Mia Couto:Brsil se distancia da África

Mia Couto: ‘O Brasil voltou a virar as costas para a África’. Confira a entrevistaAutor moçambicano mais traduzido da história vem ao Recife para discutir sobre sua relação com Guimarães Rosa

 

Por: Emannuel Bento – Diario de Pernambuco

Publicado em: 15/04/2019 08:01 Atualizado em: 15/04/2019 13:24

Foto: Mia Couto/Divulgação
Foto: Mia Couto/Divulgação

Mia Couto, o autor moçambicano mais traduzido da história, tem percorrido capitais de todo o Brasil para discutir sobre sua relação com João Guimarães Rosa, representante do modernismo e um dos maiores escritores brasileiros do século 20. Mas por que um intelectual da África para falar sobre um mineiro de apelo regionalista, que tinha o Sertão brasileiro como cenário favorito? Justamente para comprovar sua onipresença e atemporalidade. O Moçambique ainda estava imerso em uma longeva guerra civil pela independência quando Couto conheceu a obra de Rosa. O jovem conseguiu um exemplar – em xerox – de A terceira margem do rio (1962), que demarcou um “antes e depois” na sua perspectiva sobre o fazer literário.

A agenda de palestras de Mia Couto no Brasil é uma ação da Companhia das Letras para divulgar a nova edição de Grande Sertão: Veredas (552 páginas, R$ 84,90), a obra mais canônica de João. O evento de lançamento no Recife será amanhã, às 19h, no auditório G1 e G2 da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com mediação do jornalista Schneider Carpeggiani, editor do selo Suplemento Pernambuco. Os ingressos gratuitos foram disponibilizados na última sexta-feira e, devido à notoriedade do convidado, todos os 470 lugares já foram ocupados. Por isso, uma vídeo transmissão do evento será realizada.
O relançamento de Grande Sertão: Veredas conta com cronologia ilustrada, indicações de leituras e célebres ensaios publicados sobre o romance, escritos por nomes como Clarice Lispector, Roberto Schwarz, Walnice Nogueira Galvão e Silviano Santiago. O clássico acompanha o jagunço Riobaldo, sua relação ambígua com o personagem Diadorim e todo um contexto que nos leva a enxergar o Sertão como um local universal, que nos traz à tona um mergulho profundo na alma humana. “O Sertão é dentro da gente”, já diz a célebre frase da obra.

Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação
Capa da nova edição de Grande Sertão: Veredas. Foto: Companhia das Letras/Divulgação

“Li Grande Sertão quando já tinha lido os outros livros do Guimarães e realmente custou-me entrar no livro. Aquilo me surgia como outra coisa. E Rosa sabia disso, ele próprio dizia que escreveu esse romance numa espécie de transe. Foi preciso insistir, mas valeu a pena”, revela Couto, em entrevista ao Viver.

Após o lançamento, ele continuará na capital pernambucana para participar do encontro literário Dois Dedos de Prosa, realizado na quarta-feira, às 9h, também na Unicap. A reunião pretende discutir sobre o “ser da linguagem”, em desdobramentos literários e ético-estéticos. Também busca promover um canal entre o autor e a recepção de suas obras, com reflexões para teoria literária e outras ciências da linguagem. Couto é um nome notório para discussões nesse sentido por ter contribuído significativamente para recriar a língua portuguesa, incorporando vocabulários e estruturas de Moçambique.
Sua narrativa se aproxima do realismo mágico, um movimento popular nas literaturas de língua latinas, com uma escrita que remete a Guimarães Rosa, mas também a Jorge Amado. É conhecido por um texto poético e profundo, onde cada frase tem muito a dizer. Nada está lá por acaso. Esse modelo marca sua extensa obra literária que inclui romances, crônicas, poesias e contos, com números publicados em mais de 22 países. Seu lançamento mais recente é O terrorista elegante e outras histórias (Editora Tusquets, 176 páginas), escrito junto com o angolano José Eduardo Agualusa. A publicação traz três peças e uma entrevista de Couto para Agualusa.
 
Entrevista – Mia Couto, escritor
 
Como o João Guimarães Rosa lhe influenciou?
Influenciou muito, mais do que qualquer outro autor do mundo. Porque ele me mostrou um caminho, me ajudou a resolver esse divórcio entre as vozes do meu mundo e a escrita. Foi o que ele fez: a sua linguagem poética colocou em diálogo as falas do sertanejo e a escrita urbana e erudita. Moçambique é um país que vive em absoluto na oralidade. Rosa me deu a licença poética que eu necessitava. Todos os contos são pequenas obras-primas. Talvez Sagarana tenha sido o menos surpreendente. Mas eu comecei pelas Primeiras estórias. E esse encontro me marcou definitivamente.
 
Em Grande Sertão, o personagem Diadorim representa as diversas ambiguidades e paradoxos. Ele é personificação do bem e do mal, do feminino e do masculino, da certeza e da dúvida. Concorda que seja uma característica que dialoga com a nossa “modernidade líquida”, em que a noção de verdade está sendo corrompida pelo mundo digital?
A grande literatura alimenta-se sempre dessas ambiguidades, dos mal entendidos e dos espaços cinzentos que ficam entre as grandes certezas. O livro é realmente muito atual. Mas tenho uma certa resistência na classificação dos tempos, como se fossem sucessões de mundos novos. A construção da mentira pelos poderes políticos não é uma novidade. Ela agora tem meios de difusão nunca antes vistos, justamente pelas redes sociais. De alguma forma, a história que aprendemos nas escolas já foi objeto de uma reconstrução, a partir dos interesses dominantes. Felizmente, hoje estamos mais atentos a essa manipulação.
 
Tem acompanhado a literatura contemporânea do Brasil? Como a enxerga?
Muito pouco, confesso. Esses livros não chegam a Moçambique, infelizmente. Do que conheço, quero ressaltar Julian Fuks. Há ali uma escrita densa e sólida, com um enorme domínio de um autor que ainda é bem jovem. Posso falar mais do Moçambique, onde há muita gente surgindo e alguns dos novos nomes são muito promissores. Estou muito feliz, pois houve tempo estagnado. A tendência dominante continua a ser a poesia. Mas também aqui há vozes absolutamente originais, mantendo uma inteligente aliança entre a originalidade e a crítica social.
Historicamente, consegue encontrar similaridades entre a literatura brasileira e a moçambicana (além da língua portuguesa)?
Não creio serem comparáveis. Mas existe uma descoberta de caminhos próprios que nos é comum. E aconteceu sobretudo na fase do modernismo brasileiro e que consiste na busca de um “idioma” que traduzisse a individualidade do Brasil face à língua do outro, que era obviamente Portugal. Essa mesma luta a tivemos em Moçambique. E o Brasil foi uma enorme fonte de inspiração.
O Brasil é a maior comunidade lusófona do mundo. Isso tem provocado alguma “hegemonia cultural” do país, sobretudo em relação à África?
Não creio. O que há a dizer – e talvez a lamentar – é um distanciamento do Brasil em relação à África. Nos últimos 15 anos, houve uma clara melhoria nesse alheamento. Hoje os brasileiros conhecem melhor as Áfricas no plural, pelo menos. Já não idealizam tanto o continente africano. Mas creio que, a nível das políticas externas, o Brasil de hoje tenha voltado a estar de costas viradas para África.
“Estar de costas” em que sentido?
O Brasil é uma nação enorme, uma nação continental e justamente por isso virou as costas até mesmo à América Latina. Ficou alheio à própria geografia da qual faz parte. Não posso fazer nenhum juízo, não sou brasileiro. A aproximação com a África terá que ser fruto de uma clara intenção governamental, pois, em relação aos brasileiros médios, eu acredito que essa vontade de proximidade esteja resolvida.
O contexto político do Brasil tem causado certo estranhamento no cenário internacional. Qual o seu olhar externo, como moçambicano?
É difícil analisar um contexto político do Brasil externamente, porque o que nos chega são notícias estranhas e desgarradas. Fico muito preocupado com a maior parte dessas notícias, confesso. Alguns desses pronunciamentos são difíceis de classificar. Chego a imaginar que esses pronunciamentos são feitos para criar uma espécie de distração, como aconteceu na recente política norte-americana, em que Donald Trump fazia declarações bombásticas (não tanto, confesso, como as que escuto vindas agora das autoridades brasileiras). Enquanto nos entretemos com essa nova forma de poder, consequências severas para as políticas sociais e ambientais são colocadas em marcha.

Dra. Joy DeGruy ea síndrome pós traumática do escravo

Trabalhos Publicados

A Dra. Joy DeGruy é autora do livro intitulado Síndrome do Escravo Pós-Traumático: o legado de lesões e ferimentos duradouros da América , que aborda os impactos residuais do trauma em descendentes africanos nas Américas. Síndrome do Escravo Pós-Traumático estabelece as bases para a compreensão de como o passado influenciou o presente e abre a discussão sobre como podemos eliminar atitudes não-produtivas, crenças e comportamentos adaptativos e construir sobre as forças que ganhamos do passado para curar lesões de hoje.

Síndrome do Escravo Pós-Traumático: “O Guia de Estudo” é projetado para ajudar indivíduos, grupos e organizações a entender melhor as atitudes e comportamentos funcionais e disfuncionais que nos foram transmitidos através de múltiplas gerações. O Guia incentiva e amplia a discussão e as implicações sobre as questões específicas que foram levantadas no livro de PTSS e fornece as ferramentas práticas para ajudar a transformar atitudes e comportamentos negativos em positivos.

O Dr. DeGruy publicou numerosos artigos publicados em periódicos e desenvolveu a “Escala de Respeito aos Adolescentes Afro-Americanos”, um instrumento de avaliação destinado a ampliar nossa compreensão dos desafios enfrentados por esses jovens em um esforço para impedir sua sobre-representação no sistema judiciário.

Randall Robinson, Gil Noble, Al Sharpton e muitos outros elogiaram o livro. Susan Taylor, Diretora Editorial da Essence Magazine, diz que “A Síndrome do Escravo Pós-Traumático é um trabalho mestre… Seu livro é o bálsamo que precisamos para nos curar e nos nossos relacionamentos. É o dom da totalidade ”. Adelaide Sanford, Vice-Chanceler do Conselho de Regentes do Estado de Nova York, afirma que“ Dr. O fascinante e fascinante livro de Joy DeGruy é uma leitura vital para o nosso tempo … Com as poderosas palavras do Dr. DeGruy, podemos e iremos curar. ”

Além de seu trabalho pioneiro na teoria explicativa e livro, Síndrome do Escravo Pós-Traumático, ela desenvolveu um modelo de educação baseada na cultura para trabalhar com crianças e adultos de cor.

Quilombolas protestam contra ação ilegal do INCRA no Quilombo de Mesquita, em Goiás

mesquitaA Exmo. Presidente
Sr. Leonardo Góes da Silva
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

Prezado Sr. Presidente,

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Associação Renovadora de Mesquita, Coordenação Estadual Das Comunidades Quilombolas de Pernambuco, Federação das Comunidades Quilombolas de Sergipe, Federação Quilombola do Estado de Minas Gerais, Conselho Estadual das Associações e Comunidades Quilombolas do Estado da Bahia, Coordenação Estadual dos Quilombos do Espírito Santo, Coordenação Estadual das Comunidades Negras Quilombolas Furnas de Dionísio (Mato Grosso), Coordenação Estadual de Comunidades Quilombolas do Piauí, Coordenação Estadual dos Quilombolas da Bahia, Associação Quilombola de São Pedro e Espírito Santo, Coordenação Estadual dos Quilombos do rio Grande do Norte, Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará, Federação estadual das Comunidades Quilombolas do Paraná, Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro, Associação Quilombola de Monte Alegre e a Terra Direitos, vem através do presente expor e requerer o que segue:
Considerando que a Convenção 169 da OIT reconhece o direito a consulta livre, prévia e informada, sempre que medidas administrativas possam afetar direitos das comunidades quilombolas;
Considerando que a Convenção 169 da OIT, o Art. 68 da ADCT da Constituição Federal e o Decreto Federal 4887/2003, reconhecem o direito à titulação do território necessário à reprodução física, social e cultural das comunidades quilombolas;
Considerando que no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade Nº 3239 o Supremo Tribunal Federal, por ampla maioria, reconheceu a constitucionalidade do Decreto Federal 4887/2003, sem a imposição de qualquer tipo de condicionante;
Considerando que a Instrução Normativa do Incra Nº 57 prevê que a delimitação do território tradicional necessário à reprodução física, social e cultural da comunidade deve estar amparada em estudo científico e antropológico, bem como nas demais peças que compõem o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação;
Considerando que nos autos do processo administrativo Nº 54700.001261/2006-82 concluiu-se que o território da comunidade Quilombo Mesquita, necessária à reprodução física, social e cultural, conta com 4.200 hectares, em benefício de mais de 785 famílias;
Considerando que na data de hoje publicou-se no Diário Oficial da União a Resolução Nº 12 de 17 de maio de 2018 em que o Conselho Diretor do Incra pretendeu reduzir, de forma absolutamente ilegal, o território da comunidade quilombola Mesquita para 971,4285 hectares;
Considerando que a citada tentativa de redução não foi precedida de consulta livre, prévia e informada, como expressamente reconhecido no Art. 3º da Resolução Nº 12 de 17 de maio de 2018;
Considerando que a citada tentativa de redução não está embasada em peça técnica que componha o RTID do Quilombo Mesquita;mesquita1
Considerando que a área de 971, 4285 hectares é flagrantemente insuficiente à reprodução física, cultural e social da comunidade, pois destinará a cada família, que vive do trabalho com a terra, a média de 1.2 hectares;
Considerando as fundadas suspeitas de que a tentativa ilegal de redução do território quilombola Mesquita se deu em função de pressões políticas próprias do contexto racista que conforma a sociedade brasileira há mais de 500 anos prejudicando a comunidade quilombola Mesquita;
Considerando que na data de hoje o Incra está realizando a 14ª Mesa Nacional Quilombola no território quilombola de Kalunga, na comunidade Engenho II, em Cavalcante-GO, momento apropriado para denunciar violações à direitos das comunidades quilombolas;
As organizações que firmam a presente requerem que o INCRA adote as medidas necessárias para imediatamente revogar o quanto decidido na Resolução Nº 12 de 17 de maio de 2018, sob pena da adoção das medidas necessárias para responsabilização cível, administrativa e criminal da Instituição e dos gestores com atribuição legal para processamento e julgamento no processo administrativo Nº 54700.001261/2006-82.
Por fim, informamos que no 130º aniversário da abolição formal e inconclusa da escravidão, os fatos aqui relatados serão informados ao Ministério Público Federal, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, à Organização Internacional do Trabalho, entre outras, para adoção das medidas que julgarem pertinentes.

Brasília, 24 de maio de 2018.

Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq)
Associação Renovadora de Mesquita
Coordenação Estadual Das Comunidades Quilombolas de Pernambuco
Federação das Comunidades Quilombolas de Sergipe
Federação Quilombola do Estado de Minas Gerais
Conselho Estadual das Associações e Comunidades Quilombolas do Estado da Bahia
Coordenação Estadual dos Quilombos do Espírito Santo
Coordenação Estadual das Comunidades Negras Quilombolas Furnas de Dionísio (Mato Grosso)
Coordenação Estadual de Comunidades Quilombolas do Piauí
Coordenação Estadual dos Quilombolas da Bahia, Associação Quilombola de São Pedro e Espírito Santo
Coordenação Estadual dos Quilombos do rio Grande do Norte
Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará

Federação estadual das Comunidades Quilombolas do Paraná
Associação das Comunidades Quilombolas do Estado do Rio de Janeiro
Associação Quilombola de Monte Alegre
Terra Direitos

mesqui

Historiadores dos EUA dizem que Portugal deve desculpas por tráfico de escravos

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Agência Brasil

Os líderes políticos portugueses devem pedir desculpas pelo papel do país no tráfico de escravos e incentivar uma discussão sobre o tema na sociedade portuguesa, defendem especialistas americanos. “O apoio do Estado a estas iniciativas pode galvanizar a investigação e ajudar a informar melhor o público”, disse à agência Lusa o professor da Universidade de Columbia, de Nova York, Christopher Brown.

“O fato de que vários países decidiram que era importante fazê-lo sugere uma nova norma que merece reflexão. Do meu ponto de vista, um reconhecimento do passado contribui para um sentimento coletivo de reconhecimento da desumanidades do passado”, reforçou o também professor americano Walter Hawthorne, da Universidade de Michigan.

Para Christopher Brown , o impacto da ação do Estado nessa área ficou evidente com o Museu de História Afro-Americana, inaugurado em Washington no ano passado e que se tornou o primeiro espaço na capital dos EUA dedicado à história dos afro-americanos, numa iniciativa do presidente George W. Bush, autorizada pelo Congresso.

Brown acredita que quando um líder político fala sobre estes temas “leva a história a uma audiência muito mais ampla do que os acadêmicos conseguiriam e desperta a curiosidade de todos aqueles que nem tinham pensado sobre isso antes. Por isso, sim, a liderança política pode fazer uma grande diferença, sobretudo se acompanhada por um apoio do estado para melhorar o conhecimento e compreensão sobre o tema”, atestou.

Da África ao Brasil

Em abril, o presidente português Marcelo Rebelo de Sousa visitou a ilha de Gorée, no Senegal, de onde partiram milhares de escravos para o Novo Mundo, e disse que o poder político português reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

As declarações foram feitas no mesmo local em que, anos antes, o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura. A decisão de Rebelo de Sousa trouxe para a opinião pública uma discussão que até então estava praticamente reduzido à academia.

Walter Hawthorne, autor de livros como From Africa to Brazil: Culture, Identity, and an Atlantic Slave Trade 1600-1830 [Da África ao Brasil: Cultura, Identidade e o Comércio de Escravos no Atlântico 1600-1830], acredita que “um pedido de desculpas deve focar-se numa ação, com reconhecimento das consequências, e terminar com uma ação corretiva”, como a criação de um museu ou um centro de investigação.

Desculpas elevam

“Um pedido de desculpas ajudaria os 5.8 milhões de africanos tornados escravos e embarcados em navios com a bandeira de Portugal? Ajudaria aqueles que foram mortos em guerras causadas pelo tráfico de escravos? Aqueles que sofreram há centenas de anos? Não, mas seria um passo em frente para melhorar a relação hoje em dia entre pessoas com coresdiferentes”, defendeu.

“Grandes pessoas pedem desculpas e tornam-se melhores pessoas. Grandes países cometeram atrocidades. Grandes países pedem desculpa. Quando os seus líderes tomam essa ação, elevam os seus países”, acrescentou  Hawthorne,que cresceu no sul dos EUA, um território marcado pela escravatura, e diz que conhece “bem as atrocidades que foram cometidas e a ligação que existe entre o trafico de escravos no Atlântico e racismo, desigualdades globais em termos monetários, educação, emprego, saúde e muito mais.”

“Portugal acolhe coleções de arquivos incríveis e bibliotecas que iluminam a história da escravatura. Nas suas universidades, encontram-se alguns dos melhores historiadores da área, pessoas que dedicaram a sua vida a escrever livros e artigos para envolver o público nestas importantes, mas distantes, discussões”, concluiu o historiador.

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2017/07/17/historiadores-dos-eua-dizem-que-portugal-deve-desculpas-por-trafico-de-escravos/

Brasil ganha 21º patrimônio histórico da Unesco: o Cais do Valongo

Após uma longa jornada pelo Atlântico, africanos esquálidos eram mantidos na região portuária em chamadas casas de engorda para se recuperarem. Depois, eram vendidos e levados a trabalhar em plantações de várias regiões, além de serem empregados em

Cais do Valongo, Rio de Janeiro

Porto de chegada de quase um milhão de escravos africanos, o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, foi declarado Patrimônio Mundial da Unesco, a agência cultural da ONU.

Esse é o 21º patrimônio histórico reconhecido pela ONU no país, em uma lista que inclui centros históricos, parques nacionais e áreas preservadas em várias regiões.

O Brasil foi o principal destino de escravos africanos nas Américas, e o Cais do Valongo se tornou o maior porto de entrada deles no país até meados do século 19. Ele ficou por décadas aterrado e sua riqueza começou a ser redescoberta durante o trabalho de revitalização da zona portuária do Rio para as Olimpíadas de 2016.

“É o mais importante vestígio físico da chegada dos escravos africanos ao continente americano”, disse, em nota, a Unesco.

A presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Kátia Bogea, disse que, “o Valongo merece estar junto de lugares como Hiroshima e Auschwitz para nos fazer lembrar das partes da história da humanidade que não podemos esquecer”.

Segundo o Iphan, o desembarque de escravos no Rio foi integralmente concentrado na região da Praia do Valongo a partir de 1774, e ali “se instalou o mercado de escravos que, além das casas de comércio, incluía um cemitério e um lazareto”.

ObjetosDireito de imagemPORTO MARAVILHA/CDURP
Image captionCom as obras do Porto Maravilha, foram encontrados milhares de objetos pessoais mas também pratos e talheres da época

O calçamento de pedra que constitui o Sítio Arqueológico do Cais do Valongo foi parte das obras de infraestrutura realizadas em 1811, “com o incremento do tráfico e o fluxo de outras mercadorias”.

Após a declaração da República no Brasil, em 1889, o cais do Valongo foi aterrado. Com as obras do Porto Maravilha, foram encontrados milhares de objetos pessoais na região, como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava.

Vista da Pedra do Sal
Muitos ex-escravos se estabeleceram na área e formaram o que se conhece como Pequena África

Sepultura coletiva Muitos, no entanto, não sobreviviam. A poucos quarteirões do cais está um cemitério onde, entre 1770 e 1830, milhares de escravos foram enterrados. Restos desse local foram encontrados por acaso em 2011, quando um casal reformava sua casa na área e se deparou com ossos e crânios.

O tráfico de escravos estrangeiros foi banido em 1831, mas continuou ilegalmente até a escravidão ser abolida no país, em 1888.

Cerca de quatro milhões de escravos chegaram ao Brasil entre os séculos 17 ao 19, o que representa quase 40% dos escravos que desembarcaram nas Américas.

A partir de 2012, o Cais do Valongo passou a fazer parte de um circuito histórico de celebração da herança africana no Rio.

Esse não é o único patrimônio da Humanidade brasileiro a figurar na lista da Unesco. Conheça abaixo outras 20 atrações que ganharam o mesmo status:

  1. Cidade de Ouro Preto (MG)
  2. Centro histórico de Olinda (PE)
  3. Ruínas de São Miguel das Missões (RS)
  4. Centro histórico de Salvador (BA)
  5. Santuário de Bom Jesus do Congonhas (MG)
  6. Parque Nacional do Iguaçu (PR)
  7. Brasília (DF)
  8. Parque Nacional da Serra da Capivara (PI)
  9. Centro histórico de São Luís (MA)
  10. Áreas protegidas de Mata Atlântica do Sudeste (PR e SP)
  11. Reservas de Mata Atlântica da Costa do Descobrimento (BA e ES)
  12. Centro histórico de Diamantina (MG)
  13. Complexo de Conservação da Amazônia Central (AM)
  14. Área de conservação do Pantanal (MT)
  15. Ilhas do Atlântico: Reservas de Fernando de Noronha (PE) e Atol das Rocas (RN)
  16. Áreas protegidas do Cerrado: Chapada dos Veadeiros e Parque Nacional das Emas (GO)
  17. Centro histórico da Cidade de Goiás (GO)
  18. Praça de São Francisco na cidade de São Cristóvão (SE)
  19. Cidade do Rio de Janeiro (RJ)
  20. Conjunto moderno da Pampulha (MG)

Valongo, no centro do Rio de Janeiro, recebeu no século XIX cerca de 900 mil escravos

Cais no Rio que recebeu 900 mil escravos é tombado pela Unesco

mediaO cais do Valongo, no centro do Rio de Janeiro, recebeu no século 19 cerca de 900 mil escravos vindos do continente africano.Tomaz Silva/ Agência Brasil

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incluiu neste domingo (9) o sítio arqueológico do cais de Valongo, no Rio de Janeiro, em sua lista de monumentos tombados pelo Patrimônio Histórico Mundial. O cais, no centro do Rio de Janeiro, recebeu no século 19 cerca de 900 mil escravos vindos do continente africano.

O comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, reunido em Cracóvia, evocou na ocasião a memória do afluxo de cerca de 900 mil escravos africanos que desembarcaram no cais de pedra de Valongo, construído em 1811, no centro da capital carioca.

Para a historiadora Katia Bogea, presidente do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Valongo merece figurar entre “outros lugares relevantes de memória, como Hiroshima ou Auschwitz.” “A proteção do patrimônio”, acrescentou Bogea perante a Comissão, “nos obriga a lembrar estas partes da história da humanidade que são proibidos de cair no esquecimento.”

Valongo é a evidência física e a pista histórica mais importantes associadas à chegada de escravos africanos nas Américas. As pedras em que quase um milhão de escravos provenientes da África deram seus primeiros passos no Brasil haviam sido deixadas sob os escombros da metrópole que se desenvolveu.

O cais desapareceu gradualmente no subterrâneo, sob várias camadas de revestimentos, de acordo com as renovações do bairro carioca.

Protegido por uma simples barreira e sem presença policial, o sítio arqueológico continua sendo particularmente vulnerável. Ele foi localizado sob uma espessa camada de cimento em 2011, quando se faziam escavações para reabilitar nas obras da zona portuária, um dos projetos emblemáticos ligados aos Jogos Olímpicos de 2016.

Contrapartida histórica

Esta estação é a contrapartida brasileira da Ilha de Gorée, no Senegal: classificada como Patrimônio Histórico Mundial em 1978, a ilha senegalesa é reconhecida como o ponto de partida simbólico dos escravos africanos em direção ao continente americano.

Os escravos não permaneceram durante muito tempo no Rio. Uma vez vendidos, eles foram rapidamente transportados para as usinas de açúcar do Nordeste, as minas de ouro de Minas Gerais e as plantações de café na região de São Paulo.

Os números exatos são difíceis de determinar com precisão, mas a maioria dos historiadores concorda que o Brasil recebeu em seu litoral mais de quatro milhões de escravos vindos da África, cerca de 40% das vítimas do tráfico que partiu em direção às Américas, um legado que se tornou um fardo para o Brasil, país que foi um dos últimos a abolir a escravidão, em 1888.

http://br.rfi.fr/brasil/20170709-cais-no-rio-que-recebeu-900-mil-escravos-e-tombado-pela-unesco

Presidente português reconhece injustiça da escravatura em visita a Gorée – Senegal

 

visita Gorre

O Presidente português considerou na quinta-feira, no Senegal, que o poder político reconheceu a injustiça da escravatura quando a aboliu em parte do seu território, “pela mão do Marquês de Pombal, em 1761”.

 

Marcelo Rebelo de Sousa deixou esta mensagem no final de uma visita a uma antiga casa de escravos do tempo dos holandeses, na ilha de Gorée, ou Goreia, em frente a Dacar, capital do Senegal, lugar que foi um entreposto do tráfico desde o século XVI, sob domínio português, até ao século XIX, e onde o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura.maison des esclaves.jpg
Marcelo Rebelo de Sousa iniciou na terça-feira uma visita de Estado de dois dias ao Senegal, a primeira de um Presidente português a este país da África Ocidental, antiga colónia francesa, que se tornou independente em 1960.
Ao falar primeiro em francês, o Chefe de Estado português declarou que “quando nós abolimos a escravatura em Portugal, pela mão do Marquês de Pombal, em 1761 – e depois alargámos essa abolição mais tarde, no século XIX, demasiado tarde -, essa decisão do poder político português foi um reconhecimento da dignidade do homem, do respeito por um estatuto correspondente a essa dignidade”.
“Nessa medida, nós reconhecemos também o que havia de injusto e de sacrifício nos direitos humanos, como diríamos hoje em dia, numa situação que foi abolida”, acrescentou o estadista.

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Depois, Marcelo Rebelo de Sousa repetiu a mensagem em português: “Recordei que Portugal aboliu, pela mão do Marquês de Pombal, pela primeira vez, a escravatura, numa parte do seu território em 1761 – embora só alargasse essa abolição definitivamente no século XIX -, e que nesse momento, ao abolir, aderiu a um ideal humanista que estava virado para o futuro”.
Essa decisão reconhecia o que tinha havido de injusto, o que tinha havido de condenável no comportamento anterior, relativamente a séculos em que esses direitos não foram devidamente reconhecidos, reiterou o Presidente.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, o que fica de mais importante desta visita à “Casa dos Escravos” de Gorée é “a lição de esperança num futuro melhor” e a ideia de que “é preciso continuar a lutar pelos direitos humanos, contra as formas de escravatura que existem, contra as opressões, contra as ditaduras, contra os totalitarismos”. “Ainda hoje, infelizmente, é tão necessário”, lamentou o Chefe de Estado de Portugal. No segundo dia em Dacar, o Chefe de Estado português foi também à Casa-Museu Léopold Senghor, primeiro Presidente do Senegal, e participou num debate com professores e alunos de língua portuguesa.

Integração na CPLP

O Presidente português considerou que o Senegal “fala português” e tem “uma porta aberta” para assumir “um papel essencial” na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), da qual já é membro observador. Em declarações aos jornalistas na ilha de Gorée, Marcelo Rebelo de Sousa disse que é impressionante a presença da língua portuguesa neste país, que tem 46 mil jovens a falar português. O Senegal fica próximo de dois países lusófonos. As ilhas de Cabo Verde estão em frente à sua costa, a cerca de 600 quilómetros, e faz fronteira com a Guiné-Bissau a sul, aproximando-se de Portugal também pela sua importância regional e pela língua portuguesa, que ali é estudada por milhares de alunos. Desde 2008, tem estatuto de observador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
A comunidade portuguesa ronda as 200 pessoas, embora apenas cerca de 50 estejam registadas nos serviços consulares. A ilha de Gorée é um património da Humanidade classificado pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) em 1978 e representa um memorial da escravatura. De Gorée, foram embarcados escravos de África para as Américas até ao século XIX e a ilha mantém como memória e símbolo desse passado uma “Casa dos Escravos”, do tempo dos holandeses, ligada ao mar por uma “Porta do Não Retorno”.
Foi nesta ilha, a menos de 20 minutos de barco da capital do Senegal, que o Papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura em 1992, quando afirmou: “A partir deste santuário africano do sofrimento negro, imploramos o perdão do céu.”
Em 2005, dias depois da morte do Papa João Paulo II, o então Presidente do Brasil, Lula da Silva, visitou Gorée e repetiu esse gesto. Embora referindo que não tinha “nenhuma responsabilidade com o que aconteceu” no período da escravatura, declarou “Perdão pelo que fizemos aos negros”.
Os navegadores portugueses foram os primeiros a chegar a esta ilha, em 1444, num feito atribuído a Dinis Dias, e deram-lhe o nome de Ilha da Palma. Depois, no período filipino, foi tomada pelos holandeses e posteriormente pelos franceses, pelos ingleses e novamente pelos franceses.
Além de João Paulo II e de Lula da Silva outras personalidades mundiais visitaram a histórica ilha de Gorée. O então primeiro-ministro francês, Michel Rocard, visitou a região em 1981. Também três Presidentes norte-americanos, Bill Clinton em 1998, George W. Bush em 2008 e Barack Hussein Obama em 2013 visitaram a ilha senegalesa e aí assumiram o “mea culpa” dos respectivos Estados na escravatura. Estima-se que pelo menos 12 milhões de escravos africanos tenham sido capturados e retirados do continente, ao longo do triste período do comércio negreiro.

http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/portugal_reconhece_injustica_da_escravatura

‘É difícil olhar a escravidão, seja você branco ou negro’, diz vencedor do Pulitzer

Colson Whitehead,

por JOHN FREEMAN

Nenhum escritor americano se divertiu mais com coisas sérias do que Colson Whitehead, nos últimos 20 anos.

Se Ishmael Reed e Thomas Pynchon tivessem montado um grupo de teatro do absurdo, poderiam facilmente ter escolhido Colson Whitehead como nome. O grupo teria surgido em 1969, em Manhattan, ganhado força em Harvard e se desenvolvido na Redação do “Village Voice”, jornal no qual Whitehead foi crítico de TV por alguns anos.

Whitehead certa vez disse que gostava do emprego porque permitia que ele trabalhasse só quatro horas por semana. Nas outras 30, ele começou a escrever seu primeiro livro, “A Intuicionista”, uma paródia de história de detetive que é também uma brilhante evocação do conceito de avanço racial, em uma cidade parecida com Nova York, mas algo diferente.

Ao longo de sua carreira, Whitehead vem sendo o carrancudo poeta laureado da cidade onde vive. Contraposto à sua sequência de romances e ao humor absurdo que os ilumina em lampejos, há um segundo veio, no qual ele investiga e inverte os conceitos de raça e justiça racial.

O sexto romance de Whitehead, “The Underground Railroad”, é uma narrativa histórica sobre o que aconteceu e poderia ter acontecido na vida de uma adolescente chamada Cora, que foge de uma plantação na Geórgia. Ela corre de Estado a Estado, da Carolina do Norte até Indiana e além, sempre tentando escapar de Ridgeway, um caçador de recompensas.

O livro, que sai no Brasil no mês que vem pela HarperCollins, com o título “A Ferrovia Subterrânea”, é um best-seller nos EUA, tendo chegado ao primeiro posto na lista de mais vendidos do “New York Times” e recebido críticas altamente elogiosas.

Whitehead ganhou uma das “bolsas para gênios” da Fundação MacArthur e uma série de prêmios, além de ter sido finalista em outros tantos. Com “A Ferrovia Subterrânea”, ele conquistou dois dos maiores prêmios literários dos EUA, o National Book Award, em 2016 e, nesta segunda (10), o Pulitzer.

Esta entrevista foi editada a partir de uma conversa ocorrida no palco do Festival de Escritores de Vancouver, em novembro passado.

Sunny Shokrae/The New York Times
The author Colson Whitehead at his home in New York, July 28, 2016. Whiteheadâ€Ãôs newest book, â€ÃúThe Underground Railroad,â€Ãù follows a 15-year-old slave named Cora as she escapes north via a literal network of underground tracks and trains. Oprah Winfrey made it her latest book club pick on Aug. 2. (Sunny Shokrae/The New York Times) ORG XMIT: XNYT72 ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Colson Whitehead, vencedor do Pulitzer de ficção

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Folha – Você já disse que esse livro passou muito tempo germinando. Quanto? E por que você esperou para escrevê-lo?
Colson Whitehead – Eu estava terminando de escrever “John Henry Days”, no começo de 2000, quando encontrei uma referência à Ferrovia Subterrânea e lembrei de quando tinha ouvido falar sobre ela, na quarta série. Era um termo muito evocativo. Eu a imaginava literalmente como uma ferrovia sob a terra que os escravos podiam usar para fugir, até que na escola me explicaram como era.

Parecia servir como premissa para um romance, mas não havia muita história ali, e por isso acrescentei como complicador o ingrediente de que, cada Estado que o protagonista atravessa –na época o protagonista era homem–, Carolina do Sul, Carolina do Norte, representa uma possibilidade diferente para os EUA, meio que alternativa do que poderia ter existido. A ideia parecia muito boa, mas eu sabia que, se tentasse escrevê-la naquele momento, eu não teria conseguido, porque ainda não estava maduro o bastante.

Sempre tenho essas ideias e penso “isso é realmente bom; se eu fosse um escritor melhor, conseguiria colocar no papel”. E então tento me tornar um escritor melhor para fazer jus à ideia. Sempre que concluía um livro, eu voltava à ideia e tentava decidir se estava pronto. A resposta era sempre não, e por isso eu escrevia outro livro, até cerca de dois anos e meio atrás.

Eu tinha vendido um livro à minha editora, a trama já estava delineada. A ideia parecia boa, mas o conceito da “Ferrovia” me voltava o tempo todo à mente, e ntão comentei com minha mulher. Ela respondeu: “Não quero dizer que sua ideia de um romance sobre um escritor em Brooklyn vivendo uma crise de meia-idade seja idiota, mas esse livro sobre a Ferrovia Subterrânea parece muito bom”.

Você disse uma vez que Lila Mae, de “A Intuicionista”, também começou como homem e que fez do personagem uma mulher porque isso o assustava. Qual foi o motivo para fazer do narrador do novo romance uma mulher?
Acho que sempre me esforço para não me repetir demais. Sempre que escrevo alguma coisa, termino cansado do formato. É um modo de manter o frescor das coisas para mim.

Eu tinha escrito três livros em seguida narrados por homens e, por isso, precisava mudar. Uma das primeiras narrativas de escravos que li na escola foi a de Harriet Jacobs –uma mulher que fugiu de seu dono e supostamente passou sete anos escondida em um sótão, antes de conseguir escapar da Carolina do Norte. Ela diz, no começo daquele livro, que, quando uma menina escrava chega à puberdade, começa o pior período para ela, porque se torna presa sexual do senhor de escravos, dos feitores, de outros escravos, e tem a obrigação de produzir bebês –quanto mais bebês, mais gente para colher algodão, e mais algodão queria dizer mais dinheiro. A menina era obrigada a produzir pessoas que pudessem se tornar máquinas de fazer dinheiro para o senhor de escravos.

Os terrores específicos de ser uma escrava pareciam merecer um estudo em ficção, e voltar àquela primeira inspiração me fez pensar: por que não uma protagonista mulher?

Em “John Henry Days”, “A Intuicionista” e no novo livro, você fala de como a questão racial está indelevelmente conectada à maquinaria do capitalismo. Fico imaginando se contar a história de Cora foi como que criar um antídoto para aquela maquinaria.
Todo mundo está aprisionado na máquina de diferentes maneiras. E há as pessoas que escapam, e essas são as pessoas na Ferrovia Subterrânea, como Cora –que alguém escape representa uma traição da ordem. É claramente assim que Ridgeway encara a situação. Se você permitir que muitas pessoas escapem, a sociedade escravocrata se dissolve.

Os escravos se rebelam de diferentes formas, seja cuspindo na sopa do senhor, seja fugindo. O livro é sobre o grande e heroico gesto de escapar de um sistema, um ato de verdadeira bravura, que solapa as ideias sobre as quais aquela sociedade se ergueu.

Você começou a escrever o livro em 2014, ele saiu em 2016. Você escreveu muito rápido. Como é que o processo acontece? O que acontece depois que você delineia a história?
Preciso saber o começo e o fim, mas o meio pode estar indefinido. Creio que o meu jeito nerd de pensar sobre isso é que encontrar as palavras certas a cada dia já é difícil o bastante; se você não sabe o que vai acontecer, a dificuldade dobra. A cada dia acordo e, por exemplo, descrevo o pai de Ridgeway, a ferraria. São duas páginas, um bom dia de trabalho. Descrevo Ridgeway, e como ele vai para Nova York, mais uma. Às vezes você só consegue produzir uma página, às vezes consegue fazer duas coisas diferentes. Mas me imponho uma tarefa.

Tento produzir oito páginas por semana. Hoje em dia, esse parece ser o ritmo de uma boa semana. Tenho que pegar as crianças na escola, e há dias menos produtivos, de vez em quando. Se tenho uma consulta médica às 13h, penso que nem vale a pena começar a escrever. Meço minha vida com base em quanto tempo vai demorar para que eu acabe a próxima coisa horrível que tenho de fazer. Um romance é uma dessas coisas. Estou oito páginas mais perto de terminar o trabalho. E depois tiro 18 meses de folga, para lecionar, promover meus livros ou seja lá o que for –ficar curtindo minha rabugice.

Certa vez, você disse: “não considero a história muito confiável. Há a história branca e a história negra”. Você ainda sente isso, após este livro?
Com sorte, o livro talvez possa ser um acesso para pessoas diferentes pensarem a história de maneira diferente. Não tenho um público em mente ao escrever. Estou só tentando resolver um problema meu, com esses livros.

Mas quanto a esse tema específico –escravidão e raça nos Estados Unidos–, sim, estamos todos implicados nisso. E creio que a estrutura do livro permita uma conversação diferente sobre a história.

A seção sobre a Carolina do Norte, por exemplo, foi inspirada por Harriet Jacobs. Quando as pessoas pensam sobre alguém que se esconde no sótão para escapar a um regime opressivo, pensam em Anne Frank. Como posso falar sobre a opressão dos negros em 1850, e sobre a supremacia branca em 1850, de modo que isso também fale sobre a supremacia branca nazista?

E agora não estamos falando apenas de escravidão, mas sobre toda forma de demonização do outro em épocas diferentes –como isso não muda. Há personagens brancos malévolos no livro, vilões negros, heróis negros.

Creio que, se a sua família já vivia nos Estados Unidos na época da escravidão, é difícil, como branco, contemplar o fato de que seu ta-ta-tataravô estuprou, torturou e abusou de pessoas para ganhar a vida e transferiu esse conhecimento aos filhos dele: “É assim que se ganha a vida”.

Se você é negro e está confortavelmente instalado na classe média, se representa a terceira geração de sua família a ter curso superior, se você “encontrou o sucesso”, de acordo com o padrão norte-americano para isso, de que forma deve contemplar a imensa brutalidade a que seus ancestrais foram submetidos?

A escravidão é difícil de contemplar, seja você negro ou branco. Acho que se esse livro, por causa da maneira pela qual manipulo a história, permite que as pessoas pensem diferente ou entendam diferente a nossa história compartilhada, então ele é bom.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/04/1874434-e-dificil-olhar-a-escravidao-seja-voce-branco-ou-negro-diz-vencedor-do-pulitzer.shtml

Após 150 anos, ‘Jack Daniel’s’ assume que a receita do uísque era, na verdade, de um escravo

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Depois de 150 anos de existência a marca de uísque Jack Daniel’s resolveu rever uma parte fundamental da sua história: se acreditava que Jack Daniel aprendeu a receita e o processo de destilação com o pastor Dan Call. Na verdade, quem ensinou as técnicas de purificação fundamentais para a elaboração da bebida foi Nearis Green, escravo do pastor
 
Depois de 150 anos de existência, a marca de uísque Jack Daniel’s resolveu rever uma parte fundamental da sua história e assumiu que a criação da receita da bebida foi feita por Nearis Green, um escravo negro que trabalhava para o pastor Dan Call, a quem sempre foi atribuída a fórmula de umas das marcas de bebida alcoólica mais famosa do mundo.
 
Uma reportagem do jornal americanao The New York Times revelou que a partir de agora quem visita a fábrica do destilado em Tennesse, nos Estados Unidos, ouve a história verdadeira. A versão mais antiga, contada até poucas semanas atrás, omitia a participação de Nearis Green. Se acreditava que Jack Daniel aprendeu a receita e o processo de destilação com o pastor Dan Call, em 1866. Na verdade quem ensinou o processo de destilação, mas também as técnicas de purificação fundamentais para a elaboração do uísque foi Green, escravo do pastor.
 
Essa versão não é novidade, mas ela foi confirmada pela empresa somente agora. A presença de escravos em destilarias era algo bem comum no século XVIII. “Eles eram crucias para as destilarias”, disse Steve Bashore, que ajudou a reconstruir os locais onde a bebida era destilada. “Nas escrituras, os escravos eram inclusive descritos como destiladores”, completou.
 
O historiador Michael Twitty vai mais longe e diz que os escravos tinham uma tradição ancestral de fazer bebidas: os escravos americanos tinham sua própria tradição de fazer bebidas alcoólicas. “Existe algo que precisa ser dito, na verdade os africanos e os europeus eram dois povos do Sudeste americano que traziam uma tradição ancestral de fazer bebidas alcoólicas”, diz Twitty.