Novo presidente angolano tem a obrigação de retirar a economia do “lixo”

Alberto Cafussa

O terceiro Presidente de Angola, que jura fidelidade à Pátria amanhã sob o “olhar silencioso” de Agostinho Neto, ladeado por José Eduardo dos Santos, o Chefe de Estado cessante que conquistou a paz, reconciliou os angolanos e lançou as bases da reconstrução nacional, tem a obrigação de retirar a economia do “lixo”, como a caracterizou, no início deste ano, a agência de notação financeira Standard & Poor’s.

O Presidente eleito prometeu rigor na gestão da coisa pública
Fotografia: Francisco Bernardo| Edições Novembro

Aos angolanos, João Lourenço prometeu ser o reformador da economia nacional, ao ponto de se ter comparado a Deng Xiaoping, o líder chinês que elevou a economia do “dragão asiático” a um lugar de destaque no Mundo.
Deng Xiaoping foi secretário-geral do Partido Comunista Chinês e Presidente da República Popular da China entre 1978 e 1992. Criou o designado “socialismo de mercado”, regime vigente na China moderna, que é hoje a segunda economia mundial.
João Lourenço começa o teste numa altura em que as previsões da economia nacional são pouco animadoras, com a corrupção, a impunidade, a fragilidade das instituições públicas, as desigualdades sociais e regionais, bem como a informalidade da economia a constituírem o “cancro” contra o desenvolvimento do Estado angolano. O Presidente eleito abordou esses temas bastante incómodos com coragem e determinação, por isso, sabe que não pode falhar, num país onde predomina uma população jovem que, cada vez mais, atinge altos níveis de literacia.
Como ele mesmo garantiu, vai pôr fim à mediocridade e promover o mérito, combater a promiscuidade na gestão pública para introduzir a transparência, desencorajar a impunidade e exigir a prestação de contas. É desses actos que depende a sua sobrevivência política e a manutenção no poder pelo seu partido que governa há 42 anos.
As estimativas do novo ciclo macro-económico, que começa amanhã com a investidura do novo Presidente da República, João Lourenço, e a subsequente formação do Governo, não são animadoras. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê um crescimento de 1,5 por cento para o próximo ano, uma estimativa muito abaixo da consultora BMI Research, que antevê uma subida de 4,1 por cento em 2018, mas com a inflação muito elevada e o fraco ambiente empresarial a impedirem uma recuperação mais rápida. Já a Capital Economics prevê um crescimento de 2,5 por cento para o próximo ano.
O Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola antevê um incremento médio anual, até 2021, de apenas 240 dólares no PIB por habitante (o equivalente a 1,5 por cento).
As estimativas apontam para um abrandamento de 2,4 por cento em 2019 e 2020, o que é insuficiente para um país em desenvolvimento com bases magras da economia.
Mas a favor da “equipa” de João Lourenço, além da população jovem, estão os abundantes recursos naturais, como diamantes e hidrocarbonetos, outros minérios, recursos florestais, solos férteis e água abundante.

Diversificar a economia

O desafio do terceiro Presidente de Angola consiste em reduzir a dependência da economia nacional dos “petrodólares” e explorar os recursos que foram subaproveitados durante as décadas de conflito.
João Lourenço, que apelou para “esquecer um pouco o petróleo”, tem um programa ambicioso para executar em cinco anos, com a promessa de “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”.
Além de promover 500 mil empregos e dar uma bolsa de rendimento mínimo às famílias mais desfavorecidas, o programa aprovado nas eleições de 23 de Agosto de 2017 prevê a construção de 1.100 quilómetros de estradas, ao mesmo tempo que propõe reabilitar 7.083 quilómetros de estradas em acréscimo aos 10.219 reabilitados até ao ano passado.
O objectivo do partido no poder é facilitar o escoamento dos produtos do campo para os maiores centros de consumo e garantir a circulação do capital financeiro e humano por todo o território nacional, combatendo desta forma as assimetrias regionais.
A par disso, o MPLA promete concretizar o programa de construção das estradas do Leste, de vias estruturantes e a planificação de vias circulantes, anéis rodoviários e radiais nas principais cidades do país, nomeadamente Cabinda, Benguela-Catumbela-Lobito, Lubango, Huambo-Cáala, Saurimo, Ondjiva e Malanje.
Para tornar este desejo numa realidade, o Executivo de João Lourenço terá de incentivar e apoiar o sector privado na melhoria da oferta do transporte rodoviário de mercadorias, numa visão integrada com as redes logísticas das cadeias de abastecimento das populações e das empresas.
O novo Governo deve consolidar uma rede estruturada de transportes públicos de passageiros aos níveis municipal, provincial e das cidades do país, que garanta maior mobilidade das pessoas e mercadorias. O MPLA quer promover a integração da rede nacional de plataformas logísticas com a rede de transportes e capitalizar a inter-acção ao serviço do desenvolvimento e da internacionalização da economia.
Assim, durante o mandato do novo Presidente da República, serão concluídos e/ou reabilitados os aeroportos de Luanda, de Mbanza Congo, Cuito e Cabinda, a extensão do Caminho-de-Ferro de Benguela, os terminais marítimos de Cacuaco, Panguila, Porto Amboim, Benguela, Lobito e Moçâmedes, bem como o porto de águas profundas de Cabinda.
Nesta legislatura, começa a construção do Porto da Barra do Dande, em apoio ao congestionado Porto de Luanda. Também está prevista a conclusão das plataformas logísticas transfronteiriças de Santa Clara, Luvo, Kimbata, Massabi, Yema e Luau, bem como o projecto de cabotagem do Norte de Angola, com a ligação Cabinda/Zaire/Luanda, e a subvenção dos preços dos bilhetes de passagem aérea de Cabinda para Luanda.
O Executivo de João Lourenço promete implementar a rede logística nacional e melhorar os sectores da distribuição, com a conclusão de centros e entrepostos logísticos provinciais de média e grande dimensão, bem como operacionalizar estes centros nas províncias e municípios, numa parceria com o sector privado.

http://jornaldeangola.sapo.ao/economia/o_desafio_e_tirar_a_economia_da_estagnacao

Advertisements

Economia da África do Sul volta a crescer

 

O governador do banco central da África do Sul declarou que a economia do seu país voltou a crescer no segundo trimestre deste ano, saindo da recessão em que estava desde o início do ano em curso, noticiou ontem a imprensa internacional.

África do Sul regista ligeira expansão e sai da recessão
Fotografia: Edições Novembro
“Acreditamos que o pior ficou para trás e que o crescimento no segundo trimestre será positivo”, disse o governador no final da reunião do banco central que analisou as estimativas de crescimento naquele período.
“Tivemos de reduzir significativamente as nossas previsões para o crescimento, estimando agora 0,5 por cento para o total deste ano, o que é claramente muito baixo para melhorar a situação do desemprego”, acrescentou Lesetja Kganyago, citado pela AFP.
A África do Sul é a economia mais industrializada do continente africano e entrou em recessão no início deste ano pela primeira vez desde 2009, no seguimeto da crise financeira e económica mundial.
O PIB caiu 0,7 por cento nos primeiros três meses deste ano, agravando a queda de 0,3 no último trimestre do ano passado.
A taxa de desemprego está nos 27,7 por cento e nos últimos meses viu o “rating” de duas agências de notação  ser degradado para o nível de não investimento.
Nos últimos meses, a crise política contribuiu para o aumento da instabilidade económica, com sucessivos apelos para a demissão do Presidente da República, Jacob Zuma, incluindo o Congresso Nacional Africano (ANC), partido que sustenta o Governo.

Angola deseja reforçar o sistema de empregabilidade e o incentivo ao empreendedorismo.

JOSE

O Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, orientou ontem, no Palácio Presidencial da Cidade Alta, os trabalhos da 11ª reunião ordinária conjunta das comissões Econômica e para a Economia Real do Conselho de Ministros.

 

A reunião aprovou o Relatório de Balanço do Plano de Caixa do mês de Junho, cujas despesas foram executadas em 91 por cento do montante programado.

 

O Presidente foi informado do Relatório de Atividades sobre “As medidas para fazer face à situação econômica atual/Junho de 2017”destacando no seu conteúdo as ações levadas a cabo no sentido de promover-se a inserção dos jovens na vida ativa, o reforço da capacidade institucional do sistema de emprego e formação profissional, o incentivo ao empreendedorismo, a valorização e mobilização dos recursos humanos e a qualidade e sustentabilidade do sistema de segurança social.

Para fazer face à diminuição das receitas, em função da acentuada redução da queda do preço do petróleo no mercado internacional, o Governo definiu ações de resposta em vários domínios, para, entre outros objectivos, manter o ritmo de crescimento econômico, acelerar a diversificação da economia, através do apoio a projetos empresariais privados dirigidos, inseridos no sector produtivo não produtivo, como a agricultura, pescas, indústria, comércio, transportes, logística e hotelaria e turismo.

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/executivo_aprova_despesas

Pesquisa sobre as eleições à presidente em Angola dá vantagem ao MPLA

 


Candidato pelo MPLA nas eleições gerais de 2017 em Angola, João Lourenço

Candidato pelo MPLA nas eleições gerais de 2017 em Angola, João Lourenço

 

A sondagem do Instituto Jean Piaget de Benguela com apoio da Universidade Católica diz que nas intenções directas de voto o candidato do partido dos camaradas, João Lourenço sai na frente com 36 por cento dos votos, contra 14 por cento de Abel Chivukuvuku da CASA-CE, em segundo lugar e 12 por cento do candidato da UNITA Isaias Samakuva.

A sondagem contou com publico alvo dos inquéritos as sete províncias mais populosas do pais mais Cabinda e inquiriu mais de cinco mil pessoas, 23 porcento dos quais mostraram-se indecisos quanto ao voto a 23 de Agosto.

Campanha eleitoral CASA-CE Namibe

Campanha eleitoral CASA-CE Namibe

A subida da CASA-CE para o segundo lugar nas intenções directas de voto relegando Samakuva da UNITA para o terceiro posto faz com que os politólogos Aberto Cafussa e Agostinho Sicato duvidam da forma como o estudo foi estruturado.

O especialista e professor de ciências políticas Agostinho Sicato não acredita que um estudo bem feito leve a CASA-CE de Chivukuvuku a ultrapassar a UNITA de Isaías Samakuva.

“Este estudo foi mal estruturado no que diz respeito ao foco dos inquiridos, porque de acordo o nosso cenário político é impossível a UNITA ser suplantada pela CASA-CE, é impossível”, disse.

Outro professor universitário em Ciência Política, Alberto Cafussa, diz que a sondagem a seu entender peca pelo facto de não ter levado em consideração o factor étnico, para além de duvidar das amostras utilizadas em termos de público alvo.

O especialista não concorda que sondagem alguma atribua superioridade a CASA-CE em relação a UNITA.

“Eu não concordo muito com esta sondagem quando diz que a CASA-CE e Chivukuvuku suplantem a UNITA de Samakuva, porque qualquer pessoa que veja o trabalho da UNITA e a coesão que ele apresenta sobre o núcleo do seu partido político não se pode pensar que a CASA-CE fique à frente da UNITA, não acredito”, afirmou.

Mas há quem acredite que os números desta sondagem podem sim indicar uma viragem no actual panorama político do país.

O cientista político Nelson Pestana Bonavena diz que na intenção directa de voto o MPLA é francamente minoritário em relação ao indicador eleitoral nacional já que 36 porcento diz que vai votar no MPLA mas 64 porcento dos eleitores nestas províncias onde foram feitos os inquéritos o partido no poder é minoritário.

O politólogo diz em relação aos números deste inquérito desagregados a CASA-CE não só suplanta a UNITA como ao próprio MPLA.

” A CASA-CE em quase todos os itens com excepção de alguns aparece em primeiro lugar e mais em Cabinda a CASA-CE segundo a intenção directa de voto é a primeira força, o que representa uma grande novidade e surpresa no nosso panorama político”, disse.

Para o cientista político, de acordo com esta sondagem a formação de Chivukuvuku vai ser a grande revelação do pleito de 23 de Agosto.

“A formação de Abel Chivukuvuku nestas eleições será a grande revelação e, na minha opinião, devido à sua pluralidade na composição dos seus membros e pelo facto da proximidade de seus principais quadros serem dos bairros peri-urbanos das grandes capitais das províncias onde os inquéritos desta sondagem aconteceram” , acrescentou.

O estudo ouviu 5724 pessoas em sete províncias mais habitadas de Angola e também incluiu Cabinda. Esta sondagem indica que 23 porcento disseram-se indecisos, 4 porcento manifestou votar em branco, 6 porcento vai votar, e 3 porcento recusou responder ao inquérito.

A UNITA já manifestou não acreditar nesta sondagem que, para o segundo maior partido do país, visa camuflar a grande simpatia que o povo está a demonstrar ao partido de Isaías Samakuva.

https://www.voaportugues.com/a/sondagem-da-vantagem-ao-mpla/3961673.html

Portugal na Feira Internacional de Luanda

Cerca de 20 empresas portuguesas estão presentes na Feira Internacional de Luanda, que arranca hoje depois de no ano passado ter sido cancelada devido à crise motivada pelos baixos preços do petróleo e consequente quebra de receitas.

FILDA
FILDA

Só a participação portuguesa a cargo da Associação Empresarial de Portugal (AEP) junta 17 empresas, de setores como construção, agroalimentar, engenharia, metalomecânica e cerâmica, e que são habituais exportadoras para o mercado angolano.

“Mas para os restantes 12 a sua presença na FILDA será uma estreia”, informou à Lusa a AEP, que organiza a participação portuguesa naquela feira, com o apoio da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIPA) e da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).

A 33.ª edição da Feira Internacional de Luanda vai decorrer entre os dias 26 e 30 de julho, em plena marginal junto à baía da capital angolana, e as cerca de duas dezenas de empresas portugueses voltam a dar a Portugal, como nas feiras anteriores, o título de maior representatividade estrangeira, em busca de novas oportunidades de negócio.

Angola é o maior produtor de petróleo em África, mas enfrenta desde final de 2014 uma grave crise económica, financeira e cambial – que condiciona nomeadamente as importações – decorrente da quebra na cotação internacional do barril de crude.

“Angola é um importante parceiro comercial de Portugal, principalmente enquanto destino de exportação”, enfatiza a AEP, recordando que “embora nos últimos anos as exportações tenham registado um ligeiro decréscimo”, o saldo da balança comercial é “fortemente positivo para” Portugal, tendo superado os 2,2 mil milhões de euros em 2015.

Segundo Bruno Albernaz, presidente do conselho de administração da Eventos Arena, empresa promotora da 33.ª edição da FILDA e escolhida há pouco mais de um mês para a organização, cerca de 70% dos expositores representam empresas angolanas, havendo mais empresas de 10 países estrangeiros, num total de 225 expositores.

“É uma boa surpresa, para já para a conjuntura e para o momento que o país está a viver. É um número que nos surpreende e que nos enche de alguma forma de satisfação, pelo facto de termos trabalhado a realização deste evento em tão pouco e mesmo assim tivemos uma grande resposta, não só das empresas angolanas, mas também de alguns empresários estrangeiros”, sublinhou Bruno Albernaz, face à perspetiva inicial, de cerca de 200 empresas representadas.

Depois de sucessivos adiamentos, em 2016, a feira, a inaugurar hoje pelo vice-Presidente da República, Manuel Vicente, vai agora acontecer na Baía de Luanda, distribuída por cinco tendas, totalizando uma área útil de 12.000 metros quadrados de exposição e promoção de negócios em Angola.

A empresa Eventos Arena foi escolhida em junho para a organização pelo Ministério da Economia angolano, através do Instituto de Fomento Empresarial (IFE).

A comitiva portuguesa contará com 20 empresas, sendo por isso a mais representativa entre as estrangeiras, seguida de expositores do Brasil, Suécia, África do Sul, Zâmbia, Índia e mais de uma dezena de empresários chineses, que participam individualmente.

“Temos o comércio, a indústria nacional, banca e serviços, e as máquinas e equipamentos, são as mais representadas”, explicou Bruno Albernaz.

A feira já não será realizada no espaço onde em edições passadas, nos arredores do centro de Luanda, chegaram a estar presentes 1.000 expositores, distribuídos por uma área útil de 30.000 metros quadrados, e que está hoje em situação de abandono.

Esta edição terá como lema “Diversificar a economia e potenciar a produção nacional, visando uma Angola autossuficiente e exportadora”, mas desde logo terá uma área de exposição menor e menos expositores.

A edição de 2016 da FILDA, prevista para julho e adiada depois para novembro devido à crise em Angola, acabou por não se realizar naquele ano, face à reduzida inscrição de expositores, conforme anunciou a administração da Feira Internacional de Luanda.

http://filda.sapo.ao/noticias/artigo/cerca_de_20_empresas_portuguesas_na_inauguracao_da_maior_feira_de_angola-51699yyt.html

 

Candidato do MPLA a Presidente prometeu combater a corrupção

Bernardino Manje | Huambo

26 de Julho, 2017

O candidato do MPLA a Presidente da República prometeu ontem, na cidade do Huambo, melhorias no sistema económico, a promoção do emprego e uma justa distribuição da riqueza nacional, caso o partido vença as eleições gerais de 23 de Agosto próximo.

Candidato do MPLA pede voto certo no dia 23 de Agosto próximo para uma vitória forte e convincente
Fotografia: João Gomes | Edições Novembro | Huambo

João Lourenço, que falava no largo do bairro Kapango, próximo ao aeroporto Albano Machado, num acto político de massas que marcou a abertura da campanha eleitoral do MPLA, pediu aos eleitores, sobretudo, os militantes, amigos e simpatizantes do partido para acorrerem em massa às assembleias de voto, permitindo ao partido vencer de forma folgada as eleições.
Durante o acto, o candidato presidencial do partido no poder fez uma retrospectiva das acções levadas a cabo pelo actual Executivo, tendo concluído que, em 15 anos de paz, o Governo do MPLA investiu muito mais do que Portugal em 500 anos de colonização. “O Executivo do MPLA investiu nas infra-estruturas. Temos o país ligado praticamente de lés a lés por terra. Qualquer um pode deslocar-se facilmente de um ponto para o outro do país”, disse.
Numa intervenção de pouco mais de uma hora, João Lourenço também fez referência aos investimentos feitos nos portos, nos sectores da energia e águas, educação e habitação. Em relação à energia, o candidato presidencial afirmou que “o tempo do candeeiro a petróleo começa a ficar para trás”, lembrando que foram construídas barragens hidroeléctricas que o colono não conseguiu fazer em 500 anos de permanência em Angola.
Os investimentos na produção e distribuição de água potável, disse, têm permitido a redução de muitas doenças. “É verdade que ainda há doenças diarréicas que, em princípio, são consequência da água imprópria”, admitiu João Lourenço, assegurando, no entanto, que se está muito próximo de vencer esse desafio, até porque “não há um município onde o Estado não tenha investido em infra-estruturas de captação e distribuição de água”.  Em relação às escolas, minimizou as críticas da oposição, segundo as quais o Executivo não fez nada neste sector. “Por muito que os nossos detractores ou adversários digam que não, não conseguem justificar o que dizem porque os factos estão aí. Ninguém consegue esconder uma escola ou um grande edifício” afirmou o candidato do MPLA, para questionar: “será que eles não têm os seus filhos nessas escolas?”.
Admitiu, no entanto, que deve haver mais qualidade nos sectores da educação e saúde. “É hora de começarmos a ver com outros olhos a qualidade do ensino e da saúde”, defendeu João Lourenço, sublinhando que se deve investir fortemente nas qualidades técnicas dos profissionais destes dois  sectores. “Quem deve fazer a diferença é o homem, é o professor, o médico ou o enfermeiro que lidam com o público no dia-a-dia, quer seja para transmitir conhecimentos ou tratar de mazelas”, disse. O candidato do MPLA defende que se melhorem os serviços prestados à população, quer seja nas conservatórias, notariados, bancos e em todos os sítios onde haja balcão de atendimento ao público. João Lourenço acredita que é possível melhorar o actual quadro, desde que se tomem as “medidas necessárias”. Sobre as acções no sector da habitação, referiu-se à construção de habitações sociais e de centralidades um pouco por todo o país, realçando a do Lossambo,  arredores da cidade do Huambo.

Aumento de emprego

Perante a multidão que encheu por completo o largo do bairro Kapango, o candidato do MPLA a Presidente da República afirmou que o partido está preocupado com o emprego, que considerou “algo muito sagrado”. “O MPLA presta atenção muito particular à necessidade do aumento constante da oferta de postos de trabalho”, disse João Lourenço.

 

Solução dos problemas da população passa pela economia

 

A solução dos problemas da população passam pela melhoria da economia, defendeu o candidato do MPLA a Presidente da República, para quem é preciso que a economia funcione bem e sem burocracia. “Vamos trabalhar pelo menos para reduzir a burocracia nos serviços, para que os investidores possam tocar para frente os seus negócios”, prometeu. Durante toda a pré-campanha, o candidato do partido no poder falou da necessidade de se combater a corrupção.
O repto foi reafirmado ontem. Segundo João Lourenço, para se melhorar o ambiente de negócios, tem de se ter a coragem e capacidade de combater a corrupção. “Se falharmos no combate à corrupção, também falharemos na melhoria da nossa economia. Se falharmos, os investidores também não virão”, alertou.  João Lourenço disse estar confiante no combate à corrupção, porque conta com o apoio do MPLA e da população. “Um verdadeiro compatriota combate a corrupção. Este combate não tem cor partidária”, afirmou.
Outro desafio do MPLA, disse, é a distribuição justa da riqueza nacional. João Lourenço alertou, no entanto, que a distribuição a que se refere não é de dinheiro, mas sim o estabelecimento de programas de inclusão económica, para que mais gente tenha o seu próprio negócio. A meta, sublinhou, é reduzir o número de pobres e aumentar a classe média.
O candidato do MPLA prometeu a descentralização dos serviços, caso vença as próximas eleições, uma prioridade para ter êxitos na  governação.

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/distribuir_melhor_a_riqueza

“Diversificar a Economia e Potenciar a Produção Nacional, Visando uma Angola Auto-Suficiente e Exportadora”

Madalena José |

26 de Julho, 2017

Depois de um ano de interrupção, a Feira Internacional de Luanda (FILDA) abre hoje, com 230 empresas expositoras, o que representa uma redução significativa de participação em relação à última edição realizada em 2015, com a participação de mais de 800 empresas.

Pelo menos 230 empresas expõem potencialidades na Feira Internacional de Luanda
Fotografia: José Soares | Edições Novembro

A organização garante que as empresas nacionais mantêm o ritmo de liderança dos últimos três anos.
Nesta sua 33.ª edição o evento decorre numa área de 16 mil metros implantados  em quatro pavilhões, com o predomínio das empresas nacionais .
A decorrer, pela primeira vez, na Baía de Luanda sob o lema “Diversificar a Economia e Potenciar a Produção Nacional, Visando uma Angola Auto-Suficiente e Exportadora”, até à tarde de ontem a montagem dos espaços estava concluída, albergando todos os expositores em \”stands\” próprios e \”stands\”-tipo Filda. A 32.ª edição da Feira Internacional de Luanda-2015, realizada sob o lema “Dinamismo, criativo, conferência, na produção nacional, um pressuposto, para diversificação e industrialização da economia angolana e um desafio para a juventude empreendedora”, realizou-se numa área de 50 mil metros quadrados nas instalações do Cazenga.
A FILDA 2015 resultou num volume de negócios estimado em 11 milhões de dólares apresentando-se como desfecho de cinco dias de contactos comerciais entre decisores, fornecedores, gestores e financiadores.
Na 31.ª edição da Feira Internacional de Luanda, que decorreu de 22 a 27 de Julho de 2014, participaram 475 empresários nacionais.
Tal como nos três últimos anos, o evento constituiu um instrumento de promoção e captação de investimentos para o país e de divulgação para o exterior do ambiente macroeconómico que se regista, disse Coutinho. A presidente do conselho de administração do Instituto de Fomento Empresarial, Dalva Ringote, confirmou ontem ao Jornal de Angola que os  expositores estrangeiros, vindos de 25 países,  já se encontravam todos no país. Trata-se de Portugal, Brasil, Suécia, África do Sul, Zâmbia, Índia, China, só para citar os sete maiores investidores no país.
O Jornal de Angola foi ao terreno e encontrou um frenesim dentro do recinto. Homens e máquinas circulavam de um lado para outro, todos querendo terminar a montagem dos \”stands\” antes da inauguração. Para acolher a edição de 2017 no novo espaço, desta vez à beira-mar, foram construídas várias infra-estruturas, entre as quais seis pavilhões, nomeadamente o de Angola, dos Sectores, dos Petróleos, o Pavilhão Internacional, Exposição Exterior, Praça da Alimentação  e salas de Conferências .No Pavilhão Internacional estão presentes 11 países, com destaque para Portugal e o Brasil, com maior número de empresas representadas com 20 e dez empresas respectivamente.
A representação portuguesa nesta edição é organizada pela Associação Empresarial de Portugal e pela Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), enquanto a brasileira é coordenada pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil).
A Feira é organizada por diferentes entidades gestoras, como a Eventos Arena que é a promotora, com a gestão directa do Governo de Angola, através do Ministério daEconomia. “Reforçar a atractividade de Angola no panorama mundial, estimular as parcerias e sinergias entre os empresários nacionais e internacionais e activamente contribuir para uma Angola auto-suficiente e exportadora é o objectivo da organização”, referiu a PCA do Instituto de Fomento Empresarial.

Produtos e marcas
O evento vai lançar  vários produtos e  marcas. Tal é o caso   da Siemens que prevê o lançamento da campanha “Ingenuity For Life”, centrada nas três áreas fundamentais em que a Siemens actua em Angola, o  Oil & Gas, a Energia e a Indústria.
“Aproveitamos o momento para lançar a campanha de publicidade internacional com enfoque no mercado angolano”, diz Joana Garoupa, directora de comunicação da Siemens Angola, sublinhando “a importância de espelhar nesta iniciativa de comunicação, o que de melhor se faz em Angola”.
A UNITEL vai lançar a App Unitel, um serviço inovador da operadora, e promove o “Club da Criança Unitel”,  um espaço com actividades dedicadas às crianças dos três aos 14 anos e uma sessão de cinema ao ar livre.
Já o Banco Keve aposta na continuidade da estratégia definida pelo seu conselho de administração, que passa por garantir uma proximidade cada vez maior com os normais e potenciais clientes, dando a conhecer os seus produtos e serviços.
O Banco Keve, com mais de 13 anos de experiência de banca no mercado nacional, privilegia uma grande aproximação aos seus mais de 155 mil clientes, satisfazendo as suas necessidades no domínio das operações e prestação de serviços bancários.
Com  término previsto para o próximo domingo, 30 de Julho, a 33.ª edição da Feira Internacional de Luanda, considerada a maior bolsa de negócios de Angola, é um evento multi-sectorial realizado anualmente, com o objectivo de promover e fortalecer o potencial económico e  atrair investimentos, nacionais e internacionais, capazes de apoiar o desenvolvimento de Angola.
A FILDA é um evento que junta, desde 1983, empresas nacionais e mundiais para expor produtos e serviços.

Dia de Portugal
As cerca de duas dezenas de empresas portugueses que participam da FILDA 2017 voltam a dar a Portugal, como nas feiras anteriores, o título de maior representatividade estrangeira, em busca de novas oportunidades de negócio.
A participação portuguesa, a cargo da Associação Empresarial de Portugal (AEP), com o apoio da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIPA) e da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), junta empresas dos sectores da construção, agro-alimentar, engenharia, metalomecânica e cerâmica, habituais exportadoras para o mercado angolano.
Angola é um importante parceiro comercial de Portugal, principalmente enquanto destino das exportações. Ainda que nos últimos anos as exportações tenham registado um ligeiro decréscimo, o saldo da balança comercial é fortemente positivo para Portugal, tendo superado os 2,2 mil milhões de euros, em 2015.

http://jornaldeangola.sapo.ao/economia/feira_de_negocios_abre_na_marginal_de_luanda

 

80% da força de trabalho em Moçambique está no setor informal

dinheiroEO BANCO Mundial considera que a fraca capacidade das empresas moçambicanas em exportar a sua produção constitui um dos principais desafios para a economia nacional.

Segundo Carolin Geginat, do Banco Mundial, citando uma pesquisa sobre empresas moçambicanas do sector manufactureiro, apenas três por cento delas é que são exportadoras.

“A diversificação dos produtos exportadores é limitada. Em 2011, Moçambique

obteve 0,73 no índice de diversificação de exportação. Esse valor significa que o país está longe da média mundial em termos de diversificação de exportações”, disse.

Falando esta semana, duranteuma conferência do Standard Bank, Carolin Geginat disse que num total de 128 economias Moçambique ocupa o 84º lugar no Índice Global de Inovação 2016 e 100º, no referente ao Uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e Criação de Modelos de Negócio.

Fazendo uma reflexão sobre o sector privado em Moçambique, Carolin Geginat aludiu ao facto do relatório denominado “Regional Economic Outlook”, divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em Abril último, referir que cerca de 40 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique, entre 2010 e 2014, ter sido produzido pelo sector informal.

“Entre 70 e 80 por cento da força de trabalho no país está no sector informal que, infelizmente, tendem a ser menos produtivos por falta de acesso ao financiamento formal e de mão-de-obra especializada”, frisou.

Na sua apresentação, a fonte falou sobre o sector privado formal, destacando que em 2015 três quartos das empresas formalmente registadas em Moçambique eram micro (com menos de 5 funcionários).

“No seu conjunto, essas empresas geraram apenas 16 por cento das receitas totais e 13 por cento do emprego total na forma formal.

Debruçando-se sobre ainda sobre a economia, Carolin Geginat notou que 70 por cento das receitas, emprego e valor agregado são criados apenas 7 por cento de todas as empresas (principalmente as maiores e que operam no sector da indústria extractiva).

Para inverter o cenário, a fonte explicou ser necessário investir em infra-estruturas e habilidades; criar as condições para um maior acesso ao financiamento; investir na redução da burocracia, entre outros.

Sobre a necessidade de se apostar no desenvolvimento de infra-estruturas e habilidades, a fonte afirmou justificar-se pelo facto de Moçambique registar, actualmente, uma pontuação baixa na provisão de infra-estrutura, educação, inovação e sofisticação empresarial, segundo o Índice de Competitividade Global do Fórum Económico Mundial.

“Em 2014, apenas 21 por cento da população tinha acesso à electricidade. A acessibilidade do transporte rural está atrasada, mesmo para os padrões africanos. A cobertura de irrigação é baixa, uma vez que em todo o país existem cerca de 180 mil hectares equipados com infra-estruturas de irrigação, sendo que apenas metade deles é que está sendo realmente utilizada. Apesar dos recursos crescentes para o sector de educação e haver um aumento das taxas de matrícula, a qualidade da educação continua sendo uma preocupação”, disse.

Quanto ao acesso ao financiamento, Carolin Geginat disse que os bancos são relutantes em conceder empréstimos devido à falta de informação que permita distinguir os bons dos maus pagadores.

“As poucas empresas que podem obter financiamento enfrentam custos elevados e as taxas de juro pelos empréstimos bancários actualmente andam na faixa dos 29 por cento”, frisou.

País mantém firmeza para restaurar estabilidade

O economista chefe do Standard Bank, Fáusio Mussá, disse que o país continua a registar passos firmes para ultrapassar um conjunto de desafios no sentido de restaurar a estabilidade macroeconómica, salientando, contudo, que o progresso continua lento e os riscos permanecem elevados.

Este cenário, segundo Mussá, que falava na conferência do Standard Bank, deve-se ao facto de grande parte das perspectivas de retoma da economia e dos pressupostos de sustentabilidade estar focada nos projectos do LNG-Gás Natural Liquefeito, o que acarreta riscos em caso de atrasos adicionais no arranque desses megaprojectos e poderá comprometer a sustentabilidade da retoma da economia.

“A nossa análise indica que o país continua a dar passos firmes para a recuperação da economia. Mas a manutenção da estabilidade macroeconômica requer uma aceleração das reformas estruturais, nomeadamente no sistema judicial, negócios, sector bancário e financeiro, fiscal e nas empresas públicas”, referiu.

A fonte acrescentou notar que o PIB está a crescer, no entanto este crescimento ainda não está necessariamente a traduzir uma ampla retoma da actividade.

Em parte reflecte um melhor desempenho no sector primário, onde a agricultura beneficia de uma melhoria nas condições climatéricas e do ambiente de estabilidade criado pela trégua em vigor desde finais de 2016.”

De acordo com o economista, reflecte, também, “o crescimento do sector exportador, particularmente o mineiro, incluindo algumas empresas que têm conseguido manter um nível considerável de negócios, investindo capitais próprios, uma vez que a política monetária se mantém restritiva, o que implica taxas de juro para o crédito à economia em torno dos 30 por cento”.

“Com uma apreciação acumulada do metical de 15,1 por cento, nos primeiros seis meses de 2017, perspectiva-se alguma estabilidade do câmbio do metical face ao dólar no segundo semestre em torno dos actuais níveis de 60,5 meticais por dólar, o que representa uma melhoria substancial em relação aos 71 dólares/metical do final de 2016. Embora haja ainda potencial para apreciação adicional do metical, notamos que o Banco Central tem estado a intervir no mercado cambial para limitar os ganhos do metical face ao dólar e proteger as reservas internacionais, o que indica que podemos entrar num período de estabilidade relativa nos níveis actuais”, frisou.

Se a economia do país registar o nível do progresso que se espera para 2018, pode ser difícil para o Banco Central continuar a intervir no sentido de manter o metical acima dos 60, em relação ao dólar: “Podemos ter o metical em torno dos 50 no final de 2018, o que sustenta a nossa convicção de que, no próximo ano, teremos a inflacção a um dígito”, projectou o economista.

Na sua opinião, estes indicadores de conjuntura, seja a aceleração do crescimento do PIB, seja de perspectivas de redução da inflação ou de estabilidade da moeda, indicam que provavelmente o país já passou o pior desta crise, mas os riscos permanecem elevados, sobretudo os relacionados com a fragilidade fiscal e das empresas públicas,
e espaço, os investidores e gestores das empresas privadas e públicas, incluindo os reguladores, que tomam decisões com impacto na economia de Moçambique, podem reflectir em conjunto sobre as tendências da economia e perspectivar sobre o que pode ser feito para acelerar o crescimento”, disse o administrador-delegado.
O Economic Briefing deste ano teve como tema “Moçambique – restaurando a estabilidade macroeconômica”, uma vez que o banco considera ser uma condição indispensável para o progresso do país.

 

Fonte:http://www.jornalnoticias.co.mz/index.php/economia/69233-banco-mundial-alerta-para-fraca-capacidade-de-exportacao.html

A grande mudança na economia angolana

Cândido Bessa |

 

José Cerqueira, economista, é o rosto do programa que passou à História com o nome de Saneamento Económico e Financeiro (SEF). Antes de Gorbatchov lançar a Perestroika, o Presidente José Eduardo dos Santos avançou em Angola com a abertura à economia de mercado.

 

Economista José Cerqueira foi o rosto do SEF
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

O Secretariado do SEF foi constituído em 1987 e, alguns dias depois, foi anunciado ao Comité Central do MPLA que Angola ia adoptar um vasto programa de reformas. Decorridas três décadas, o Jornal de Angola ouviu quem deu expressão às mudanças profundas que conduziram à democracia representativa.

Jornal de Angola – O que foi o programa Saneamento Económico e Financeiro?

José Cerqueira – Foi uma das mais importantes experiências pessoais que vivi. Recordo o filme de acontecimentos. Em 1985, teve lugar o V Congresso que tinha reafirmado a ortodoxia marxista-leninista. Mas esta linha política mostrava-se impotente para lutar contra a crise, que naquela época se tinha abatido sobre a economia angolana, cuja causa próxima foi a queda do barril de petróleo abaixo de dez dólares.

Jornal de Angola – Quando entrou no programa?

JC – Em 1986, cheguei a Luanda vindo de França, onde estava a fazer um doutoramento. Regressei para fazer uma pausa. Em finais de 1986, o engenheiro António Henriques, então Ministro do Plano, desafiou-me a escrever as linhas mestras de um programa eficiente de combate contra a crise, quer dizer, de crescimento económico. Aceitei o desafio, porque eu tinha estudado em França reformas económicas.

JA – O desafio era reformar o socialismo?

JC – O objectivo era fazer algo de novo. A situação económica e social estava muito degradada, pois a queda do barril de petróleo foi tremenda. Chegou aos nove dólares, o que era insuportável, dado o grande esforço de guerra. As despesas militares consumiam praticamente todos os recursos. O Presidente José Eduardo dos Santos tomou a sábia decisão de mudar o sistema. O que tínhamos, deixou de funcionar.

JA – Isso aconteceu de um dia para o outro?

JC – Já existia gente a trabalhar em reformas económicas, porque há algum tempo que se tinha concluído que a economia planificada não era suficiente para dar resposta aos nossos problemas. E ficou decidido que era necessário fazer uma abertura à iniciativa privada, para dar um novo ânimo à sociedade. Alguns economistas já andavam a trabalhar com os húngaros, num início de reforma.

JA – Os resultados dessa iniciativa foram positivos?

JC – Todas as iniciativas que visam mudanças têm algo de positivo. Mas aquele esquema com os húngaros foi incapaz de inspirar uma reforma angolana e muito menos inspirar um pensamento económico angolano.

JA – Porquê?

JC – Os técnicos angolanos que trabalhavam no programa punham os húngaros à frente. Era um grupo que foi incapaz de fazer um plano angolano, apesar de envolver seis ou mais técnicos. Essencialmente, o grupo angolano era um papagaio dos húngaros. O António Henriques percebeu que aquilo não ia para a frente. O Presidente José Eduardo dos Santos também percebeu.

JA – A sua entrada no novo programa foi para dar um novo impulso?

JC – O problema das ideias dos húngaros era este: apesar de serem reformistas, ainda eram marxistas. Quando me convidou para o que viria a ser o SEF, o António Henriques sabia que eu não era marxista, embora nunca tivéssemos falado sobre disso. Naquela altura, eu já era keynesiano. Mas o economista Keynes não foi meu inspirador na redação do Programa SEF. Eu apliquei conhecimentos obtidos graças a ter estudado muito, os temas da retoma económica, saneamento económico e financeiro.

JA – Quando estava a fazer o doutoramento em França?

JC – Sim, tinha estudado na universidade os planos da Sociedade das Nações, depois da Guerra Mundial. O economista francês Jacques Rueff dirigiu esses planos e escreveu muito sobre isso. Eram excelentes planos de recuperação económica, muito diferentes dos do FMI.

JA – O seu papel foi só na área económica?

JC – Também foi preciso comunicar. Fomos expor o programa ao Comité Central do MPLA, aos comandos militares, fiz intervenções na conferência de quadros e sobretudo na rádio e na televisão: palestras, entrevistas, espaços especiais. O Presidente José Eduardo dos Santos estava mesmo empenhado em mudar a sociedade e dar novo rumo ao país.

JA – Qual era a filosofia do programa de Saneamento Económico e Financeiro?

JC
– Era muito simples, libertar as forças do crescimento económico. O investimento, a economia privada, o lucro. Converge tudo para o investimento.

JA – Foi assim que nasceu o Programa de Saneamento Económico e Financeiro?

JC – A ideia base era libertar as forças do crescimento. Para isso, redigi dois planos para aplicação simultânea, dos quais o principal era o Saneamento Económico e Financeiro que consistia em substituir o mecanismo de planeamento por um mecanismo bancário. As empresas têm que equilibrar as suas contas com os bancos. Ajustar os preços e a produção para não terem dívidas aos bancos. Os empresários têm de equilibrar as suas contas. O outro programa foi de Recuperação Económica, onde se indicou a necessidade de reestruturação da dívida exterior de Angola, de maneira a reunir fundos de retoma de investimento.

JA – Como começou o programa?

JC – A primeira coisa que fizemos foi mudar a legislação bancária, para os bancos funcionarem bem. Era uma legislação bancária moderna, que não foi contestada. Foi renovada e orientada no bom sentido de modificação do sistema de pagamentos. E foram criadas condições para aparecimento ulterior de novos bancos.

JA – Quais?

JC – O primeiro passo foi autonomizar o BPC. Separámos o banco central, do BPC. Os novos bancos apareceram já na década de 90, depois das eleições.

JA – Quais eram os outros passos?

JC – Nós defendemos que tínhamos de reestruturar a dívida externa de Angola no Clube de Paris e apresentar uma candidatura ao FMI. Conseguimos isso rapidamente, em pouco mais de um ano. Angola recebeu do Clube de Paris dois mil milhões de dólares, em novas linhas de crédito.

Isso deu um fôlego muito grande à economia.

JA – Nessa fase, sentiram apoio político?

JC – Houve muita resistência. Mas o mais importante é que o Presidente José Eduardo dos Santos entendeu que estávamos perante uma grande viragem económica e que íamos responder ao desejo legítimo dos angolanos enriquecerem. No fundo, era virar as costas ao socialismo. Não se podia dizer isso, mas era assim.

JA – Sentiram o apoio da sociedade?

JC – Sentimos sempre um grande apoio. Com os primeiros resultados, nasceu uma grande onda de optimismo, só comparável ao que aconteceu depois em 2002 com a paz. Nesta altura, ainda estávamos em guerra. Ao vermos tanto entusiasmo, pedimos ao Presidente José Eduardo dos Santos para nos deixar fazer uma grande conferência de quadros. Foi uma coisa inédita e nunca mais houve uma reunião deste nível.

JA – Onde decorreu a conferência de quadros?

JC – Foi aqui em Luanda. Dezenas de quadros compareceram. Depois, fomos às províncias levar as novas   mensagens. Eu fui ao Lubango. Verificámos que toda a gente estava à espera que isso acontecesse. Havia uma grande desilusão com o sistema de planificação socialista. Todos ficaram contentes com as normas do investimento público e do investimento privado. O Presidente José Eduardo dos Santos assumiu a direcção. Fizemos conferências para os membros do Comité Central, porque havia muita resistência no partido. Diziam que estávamos a matar o socialismo, o que era um pouco verdade.

JA – Ainda tiveram muita resistência a essas mudanças estruturais?

JC – Sim, houve muita resistência, mas como o Presidente da República nos apoiava e dirigia as reformas, acabámos por efectivar a aproximação aos países do ocidente. Essa opção prevaleceu, ainda que Luanda não tivesse operado uma ruptura com Moscovo.

JA – Quando foi concluído o programa?

JC – Prefiro dizer que o programa começou a perder força quando entrámos para o FMI. Nessa altura, apareceram ideias de outros programas cujos nomes já quase ninguém recorda. Nós éramos uma corrente de pensamento angolana. O que veio depois, pouco a pouco, foi o FMI. Meteram-se no BNA e no Ministério das Finanças.

JA – O que ficou de importante do Programa de Saneamento Económico e Financeiro?

JC – Ficou uma clara orientação para a economia de mercado, para o sistema bancário, o sistema de pagamentos e os financiamentos da economia. Essencialmente isso. O FMI com os seus programas criou uma certa dualidade económica em Angola.

JA – Qual era essa dualidade?

JC – Apurava-se o preço fiscal do petróleo. Até 50 dólares o barril, por exemplo, todos os recursos eram geridos sob supervisão do FMI.  A partir daí, eram programas especiais do Presidente da República.

JA – Quais eram esses programas especiais?

JC – Grande parte do investimento público, todo o sistema internacional das embaixadas, as ajudas internacionais que Angola dava, financiamento das Forças Armadas, da Segurança de Estado.

JA – Quando o programa acabou?

JC – O SEF foi extinto em 1990 ou 1991. Mas em 2003, durante o congresso do MPLA, o Presidente José Eduardo dos Santos deu uma entrevista ao jornal do partido e elogiou o SEF, considerando-o um acontecimento importante. E referiu dois nomes: António Henriques e José Cerqueira. Não falou de mais ninguém. Havia mais gente, mas nós os dois é que lançámos a ideia do programa e o executámos. Nós aparecemos com algo que ia no sentido das aspirações das pessoas. O investimento privado ganhou grande dimensão, sobretudo no comércio e na pequena indústria, que sofreu um grande impulso.

JA – Qual foi o efeito do programa na agricultura?

JC – Nesse sector, não foi possível trabalhar. Angola estava em plena guerra e o meio rural foi destruído. Houve um êxodo gigantesco das províncias para o litoral. Os combates decorriam no interior do país, nas zonas onde era possível praticar a agricultura. Eram impossíveis as trocas com o interior.

JA – O programa que ditou as mudanças estruturais decorreu da Perestroika?

JC – Nem pensar. Nós avançámos vários meses antes, ainda ninguém falava em Perestroika. E superámos as reformas húngaras, que eram tímidas. O chefe dos húngaros, professor Talloz, disse-me que conseguimos ir bem mais longe. Foi uma grande experiência que o nosso país viveu. E o mérito é todo do Presidente José Eduardo dos Santos.

JA – Então porque acabou com o programa?

JC – As pressões eram tantas que ele acabou com o secretariado, mas sem acabar com a experiência, dando-lhe continuidade. O movimento das ideias manteve-se. Não houve recuo. Tudo o que foi feito depois tinha como palco uma economia cada vez mais capitalista. Isto ajudou muito a vitória militar. Até digo que, sem as reformas estruturais no âmbito do SEF, corríamos o risco de perder a guerra. Foram essas mudanças que ditaram a derrota dos sul-africanos, a independência da Namíbia, a saída dos cubanos, a nova Constituição da República.

Perfil

Nascido em 1954
na província
do Cuanza Norte
José Cerqueira
passou a
viver em Portugal, na província do Douro Litoral, onde chegou com apenas seis anos.

Licenciou-se
em Economia
na Faculdade
de Economia
do Porto em
1976, ano em que passa a residir em Luanda. Em 1981, obtém uma bolsa
de estudo
que lhe permite obter, na Universidade de Bourgogne (França).

Em 1987
torna-se, durante um ano, o principal economista do primeiro programa
angolano de reformas económicas.

Em 1992
retoma investigações científicas
que lhe permitem obter em 1994 o título de Doutor de Estado (Docteur
d’État), na Universidade de Bourgogne, obtendo a menção mais alta praticada
em universidades francesas.

 

fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/sef_marcou_a_viragem_economica_em_angola

Projetos de Decretos sobre Angola, Serra Leoa e Moçambique tramitando no Senado brasileiro

P1050984Luanda – Angola

Entre os projetos de decreto legislativo (PDS) na pauta da CRE, três são celebrados com países africanos. OPDS 1/17 estabelece acordo de cooperação e facilitação de investimentos entre o governo do Brasil e o de Angola. A proposta incentiva o investimento recíproco entre os dois Estados e permite maior divulgação de oportunidades de negócios, intercâmbio de informações sobre marcos regulatórios, garantias para o investimento e mecanismos adequados de prevenção e solução de controvérsias.

Por sua vez, o PDS 2/17 aprova os termos de acordo de cooperação e facilitação de investimentos firmado entre o governo brasileiro e o governo da República de Moçambique. O texto busca facilitar a troca de informações e as chances de negócios entre os dois países.maputo

Maputo- Moçambique

E O PDS 17/17 trata de acordo de cooperação cultural assinado em 2009 entre Brasil e Serra Leoa, país da África Ocidental com pouco mais de seis milhões de habitantes. O acordo determina intercâmbio de experiências no campo das artes plásticas, artes cênicas, música, literatura, cinema e educação cultural, entre outros, encorajando a participação de artistas do Brasil e de Serra Leoa em festivais, seminários, exposições e eventos internacionais a serem realizados em um dos dois países. O tratado prevê também contato entre museus e bibliotecas, para troca de acervos, e intercâmbio de experiências em preservação de patrimônio.

Freetown-1.jpg