As mulheres negras na política

 

Representatividade de mulheres pretas e pardas, maioria da população brasileira, cresceu 38% nas eleições; participação dos homens brancos é 15 vezes maior do que a das mulheres negras

LUIGI MAZZA

12nov2018_14h13

ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Os americanos que foram às urnas no último dia 6 de novembro elegeram o Congresso mais diverso da história dos Estados Unidos. Pela primeira vez em seus 229 anos, a Câmara norte-americana terá parlamentares muçulmanas e indígenas. O estado de Massachusetts elegeu Ayanna Pressley, sua primeira congressista negra – feito repetido em Connecticut, onde foi eleita a professora Jahana Hayes.

Com as últimas seções ainda sendo apuradas em alguns distritos nesta segunda-feira, dia 12, estima-se que mulheres negras, asiáticas e de origem latina ocuparão 43 das 435 cadeiras da câmara baixa do Congresso. O recorde anterior era de 34 lugares. As parlamentares, classificadas como “não-brancas” e representativas de cerca de 19% da população total dos EUA, terão quase 10% das vagas.

O contraste do avanço americano com o vácuo de representação política no Brasil é imenso. Após as eleições de outubro deste ano, mulheres pretas ou pardas – que constituem a maioria da população brasileira, segundo o IBGE – terão apenas 2,5% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Serão 13 deputadas federais representando 48,4 milhões de brasileiras autodeclaradas pretas e pardas no Censo 2010. No Senado, historicamente ainda mais restrito, há apenas uma parlamentar negra.

Ao todo, foram eleitas 65 candidatas autodeclaradas pretas ou pardas para cargos no Legislativo em todo país, levando em conta a Câmara, o Senado e as assembleias estaduais. O resultado equivale a 4% das 1.626 vagas disputadas no pleito. A representação cresceu 38% em relação a 2014. Mas ainda é muito baixa. Para os mesmos cargos, foram eleitas quase o triplo de mulheres brancas (181), seis vezes mais homens negros (379) e quinze vezes mais homens brancos (997).

Cruzando o número total de candidaturas ao Legislativo com o número de eleitos por raça e gênero, o padrão de desigualdade se reforça. Enquanto o índice de êxito eleitoral dos homens brancos em 2018 foi de 10,9% – ou seja, um em cada dez candidatos conseguiu se eleger –, o de homens negros foi de 4,8%. Para mulheres brancas, o índice foi de 4,5%. As candidatas negras tiveram apenas 1,7% de êxito nas urnas.

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O principal obstáculo que a gente enfrenta é a condição financeira. Fiz campanha com 70 mil reais de recursos partidários, enquanto via algumas concorrentes gastarem mais de 2 milhões e 300 mil”, afirma a vereadora de Ji-Paraná e deputada federal eleita por Rondônia, Sílvia Cristina, do PDT. Com mais de 33 mil votos, ela se tornou a primeira mulher negra a representar seu estado em Brasília.

Autodeclarada preta no registro de sua candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, Cristina faz parte de uma minoria com acesso ainda mais restrito ao Legislativo. Como ela, apenas outras 18 deputadas pretas se elegeram no Brasil em 2018, sendo quase 70% delas no Sudeste. Na região Centro-Oeste, nenhuma foi eleita; no Norte, apenas duas – Sílvia Cristina inclusa.

“Em lugares mais distantes, como Rondônia, os recursos partidários não chegam de forma igualitária”, afirma a pedetista, que credita sua eleição a esforços próprios e à militância na área da saúde, sua principal bandeira. “Alguns grupos políticos não acreditavam na minha candidatura. As mulheres negras, infelizmente, são as que mais têm dificuldade de crescer.”

Para o cientista social e doutor pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, Osmar Teixeira Gaspar, o baixo nível de verbas para candidaturas negras é sistêmico no país e reflete a situação financeira dos próprios candidatos. Um levantamento conduzido por Gaspar entre 2010 e 2016 constatou que candidatos brancos a deputado estadual e vereador em São Paulo tinham, em média, um patrimônio declarado quatro vezes maior do que seus concorrentes negros mais ricos. “A discrepância é ainda mais ampla quando se trata de mulheres.”

A desigualdade dentro dos partidos, aponta Gaspar, cria o fenômeno das “candidaturas operárias”: quadros mais pobres, da base da estrutura partidária, que com suas campanhas ativas pela sigla acabam servindo de escada para candidaturas mais bem estruturadas. Como a eleição para a Câmara e assembleias legislativas se dá por quociente eleitoral, os votos desses candidatos migram para correligionários de melhor desempenho nas urnas. “São candidaturas postas para não ser eleitas”, afirma o pesquisador. “Estão ali para ser úteis e permitir que o partido ganhe uma ou duas cadeiras a mais.”

 

Amaior parte das parlamentares negras que se elegeram em outubro exercerão mandatos na esfera estadual a partir de 2019: são 51 ao todo, distribuídas pelas assembleias de 19 estados e do Distrito Federal. O saldo é de 15 parlamentares a mais do que em 2014. Mas elas ainda equivalem a pouco menos de 5% das 1.059 vagas de deputado estadual disputadas este ano.

Com dez eleitas, o Rio de Janeiro foi o estado em que mais deputadas pretas e pardas saíram vitoriosas. Na primeira eleição após o assassinato da vereadora Marielle Franco, do Psol, ocorrido em março deste ano, o estado alçou quatro candidatas negras à Câmara dos Deputados e seis à Assembleia Legislativa do Rio, a Alerj. Em 2014, apenas seis foram eleitas para as duas Casas.

“A movimentação da Marielle desde o ano passado provocou mulheres a estar na política. Vemos uma mudança aos poucos na sociedade, e no Rio isso já é uma realidade”, avalia a deputada estadual eleita Mônica Francisco, também do Psol. Essa foi sua primeira eleição e ela recebeu 40 mil votos. Mônica foi uma das três ex-assessoras de Marielle que se candidataram para a Alerj este ano. As outras duas, Renata Souza e Danielle Monteiro, também foram eleitas.

Na esteira da comoção pela morte da vereadora, a disputa no Rio foi marcada por uma onda de candidaturas de mulheres negras: ao todo, 521 se lançaram candidatas a deputada no estado, um aumento de 52% na comparação com 2014. “Esse fato trágico acabou impulsionando o ingresso de mulheres negras na política. Elas são mais organizadas hoje que os homens negros”, avalia o cientista social Osmar Teixeira Gaspar. Para ele, as mulheres negras têm conseguido um maior acesso às estruturas partidárias. “Essas candidaturas existem, mas não estão maciçamente representadas nos partidos, que reproduzem as mesmas desigualdades da sociedade. Os dirigentes dão preferência a candidatos que têm aporte e, portanto, chances de vencer.”

Em São Paulo, o número de candidatas negras ao Legislativo também cresceu em 2018, passando de 242 a 324. O salto de 34% dentre as candidaturas do maior colégio eleitoral do país, porém, parou nos partidos. Apenas três deputadas negras foram eleitas para a Assembleia Legislativa de São Paulo, a Alesp, e nenhuma para a Câmara dos Deputados. Comparado a 2014, o saldo final foi de uma parlamentar a mais.

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A esquerda identitária e a satanização da maioria

A esquerda identitária e a satanização da maioria

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(Arte Andreia Freire/ Revista CULT)

 

Eu não sou um homem hétero, cis, branco e cristão. Mas se fosse um deles, muito dificilmente votaria em um partido desses da esquerda identitária. Cada pessoa vota, principalmente em eleições majoritárias, calculando perdas e ganhos. Todo mundo precisa de um torrão de açúcar para se dar ao trabalho e à agonia de participar de eleições. Mas para quem é homem hétero, cis, branco e cristão, a esquerda identitária oferece apenas uma culpa e um conjunto de dívidas e obrigações daí decorrentes. Ora, ninguém gosta de se sentir culpado nem de assumir responsabilidade por pecados, principalmente quando julga que não os cometeu.  Nem gosta de ouvir o tempo todo que tudo em sua vida é resultado de privilégios, principalmente quando olha em volta e vê que tem menos do que mereceria ter. Ou nem se considera propriamente uma pessoa desprovida de méritos, esforços e sacrifícios, que não tenha que matar um leão por dia, que não tenha tido que enfrentar desvantagens e dificuldades. Mas a esquerda identitária basicamente diz para esse sujeito que sua vida se resume a privilégios, que ele é parte da injustiça social e que tem que se acostumar a perder para que os outros possam, enfim, ganhar alguma coisa.

O bolsonarismo faz parte de uma onda mundial de guinada à direita conservadora, que tem um dos seus fundamentos na chamada guerra cultural. Trata-se, dentre outras coisas, de uma reação (e de um reacionarismo) aos avanços liberais em pautas relacionadas a minorias e a controvérsias morais. Mas é também um movimento importante no jogo na política identitária.

A luta identitária

Política identitária (identity politics), para quem não sabe, é uma forma de politização das contraposições entre determinados grupos sociais cujos membros reconhecem que o seu pertencimento é compelido por aspectos da sua identidade. Exemplos de tais identificações são grupos de referência – ou “comunidades”, como dizem os americanos –, como aqueles baseados em cor, sexo, orientação sexual, etnia, em deficiências, dialetos, origem geográfica, identidade de gênero etc. O mundo da luta identitária acaba se tornando um conjunto de peças que nunca formam um mosaico, porque há superposições e há colisões, em que cada pauta identitária tende a se fragmentar em um processo infinito, uma vez que constantemente aparece uma nova microidentidade se desgarrando do núcleo a que se vinculava e reivindicando o direito à autorrepresentação. Estabelecido o princípio de que só a autorrepresentação é a autêntica representação e estabelecida uma ética de convivência que se move pela inclusão de qualquer reivindicação de identidade, o resultado é uma fragmentação infinita assumida como destino.

Uma forte vertente da política baseada em identidades é aquela que estabelece que os grupos identitários são oprimidos e que o caminho para a justiça passa pela remoção da opressão. Antes, a identificação do tipo de opressão a que cada comunidade está submetida é o princípio de corte identitário: quem sofre da mesma opressão, se identifica uns com os outros sob aquele aspecto. Depois, no interior do recorte feito, vão se identificando sucessivos estratos de opressão, a que parte dos membros da comunidade estão submetidos e outra parte não, que fornecem sucessivos pontos de corte, identidade dentro das identidades, até que não se tenha mais nada para cortar. “Átomo”, em grego, significa literalmente o que não pode mais ser cortado ou recortado. Individuum, em latim, é o que não pode mais ser dividido. A atomização é para onde se dirige a lógica dos cortes e recortes que perpassam a política identitária.

Os problemas começam quando inevitavelmente grupos identitário muito coesos e muito engajados na luta contra a opressão estrutural começam a satanizar categorias de opressores. E é aí que o tal homem hétero, cis, branco etc. aparece na equação como o demônio em comum em quase todos os grupos oprimidos. A palavra-chave aqui é privilégio. O mundo identitário vive da identificação de opressões e de privilégios. O homem, hétero, cis, branco é a quintessência da reunião de privilégios, mas a cada um desses adjetivos correspondem privilégios específicos de que participam mesmo pessoas que não os possuam todos de vez. Assim, homossexuais, cis e ricos vivem em um bolsão de privilégio, como mulheres brancas, educadas e cristãs vivem em outro bolsão de privilégio, embora nenhuma dessas subcategorias tenha direto ao máximo privilégio das cinco estrelas. Incumbe, então, a cada pessoa admitir os privilégios da sua categoria e da sua subcategoria e a cada um desses privilégios reconhecido ver reduzir, na mesma proporção, os seus direitos de representar alguma categoria e ver aumentar os limites da sua autorização identitária para falar em nome dos outros – o tal “lugar de fala”.

O passo seguinte é o processo que atribui a todos os membros do grupo de referência oprimido os dividendos da superioridade moral da sua posição, enquanto cobra de todos os indivíduos da categoria oficialmente opressora o pagamento das dívidas que é dos opressores. Assim todo homem de algum modo pode ser convocado a responder pelo machismo, independentemente da sua responsabilidade individual e compartilhamento das ideias machistas. Ou todo branco poderá ser responsabilizado pelo racismo, independente das suas posições pessoais sobre a matéria. E a coisa pode chegar a tal ponto, na retórica e na prática, que frequentemente já nem se sabe ao certo se o inimigo a ser derrotado é o machismo, o racismo, a homofobia ou o homem, branco, heterossexual e cisgênero.

Pautas identitárias e política eleitoral

Enquanto as lutas identitárias se processam em âmbitos que compartilham os seus pressupostos, como os ambientes acadêmicos ou o campo da cultura, sobretudo aqueles dominados por valores de esquerda, a posição prospera e gera avanços consideráveis na luta por direitos e por estima social. É possível gerar empatia social para além dos afetados pelas e implicados na luta identitária. É possível, inclusive, haver ganhos na transferência de, pelo menos, parte da pauta identitária para outros domínios sociais, como o âmbito jurídico ou a esfera pública. Mas quando as lutas identitárias se apresentam para públicos que não compartilham os seus exigentes pressupostos ou não aceitam as consequências implicadas nas suas premissas, é difícil imaginar que possam prosperar.

A esquerda identitária precisa decidir o que disputa no campo político, se quer ganhar eleições ou se quer simplesmente vencer o campeonato de superioridade moral. Superioridade moral é importante, mas ter razão não é superior a ter votos se o propósito é ganhar disputas eleitorais. De fato, a democracia tem em seu cerne este inconveniente: para governar você precisa ter a maioria do seu lado. Um lado não precisa necessariamente ser melhor que o outro, mas precisa ser maior. E o seu lado não se torna maior apenas porque você acredita ter superioridade moral. A esquerda tem grande dificuldade de entender isso e trata a disputa eleitoral como se fosse uma extensão das tretas e disputas que ambientes acadêmicos dominantemente de esquerda mantêm, em moto contínuo, no seu interior. Com isso, fala cada vez mais para si mesma e cada vez menos com os que estão fora dos muros de autocomplacência e de extrema afinidade em que se refugia.

Estes dois movimentos em falso (a satanização dos opressores e imposição, aos indivíduos singulares, das obrigações de pagar por opressões históricas das categorias a que pertencem) podem ser politicamente fatais. A prova disso são os sucessivos êxitos eleitorais recentes dos ultraconservadores, quando resolvem se promover como um discurso de emancipação daqueles que foram satanizados pelos seus adversários da esquerda liberal identitária. Como tal paradoxo é possível?

A questão é que heterossexuais, cis, brancos e cristãos são numerosos. Principalmente quando o discurso “aceite a culpa, admita os seus privilégios, pague o preço” pode ser mal recebido por pessoas que não se identifiquem integralmente com todas as cinco características, mas que, digamos, caia na malha fina de três ou quatro delas. A começar por mulheres heterossexuais, cis, brancas e cristãs ou homens, cis, não brancos e cristãos. À medida que o jogo das culpas e responsabilizações identitárias se estende, o universo vai ficando repleto de adversários. E mesmo quem não se sentia adversário, será lembrado disso por algum identitário em seu turno de patrulha da opinião pública. E assim se forma o paradoxo: como ganhar uma eleição quando a maioria dos eleitores precisa assumir-se culpado e privilegiado para começo de conversa?

Numa dessas entrevistas ao vivo neste ciclo eleitoral, indagado sobre políticas de compensações para negros em função do passado escravocrata do país, Bolsonaro reagiu prontamente: “Eu nunca escravizei ninguém”. A multidão de eleitores de Bolsonaro vibrou em uníssono pelos grupos de WhatsApp Brasil afora. “Que horror”, disse a esquerda identitária, “essa gente fascista saiu do armário”. Na verdade, ali se registrava pela enésima vez o fato de que não existe qualquer torrão de açúcar para este público no discurso identitário quando ele se torna discurso eleitoral. A esquerda identitária diz para a maioria numérica da sociedade que ela tem que arrastar correntes para sempre, para purgar por privilégios que ela não reconhece, expiando incessantemente uma culpa histórica que jamais poderá cessar. Estrategicamente a direita conservadora aparece no cenário para oferecer à maioria, paradoxalmente, uma oportunidade emancipatória: “Você não escravizou ninguém, a culpa não é sua, não abra mão dos seus direitos para pagar uma dívida que você, singularmente, não contraiu”.

Satanizações

No campo político, a satanização do outro é um dos expedientes de comunicação estratégica mais eficazes. O bolsonarismo precisava de um inimigo a ser satanizado para construir a sua própria identidade, do mesmo modo como a esquerda identitária precisou do homem heterossexual, cis, branco e cristão para construir o seu próprio espantalho. O bolsonarismo fuçou no imaginário político popular e achou “o comunista”. Revolveu estratos mais recentes dos sedimentos do imaginário e achou a esquerda identitária. Retirou daí a dimensão belicosa do “todo homem é um estuprador”, o antirracismo em sua forma “quem é branco me deve”, descobriu a turma da opção preferencial pelos pobres na forma “a elite branca não tem direitos ou valor”, etc. É desse barro que se esculpe “o esquerdista” como espantalho. Que, amalgamado com “o comunista”, “o defensor de direitos humanos que diz que a culpa do homicídio é da vítima e do sistema e não do assassino”, gera o inimigo conveniente para ser satanizado.

O que o bolsonarismo vendeu foi a ideia de que se você é cis, branco e hétero, a esquerda/os comunistas/os direitos humanos/os petistas lhe farão arrastar correntes para sempre, farão políticas públicas para transferir seus direitos para as suas minorias preferidas, não reconhecerão seus méritos e valores e ainda destruirão a sua imagem. A satanização consiste justamente nisto: em demonstrar que o outro deve ser temido, odiado e, quando surgir a oportunidade, exorcizado. Ambos os lados, o bolsonarismo ou a esquerda identitária, satanizam o seu inimigo predileto. Mas neste momento, no Brasil, o bolsonarismo foi mais eficiente em converter a satanização em voto. E em produzir uma “metassatanização”: a satanização da satanização das pessoas brancas, cis, hétero, cristãs.

Lutas identitárias fazem definitivamente parte do horizonte político do século 21. Há boas razões históricas e sociais para que elas existam. Mas toda luta se compõe de tentativas e erros, táticas e estratégicas que se provam eficientes e outras que não levam a lugar algum. Já há muita bibliografia sobre as consequências, para a fragmentação da esquerda, das pautas identitárias. Ou sobre o quão contraproducente para tais pautas é a dispensa da empatia social, trocada pela imposição do dogma da autorrepresentação, a famigerada “treta do lugar de fala”. Gostaria de incluir dentre essas táticas destinadas ao fracasso, como lição que se pode depreender do sucesso eleitoral da onda ultraconservadora que prospera no mundo, a satanização da maioria. Afinal, ao fim e ao cabo, a democracia liberal é um governo de maiorias. Pisar nos pés da maioria e ainda pretender vencer eleições não parece, portanto, uma ideia promissora. Ainda mais se, no fim das contas, a satanização do outro, além de taticamente ineficaz, não me parece nenhuma dimensão essencial, moralmente superior ou democraticamente justificável da luta por direitos, estima social, igualdade e respeito.

Fonte:https://revistacult.uol.com.br/home/esquerda-identitaria-e-satanizacao-da-maioria/

Presidente eleito Jair Bolsonaro, contenha seus ‘guardas da esquina’

faces-slides-2-03-Fiolha.jpgRenato Sérgio de Lima

Existe uma história que conta que, em 13 de dezembro de 1968, quando o governo do General Artur da Costa e Silva decretou o Ato Institucional 5, que significou o endurecimento do regime autoritário inaugurado em 1964, o vice-presidente, Pedro Aleixo, foi o único a discordar dos termos do Decreto. Ele teria dito “Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.

Respeitadas as diferenças históricas, a vitória de Jair Bolsonaro no último domingo parece que está provando que a preocupação de Pedro Aleixo continua válida e, mais do que nunca, evidencia muito das dificuldades que se avizinham na convivência democrática e no respeito aos direitos fundamentais no Brasil.

São inúmeros os casos de pessoas ofendendo gays, lésbicas, negros, mulheres e jovens que, emparedados por ameaças físicas e verbais, estão desesperadamente aguardando uma voz de comando do Presidente eleito para que a “caça às bruxas” contra quem pensa e/ou é diferente seja interrompida.

Hoje pessoas que têm as marcas de suas identidades sociais e culturais na pele ou no comportamento estão sendo violentamente constrangidas pelo discurso neoconservador sem limites e ressentido, que vê o diferente como inimigo e como algo moralmente condenável.

Mulheres lésbicas estão sendo abordadas e ofendidas aos berros nas ruas pelo simples fato de estarem exercendo seus direitos à cidade e à liberdade. Isso para não dizer da estranha convergência/coordenação de inúmeras invasões para averiguações, apreensão de materiais eleitorais e interrupções de aulas nas Universidades do país às vésperas das eleições, que exigiu uma posição firme do STF.

Fechadas as urnas, chamou atenção ainda que membros das Forças Armadas participaram de homenagens à eleição de Jair Bolsonaro; e/ou pessoas atiraram para cima em clima de festa – ambas ações que, em tese, demandariam explicações e investigações para apuração de eventuais ilegalidades.

Também tivemos o juiz Sérgio Moro (que como cidadão tem todo o direito a ter suas preferências políticas mas que, como magistrado, tem que demonstrar isenção), que se sentiu à vontade para emitir nota oficial de congratulação para o Presidente eleito e no dia seguinte, sem quase ninguém achar isso no mínimo um ato de conflito de interesses, ser convidado publicamente para assumir o Ministério da Justiça ou para ir para o STF e) e muitos acharem normal.

Não bastassem todas essas sinalizações, o Presidente eleito, em uma de suas primeiras manifestações, e a Deputada Ana Caroline Campagnolo (PSL/SC) também incentivaram que alunos gravassem e denunciassem a “doutrinação ideológica” nas Universidades, provocando uma quase imediata onda de patrulha e de manifestações de ódio e ressentimentos. Há, por fim, os ataques à imprensa profissional e independente, que incomoda e provoca promessas de retaliações.

Em suma, muito já foi dito sobre as razões da chegada democrática de Jair Bolsonaro ao poder, incluindo os erros da esquerda brasileira e a influência das redes sociais no processo político do país. Porém, já em 1968, Pedro Aleixo alertava para a importância de as instituições serem capazes de conter exageros e violências, sob o risco da perda de controle e dos dirigentes serem dragados pelo “espírito do tempo”.

E é este espírito, que em alemão ficou conhecido como “Zeitgeist”, que no país podemos associar ao medo da violência e ao autoritarismo, fatores-chave na configuração do ambiente eleitoral de 2018. O medo transformou-se em pânico e cobrou seu preço nestas eleições.

A ineficiência da máquina pública, em especial aquela responsável por conter a violência, mostrou-se incapaz de oferecer propostas críveis para o cotidiano da população e está dando vazão a um profundo mal estar social hoje no Brasil; um mal estar que antagoniza setores da sociedade em nome de uma verdade religiosa e não de uma ética pública baseada na nossa Carta Magna.

E, neste momento, ao invés de palavras sinceras de pacificação, vemos que a vontade de vingança e de perseguição estão na ordem do dia. A responsabilidade dos eleitos é imediata e não pode esperar o 1o de janeiro. Presidente eleito, como pessoa, é um direito do senhor pensar qualquer coisa, mas como máxima autoridade política eleita do país, segure seus “guardas da esquina” e pare de valentias retóricas que colocam a vida e a integridade de milhares de pessoas em risco.

Suas palavras têm força. Use-as para conter violências e perseguições. O Brasil todo saberá reconhecer. A grandeza de um líder, como Churchill, que parece que o inspira, é saber conter as emoções e fazer as escolhas civilizatórias. As eleições acabaram.

 

Fonte: https://facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br/2018/10/30/presidente-eleito-jair-bolsonaro-contenha-seus-guardas-da-esquina/

Eleições no Brasil sob o olhar do Jornal de Angola

depositphotos_113153788-stock-photo-angola-flag-with-brazil-flagNelson Talapaxi

Na recta final da segunda e derradeira fase da campanha para as eleições presidenciais do Brasil, os dois candidatos finalistas, ao se apegarem mais à religião, a corrida eleitoral que já tinha o seu cunho de batalha de crenças na primeira volta, com uma dezena de concorrentes “acendendo uma vela ‘pro’ santo e outra ‘pro’ diabo”, acaba por ganhar a configuração definitiva de uma “guerra santa.”

As últimas “preces” de cada candidato em busca da “bênção” com os crentes indicam que os cristãos farão a grande diferença nesta última parte do pleito eleitoral. Ou pode-se dizer, mais taxativamente, que é o posicionamento das igrejas que vai decidir quem será o próximo Presidente da República Federativa do Brasil.
Desde a primeira volta, Jair Bolsonaro, do Partido Social Liberal (PSL), tem estado à frente nas sondagens de intenção de votos. Mas é a rejeição que deixa Fernando Haddad, do Partido dos Trabalhadores (PT), mais fatigado do que o seu adversário. E não é para menos.
Segundo uma pesquisa Datafolha, 71 por cento dos evangélicos do país estão com Bolsonaro no segundo turno. Sabe-se que, caso ele ganhe, vai dar-lhes de presente a transferência da Embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os restantes 29 por cento de evangélicos votariam em Haddad, o candidato do ex-Presidente Lula da Silva. Isso mostra que os grandes líderes evangélicos mantêm as suas posições partidárias escancaradas, indicando aos fiéis a escolha a fazer.
Bolsonaro impulsionou-se fazendo declarações consideradas agressivas, radicais e anti-democráticas. Mas é justamente essa dureza que terá fisgado muitas lideranças cristãs e conquistado muitos brasileiros. Ele é um militarista reformado e conservador diante de aspectos sociais modernos (como a homossexualidade, o feminismo e a identidade de género que aventa o ‘terceiro sexo’).
O Brasil é uma das maiores, ou a maior nação cristã do mundo, onde perto de 90 por cento da população declara-se cristã, de acordo com a instituição de pesquisas Datafolha.  Nesse facto reside a força do “voto conservadorista” no país das licenciosidades.
Perante uma realidade económica difícil, associada ao descrédito da classe política envolvida em cambalachos e escândalos de corrupção; perante as questões comportamentais que afrontam os valores tradicionais e morais da igreja; há uma tendência de as ovelhas seguirem a opção dos seus pastores, revendo-se no activismo político dos seus sacerdotes. Bolsonaro é visto como a “resposta” desses problemas.
Sobre o “PTista” Fernando Haddad, recai o estigma das falcatruas corruptivas atribuídas à governação do seu partido aquando dos mandatos de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Mas também são os benefícios sociais dos programas governamentais de Lula e Rousseff que conferiram créditos à sua candidatura e levaram-no ao segundo turno da campanha eleitoral.
No âmbito da “guerra” pelo voto dos religiosos, Haddad pode contar com o seu quinhão de 29 por cento dos evangélicos. A começar, se o apoio dos deputados da Frente Parlamentar Evangélica é, declaradamente, dirigido a Bolsonaro, receando que o esquerdista em caso de vitória venha a limitar o direito de crença e liberdade religiosa, há um movimento de cristãos protestantes que não pensam da mesma maneira.
Esses grupos opõem-se ao apoio das grandes igrejas, pentecostais e neopentecostais, cujas lideranças exercem pressão sobre os fiéis a favor do candidato do PSL.
Para os evangélicos de Haddad, Bolsonaro representa a extrema-direita; as suas propostas são preconceituosas e fascistas, portanto, estão em total desacordo com os mais importantes preceitos e valores cristãos: o amor ao próximo, a pregação da paz e a igualdade entre os seres humanos
Ecumenicamente, entidades de judeus, muçulmanos e cristãos divulgaram recentemente um manifesto “inter-religioso contra a barbárie”, referindo-se a Bolsonaro. E o texto do documento é tudo o que o “politicamente correcto” quer que seja: “Somos parte das três religiões monoteístas do mundo. Acreditamos em um Deus de bondade e de amor. (…) Ele nos fez à sua semelhança e nossa diversidade é a prova de um Deus que está em cada um de nós. Toda vez que a fé foi utilizada para promover a paz, tivemos progresso e convivência pacífica entre os seres humanos.
Mas quando utilizaram dela para promover o ódio, tivemos os piores períodos da nossa história.
Não podemos colaborar para que estes tempos sombrios voltem a surgir entre nós. A barbárie que bate a nossa porta não pode entrar.”
E, para fechar o círculo de apoio religioso à sua candidatura, Haddad não poderia deixar de fora os católicos. Aliás, a oposição de muitos crentes ao representante da esquerda parte do princípio de que ele é católico (assim como o seu “mentor”, Lula da Silva, e uma legião de “PTistas”). Mas Haddad é ortodoxo e não católico apostólico romano, facto que, possivelmente, também poderá contribuir para uma divisão do eleitorado católico.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou também uma declaração, intitulada “Votar com Lucidez”, assinada por um dos bispos, em que não se cita o nome de Bolsonaro (nem precisava), mas deixa-se expresso, entrelinhas, em que candidato recai a preferência de voto. Insurge-se contra as “escandalosas posturas alienadas de muitos cristãos e as adesões a um candidato à Presidência que dissemina violência, ódio, racismo, homofobia e preconceito contra mulheres e pobres.” “Ele utiliza falsamente as temáticas de aborto, género, família e ética; faz apologia à tortura, à pena de morte e ao armamentismo; e é réu por injúria e incitação ao crime de estupro.”
O que os brasileiros, em geral, querem é uma nova ordem social. Para muitos evangélicos, Bolsonaro, certamente, não é o candidato que pediram a Deus, mas como o seu nome também é “Messias”, veio a calhar, e pode ser o salvador da pátria. Para o restante das comunidades religiosas, para que Haddad sirva, basta ser um político justo

A extrema direita no Brasil preocupa os negros, gays e ambientalistas

país elegeu ontem, 28-10-2018, Jair Bolsonaro (PSL) presidente do Brasil. Ele será o 38º presidente, o oitavo eleito após a redemocratização. Com 55,14% dos votos válidos, Bolsonaro venceu Fernando Haddad (PT), com 44,86% da preferência, no segundo turno. Pelo menos 37 milhões de brasileiros se abstiveram, anularam ou votaram em branco, algo como 29% de todo o contingente de eleitores.

Na avaliação de Henrique Costa, o resultado das eleições já era “esperado”, mas “traz desalento”. “A esquerda, nos últimos anos, acreditou que a política se resumia à gestão da precariedade, enquanto a economia permitia. A direita, por sua vez, fez dela novamente guerra social, apelando aos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa de seus valores conservadores”, comenta.

A entrevista foi publicada durante o dia de ontem em Eleições 2018: Um pleito que revelou muito da sociedade e do Estado. Primeiras análises.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que avaliação faz do resultado das eleições presidenciais e qual é o seu significado político?


Henrique Costa | Foto: Arquivo Pessoal

Henrique Costa é doutorando em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, mestre em Ciência Política e graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP.

Henrique Costa – O resultado, apesar de esperado, traz desalento. Todos aqueles que acreditam na democracia, mesmo que divergindo quanto ao seu conteúdo substantivo, e que se engajaram na campanha de Haddad, devem refletir sobre como chegamos ate aqui. É um choque para todos nós, mas a verdade é que este resultado vem sendo construído há pelo menos cinco anos, e não nos preparamos para esse momento, diferentemente daqueles que venceram agora.

Há dois movimentos que explicam o resultado.

Primeiro, os militares concluíram que o projeto geiselista, de modernização conservadora, perdeu sua base material com adesindustrialização do país e desde amissão no Haiti vem se preparando para lidar com o colapso econômico e institucional, usando o Rio de Janeiro como laboratório. Atentos à crise econômica e à devastação do mundo do trabalho que se converte em violência, tanto nas redes sociais como em episódios isolados espalhados pelo país, seus aliados no mundo político, desde junho de 2013, vêm se conectando com a agonia dessa classe trabalhadora e que teve seu ponto de máxima visibilidade na greve dos caminhoneiros.

Evidentemente, resgatam um velho ressentimento contra o intelectualismo, identificado na classe artística, nos estudantes de universidade pública e, sobretudo, no ativismo LGBT, vistos como vencedores da guerra pelos melhores postos do capitalismo contemporâneo e, portanto, adversários a serem abatidos. Então, o significado político não pode ser minimizado, pois não se trata apenas de uma derrota eleitoral, mas a consagração eleitoral de uma vitória social. A esquerda, nos últimos anos, acreditou que a política se resumia à gestão da precariedade, enquanto a economia permitia. A direita, por sua vez, fez dela novamente guerra social, apelando aos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa de seus valores conservadores.

Enfim, Bolsonaro não enganou ninguém. Ele prometeu a barbárie, e quase 60 milhões de pessoas escolheram acompanhá-lo. Seu discurso de ódio, recalcado na alma do país, teve uma adesão que nossa visão otimista do Brasil, cuja última manifestação foi o lulismo, não estava preparada para ver. Teremos que resistir agora, como minoria.

IHU On-Line – Quais serão os desafios de governabilidade do presidente eleito?

Henrique Costa – Num primeiro momento, o governo Bolsonaro não deve ter problemas de governabilidade. Pelo contrário. Já se anunciava antes mesmo do 2º turno a adesão do centrão e de outras legendas dispostas a colaborar, como o MDB e o DEM. Além disso, o PSL deve inchar com a filiação de parlamentares eleitos por partidos impedidos pela cláusula de barreira. É natural que o partido do governante eleito cresça pelo interesse do parlamentar em se manter próximo ao poder. Também favorece Bolsonaro o fato de que a grande maioria dos eleitos tem um perfil conservador e, diferentemente da atual legislatura, mais fisiológica, haverá grande alinhamento ideológico.

Evidentemente, essa adesão cobrará seu preço, como sempre. E no médio prazo, o aprofundamento da crise econômica, acompanhado da persistência do desemprego e do endividamento, podem rever esse apoio, como aconteceu com Michel Temer, que também tinha muito apoio parlamentar quando assumiu e que foi corroído pela impopularidadeBolsonaro deve conseguir, nos primeiros meses, manter um significativo apoio social por conta da expectativa de mudança que ele ensejou, mas o sucesso de seu governo e a manutenção da governabilidade dependerão de como a economia e a violência responderão às suas ações.

IHU On-Line – O que esperar do governo eleito?

Henrique Costa – De início, há uma expectativa por parte do eleitorado do capitão reformado de que ele rompa com esse perfil de negociações por cargos e verbas, mas ele deve equilibrar essa frustração com medidas razoavelmente fáceis de serem aprovadas e de muito apelo, como leis e emendas constitucionais de grande impacto simbólico (e também prático), como o Escola Sem Partido, a redução da maioridade penal, mudanças na Lei Rouanet etc. Será necessário muita resistência para que a legislação sobre o aborto não seja destroçada pelo apetite da bancada evangélica, que deve tentar aproveitar a onda conservadora para impor um retrocesso imenso em temas caros ao valores cristãos e da família.

Ainda é duvidoso se Bolsonaro aplicará uma agenda ultraliberal como prega seu guru Paulo Guedes. Após vários recuos em relação a privatizações de estatais, é provável, por outro lado, que seu governo aprofunde uma agenda de flexibilização e desregulamentação da legislação trabalhista, e crie obstáculos para a fiscalização, com consequências para o combate ao trabalho escravo. A uberização já é uma realidade em diversos setores da economia, e deve ser ainda mais estimulada por essas mudanças e pelo apelo que o discurso do empreendedorismo teve durante a campanha.

Na área ambiental, a fronteira agrícola terá ainda menos obstáculos, e só uma regulação em âmbito internacional pode colocar algum limite à devastação. Como boa parte dos biomas brasileiros vem sendo profundamente afetados tanto pelas mudanças climáticas quanto pela exploração predatória, e é a agenda do agronegócio que saiu vitoriosa nesse domingo, não é razoável esperar que tenhamos qualquer boa notícia nesse campo por parte do governo eleito.

O retorno do recalcado fará sua arena no Congresso Nacional. Infelizmente, a extrema direita, antes de ganhar o parlamento, ganhou corações e mentes e espalhou sua mensagem para todos os cantos do país. A repressão policial deve se acentuar ainda mais, atingindo agora setores da sociedade que, por questões de classe, estavam ainda protegidos nas grandes cidades, autorizada pela votação de Bolsonaro e de muitos com seus perfis em todo o Brasil. Preocupa especialmente a população LGBT, cujas bandeiras estiveram na linha de frente da esquerda nos últimos anos e se tornaram alvo prioritário da ira da massa conservadora. A primeira tarefa da esquerda será criar uma rede de proteção aos mais vulneráveis, pois a retórica bolsonarista estimulou a violência sem medo de punição – é preciso lembrar que a principal base de Bolsonaro ao longo de toda a sua carreira foram os policiais militares.

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/584203-a-gestao-da-precariedade-versus-o-apelo-aos-afetos-dos-recalcados-entrevista-especial-com-henrique-costa

O mundo está preocupado com os rumos da política do meio ambiente no Brasil

 

desmtamento

 

Os cientistas do clima estão emitindo seu mais dramático aviso de que a humanidade tem apenas 12 anos para reduzir as emissões ou sofrer as consequências do perigoso aquecimento global. Se os países não começarem a plantar árvores e cortar os combustíveis fósseis agora, disseram, então será impossível evitar um aumento de mais de 0,5ºC, o que erradicará completamente todos os corais do mundo e perturbará irreversivelmente os sistemas climáticos, provocando secas e inundações. e calor extremo que empurrará centenas de milhões para a pobreza.

Começando na Grã-Bretanha, o modelo industrial do capitalismo de carbono tem extraído há muito tempo minerais e recursos orgânicos, e descarregando os resíduos no ar, mar e terra. À medida que mais nações se desenvolviam, exportavam seu estresse ambiental para o próximo país, subindo a escada econômica.

Agora que esse paradigma está sendo replicado pelo país mais populoso do mundo, a China, há muito poucos lugares para absorver o impacto. A competição pelo que resta está crescendo. Então é violência e extremismo.

 

Bolsonaro tem o apoio de líderes do agronegócio e da mineração, que estão esfregando as mãos de alegria com a perspectiva de uma Amazônia desnudada de suas maiores proteções . Os mercados – que são fortemente impulsionados pelas indústrias extrativas – também o amam. O principal índice de ações e a taxa de câmbio do real subiram após a vitória na primeira rodada. Um editorial do Wall Street Journal endossou-o como um ” populista conservador “.

Tais políticos neofascistas não devem ser dispensados ​​de bom grado. Eles são os pistoleiros das indústrias que trabalham contra o acordo de Paris e outros acordos internacionais que visam evitar novas catástrofes ambientais, que atingem os mais duramente os mais pobres. Seu “anti-globalismo” é, antes de tudo, anti-natureza e anti-futuro. Uma abordagem de extração primeiro pode trazer benefícios econômicos a curto prazo, já que os amigos e doadores de campanha limpam mais florestas, abrem plantações e extraem mais minas – mas os lucros são concentrados enquanto o estresse ambiental é compartilhado.

Bolsonaro tem o apoio de líderes do agronegócio e da mineração, que estão esfregando as mãos de alegria com a perspectiva de uma Amazônia desnudada de suas maiores proteções . Os mercados – que são fortemente impulsionados pelas indústrias extrativas – também o amam. O principal índice de ações e a taxa de câmbio do real subiram após a vitória na primeira rodada. Um editorial do Wall Street Journal endossou-o como um ” populista conservador “.

Tais políticos neofascistas não devem ser dispensados ​​de bom grado. Eles são os pistoleiros das indústrias que trabalham contra o acordo de Paris e outros acordos internacionais que visam evitar novas catástrofes ambientais, que atingem os mais duramente os mais pobres. Seu “anti-globalismo” é, antes de tudo, anti-natureza e anti-futuro. Uma abordagem de extração primeiro pode trazer benefícios econômicos a curto prazo, já que os amigos e doadores de campanha limpam mais florestas, abrem plantações e extraem mais minas – mas os lucros são concentrados enquanto o estresse ambiental é compartilhado.

Já estamos vendo um fosso crescente entre políticos e cientistas. Enquanto os últimos pedem uma ação climática mais ambiciosa, os primeiros sabem que receberão mais fundos de campanha se se opuserem aos cortes de emissões, apoiarem as indústrias extrativas e enfraquecerem os regulamentos de poluição. Não são apenas ditaduras. A Grã-Bretanha está avançando com o fracking, a Alemanha com carvão e a Noruega com exploração de petróleo.

Em algum momento, os eleitores perceberão que o estresse ecológico está no centro dos problemas atuais do mundo. O aha! O momento pode ser quando a água cresce proibitivamente cara, ou as safras fracassam devido a ondas de calor sucessivas, ou a crise de refugiados desencadeia a guerra, mas em algum momento a fraqueza dos homens fortes será aparente, e as pessoas buscarão mudanças. O perigo é que, então, pode ser tarde demais. Tanto o clima quanto a política terão ultrapassado um ponto crítico, levando ao caos social e à transformação de populistas em ditadores para toda a vida.

Isso ainda não é inevitável, mas os riscos estão aumentando. O que ficou mais claro do que nunca é que a melhor maneira de evitar o colapso climático e ecológico é votar em líderes que fazem disso uma prioridade. Será impossível consertar a economia a menos que você primeiro conserte o ambiente. O instinto global para mudanças radicais está certo, mas a menos que isso seja voltado para a reconstrução ecológica, as democracias do mundo podem se extinguir antes que os corais o façam.

 Jonathan Watts é o editor de ambiente global do Guardian

Angolanos temem o racismo e a xenofobia no Brasil, por conta do Bolsonaro

Osvaldo Gonçalves

Enquanto por cá alguns comentários sobre as eleições do Brasil, feitos sobretudo nas redes sociais, levam a questionar sobre a existência de forças de direita organizadas, mais do que simples reacções ao descalabro a que chegou o país em relação à corrupção, os africanos, entre os quais angolanos, residentes naquele país temem um aumento da violência, do racismo e da xenofobia, caso o “coiso” ( Jair Bolsonaro), do PSL, vença a segundo turno das eleições presidenciais.

O Bolsonaro e o vice, António Hamilton Mourão, repudiados pelo discurso de ódio e racista
Fotografia: DRApós o ataque ao , outro caso mediático fez manchete nos jornais no início deste mês, quando o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto em Salvador, Bahia com 12 facadas, por causa de uma discussão política.
Agora, para a segundo turno (ou segundo turno, como dizem os brasileiros), o candidato da direita mantém uma margem de 20 por cento em relação ao rival do PT, Fernando Haddad, que concorre a estas eleições sob um forte manto de Lula da Silva, preso em Curitiba.
Em S. Paulo, a maior cidade brasileira, tal como no Rio de Janeiro, a segunda, como em Salvador da Bahia, onde se encontram as maiores comunidades angolanas, o medo de uma escalada na violência, por racismo ou por xenofobia, aumenta, assim como os receios em relação a casos relativos  à opção sexual.
Em Porto Alegre, Márcia Pungo, uma estudante universitária angolana que vive há quatro anos no Brasil, sonha em voltar ao país no próximo ano. “O brasileiro tem muito ódio para destilar e não tem preguiça de fazer isso”, desabafa. E acrescenta: “Se a pessoa comentou algo que não vai ao encontro do que a outra acredita, essa pessoa já é digna de ser odiada. O brasileiro não tem vergonha de destilar o seu ódio.”
O sentimento de Márcia Pungo é partilhado por outros estudantes africanos noutras regiões do Brasil. Sara Santiago, de 24 anos, estudante de comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul a viver naquele país desde 2015, sente na pele o preconceito que impera entre muitos brasileiros. Ela recorda uma situação “constrangedora” que sofreu em plena sala de aula assim que chegou ao país:
“Na primeira prova que fiz, tirei nota 8 [em 10]. Uma colega chegou ao pé de mim e retirou-me a prova da mão. Virou-se para a professora e perguntou por que é que eu, que vinha de África, tinha tirado 8 e ela 6.” Já o guineense de Bissau Germem Correia, de 28 anos, estudante de mestrado em Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a viver há cerca de cinco anos no Brasil, critica a posição agressiva dos brasileiros quando o assunto é política: “Tu percebes que existe ódio. Cada um é livre de ter e escolher o seu partido, mas o importante é respeitar a opinião dos outros. Muitas vezes, as pessoas acabam por não entender isso.”
No próximo dia 28 de Outubro, 147 milhões de brasileiros são chamados às urnas para eleger o novo Presidente da República. Os eleitores têm de escolher entre Jair Bolsonaro do PSL e Fernando Haddad do PT.
Em 2017, 36 milhões de africanos foram obrigados a migrar, 14 por cento dos 258 milhões de deslocamentos registados no continente, mas 75 por cento de todos permaneceram dentro do continente, mudando apenas de país. Em relação a Jair Bolsonaro, o receio tem explicação, embora se multipliquem as acusações sobre o uso de “fakenews” (notícias falsas) de um lado e do outro. Falsas ou não – cremos que não -, tanto Jair Bolsonaro, como o vice da sua chapa de eleição, o general da reserva António Hamilton Mourão (PRTB), têm-se feito notabilizar por declarações chocantes. Jair Bolsonaro, por exemplo, disse no Programa Roda Viva do último dia 30 do mês passado, que os portugueses nunca pisaram na África, que foram os próprios negros que se entregaram para a escravidão.
António Hamilton Mourão afirmou, durante um evento da Câmara de Indústria e Comércio de Caxias do Sul, que o Brasil herdou a “indolência” dos indígenas e a “malandragem” dos africanos. “Temos uma herança cultural, uma herança que tem muita gente que gosta do privilégio (…). Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem (…) é oriunda do africano”, afirmou.
E foi mais longe: demonstrou desprezo pelos africanos e disse que o país adoptou a “diplomacia que foi chamada de Sul-Sul”. “E aí nos ligamos com toda a mulambada, me perdoem o termo, existente do outro lado do oceano (África), do lado de cá, que não resultou em nada, só em dívidas que foram contraídas e que nós estamos tomando calote disso aí”, frisou.

  Repúdio em Montevideu

Centenas de pessoas entre uruguaios e brasileiros protestaram, sábado, diante da Embaixada do Brasil, em Montevideu, contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que defronta Fernando Haddad (PT) na segunda volta das eleições presidenciais.
Cerca de 300 pessoas foram para os arredores da sede diplomática brasileira ao canto de “ele não”, utilizado em outros países para manifestar a rejeição à candidatura de Bolsonaro.
A representante da organização cívica internacional Pão e Rosas, Karina Rojas, disse à agência Efe que a convocação foi feita para se manifestar contra a “onda de repressão” vivida no Brasil depois da vitória do candidato na primeira volta.
“Não queremos que haja fascismo na América Latina, não queremos que haja extrema direita que acabe com as nossas liberdades democráticas, que persiga os lutadores e lutadoras, que promova a xenofobia, o racismo, a misoginia e a homofobia”, disse Karina.
A activista acrescentou que em caso de uma hipotética vitória de Bolsonaro nas próximas eleições esta organização cívica irá convocar comités de acção “para se defender dos ataques dos grupos de extrema-direita”, já que segundo sua opinião “não há melhor resistência do que a mobilização e a luta nas ruas”.
“Queremos que todos os sectores que se dizem democráticos enfrentem o ‘bolsonarismo’ e o golpismo no Brasil e em toda a América Latina, queremos uma postura firme contra Bolsonaro”, concluiu Karina.

Presidente da Nigéria terá muita dificuldade para sua reeleição

Presidente Buhari sem alternativa credível para as eleições de 2019

Victor Carvalho

Aquilo porque está a passar o partido do Presidente Muhammadu Buhari é uma cópia do que sucedeu em 2015, quando uma série de deserções para a principal formação da oposição comprometeu o seu triunfo eleitoral. Desta vez a grande vantagem do Congresso de Todos os Progressistas é que a oposição não parece ter uma alternativa credível para apresentar a tempo de poder ganhar as eleições do próximo ano

Fotografia: DR

O dramático anúncio feito há uma semana por cerca de 50 legisladores do partido Congresso de Todos os Progressistas, que suporta o Presidente Muhammadu Buahri, é quase a repetição de uma história do que sucedeu em 2015.

Também nessa altura, proeminentes membros deste partido resolveram bater com a porta e juntar-se ao Partido Democrático do Povo na busca por uma vitória que acabou por lhes escapar.

Agora, a história repete-se com os dissidentes do partido no poder a procurarem junto da oposição um lugar que lhes permita chegar ao poder já nas eleições do próximo ano.

Estas saídas, que já se previam há algumas semanas, têm como principais protagonistas os senadores Yakubu Dogara e Bukola Saraki, que até ao momento ainda não anunciaram oficialmente a sua renúncia ao Congresso de Todos os Progressistas apesar de serem apontados como sendo os “instigadores” das deserções em massa que se registaram em vésperas das férias parlamentares.

Apesar deste seu compasso de espera, a verdade é que a sua posição no seio do partido no poder está bastante complicada havendo já informações que deixam perceber a intenção de Muhammadu Buhari promover a sua expulsão de modo a clarificar a situação, um passo urgente quando se está a menos de seis meses da ida às urnas.

São conhecidas as divergências entre Buahri e o senador Bukola Saraki, que foi recentemente ilibado pelo Supremo Tribunal de acusações de corrupção num processo iniciado por orientação do Presidente da República, pelo que não faz sentido alimentar esta indefinição quando já todos na Nigéria perceberam que a ruptura é mesmo inevitável.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/africa/presidente_buhari_sem_alternativa__credivel_para_as_eleicoes_de_2019_1

Eleito o presidente do Zimbabwe, com protestos da oposição

Emmerson Mnangagwa é eleito presidente do Zimbábue; oposição fala em ‘fraude’

Ex-vice de Robert Mugabe venceu as eleições de segunda-feira. Oposição, que liderou protestos durante a semana, contestou o resultado.


Por G1

 

Emmerson Mnangagwa, presidente do Zimbábue, durante evento em Mutare  (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)Emmerson Mnangagwa, presidente do Zimbábue, durante evento em Mutare  (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

Emmerson Mnangagwa, presidente do Zimbábue, durante evento em Mutare (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

O atual presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, foi eleito para mais cinco anos de mandato, segundo resultado proclamado pela Comissão Eleitoral do Zimbábue (ZEC, na sigla em inglês) nesta quinta-feira (2). Ele venceu o candidato da oposição, Nelson Chamisa, no pleito que ocorreu na segunda-feira.

Veja o resultado:

  • Emmerson Mnangagwa (Zanu-PF): 2.460.463 votos (50,8%);
  • Nelson Chamisa (MDC): 2.147.436 votos (44,3%);
  • Somados, os outros 21 candidatos obtiveram menos de 5%.

Os resultados de cada uma das 10 províncias do pequeno país de cerca 16 milhões de habitantes foram lidos pela ZEC, com transmissão ao vivo. O comitê atrasou a proclamação do resultado oficial em mais de uma hora porque faltava contabilizar os votos da província Mashonaland Oeste.

Após o anúncio do resultado, Mnangagwa postou uma mensagem de agradecimento aos eleitores no Twitter, onde falou em “um novo começo” e afirmou que “embora possamos ter estado divididos nas eleições, estamos unidos em nossos sonhos”.

President of Zimbabwe

@edmnangagwa

Thank you Zimbabwe!

I am humbled to be elected President of the Second Republic of Zimbabwe.

Though we may have been divided at the polls, we are united in our dreams.

This is a new beginning. Let us join hands, in peace, unity & love, & together build a new Zimbabwe for all!

Momentos antes do anúncio da província que faltava, o líder do partido de oposição Movimento pela Mudança Democrática (MDC), Morgen Komichi, tomou o microfone da comissão eleitoral para dizer que os resultados da votação “eram falsos”.

A atitude deve acirrar a crise eleitoral no Zimbábue (veja mais abaixo). Na quarta-feira, o candidato derrotado Nelson Chamisa havia declarado a vitória unilateralmente.

Chamisa venceu em seis províncias, inclusive na região da capital Harare. Lá, ele conquistou uma larga vantagem em relação a Mnangagwa: candidato opositor obteve cerca de 548 mil votos, bem mais do que os 204 mil obtidos pelo atual presidente.

Presidente do Zimbábue, Mnangagwa, deixa local de votação nas eleições desta segunda-feira (30) em Kwekwe (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)Presidente do Zimbábue, Mnangagwa, deixa local de votação nas eleições desta segunda-feira (30) em Kwekwe (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

Presidente do Zimbábue, Mnangagwa, deixa local de votação nas eleições desta segunda-feira (30) em Kwekwe (Foto: Philimon Bulawayo/Reuters)

Foi a primeira eleição desde que Robert Mugabe saiu do poder, em novembro de 2017, depois de passar 37 anos no comando do país. Mnangagwa, inclusive, era vice do antigo presidente, e uma crise entre os dois políticos levou à articulação que forçou a renúncia de Mugabe.

Durante a crise, o atual presidente fugiu para a África do Sul, mas voltou para assumir a presidência temporariamente assim que conseguiu fazer com que Mugabe renunciasse e convocasse eleições. Por isso, o ex-líder do Zimbábue chegou a declarar voto em Chamisa.

Credibilidade eleitoral em crise

Partidários da oposição fazem piquete em manifestação em Harare, no Zimbábue (Foto: AP Photo)Partidários da oposição fazem piquete em manifestação em Harare, no Zimbábue (Foto: AP Photo)

Partidários da oposição fazem piquete em manifestação em Harare, no Zimbábue (Foto: AP Photo)

O atraso em mais de uma hora para o anúncio e o protesto do MDC na cerimônia desta quinta tornam a crise de credibilidade da eleição no Zimbábue ainda mais delicada. Isso porque aliados de Chamisa se revoltaram com os três dias de demora do ZEC em anunciar o resultado da eleição presidencial, e acusam “fraude”.

Os opositores, então, lideraram protestos que tomaram Harare na quarta-feira (1). A manifestação foi violentamente reprimida. Policiais e soldados armados entraram em confronto com os manifestantes. Ao menos seis pessoas morreram.

Soldado armado patrulha ruas de Harare enquanto mulher passa carregando sacolas; Zimbábue tem dia de protestos e repressão violenta após eleições no país (Foto: AP Photo/Mujahid Safodien)Soldado armado patrulha ruas de Harare enquanto mulher passa carregando sacolas; Zimbábue tem dia de protestos e repressão violenta após eleições no país (Foto: AP Photo/Mujahid Safodien)

Soldado armado patrulha ruas de Harare enquanto mulher passa carregando sacolas; Zimbábue tem dia de protestos e repressão violenta após eleições no país (Foto: AP Photo/Mujahid Safodien)

Por causa dos conflitos, o presidente Mnangagwa pediu “solução pacífica” para o impasse, usando as redes sociais. Ele também disse que vai solicitar uma “investigação independente” sobre a violência nos protestos.

E como o impasse começou?

Candidato presidencial opositor Nelson Chamisa vota nesta segunda-feira (30) nas eleições do Zimbábue (Foto: Mike Hutchings/Reuters)Candidato presidencial opositor Nelson Chamisa vota nesta segunda-feira (30) nas eleições do Zimbábue (Foto: Mike Hutchings/Reuters)

Candidato presidencial opositor Nelson Chamisa vota nesta segunda-feira (30) nas eleições do Zimbábue (Foto: Mike Hutchings/Reuters)

O ZEC anunciou, na quarta-feira, o partido de Mnangagwa como vencedor da maioria das cadeiras no Parlamento. Os opositores, então, cobraram também o resultado da votação para presidente — as duas eleições ocorreram na mesma segunda-feira.

Assim, o MDC chegou a reivindicar a vitória presidencial nas urnas, mesmo sem o resultado oficial ter saído.

“Recebemos os resultados de nossos colaboradores (…). Os resultados mostram, para além de qualquer dúvida razoável, que ganhamos as eleições e que o próximo presidente do Zimbábue será Nelson Chamisa”, afirmou um dos principais líderes do MDC, Tendai Biti, que citou o candidato do partido.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/08/02/emmerson-mnangagwa-e-eleito-presidente-do-zimbabue-oposicao-fala-em-fraude.ghtml

Eleições no Zimbabwe depois do afastamento de Mugabe

zi-area.gifpor Clovis Rossi

 

Já seria histórico o simples fato de que, pela primeira vez desde a independência, em 1980, uma eleição no Zimbábue não terá entre os candidatos Robert Mugabe, o mais velho revolucionário africano e presidente-ditador nos 37 anos seguintes.

Mas há mais do que esse registro para dar, eventualmente, caráter histórico ao pleito desta segunda (30): o que está em jogo, segundo análise de Piers Pigou, consultor-sênior para o Sul da África do Crisis Group, é “uma oportunidade sem precedentes para os eleitores do país escolherem quem eles acreditam que pode entregar a recuperação econômica depois de décadas de um domínio violento, predatório e autoritário por Mugabe e pelo Zanu-PF (siglas em inglês para União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica)”.

Confirma essa avaliação otimista uma pesquisa da firma Emergent Research: se houver um vencedor claro e o resultado for aceito, o crescimento da economia poderá ser de 6,5% em 2018 e saltar para 15% em 2019.

A partir dessas avaliações, nascem duas perguntas óbvias: haverá um vencedor claro? O resultado será aceito pelos perdedores?

Para a primeira pergunta, a resposta é não. A mais recente pesquisa, do respeitado Afrobarometer, dá 40% das intenções para o atual presidenteEmmerson Mnangagwa, 75, o candidato do Zanu-PF; e 37% para o principal de seus 22 adversários, Nelson Chamisa, 40, do MDC (Movimento para a Mudança Democrática).

Um empate técnico que a totalidade dos analistas africanos entende que permanecerá até a votação.

Para a segunda pergunta, a resposta dependerá, é claro, do resultado, mas não há muita margem para otimismo: o partido governista ganhou todas as seis eleições disputadas desde a independência.

 

Se for dado como vencedor, Chamisa muito provavelmente gritará fraude. Já ameaçou boicotar o voto, alegando irregularidades no processo eleitoral. Desistiu depois, com o argumento propagandístico de que “o vencedor não boicota eleições”. É o mesmo que dizer que rejeitará qualquer outro resultado.

Que há irregularidades, parece evidente. A começar pelo registro biométrico, introduzido para a votação deste ano, pelo qual todos os votantes têm que se inscrever com fotografia e impressão digital.

São 5,6 milhões os eleitores registrados, e uma abrangente análise dos registros, feita pelo chamado Team Pachedu, da sociedade civil, mostra que há 250 mil casos que despertam sérias dúvidas.

Entre eles, um eleitor de 140 anos, Phidas Ndlovu, e Sihle Mpofu, aparentemente nascida em 1884, o que a tornaria a mulher mais velha no mundo.

Em uma eleição que se imagina apertada, “um quarto de milhão de potenciais votantes fantasmas pode ser estatisticamente significativo e mesmo definir a corrida”, escreve Simon Allison, editor de assuntos africanos do jornal sul-africano Mail & Guardian.

Dois ex-altos funcionários norte-americanos, pesquisadores em centros privados, visitaram há pouco o Zimbábue para avaliar o cenário pós-derrubada de Mugabe, ocorrida em novembro de 2017.

Michelle Gavin (serviu com Barack Obama e hoje está no Council on Foreign Relations) e Todd Moss (trabalhou com George W. Bush e hoje é pesquisador do Centro para o Desenvolvimento Global) são pessimistas sobre o teor democrático do novo Zimbábue: “Infelizmente, voltamos convencidos de que testemunhamos mais teatro político do que boa-fé”.

É uma pena porque os dois analistas concordam com o Crisis Group em que uma votação “livre, justa e crível” seria um primeiro passo para que o país se recuperasse de uma ditadura abominável, cujas consequências assim descrevem: “Nas últimas duas décadas, milhões fugiram. A vasta maioria dos que permaneceram viu seu padrão de vida declinar dramaticamente, e, hoje, mais de 70% vivem na pobreza. O país tornou-se um pária internacional”.

É justamente essa situação de pária que pode forçar o presidente a ser eleito —mesmo que seja Mnangagwa, fiel servidor da ditadura— a aumentar o teor de democracia: ele está prometendo atrair US$ 5 bilhões por ano (R$ 18,5 bilhões) em investimento externo direto. Seu principal rival, Chamisa dá mais ênfase ao investimento doméstico, em infraestruturas e habitações, além sistemas sociais.

Qualquer que seja o vencedor, precisa de um ambiente democrático mais sólido; do contrário, “frustraria as perspectivas de reforma da governança, reengajamento internacional e a tão necessária revitalização econômica”, diz a análise do Crisis Group.

Um desfecho positivo do processo eleitoral ajudaria não só o Zimbábue, mas toda a África, continente em que democracias sólidas são raras: a Freedom House, instituição que avalia o teor democrático de 195 países do mundo, diz que, dos 49 países da África subsaariana, apenas 18% são livres. O dobro (37%) cai na categoria não livre e 43% são parcialmente livres.

Para comparação: no ranking dos 195 países do mundo, só 25% são rotulados como não livres mais 30% parcialmente livres.

PRINCIPAIS CANDIDATOS

Emmerson Mnangagwa, 75
Veterano da luta pela independência, é o atual presidente, tendo assumido após a queda de Robert Mugabe no fim de 2017

Nelson Chamisa, 40
Advogado, o ex-ministro e atual deputado conquistou o comando da oposição em fevereiro, após morte do antigo líder Morgan Tsvangirai