Homenagem de Angola na despedida a Nkosazana Dlamini-Zuma, ex-presidenta da Comissão da União Africana

por Guilhermino Alberto | Adis Abeba

Fotografia: João Gomes | Adis abeba-Edições Novembro

O Vice-Presidente da República, Manuel Vicente,  manteve um encontro com o Presidente da Namíbia, Hage Geingob, à margem da  28.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que encerrou ontem em Adis Abeba, capital da Etiópia.

 

Manuel Vicente e Hage Geingob analisaram ontem a cooperação bilateral e os espaços que ainda existem para o seu alargamento. Ainda ontem de manhã, o Vice-Presidente da República recebeu em audiência, no Hotel Radisson Blu de Adis Abeba, a secretária executiva da Associação para o Desenvolvimento da Educação em África (ADEA), a anglo-gambiana Oley Dibba-Wadda, que é especialista em questões para o desenvolvimento da educação e faz campanha activa por uma abordagem eficaz à educação que não ponha de parte estudantes do sexo feminino.
Em declarações à imprensa angolana, Dibba-Wadda disse que o encontro serviu para convidar as autoridades angolanas a participarem, de 15 a 17 de Março próximo, na cidade de Marraqueche, Marrocos, numa mesa-redonda organizada pela ADEA para uma análise profunda sobre a educação no continente africano.
Para a especialista em educação inclusiva, Angola é um país com o qual se deve sempre contar em iniciativas que envolvem a educação da jovem mulher. A ADEA tem projectos virados para o continente africano e conta com o apoio de importantes instituições financeiras, como o Banco Mundial (BM) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).
Manuel Vicente visitou ontem as novas instalações da Embaixada de Angola na capital etíope e assistiu à sessão de empossamento da nova presidência da Comissão da União Africana. Tomou posse para um mandato de quatro anos como presidente da Comissão da União Africana, em substituição da sul-africana Nkosazana Dlamini-Zuma, o chadiano Moussa Faki Mahamat.
Mahamat, que figurava entre os favoritos ao cargo, conseguiu o lugar depois de sete voltas de votação, tendo como principal adversária a ministra dos Negócios Estrangeiros do Quénia, Amina Mohamed.
Na reunião prévia desta instituição, realizada em Julho do ano passado na cidade de Kigali, capital do Ruanda, nenhum dos três concorrentes, entre os quais não figuravam o chadiano e a queniana, conseguiu dois terços dos votos requeridos para ter a maioria (36 dos 54 países que integram actualmente a UA). Com a reintegração de Marrocos na segunda-feira, a União Africana passa a contar agora com 55 Estados-membros. Além do presidente da Comissão, tomou ontem posse como vice-presidente do órgão executivo da União Africana o ghanense Thomas Kwesi Kwete. A União Africana é presidida pelo Chefe de Estado da Guiné Conacri, Alpha Condé, e co-presidida pelo Presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika.
Ontem tomaram igualmente posse, na sede da organização continental em Adis Abeba, o grosso dos comissários da União Africana, entre os quais a angolana Josefa Sacko, que se vai ocupar da Economia Rural e Agricultura. Em declarações à imprensa, minutos antes de tomar posse, Josefa Sacko agradeceu o voto de confiança dos Estadistas africanos, tendo destacado o papel do Presidente José Eduardo dos Santos na promoção dos quadros dentro e fora das fronteiras nacionais.
O ministro das Relações Exteriores, Georges Chicoti, fez um balanço positivo da 28.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana. Considerou a eleição do novo presidente da Comissão da União Africana e o regresso de Marrocos à organização, depois de uma ausência de 33 anos, como bons sinais para os consensos que são necessários no futuro, como é o diálogo que vai ter de acontecer à volta da questão do Sahara Ocidental sem pré-condições.
Além da questão de Marrocos e do Sahara, Georges Chicoti congratulou-se com a eleição, por uma margem confortável, do presidente da Comissão da União Africana, assim como com a recondução do comissário para a Paz e Segurança, o diplomata argelino Smaïl Chergui, “que trabalhou muito bem” e por isso mereceu a confiança dos Chefes de Estado africanos.
O ministro congratulou-se também com a eleição de Josefa Sacko. Angola  entra pela primeira vez no órgão executivo da União Africana, com a eleição da engenheira Josefa Sacko. Chicoti revelou que esta era uma candidatura preparada há muito. O chefe da diplomacia angolana acredita que a comissária africana Josefa Sacko vai ser uma grande mais valia na promoção interna do sector da Agricultura, no actual momento da diversificação da economia angolana.
Georges Chicoti reconhece que o orçamento anual da União Africana, estimado em pouco mais de 500 milhões de dólares, não é suficiente para os grandes desafios do continente, mas acredita que os Estados-membros vão dar as suas contribuições para os projectos de desenvolvimento existentes.

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“O país que recebeu escravos, decidiu proibir a entrada de refugiados”

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A presidente da Comissão da União Africana (UA), Nkosazana Dlamini-Zuma, lamentou hoje que “o mesmo país que recebeu como escravos” muitos africanos, em referência aos Estados Unidos, tenha agora proibido a entrada de refugiados deste continente.

Dlamini-Zuma denunciou a política de imigração do Presidente norte-americano, Donald Trump, contra cidadãos de sete países de maioria muçulmana, que qualificou como “um dos maiores desafios à união e solidariedade” de África, durante a uma intervenção na cimeira anual da UA, que hoje começou na capital da Etiópia.

“O mesmo país que recebeu como escravos muita da nossa gente durante o comércio transatlântico de escravos decidiu agora proibir a entrada de refugiados de alguns dos nossos países. O que é que vamos fazer em relação a isto?”, perguntou a presidente da Comissão da UA aos chefes de Estado presentes no evento.

Numa das suas últimas intervenções como dirigente executiva da organização, que hoje elege a sua sucessora, Dlamini-Zuma reconheceu que estes são tempos “muito turbulentos” para o continente.

Na mesma linha de argumento, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, presente na cimeira, recordou que os países africanos acolhem a maior população de refugiados do mundo.

“As fronteiras africanas continuam abertas para todos os refugiados que necessitam de proteção, enquanto as fronteiras em muitos outros países, incluindo nas zonas mais desenvolvidas do mundo, estão a ser fechadas”, afirmou Guterres, que recebeu os aplausos do plenário.

Donald Trump assinou na passada sexta-feira um decreto polémico que suspende a entrada nos Estados Unidos a todos os refugiados durante 120 dias, assim como a concessão de vistos durante 90 dias a sete países de maioria muçulmana — Líbia, Sudão, Somália, Síria, Iraque, Iémen e Irão — até que se estabeleçam novos mecanismos de segurança.

Fonte: Notícias ao minuto/BA

http://tpa.sapo.ao/noticias/internacional/o-pais-que-recebeu-escravos-decidiu-proibir-a-entrada-de-refugiados

Presidente da Comissão da UA africana critica decisão de Donald Trump


Dlamini-Zuma pede resposta de África

Dlamini-Zuma pede resposta de África

Nkosazana Dlamini-Zuma lamenta que país que recebeu como escravos muita da nossa gente decidiu agora proibir a entrada de refugiados

A presidente da Comissão da União Africana (UA), Nkosazana Dlamini-Zuma, criticou nesta segunda-feira (30) a decisão do Presidente americano de suspender a entrada de cidadãos de sete países, sendo eles três africanos.

“O mesmo país que recebeu como escravos muita da nossa gente durante o comércio transatlântico de escravos decidiu agora proibir a entrada de refugiados de alguns dos nossos países. O que é que vamos fazer em relação a isto?”, perguntou a presidente da Comissão da UA aos chefes de Estado presentes na cimeira da União Africana, que começou hoje, em Addis Abeba, na Etiópia.

Dlamini-Zuma considerou a decisão de Trump como “um dos maiores desafios à união e solidariedade” de África.

António Guterres e refugiados em Africa

O secretário-geral das Nações Unidas também lamentou a decisão do Presidente americano, lembrando que a África é o continente que recebe o maior número de refugiados.

“As fronteiras africanas continuam abertas para todos os refugiados que necessitam de proteção, enquanto as fronteiras em muitos outros países, incluindo nas zonas mais desenvolvidas do mundo, estão a ser fechadas”, afirmou Guterres.

A cimeira elege hoje o presidente e vice-presidente da Comissão Africana.

Para o lugar até agora ocupado por Dlamini-Zuma, concorrem os ministros dos Negócios Estrangeiros do Botsuana, Pelonomi Venson-Moitoi, da Guiné-Equatorial, Agapito Mba Mokuy, do Chade, Moussa Faki e do Quênia, Amina Mohamed, bem como o representante especial das Nações Unidas, o senegalês Abdoulaye Bathily.

http://www.voaportugues.com/a/presidente-comissao-uniao-africana-donald-trump-refugiados/3698407.html

Balanço controverso: Dlamini-Zuma na União Africana

Depois de quatro anos de mandato, a sul-africana Nkosazana Dlamini-Zuma deixou a presidência da Comissão da União Africana (UA). Mas poucos lamentam a sua saída. A organização nunca esteve tão dividida como agora.

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Os ingredientes para uma história de sucesso estavam todos lá: a primeira mulher a chefiar a Comissão da UA vinha do sul de África e tinha combatido pela liberdade do seu país. Não havia, por isso, qualquer presságio negativo.

No entanto, quatro anos depois do seu mandato à frente da Comissão da UA, é difícil ouvir opiniões positivas sobre Nkosazana Dlamini-Zuma, tanto na sede da organização em Addis Abeba, a capital da Etiópia, como noutros locais no continente.

defaultDlamini-Zuma já foi casada com Jacob Zuma

Dlamini-Zuma foi eleita em 2012, à terceira tentativa, depois de uma agressiva campanha de lobby levada a cabo pelo Governo sul-africano. Nessa altura, perde simpatias, especialmente dos países francófonos.

“Dlamini-Zuma precisou de muito tempo para fazer esquecer o legado e as reservas originadas pela sua eleição. Quando assumiu funções, já vinha em desvantagem e tinha os países francófonos contra ela”, explica em entrevista à DW a especialista Liesl Louw-Vaudran. Mas até hoje, sublinha, “Dlamini-Zuma não se esforçou muito para superar essas diferenças.”

“Não era o que pensávamos”

Médica de formação e antiga ministra do Interior, Nkosazana Dlamini-Zuma tinha boa reputação local. E muitos esperavam que a ex-mulher do atual Presidente sul-africano, Jacob Zuma, trouxesse “mais eficiência e produtividade” para a União Africana. lembra Liesl Louw-Vaudran.

Também o politólogo camaronês Alphonse Zozime Tamekamta tinha grandes expectativas em relação à sul-africana, “uma mulher forte, que vem de um grande país africano, a África do Sul, que durante muito tempo foi considerado um país forte em temos políticos e econômicos”.

 

Segundo o especialista, “o povo esperava mais dela: mais visão, mais competências de gestão, maior liberdade de expressão e uma grande capacidade de influência em decisões importantes que afetam diferentes partes do continente africano”. Por isso, conclui, “deixa um balanço incompleto.”

Muitos pensavam que Dlamini-Zuma era “a mulher certa no lugar certo.” Mas, no final do seu mandato, “fica a impressão de que não era o que pensávamos”, sublinha Alphonse Zozime Tamekamta.

Além disso, sublinha também Liesl Louw-Vaudran, os poderes da presidente da Comissão foram muitos limitados. “No final, as decisões da União Africana acabaram por ser tomadas pelos chefes de Estado e de Governo africanos.”, lembra a especialista.

Ambições políticas

Para trás, Dlamini-Zuma deixa também uma longa lista de crises negligenciadas: desde guerras civis no continente à epidemia de ébola, passando pelas mortes em massa de imigrantes africanos no Mediterrâneo ou o El Niño e a fome em África.

A ex-ministra preferia ou ficar em Addis Abeba ou ir até à África do Sul promover a sua candidatura à sucessão do ex-marido, Jacob Zuma, na presidência do país.

O politólogo Siaka Coulibaly, do Burkina Faso, não tem dúvidas sobre as suas ambições políticas. “A senhora Zuma quer ter um papel político no seu próprio país no futuro. Por isso, teve de se manter em silêncio sobre muitas questões importantes – e a culpa foi completamente sua”, diz.

Também na luta contra o grupo radical Boko Haram não houve grandes esforços de negociação ou de financiamento por parte da UA, diz o especialista camaronês Alphonse Zozime Tamekamta. Pelo contrário, têm sido organizações regionais a entrar em cena na luta contra o terrorismo, sublinha.

O sucessor de Nkosazana Dlamini-Zuma na presidência da Comissão da UA deverá ser nomeado na cimeira anual da organização, em Addis Abeba, prevista para 30 e 31 de janeiro. A reintegração de Marrocos é outro dos temas em cima da mesa.

http://www.dw.com/pt-002/balan%C3%A7o-controverso-dlamini-zuma-na-uni%C3%A3o-africana/a-37242450

Dia da Mulher Africana: “Unidas vencemos qualquer desafio”

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Carlos Paulino | Menongue

A secretária-geral da Organização da Mulher Angolana (OMA), Luzia Inglês, apelou, no sábado, na cidade de Menongue, à união de esforços entre as mulheres africanas para a paz e segurança duradoura em todo o continente e a promoção de programas de combate à pobreza, ao analfabetismo e as doenças endémicas no seio das populações.
Luzia Inglês, que falava no acto central do 54.º aniversário da criação do Dia da Mulher Africana, lamentou o facto de alguns países do continente e do mundo continuarem a viver um clima de instabilidade, onde as crianças e mulheres são as principais vítimas, razão pela qual todas as mulheres devem ser mais unidas para que façam ouvir a sua voz e banir todos os males para as pessoas possam viver em paz, com dignidade e cada um decidir sobre o seu futuro.
Realçou ser importante transmitir a mensagem de que um futuro sustentável só é possível com a união de todos, mulheres, homens e jovens para que possamos ter um continente livre das guerras, doenças e da pobreza que continuam a violentar muitas sociedades. “Precisamos de continuar a traçar estratégias no sentido de que sejam dadas mais oportunidades económicas às mulheres, pois isto resultaria num aumento significativo do crescimento económico e na redução da pobreza no continente africano”, disse. Luzia Inglês, também vice-presidente da Organização Pan-Africana das Mulheres (OPM), disse que a realização este ano do acto do Dia da Mulher Africana que decorre sob o lema “A defesa dos direitos das mulheres para a promoção da democracia e da paz”, constitui uma oportunidade para se reflectir sobre o papel da mulher no continente africano, o respeito pelos seus direitos e a necessidade da sua participação cada vez mais activa nos processos de desenvolvimento.
Luzia Inglês sublinhou que esta abordagem impulsiona a mobilizar as mulheres em torno do fortalecimento de uma cultura de paz, tolerância e de consolidação da democracia. “No âmbito de mais uma celebração da criação da OPM gostava de destacar que pela primeira vez uma mulher angolana presidiu no dia 28 de Março deste ano um debate aberto no Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre “As mulheres, paz e Segurança” e que a ministra da Família e Promoção da Mulher, Filomena Delgado, abordou o tema o papel das mulheres na prevenção e resolução de conflitos em África”, referiu a secretária-geral da OMA, que acrescentou que este facto orgulha todas as mulheres angolanas e africanas em geral. Luzia Inglês lamentou o facto de Angola ser o único país a nível do continente africano que celebra condignamente o dia da mulher, uma data que foi criada com o propósito fundamental a contribuição das mulheres na luta pelos seus direitos e afirmação do seu papel na sociedade.
Luzia Inglês recordou que a OMA participou em 1962 em Dar-Es-Salam, Tanzânia, na conferência que deu origem a Organização Pan-Africana das Mulheres (OPM) e continua até ao momento como membro activo, assumindo a vice-presidência para a África Austral.
A secretária-geral da OMA aproveitou a ocasião para manifestar a sua solidariedade para com as mulheres africanas que ainda vivem uma situação de instabilidade e conflito, sobretudo as da Região dos Grandes Lagos.

Emancipação das mulheres

O governador provincial do Cuando Cubango em exercício, Ernesto Kiteculo, agradeceu o gesto da OMA por escolher a província para albergar este importante evento que constitui um incentivo a todas as mulheres a prosseguirem na luta comum para atingirem os seus objectivos que estiveram na origem da institucionalização da OPM em 1962.
Considerou que é necessário reconhecer que a comemoração desta data é fruto de uma árdua luta das mulheres vêm ao longo do tempo ultrapassando barreiras para conseguirem visibilidade perante a sociedade devido o seu trabalho, empenho e dedicação permanente.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/unidas_vencemos_qualquer_desafio

África e os desafios da emancipação da mulher

Isaquiel Cori
 
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Em datas como a de hoje, Dia da Mulher Africana, multiplicam-se os discursos em defesa da igualdade de gênero e da dignidade da mulher, é exaltado o seu papel como geradora e guardiã da vida e os artistas e poetas cantam sobre os mistérios da sua beleza inigualável.
 
 
Para lá das circunstâncias de pompa e comemoração, entretanto, há toda uma realidade quotidiana de desigualdades, marginalização e violência. Mas elas também vão emergindo, é da mulher africana que estamos a falar, exemplos de resiliência, superação e reconhecimento do mérito.
Para compreender a situação da mulher em África é preciso fugir à tentação de lançar um olhar simplificador e redutor sobre uma realidade complexa, que abarca 54 países, cada um dos quais com a sua história e mosaicos antropológicos e sociológicos específicos. Quando, em 2015, os membros da Organização das Nações Unidas, incluindo os países africanos, aprovaram a Agenda do Desenvolvimento Sustentável 2030, colocaram um enorme desafio sobre as autoridades e as sociedades, ao estabelecerem objectivos concretos a alcançar até ao ano em referência.
O Objectivo 5 preconiza “alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e meninas”, incluindo, entre outros itens, “eliminar todas as formas de violência contra todas as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas” e “garantir a participação plena e efectiva das mulheres e a igualdade de oportunidades para a liderança em todos os níveis de tomada de decisão na vida política, económica e pública”.
A implementação, em África, da Agenda do Desenvolvimento Sustentável 2030, que está revestida de um inegável carácter utópico e mobilizador, significa quebrar barreiras culturais, algumas das quais ancestrais, e estruturais, derivadas do subdesenvolvimento económico e social. Como exemplo do primeiro caso temos a mutilação genital feminina, a que anualmente são submetidas cerca de três milhões de africanas e que, além dos pressupostos de cariz religioso, visa, deliberadamente, impedir o acesso da mulher ao prazer sexual. Temos como exemplo do segundo caso a condição, secularmente imutável, das mulheres nas comunidades rurais, onde, a sul do Sahara, sendo responsáveis por 80 por cento da produção agrícola, possuem menos de um por cento da terra.
E, em matéria de género, os dados estatísticos disponíveis, na generalidade, não são muito favoráveis ao continente: mais de 50 por cento das mulheres dizem que não detêm o controlo das decisões sobre os seus cuidados de saúde; as mulheres que trabalham ganham menos 30 por cento em relação aos homens; as mulheres representam quase 60 por cento das pessoas infectadas com o VIH; as mulheres ocupam apenas 19 por cento dos cargos governamentais.
A vida das mulheres em África é um multiplicar de esforços e responsabilidades, sendo elas, inacreditavelmente, ao mesmo tempo mães, esposas, trabalhadoras, estudantes… tudo isso num contexto de terríveis exigências e preconceitos morais e sociais.
Apesar de tudo isso vão se multiplicando os exemplos de mulheres africanas que transcenderam a zona de conforto dos seus lares e se apresentam como exemplos para África e o mundo. Ellen Johnson-Sirleaf, da Libéria, foi a primeira mulher eleita para governar um país africano; o Ruanda possui a proporção mais elevada de deputadas em todo o mundo; a ambientalista queniana Wangari Maathai foi agraciada com o Prémio Nobel da Paz e a escritora sul-africana Nadine Gordimer com o Prémio Nobel de Literatura; a sul-africana Nkosazana Dlamini-Zuma atingiu o cargo de secretária-geral da União Africana.
Na base de todos esses exemplos meritórios de ascensão feminina em África está a verdade, historicamente comprovada, de que a entrada no mercado de trabalho, a par da educação de qualidade, aceleram a emancipação da mulher.
Para terminarmos de forma poética, citamos o eminente pensador M. de Ponsan, que, em 1858, no seu livro “História Filosófica e Médica da Mulher”, escreveu:
“A mulher é um ser multiforme; autêntica Proteia, muda de aspecto sob os nossos olhos, segundo as paixões que nos animam: é o céu, é o inferno, é um anjo, um demónio, o dia, a noite, a paz, a guerra, o amor, o ódio, a beleza, a feieza, uma graça, uma fúria; é sempre ela, sempre a mesma, sempre una e sempre múltipla: una em relação a ela, múltipla em relação a nós, cujas paixões são várias. E como é feita para as nossas paixões, se a quisermos julgar sem paixão escapa-nos, nunca mais a encontramos”.
 

Celebrar a Mulher Africana com uma Guerreira Zulu

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É assim todos os anos quando o calendário marca 31 de Julho. Comemoramos o Dia da Mulher Africana. Instituída em 1962, durante a Conferência das Mulheres Africanas realizada em Dar-Es-Salam, na Tanzânia, a efeméride assinala também a criação da Organização Panafricana das Mulheres. Surgida no fervor da luta contra o colonialismo, enunciava entre os objectivos primordiais contribuir para o encurtar das desigualdades entre seres nascidos à partida com os mesmos direitos. Esse pressuposto incluía promover a emancipação da mulher no quadro de um futuro onde não coubesse nenhum tipo de discriminação. Passados 54 anos, os países africanos alcançaram a independência política, mas não lograram a resolução de problemas conotados com o universo feminino. Alcançar o tão almejado equilíbrio no gênero constitui um grande desafio para as lideranças políticas e sociedades africanas modo geral.
É inevitável a reflexão em torno das multifacetadas realidades da mulher. Ao longo da semana finda, os noticiários incluíram a data comemorativa no alinhamento como resultado das inúmeras actividades promovidas para não deixar passa a data em branco. As programações partidárias exaltaram a efeméride que mereceu destaque temporário na agenda das grandes questões nacionais. A temática relacionada à mulher continua na ordem do dia. Questões prementes como a erradicação da pobreza, o empoderamento feminino e a adopção de políticas exequíveis fazem parte da pauta que discute igualmente a mutilação genital, a poligamia e a dignificação da mulher num continente onde factores culturais por vezes contribuem para promover e acentuar as diferenças.
Nos dias que correm dificilmente algum político poderá almejar o poder em África sem incluir na moção de estratégia o item mulher, ainda que se trate de mero discurso eleitoralista de um machista encapuzado. Jogam a favor das mudanças o número cada vez maior de lideranças no feminino. Depois de Ellen Johnson-Sirleaf, que em 2005 fez história ao ser a primeira mulher eleita para presidir um país africano, e de Joyce Banda que assumiu a presidência do Malawi a seguir à morte do chefe de Estado, outra mulher pôde assumir a chefia de um estado em África. Ninguém menos do que Nkosazana Dlamini-Zuma, a ainda presidente da União Africana. Com a renhida escolha da sul-africana para o organismo que substituiu a Organização de Unidade Africana (OUA), em 2012, o continente africano deu um passo gigantesco na busca pela igualdade de género e inserção das mulheres nas complexas estruturas do poder em África.
Médica de formação, Nkosazana Dlamini Zuma, que foi ministra da Saúde no governo de Nelson Mandela, entre 1994 e 1998, tendo posteriormente assumido a pasta das Relações Exteriores na equipa governamental liderada por Thabo Mbeki e Kgalema Molanthe, acumulou enorme capital político ao longo dos anos. O facto de não ter concorrido a um segundo mandato na União Africana tem sido interpretado como um sinal que vem reforçar os rumores segundo os quais pretende concorrer à presidência do ANC como primeiro passo para disputar o cadeirão presidencial da África do Sul. Nkosazana Dlamini Zuma, ex-mulher do actual presidente sul-africano, Jacob Zuma, com quem tem quatro filhos, é bem vista no seu país onde deu provas inequívocas de liderança. Muito embora não tenha resolvido problemas prementes a que se propôs ultrapassar, com realce para a o reforço da unificação do continente profundamente marcado por crises políticas, disputas territoriais e conflitos da dimensão do Sudão do Sul, vai deixar a União Africana melhor do que encontrou. Eventualmente controversa, mas descrita como honesta, ponderada e discreta, Dlamini-Zuma congrega dentre outros méritos a aplaudida reestruturação do sistema de saúde da África do Sul, ao qual se soma o intenso trabalho nas hostes do ANC.
Essa mulher poderá ser presidente da nação mais poderosa de África. Algo absolutamente inimaginável quando Nkosazana Clarice Dlamini-Zuma nasceu, em Janeiro de 1949, na província de Natal, na África do Sul. A perspectiva transformadora faz valer todas as lutas. Dá sustentabilidade à comemoração de datas similares ao Dia da Mulher Africana. Por ela, podemos não falar neste 31 de Julho de mulheres da estatura da ambientalista queniana Wangari Maathai, a primeira africana a receber o Nobel da Paz, Leymah Gbowee, laureada em 2011 com o Prémio Nobel da Paz ao lado estadista liberiana ou de Nadine Gordimer, escritora sul-africana, Nobel da literatura em 1991. Artistas, académicas, profissionais que se vêm afirmando em diferentes áreas de conhecimento ou simplesmente as sobreviventes que escrevem a história do continente estão representadas no sonho de transformação pela trajectória da guerreira zulu chamada Nkosazana Clarice Dlamini-Zuma.

http://www.redeangola.info/…/celebrar-mulher-africana-com-…/

Substituto de Dlamini Zuma indicado em Janeiro para presidir a União Africana

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por Josina de Carvalho | Kigali

A eleição do novo presidente da Comissão da União Africana foi adiada para a próxima Cimeira dos Chefes de Estado e de Governo da Organização, prevista para o mês de Janeiro, em Adis Abeba.

Depois de sete voltas, nenhum dos três candidatos conseguiu dois terços dos votos dos líderes africanos para ocupar a presidência da Comissão da União Africana, disse o ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, que participou em representação do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, na 27.ª sessão ordinária da Cimeira dos Chefes de Estados e de Governo da União Africana, que ontem terminou, em Kigali.
Tendo em conta o adiamento da eleição, os Chefes de Estado e de Governo decidiram reconduzir por um período de seis meses a actual direcção da Comissão da União Africana, presidida por Dlamini Zuma, que deve preparar as próximas eleições, dando a possibilidade a novas candidaturas, sem excluir os actuais concorrentes como a antiga vice-Presidente do Uganda, Specioza Wandiza Kazibwe, a ministra dos Negócios Estrangeiros do Botswana, Pelonomi Verson Motoi, e o político equato-guineense Agapito Mba Mokuy.
Os líderes africanos aprovaram igualmente o orçamento da União Africana com um valor de 780 milhões de dólares, bem como a nova tabela de contribuições dos Estados-membros, que os obriga a pagar uma taxa de 0,02 por cento sobre as importações, para permitir à organização ter um orçamento de mil milhões e 300 milhões de dólares por ano.
Parte deste dinheiro, explicou Georges Chikoti, é para o orçamento da Comissão e outra parte para o fundo de paz, no valor de 300 milhões de dólares, cabendo a cada uma das três regiões do continente cerca de 65 milhões de dólares. “Penso que desta forma conseguimos resolver os problemas com o orçamento”, disse o ministro, tendo considerado esta decisão “um passo importante”, uma vez que deve ser implementada a partir do próximo ano.
Georges Chikoti informou ainda que os líderes africanos abordaram a necessidade de abertura, em 2017, da zona de comércio livre africana e de se manter o consenso sobre a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas, para que África possa ter dois membros permanentes e igual número não permanente neste órgão da maior organização mundial.

Encontros bilaterais

À margem da 27.ª sessão ordinária da Cimeira dos Chefes de Estados e de Governo da União Africana, o ministro das Relações Exteriores foi recebido ontem em audiência pelo Presidente da Guiné Bissau, José Mário Vaz, com quem abordou assuntos de interesse bilateral. No domingo, Georges Chikoti manteve um encontro com a subsecretária norte-americana para os Assuntos Africanos, Linda Thomas, com quem tratou de vários assuntos africanos, com destaque para a situação política no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo (RDC).
O Chefe da diplomacia angolana disse haver uma grande preocupação com a retomada dos conflitos no Sudão do Sul, que pode resultar na aplicação de sanções pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e no envio de tropas  para garantir a segurança ao Presidente sudanês Salva Kiir e a todos que não pertencem ao Governo.
Quanto à República Democrática do Congo, informou que o Governo americano quer trabalhar com as autoridades deste país e dos demais Estados africanos para ser encontrada uma solução que permita uma boa transição e a realização de eleições. Neste momento, referiu, o Governo prepara um diálogo nacional, incluindo representantes de todos os partidos políticos, para uma tomada de decisão.
A 27.ª sessão ordinária da Cimeira dos Chefes de Estados e de Governo da União Africana destacou os Direitos Humanos, especialmente os Direitos da Mulher, assuntos ligados à paz e estabilidade no continente africano, particularmente no Sudão do Sul e RDC, além de questões sobre o funcionamento da organização.

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/substituto_de_zuma_indicado_em_janeiro

Cimeira de Chefes de Estado inaugura passaporte africano

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Fotografia: AFP

Os primeiros passaportes da União Africana (UA) foram entregues ontem aos Chefes de Estado presentes na 27ª cimeira da organização continental, que decorre em Kigali, Ruanda.

 Os documentos foram entregues de forma simbólica aos  presidentes do Rwanda, Paul Kgame e do Tchade, Idris Sabry, pela presidente da Comissão da UA, Dlamini Zuma. Os utentes desses passaportes poderão circular pelos países africanos sem necessidade de visto, cumprindo assim com um dos objetivos da agenda 2063 referente à  integração do continente.
Apelos ao fortalecimento da unidade no continente, ao cumprimento da agenda 2063 e à  aposta na juventude pelos líderes africanos presentes no evento marcaram a cerimônia de abertura da cimeira.
Discursando na abertura do conclave, o Presidente do Rwanda, Paul Kagame, apelou ao espírito de solidariedade no continente, com vista a alcançarem-se os objectivos preconizados nos ideais do pan-africanismo.
Paul Kagame pediu aos homólogos africanos para que, na cimeira, se preocupassem mais com as questões prioritárias do continente, ao invés de perderem tempo em assuntos que em nada contribuem para o fortalecimento da organização e de África.
“Devemos aproveitar as nossas cimeiras para definirmos as nossas prioridades e decidirmos como resolver os nossos problemas, pois África está a levantar-se”, referiu o Chefe de Estado anfitrião.

Presidência da UA

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Na ocasião, a presidente da Comissão da União Africana, Dlamini Zuma, assegurou que estão criadas as condições para que a presidência da organização seja assumida pela República Centro Africana.
Dlamini Zuma destacou a importância do passaporte da União, o qual considerou um passo fundamental no processo de integração do continente e livre circulação dos cidadãos.  Após fazer uma retrospectiva sobre o trabalho realizado durante o seu mandato, a presidente da Comissão da União Africana realçou que ainda existem tarefas por cumprir.  O presidente em exercício da União Africana, Idris Debry, condenou o retorno das hostilidades no Sudão do Sul, que já causaram a morte de 300 pessoas. Apelou para a necessidade da UA trabalhar com urgência na criação de mecanismos de paz e segurança no continente.
A presidente da  União Panafricana da Juventude, Franci Muyomba, apelou aos Chefes de Estado para aprovarem a criação de um fundo de apoio aos jovens empreendedores. “É imperioso que os líderes africanos apostem no empreendedorismo, que tem contribuído para a geração de empregos e na melhoria das condições de vida de muitos cidadãos no continente”, reconheceu.  Ao intervir na cerimônia, o presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, Moahamud Abas, condenou os actos de terrorismo perpetrados em França e manifestou disponibilidade de contribuir para o combate a este fenômeno que ceifa a vida a muitos cidadãos inocentes.
Moahamud Abas advogou, de igual modo, a necessidade de África reforçar a solidariedade com a Palestina, destacando o apoio prestado pelos países africanos à  causa palestiniana.
Angola participa nesta Cimeira com uma delegação chefiada pelo ministro das Relações Exteriores, Georges Chikoti, em  representação do Chefe de  Estado, José Eduardo dos Santos.
Durante a sua estada em Kigali, Georges Chikoti tem previstas audiências com diversas personalidades políticas.

Trabalhar juntos

À margem da cimeira, o responsável máximo da Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano (NEPAD), Ibrahim Mayaki, afirmou que os países africanos precisam de ser estratégicos e trabalhar juntos na promoção da industrialização do continente, com vista à criação de oportunidades de emprego. Ibrahim Mayaki realçou que os factores que impedem o crescimento do continente são a ausência de negociações entre os Estados africanos, aliado a falta de infra-estruturas e à pobreza. Observou que África tem a população mais jovem do mundo, salientando que os enormes desafios do continente são a promoção do crescimento econômico dos Estados, criação de emprego, e redução da pobreza.  A  27ª Cimeira da UA realizou-se sob o tema “2016: Ano Africano dos Direitos Humanos com especial incidência sobre os Direitos das Mulheres”.
No sábado, o grupo dos três países africanos com assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas (A3), integrado por Angola, Egito e Senegal, avaliou o retorno às hostilidades no Sudão do Sul, a crise no Burundi e o regresso da Missão das Nações Unidas (Minuso) ao Saara Ocidental.

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