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A politica ignorada: Saúde da população negra

saude luizPOLÍTICA IGNORADA

Doze anos depois de ser lançada, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra só foi colocada em prática em 57 dos 5.570 municípios brasileiros. A constatação foi feita por pesquisadores da USP e da secretaria estadual de saúde de São Paulo, que entrevistaram gestores e membros de movimentos sociais de todo o país. Na avaliação deles, os gestores não aderiram porque acreditam que o mesmo serviço deve ser oferecido para todos. “O problema é que nem todo mundo parte das mesmas condições. Ao oferecer o mesmo para todos, você corre o risco de aprofundar desigualdades”, pondera Luiz Eduardo Batista, um dos autores do estudo, em entrevista ao Globo

A Política lista uma série de doenças e condições mais prevalentes na população negra. Além das diferenças biológicas, alerta para o racismo institucional que provoca distinções no tratamento recebido nos serviços de saúde e impacta no acesso a eles. Na avaliação do epidemiologista Mário Círio Nogueira, também ouvido pela reportagem, as pesquisas no Brasil se detêm mais sobre as diferenças sociais e não há tantos estudos sobre as diferenças raciais. Outro problema é que nem sempre os serviços de saúde coletam informações sobre raça e cor dos usuários. De toda forma, há pesquisas que mostram o racismo institucional nos serviços de saúde. Nogueira é autor de uma delas, que acompanhou 481 mulheres que receberam tratamento para câncer de mama num mesmo serviço. Dez anos depois, as mulheres brancas tinham maiores chances de sobreviver – e mesmo na comparação entre brancas e negras pobres, as negras morriam mais.

Para Luiz Eduardo, os pesquisadores precisam discutir mais racismo e saúde, porque “se, no campo da saúde coletiva, é estudado que fatores sociais, econômicos, ambientais e políticos determinam o processo saúde-doença, imagina a saúde da população negra, que possui condições econômicas piores”. Luiz Eduardo destacou que a maior sagacidade do movimento de mulheres negras foi a inclusão do quesito cor no Sistema de Informação e Saúde, porque assim foi possível discutir o impacto dos fatores sociais, ambientais, políticos, econômicos, culturais na população negra, ou seja, “se o racismo estrutura a sociedade, se o racismo é um determinante social de saúde, ele determina o processo de saúde, doença e morte”.

Resultados iniciais da pesquisa realizada revelam que dentre as 27 Unidades da Federação, 7 secretarias estaduais de saúde responderam ao questionário. Dentre os 5.561 municípios, somente 32 responderam/relataram ter essa política implantada
Segundo os respondentes, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) dá certo quando há compromisso de gestores e técnicos, quando há uma efetiva coordenação do programa e quando o movimento social apoia a gestão.
Cinco estados e 12 municípios têm área técnica ou responsável técnico para desenvolver ações de combate ao racismo, ou seja, responsável pela condução da PNSIPN. A articulação entre setores e instituições se mostra um facilitador para a implementação da PNSIPN

Valéria a guerreira na justiça

Valéria Lucia.jpgLuiza Souto

Da Universa

11/09/2018 18h11

Seria um dia normal de audiência para Valéria Lúcia dos Santos, mas a advogada saiu do 3º Juizado Especial Cível da Comarca de Duque de Caxias (RJ) algemada após discussão com uma juíza. As imagens logo se espalharam pelas redes. Negra, afirmou ter sentido “certo desdém” da profissional, mas durante coletiva para a imprensa, pontuou:

“Não quero colocar a questão do racismo. Quando falamos em racismo, as pessoas falam que é ‘mimimi’. Não quero isso. Sou mulher e preciso trabalhar. Não tem ninguém que me sustenta”.

 

Valéria conta que teve o pedido de acesso à contestação da cliente que representava, bem como à pauta da audiência, negado pela juíza leiga Ethel de Vasconcelos. “Eu e minha cliente recusamos acordo do réu. Queria ver a peça de defesa da outra empresa para contestar os pontos que achamos controversos”, relatou ela. Diante da negativa da juíza, a advogada saiu da sala, localizada no segundo andar, e subiu até o quarto para solicitar um delegado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Quando voltou, afirma, foi avisada de que a sessão havia terminado.

Começou, então, uma discussão. Nos vídeos divulgados na internet, a advogada aparece reclamando da atitude da juíza e se recusando a sair da sala. A juíza então chama policiais militares para retirá-la. “A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” informou o policial.

“Direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar”

Em outro momento do vídeo, Valéria aparece sentada no chão, algemada, com as mãos para trás, e um grupo de policiais tentando tirá-la. A advogada diz que não sabe informar se foi a juíza quem pediu para algemá-la.

“É meu direito, enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar”, grita ela no vídeo. Durante a coletiva, no entanto, a defensora frisou que não queria entrar na questão racial. “Esquece isso. Esquece que sou negra. Quero trabalhar como vocês”.

Após o ato, Valéria foi à delegacia registrar queixa. “Foi muito grave o que aconteceu. Estamos perdendo totalmente a autonomia. Ali houve abuso de autoridade”, concluiu ela na coletiva.

O presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB, Luciano Bandeira, disse que iria representar uma reclamação na Corregedoria da Polícia e do Tribunal de Justiça contra a juíza. Será pedida ainda uma reparação civil pelo constrangimento. Ele defende que a magistrada seja suspensa enquanto se apura o caso.

“O advogado, no exercício da profissão, não pode ser preso. A única hipótese é se ele cometer crime inafiançável, o que não aconteceu”, explicou Bandeira.

https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/09/11/sou-mulher-e-preciso-trabalhar-diz-advogada-algemada-no-rio-de-janeiro.htm

Advogada negra é agredida em pleno tribunal

Advogada negra é detida, algemada e arrastada durante audiência em Duque de Caxias. Por André Zanardo

Advogada é detida. Foto: Reprodução/Justificando

Publicado originalmente no site Justificando

POR ANDRÉ ZANARDO

A advogada, doutora Valéria Santos, negra, carioca, foi detida e posta algemada no exercício de sua profissão durante uma audiência no  3˚Juizado Especial Criminal em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A defensora aparece em vídeo divulgado em rede social requerendo à juiza leiga, durante audiência criminal, para que tivesse sua requisição apreciada em defesa da ré, sua cliente. Entretanto, a juíza teria dado por encerrada a audiência, sem apreciar o pedido da advogada e em seguida ordenou que ela se ausentasse da sala. Valéria teria dito que não deixaria a sala de audiência sem a presença de um representante da OAB, visto que a audiência foi encerrada sem que apreciado e consignado o seu pedido.
“Eu estou indignada de vocês como representante de Estado atropelarem a lei. Eu tenho o direito de ler a contestação e impugnar os pontos da contestação do réu. Isto está na lei, eu não estou falando nada absurdo aqui.”

Enquanto a advogada exercia seu direito de defender a ré que estava sentada ao seu lado e em frente da juíza, foi requerido aos policiais que faziam  a segurança da repartição pública que retirassem a advogada da sala de audiência.

“A única coisa que eu vou confirmar aqui é se a senhora vai ter que sair ou não. Se a senhora tiver que sair, a senhora vai sair!” rebate o policial não identificado.

A advogada, subjulgada pelos presentes, faz a sua defesa neste momento direcionando sua fala diretamente para o policial que alterava a sua voz dizendo que iria prendê-la. Ainda requereu a presença de um membro da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB, para que a representasse a fim de fazer valer os seus direitos enquanto patrona da ré alí presente.

“Eu não vou sair, não, eu tenho que esperar o delegado da OAB, porque eu quero fazer cumprir o meu direito. Eu não vou sair  eu estou no meu direito, eu estou trabalhando. Eu não estou roubando, não estou fazendo nada não. Estou trabalhando!”, insiste a defensora.

Alguns advogados presentes, mesmo presenciando a cena absurda não fizeram a defesa da colega. Reclamavam, entretanto, que a advogada terminasse a atuação brevemente, para que eles pudessem fazer as suas audiências e pudessem terminar logo seus trabalhos.

A altiva advogada neste momento se dirige aos advogados presentes e reclama solidariedade:

“Eles estão preocupados com audiência e (permitem) atropelar a lei, que país é esse? Depois querem reclamar de político que rouba, que faz tudo errado. Se vocês são advogados e não estão respeitando a lei.”

Neste momento, outros advogados presentes na sala de audiência diminuem o ocorrido dizendo que ela não estaria fazendo a defesa dela corretamente e a acusaram de estarem sendos desrespeitados, por estarem perdendo tempo com o episódio.

“A senhora não está respeitando a gente” afirma uma das advogadas que esperavam para a próxima audiência. Outro afirmou: “a senhora pode pleitear o seu direito da forma adequada”.

Instantes depois, em segundo vídeo é possível ver a advogada sendo presa, algemada com a mão nas costas e arrastada no chão da sala de audiência.
A advogada agredida, ainda no chão, grita insistentemente em sua defesa que está trabalhando e sinaliza indiretamente o racismo que estaria ocorrendo naquele flagrante violação de prerrogativa e abuso de autoridade:

“É meu direito enquanto negra, como mulher, de trabalhar. Eu estou trabalhando. Eu quero trabalhar.”

De acordo com o Presidente da Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil, Luciano Bandeira,  foi enviado um representante da que acompanhou o caso e conseguiu ao menos que fosse retirada as algemas postas ilegalmente em Valéria.

“Nada justifica o tratamento dado à colega, que denota somente a crescente criminalização de nossa classe. Iremos atrás de todos os que perpetraram esse flagrante abuso de autoridade.” defendeu o Presidente da Comissão.

Frente de Juristas Negras e Negros do Rio de Janeiro repudiam o ocorrido e se solidarizam com a advogada agredida

A FEJUNN-RJ, vem a público repudiar veementemente o tratamento a que foi submetida a ilustríssima advogada, Dra. Valéria Santos, em pleno exercício da profissão.

Não há como não nos manifestarmos enquanto uma Frente que busca inserir no meio jurídico o recorte étnico racial necessário para pensar o Direito de forma ampla e igualitária. Deste modo, nos solidarizamos com a Dra. Valéria, compreendendo que à luz da história, negros e negras são tratados de maneira violenta pelo Estado. Não basta ser Doutora, operadora do Direito. O Estado de maneira eficaz ousa nos colocar no lugar o qual pretende que estejamos por todo o sempre.

O Supremo Tribunal Federal por meio da Sumula Vinculante n.º 11 regulou a utilização excepcional das algemas. No caso do fato ocorrido com a Dra. Valéria, ainda assim, em momento algum se enquadra na hipótese prevista no referido verbete, ainda mais sem a presença de um delegado da OAB.

Repudiamos o uso das algemas e o tratamento da Dra. Valéria Santos, em pleno exercício na profissão. O episódio de hoje mais uma vez demonstra a importância da FEJUNN – RJ existir. Demonstra a fragilidade que vivemos enquanto negros e negras, para além dos dados estatísticos do cárcere e da letalidade, também no exercício de nossa profissão, com o agravante pelo fato ter ocorrido no meio jurídico.

Queremos justiça, o exercício do Direito, a dignidade para alcançarmos uma sociedade livre, justa e verdadeiramente democrática.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/advogada-negra-e-detida-algemada-e-arrastada-durante-audiencia-em-duque-de-caxias-por-andre-zanardo/

Jornal de Angola: Lula anima a cena política e conquista voto de milhões

por Altino Matos

Lula da Silva está na cadeia desde sábado mas continua a dominar a cena no Brasil muito por “culpa do seu carisma e percurso político”que o tornaram um homem bastante admirado  e perto de conseguir, agora, mais um feito: mudar “as leis da gravidade”, por ser o pré-candidato com a perspectiva mais forte de vitória nas presidenciais de Outubro.

Tecnicamente, Lula da Silva continua em campanha para a satisfação dos seus apoiantes
Fotografia: DR

Os brasileiros e o mundo aguardam, com grande expectativa, uma resposta sobre o futuro político imediato de Lula, que se traduz unicamente na sua participação ou não nas próximas eleições. Analistas políticos e especialistas em direito eleitoral divergem tanto em matéria jurídica como em aspectos de direitos humanos.
Mas, antes deste debate, o Brasil foi apanhado por um “cem número de conversas”a favor e contra a detenção de Lula da Silva, sendo que os ataques verbais mais violentos foram registados nas redes sociais, onde os internautas citavam a torre de controlo do aeroporto Afonso Pena e os tripulantes da aeronave que o transportou, como terem falado na hipótese de se desfazerem do embrulho ainda no ar, a que muitos julgam estarem a se referir a Lula. Especulações postas a parte, o certo é que o antigo Presidente do Brasil cumpre hoje o seu terceiro dia da pena de 12 anos e um mês sob acusação de corrupção.
As manifestações de afecto e solidariedade a Lula vão ser mantidas pelos seus apoiantes e partidários, como juraram figuras de destaque do PT, o Partido dos Trabalhadores. Os meios de comunicação social no Brasil reportaram que no primeiro dia da sua prisão na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, Lula da Silva acordou num quarto “espartano”, tomou café com pão e assistiu ao jogo de sua equipa -numa TV muito simples-,  o Corinthians que venceu a disputa e se sagrou campeão paulista. A BBC Brasil cita uma fonte da Polícia Federal. Lula chegou à cadeia por volta das 22h locais de sábado (perto das 4h de domingo em Angola), e foi recebido por duas multidões separadas por um cordão da Polícia Militar do Paraná. Uma delas entoava palavras de ordem como “Lula guerreiro do povo brasileiro”, a outra gritava “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”.
No local, já estão montados, desde domingo, banheiros químicos, barracas de comida, eventos culturais e até um centro de informação, que distribui água e lanches. Por ironia do destino, o prédio foi inaugurado dez anos antes, em 2007, no segundo mandato de Lula, como parte dos esforços para dar mais estrutura à Polícia Federal no combate à lavagem de dinheiro – um dos crimes pelo qual Lula foi condenado.
A cela especial tem cerca de 15 metros quadrados e está localizada no terceiro andar. A sala, adaptada para receber o antigo Presidente, fica no centro do prédio e tem três janelas cobertas por vidros fumados, para impedir o contacto com o lado de fora, quarto de banho privado e não tem ar condicionado.
Apenas três oficiais têm acesso a Lula e não podem dizer nem se ele está acordado ou a dormir, de acordo com uma fonte da BBC Brasil na Polícia Federal.

Direitos políticos

Apesar da detenção de Lula da Silva, o PT mantém a intenção de inscrevê-lo como candidato à presidência na Justiça Eleitoral – e a legislação permite que isso seja feito. “Não será o PT que vai retirar Lula das eleições”, disse à imprensa o vice-presidente nacional do PT, Alexandre Padilha, nos Estados Unidos. “A lei estabelece que em Agosto são registadas as candidaturas. O nome de Lula estará lá. Vamos seguir a lei e caberá ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) avaliar esse registo. Lula continuará a ser o nosso candidato, preso ou não”, disse Padilha.
Mas existe no entanto a probabilidade de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) travar a candidatura do  antigo Presidente com base na “Lei da Ficha Limpa”. Esse processo não é automático, afirmam analistas. Segundo juristas ouvidos pela imprensa, a análise do pedido tende a levar algumas semanas, pois é preciso tempo para o Ministério Público e a defesa se manifestarem e pode haver também depoimento de testemunhas. O prazo final para o TSE se pronunciar é 17 de Setembro.
“A análise da Justiça Eleitoral pode durar de 20 a 25 dias. Enquanto isso está a acontecer, a pessoa que entrou com o pedido de inscrição tem direito a fazer campanha”, nota Lara Ferreira, professora de Direito Constitucional na faculdade Dom Helder Câmara e servidora do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais.
Não há previsão na legislação, porém, sobre como a campanha poderá ser feita na prática se Lula estiver na prisão, ressalta a professora.
De acordo com especialistas em Direito Eleitoral ouvidos pela BBC Brasil, caberá ao juiz responsável pela execução penal autorizar que o petista deixe a cadeia por algumas horas para gravar propaganda eleitoral, por exemplo, ou permitir a entrada de equipas de imagem na prisão. “Se ele estiver preso, estará sob a guarda do juiz Sergio Moro ou do juiz de execução penal. Então ele precisará pedir autorização. Se o juiz recusar, ele poderá recorrer às instâncias superiores”, explica Alberto Rollo, advogado na área eleitoral.
Um procurador eleitoral, ouvido pela BBC Brasil sob condição de não ser identificado, disse ter o mesmo entendimento. “Se a lei permite que a pessoa seja candidata enquanto sua inscrição está em análise, devem ser dados os meios para fazer a campanha”, afirmou.
Há também a possibilidade de Lula ser solto antes da campanha (16 de Agosto a 7 de Outubro), caso o Supremo Tribunal Federal reveja a sua decisão de permitir a prisão após condenação em segunda instância. Pode ser que a Tribunal reavalie o tema já na próxima semana, já que o ministro Marco Aurélio disse que levará a discussão ao plenário na quarta. Enquanto isso, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos aceitou a denúncia do antigo Presidente Lula da Silva sobre a conduta do juiz federal Sérgio Moro durante a Operação Lava Jacto. A informação foi divulgada pela defesa do político.
Os advogados de Lula, citados na imprensa, dizem que “na matéria protocolar de Julho, foram listadas diversas violações ao Pacto de Direitos Políticos e Civis, adoptado pela ONU, praticadas pelo juiz Sérgio Moro e pelos procuradores da Operação Lava-Jacto contra Lula”. “De acordo com a lei internacional, o Juiz Moro, por já haver cometido uma série de acções ilegais contra Lula, seus familiares, colaboradores e advogados, perdeu de forma irreparável a imparcialidade para julgar o antigo Presidente”, argumenta a defesa de Lula.

A eleição

Caso o Tribunal Superior Eleitoral recuse a candidatura de Lula, o PT pode recorrer ao Supremo Tribunal Federal, alongando o processo. E se não houver uma definição até à eleição, marcada para Outubro, ele pode disputar as presidenciais.
Na hipótese de ele ficar entre os dois primeiros colocados na primeira volta, mas ser impedido da disputa antes da segunda volta, os seus votos seriam anulados e o terceiro colocado disputaria a corrida final no lugar de Lula, afirma o advogado Marcelo Peregrino, ex-juiz do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.
Uma eventual votação significativa mas que seja impedida na segunda volta pode levar a uma discussão séria sobre a “legitimidade do novo presidente”, observa Peregrino. Essas condições técnicas, no quadro da disposição jurídico-legal, mantêm a esperança de milhões de eleitores de votar em Luiz Inácio Lula da Silva.
O único dado certo é que Lula é de longe o político com a perspectiva mais forte de vencer as presidenciais. Caso vença, ainda pode ser impedido de assumir o cargo. “Nesse caso, o presidente da Câmara assume a Presidência da República e convoca novas eleições directas num prazo de 90 dias”, segundo o advogado Marcelo Peregrino.

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/lula_anima_a_cena_politica_e_conquista_voto_de_milhoes

Vereadora negra de Niterói é ameaçada de morte

Talíria Petrone

Publicado no Brasil de Fato

Única mulher negra e feminista na Câmara Municipal de Niterói (RJ), Talíria Petrone, 32 anos, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vem sofrendo ameaças desde o início do mandato.

Em entrevista ao Brasil de Fato, ela conta como a violência das redes sociais logo se transformou em ameaças reais à sua integridade. No entanto, afirma que embora tenham reforçado a sua segurança, o movimento maior não é de recuo.

A vereadora classifica a execução da também vereador e amiga Marielle Franco, ocorrida há um mês no Rio de Janeiro, como uma tentativa de amedrontamento dos ativistas dos direitos humanos. “Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Marielles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava”, disse.

Na última quarta-feira, 28 de março, a Polícia Civil identificou e interrogou um homem que ameaçava a vereadora Talíria de morte. A parlamentar havia registrado queixa em novembro na 76ª Delegacia de Polícia, em Niterói, depois de receber ligações sistemáticas do suspeito onde ele afirmava que iria explodir a sede do partido com uma bomba.

De acordo com a assessoria da vereadora, o suspeito teria admitido à polícia que fez as ameaças “por motivos políticos”.

Segundo informações divulgadas na imprensa, o suspeito prestou depoimento, mas não foi detido, pois as ameaças configuram como um crime de menor potencial.

taliria.1abConfira a entrevista com a vereadora.

Brasil de Fato: Primeiro gostaria que falasse um pouquinho como você a violência que leva a mortalidade de candidatas e candidatos sendo uma ferramenta do jogo político, que é o que os dados mostram.

Talíria Petrone: Acho que a gente chegou num patamar no Brasil que tem como culminância o assassinato da Marielle. É o ataque ao resto de democracia que não se completou no Brasil e já vem há um tempo uma polarização que cresce no setor de extrema direita, do ódio que se soma a violência na política. É uma urgência que os olhos internacionais se voltem para o Brasil para interromper esse processo de ataque a essa democracia incompleta porque é a possibilidade hoje de dizer, de denunciar a agir nos mínimos marcos da democracia burguesa.  O que eu espero neste momento é que a gente tenha cada vez mais os olhos no mundo. Entendemos que o Brasil é o país que mais assassina ativistas de direitos humanos e o quanto a liberdade de fazer denúncias têm sido interrompida.taliria.1a

 Sim, perfeito. E Talíria, há relatos inclusive de outros companheiros do PSOL que você mesmo estaria sofrendo ameaças sistemáticas de morte, você confirma?

Desde o início do mandato vimos a violência que se manifesta muito nas redes. Recebi mensagens desde “neguinha nojenta”, “volta pra senzala”, até “merece uma 9mm na nuca”, “se eu encontrar mato na paulada”, até que em novembro culminou em ligações sistemáticas para a sede do PSOL em Niterói, pedindo  telefone da “piranha que o povo elegeu”, e dizendo que iria explodir uma bomba. A gente registrou uma queixa na DP 76, agora com isso tudo nada pode ser desprezado. Estamos mais atentos. Tem uma coisa que é apurar o que aconteceu com a Mari [Marielle] mas do que quem apertou o gatilho, mas quem mandou matar e de que esfera do poder veio a ordem porque sabemos que é um crime político, precisamos saber da onde veio esse recado. Essa tentativa de silenciamento das nossas pautas.

Por último, queria que você falasse um pouco quais são as medidas que seu gabinete e o PSOL tomam para garantir sua segurança, algo mudou? 

A gente está conversando com especialistas, não tem muitos detalhes, mas o mais breve possível estaremos circulando de forma mais segura pela cidade. Já estamos tomando mais cuidado e formalizando medidas para andar mais seguro. Acho que é importante dizer que embora estejamos tomando medidas de maior precaução, a gente não está dando nenhum passo atrás. Se a tentativa era de promover o silêncio das nossas jovens, acho que estão brotando Meirelles no mundo todo e estamos cada vez mais fortes com as pautas que Marielle encampava.

Mortes de políticos

Dados compilados pelo Brasil de Fato a partir de dados públicos do TSE, o Datasus e por meio de notícias veiculadas pela imprensa revelam que cerca de 90 prefeitos e vereadores em exercício foram assassinados no Brasil entre 2008 e 2018.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/merece-uma-9-mm-na-nuca-vereadora-do-psol-amiga-de-marielle-e-ameacada-de-morte/

Entenda por que Marielle era única: os negros na política

Racismo, desigualdade e distribuição desequilibrada de recursos nas campanhas e nos partidos são principais responsáveis pela subrepresentação dos negros na política. Conheça as lideranças e estudiosos que querem mudar esse cenário

publicado 21/03/2018 por PAULA SILVA

Audima

Na Câmara dos deputados, onde há apenas duas deputadas negras, sessão em homenagem a Marielle Franco. (Foto: Lula Marques)

Marielle Franco era uma das 32 vereadoras negras eleitas no Brasil em 2016. Trinta e duas vereadoras de um total de 811 vereadores. Além da avalanche de protestos nas ruas e redes sociais, o assassinato e do motorista Anderson Pedro Gomes levanta discussões sobre a sub-representação de pessoas negras na política.Num país onde pessoas negras são mais da metade da população total (54%, de acordo com o IBGE), é até irônico o fato destes homens brancos da elite carregarem a responsabilidade de representar essas pessoas no Congresso Nacional. Há pretos e pretas ocupando cargos na política, mas são minoria: na Assembleia Legislativa de São Paulo, por exemplo, dos 94 parlamentares em atividade, somente quatro são negros. O único representante negro no Senado é Paulo Paim (PT-RS).

“O racismo estrutural brasileiro é responsável pelo baixo índice de negros e negras nos espaços de visibilidade positiva, prestígio e poder no Brasil”, observa Osmar Teixeira Gaspar, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). Em estudo sobre a sub-representação dos negros na política, ele destaca que existe uma mobilização social velada para que os brasileiros que descendem da forçada diáspora africana não ocupem locais importantes de prestígio e destaque, como é o caso da política. Assim, entende-se que quem deve ocupar esses locais são justamente as pessoas brancas e ricas. “Por esse prisma, pode-se compreender que legislar no Brasil seja, supostamente, uma atribuição exclusivamente de brancos ricos”, diz.

“Para poder me colocar em condições de ser candidato, eu precisei sair da minha condição de homem negro periférico, para uma outra condição, a de homem negro de classe média”, lembra Marcio Black, 41 anos, cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Membro do coletivo Bancada Ativista, foi candidato a vereador em 2016 pelo REDE. Ele conta que, para conseguir ser candidato, teve que financiar a própria campanha, já que os partidos de esquerda possuem baixos valores para financiamentos desse tipo. E estes valores são destinados, em sua maioria, para candidatos “com maior apelo eleitoral”, por assim dizer. O que não inclui os pretos e as pretas. Dessa forma, as candidaturas dessas pessoas não alavanca. “Então, os partidos de esquerda por exemplo, que, em tese, deveriam investir mais nessas candidaturas, investem em outras pessoas e não nas candidaturas de pessoas negras.”

Política de cotas: nas assembleias ou nos partidos?

Diante dessa discrepância entre negros e brancos no cenário político, fica a pergunta: o que pode ser feito? O que os partidos podem fazer para que haja uma maior inclusão de candidatos negros?

“Os partidos veem isso como algo setorial, e nós negros não somos setoriais. Nós somos maioria no país”, declara Adriana Vasconcellos, 46 anos, assessora do candidato a Deputado Estadual Toninho Vespoli (PSOL-SP). Ela, que também é professora e lançará sua candidatura a deputada federal em breve pelo mesmo partido, foi candidata a vereadora em 2016, mas não foi eleita. Ela observa que a questão do racismo precisa ser mais levada a sério pelos partidos. “Enquanto não se entender que o debate do racismo tem que ser muito profundo e efetivo, a gente ainda vai ter poucas candidaturas negras, ou vamos ter só alguns pra dizer ‘olha, nós estamos olhando para a pauta.”

A política de cotas no Legislativo seria a solução? Para Marcio Black, sim. Mas não agora. “Eu acho que é uma boa ideia, mas nesse momento investiria mais nas cotas nos partidos, e não nas Assembleias, não no parlamento. A gente ainda não tem negros em posição de se financiarem. A gente não tem coletivos negros que consigam suportar estas candidaturas e a gente não tem partidos investindo nesses projetos. O que pode acontecer é justamente a gente implementar as cotas nos parlamentos, mas a gente não ter pessoas com recursos para poderem ocupar essas vagas.”

Adriana acredita na efetividade das cotas tanto nos partidos quanto nas Assembleias por algumas razões: “Nós somos seres políticos. E o povo preto mais ainda. A gente não começou a fazer política ontem, nós fazemos política desde quando fomos sequestrados. Nós não conseguimos chegar lá devido à falta de acesso à educação que nos foi negado. Ela destaca ainda a questão da auto-estima da população negra. “Porque é colocado pra gente que aquele não é o nosso lugar. É a questão do pertencimento. Por que sempre tem que ter alguém pra falar por mim, e por que essa pessoa sempre tem que ser branca?”, questiona.

Gaspar avalia que, mesmo se beneficiando das lutas políticas dos brasileiros negros e dos benefícios decorrentes destas, boa parte dos brancos pobres no Brasil não se solidariza com os negros. “Em geral, os brancos pobres negam-lhes todo tipo de solidariedade, especialmente nas urnas, colaborando desse modo para colocar rígidos obstáculos à mobilidade social ascendente de negros e negras no Legislativo nacional”, afirma.

Segundo Gaspar, a elite branca continua na política porque um grande número de pessoas brancas pobres vota nela, acreditando que estes homens brancos e ricos podem solucionar os problemas do país. Com essa confiança adquirida, afirma ele, a elite branca presume que pode tomar para si o direito de controlar a política e falar por todos – incluindo as minorias que ignoram. “Por essa razão que advogamos a necessidade imediata de se implementar cotas raciais no Legislativo brasileiro, para reduzir o controle, a influência e a tomada de decisões políticas isoladas por um único grupo de brasileiros; os mais ricos e brancos”, completa o pesquisador.

A representatividade e a direita

Mas existem aqueles que não pensam da mesma forma, ainda que pertencentes a uma minoria social. Talvez o nome mais icônico nesta questão seja o vereador Fernando Holiday (DEM-SP). Entusiasta da política liberal, ele despreza o Movimento Negro e suas pautas com propostas como a revogação da política de cotas raciais e o fim do feriado de 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra.

Ele tornou-se um ícone da direita por meio do Movimento Brasil Livre (MBL), ao lado de seu fundador e amigo Kim Kataguiri. Holiday também é um ícone entre aqueles que compartilham dos mesmos posicionamentos que ele, mas a maioria das lideranças negras discorda de suas bandeiras. “Holiday, a meu ver, faz em seu mandato práticas políticas que podem não ser úteis para a população negra, especialmente para os mais pobres.”

“Eu acho ok ele estar lá, eu não vejo problema”, diz Marcio. “É um corpo negro que está ocupando aquele espaço. Eu acredito que representatividade de fato não é somente o corpo negro estar lá. Esse corpo negro precisa portar um projeto político para a manutenção desses corpos, de uma política que também seja negra para ser realmente representativa.”

O pesquisador da USP acredita que a internet irá auxiliar a população negra a diferenciar estes discursos (tanto da esquerda, quanto da direita e do centro), fazendo com que optem por aqueles que melhor compartilham de suas convicções. A negritude politizada não irá dar seus votos para quem carrega discursos que pouco lhes convém.

“Nesta perspectiva, tenho para mim que políticos e eleitores negros ditos de direita só poderão obter sucesso no seu próprio meio, o qual, a meu ver, é significativamente reduzido para atuação do político negro, pois, a rigor, os eleitores mais conservadores se encontram geralmente entre os mais ricos que, por sua vez, por serem conservadores, podem não apoiar candidaturas negras, salvo quando estas se destinarem a preservar os seus seculares privilégios”.

Recuo?

Para Gaspar, o cenário atual pode prejudicar ainda mais a participação do povo negro na política, visto que o Brasil perpetua as raízes do racismo diariamente em vários aspectos sociais.  Essa rígida estruturação racial acaba desestimulando-os nesse sentido. “Os negros brasileiros se encontram diante de um processo eleitoral extremamente injusto onde os candidatos mais ricos e brancos, geralmente dispõem de tempo livre para tocarem as suas campanhas muito antes do período previsto pela legislação eleitoral.”

O privilégio da branquitude entra aí: a maioria dos candidatos que vemos nas propagandas eleitorais é de homens brancos de classe média alta, com o currículo recheado de mestrados e doutorados nas melhores universidades públicas e particulares do Brasil e do mundo. Estes ganham maior atenção dos eleitores, porque a população acredita que eles têm aquilo que é necessário para administrar uma vida pública. Assim, eles ganham a confiança e o voto dos brasileiros. Enquanto isso, os candidatos de origem periférica ganham a desconfiança e o julgamento por defenderem pautas relacionadas aos Direitos Humanos.  A morte de Marielle Franco pode trazer um estímulo maior para o povo preto politizado e seus eleitores. Então agora seria o melhor momento para que o Movimento Negro se mobilize na corrida eleitoral. “Casos como o da Marielle são para nos fortalecer, porque passaram um recado muito claro para a gente: aqui não é o seu lugar. Aqui não é lugar para preto, não é lugar pra favelado, não é lugar pra quem defende os Direitos Humanos”, afirma Marcio.

Isso pôde ser percebido na repercussão que o caso tomou no dia seguinte do fato: foram convocados atos em nome de Marielle no Brasil inteiro e no exterior; artigos e grandes reportagens foram publicadas contando a história de luta da vereadora e os rumos que o cenário político atual pode tomar depois da fatídica noite de 14 de Março; os partidos de esquerda estão organizando às pressas reuniões para convocar as minorias sociais para a luta nas urnas – para enfrentar  o crescimento do conservadorismo e da confiança de candidatos à Presidência da República com forte apelo popular por entusiastas da extrema-direita, como o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ex-militar da ditadura que possui milhões de seguidores em suas redes sociais.

A luta continua depois do luto

“Se a gente não tivesse mexendo com os donos do poder, se a gente não tivesse incomodando, a Marielle não teria morrido. Então agora a gente precisa aumentar esse incômodo”, diz Marcio.

O que se tem observado é que muita gente passou a conhecer a Marielle e seu trabalho após sua morte. Isso vem gerando um debate importante nas redes sociais sobre a necessidade de se conhecer quem está representando as minorias no Legislativo, principalmente as mulheres negras que estão nessa luta, ainda que em menor número. “Você tem o homem branco, a mulher branca, ainda que em número reduzido, e você tem pouquíssimas mulheres negras”, diz Adriana.

“A História tem nos ensinado que as mulheres negras são nossos pilares de resistência política desde o cativeiro”, reflete Gaspar. Ele também acredita que o ocorrido com Marielle poderá estimular outras jovens negras a enfrentarem o racismo brasileiro a fim de reduzir as diferenças sociais. “Penso que a morte de Mariele Franco não poderá ter sido em vão, mas em prol da luta para se enfrentar os poderosos e as profundas diferenças sociais no Brasil”.

Algumas pretas já estão na luta para mudar essa realidade: Áurea Carolina (PSOL) foi a vereadora mais votada de Belo Horizonte; Talíria Petrone (PSOL) e Verônica Lima (PT) foram as únicas vereadoras negras eleitas na cidade de Niterói, no Rio de Janeiro. Talíria era uma grande amiga de Marielle; Benedita da Silva (PT), que já foi governadora do Rio de Janeiro, senadora e atualmente é deputada federal; Leci Brandão (PCdoB) foi a segunda mulher negra eleita deputada federal, sendo reeleita em 2014; Olívia Santana (PCdoB) é secretária de Políticas Públicas para Mulheres do estado da Bahia e já foi vereadora de Salvador; Jupiara Castro é um dos nomes importantes que ajudaram a fundar partidos como PT, PSTU E PSOL. Ela também fundou o Núcleo de Consciência Negra da USP; e outras tantas que ainda virão, porque a luta continua depois do luto.

“Nós estamos no caminho certo. A gente tem que ir pra cima pra eleger ao menos mais duas ou três Marielles”, afirma Marcio. Adriana concorda: “Esse retrocesso todo foi porque eles perceberam que as meninas negras estão se politizando. Eu acredito que vamos ter muito mais Marielles por aí”.

SOBRE @ AUTOR@: PAULA SILVA

Paula Silva
Estudante de Jornalismo, preta, feminista, adora desenho japonês, Star Wars e la

Marielle mobilizou o país contra a violência policial

Milhares se reúnem em torno do Teatro Municipal, no Rio de Janeiro. LEO CORREA (AP) / VÍDEO: REUTERS-QUALITY
Felipe Betim
FELIPE BETIM

Jornalista | Periodista – El País

Costuma-se dizer que os brasileiros não sabem qual é a função de um vereador e muito menos em quem votou nas últimas eleições. Nesta quinta-feira, entretanto, as multidões que se reuniram no centro do Rio de Janeiro e de outras capitais sabiam que Marielle Franco — negra, nascida e criada no Complexo da Maré, mãe desde os 18 anos e ativista pelos direitos humanos — era representante do povo carioca. Foi eleita com mais de 46.000 votos em 2016 e foi a quinta parlamentar mais votada naquele ano, sua estreia nas urnas. O assassinato no dia anterior da vereadora do PSOL e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes, provocou uma onda de luto e indignação coletivas nas ruas. No centro do Rio, eram milhares marchando pela avenida Rio Branco e se apertando na Cinelândia com o objetivo de não apenas homenagear Marielle como também dizer que queriam dar continuidade às suas bandeiras. Entre elas, exigir o fim da intervenção federal no Estado do Rio, o fim de uma guerra contra as drogas travada nas favelas e periferias e que vitimiza milhares de jovens e negros todos os anos, o fim do racismo e do machismo institucional.

  • são paulo

São Paulo

A força das ruas tornou-se um inesperado desafio para o Governo de Michel Temer (MDB) e sua aposta em uma inédita intervenção federal como bandeira eleitoral e resposta para caos na segurança pública do Rio. O presidente colocou suas fichas em nomear como interventor federal o general Walter Souza Braga Netto, chefe do Comando Militar do Leste e, desde o último dia 16 de fevereiro, também chefe máximo da segurança pública fluminense, ainda que nem sequer haja um plano oficial para a ação. Agora, essa cadeia de comando — da Polícia Civil ao presidente — tem que responder por um dos mais emblemáticos crimes políticos da história recente brasileira. Não que o tipo de delito não aconteça no Estado do Rio ou em outras partes — a campanha municipal na Baixada Fluminense deixou um rastro de sangue —, mas a ousadia de executar uma promissora líder em pleno centro do Rio sinaliza que seus autores decidiram cruzar uma linha vermelha para enviar uma mensagem.

Marielle era, desde 28 de fevereiro, a relatora de uma comissão da Câmara dos Vereadores criada para fiscalizar a intervenção, com o poder de aprovar relatórios e providências contra militares e policiais. A vereadora também denunciou quatro dias antes a truculência da Polícia Militar no bairro de Acari, na periférica Zona Norte do Rio. Foi com esse contexto em mente que muitos apoiadores de Marielle acreditam que policiais são os principais suspeitos do assassinato. As circunstâncias indicam que foi uma execução planejada, uma hipótese com a qual a Polícia Civil já trabalha. Foram nove tiros no carro, sendo que quatro atingiram a cabeça da vereadora. Nada foi levado após o crime. O vidro do carro era escuro, mas os atiradores sabiam que ela estava sentada no banco de trás do lado direito, o que levantou a suspeita da polícia de que ela fora seguida. O interventor Braga Netto, responsável pela segurança pública do Rio, não veio a público falar sobre o caso. Limitou-se a emitir uma nota repudiando “ações criminosas como a que culminou na morte da vereadora Marielle Franco e de Anderson Pedro Gomes” e dizendo que “se solidariza com as famílias e amigos”. O Governo federal tentou reagir. Temer gravou um vídeo e o ministro da Segurança, Raul Jungmann, no Rio, prometeu em coletiva de imprensa uma rápida investigação sobre o que aconteceu e assegurou que os culpados irão pagar.

Sem Polícia Militar nos protestos

A comoção que inundou as redes sociais na noite de quarta-feira se transformou numa multidão que começou a se formar ainda na parte da manhã diante da Câmara de Vereadores, na Cinelândia, centro do Rio. Pessoas se abraçavam e choravam. Recordações, dor, luto e silêncio — uma atmosfera que se repetiria mais tarde na multidão que ocuparia a avenida Paulista, em São Paulo, outras das cidades que se mobilizaram. Pouco antes das 15h, os caixões com os corpos de Marielle e Anderson chegaram na Assembleia para um velório reservado apenas para familiares e amigos. Do lado de fora, a vigília continuava. Uma hora depois, os caixões foram levados para fora do recinto sob fortes aplausos e seguiram para o cemitério do Caju (ela) e Inhaúma (ele). “Justiça! Justiça! Justiça!”

A multidão começou então a se mover e a crescer. Um cortejo liderado por mulheres negras deixou a Cinelândia e caminhou pela Avenida Rio Branco cantando: “Por Marielle, eu digo não, eu digo não à intervenção!”. O ato entrou pela rua da Assembleia e finalmente alcançou a rua Primeiro de Março, onde fica a ALERJ. Era lá que estava marcado, para as 17h, a concentração para um ato contra o genocídio negro. “Marielle, presente! Marielle, presente! Anderson, presente! Anderson, presente! Hoje e sempre!”, repetiam os manifestantes. A Polícia Militar, que sempre se faz presente nas manifestações, fez-se notar pela sua completa ausência no ato do Rio. Ao longo de todo o dia, nenhum policial foi visto no centro da cidade. “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”, cantavam constantemente os manifestantes.

Uma vez na Assembleia Legislativa, líderes partidários, políticos e sindicalistas foram se revezando no microfone. “Mataram mais uma de nós, mataram mais uma de nós, mataram mais uma de nós. Assim como matam nossos filhos”, disse, muito emocionada, a vereadora de Niterói Talíria Petrone, também do  PSOL. “Somos muitas Marielles vivas”, concluiu. Já Jandira Feghali, deputada federal do PCdoB, resumiu: “Marielle morreu porque sintetizava as três opressões que tem no país: a opressão de gênero, a opressão de classe e a opressão racial. (…) Este crime foi político. E crime político não se responde individualmente, se responde coletivamente”.

Um abatido Marcelo Freixo, deputado estadual pelo PSOL, com quem conviveu por mais de 10 anos, voltou do cemitério e recebeu um forte e demorado abraço Chico Buarque. Freixo dava aula de história em um cursinho pré-vestibular quando conheceu Marielle. Ao ser eleito deputado estadual pela primeira vez, em 2006, levou a ativista para trabalhar com ele. Foram 10 anos lado a lado naquele mesmo edifício da ALERJ, trabalhando na Comissão de Direitos Humanos da Casa. “Está muito difícil pra mim. Mas vou seguir. E vamos descobrir quem fez isso, nem que seja a última coisa que eu faça na minha vida”, disse Freixo. Chico também fez um breve discurso: “Eu só quero prestar minha homenagem à minha vereadora Marielle. Vamos iniciar a caminhada até a Cinelândia”. E assim a multidão voltou a se movimentar pela rua Primeira de Março para fazer o caminho de volta à Câmara dos Vereadores.

De volta a Cinelândia, a estudante de direito Mariane Oliveira, de 20 anos, conta da emoção em ter votado em Marielle. “Foi o meu primeiro voto. Eu sempre tive muita ansiedade em votar pela primeira vez. E quando eu a conheci, reconheci nela a pessoa que eu queria que me representasse. Eu fiquei muito feliz e sabia que tava fazendo a coisa certa”. E qual recado ela queria passar na manifestação? “Eu não tenho a voz para falar isso que não sou negra, mas eu acho que as pessoas começarem a respeitar e dar voz a mulher negra. Elas incomodou tanto não só porque ela tocou na ferida, mas por ser negra e vir da periferia”.

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/16/politica/1521157108_642756.html

Primeiro-ministro da Etiópia apresenta sua renúncia

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O primeiro-ministro da Etiópia, Hailemariam Desalegn, apresentou ontem o seu pedido de renúncia .

“A agitação e a crise política levaram à perda de vidas e ao deslocamento de muitas pessoas”, disse Hailemariam em um discurso televisionado na quinta-feira.

“Vejo minha renúncia como vital na tentativa de realizar reformas que levem a uma paz e democracia sustentáveis”, afirmou.

A informação desta decisão foi avançada pela televisão etíope, que referiu que Desalegn também abandona a presidência de uma coligação de partidos que governa os destinos da Etiópia. A saída de Hailemariam Desalegn acontece num momento em que têm aumentado os protestos anti-governamentais nas regiões de Oromia e Amhara, dos quais já resultaram dez mortos e centenas de feridos.Centenas de pessoas morreram em uma onda de violência em toda a Etiópia, inicialmente provocada por um plano de desenvolvimento urbano na capital, Addis Abeba, em 2015.

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A demissão de Desalegn terá que ser ainda aprovada pelo Conselho da Frente Democrática Revolucionária dos Povos Etíopes (EPRDF, na sigla inglesa).

Wahlkampf Äthiopien 2010 (DW)Foto de arquivo: Campanha eleitoral do partido EPRDF (2010)

Segundo a Fana, Desalegn, de 53 anos, irá continuar em funções até à conclusão do processo de transição, ao mesmo tempo que deixará também funções de deputado da Frente Revolucionária e Democrática Popular Etíope.
Há um mês, as autoridades etíopes libertaram centenas de prisioneiros, não tendo mesmo assim conseguido travar a realização dos protestos. Desde 2015 que a Etiópia é palco de repetidas manifestações violentas com apelos por parte dos protestantes à aplicação de reformas políticas e econômicas e à exigência do fim da corrupção.
Estes distúrbios estavam a provocar profundas divisões no seio da coligação que governa o país, com as elites a acusarem o primeiro-ministro de falta de pulso para resolver o problema causado pelas constantes manifestações.

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Alguns observadores consideram que a turbulência que agora afeta a Etiópia pode estender-se a toda a região do Corno de África, afetando alguns países que até agora têm gozado de grande estabilidade política e militar.

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O Governo etíope é acusado há muito por várias organizações internacionais de prender jornalistas críticos ao regime e de dirigentes da oposição “apenas por serem desfavoráveis” ao executivo.

Desalegn, que foi secretário-geral da União Africana em 2013, está no poder desde 2012, após a morte do antigo Presidente e ditador Meles Zenawi, de quem foi ministro dos Negócios Estrangeiros e depois vice-primeiro-ministro, antes de assumir a chefia do executivo.

 

Parlamento confirma Ramaphosa como Presidente sul-africano

tamphosaVotação ocorreu menos de 24 horas depois de Zuma ter apresentado a sua demissão, pondo fim a nove anos na presidência.

Matamela Cyril Ramaphosa foi eleito presidente da África do Sul nesta quinta-feira, 15 de fevereiro.  Ele assumiu o cargo depois que o ex-presidente Jacob Zuma apresentou sua renúncia.
Cyril1Nascido em 17 de novembro de 1952 em Soweto, Ramaphosa se envolveu com o ativismo estudantil enquanto estudava direito na década de 1970.

Ele foi preso em 1974 e passou 11 meses em confinamento solitário.

mandela 3Depois de estudar, ele se voltou para o sindicalismo – uma das poucas formas legais de protestar contra o regime.

Quando Mandela foi libertada em 1990 após 27 anos de prisão por se opor ao apartheid, Ramaphosa foi uma parte fundamental do grupo de trabalho que levou a transição para a democracia.

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Ramaphosa aumentou a proeminência global como o principal negociador da ANC, com seu contributo visto como um fator no sucesso das negociações e a resultante transferência democrata democrática.

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Ramaphosa tem quatro filhos com sua segunda esposa, Tshepo Motsepe, um de les é  médico.

Ele foi acusado em 2017 de ter assuntos com várias mulheres jovens, que ele negou.

Ramaphosa admitiu um caso extraconjugal, mas disse à mídia local que desde então havia divulgado o relacionamento com sua esposa.

Alguns viram as revelações súbitas como uma campanha de difamação por associados de Zuma, que apoiou outro candidato na conferência do partido Crunch – sua ex-esposa Nkosazana Dlamini-Zuma.

O impacto do escândalo foi de curta duração, e Ramaphosa baseou sua campanha em sua promessa de reconstruir a economia do país, impulsionar o crescimento e criar empregos muito necessários.

“Ramaphosa não tem associação com nenhum dos escândalos de corrupção que atormentaram a África do Sul”, escreveu seu biógrafo Ray Hartley em “The Man Who Would Be King”.mandela5

 

Jacob Zuma, Presidente da África do Sul renuncia

RENUNCIA“Anuncio a minha renúncia do cargo de Presidente da República da África do Sul, com efeitos imediatos”

Em uma declaração ao país, feita através da televisão, Jacob Zuma anunciou que havia acabado de assinar, com efeitos imediatos, o seu pedido de renúncia  do cargo de Presidente da África do Sul.

Na sua alocução, Jacob Zuma disse que não concordava com as razões que estavam a ser apontadas para que apresentasse a sua demissão, mas sublinhou que o fazia em respeito pela unidade do seu partido, o ANC, e do povo sul-africano.

“Devo aceitar que meu partido e meus compatriotas querem que eu vá embora”, disse Zuma.

“Não tenho medo de qualquer moção de censura; Não tenho medo de qualquer impeachment”, disse Zuma, durante a sua comunicação.

Segundo deu a entender, a decisão terá sido motivada pela necessidade de preservar a integridade do partido, perante a violência e divisão que estava a acontecer.

“Ninguém merece morrer em meu nome. O partido não se deve dividir por minha causa” destacou.

Jacob Zuma cumpria agora o seu segundo mandato como Presidente da África do Sul.Cyril ra

Deixa o poder nas mãos do seu então vice-presidente da República, Cyril Ramaphosa, que deverá ser anunciado hoje como seu sucessor na chefia do Estado.