Valéria a guerreira na justiça

Valéria Lucia.jpgLuiza Souto

Da Universa

11/09/2018 18h11

Seria um dia normal de audiência para Valéria Lúcia dos Santos, mas a advogada saiu do 3º Juizado Especial Cível da Comarca de Duque de Caxias (RJ) algemada após discussão com uma juíza. As imagens logo se espalharam pelas redes. Negra, afirmou ter sentido “certo desdém” da profissional, mas durante coletiva para a imprensa, pontuou:

“Não quero colocar a questão do racismo. Quando falamos em racismo, as pessoas falam que é ‘mimimi’. Não quero isso. Sou mulher e preciso trabalhar. Não tem ninguém que me sustenta”.

 

Valéria conta que teve o pedido de acesso à contestação da cliente que representava, bem como à pauta da audiência, negado pela juíza leiga Ethel de Vasconcelos. “Eu e minha cliente recusamos acordo do réu. Queria ver a peça de defesa da outra empresa para contestar os pontos que achamos controversos”, relatou ela. Diante da negativa da juíza, a advogada saiu da sala, localizada no segundo andar, e subiu até o quarto para solicitar um delegado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Quando voltou, afirma, foi avisada de que a sessão havia terminado.

Começou, então, uma discussão. Nos vídeos divulgados na internet, a advogada aparece reclamando da atitude da juíza e se recusando a sair da sala. A juíza então chama policiais militares para retirá-la. “A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” informou o policial.

“Direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar”

Em outro momento do vídeo, Valéria aparece sentada no chão, algemada, com as mãos para trás, e um grupo de policiais tentando tirá-la. A advogada diz que não sabe informar se foi a juíza quem pediu para algemá-la.

“É meu direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar”, grita ela no vídeo. Durante a coletiva, no entanto, a defensora frisou que não queria entrar na questão racial. “Esquece isso. Esquece que sou negra. Quero trabalhar como vocês”.

Após o ato, Valéria foi à delegacia registrar queixa. “Foi muito grave o que aconteceu. Estamos perdendo totalmente a autonomia. Ali houve abuso de autoridade”, concluiu ela na coletiva.

O presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB, Luciano Bandeira, disse que iria representar uma reclamação na Corregedoria da Polícia e do Tribunal de Justiça contra a juíza. Será pedida ainda uma reparação civil pelo constrangimento. Ele defende que a magistrada seja suspensa enquanto se apura o caso.

“O advogado, no exercício da profissão, não pode ser preso. A única hipótese é se ele cometer crime inafiançável, o que não aconteceu”, explicou Bandeira.

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/09/11/sou-mulher-e-preciso-trabalhar-diz-advogada-algemada-no-rio-de-janeiro.htm

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Advogada negra é agredida em pleno tribunal

Advogada negra é detida, algemada e arrastada durante audiência em Duque de Caxias. Por André Zanardo

Advogada é detida. Foto: Reprodução/Justificando

Publicado originalmente no site Justificando

POR ANDRÉ ZANARDO

A advogada, doutora Valéria Santos, negra, carioca, foi detida e posta algemada no exercício de sua profissão durante uma audiência no  3˚Juizado Especial Criminal em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A defensora aparece em vídeo divulgado em rede social requerendo à juiza leiga, durante audiência criminal, para que tivesse sua requisição apreciada em defesa da ré, sua cliente. Entretanto, a juíza teria dado por encerrada a audiência, sem apreciar o pedido da advogada e em seguida ordenou que ela se ausentasse da sala. Valéria teria dito que não deixaria a sala de audiência sem a presença de um representante da OAB, visto que a audiência foi encerrada sem que apreciado e consignado o seu pedido.
“Eu estou indignada de vocês como representante de Estado atropelarem a lei. Eu tenho o direito de ler a contestação e impugnar os pontos da contestação do réu. Isto está na lei, eu não estou falando nada absurdo aqui.”

Enquanto a advogada exercia seu direito de defender a ré que estava sentada ao seu lado e em frente da juíza, foi requerido aos policiais que faziam  a segurança da repartição pública que retirassem a advogada da sala de audiência.

“A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” rebate o policial não identificado.

A advogada, subjulgada pelos presentes, faz a sua defesa neste momento direcionando sua fala diretamente para o policial que alterava a sua voz dizendo que iria prendê-la. Ainda requereu a presença de um membro da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB, para que a representasse a fim de fazer valer os seus direitos enquanto patrona da ré alí presente.

“Eu não vou sair, não, eu tenho que esperar o delegado da OAB, porque eu quero fazer cumprir o meu direito. Eu não vou sair  eu estou no meu direito, eu estou trabalhando. Eu não estou roubando, não estou fazendo nada não. Estou trabalhando!”, insiste a defensora.

Alguns advogados presentes, mesmo presenciando a cena absurda não fizeram a defesa da colega. Reclamavam, entretanto, que a advogada terminasse a atuação brevemente, para que eles pudessem fazer as suas audiências e pudessem terminar logo seus trabalhos.

A altiva advogada neste momento se dirige aos advogados presentes e reclama solidariedade:

“Eles estão preocupados com audiência e (permitem) atropelar a lei, que país é esse? Depois querem reclamar de político que rouba, que faz tudo errado. Se vocês são advogados e não estão respeitando a lei.”

Neste momento, outros advogados presentes na sala de audiência diminuem o ocorrido dizendo que ela não estaria fazendo a defesa dela corretamente e a acusaram de estarem sendos desrespeitados, por estarem perdendo tempo com o episódio.

“A senhora não está respeitando a gente” afirma uma das advogadas que esperavam para a próxima audiência. Outro afirmou: “a senhora pode pleitear o seu direito da forma adequada”.

Instantes depois, em segundo vídeo é possível ver a advogada sendo presa, algemada com a mão nas costas e arrastada no chão da sala de audiência.
A advogada agredida, ainda no chão, grita insistentemente em sua defesa que está trabalhando e sinaliza indiretamente o racismo que estaria ocorrendo naquele flagrante violação de prerrogativa e abuso de autoridade:

“É meu direito enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar.”

De acordo com o Presidente da Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil, Luciano Bandeira,  foi enviado um representante da que acompanhou o caso e conseguiu ao menos que fosse retirada as algemas postas ilegalmente em Valéria.

“Nada justifica o tratamento dado à colega, que denota somente a crescente criminalização de nossa classe. Iremos atrás de todos os que perpetraram esse flagrante abuso de autoridade.” defendeu o Presidente da Comissão.

Frente de Juristas Negras e Negros do Rio de Janeiro repudiam o ocorrido e se solidarizam com a advogada agredida

A FEJUNN-RJ, vem a público repudiar veementemente o tratamento a que foi submetida a ilustríssima advogada, Dra. Valéria Santos, em pleno exercício da profissão.

Não há como não nos manifestarmos enquanto uma Frente que busca inserir no meio jurídico o recorte étnico racial necessário para pensar o Direito de forma ampla e igualitária. Deste modo, nos solidarizamos com a Dra. Valéria, compreendendo que à luz da história, negros e negras são tratados de maneira violenta pelo Estado. Não basta ser Doutora, operadora do Direito. O Estado de maneira eficaz ousa nos colocar no lugar o qual pretende que estejamos por todo o sempre.

O Supremo Tribunal Federal por meio da Sumula Vinculante n.º 11 regulou a utilização excepcional das algemas. No caso do fato ocorrido com a Dra. Valéria, ainda assim, em momento algum se enquadra na hipótese prevista no referido verbete, ainda mais sem a presença de um delegado da OAB.

Repudiamos o uso das algemas e o tratamento da Dra. Valéria Santos, em pleno exercício na profissão. O episódio de hoje mais uma vez demonstra a importância da FEJUNN – RJ existir. Demonstra a fragilidade que vivemos enquanto negros e negras, para além dos dados estatísticos do cárcere e da letalidade, também no exercício de nossa profissão, com o agravante pelo fato ter ocorrido no meio jurídico.

Queremos justiça, o exercício do Direito, a dignidade para alcançarmos uma sociedade livre, justa e verdadeiramente democrática.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/advogada-negra-e-detida-algemada-e-arrastada-durante-audiencia-em-duque-de-caxias-por-andre-zanardo/

Direitos Humanos no Brasil e o Papa

vsita ao papaO estado de mal-estar social

Um relato sobre direitos humanos no Brasil ao papa

 

Da esq. para a dir., Marinete Silva (mãe de Marielle Franco); Carol Proner, advogada e jurista; papa Francisco; Paulo Sérgio Pinheiro e Cibele Kuss, pastora luterana representante da Conic –

8.ago.2018 às 2h00

 

Roma, 40 graus. Na praça de São Pedro, filas intermináveis de turistas esperam para visitar a basílica. Entramos pelo portão de entrada no Vaticano para a Casa Santa Marta, onde mora o Papa Francisco. Na porta da casa, um carabinieri e um guarda suíço. “São adelegação brasileira? “, abrem a porta.

Já dentro, um funcionário nos dirige a uma sala. Ficamos ali alguns minutos com a jurista Carol Proner, Marinete Silva (mãe de Marielle Franco) e a pastora Cibele Kuss, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

O papa abre a porta, com um envelope branco na mão, e nos convida a sentar em roda, sem nenhum funcionário em volta.

Nada do que pretendia dizer ao papa deve ser grande novidade. O jornal L’Osservatore Romano, o órgão oficial do Vaticano, dois dias antes informava que o número de brasileiros em pobreza extrema passou de 5 milhões a 10 milhões.

Tento pegar a deixa das notícias do dia. Em curto espaço de tempo, a proteção dos direitos humanos sofreu dramático enfraquecimento no Brasil. A consequência prática é um estado de mal-estar social.

Direitos econômicos e sociais restringidos pela PEC do teto e pela reforma trabalhista. Direitos civis e políticos ameaçados pelo enfraquecimento do Estatuto do Desarmamento, o reempoderamento dos militares, o retorno da Justiça Militar para crimes comuns de militares e prisões de professores em universidades federais. Proteção do meio ambiente, dos povos indígenas e a luta contra o racismo praticamente abandonadas. Mudanças profundas nas políticas públicas jamais legitimadas antes por eleições.

Sublinho os riscos criados quando uma agenda de inclusão social, econômica e política —como a estabelecida pela constitucionalidade de 1988 e pela política de Estado de direitos humanos— é abandonada.

Nesse mesmo dia, sete relatores da ONU alertavam para a gravidade dos retrocessos em série nos últimos dois anos, culminando com o primeiro aumento da mortalidade infantil em mais de duas décadas de progresso.

A brutal e ainda inexplicável morte de Marielle Franco, representada ali no diálogo emocionante com o papa por sua mãe, é o símbolo mais forte da violência e da fraqueza da democracia no Brasil. Essa violência tem mensagem clara: falar pelos marginalizados implica grave risco. O Brasil, em 2017, foi o país do mundo com o maior número de assassinatos de defensores de direitos humanos.

É neste contexto que o Brasil caminha para uma eleição na qual um dos principais candidatos, o ex-presidente Lula, poderá ser iniquamente excluído. Ele vem sendo sistematicamente silenciado pela interferência da Justiça, que assumiu o papel de protagonista político. As forças conservadoras predominantes no Judiciário asseguram a proteção aos grupos políticos governistas afetados por denúncias.

Superar a crise vai levar tempo. Reconstituir o espaço de diálogo e a confiança nas instituições do Estado são agora tarefas ainda mais difíceis do que antes. Que inspirações buscar? A tensão e o retrocesso não são privilégios brasileiros. Difícil encontrar um país em que não se tenham discutido ou implementado restrições de direitos. Igualmente, proliferam as vozes do ódio.

Para o momento mais imediato, é essencial condenar todas as formas de violência e censura. Nesse contexto, relembro como extremamente relevante a condenação absoluta, pelo papa, da pena de morte.

Passados 50 minutos, o papa distribui rosários (que estavam no envelope branco) a todos, recolhe os relatórios e livros que recebeu e diz: “Vou passar ao secretário de Estado”. Arrisco: “Vai ser uma trabalheira”. Sobraçando tudo com um dos braços, ele se despede de nós e sai como entrou, sozinho, sem ninguém para ajudar ou abrir a porta.

Paulo Sérgio Pinheiro

Ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos (2001-2002, governo FHC) e ex-coordenador da Comissão Nacional da Verdade (2013)

Burkina Faso aboliu a pena de morte

map burkinafaso“Portugal congratula-se com mais um importante passo no sentido da progressiva abolição universal da pena de morte, esperando que a decisão do Burkina Faso se constitua também como modelo e inspiração para outros países”, afirma a nota do Palácio das Necessidades. Lisboa, acrescenta, aboliu a pena de morte há mais de 150 anos e “opõe-se à sua aplicação em quaisquer circunstâncias e em todos os casos, repudiando todos os argumentos utilizados para a justificar”.

Para as autoridades portuguesas, a pena capital “viola o direito à vida e não respeita a dignidade da pessoa humana”, consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos, de 1966.

“País pioneiro na abolição da pena de morte, Portugal continuará a pugnar pela abolição universal da pena capital”, afirma ainda a nota do Governo.

O ministro da Justiça do Burkina Faso, Rene Bagoro, afirmou que o novo código penal permitirá “adaptar-se às exigências de certas convenções comunitárias e internacionais” e abrirá caminho para “uma justiça mais credível, equitativa, acessível e eficaz com a aplicação da lei penal”.

A pena de morte não era aplicada desde a década de 1970, mas manteve-se aquando da última reforma do código penal, em 1996. Associações de direitos humanos locais, representantes eclesiásticos e organizações internacionais, como a Amnistia Internacional (AI), reclamaram esta abolição durante a última década.

https://www.publico.pt/2018/06/05/mundo/noticia/portugal-felicita-burkina-faso-pela-abolicao-da-pena-de-morte-1833350

Obra de arte nos EUA faz sucesso com Marrielle Franco e Martin Luther King

Da coluna de Ancelmo Gois, no O Globo:

Veja só esta obra de André de Castro, artista carioca radicado nos EUA. Traz os rostos de Marielle Franco, cuja execução, hoje, completa 55 dias, e Martin Luther King Jr., cujo assassinato completou 50 anos em abril. A serigrafia faz parte de “Abismo e resistência”, exposição que abre quinta, agora, na Opus Gallery, em NY. Além do caso Marielle, a mostra abordará também temas como o controle de armas nos EUA. A ideia é trazer a exposição para o Brasil.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/exposicao-nos-eua-poe-lado-a-lado-os-rostos-de-marielle-e-martin-luther-king/

Justiça decide verificar cumprimento do ensino da histórai afro-brasileira

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Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil

Pela primeira vez a Justiça foi favorável à verificação do cumprimento da Lei 10.639/2003, que incluiu no currículo oficial da rede de ensino e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. Em decisão unânime, a Quarta Câmara Cível do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro deu provimento ao recurso impetrado pelo Instituo de Pesquisa e Estudos Afro-brasileiros (Ipeafro) e ao Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara).

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O caso específico se refere ao município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e engloba escolas das redes municipal, estadual e particular. No pedido, os autores pleitearam “juntada dos currículos, grades curriculares e conteúdos das escolas requeridas e orientações das autoridades apontadas no polo passivo, para que, em perícia judicial, seja aferido o cumprimento ou descumprimento da lei 10.639/03”. Também são citadas a lei 11.645/2008, que inclui a obrigatoriedade do ensino da história indígena, e a lei 12.288/2010, que institui o Estatuto da Igualdade Racial.

Na decisão, relatada pelo desembargador Antônio Iloízio Barros Bastos, é ressaltado que não há provas quanto ao cumprimento da lei em nenhuma escola. “Até mesmo o acesso ao inquérito resta prejudicado, pois, em que pese a atuação diligente do ilustre Promotor de Justiça signatário do parecer de fls. 546, olvidou-se de mencionar o número do inquérito civil. Dessa forma, a ausência de documentos inviabiliza o direito dos autores de fiscalizar a aplicação da norma, o que evidencia a presença do interesse de agir”.

A decisão aponta também que há apenas alegação por parte dos apelados do cumprimento da referida lei. “Diferente do que afirma o Estado do Rio de Janeiro, de rigor não existe prova, mas sim, quando muito, mera alegação de cumprimento da lei, que não retira dos autores o interesse de agir. Nessa toada, não há falar em inexistência de resultado útil na reforma da sentença, pois persiste o interesse dos autores, no âmbito da legitimação disjuntiva, em tirar suas próprias conclusões a respeito da efetiva observância da lei modo a atender aos interesses coletivos”.

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O advogado do Iara Humberto Adami explicou que já faz mais de uma década que o movimento negro pede na Justiça que a lei 10.639/2003 seja cumprida. “Eu tinha feito, em 2005, representações ao Ministério Público Federal com 15 entidades do movimento negro. Essas denúncias foram espalhadas pelo Brasil, umas 5 mil ações multiplicadas pelos municípios. Daí abriram-se inquéritos civis públicos, com cada promotor ou procurador fazendo o inquérito e intimando as secretarias de educação e as diretoras de escola para saber porque não estava cumprindo a lei. Isso serviu como motivador para as pessoas conhecerem o problema”.

Adami lembrou que na época que integrou os quadros da extinta Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), foram enviados 1.200 ofícios cobrando as universidades públicas e privadas para oferecer formação sobre cultura e história afro-brasileiras. Porém, segundo ele, a maioria dos processos foi arquivado, muitos sem chegar a ser analisados.

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“Nessa decisão de [Duque de] Caxias, o promotor arquivou a denúncia do inquérito civil público, dizendo que estava em funcionamento. Mas não estava, como ainda não está em lugar nenhum. Alguns promotores disseram isso, promotores que não gostavam do tema, promotores evangélicos, que achavam que tudo que se fala em cultura da África é religiosa, aí vão lá e arquivam o inquérito dizendo que a lei está funcionando. Ou por falta de conhecimento, ou por comodidade. Outra promotora, em Itaperuna, arquivou dez inquéritos civis públicos dizendo que a lei era ilegal, inconstitucional e desnecessária”.

Ele disse que 15 anos após a aprovação da lei, os avanços que ocorreram na implementação foram por iniciativas próprias e isoladas de profissionais. “Quando a gente começou as denúncias, tinha quatro nãos: não tem professor, não tem livro, não tem dinheiro e não tem currículo. Hoje, depois desse tempo todo, as professoras de história da África vêm construindo isso, mas não pode dizer que está numa situação confortável. Em muitos lugares que você vai, e eu tenho andado pelo Brasil inteiro, vejo professoras fantásticas de história da África, mas isso não pode ser visto como política pública, sempre depende do esforço pontual e individual. E sem contar com orçamento público”.

Agora, com essa decisão favorável, Adami espera que a Justiça siga o modelo em outras ações e pede união do movimento negro para fazer a inspeção nas escolas.

“Não tem ninguém fiscalizando nada. A escola faz uma capoeira no 13 de maio e um samba no 20 de novembro e diz que está fazendo e tudo bem. Ninguém verifica. O movimento negro vem denunciando há um tempão o descumprimento da lei. Tem coisas boas que estão sendo feitas, mas como iniciativas individuais. Como política não se verifica isso”.adami3

Ainda cabe recurso da decisão de permitir a verificação da aplicação da lei 10.639/2003 no município de Duque de Caxias. A prefeitura informou que, para cumprir a lei, tem promovido capacitações para os docentes por meio da Secretaria Municipal de Educação, “além de grupos de estudos nas unidades escolares para subsidiar discussões com os professores e alunos sobre a temática, de forma ampla e transversal para toda a Rede Municipal de Ensino”.

Fonte;http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-04/justica-decide-verificar-cumprimento-do-ensino-da-historica-afro-brasileira

 

desenho de Winnie

 

Winnie Mandela, ela

a declaração de não-ficção, o vôo em

resolução de ficção,

vívido sobre a paisagem, um suntuoso

dom

para o nosso aquecimento, pomada na lacuna de

nossa ferida

as vezes

gostaria de ser uma menina novamente.

Saltando por uma estrada rural, cantando. 

Ou uma jovem mulher flertando

nenhum cuidado além de curl-tranças e pintura

e não afetando nenhuma mudança, sem desvios, sem

Jangle.

Mas Winnie Mandela, ela,

a Ela da nossa visão, o Código,

o ensaio articulado, a fundação

Mãe, deve

dirigir nosso coro de fabricantes e ampla

música.

Pense em plantas e ervas daninhas bonitas

o deserto.

Eles não podem fazer nada sobre isso (eles  são

contou)

quando o lixo é despejado em suas raízes.

Não tenha dúvidas de que eles estão indignados e

assustado.

Não é o que eles queriam.

– Trecho de Winnie por
Gwedolyn Brooks (1996)gwendolyn-brooks

Não é um engano que Winnie Madikizela-Mandela foi o tema da poesia de uma das melhores poetas americanos, Gwendolyn Brooks, que também passou a ser uma mulher negra. Não, não é um erro. Através da caneta de Brooks, vemos Winnie Mandela tanto pelo que ela era – a “pomada na brecha de nossa ferida” – quanto pelo que ela poderia querer ser – “uma mulher jovem, flertando, sem preocupações além de enrolar e pintar e pintar.” efetuando nenhuma mudança, sem desvios, sem jangle ”.

 

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Mas Winnie Madikizela-Mandela foi chocante. Ela era como uma pulseira no braço de um guerreiro; o nervoso tremor de nervos quando o problema está chegando.

E ainda, neste poema Brooks nos lembra que ela era muito mais. Ela nos lembra, ao se perguntar sobre uma Winnie imaginada – uma criança Winnie – que uma das tragédias do racismo é a medida em que ela impingiu a luta aos negros. Brooks invoca a inocência da infância para nos lembrar que crianças negras quase nunca foram liberadas.

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Na literatura, a criança que pula em uma estrada secundária é quase sempre branca. Nos livros, as crianças negras estão labutando; eles estão sob coação, também “correram” para sempre serem verdadeiramente despreocupados. E assim, ao reimaginar Winnie dessa maneira, Brooks nos pede para lembrar – pelo menos durante o tempo de seu poema – que para não ter “preocupações além das curvas” (como fazem os brancos), os negros sempre foram forçados a subir para a ocasião, e ser maior do que poderíamos querer ser.

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Esta semana, enquanto os sul-africanos prestavam homenagem a Madikizela-Mandela, eu suspeito que a maioria de nós sentiu a perda de sua passagem porque sabemos muito bem o fardo de ter que enfrentar a ocasião.

 

Ela era, de fato, o “sol vermelho brilhante para o nosso aquecimento”. Ainda assim, Brooks nos lembra que talvez Madikizela-Mandela – como o resto de nós que somos negros e mulheres e conscientes do peso dessas responsabilidades – teria preferido que o sol brilhasse igualmente sobre toda a humanidade. Ela teria preferido, imagino, se não houvesse racismo para combater, em primeiro lugar, nenhum demônio do apartheid para matar.

 

Este é o núcleo comovente no centro da tristeza que senti esta semana e a raiva, suponho. Ainda é difícil aceitar, todos esses anos em minha vida, que o sol não brilha igualmente para todos os sul-africanos.

 

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(in the Pic – Mrs Winnie Madikizela Mandela flanked by Deputy President Cyril Ramaphosa and EFF Leader Julius Malema share a light moment). Deputy President Cyril Ramaphosa attends the 80th birthday celebrations of Mrs Winnie Madikizela Mandela held at Mount Nelson Hotel in Cape Town. 14/09/2016, Elmond Jiyane, GCIS

Madikizela-Mandela e seus companheiros que lutaram por uma sociedade mais justa sabiam disso muito antes de eu nascer. Seus esforços facilitaram minha vida e, por isso, não consigo imaginar como esse conhecimento deve ter sido pesado para eles.

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Eu não perdeu meu tempo em me distrair com racistas. Nós vivemos em um país que agora ostensivamente pertence a todos nós. Esta semana, onda após onda de invectivas lavadas em todo o país para atender a notícia da morte de Madikizela-Mandela. Um exército de brancos irados e irritados, que não vêem futuro para si neste país, fez a sua presença conhecida como defensores de um menino cujo nome nunca tocou seus lábios antes e cuja memória não significa nada para eles.

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Instituições da mídia entraram em ação: as que tinham espalhado a fealdade sobre ela através de suas páginas na vida seguiam o mesmo roteiro antigo. Os guerreiros do arco-íris – confusos porque a nova África do Sul não quer falar sobre raiva, mas gosta de falar sobre nossa história compartilhada – não sabiam o que fazer com eles mesmos.

Houve desordem.

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Mas Winnie Madikizela-Mandela “a mãe fundadora da Nação” ainda estava conosco. Pairando entre este mundo e o seguinte, ela enviou um contra-exército. Um batalhão de mulheres e jovens sul-africanos reagiu. Assumimos o trabalho de corrigir o registro e contar as histórias, de questionar a ortodoxia ao seu redor, não porque nos importamos com racistas, mas porque nos importamos com nosso próprio futuro. Nossas respostas não foram distrações – elas foram cruciais para o trabalho de construção da nação.

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Como o poeta Lebo Mashile observou, restaurar e construir os legados das mulheres negras sempre foi deixado para as mulheres negras. Esta semana foi um show de poder – uma demonstração que, como diz o ditado: “Você bate uma mulher, você bate uma pedra.” Como Shireen Hassim, da Universidade de Witwatersrand, observou, nas horas após a morte de Madikizela-Mandela, instituições de mídia saltou para “reconhecer errado” ela – e suas legiões de apoiadores se recusaram a permitir que isso acontecesse.

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No entanto, é crucial notar que Madikizela-Mandela não pertence apenas às mulheres negras. Eu continuo acreditando que a África do Sul ainda pode ser um país que pertence a todos que vivem nele, independentemente da cor da sua pele. Se esse ideal é para ser realizado, então os sul-africanos devem se elevar à ocasião. A história de Mama Winnie, claro, pertence a todos nós. Sua vida vale a pena ser examinada por sua coragem, realização e complexidade. A história dela é tão essencialmente sul-africana, tão fundamentalmente feminista e tão profundamente africana que deve ser ensinada nas escolas – não de passagem, como um apêndice, mas por direito próprio.

 

Depois que Mama  Winnie é colocada para descansar, precisamos continuar o trabalho de construir monumentos para ela. Pode haver algumas estátuas de pedra que são erguidas. Eu não vou me opor a eles. Ainda assim, são os monumentos de carne e osso que mais me interessam: as bolsas de estudos e palestras anuais, os fundos para uniformes escolares e absorventes que devem ser coletados em seu nome, os acampamentos para crianças de vilarejos, os passeios desafiadores que devemos organizar. É através de tudo isso que espero que Madikizela-Mandela seja homenageada.

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Eu imagino duas mulheres velhas que são jovens novamente. Eles se cumprimentam no limiar dos céus. Seus olhos brilham. Gwendolyn pega o braço de Winnie e, juntos, como garotinhas de novo, vejo-os “pulando por uma estrada secundária, cantando”.

Hamba kahle, mamãe.

Sisonke Msimang é o autor de Sempre Outro País: Uma Memória do Exílio e do Lar (Jonathan Ball, 2017)

Sisonke Msimang

 

Fonte: https://mg.co.za/article/2018-04-06-00-reimagining-an-unburdened-winnie

Muito além de ser esposa de Mandela

 

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A maioria dos grandes homens da história quase sempre tem o dom raro de ser apoiada por mulheres fortes, mas muitas vezes complicadas. O falecido ícone sul-africano e um dos maiores homens do século passado, Nelson Mandela, não foi exceção. Sua ex-esposa, Winnie Madikizela-Mandela, que faleceu essa semana, era uma dessas mulheres. Sua fidelidade estóica a Mandela era talvez o vínculo mais forte que mantinha seu próprio compromisso vivo e continha aquela teimosa esperança de que, no final de seu sacrifício, esperá-lo seria um símbolo de amor e solidariedade permanente.

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Ao longo dos 27 anos que o falecido Mandela permaneceu em encarceramento, seu anseio por sua amada Winnie também se tornou simbólico de seu anseio pela amada pátria. Assim, em sua célebre coleção, “Cartas para Winnie”, é muito claro que ela era para Mandela tanto uma âncora emocional quanto uma personificação da esperança patriótica. Sendo humano, a longa ausência de Mandela testou a força de Winnie até os limites e o sistema fez muito para danificá-la.winnie-mandela

É instrutivo sublinhar que Winnie não era apenas mais uma mulher à espera de um marido preso. Ela abraçou e incorporou a luta contra o apartheid com força total. Ela permaneceu na linha de frente da luta contra o regime que oprimia os negros em seu próprio país. Seu papel como um dos líderes do Congresso Nacional Africano (ANC) não se restringiu ao papel das mulheres. Ela também liderou e apoiou a ala juvenil de tal forma que, no final, ela era muito mais do que a esposa de Mandela.

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Como era de se esperar, as maquinações malignas do regime do apartheid lutaram contra Winnie em igual medida. As acusações inventadas, inclusive por assassinato, foram levantadas contra ela. Mesmo onde a lei da evidência bruta forçou um veredicto de culpado, o contexto político de seus supostos crimes nunca foi perdido em seus seguidores e no resto do mundo. Sua seriedade política era mais importante do que os detalhes técnicos da invenção legal.

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Permanece historicamente significativo que quando Mandela foi libertado em 11 de fevereiro de 1990, ele estava de mãos dadas com Winnie; o amor da sua vida e companheiro eterno na luta contra o apartheid e a impunidade racista. Mas então o dano havia sido feito em seu casamento. Tentou, como os dois, fazer o papel em cima da rachadura, os longos anos de separação e as pressões da luta cobraram seu preço. Eventualmente, eles tiveram que seguir caminhos separados. Mas a separação e o divórcio que naturalmente se seguiram se tornaram insignificantes contra o pano de fundo das lutas titânicas que eles suportaram e sobreviveram juntos. O que se seguiu foram entradas em uma mera nota de rodapé humana.

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Com certeza, Winnie tinha seus defeitos e ela nunca se dava bem com eles desde que ela estava sob constante holofote. O governo pós-apartheid liderado por seu ex-marido estabeleceu um Comitê de Verdade e Reconciliação para investigar abusos de direitos humanos no passado e várias atividades violentas foram creditadas a ela durante os anos 80. Mas ela manteve o carinho de muitos de seus apoiadores dentro do ANC que a apelidaram de “Mãe da Nação”. Como figura sênior do ANC, ela também ocupou vários cargos no governo, inclusive sendo vice-ministra de Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia antes de ser demitida por alegações de corrupção. No entanto, isso nem sequer a diminuiu aos olhos de seus partidários.

Como o mundo, portanto, lamenta a morte de Winnie Madikizela-Mandela, é seu papel como uma personagem histórica e os sacrifícios que ela fez por seu país e, de fato, pela raça negra que lega como legados. Como Shakespeare diz no rei Lear: “Após tais sacrifícios, os próprios deuses jogam incenso”.

 

http://allafrica.com/stories/201804030279.html

 

 

Quem foi Winnie Mandela?

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Joanesburgo – Winnie Madikizela-Mandela, nasceu a 26 de Setembro de 1936, na pequena aldeia de Mbongueni, em Bizana, na província de Cabo Oriental (à época o bantustão de Transquei).

Nascida Nomzamo Winifred Zanyiwe Madikizela, ficou mundialmente conhecida como esposa de Nelson Mandela, durante o período da prisão do líder sul-africano.

Com a libertação deste, escândalos do seu alegado envolvimento em crimes e de infidelidade causaram a separação do casal e a consequente perda de prestígio.

O seu nome original, em xossa, era Nomzamo (aquela que tenta). É a quarta de oito filhos de Columbus, ministro das Florestas e Agricultura do governo do bantustão natal e da professora Nomathamsanqa Mzaidume (de nome ocidental Gertrude), que morreu quando Winnie tinha oito anos.Bizana.png

Fez os estudos primários em Bizana e, dali, ingressou na Shawbury High School. Em 1953 mudou-se para Joanesburgo, onde foi admitida na Jan Hofmeyr School of Social Work, onde se formou dois anos depois, ocasião em que recusa uma bolsa dos EUA, optando por trabalhar num hospital para negros da capital.

Durante o seu trabalho realizou uma pesquisa sobre a mortalidade infantil, no subúrbio de Alexandra, o que a levou a interessar-se pela política, envolvendo-se com o Congresso Nacional Africano (ANC).winniw4

Em 1957, conhece Nelson Mandela, que então respondia ao julgamento por traição e casam-se a 19 de Junho de 1958, passando ambos a morar no subúrbio pobre de Soweto. Tiveram duas filhas, Zenani (1959) e Zinzi (1960).

Winnie sofreria as ações persecutórias do regime racista do Apartheid, a partir de 1962: ordens judiciais de restrição que a impediam de trabalhar e de lutar em causas sociais e a mantinham confinada ao distrito de Orlando, em Soweto.winnie1a

Tudo isso aumentou a sua militância e o trabalho clandestino em prol do ANC.

Após enviar as duas filhas para um internato na Swazilândia, visando privá-las das perseguições que os pais sofriam, foi detida em 1969, ao abrigo da Lei anti-terrorismo, passando 17 meses na cadeia e, a partir de 1970, em prisão domiciliar – período em que sofreu vários processos.

Em 1976, durante as revoltas juvenis, criou a Federação das Mulheres Negras e a Associação dos Pais Negros, ambas afiliadas ao Movimento da Consciência Negra – organização que adoptava uma visão positiva da cultura negra.

Este envolvimento levou-a a nova prisão, em 1977, e a sua deportação para o “Estado Livre” de Orange.

Retornando, em 1986, a sua oposição ao regime criou uma milícia particular, travestida de equipa de futebol (o Mandela United Football Club), o que aumentou o seu distanciamento dos demais militantes anti-apartheid, em 1988.mandela-2-4.jpg

Quando da libertação de Mandela, em 11 de Fevereiro de 1990, Winnie ainda apareceu ao seu lado, como a “mama” da luta contra o regime – mas dois anos depois divorciaram-se.

Após isto, ela transformou a sua casa, em Orlando, num museu e adoptou o sobrenome de Madikizela-Mandela. A partir de 1991 vê-se envolvida em diversas polémicas, sendo então banida do ANC e outras instituições, após ser acusada da morte de um jovem militante, que ela suspeitava ser informante da polícia.

Condenada no ano seguinte, teve a prisão comutada em multa; apesar disso, em 1993, retorna ao cenário político, sendo eleita presidenta da Liga das Mulheres do ANC, cargo que ocupou até 2003.

Durante o governo do ex-marido, Winnie ocupou o cargo de Ministra das Artes, Cultura, Ciência e Tecnologia (1994), mas foi demitida, sob alegação de desvios de fundos.

Em 2003 renuncia à presidência da Liga das Mulheres, mas é eleita para o Comité Executivo Nacional do ANC, durante a sua 52ª Conferência Nacional, em 2009.

Fonte:http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2018/3/14/Winnie-Mandela-Notas-biograficas,fd11232a-de8f-490b-8a16-b63744d38840.html

Vereadora negra de Niterói é ameaçada de morte

Talíria Petrone

Publicado no Brasil de Fato

Única mulher negra e feminista na Câmara Municipal de Niterói (RJ), Talíria Petrone, 32 anos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vem sofrendo ameaças desde o início do mandato.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ela conta como a violência das redes sociais logo se transformou em ameaças reais à sua integridade. No entanto, afirma que embora tenham reforçado a sua segurança, o movimento maior não é de recuo.

A vereadora classifica a execução da também vereador e amiga Marielle Franco, ocorrida há um mês no Rio de Janeiro, como uma tentativa de amedrontamento dos ativistas dos direitos humanos. “Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Marielles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava”, disse.

Na última quarta-feira, 28 de março, a Polícia Civil identificou e interrogou um homem que ameaçava a vereadora Talíria de morte. A parlamentar havia registrado queixa em novembro na 76ª Delegacia de Polícia, em Niterói, depois de receber ligações sistemáticas do suspeito onde ele afirmava que iria explodir a sede do partido com uma bomba.

De acordo com a assessoria da vereadora, o suspeito teria admitido à polícia que fez as ameaças “por motivos políticos”.

Segundo informações divulgadas na imprensa, o suspeito prestou depoimento, mas não foi detido, pois as ameaças configuram como um crime de menor potencial.

taliria.1abConfira a entrevista com a vereadora.

Brasil de Fato: Primeiro gostaria que falasse um pouquinho como você a violência que leva a mortalidade de candidatas e candidatos sendo uma ferramenta do jogo político, que é o que os dados mostram.

Talíria Petrone: Acho que a gente chegou num patamar no Brasil que tem como culminância o assassinato da Marielle. É o ataque ao resto de democracia que não se completou no Brasil e já vem há um tempo uma polarização que cresce no setor de extrema direita, do ódio que se soma a violência na política. É uma urgência que os olhos internacionais se voltem para o Brasil para interromper esse processo de ataque a essa democracia incompleta porque é a possibilidade hoje de dizer, de denunciar a agir nos mínimos marcos da democracia burguesa.  O que eu espero neste momento é que a gente tenha cada vez mais os olhos no mundo. Entendemos que o Brasil é o país que mais assassina ativistas de direitos humanos e o quanto a liberdade de fazer denúncias têm sido interrompida.taliria.1a

 Sim, perfeito. E Talíria, há relatos inclusive de outros companheiros do PSOL que você mesmo estaria sofrendo ameaças sistemáticas de morte, você confirma?

Desde o início do mandato vimos a violência que se manifesta muito nas redes. Recebi mensagens desde “neguinha nojenta”, “volta pra senzala”, até “merece uma 9mm na nuca”, “se eu encontrar mato na paulada”, até que em novembro culminou em ligações sistemáticas para a sede do PSOL em Niterói, pedindo  telefone da “piranha que o povo elegeu”, e dizendo que iria explodir uma bomba. A gente registrou uma queixa na DP 76, agora com isso tudo nada pode ser desprezado. Estamos mais atentos. Tem uma coisa que é apurar o que aconteceu com a Mari [Marielle] mas do que quem apertou o gatilho, mas quem mandou matar e de que esfera do poder veio a ordem porque sabemos que é um crime político, precisamos saber da onde veio esse recado. Essa tentativa de silenciamento das nossas pautas.

Por último, queria que você falasse um pouco quais são as medidas que seu gabinete e o PSOL tomam para garantir sua segurança, algo mudou? 

A gente está conversando com especialistas, não tem muitos detalhes, mas o mais breve possível estaremos circulando de forma mais segura pela cidade. Já estamos tomando mais cuidado e formalizando medidas para andar mais seguro. Acho que é importante dizer que embora estejamos tomando medidas de maior precaução, a gente não está dando nenhum passo atrás. Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Meirelles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava.

Mortes de políticos

Dados compilados pelo Brasil de Fato a partir de dados públicos do TSE, o Datasus e por meio de notícias veiculadas pela imprensa revelam que cerca de 90 prefeitos e vereadores em exercício foram assassinados no Brasil entre 2008 e 2018.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/merece-uma-9-mm-na-nuca-vereadora-do-psol-amiga-de-marielle-e-ameacada-de-morte/