidora, mas nenhuma se interessou. Para Moraes, isso acontece porque muitos não consideram o tema do racismo relevante.

“Em uma delas, a pessoa me falou que o nosso filme não tinha o perfil. Mas não é a família dela que está sendo morta. Enquanto a sociedade brasileira não entender que a população negra está sendo morta, nosso filme nunca vai ter o perfil”, afirma.

Sem distribuidora, o trabalho de regulamentar o filme e de negociar com as salas de exibição está sendo feito por ela e por Mariani Ferreira, que também é negra e assina a produção executiva do filme.

“Estamos negociando com salas de outras cinco capitais [além de Porto Alegre], é um processo de formiguinha”, explica Moraes.

Segundo Cândido, parte dos filmes produzidos por cineastas negros tem melhor repercussão no exterior do que nacionalmente. “É difícil dialogar com o mercado. Ele quase nunca nos enxerga como consumidor, como narrativa que possa vender, temos que criar nossas distribuidoras e parques de exibição. Mas ao mesmo tempo estamos tentando construir diálogos.”

Enquanto isso, apesar de o documentário de Moraes alcançar o feito de ser o segundo longa-metragem de uma diretora negra a ser exibido comercialmente no Brasil, Adélia Sampaio continua sendo a última e única a ocupar o posto quando se trata de um longa de ficção, com seu filme de 1984.

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http://www.dw.com/pt-br/após-34-anos-brasil-volta-a-ter-diretora-negra-em-cartaz/a-42959768