Por que nós brasileiros devemos acompanhar as eleições na Nigéria?

Nigeria_oil_26Amanhã dia 16 de fevereiro de 2019,  dos 203 milhões de habitantes da Nigéria , 84 milhões se registraram para eleger, além do presidente, a composição do Parlamento. E isto interessa muito aos brasileiros. Por que?

A Nigéria é o país mais populoso da África e o sétimo no planeta, maior potência petroleira do continente e 13ª maior produtora do mundo.  Os Nigerianos fora do país —no Brasil, são cerca de 8.000, segundo a embaixada— não têm o direito de votar.

 

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a Nigéria é o único país da África Ocidental com o qual o Brasil mantém Mecanismo de Diálogo Estratégico.

Em novembro de 2013, realizou-se, em Brasília, a I Sessão do Mecanismo, ocasião em que foram criados nove Grupos de Trabalho sobre agricultura, segurança alimentar e desenvolvimento agrário, temas consulares e jurídicos, defesa, mineração, energia, comércio e investimentos, cultura e infraestrutura.

A Nigéria figurou até recentemente entre os dez principais parceiros comerciais do Brasil no mundo.

 

O Brasil fechou um acordo de crédito deUS$ 1,1,bilhão de dólares  para financiar  a venda de máquinas e equipamentos agrícolas  para a Nigéria, pretende ainda  formar mais de 10000 técnicos agrícolas. Um dos objetivos é também enfrentar a concorrência da China.

Segundo o embaixador brasileiro na Nigéria, Ricardo Guerra de Araujo: “ o que nos diferencia da China é que o palno de négocio cobre toda a cadeia de valor, incluindo montagem de equipamentos em solo nigeriano e treinamento para quem vai operá-los, além de fornecimento de fertilizantes, sementes, pesticidas, markentig ( ferramentas) de comercialização chegando até o consumidor”

O Banco Islâmico de Desenvolvimento e a Agência Gestora de Fundos Garantidores e Garantias (ABGF)  deverão assegurar  a garantia de crédito.

 

A Nigéria havia propost o um crédito de 10 bilhões, mas o Brasil achou melhor ir mais devagar. A Fundação Getúlio Vargas é a entidade que elaborou o projeto, que pretende modernizar a agricultura da Nigéria.

 

A Embraer recebeu,  neste mês de fevereiro de 2019, junto com a parceira americana Sierra Nevada Corporation (SNC) uma encomenda de 12 aeronaves para aa Força Aérea da Nigéria. Os aviões são de ataque leve e treinamento avançado do A-29 Super Tucano serão utilizados em missões de apoio aéreo tático.

 

Entre 2006 e  2016 o o Brasil acumulou um déficit de impressionantes US$ 57,7 bilhões com a Nigéria.

A Nigéria e é o maior deficit do Brasil nesse período com qualquer outro entre os seus parceiros  no comércio internacional. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

Desde que começou a importar petróleo da Nigéria, na década de 1980, o Brasil sempre teve uma relação comercial deficitária com o país africano. No ano 2000, as exportações brasileiras para aquele país totalizaram US$  247 milhões e as importações atingiram a cifra de US$ 734 milhões, gerando um saldo negativo de US$ 487 milhões.

De lá para cá o desequilíbrio na balança comercial entre os dois países não parou de crescer. O saldo em favor dos nigerianos atingiu o valor máximo em 2013, quando as vendas daquele país concentradas em petróleo, nafta para a petroquímica e gás natural somaram US$ 9,648 bilhões, ao passo em que as vendas brasileiras foram de apenas US$ 876 milhões, gerando um deficit de  US$ 8,772 bilhões.

 

Se você tinha dúvidas por que temos que acompanhar as eleições na Nigéria é bom registrar que somos dficitários no comercio com os nigerianos. E eu nem comentei as questões culturais e religiosas que temos com os nigerianos.

Advertisements

Nigéria: 190 milhões de pessoas a espera das eleições

nigeria cidadeA Nigéria, o país mais populoso de África, com 190 milhões de habitantes, e primeira potência petrolífera do continente, elege este sábado o seu Presidente, entre o incumbente, Muhammadu Buhari, e o líder da oposição, Atiku Abubakar.

Ao longo do último mês, Buhari, candidato do Congresso dos Progressistas (APC), e Abubakar, do Partido Popular Democrático (PDP), principal partido da oposição, percorreram os 36 estados do país, com recordes históricos de participações nos comícios, num sinal, segundo muitos especialistas e observadores, do abrandamento económico e da pobreza crescente, mais do que da popularidade de qualquer um dos dois pouco carismáticos candidatos.

Os comícios são antes de tudo uma oportunidade oferecida a muitos para se alimentarem, fazerem algum dinheiro, ou receberem os “presentes” lançados às multidões pelas equipas de campanha.

O país caiu na recessão económica entre 2016 e 2017, pouco depois da chegada ao poder de Muhammadu Buhari — que foi eleito em 2015 com a promessa de colocar o país a crescer 10% ao ano –, muito por força da queda dos preços do petróleo. A recuperação é ainda muito tímida. O produto interno bruto (PIB) nigeriano cresceu apenas 1,9% em 2018, de acordo com dados conhecidos hoje, e o Fundo Monetário Internacional estima que voltará a ser da mesma ordem (2%) em 2019.

O gigante africano é hoje o país que regista um maior número de pessoas a viver abaixo do estado de pobreza extrema (87 milhões), à frente da Índia, de acordo com o barómetro do World Poverty Clock.

“Meter a Nigéria a trabalhar outra vez (‘Make Nigeria work again’)” é o lema de Abubakar, que joga a carta da recuperação económica como principal trunfo diferenciador na sua quarta tentativa de ocupar o mais alto cargo da nação.

Antigo vice-presidente e empresário próspero, Abubakar defende uma política liberal para retirar a Nigéria da anemia económica, por exemplo, através da privatização de parte da companhia nacional de petróleo nigeriana, a Nigerian National Petroleum Corporation (NNPC), ou da flutuação da moeda, o naira.

Já Buhari defende o intervencionismo do Estado, a começar pelo banco central, através da fixação das taxas de câmbio, por exemplo, interditando as importações, ou estimulando o micro-crédito, com um programa de pequenos empréstimos livres de colaterais, de 24 a 75 euros, o “Trader Moni”, dirigido a dois milhões de pequenos comerciantes.

Abubakar fala para os mercados internacionais e a sua vitória, admitem analistas citados por várias agências, poderá finalmente inverter a tendência que faz da bolsa de valores nigeriana a que mais valor perdeu em todo o mundo desde que Buhari foi eleito.

A reputação de Abubakar está, porém, manchada por acusações persistentes de corrupção, que o próprio desmente com igual insistência, pelo que o ceticismo segue de mão dada com o otimismo dos investidores internacionais, e esta não é a melhor perspetiva para um país que viu o investimento direto estrangeiro cair para menos de metade dos valores verificados no início da década.

A outra carta que (não) se joga nestas eleições é a das clivagens étnicas e religiosas. A Nigéria é um país dividido entre o norte, maioritariamente muçulmano, e o sul, de domínio cristão, assim como entre três comunidades étnicas importantes — hauçá (25% da população), ioruba (21%) e igbo (18%) — de entre mais de 500 grupos étnicos e línguas diferentes.

A escolha do candidato presidencial na Nigéria tem sido baseada na região de origem ou na religião, mais do que nas ideias políticas, mas desta vez ambos os contendores, Buhari e Abubakar, são houçás e muçulmanos, pelo que a decisão não será tomada por força da religião ou etnia.

O número recorde de eleitores inscritos para as eleições gerais deste sábado — presidenciais, legislativas e para a escolha dos governadores — ascende aos 84 milhões (número que compara com 67,4 milhões no escrutínio de 2015, ainda que a participação não tenha ultrapassado os 43,65%), mas a afluência às urnas nestas eleições está ameaçada pelo surto de violência associada ao extremismo islâmico protagonizada pelo grupo rebelde Boko Haram.

As forças de segurança nigerianas anunciaram no final da semana passada terem já deslocado 95% dos efetivos que garantirão o voto seguro em todo o país, mas os ataques do grupo jihadista têm-se intensificado nos últimos dias, sobretudo no nordeste do país e este poderá ser um fator muito dissuasor da participação eleitoral, sobretudo nas regiões mais afetadas.

Buhari foi eleito em 2015 com a promessa de destruir os rebeldes do Boko Haram durante o mandato que agora chega ao fim. O facto, no entanto, é que o grupo terrorista se mantém como uma muito forte ameaça, e os seus ataques provocaram já 1,9 milhões de deslocados na Nigéria, segundo a Amnistia Internacional (AI).

Uma onda de ataques sucessivos no nordeste da Nigéria está na origem de cerca de 60 mil refugiados desde novembro, no que é o maior registo de refugiados dos últimos dois anos, e leva as Nações Unidas e as organizações não-governamentais a operar na região a temer uma reedição da crise do Boko Haram.

Desde o início da insurgência do Boko Haram em 2009, pelo menos 35 mil pessoas foram mortas. Os ataques na vasta região do lago Chade, que engloba partes dos Camarões, Chade, Niger e Nigéria, provocaram mais de 2,5 milhões de deslocados, incluindo 1,9 milhões internos na Nigéria e 250 refugiados nigerianos.

Apesar de o Governo nigeriano afirmar repetidamente que a ameaça jihadista foi minimizada, a realidade no terreno mostra o contrário e a preocupação é que a situação piore com as eleições gerais de 16 de fevereiro.

Fonte:https://www.dn.pt/lusa/interior/nigeriaeleicoes-gigante-africano-na-reta-final-para-escolher-o-proximo-presidente-10576125.html

O proximo presidente da Nigéria terá como desafio enfrentar a pobreza

 

A Nigéria prepara-se para ir às urnas no sábado em eleições gerais. Há mais de 70 candidatos à Presidência, mas apenas dois favoritos: o atual chefe de Estado, Muhammadu Buhari, e o rival Atiku Abubakar.

    
Wahlkampf Nigeria Wahlplakat APC (DW/T. Mösch)

Ao todo, 73 candidatos concorrem à Presidência da maior economia africana.

Mas, excetuando o atual chefe de Estado, Muhammadu Buhari, e o opositor Atiku Abubakar, nenhum dos candidatos restantes, aprovados pela Comissão Eleitoral Nacional Independente (INEC) em meados de janeiro, terá hipóteses significativas de conquistar a Presidência.

Muitos são desconhecidos a nível nacional e poucos foram vistos na capital, Abuja. Não há sondagens confiáveis sobre a eleição de sábado, que deverá ser altamente renhida, e o resultado permanece incerto.

Mohammadu BuhariPresidente Muhammadu Buhari recandidata-se ao cargo

Na cidade natal de Buhari

Muhammadu Buhari, de 76 anos, concorre a um segundo mandato como candidato do Congresso dos Progressistas (APC).

Na sua cidade natal, Daura, no norte da Nigéria, há imagens de Buhari um pouco por todo o lado: o seu retrato pode ser visto não só nas ruas, como também pendurado nas paredes da sala de estar dos seus apoiantes.

“Ele é um homem bom”, resume Aliyu Rabe Daura, que trabalha para o governo estadual. “Da última vez que ele aqui esteve, em Daura, foi a pé da mesquita para a sua casa.”

Quando assumiu a Presidência, há quatro anos, Buhari declarou guerra à corrupção e ao terrorismo. Prometeu ainda fortalecer a economia. Mas as suas políticas de segurança são consideradas um fracasso.

Quem quer ser o próximo Presidente da Nigéria?

O grupo terrorista Boko Haram ataca cada vez mais comunidades, desde o final de 2018. Até ao início de fevereiro, cerca de 30 mil pessoas foram forçadas a fugir da cidade de Rann, no estado de Borno, para os vizinhos Camarões, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras.

O primeiro mandato de Buhari também foi marcado por várias ausências devido a problemas de saúde.

Buhari assegura no seu programa eleitoral, de 14 páginas, que, nos últimos anos, foram estabelecidas as bases para uma Nigéria estável e próspera. E promete agora expandir as estradas, melhorar o fornecimento de energia e criar empregos. Mas essas são também promessas do seu principal rival.

As promessas de Atiku Abubakar

Atiku Abubakar, que entre 1999 e 2007 foi vice-Presidente da Nigéria, garante que, se for eleito, haverá mudanças no mercado de trabalho.

Segun Sowunmi, gerente de campanha eleitoral de Abubakar, diz que o seu chefe é o candidato ideal quando se trata de questões económicas: “África e especialmente a Nigéria têm um grande número de desempregados. Abubakar tem muita experiência na criação de empregos com as suas empresas. Ele criou 50 mil empregos diretos e outros 300 mil indiretos. Precisamos de empregos muito rapidamente”, afirma.

Nigeria, ehemaliger Vizepräsident Atiku AbubakarAtiku Abubakar promete mais empregos – tal como o seu rival Buhari

Abubakar, de 72 anos, criou um império com base em empresas que oferecem serviços de logística, petróleo e gás. Foi ainda o fundador da Universidade Americana da Nigéria em Yola.

Não se sabe em concreto quanta riqueza já acumulou, mas foi alvo de acusações de corrupção e branqueamento de capitais. Segundo um relatório do Senado norte-americano, com a ajuda da sua quarta esposa, Fatima Abubakar, o empresário levou, entre 2000 e 2008, cerca de 40 milhões de dólares para os Estados Unidos.

Na cidade de Daura, o cantor Mannir Abba compôs uma música para Atiku Abubakar e não poupa elogios ao candidato.

“Atiku é a melhor escolha. Tudo o que vê na minha cidade natal, Daura, foi criado durante o Governo do PDP, e não no atual Governo”, comenta.

Mais de 80 milhões de eleitores estão registados para escolher, no sábado (16.02), o próximo Presidente do país, além dos novos deputados e 36 governadores.

Segundo a comissão eleitoral, um em cada quatro eleitores é estudante ou está a realizar alguma formação profissional. 62% dos nigerianos têm menos de 25 anos. Os dois principais candidatos à Presidência poderiam facilmente ser seus avós.

Fonte:https://www.dw.com/pt-002/quem-quer-ser-o-pr%C3%B3ximo-presidente-da-nig%C3%A9ria/a-47513118

Eleições na Nigéria para presidente

000000000000nigeriastatesmapbA Nigéria, primeira potência petroleira da África e país mais populoso do continente com 190 milhões de habitantes, escolherá em eleições muito disputadas em 16 de fevereiro o seu presidente, entre o chefe de Estado em fim de mandato Muhamadu Buhari, e o líder da oposição, Atiku Abubakar, em uma campanha marcada pela morte de 15 pessoas na terça-feira em uma avalanche humana após um ato do primeiro.

O presidente em fim de mandato Buhari realizou no sábado o seu principal ato de campanha em Lagos diante de dezenas de milhares de pessoas.

Em contrapartida, o partido de Abubakar, que tinha previsto uma grande concentração em Abuja, teve que cancelá-la. Abubakar acusou o presidente Buhari e sua formação de estarem por trás da proibição de chegar o local previsto do ato, afirmação negada pelo partido no poder.

Durante um mês, Buhari, candidato do Congresso dos Progressistas (APC), e Abubakar, do Partido Popular Democrático (PDP), principal movimento de oposição, percorreram os 37 estados da Nigéria.

Ao menos 15 pessoas morreram na terça-feira em uma avalanche humana ao terminar um ato de Buhari, em um estádio de Port Harcourt (sudeste), quando a multidão tenta sair do local, informou um hospital nesta quarta.

“Foram levados 15 corpos (ao Hospital Universitário de Port Harcourt, estado de Rivers), três homens e 12 mulheres”, assinalou o porta-voz do hospital Kem-Daniel Elebiga.

“Doze sobreviventes” foram tratados ou estão em tratamento, acrescentou.

Mas aqueles que assistem a estas manifestações gigantescas podem obter algum dinheiro, comida ou “presentes” jogados pelas equipes de campanha para a multidão, o que relativiza seu caráter multitudinário.

A Nigéria mergulhou em uma recessão econômica entre 2016 e 2017, logo depois que Buhari chegou ao poder, e hoje o crescimento não está se recuperando.

O gigante da África é atualmente o país do mundo que tem o maior número de pessoas vivendo abaixo do limiar da extrema pobreza (87 milhões), à frente da Índia, de acordo com o World Poverty Clock.

O tema econômico centraliza a campanha e o opositor Abubakar prometeu em seu lema que “a Nigéria volte ao trabalho” (“Make Nigeria work again”).

Mas Buhari se posicionou como um político próximo ao povo, com sua medida “Trader Moni”, um sistema de microcrédito de 24 a 75 euros para os dois milhões de pequenos comerciantes nos mercados.

Na Nigéria, país dividido entre um sul predominantemente cristão e um norte dominado pelos muçulmanos, além de diversas comunidades, a escolha dos candidatos é geralmente baseada em sua região de origem, ou religião, do que em suas ideias e programa.

Mas este ano, os dois principais candidatos são muçulmanos e pertencem à mesma comunidade hausa, estabelecida no norte do país.

Fonte:https://www.dn.pt/lusa/interior/nigeriaeleicoes-gigante-africano-na-reta-final-para-escolher-o-proximo-presidente-10576125.html

Juventude nigeriana está pessimista em relação às eleições para presidente na Nigéria

jo

Pela primeira vez, os nigerianos nascidos depois da instauração da democracia em 1999, e após décadas de ditaduras militares, são chamados às urnas no próximo dia 16 para eleger o seu presidente.

Os jovens, porém, sentem-se excluídos do jogo político da maior economia africana, dominado por uma elite envelhecida. As presidenciais do próximo sábado serão disputadas por dois septuagenários, ligados aos dois partidos que dominam a política nigeriana, e os cerca de 60% da população com menos de 25 anos manifesta encontram poucas razões para votar.

O chefe de Estado cessante, Muhammadu Buhari, 76 anos – que já tinha ocupado o cadeira presidencial nos anos 80 na sequência de um golpe de Estado, e foi eleito em 2015 para um mandato de quatro anos –, enfrenta Atiku Abubakar, 72 anos, antigo vice-presidente entre 1999 e 2007.

“São sempre as mesmas mentiras, a mesma corrupção, não há nada que mude para nós”, diz à AFP um jovem vendedor de rua com 19 anos, Femi Edu, a propósito dos políticos que dividem entre si o poder desde o evento da democracia há 20 anos.

Femi Edu não irá votar. “Nós o que queremos é apenas trabalho, mas nem isso eles são capazes de nos dar”, diz este jovem desempregado que, como milhões de compatriotas, vive graças à economia informal.

Esta será a primeira vez que a geração de nigerianos nascidos depois das ditaduras militares pós-independência (1966-1999) podem exprimir-se nas urnas para eleger o próximo presidente, assim como os próximos deputados à Assembleia Nacional e os governadores.

O grupo de eleitores da faixa etária entre os 18 e os 35 anos assume-se neste escrutínio como o principal bloco do eleitorado, com 51% dos inscritos (43 milhões), e é o mais apetecido alvo de sedução dos candidatos, tanto nas redes sociais como na televisão.

À semelhança de Femi Edu, muitos jovens, porém, não acreditam nas promessas de quem se diz apostado em fazer erguer o gigante de pés de barro, gangrenado pela corrupção, que, apesar das imensas riquezas retiradas do petróleo, dificilmente assegura o mínimo de sobrevivência aos seus 190 milhões de habitantes.

“A `política é suja`: é isso que pensam os jovens. Eles têm a impressão de que o seu voto não conta”, diz à AFP a cantora Celeste Ojatula, 24 anos, que participa no programa Voice2rep, lançado pela sociedade civil para incitar os jovens nigerianos a votar.

Celeste Ojatula e uma dezena de outros jovens artistas participaram em três grandes concertos de rap e afrobeats gratuitos, cuja entrada foi aberta a todos os que apresentassem o cartão de eleitor.

“A maior parte apenas quer ir para longe daqui, estudar no Canadá e ter uma vida melhor”, acrescenta uma outra cantora, Chioma Ogbona, 30 anos. “O cartão de eleitor serve sobretudo para obterem um visto ou para abrirem conta num banco, não apenas para votar”, acrescenta.

A editorialista Tabia Princewill, também citada pela AFP, diz que a juventude educada e urbana partilha desencanto. “Os que votam são os mais pobres, os que estão mais em baixo na escada social. Como têm a barriga vazia, basta dar-lhes um saco de arroz que eles dão o seu voto”, explica. “Ainda é preciso uma ou duas gerações para que as coisas mudem mesmo”.

Após anos de lobbying intenso da sociedade civil, em maio de 2018 foi dado um passo importante para o envolvimento dos mais jovens na política ativa nigeriana, com a adoção da lei “Not too young to run” (não demasiado jovem para concorrer), que reduziu a idade limite dos candidatos às presidenciais de 40 para 35 anos e 35 para 30 para os candidatos a governador.

Chike Ukaegbu, com apenas 35 anos, não precisou de mais do que isto para se lançar na corrida presidencial. “Nunca tinha pensado nisto”, confessa o jovem empresário originário do sudeste do país, que vive entre a Nigéria e Nova Iorque.

“Deixámos de ter desculpa, já não podemos dizer que eles não querem saber de nós”, explica à AFP o benjamim entre os 73 candidatos declarados. “Estamos em maioria, cabe-nos a nós mudar a história da nossa nação”, acrescenta.

Muito poucos eleitores conhecem o seu rosto, por comparação com as caras dos candidatos favoritos, cujos outdoors gigantes e cartazes estão afixados em todas as grandes cidades do país.

Em parte por falta de meios, é, assim, através da internet e de mensagens pela Whatsapp que o candidato se dirige aos jovens — ainda que milhões de entre eles vivam em zonas remotas fora das grandes cidades, onde não chegam sequer as redes de telecomunicações.

Prince Bukunyi Olateru-Olagbegi, com apenas 27 anos, criou no ano passado o Partido Democrático Moderno (MDP), reclama ter alcançado já os 65 mil militantes, e é outro jovem protagonista nestas eleições, às quais concorre com dois candidatos às legislativas.

“Oferecer a esperança” é o seu programa, através de investimentos massivos na educação, criação de empregos e anulação das clivagens étnicas e religiosas.

Ganhar uma eleição presidencial na Nigéria é, no entanto, uma missão quase impossível sem patrocínio político e muito dinheiro, reconhece.

Por cada assento na Câmara dos Representantes, câmara baixa do Parlamento nigeriano, os dois principais partidos, Congresso dos Progressistas (APC, no poder) e o Partido Democrático do Povo (PDP), vão gastar até 150 milhões de nairas (mais de 360 mil euros) na campanha, garante Olateru-Olagbegi.

“Mas há que começar por algum lado”.

Fonte: https://www.rtp.pt/noticias/mundo/filhos-da-democracia-votam-pela-primeira-vez-na-nigeria_n1129129

Eleições da África do Sul preocupa os bispos

africa moçambique

No próximo dia 8 de maio, a África do Sul vai às urnas para as eleições gerais. Em vista deste escrutínio eleitoral, a Conferência Episcopal local (Sacbc) publicou uma Carta pastoral “aos católicos e a todos os homens de boa vontade”.

Cidade do Vaticano

Um apelo por eleições “pacíficas, livres e transparentes” e um apelo “à oração”: ao longo destes dois eixos se desenvolve a Carta Pastoral dos Bispos sul-africanos, publicada em vista das eleições gerais marcadas para o próximo 8 de maio. Os bispos redigiram o documento em Mariannhill durante a Assembléia Plenária.

Escolher líderes que promovam o bem comum

Em primeiro lugar, os bispos definem “imperativo” o exercício do direito de voto de forma “sábia e corajosa, sem deixar-se distrair por falsas promessas”, olhando para os líderes capazes de “promover o bem comum e viver a Constituição à luz do Evangelho”. Daí a exortação aos eleitores a se fazerem algumas perguntas antes de entrarem na urna, como por exemplo: quem, de entre os candidatos, poderá efectivamente erradicar a corrupção, enfrentar os temas do desemprego e da pobreza e reduzir drasticamente o nível de violência perpetrada na população, em particular mulheres e crianças. Em síntese, sublinham os bispos, trata-se de escolher líderes que sejam capazes de “proteger a democracia” e fazer com que os cidadãos se sintam “orgulhosos de serem sul-africanos”.

Não a violências e intimidações

Em seguida – prossegue o documento – é essencial a criação de “um ambiente tolerante, que permita a cada sul-africano de apoiar e votar no partido escolhido, sem receio de violência e retaliações”. Por isso, recordando a responsabilidade do Estado de “garantir a segurança de todos”, os prelados exortam os partidos políticos a evitar as intimidações, tomando medidas decisivas contra os que as cometessem, bem como a “respeitar os resultados eleitorais”, assegurando também o respeito da lei.

O papel dos mass-media

Da mesma forma, também os meios de comunicação de massa são instados pela Igreja da África do Sul a “fugir do sensacionalismo” e a “relatar os eventos de maneira apropriada e responsável, para o bem de todos”. Nesta perspectiva, vem enfim o apelo à oração lançado pelos bispos, que sugerem uma oração em que se implora do Pai o respeito pela lei, a humildade do serviço, a esperança para os pobres, a unidade da população, a paz e a segurança para as crianças.

Temos um novo presidente na República Democrática do Congo

mapa-republica-democratica-do-congo

Victor Carvalho

O Tribunal Constitucional congolês anunciou às cinco horas da manhã de ontem o indeferimento do recurso apresentado pelo candidato da oposição, Martin Fayulu, ao mesmo tempo que confirmava Félix Tshisekedi como quinto Chefe de Estado eleito da RDC.

Constituição congolesa defende que o novo Presidente seja investido no prazo de 10 dias
Fotografia: DR

“Proclamamos, por maioria simples, o senhor Félix Tshisekedi como novo Presidente da República”, anunciou Benoit Lwamba Bintu, presidente do Tribunal Constitucional da RDC após uma prolongada reunião que se estendeu por mais de seis horas.

Tal como sucedeu quando a Comissão Nacional Eleitoral Independente (CENI) anunciou os resultados provisórios das eleições presidenciais de 30 de Dezembro, também agora o Tribunal Constitucional escolheu o meio da noite para divulgar a sua decisão em relação ao recurso apresentado por Martin Fayulu, que exigia uma recontagem manual dos votos. Na base da sua contestação, Martin Fayulu argumentava que a Lei Eleitoral havia sido violada pelo facto de não terem sido afixados os resultados no exterior das respectivas assembleias de voto e de terem sido excluídos da votação para as presidenciais os cidadãos de Beni, Butembo e Yumbi.

Martin Fayulu queria, por isso, uma recontagem manual de todos os votos nos diferentes distritos e mesas, sublinhando que os dados divulgados pela CENI iam contra aqueles que estavam na posse de diferentes organizações que tiveram observadores durante o processo eleitoral, entre eles os da Igreja Católica.

Todos estes argumentos acabaram por ser rejeitados pelo Tribunal Constitucional que, por maioria, os considerou “infundados”, decorrendo agora um prazo de dez dias para a tomada de posse do novo Presidente da República eleito.

No âmbito desta decisão, ficou sem efeito a deslocação a Kinshasa de uma delegação de Chefes de Estado africanos para se avistar com o Presidente cessante, Joseph Kabila, na sequência da mini-cimeira da União Africana realizada na quinta-feira em Addis Abeba.

O objectivo dessa missão era o de ajudar as autoridades congolesas a gerirem a situação dentro de um clima de estabilidade, sem qualquer intenção de interferir nos seus assuntos internos.

Essa missão, depois do anúncio da decisão do Tribunal Constitucional ficou ultrapassada nos seus objectivos uma vez que se trata de um assunto que ficou já definitivamente resolvido.
Reconhecimento e discurso de vitória

Ainda ontem, ao fim da manhã, o presidente em exercício da SADC, o Chefe de Estado namibiano Hage Geinbog, endereçou em nome da organização uma mensagem de felicitações a Félix Tshisekedi pela sua proclamação como Presidente eleito da RDC.

Na sua missiva, a que o Jornal de Angola teve acesso, a SADC apelava ao reconhecimento internacional do novo Presidente eleito da RDC e manifestava o desejo de que a transferência de poder fosse feita de modo pacífico e sem interferências externas  que afectem os interesses do povo congolês.

Entretanto, o Presidente eleito da RDC, nas suas primeiras declarações públicas após o anúncio da decisão do Tribunal Constitucional, agradeceu a todos aqueles que votaram nele e aos que votaram nos demais candidatos, sublinhando ser este “o dia tão esperado pelos heróis, os pais fundadores da nação, que constitui o coroar de um combate e o começo do combate pelo bem-estar, de um Congo que ganha e um Congo que faz ganhar África”.

“É o Congo que venceu esta noite. Não é uma vitória de um campo contra um outro”, declarou Tshisekedi diante de jornalistas e militantes do seu partido, insistindo que “o Congo que será formado amanhã não será um Congo do ódio, do tribalismo e da divisão, mas um Congo reconciliado, um Congo forte virado para o desenvolvimento”.

congo Fayulu faz apelo ao protesto

Depois  de ter conhecimento da decisão do Tribunal Constitucional, Martin Fayulu reafirmou ser o “legítimo Presidente da RDC”, insistindo em dizer que não aceita a derrota, agora imposta por uma “justiça corrupta”, apelando ao povo para que saia à rua e se manifeste contra o “golpe eleitoral”.

Martin Fayulu insiste em dizer que existe um “acordo” entre Joseph Kabila e Félix Tshisekedi para uma futura “partilha do poder”, afirmação essa que o novo Presidente eleito desmente de modo categórico.

A situação nas ruas de Kinshasa era ontem de grande tranquilidade, com os apoiantes de Félix Tshisekedi a manifestarem ordeiramente o seu contentamento pela vitória do novo Presidente eleito.

Alguns dos apoiantes de Martin Fayulu, em pequena quantidade, também saíram à rua sem que haja notícia da ocorrência de confrontos físicos.

De recordar que a CENI, no anúncio dos resultados provisórios, creditou Félix Tshisekedi com 38,57 por cento dos votos, contra 34,83 de Martin Fayulu.]

congo

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/presidente_eleito_da_rdc_promete_reconciliar_o_pais

República Democrática do Congo após as eleições preocupa a União Africana

 

O Presidente da República, João Lourenço presidente de Angola, participa hoje, em Addis-Abeba, Etiópia, numa cimeira com pelo menos 16 outros Chefes de Estado para consultas de alto nível a respeito da situação na República Democrática do Congo, que realizou eleições gerais a 30 de Dezembro último.

João Lourenço recebeu ontem cumprimentos de despedida
Fotografia: Dombele Bernardo| Edições Novembro

Segundo uma nota da Casa Civil do Presidente da República de Angola distribuída ontem, antes da cimeira africana, João Lourenço participa numa reunião da Dupla Troika da SADC.

Ontem, no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, o Chefe de Estado recebeu cumprimentos de despedida do Vice-Presidente da República, de Angola Bornito de Sousa, do governador de Luanda, Luther Rescova, de membros auxiliares do Poder Executivo, entre outras individualidades.

A Dupla Troika é composta pelos países que integram a Troika do Órgão de Defesa e Segurança e da SADC enquanto organização regional.

Os resultados das eleições gerais realizadas na RDC foram contestadas, no Tribunal Constitucional, pelo candidato Martin Fayulu, que ficou em segundo lugar. Fayulu reivindica uma recontagem manual dos votos. Ele garante que   a sua formação ganhou 61 por cento dos votos nas eleições de 30 de Dezembro e não 34,86 por cento, de acordo com dados da Comissão Eleitoral (CENI), que deu a vitória ao também opositor Félix Tshisekedi com 38,57 por cento.

O líder do Lamuka não é o único descontente com os dados publicados pela CENI. A Conferência Episcopal Nacional do Congo (CENCO) assegura que os números que tem não correspondem aos oficiais.

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/africa_esta_preocupada_com_a_situacao_na_rdc-

As mulheres negras na política

 

Representatividade de mulheres pretas e pardas, maioria da população brasileira, cresceu 38% nas eleições; participação dos homens brancos é 15 vezes maior do que a das mulheres negras

LUIGI MAZZA

12nov2018_14h13

ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Os americanos que foram às urnas no último dia 6 de novembro elegeram o Congresso mais diverso da história dos Estados Unidos. Pela primeira vez em seus 229 anos, a Câmara norte-americana terá parlamentares muçulmanas e indígenas. O estado de Massachusetts elegeu Ayanna Pressley, sua primeira congressista negra – feito repetido em Connecticut, onde foi eleita a professora Jahana Hayes.

Com as últimas seções ainda sendo apuradas em alguns distritos nesta segunda-feira, dia 12, estima-se que mulheres negras, asiáticas e de origem latina ocuparão 43 das 435 cadeiras da câmara baixa do Congresso. O recorde anterior era de 34 lugares. As parlamentares, classificadas como “não-brancas” e representativas de cerca de 19% da população total dos EUA, terão quase 10% das vagas.

O contraste do avanço americano com o vácuo de representação política no Brasil é imenso. Após as eleições de outubro deste ano, mulheres pretas ou pardas – que constituem a maioria da população brasileira, segundo o IBGE – terão apenas 2,5% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Serão 13 deputadas federais representando 48,4 milhões de brasileiras autodeclaradas pretas e pardas no Censo 2010. No Senado, historicamente ainda mais restrito, há apenas uma parlamentar negra.

Ao todo, foram eleitas 65 candidatas autodeclaradas pretas ou pardas para cargos no Legislativo em todo país, levando em conta a Câmara, o Senado e as assembleias estaduais. O resultado equivale a 4% das 1.626 vagas disputadas no pleito. A representação cresceu 38% em relação a 2014. Mas ainda é muito baixa. Para os mesmos cargos, foram eleitas quase o triplo de mulheres brancas (181), seis vezes mais homens negros (379) e quinze vezes mais homens brancos (997).

Cruzando o número total de candidaturas ao Legislativo com o número de eleitos por raça e gênero, o padrão de desigualdade se reforça. Enquanto o índice de êxito eleitoral dos homens brancos em 2018 foi de 10,9% – ou seja, um em cada dez candidatos conseguiu se eleger –, o de homens negros foi de 4,8%. Para mulheres brancas, o índice foi de 4,5%. As candidatas negras tiveram apenas 1,7% de êxito nas urnas.

https://e.infogram.com/f17a126c-2099-4c2e-9007-4c10c0a8f959?src=embed#async_embed

O principal obstáculo que a gente enfrenta é a condição financeira. Fiz campanha com 70 mil reais de recursos partidários, enquanto via algumas concorrentes gastarem mais de 2 milhões e 300 mil”, afirma a vereadora de Ji-Paraná e deputada federal eleita por Rondônia, Sílvia Cristina, do PDT. Com mais de 33 mil votos, ela se tornou a primeira mulher negra a representar seu estado em Brasília.

Autodeclarada preta no registro de sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, Cristina faz parte de uma minoria com acesso ainda mais restrito ao Legislativo. Como ela, apenas outras 18 deputadas pretas se elegeram no Brasil em 2018, sendo quase 70% delas no Sudeste. Na região Centro-Oeste, nenhuma foi eleita; no Norte, apenas duas – Sílvia Cristina inclusa.

“Em lugares mais distantes, como Rondônia, os recursos partidários não chegam de forma igualitária”, afirma a pedetista, que credita sua eleição a esforços próprios e à militância na área da saúde, sua principal bandeira. “Alguns grupos políticos não acreditavam na minha candidatura. As mulheres negras, infelizmente, são as que mais têm dificuldade de crescer.”

Para o cientista social e doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Osmar Teixeira Gaspar, o baixo nível de verbas para candidaturas negras é sistêmico no país e reflete a situação financeira dos próprios candidatos. Um levantamento conduzido por Gaspar entre 2010 e 2016 constatou que candidatos brancos a deputado estadual e vereador em São Paulo tinham, em média, um patrimônio declarado quatro vezes maior do que seus concorrentes negros mais ricos. “A discrepância é ainda mais ampla quando se trata de mulheres.”

A desigualdade dentro dos partidos, aponta Gaspar, cria o fenômeno das “candidaturas operárias”: quadros mais pobres, da base da estrutura partidária, que com suas campanhas ativas pela sigla acabam servindo de escada para candidaturas mais bem estruturadas. Como a eleição para a Câmara e assembleias legislativas se dá por quociente eleitoral, os votos desses candidatos migram para correligionários de melhor desempenho nas urnas. “São candidaturas postas para não ser eleitas”, afirma o pesquisador. “Estão ali para ser úteis e permitir que o partido ganhe uma ou duas cadeiras a mais.”

 

Amaior parte das parlamentares negras que se elegeram em outubro exercerão mandatos na esfera estadual a partir de 2019: são 51 ao todo, distribuídas pelas assembleias de 19 estados e do Distrito Federal. O saldo é de 15 parlamentares a mais do que em 2014. Mas elas ainda equivalem a pouco menos de 5% das 1.059 vagas de deputado estadual disputadas este ano.

Com dez eleitas, o Rio de Janeiro foi o estado em que mais deputadas pretas e pardas saíram vitoriosas. Na primeira eleição após o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Psol, ocorrido em março deste ano, o estado alçou quatro candidatas negras à Câmara dos Deputados e seis à Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj. Em 2014, apenas seis foram eleitas para as duas Casas.

“A movimentação da Marielle desde o ano passado provocou mulheres a estar na política. Vemos uma mudança aos poucos na sociedade, e no Rio isso já é uma realidade”, avalia a deputada estadual eleita Mônica Francisco, também do Psol. Essa foi sua primeira eleição e ela recebeu 40 mil votos. Mônica foi uma das três ex-assessoras de Marielle que se candidataram para a Alerj este ano. As outras duas, Renata Souza e Danielle Monteiro, também foram eleitas.

Na esteira da comoção pela morte da vereadora, a disputa no Rio foi marcada por uma onda de candidaturas de mulheres negras: ao todo, 521 se lançaram candidatas a deputada no estado, um aumento de 52% na comparação com 2014. “Esse fato trágico acabou impulsionando o ingresso de mulheres negras na política. Elas são mais organizadas hoje que os homens negros”, avalia o cientista social Osmar Teixeira Gaspar. Para ele, as mulheres negras têm conseguido um maior acesso às estruturas partidárias. “Essas candidaturas existem, mas não estão maciçamente representadas nos partidos, que reproduzem as mesmas desigualdades da sociedade. Os dirigentes dão preferência a candidatos que têm aporte e, portanto, chances de vencer.”

Em São Paulo, o número de candidatas negras ao Legislativo também cresceu em 2018, passando de 242 a 324. O salto de 34% dentre as candidaturas do maior colégio eleitoral do país, porém, parou nos partidos. Apenas três deputadas negras foram eleitas para a Assembleia Legislativa de São Paulo, a Alesp, e nenhuma para a Câmara dos Deputados. Comparado a 2014, o saldo final foi de uma parlamentar a mais.

A esquerda identitária e a satanização da maioria

A esquerda identitária e a satanização da maioria

421
(Arte Andreia Freire/ Revista CULT)

 

Eu não sou um homem hétero, cis, branco e cristão. Mas se fosse um deles, muito dificilmente votaria em um partido desses da esquerda identitária. Cada pessoa vota, principalmente em eleições majoritárias, calculando perdas e ganhos. Todo mundo precisa de um torrão de açúcar para se dar ao trabalho e à agonia de participar de eleições. Mas para quem é homem hétero, cis, branco e cristão, a esquerda identitária oferece apenas uma culpa e um conjunto de dívidas e obrigações daí decorrentes. Ora, ninguém gosta de se sentir culpado nem de assumir responsabilidade por pecados, principalmente quando julga que não os cometeu.  Nem gosta de ouvir o tempo todo que tudo em sua vida é resultado de privilégios, principalmente quando olha em volta e vê que tem menos do que mereceria ter. Ou nem se considera propriamente uma pessoa desprovida de méritos, esforços e sacrifícios, que não tenha que matar um leão por dia, que não tenha tido que enfrentar desvantagens e dificuldades. Mas a esquerda identitária basicamente diz para esse sujeito que sua vida se resume a privilégios, que ele é parte da injustiça social e que tem que se acostumar a perder para que os outros possam, enfim, ganhar alguma coisa.

O bolsonarismo faz parte de uma onda mundial de guinada à direita conservadora, que tem um dos seus fundamentos na chamada guerra cultural. Trata-se, dentre outras coisas, de uma reação (e de um reacionarismo) aos avanços liberais em pautas relacionadas a minorias e a controvérsias morais. Mas é também um movimento importante no jogo na política identitária.

A luta identitária

Política identitária (identity politics), para quem não sabe, é uma forma de politização das contraposições entre determinados grupos sociais cujos membros reconhecem que o seu pertencimento é compelido por aspectos da sua identidade. Exemplos de tais identificações são grupos de referência – ou “comunidades”, como dizem os americanos –, como aqueles baseados em cor, sexo, orientação sexual, etnia, em deficiências, dialetos, origem geográfica, identidade de gênero etc. O mundo da luta identitária acaba se tornando um conjunto de peças que nunca formam um mosaico, porque há superposições e há colisões, em que cada pauta identitária tende a se fragmentar em um processo infinito, uma vez que constantemente aparece uma nova microidentidade se desgarrando do núcleo a que se vinculava e reivindicando o direito à autorrepresentação. Estabelecido o princípio de que só a autorrepresentação é a autêntica representação e estabelecida uma ética de convivência que se move pela inclusão de qualquer reivindicação de identidade, o resultado é uma fragmentação infinita assumida como destino.

Uma forte vertente da política baseada em identidades é aquela que estabelece que os grupos identitários são oprimidos e que o caminho para a justiça passa pela remoção da opressão. Antes, a identificação do tipo de opressão a que cada comunidade está submetida é o princípio de corte identitário: quem sofre da mesma opressão, se identifica uns com os outros sob aquele aspecto. Depois, no interior do recorte feito, vão se identificando sucessivos estratos de opressão, a que parte dos membros da comunidade estão submetidos e outra parte não, que fornecem sucessivos pontos de corte, identidade dentro das identidades, até que não se tenha mais nada para cortar. “Átomo”, em grego, significa literalmente o que não pode mais ser cortado ou recortado. Individuum, em latim, é o que não pode mais ser dividido. A atomização é para onde se dirige a lógica dos cortes e recortes que perpassam a política identitária.

Os problemas começam quando inevitavelmente grupos identitário muito coesos e muito engajados na luta contra a opressão estrutural começam a satanizar categorias de opressores. E é aí que o tal homem hétero, cis, branco etc. aparece na equação como o demônio em comum em quase todos os grupos oprimidos. A palavra-chave aqui é privilégio. O mundo identitário vive da identificação de opressões e de privilégios. O homem, hétero, cis, branco é a quintessência da reunião de privilégios, mas a cada um desses adjetivos correspondem privilégios específicos de que participam mesmo pessoas que não os possuam todos de vez. Assim, homossexuais, cis e ricos vivem em um bolsão de privilégio, como mulheres brancas, educadas e cristãs vivem em outro bolsão de privilégio, embora nenhuma dessas subcategorias tenha direto ao máximo privilégio das cinco estrelas. Incumbe, então, a cada pessoa admitir os privilégios da sua categoria e da sua subcategoria e a cada um desses privilégios reconhecido ver reduzir, na mesma proporção, os seus direitos de representar alguma categoria e ver aumentar os limites da sua autorização identitária para falar em nome dos outros – o tal “lugar de fala”.

O passo seguinte é o processo que atribui a todos os membros do grupo de referência oprimido os dividendos da superioridade moral da sua posição, enquanto cobra de todos os indivíduos da categoria oficialmente opressora o pagamento das dívidas que é dos opressores. Assim todo homem de algum modo pode ser convocado a responder pelo machismo, independentemente da sua responsabilidade individual e compartilhamento das ideias machistas. Ou todo branco poderá ser responsabilizado pelo racismo, independente das suas posições pessoais sobre a matéria. E a coisa pode chegar a tal ponto, na retórica e na prática, que frequentemente já nem se sabe ao certo se o inimigo a ser derrotado é o machismo, o racismo, a homofobia ou o homem, branco, heterossexual e cisgênero.

Pautas identitárias e política eleitoral

Enquanto as lutas identitárias se processam em âmbitos que compartilham os seus pressupostos, como os ambientes acadêmicos ou o campo da cultura, sobretudo aqueles dominados por valores de esquerda, a posição prospera e gera avanços consideráveis na luta por direitos e por estima social. É possível gerar empatia social para além dos afetados pelas e implicados na luta identitária. É possível, inclusive, haver ganhos na transferência de, pelo menos, parte da pauta identitária para outros domínios sociais, como o âmbito jurídico ou a esfera pública. Mas quando as lutas identitárias se apresentam para públicos que não compartilham os seus exigentes pressupostos ou não aceitam as consequências implicadas nas suas premissas, é difícil imaginar que possam prosperar.

A esquerda identitária precisa decidir o que disputa no campo político, se quer ganhar eleições ou se quer simplesmente vencer o campeonato de superioridade moral. Superioridade moral é importante, mas ter razão não é superior a ter votos se o propósito é ganhar disputas eleitorais. De fato, a democracia tem em seu cerne este inconveniente: para governar você precisa ter a maioria do seu lado. Um lado não precisa necessariamente ser melhor que o outro, mas precisa ser maior. E o seu lado não se torna maior apenas porque você acredita ter superioridade moral. A esquerda tem grande dificuldade de entender isso e trata a disputa eleitoral como se fosse uma extensão das tretas e disputas que ambientes acadêmicos dominantemente de esquerda mantêm, em moto contínuo, no seu interior. Com isso, fala cada vez mais para si mesma e cada vez menos com os que estão fora dos muros de autocomplacência e de extrema afinidade em que se refugia.

Estes dois movimentos em falso (a satanização dos opressores e imposição, aos indivíduos singulares, das obrigações de pagar por opressões históricas das categorias a que pertencem) podem ser politicamente fatais. A prova disso são os sucessivos êxitos eleitorais recentes dos ultraconservadores, quando resolvem se promover como um discurso de emancipação daqueles que foram satanizados pelos seus adversários da esquerda liberal identitária. Como tal paradoxo é possível?

A questão é que heterossexuais, cis, brancos e cristãos são numerosos. Principalmente quando o discurso “aceite a culpa, admita os seus privilégios, pague o preço” pode ser mal recebido por pessoas que não se identifiquem integralmente com todas as cinco características, mas que, digamos, caia na malha fina de três ou quatro delas. A começar por mulheres heterossexuais, cis, brancas e cristãs ou homens, cis, não brancos e cristãos. À medida que o jogo das culpas e responsabilizações identitárias se estende, o universo vai ficando repleto de adversários. E mesmo quem não se sentia adversário, será lembrado disso por algum identitário em seu turno de patrulha da opinião pública. E assim se forma o paradoxo: como ganhar uma eleição quando a maioria dos eleitores precisa assumir-se culpado e privilegiado para começo de conversa?

Numa dessas entrevistas ao vivo neste ciclo eleitoral, indagado sobre políticas de compensações para negros em função do passado escravocrata do país, Bolsonaro reagiu prontamente: “Eu nunca escravizei ninguém”. A multidão de eleitores de Bolsonaro vibrou em uníssono pelos grupos de WhatsApp Brasil afora. “Que horror”, disse a esquerda identitária, “essa gente fascista saiu do armário”. Na verdade, ali se registrava pela enésima vez o fato de que não existe qualquer torrão de açúcar para este público no discurso identitário quando ele se torna discurso eleitoral. A esquerda identitária diz para a maioria numérica da sociedade que ela tem que arrastar correntes para sempre, para purgar por privilégios que ela não reconhece, expiando incessantemente uma culpa histórica que jamais poderá cessar. Estrategicamente a direita conservadora aparece no cenário para oferecer à maioria, paradoxalmente, uma oportunidade emancipatória: “Você não escravizou ninguém, a culpa não é sua, não abra mão dos seus direitos para pagar uma dívida que você, singularmente, não contraiu”.

Satanizações

No campo político, a satanização do outro é um dos expedientes de comunicação estratégica mais eficazes. O bolsonarismo precisava de um inimigo a ser satanizado para construir a sua própria identidade, do mesmo modo como a esquerda identitária precisou do homem heterossexual, cis, branco e cristão para construir o seu próprio espantalho. O bolsonarismo fuçou no imaginário político popular e achou “o comunista”. Revolveu estratos mais recentes dos sedimentos do imaginário e achou a esquerda identitária. Retirou daí a dimensão belicosa do “todo homem é um estuprador”, o antirracismo em sua forma “quem é branco me deve”, descobriu a turma da opção preferencial pelos pobres na forma “a elite branca não tem direitos ou valor”, etc. É desse barro que se esculpe “o esquerdista” como espantalho. Que, amalgamado com “o comunista”, “o defensor de direitos humanos que diz que a culpa do homicídio é da vítima e do sistema e não do assassino”, gera o inimigo conveniente para ser satanizado.

O que o bolsonarismo vendeu foi a ideia de que se você é cis, branco e hétero, a esquerda/os comunistas/os direitos humanos/os petistas lhe farão arrastar correntes para sempre, farão políticas públicas para transferir seus direitos para as suas minorias preferidas, não reconhecerão seus méritos e valores e ainda destruirão a sua imagem. A satanização consiste justamente nisto: em demonstrar que o outro deve ser temido, odiado e, quando surgir a oportunidade, exorcizado. Ambos os lados, o bolsonarismo ou a esquerda identitária, satanizam o seu inimigo predileto. Mas neste momento, no Brasil, o bolsonarismo foi mais eficiente em converter a satanização em voto. E em produzir uma “metassatanização”: a satanização da satanização das pessoas brancas, cis, hétero, cristãs.

Lutas identitárias fazem definitivamente parte do horizonte político do século 21. Há boas razões históricas e sociais para que elas existam. Mas toda luta se compõe de tentativas e erros, táticas e estratégicas que se provam eficientes e outras que não levam a lugar algum. Já há muita bibliografia sobre as consequências, para a fragmentação da esquerda, das pautas identitárias. Ou sobre o quão contraproducente para tais pautas é a dispensa da empatia social, trocada pela imposição do dogma da autorrepresentação, a famigerada “treta do lugar de fala”. Gostaria de incluir dentre essas táticas destinadas ao fracasso, como lição que se pode depreender do sucesso eleitoral da onda ultraconservadora que prospera no mundo, a satanização da maioria. Afinal, ao fim e ao cabo, a democracia liberal é um governo de maiorias. Pisar nos pés da maioria e ainda pretender vencer eleições não parece, portanto, uma ideia promissora. Ainda mais se, no fim das contas, a satanização do outro, além de taticamente ineficaz, não me parece nenhuma dimensão essencial, moralmente superior ou democraticamente justificável da luta por direitos, estima social, igualdade e respeito.

Fonte:https://revistacult.uol.com.br/home/esquerda-identitaria-e-satanizacao-da-maioria/