Angola: Esta é a nossa memória

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Manuel Rui

Andava pelos grandes espaços como agora são chamadas as lojas que têm tudo até pessoal português, procurava, para oferecer, um livro meu de que já só tinha um exemplar e havia desaparecido num ápice após o lançamento, “A Acácia e os Pássaros” que mexe com direitos humanos fazendo apelo ao pensamento de Chomsky no que concerne a manipulações.

Quem sabe se o livro foi mandado queimar por algum demente. O que está mal! Mas não foi tempo perdido. O meu motorista era da Coligação, o meu amigo antigo que faz de mordomo limpa o quintal e me conta estórias foi guerrilheiro da UPA e votou na FNLA, admiro a sua convicção e se tivesse estudado o seu ministério preferido seria o das Finanças. Vamos no carro a ouvir uma estação de rádio que propala que a cidade está pejada de carros com soldados de um lado para o outro e como eu procurava um medicamento que raras vezes encontro, corremos por uma boa parte da cidade e afinal não encontrámos os tais soldados, riamo-nos os três, depois que João Lourenço falava pior que Beto Cangamba, era demais a raiva, não era protesto mas embaraçar as linhas de propósito. O que está mal. Depois a tal grande superfície, a farmácia, o livro nicles e a descoberta: um vídeo. INDEPENDÊNCIA – ESTA É A NOSSA MEMÓRIA. Verifiquei. Era da ASSOCIAÇÃO TCHIWEKA DE DOCUMENTAÇÃO, uma entidade que cresceu jovem e se transformou, em meu entender, na melhor organização social de Angola, que me perdoe a União de Escritores que já foi mas na história foi a primeira com íntima ligação à Dipanda. O que está bem.
Vi o vídeo a limpar lágrima e não vi logo uma segunda vez com medo de agredir o meu coração. O que mais me tangeu, para além da qualidade, foi a isenção que transborda para uma pedagogia necessária a toda a sociedade civil e aos partidos políticos para se reverem na gloriosa luta armada de libertação, contextualizando os erros que se repercutiram até aos nossos dias.
O nascimento do MPLA, da UPA-FNLA e da UNITA. Toda esta obra de arte tem uma espécie de refrão martelado, são páginas do diário de Deolinda, a guerrilheira escritora, páginas faladas em boa dicção que, só por si, engrandecem ainda mais aqueles que entregaram a juventude, alguns a própria vida para que Angola chegasse à independência.
Fica a perceber quem não sabia, que a pior doença foi não termos conseguido unir os três movimentos. Quem sabe, teríamos adiantado a independência uns vinte anos. São muitos os depoimentos de compatriotas que lutaram nas fileiras dos três movimentos. Agostinho Neto tentou a união mas não conseguiu. Era o tempo da guerra fria e tudo passava pelos dois blocos. Pior que a conferência de Berlim quando o ocidente repartiu África a régua e esquadro.
Agora, na guerra fria, os movimentos iam ser marcados e demarcados por razões endógenas e exógenas. Nas endógenas, o MPLA era caracterizado por um grupo de intelectuais de intenção marxista-leninista e multirracial. A UPA-FNLA por um movimento de absorção do ideário Fanoniano que vão marcar os primeiros ataques no norte de Angola que puseram Portugal em pânico e de ligação estreita ao Zaíre de Mobutu. A UNITA com figurino baseado na língua regional mais falada, o umbundo e, mais tarde, com um formato de guerrilha inspirado na longa marcha de Mao, na China. Quer a FNLA quer a UNITA tinham apoio do Ocidente mais por lutarem contra o “comunismo” do que contra Portugal.
Os três movimentos podiam não ter coabitado. Mas o maior erro foi tornarem-se inimigos. A FNLA marca-se por assassinatos como o das heroínas e a UNITA por outros tantos. Mais tarde, isto já não é do vídeo, a UNITA ultrapassava a aliança da FNLA com o ditador Mobutu para se encostar ao mais hediondo regime que a história do século passado conheceu, o apartheid.
Se a FNLA e a UNITA tivessem cumprido os acordos e ficassem em Luanda para as eleições (já tínhamos discutido a Constituição) o país teria sido outro. Mas mandaram-nos sair como Portugal também saiu. Porque sabiam que perdiam as eleições a favor do MPLA. E o MPLA ficando a governar só ganhou a força que os outros perderam… outro dia uma escritora angolana falava para a TPA-ÁFRICA e dizia da felicidade de ver a bandeira portuguesa descer e a nossa subir. O que está mal. Erro de palmatória. Aqui não desceu nenhuma bandeira, só subiu uma. A primeira, feita à pressa por costureiras está comigo. E esta!
Desfuturizando, os Movimentos de Libertação nunca se deviam ter transformado em partidos… para não continuarem como dantes. Os partidos deveriam ter sido constituídos aqui, depois do 25 de Abril português. Mas voltando ao vídeo, contém depoimentos de grande empatia, apoiados em bom trabalho de imagem, som e fotografia, fugindo à colagem de postais e introduzindo o sujeito espectador no imaginário de um sonho que se tornou realidade. O que está bem. Acaba com a proclamação da independência e tem entrevistas dadas no estrangeiro (naquele tempo) por Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade ou Holden Roberto que nos fazem voltar a um passado e a uma herança. Comprem… mesmo que continuem a ver a princesa Ginga numa coboiada… e como diz um cantor residente na Melói, penso, a princesa “boa como o milho”.
Este vídeo é do melhor que já se produziu em cinema aqui em Angola. Parabéns ao produtor Paulo Lara e toda a equipa jovem mais a valiosa prestação da historiadora São Neto. Era bom que agora fizessem um filme sobre depois da independência… que material não falta.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/esta_e_a_nossa_memoria

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Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora nigeriana

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”chimamanda-novo-livro

Com novo lançamento no Brasil, escritora nigeriana comenta sobre ser uma das principais vozes a falar sobre mulheres negras fortes na literatura mundial.

Considerada uma das principais vozes da literatura contemporânea, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, 39 anos, autora do best-seller Americanah (2013),teve seu sexto livro lançado no Brasil no final de julho pela editora Companhia das Letras. Publicado originalmente em 2009, No Seu Pescoço era a única publicação de Chimamanda que faltava  chegar ao Brasil.

O livro reúne 12 contos que têm, em comum, mulheres e homens nigerianos como protagonistas. Nessas narrativas, assim como em todo o seu trabalho, Chimamanda denuncia e questiona o racismo, o machismo e outras opressões que seguem fortes tanto na Nigéria quanto em toda a nossa sociedade.

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CLAUDIA aproveitou a ocasião do lançamento para conversar com Chimamanda.

CLAUDIA: No Seu Pescoço está sendo publicado no Brasil quase dez anos após ter sido escrito. Como você se sente ao ver esses contos ganhando relevância outra vez, agora com um novo público?

Chimamanda Ngozi Adichie: É sempre encantador ver seu trabalho ganhando atenção. Ficção é, em conjunto, uma trabalho de artesanato e emoção. Logo, existe alguma coisa no fato de continuar sendo lida que traz um certo tipo de validação.

CLAUDIA: O best-seller Americanah (2013), muito apreciado no Brasil, foi escrito após No Seu Pescoço (2009). A personagem principal do conto que dá título ao livro, assim como Ifemelu protagonista do romance, deixa a Nigéria para viver nos EUA. Existe mais alguma semelhança entre elas? 

Chimamanda: Elas provavelmente têm preocupações parecidas, mas eu não penso no meu trabalho de forma temática. Eu sigo a história que me chamar. No Seu Pescoço é uma coleção de histórias que foram escritas em momentos diferentes e realmente não são semelhantes entre si.

CLAUDIA: A maioria de seus personagens são mulheres negras fortes. Infelizmente – mesmo que esse cenário esteja mudando –, mulheres fortes e, principalmente, mulheres negras fortes continuam sendo minoria nas principais narrativas literárias ao redor do mundo. Você se sente pressionado por ser uma das poucas escritores em destaque a escrever sobre essas mulheres?

Chimamanda: Não. Mulheres negras fortes são normais para mim. Escrever sobre mulheres negras fortes também. Eu cresci rodeada por essas mulheres, o mundo é repleto de mulheres negras fortes. E como elas são normais para mim, eu não sinto nenhuma pressão ou responsabilidade. Eu simplesmente escrevo a verdade sobre o que eu conheço.

CLAUDIA: Para você, qual a importância de narrativas como essas estarem ganhando destaque? Além disso, você enxerga a literatura como um reflexo de uma sociedade em mudança ou como um agente transformador da sociedade? 

Chimamanda: Acredito que literatura pode ser os dois. Algumas vezes, escrevendo sobre o mundo como ele é, nos podemos criar narrativas que se transformam em catalisadores para mudança. Eu realmente acredito que seja importante se ouvir histórias sobre lugares e pessoas que são marginalizados. É importante porque, se temos histórias diversas, nos tornamos melhores para compreender o mundo e nosso próprio lugar nele.

CLAUDIA: Após quatro livros de ficção, seus dois lançamentos mais recentes foram manifestos feministas. Qual a importância de publicações didáticas como Sejamos Todos Feministas (2014) e Para Educar Crianças Feministas – Um Manifesto (2017) para a luta das mulheres em nossa sociedade? Quem você acha que eles atingem mais?

Chimamanda: Eu espero que eles atinjam tanto homens quanto mulheres. Não acredito estar dizendo às mulheres o que elas não sabem ainda. Elas sabem porque elas vivem isso. Mas eu acredito que os livros dão palavras ao que as mulheres experienciammotivo de elas se conectarem a eles. Eu ouvi de alguns leitores homens que eles começaram a pensar diferente sobre gênero após lerem as obras.

CLAUDIA: Você pretende seguir esse caminho ou tem alguma ficção a caminho?

Chimamanda: Fico feliz em escrever sobre coisas com as quais eu me importo e me interesso muito por política e história. Mas a única coisa que realmente me dá felicidade é a ficção. Ficção é minha vocação. Ficção é meu único e verdadeiro chamado.

Chimamanda: “Simplesmente escrevo a verdade sobre o que conheço”

Paulina Chiziane, escritora moçambicana, condecorada pelo Brasil

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por ELCÍDIO BILA

Escritora moçambicana condecorada hoje com Ordem do Cruzeiro do Sul

O habitual cruzamento de artes e cultura moçambicana e brasileira cedeu às obras por cinco meses no Centro Cultural Brasil-Moçambique. Hoje, o espaço dedicado à promoção das manifestações culturais dos dois países, há vinte e oito anos, reabriu.34476379732_f529d28612_b ladeada pelos minsitros.jpg

A parte de fora está renovada, novas cores fazem um mosaico que nos transporta para onde o espaço sugere: Brasil. Mais as profundas obras aconteceram no seu interior. Uma das grandes novidades é a criação de um auditório que não podia ser baptizado por outro nome, senão de um dos maiores poetas brasileiros e da CPLP, Vinícios de Morais.34597485646_fc3432945c_b homenagem do aloysio

Coube ao Ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, proceder a reabertura do centro e a inauguração do auditório, o espaço que acolheu a primeira parte do evento.

Além do ministro brasileiro, o evento teve presenças ilustres de figuras do campo político, académico e cultura, destacando o Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Oldemiro Baloi; o embaixador do Brasil, Rodrigo Baena Soares, reitor da Universidade Politécnica, Jorge Ferrão; entre outros.

Um dos momentos mais altos do evento foi a condecoração da escritora moçambicana Paulina Chiziane com o diploma de Ordem do Cruzeiro do Sul por parte do governo brasileiro.

Trata-se de uma ordem constituída logo após a independência do Brasil e que invoca uma estrela vista lá do Brasil. “Com esta constelação a senhora (referindo-se a Paulina Chiziane) é uma estrela brilhante que cultiva a língua portuguesa, que no seu trabalho procura dar voz as pessoas mais humildes, mais frágeis. Além disso, é uma militante das causas da paz”, justificou a distinção o ministro brasileiro.

Paulina Chiziane, visivelmente emocionada, disse, na ocasião, que em momentos como esses é frequente perguntarmo-nos quem somos, donde viemos e para onde vamos. Assim começava um discurso longo e carregado de muita convicção: “muitas vezes, eu tenho o hábito de dizer vim do chão, vim de lugar nenhum, caminhei pelo mundo e cheguei. Mas não caminhei sozinha. Há muita gente que comigo caminhou ao longo dos dias da minha escrita”. A posterior Chiziane agradeceu o governo brasileiro que lhe colou num pedestal mesmo vindo de lugar nem e mesmo sendo negra. Nesses agradecimentos a escritora não esqueceu ao povo moçambicano, justificando que lhe deu muita força para subir a algum lugar.

Sobre a reabertura do centro, os discursos foram unânimes de que é um sítio renovado para as artes dos dois países possam ter um espaço mais cómodo e mais aberto.

O segundo momento do evento foi marcado por aquilo que está destinado este centro: as artes. A protagonista desse momento foi Mingas. Na sua actuação, a artista acompanhada pelo guitarrista cruzou os dois países através da música. A artista interpretou poemas de Vinícios de Morais e as suas marrabentas fizeram a festa pela noite dentro.

http://opais.sapo.mz/index.php/cultura/82-cultura/44733-brasil-rende-se-a-escrita-de-paulina-chiziane.html

‘É difícil olhar a escravidão, seja você branco ou negro’, diz vencedor do Pulitzer

Colson Whitehead,

por JOHN FREEMAN

Nenhum escritor americano se divertiu mais com coisas sérias do que Colson Whitehead, nos últimos 20 anos.

Se Ishmael Reed e Thomas Pynchon tivessem montado um grupo de teatro do absurdo, poderiam facilmente ter escolhido Colson Whitehead como nome. O grupo teria surgido em 1969, em Manhattan, ganhado força em Harvard e se desenvolvido na Redação do “Village Voice”, jornal no qual Whitehead foi crítico de TV por alguns anos.

Whitehead certa vez disse que gostava do emprego porque permitia que ele trabalhasse só quatro horas por semana. Nas outras 30, ele começou a escrever seu primeiro livro, “A Intuicionista”, uma paródia de história de detetive que é também uma brilhante evocação do conceito de avanço racial, em uma cidade parecida com Nova York, mas algo diferente.

Ao longo de sua carreira, Whitehead vem sendo o carrancudo poeta laureado da cidade onde vive. Contraposto à sua sequência de romances e ao humor absurdo que os ilumina em lampejos, há um segundo veio, no qual ele investiga e inverte os conceitos de raça e justiça racial.

O sexto romance de Whitehead, “The Underground Railroad”, é uma narrativa histórica sobre o que aconteceu e poderia ter acontecido na vida de uma adolescente chamada Cora, que foge de uma plantação na Geórgia. Ela corre de Estado a Estado, da Carolina do Norte até Indiana e além, sempre tentando escapar de Ridgeway, um caçador de recompensas.

O livro, que sai no Brasil no mês que vem pela HarperCollins, com o título “A Ferrovia Subterrânea”, é um best-seller nos EUA, tendo chegado ao primeiro posto na lista de mais vendidos do “New York Times” e recebido críticas altamente elogiosas.

Whitehead ganhou uma das “bolsas para gênios” da Fundação MacArthur e uma série de prêmios, além de ter sido finalista em outros tantos. Com “A Ferrovia Subterrânea”, ele conquistou dois dos maiores prêmios literários dos EUA, o National Book Award, em 2016 e, nesta segunda (10), o Pulitzer.

Esta entrevista foi editada a partir de uma conversa ocorrida no palco do Festival de Escritores de Vancouver, em novembro passado.

Sunny Shokrae/The New York Times
The author Colson Whitehead at his home in New York, July 28, 2016. Whiteheadâ€Ãôs newest book, â€ÃúThe Underground Railroad,â€Ãù follows a 15-year-old slave named Cora as she escapes north via a literal network of underground tracks and trains. Oprah Winfrey made it her latest book club pick on Aug. 2. (Sunny Shokrae/The New York Times) ORG XMIT: XNYT72 ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
Colson Whitehead, vencedor do Pulitzer de ficção

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Folha – Você já disse que esse livro passou muito tempo germinando. Quanto? E por que você esperou para escrevê-lo?
Colson Whitehead – Eu estava terminando de escrever “John Henry Days”, no começo de 2000, quando encontrei uma referência à Ferrovia Subterrânea e lembrei de quando tinha ouvido falar sobre ela, na quarta série. Era um termo muito evocativo. Eu a imaginava literalmente como uma ferrovia sob a terra que os escravos podiam usar para fugir, até que na escola me explicaram como era.

Parecia servir como premissa para um romance, mas não havia muita história ali, e por isso acrescentei como complicador o ingrediente de que, cada Estado que o protagonista atravessa –na época o protagonista era homem–, Carolina do Sul, Carolina do Norte, representa uma possibilidade diferente para os EUA, meio que alternativa do que poderia ter existido. A ideia parecia muito boa, mas eu sabia que, se tentasse escrevê-la naquele momento, eu não teria conseguido, porque ainda não estava maduro o bastante.

Sempre tenho essas ideias e penso “isso é realmente bom; se eu fosse um escritor melhor, conseguiria colocar no papel”. E então tento me tornar um escritor melhor para fazer jus à ideia. Sempre que concluía um livro, eu voltava à ideia e tentava decidir se estava pronto. A resposta era sempre não, e por isso eu escrevia outro livro, até cerca de dois anos e meio atrás.

Eu tinha vendido um livro à minha editora, a trama já estava delineada. A ideia parecia boa, mas o conceito da “Ferrovia” me voltava o tempo todo à mente, e ntão comentei com minha mulher. Ela respondeu: “Não quero dizer que sua ideia de um romance sobre um escritor em Brooklyn vivendo uma crise de meia-idade seja idiota, mas esse livro sobre a Ferrovia Subterrânea parece muito bom”.

Você disse uma vez que Lila Mae, de “A Intuicionista”, também começou como homem e que fez do personagem uma mulher porque isso o assustava. Qual foi o motivo para fazer do narrador do novo romance uma mulher?
Acho que sempre me esforço para não me repetir demais. Sempre que escrevo alguma coisa, termino cansado do formato. É um modo de manter o frescor das coisas para mim.

Eu tinha escrito três livros em seguida narrados por homens e, por isso, precisava mudar. Uma das primeiras narrativas de escravos que li na escola foi a de Harriet Jacobs –uma mulher que fugiu de seu dono e supostamente passou sete anos escondida em um sótão, antes de conseguir escapar da Carolina do Norte. Ela diz, no começo daquele livro, que, quando uma menina escrava chega à puberdade, começa o pior período para ela, porque se torna presa sexual do senhor de escravos, dos feitores, de outros escravos, e tem a obrigação de produzir bebês –quanto mais bebês, mais gente para colher algodão, e mais algodão queria dizer mais dinheiro. A menina era obrigada a produzir pessoas que pudessem se tornar máquinas de fazer dinheiro para o senhor de escravos.

Os terrores específicos de ser uma escrava pareciam merecer um estudo em ficção, e voltar àquela primeira inspiração me fez pensar: por que não uma protagonista mulher?

Em “John Henry Days”, “A Intuicionista” e no novo livro, você fala de como a questão racial está indelevelmente conectada à maquinaria do capitalismo. Fico imaginando se contar a história de Cora foi como que criar um antídoto para aquela maquinaria.
Todo mundo está aprisionado na máquina de diferentes maneiras. E há as pessoas que escapam, e essas são as pessoas na Ferrovia Subterrânea, como Cora –que alguém escape representa uma traição da ordem. É claramente assim que Ridgeway encara a situação. Se você permitir que muitas pessoas escapem, a sociedade escravocrata se dissolve.

Os escravos se rebelam de diferentes formas, seja cuspindo na sopa do senhor, seja fugindo. O livro é sobre o grande e heroico gesto de escapar de um sistema, um ato de verdadeira bravura, que solapa as ideias sobre as quais aquela sociedade se ergueu.

Você começou a escrever o livro em 2014, ele saiu em 2016. Você escreveu muito rápido. Como é que o processo acontece? O que acontece depois que você delineia a história?
Preciso saber o começo e o fim, mas o meio pode estar indefinido. Creio que o meu jeito nerd de pensar sobre isso é que encontrar as palavras certas a cada dia já é difícil o bastante; se você não sabe o que vai acontecer, a dificuldade dobra. A cada dia acordo e, por exemplo, descrevo o pai de Ridgeway, a ferraria. São duas páginas, um bom dia de trabalho. Descrevo Ridgeway, e como ele vai para Nova York, mais uma. Às vezes você só consegue produzir uma página, às vezes consegue fazer duas coisas diferentes. Mas me imponho uma tarefa.

Tento produzir oito páginas por semana. Hoje em dia, esse parece ser o ritmo de uma boa semana. Tenho que pegar as crianças na escola, e há dias menos produtivos, de vez em quando. Se tenho uma consulta médica às 13h, penso que nem vale a pena começar a escrever. Meço minha vida com base em quanto tempo vai demorar para que eu acabe a próxima coisa horrível que tenho de fazer. Um romance é uma dessas coisas. Estou oito páginas mais perto de terminar o trabalho. E depois tiro 18 meses de folga, para lecionar, promover meus livros ou seja lá o que for –ficar curtindo minha rabugice.

Certa vez, você disse: “não considero a história muito confiável. Há a história branca e a história negra”. Você ainda sente isso, após este livro?
Com sorte, o livro talvez possa ser um acesso para pessoas diferentes pensarem a história de maneira diferente. Não tenho um público em mente ao escrever. Estou só tentando resolver um problema meu, com esses livros.

Mas quanto a esse tema específico –escravidão e raça nos Estados Unidos–, sim, estamos todos implicados nisso. E creio que a estrutura do livro permita uma conversação diferente sobre a história.

A seção sobre a Carolina do Norte, por exemplo, foi inspirada por Harriet Jacobs. Quando as pessoas pensam sobre alguém que se esconde no sótão para escapar a um regime opressivo, pensam em Anne Frank. Como posso falar sobre a opressão dos negros em 1850, e sobre a supremacia branca em 1850, de modo que isso também fale sobre a supremacia branca nazista?

E agora não estamos falando apenas de escravidão, mas sobre toda forma de demonização do outro em épocas diferentes –como isso não muda. Há personagens brancos malévolos no livro, vilões negros, heróis negros.

Creio que, se a sua família já vivia nos Estados Unidos na época da escravidão, é difícil, como branco, contemplar o fato de que seu ta-ta-tataravô estuprou, torturou e abusou de pessoas para ganhar a vida e transferiu esse conhecimento aos filhos dele: “É assim que se ganha a vida”.

Se você é negro e está confortavelmente instalado na classe média, se representa a terceira geração de sua família a ter curso superior, se você “encontrou o sucesso”, de acordo com o padrão norte-americano para isso, de que forma deve contemplar a imensa brutalidade a que seus ancestrais foram submetidos?

A escravidão é difícil de contemplar, seja você negro ou branco. Acho que se esse livro, por causa da maneira pela qual manipulo a história, permite que as pessoas pensem diferente ou entendam diferente a nossa história compartilhada, então ele é bom.

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/04/1874434-e-dificil-olhar-a-escravidao-seja-voce-branco-ou-negro-diz-vencedor-do-pulitzer.shtml

Dalcídio Jurandir(1909-1979)Carta a uma Católica Militante

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Você me declara: o teu partido é contra a minha fé. Estamos em campos opostos. Então lhe pergunto: concorda que para combater a dominação norte-americana, expulsar os exploradores e monopolizadores de energia elétrica no país significa perde a fé religiosa? Constitui traição ao seu Deus considerar que os milhões e Milhões de irmãos nossos, lavradores, meeiros, assalariados agrícolas vivem numa miséria atroz, nem podem ao menos comprar alguns metros de milhões e milhões de metros de fazenda que se acumulam nas lojas e fábricas de tecidos, à espera de fregueses? O programa do partido é pela liberdade de cultos, isto fere a crença católica? A <<abolição de todas as desigualdades econômicas, sociais e jurídicas que ainda pesam sobre as mulheres>> ofende ao sentimento religioso? A <<anulação de todas as dívidas dos camponeses para com os latifundiários, os usuários, os Bancos, o governo e as companhias norte-americanas>> atenta contra a fidelidade aos altares? Expulsar as missões militares e finaceiras, que roubam as nossas matérias-primas e querem transformar a nossa juventude em bando mercenário de guerra, e violar os sacrários? Ver que a causa da política de traição nacional está <<no próprio regime de latifundiários e grandes capitalistas ligados ao imperialismo americano que o governo de Vrgas representa>>, pode impedi-la de rezar, de frequentar a igreja, vai abalar os fundamentos de sa convicção religiosa? Em que consiste, pois, a incompatibilidade atuante, prática, irremediável, entre o programa do Partido e sua fé religiosa? A divergência no campo filosófico não exclui a nossa aproximação no campo político, quando temos comuns acêrca de problemas aflitivos de nosso país e não defendemos interesses pessoais. Você não tem latifúndios, não faz parte de grupos econômicos norte-americanos, não participa
dos roubos e escândalos do governo. Em que verdade concreta, em que argumento definitivo se apoia você para combater o programa?
Porque é um programa de comunista? Mas o programa ataca a atividade religiosa, coloca a questão religiosa como centro do debate, por acaso insinua que os católicos são inimigos do Brasil? Não foi você mesma que viu na infiltração norte-americana? É obrigatório aderir o marxismo-leninimos para apoiar o programa? Deve abdicar à sua fé para considerar justas as <<transformações democráticas e progressitas na estrutura econômica e social do Brasil>> indicadas pelo estudo objetivo da realidade brasileira? Em que é que o programa vai impedir de você ir a missa, de assitir, piedosamente, aos doentes e presos, de ensinar a doutrina na Pia União, de proclamar como excelente a sua prática religiosa? O programa não lhe tira essa liberdade nem a obriga ao não cumpromento dessa devoção. Podemos, decerto, conversar sem colera nem azedume, sobre problemas gerais da filosofia, eu, com a minha concepção materialista e você, com a sua concepção idealista. Podemos discutir interminavelmente. Nunca poderíamos chegar a um acordo neste terreno transcedente ou teórico. Mas de que servirá ficarmos longa exaustivamente discutindo se Deus existe ou não existe, se o socialismo e a caridade cristã são duas coisas irreconciliáveis, se devor ser religioso ou se deve ser materialista, quando devemos empregar o nosso esforço, o nosso tempo, sem sacrificio de nossas convicções, no estudo urgente e na soluções de problemas elementares da vida brasileira? Eu, com o meu distintivo da foice e o martelo e você, com a sua cruz, podemos juntos lutar amplamente pela independência de nossa pátria. Quando passamos ao campo prático da luta política, quando examinamos mil e um problemas que formam o conjunto da grande e sagrada questão nacional para sabermos se há ou não possibildades de progresso para o Brasil, vemos que a nossas divergências se apagam. No campo ideológico, podemos discutir, você, por seu caráter, sua formação, tudo fará para defender a sua fé, eu, tudo farei para defender as minhas idéias, com o calor e intransigência de minha convicção.Isto em princípio é bom para que nos conheçamos, tornando nítido aquilo que nos pode separar e mais nítido e profando aquilo que nos pode unir. Você, católica essencialmente honesta, e eu, comunista, chegamos à mesma conclusão de que de que o regime atual brasileiro deve mudar, que os grupos dominantes  um bando de traidores e desavergonhados e que o Deus deles não pode ser o Deus a que você consagra a sua fé e a sua vida de militante. O que mais necessitamos é desfazer as desconfianças, é tirar os véus que nos separam, é ter a coragem do exame de tudo que aparece diante de nós. Não receie em ter nas mãos um documento honesto, claro, patriótico, fiel à realidade brasileira, que é o Programa do Partido Comunista. Amanhã, por certo, quando os acontecimentos se mostrarem mais claros e decisivos, você terá que dizer, inevitàvelmente, a você mesma e a todos, com segurança e paz de consciência: – Sim, os comunistas tinham razão.

Dalcídio Jurandir: Banzo de Negro

(Lamento Negro ou Cantiga dos Negros Cativos)- 1937
Letra: Dalcidio Jurandir
Música: Gentil Puget

Negro é Oxum
Vem vindo lá do mar,
Vem vindo em porão
Em cima do mar,
Ah! Em cimado mae!
No mar, ê ô
No mar, ê ô ê ô ê ô…
Vem o veleiro da Costa
Negro bantu vem de longe
Veio em cima do mar
Veio em cima do mar
No mar, ê ô
Ah! No mar ê ô
Iemanjá nossa mãe tá no fundo mar
Nossa mãe tá no fundo do mar
No mar, no mar ê ô
No mar ê ô
Chora o banzo, Sinhô
Nas ondas do mar
Pai de Santo, Pai de Santo ô
Iemanjá oh! Iemanjá.
Eh! Negro Orixá
Lá na Costa chegou,
Vem falando Nagô
Negro Orixá,
Ah! Negro Orixá
No mar, ê ô
No mar ê ô ê ô ê ô…
Nosso choro foi o banzo
Nossa casa foi senzala
Nossa esperança Zumbi
Só nos resta o Orixá.

“Todo meu romance distribuído, provavelmente, em dez volumes, é feito, da maior parte, da gente mais comum, tão ninguém, que é a minha criaturada grande de Marajó, Ilhas e Baixo Amazonas.Fui menino de beira de rio, do meio do campo, banhista de igarapé. Passei a juventude no subúrbio de Belém, entre amigos, nunca intelectuais, nos salões da melhor linhagem que são os clubinhos de gente da estiva e das oficinas, das doces e brabinhas namoradas que trabalhavam na fábrica.  Um bom intelectual de cátedra alta diria:  são as minhas essências, as minhas virtualidades.  Eu digo tão simplesmente:  é a farinha d’agua dos meus bijus (sic).  Sou um também daqueles de lá,  sempre fiz questão de não arredar pé de minha origem e para isso, ou melhor, para enterrar o pé mais fundo, pude encontrar uma filiação ideológica que me dá razão.  A esse pessoal miúdo que tento representar nos meus romances chamo de aristocracia de pé no chão”.

Dalcídio Jurandir

(Folha do Norte, 23 de outubro de 1960)

Dalcídio Jurandir Ramos Pereira nasceu em Ponta de Pedras, ilha do Marajo, Pará, 10 de janeiro de 1909, faleceu em 16 de junho de 1979, na cidade do Rio de Janeiro onde viveu maior parte de sua vida. Filho de Alfredo Pereira e Margarida Ramos.

 

É considerado um dos maiores escritores da Amazonia.

 

Dalcídio estudou em Belém, até 1927.

 

Em 1928 partiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor, na revista Fon-Fon. Em 1931 retornou para Belém. Foi nomeado auxiliar de gabinete da Interventoria do Estado.

 

Escreveu para vários jornais e revistas:  O Radical,  Diretrizes, Diário de Notícias, Correio da Manhã,  Tribuna Popular, O Jornal ,  O Cruzeiro e A Classe Operária. No semanário Para Todos, trabalha como redator, sob a direção de Jorge Amado.

 

Militante comunista, foi preso em 1936, permanecendo dois meses no cárcere, conseguindo a custo, levar consigo o Dom Quixote, de Cervantes. Em 1937 foi preso novamente, e ficou quatro meses retido, retornando somente em 1939 para o Marajó, como inspetor escolar.Em 1940, vai a Santarém, Baixo Amazonas, para exercer as funções de secertário da Delegacia de Recenseamento.

 

Obtém o primeiro lugar com o livro Chove nos Campos de Cachoeira no concurso literário instituido pelo jornal Dom Casmurro e pela Editora Vecchi, concorrendo com quase uma centena de escritores.   Faziam parte da comissão julgadora: Jorge Amado,  Álvaro Moreyra, Oswaldo de Andrade e Raquel de Queiroz.

 

Em 1950, foi repórter da Imprensa Popular.   Nos anos seguintes viajou à União Soviética, Chile.  Publicou o restante de sua obra, inclusive em outros idiomas.

 

Em 1972, a Academia Brasileira de Letras concede ao autor o Prêmio Machado de Assis,  pelo conjunto de sua obra.
Em 2001, concorreu com outras personalidades ao título de “Paraense do Século”. No mesmo ano, em novembro, foi realizado o Colóquio Dalcídio Jurandir, homenagem aos 60 anos da primeira publicação de Chove nos Campos de Cachoeira.
Em 2008, o Governo do Estado do Pará instituiu o Prêmio de Literatura Dalcídio Jurandir.
Em 2009 comemorar-se-á o Centenário do escritor e estão sendo realizadas campanhas para que até lá todos os seus livros sejam novamente publicados.

OBRAS

Série Extremo-Norte
• Chove nos Campos de Cachoeira  – 1941
• Marajó  –  1947
• Três Casas e um Rio –  1958
• Belém do Grão Pará  –  1960
• Passagem dos Inocentes  –  1963
• Primeira Manhã   –  1963
• Ponte do Galo  –  1971
• Os Habitantes  –  1976
• Chão dos Lobos  –  1976
• Ribanceira  –  1978

Primeira romancista de Moçambique diz não ter liberdade para escrever como um homem: ‘Somos prisioneiras’

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Nos olhos azuis de Paulina Chiziane, é difícil enxergar às vezes a linha que separa a pupila e a íris. A falta de divisas se estende à forma como Paulina vê o mundo.
 
 
Primeira mulher de Moçambique a publicar um romance e uma das mais importantes escritoras africanas, ela nega ser romancista, feminista ou religiosa.
 
 
Foge das definições, em busca do que chama de liberdade absoluta, aquela que relata nas pequenas comunidades africanas onde não há estradas nem vigias, aquela que diz ser desconhecida de todas as mulheres. De suas personagens, majoritariamente femininas, e dela própria, que diz censurar seus escritos.
 
Se Vinicius de Moraes (1913-1980), um de seus poetas preferidos, pôde descrever o corpo nu de uma jovem, ela encontra dificuldades de fazer o mesmo com um homem.
 
“Temos o nosso poeta, que já morreu, Eduardo White (1963-2014). Ele tem um volume só sobre sexo. Jesus! Certa vez, eu disse ‘Eduardo, qualquer dia vou escrever o mesmo que tu escreves, vou inverter’. Ele respondeu ‘Olha, as mulheres jamais irão escrever. Vocês são prisioneiras’. Ele tem razão. Ele é um homem livre, mas nós somos prisioneiras.”
 
Apesar da constatação, a escritora diz que jamais deixará de trabalhar pelos direitos das mulheres, bandeira que abraçou depois de deixar a luta política na Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Elas são o tema central da maioria dos seus livros, nos quais fala das vivências tradicionais do seu povo e usa palavras em chope, a língua local.
 
 
Com um deles, Niketche , que conta a história de uma moçambicana que conhece as amantes do marido e decide pela relação poligâmica, venceu o prêmio José Craveirinha, ao lado de Mia Couto.
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Paulina, que também foi candidata ao Nobel da Paz por sua literatura militante, esteve no país para um evento do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e falou com a BBC Brasil.
 
BBC Brasil – Você sempre fala da literatura como instrumento para transformação da realidade. Como ela se difere de um partido político ou de um grupo como o Frelimo?
 
Paulina Chiziane – Falo da experiência de Moçambique. A consciência da opressão e da necessidade de luta foi feita através da poesia. José Craveirinha (considerado o maior poeta do país) foi um mestre. Pequenas linhas, declamações, e aquilo passava de boca em boca, então, todo mundo acordava.
 
O despertar para a consciência nacional e para a luta pela libertação nacional foi feito pela poesia. Mesmo a luta das mulheres. Há poemas que foram feitos para despertar a mulher para a luta. Esse é um tipo de literatura.
 
Mas existe a outra literatura, que oprime a mulher, começando pelos textos chamados sagrados, nos quais a mulher tem de ir para o inferno e o homem, para o céu. Neste momento, gosto mais da literatura com causa.
 
BBC Brasil – Se pudesse resumir as lutas perpetradas por sua literatura, o que diria?
 
Chiziane – Basicamente, pelos direitos humanos. Especificamente, pelos direitos da mulher.
 
BBC Brasil – Hoje o debate sobre os direitos das mulheres está muito atrelado ao feminismo, e você não se define como feminista. Por quê?
 
Chiziane – É uma questão de denominação. Por que tem de ser chamado de romancista, depois de feminista, depois de…? É muita coisa para uma cabeça. Deixem-me fazer minhas lutas. Agora, ponham os nomes que quiserem, mas não quero me assumir assim.
 
Da mesma forma como não me prendo a uma religião. Não gosto de ficar presa a um grupo. Porque, se sou membro do grupo, não terei a liberdade para fazer a devida crítica. Hoje, falo da religião porque não faço parte dela.
 
BBC Brasil – Você é tida como a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique e lançou seu livro de estreia, “Balada de Amor ao Vento”, em 1990. Por que tão poucas africanas escrevem?
 
Chiziane – São várias questões. A primeira delas é o acesso à educação, que é menor para as mulheres. O segundo é a sobrecarga na mulher, porque ela tem de trabalhar, cuidar da família, e ainda mais escrever. É muita coisa.
 
A tarefa da escrita é muito absorvente e nem sempre a mulher pode estar presente, não é fácil. Cada vez mais, há mulheres que estão escrevendo e publicando, mas ainda é uma aventura muito grande.
 
Mas estão aparecendo grandes mulheres na literatura. Na África, de maneira geral, e em Moçambique, há uma nova geração se afirmando.
 
BBC Brasil – Você costuma mencionar, além das dificuldades práticas, a falta de liberdade mental das mulheres. Pode explicar isso?
 
Chiziane – No nível de tradições e religiões, já existe um menu daquilo que a mulher deve pensar. Pensar em cozinhar, em se pentear bem, mas ter liberdade para pensar outra coisa fora da casa e das obrigações familiares não é muito comum. Muitas sociedades não permitem, e as mulheres acabam ficando confinadas nesse mundo pequeno.
 
BBC Brasil – Na África, essa é a realidade da maioria das mulheres?
 
Chiziane – Infelizmente. É a grande realidade da maior parte das mulheres. E em qualquer religião, em qualquer tradição. Quando se diz respeito à repressão da mulher, acho que todas as instituições são iguais, sejam europeias ou africanas. As religiões são iguais, sejam árabes, cristãs ou chinesas.
 
Quando se trata de reprimir a mulher, todos são unânimes e irmãos. Às vezes, no mundo considerado primitivo, a mulher tinha mais liberdades que hoje.
 
Em Moçambique, em determinadas regiões, a mulher tem direito ao sexo. Ela diz ‘não gosto deste homem, quero dormir com aquele’, e é permitido. Quer dizer, essa tradição existia, mas foi sendo cortada. Chegou o cristianismo e piorou. A mulher tem hoje que dizer ‘sim’, mesmo que não goste. Aliás, nem pode dizer ‘sim’, tem de se submeter, é a realidade.
 
Portanto, em termos de tradição, essas mulheres têm o direito ao sexo, mas, em termos de religião e de instituição, não têm. As religiões modernas são piores que as tradicionais. Às vezes, visito uma dessas aldeias no interior do país. As mulheres perguntam ‘mas vocês, nas cidades, são felizes? Toda a vida com o mesmo marido!’. Dizem que ‘aqui não é assim. Quando me zango com meu marido, tiro umas férias, vou para casa dos meus pais e arranjo outro.’ Há sociedades ditas menos evoluídas onde mulheres têm mais expressão. É questão de estudar, conhecer melhor.
 
BBC Brasil – Em outras entrevistas, você disse que é necessária uma autocensura para publicar livros em Moçambique. O que você não pode dizer?
 
Chiziane – Em Moçambique, ainda não temos muitos problemas. Do período da independência até agora, tem-se publicado um pouco de tudo. Ainda não se sente muito a chamada censura. Mas a autocensura existe.
 
 
(Na palestra dada no Brasil), usei aquele exemplo lindo do Vinicius de Moraes (poemas sobre o corpo feminino nu). Gosto dele. Um homem pode escrever aquilo, mas, como mulher, não me vejo escrevendo, me censuro. Porque é imoral, porque depois não fica bem, porque as pessoas vão pensar, os filhos irão se zangar. Sinto mais essa autocensura no feminino. Os homens publicam qualquer coisa.
 
BBC Brasil – Então não seria uma questão política, mas interior, das próprias mulheres?
 
Chiziane – É interior. O que os homens escrevem, eu não posso escrever. Se descrever o sexo de um homem, o mundo todo vai atirar pedras em mim, vai me chamar de nomes. Mesmo que tenha vontade, não é fácil.
 
O poema do Vinicius é lindo. Mas ele escreveu assim porque é permitido. Uma mulher não pode escrever aquilo.
 
Temos o nosso poeta, que já morreu, Eduardo White. Ele tem um volume só sobre sexo…Jesus! Eu disse ‘Eduardo, qualquer dia vou escrever o mesmo que tu escreves, vou inverter. Ele respondeu ‘olha, as mulheres jamais irão escrever. Vocês são prisioneiras’. Ele tem razão. Ele é um homem livre, mas nós somos prisioneiras.
 
BBC Brasil – Você diz que não é romancista, mas contadora de histórias, e que seu pai e seu avô tiveram muita influência no seu ofício. Por que nega a definição?
 
Chiziane – Para contar uma história, a pessoa precisa ter liberdade, contar como quer, no momento que quer. Agora, para ser romancista, existem regras, e, às vezes, há coisas que não se pode dizer, porque o romance, em termos acadêmicos, é feito de uma ou de outra forma. Então, não cabe para aquilo que eu quero. De vez em quando, faço uma narrativa e paro para meter uma canção, por exemplo, o que não é comum no romance. Paro no meio, meto uma cantiga.
 
Tive uma grande influência do vilarejo onde eu vivia. Era um lugar bom, de muita liberdade. Na zona rural, o conceito de liberdade é muito grande. Na cidade, sempre é preciso tomar cuidado. No campo, não. Não há carro, não há perigo. Não há a preocupação de proibir toda hora. Todos os gestos de passear e sonhar são permitidos.
 
BBC Brasil – Em sua palestra, você mencionou como as novas religiões estariam criando uma “inquisição” do século 21 na África. Como isso acontece?
 
Chiziane – Não só. Os americanos descobriram Deus não sei onde. Os chineses estão descobrindo Deus, os árabes estão descobrindo Deus. E todos acham que a África não conhece Deus. Precisam levar sua compreensão a cada um.
 
Então, o que é da Europa vem com esses resíduos da inquisição. As igrejas evangélicas estão exatamente com a mesma filosofia da inquisição: não pode haver mais nada, só aquilo que eles pensam.
 
É só ver no que a inquisição acreditava: na força do diabo. Que pena, porque deveria ser na força de Deus. As igrejas evangélicas também acreditam muito na força do diabo, e acreditam que esse diabo vem da África.
 
Portanto, é uma religião mais voltada ao culto ao diabo e à demonização africana. Matam tudo em nome de alguma coisa sobre a qual nem têm certeza
 

Haverá escritores negros na Feira do Livro de Porto Alegre?

Poeta Ronald Augusto lança questionamentos à direção da feira do livro de porto alegre sobre a falta de representação da literatura negra em eventos da área, discussão que já surgiu na Flip deste ano

Por: Ronald Augusto
06/08/2016 – 03h00min | Atualizada em 06/08/2016 – 03h00min
Haverá escritores negros na Feira do Livro de Porto Alegre? Adriana Franciosi/Agencia RBS

Escritor espera uma resposta da Área Adulta da Feira de Porto Alegre sobre quais autores negros estarão no eventoFoto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

No dia 7 de julho, postei em minha página do Facebook a seguinte indagação: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Como é usual acontecer nessas ocasiões, alguém replicou: “Mas escritor tem cor?”. Ao que eu respondi, de pronto: “Escritor tem cor, sexo, CPF e RG”. Desgraçadamente, concepções como essa, que não só eu defendo, mas muitos outros, ainda provocam constrangimentos. Entretanto, o problema não é nosso se uma parcela de leitores e fruidores segue depositando confiança na crença anacrônica de uma “arte pura”.

Recentemente, tivemos a chance de testemunhar uma discussão muito importante a respeito da invisibilidade dos escritores negros relativamente às práticas seletivas de prestigiamento e de indiferença vigentes no sistema e no mercado literários. A esse propósito, evoco aqui a polêmica causada pela – para dizer o mínimo – incompetência da curadoria da Flip que, em uma edição tida e havida como inovadora, porque dedicada à produção literária das mulheres, não foi capaz de apresentar uma escritora negra sequer para ser integrada ao evento. Dezessete escritoras brancas convidadas. Nenhuma negra. Eu posso ainda refrescar a memória do leitor com o episódio da comitiva de escritores brasileiros enviada à Feira do Livro de Frankfurt de 2013: essa comitiva tinha apenas um ou dois escritores negros. Enfim, trata-se de uma questão em relação à qual as curadorias de feiras e eventos literários não podem mais se comportar com indiferença nem esconder seus critérios de escolha atrás de desculpas convencionais e retardatárias.

No caso da Flip, por exemplo, o curador respondeu às críticas dizendo que tentou agendar as participações de Elza Soares e Mano Brown, mas infelizmente, segundo ele, as negociações não deram certo. Não tenho nada contra os dois artistas, pelo contrário, mas circunscrever a presença negra na literatura contemporânea apenas a esses nomes revela um total descaso a respeito da riqueza de vozes e de linguagens da autoria negra brasileira que, pelo menos, já há quase 30 anos vem despertando o interesse de leitores e pesquisadores em todas as partes. Por outro lado, pelo perfil dos convidados negros desejados pela curadoria da Flip, o teor da participação negra no evento não escaparia à rotina da mera animação de festa, porque, em que pese a contundência estético-política de Elza e Brown, ainda estaríamos presos à nossa proverbial dimensão rítmico-musical; espécie de essência ou de lugar negro tolerado pela casa-grande.

Foi pensando exatamente nessas imposturas e nesses enjoamentos preconceituosos que fiz a pergunta já mencionada bem no início desse texto, repito-a: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Insisto nela porque até agora não obtive resposta completa da organização da Feira do Livro de Porto Alegre. Na verdade, consegui uma resposta parcial. Sônia Zanchetta, responsável pela Área Infantil e Juvenil da Feira, confirmou a participação, este ano, dos escritores Heloísa Pires Lima, Rogério Andrade Barbosa e Sérgio Vaz. Além disso, segundo a organizadora, o coletivo de poetas negros Sopapo Poético apresentará um sarau no Teatro Carlos Urbim, e o Coral do Centro Ecumênico da Cultura Negra – Cecune, se apresentará no encerramento da programação no mesmo teatro pelo 16º ano consecutivo.

Vamos por partes. Os três escritores mencionados por Sônia Zanchetta, a saber, Heloísa Pires Lima, Sérgio Vaz e Rogério Andrade Barbosa, representam o vago perfil do escritor que “trabalha na área da literatura afrobrasileira”, isto é, eles entram no rol dos escritores negros devido à “temática”, o que é um erro conceitual. Esse erro conceitual permite abrigar, inclusive, o virtual escritor branco de boa-vontade, só que, neste caso, o problema da invisibilidade do escritor negro segue sendo negado. Em outras palavras, esse branco sensível à cultura afrobrasileira pode passar a noite inteira, a noite em claro, lendo e praticando literatura negra, mas na manhã seguinte ainda vai acordar como um indivíduo branco. Quanto à participação dos dois coletivos negros, entendo que serve como uma espécie de atenuante, mas ainda acho pouco e segue na linha de “abrilhantar” o evento. Concordo que é possível e estratégico ocupar esse espaço simbólico. Romper o círculo endogâmico da branquitude usando não apenas essa expressividade por meio da qual sempre somos lembrados, mas lançando mão também de nossa reflexão sobre a literatura e seus modos de consagração e exclusão.

Com efeito, a presença da autoria negra na Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre é tímida demais, para justificar essa conclusão basta mencionarmos que a Feira tem duração de duas semanas, sua programação é intensa, cheia de debates, lançamentos de livros, conversas com escritores, oficinas, etc. E diante de tudo isso a coordenação da Área Infantil e Juvenil traz como contribuição apenas dois ou três escritores negros e dois coletivos de cultura afro para entreter os leitores e visitantes. É pouco.
Assim, ainda aguardo uma resposta da coordenação da Área Adulta da Feira à questão: quantos e quais escritores negros farão parte da

62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Meu questionamento foi público. Suscitou uma série de manifestações, tanto de escritores negros/brancos, como de leitores e interessados. Foi por essa razão, aliás, que Sônia Zanchetta, com grande presteza, veio a público e apresentou uma resposta.

Espero que a Área Adulta da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre nos apresente uma posição. Espero que esse silêncio, esse intervalo sem resposta, quando rompido pela manifestação pública da coordenação, não se revele uma decepção. Esperamos que seja uma resposta de gente grande.

POST-SCRIPTUM: SUGESTÕES

Sugiro não só à organização da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, mas do mesmo modo às edições vindouras do evento, bem como às demais feiras do interior do RS, que suas curadorias: (a) ou passem por um processo de formação no sentido de incorporarem à categoria do literário a representação das diversidades étnicas e de gênero presentes nas poéticas contemporâneas; (b) ou constituam curadorias que contenham representantes dessas diversidades, isto é, curadores com um conhecimento mais aprofundado a respeito de seus respectivos campos estético-literários.

Com relação à incorporação da literatura negra ao cardápio das feiras de livro, eu poderia sugerir os seguintes nomes: Mel Adún, Jorge Fróes, Henrique Freitas, Esmeralda Ribeiro, Guellwaar Adún, Eliane Marques eEdimilson de Almeida Pereira.

Enquanto isso, para quem quiser – ao invés de atrapalhar – se informar mais sobre escritores negros, visite o portal Literafro: zhora.co/litera-afro.

Lopito Feijóo ” Toda a poesia é doutrinária”

Poeta, ensaísta e crítico literário, LopitoFeijóo é um dos nomes internacionalmente mais conhecidos da literatura e da poesia angolana. Os 35 anos de carreira literária foram assinalados com a publicação do seu mais recente livro, ReuniVersos Doutrinários, que reafirma a visão de uma vida de que existe uma doutrina poética. “Porque acima de tudo: A POESIA!”, afirma Lopito no poema de abertura desta sua obra.

Lopito Feijóo
LopitoFeijóoFotografia: Paulino Damião

Existe um grande trabalho ao longo do seu percurso literário no contacto com os leitores. Esta é uma componente importante de uma espécie de ‘missão’ do escritor?
Terei que citar o David Mestre, um dos maiores críticos de literatura angolana, que sempre afirmou que uma geração só se afirma se tiver dentro dela os seus próprios críticos. Ele próprio foi uma das pessoas que mais me incentivou no trabalho de divulgação, junto das páginas culturais que existiam em Angola nos anos 80, e que eram escassas, e junto dos membros integrantes da minha geração. Enquanto estudante de Direito, recordo-me de muitas vezes estudar para provas e ao ler os livros do meu curso encontrar técnicas de redacção, algum juízo crítico da sociedade nos meus próprios estudos. Estes factores levaram-me a enveredar pelo caminho do ensaio crítico. Abracei este caminho e nunca mais o deixei. Hoje sinto-me talhado e com sentido crítico apurado diante de qualquer modalidade artística.

De que forma começou a divulgar a sua obra?
Comecei a colaborar com jornais do mundo inteiro. A minha preocupação não era a de olhar para a minha obra, mas para o que os meus coetâneos faziam. Em alguns contextos, cheguei a divulgar poesia de elementos da minha geração em momentos dedicados à minha obra. Tudo isto deu-me uma responsabilidade social que, hoje, reconheço que vai muito mais além do que eu imaginava nos anos 80. E foi mesmo por via dessa responsabilidade social que em 1992 cheguei a Deputado da Assembleia Nacional aquando das primeiras eleições democráticas e multipartidárias em Angola. Significa que, por via da literatura, eu era já um agente cultural muito representativo.

A determinada altura começou a olhar mais para a sua poesia?
Sim, comecei a olhar mais para a minha escrita, para a promoção dela, para o apuramento estético-literário e até mesmo ético, e para a sua internacionalização. Esta abertura era muito importante porque no contexto de guerra em que vivíamos sentia-me um bocadinho sufocado. Nunca tive apetência para a emigração. Vivia exilado dentro da minha própria pátria.

Foi deputado da Assembleia Nacional durante 16 anos.
Tinha responsabilidades e não podia de todo abandonar o meu país. Mas nunca deixei de dizer que o exílio lá era muito mais difícil. Vivemos em Angola num contexto muito difícil, em que as pessoas queriam todas sair do país. Coube-me dizer às pessoas poeticamente que o exílio dentro da nossa própria terra era muito mais difícil do que viver no exílio como muita gente vivia. Quando me libertei dessas funções de natureza política e mais burocrática, engajei-me nessa internacionalização da minha obra. Em 2013, saí 13 vezes de Angola ao longo do ano. Em 2014, saí 10 vezes. Em 2015, saí 12 vezes. Neste ano, estive recentemente na Póvoa de Varzim. Dia 18 de Março, apresentei o meu primeiro livro traduzido para francês no Salão do Livro em Paris. Para Junho, tenho o festival AFRAKA no Brasil, depois tenho a reunião da Academia ALPAS-21 também no Brasil. Tenho ainda para este ano o convite para visitar e participar da Feira Internacional do Livro de Maputo em Moçambique e depois em Brazzaville no Congo, dentre outras coisas… Sinto que tenho tido o ‘feedback’ que quero junto dos leitores e dos escritores. Actualmente, modéstia à parte, sou o escritor angolano residente em Angola mais conhecido em África e desde Paris estou integrado num projecto de promoção de livros e autores de países da bacia do rio Congo e que integra escritores de mais de uma dezena de países africanos. Mas, infelizmente, muitas vezes as nossas atenções viram-se só para o Brasil e para Portugal.

Esse contacto com os países africanos foi importante para si?
O meu contacto com os países africanos foi e tem sido muito importante, assim como com a América ou, caso concreto, a partir da França. A abertura que França me deu fez com que eu tivesse um contacto muito próximo com a maior parte dos escritores de África e francófonos. Falo de escritores que na sua maioria recebem apoios por parte do governo francês, no âmbito do projecto de apoio a escritores e livros da bacia do rio Congo. Feliz ou infelizmente, de Angola só descobriram o LopitoFeijóo. Anualmente, recebo duas a três passagens oficiais que me chegam da França para vários eventos.

Recentemente, esteve presente no Saloninternationaldu livre, em Paris.
Sim, apresentei la o CoeurTellurique, uma obra minha traduzida. Depois disso, estarei presente no conhecido Marché de lapoesie também ainda este ano. E seguem-se várias feiras e actividades culturais, como disse anteriormente.

Internacionalização é, aliás, uma palavra que se utiliza muito para falar da literatura angolana. Considera que existe um caminho ainda a percorrer nos domínios da tradução e da crítica?
Esta palavra é um pouco pesada e, às vezes, incompreensível. Ela surge em Angola no âmbito de um processo eleitoralista, quando um grupo de escritores queria assumir a direcção da União dos Escritores Angolanos. Eu pergunto, qual é o escritor angolano sufocado ali dentro que, mesmo sem qualidade literária apurada, não quer aparecer na mídia internacional? Julgo que eu sozinho acabei por conseguir internacionalizar muito mais a literatura angolana do que as próprias instituições locais. Quando se fala de internacionalização deve-se ter um sustentáculo no exercício das práticas literárias que a justifique. Quando é que um autor sem a qualidade necessária é editado? Qual é o editor que dá a sua chancela a um autor sem qualidades ou que não tem disponibilidade em termos de tempo para acompanhar a divulgação da sua obra?

Considera que a tradução é uma etapa muito importante neste processo?
Nos últimos cinco anos, conheci tradutores de todas as línguas. Foi editado pela “federop editora” o livro Coração Telúrico mas, durante dois anos, discuti esta tradução com o tradutor. A tradução implica, às vezes, uma certa interpretação idiomática. Ao introduzir no meu léxico algumas palavras de línguas locais, este torna-se um trabalho mais complexo para um tradutor. É necessário dialogar com os tradutores, e é um trabalho demoradoporque o tradutor é um “traidor” e, simultaneamente, um criador. Mas se não houver qualidade literária, algo que cative o tradutor, não há tradução. E não havendo traduções não há internacionalização. Tive a sorte de conseguir bons tradutores. Em França, por exemplo, sou traduzido pelo PatrickQuillier, tradutor da obra de Fernando Pessoa. Em suma, se não houver ‘engajamento’ não pode haver internacionalização. E eu noto que falta esta entrega e este sentido de profissionalismo, e o espírito de missão especialmente nos escritores da minha geração.

Qual é para si a geração literária mais produtiva em Angola, nas últimas décadas?
Tenho-o dito e com um sentido crítico de alguma exigência – o melhor que se está a produzir na literatura angolana está a ser feito pelos escritores da geração de 80. Em termos etários, poderíamos traçar um parâmetro entre a Paula Tavares (a mais velha) e eu que sou o mais novo. Entretanto, não posso deixar de dizer que ainda temos autores de grande referência, no activo, que são da década de 70, tais como o Boaventura Cardoso, Pepetela ou o Manuel Rui Monteiro. Depois da geração de 80, em Angola, aconteceram casos esporádicos – TrajanoNankova nos anos 90 e RoderickNehone, já no presente século. Agora temos um David Capelenguela na poesia, ou um Ondjaki por demais conhecido… Existem mesmo autores locais que não são conhecidos em Portugal. Tudo, somente, em razão das malhas que o “império” tece. Poderia falar de uma Da Lomba, um FredNingui, de um Sapiruca, Nok Nogueira e muitos mais… Ou mesmo de uma poesia no feminino que se começa a afirmar e a confirmar cada vez mais. Começam a aparecer mulheres com menos de 25 anos que mostram já indícios de continuidade, praticantes de uma poesia de reflexão, de cariz intimista e de intervenção social.

Participou este ano nas Correntes d’Escritas com a apresentação da obra ReuniVersos Doutrinários. O que podemos encontrar neste volume?
Este livro deu-me muito prazer fazer. Quase todos os integrantes da minha geração têm um marco que é o dia 5 de Julho de 1980, que foi a data da proclamação da primeira Brigada Jovem de Literatura em Angola, da qual eu fiz parte. A literatura angolana da época colonial estava engavetada por causa da guerrilha e da clandestinidade. Quando se proclamou a União dos Escritores Angolanos em 1975, deu-se uma espécie de boom editorial e publicaram-se todos os títulos que poe anos e anos estiveram guardados. Só após 1980 começou a existir uma abertura para a publicação de novos autores. Foi aí que nós surgimos com a Brigada Jovem de Literatura que congregava escritores e/ou simples amantes da literatura. Em 2015, quando se completaram 35 anos sobre esta data, lancei este livro que pretende homenagear todos os escritores, e a minha própria geração. Se olhar para a minha obra e para tudo o que foi publicado nas redes sociais, tenho mais de 1000 poemas originais. Ao longo de 35 anos, conto cerca de 40.000 exemplares de livros publicados. Isso foi o que me motivou a fazer este livro, não uma antologia mas uma amostra do que as pessoas mais gostam na minha obra. Fiz uma escolha sem grande preocupação de auto-censura. Para além dos poemas, a primeira parte do livro é constituída por cerca de 100 páginas de notas críticas e recensões. A minha obra circulou pelo mundo e julgo que é importante transmitir o percurso da crítica e até do contraditório que existe sobre a minha obra.

Existem também nesta livro dois títulos inéditos.
A Doutrina dos Pitós recupera um tipo de poesia que se cultiva pouco em Angola, uma poesia infanto-juvenil ou para adultos que não cresceram. Ao longo das minhas práticas literárias, fui 12 vezes a Moçambique e, por isso, o segundo título inédito, Na KuRandzaMuiphíti (Poemas para Moçambique) é a minha forma de homenagear a população de Maputo. Este título está numa língua local, o ronga, e quer dizer Eu te amo Moçambique. O que é engraçado é que em Moçambique já estão à espera deste livro, mais ainda por ter o título numa língua local.

E a poesia, é doutrinária?
Toda a poesia que é feita com consciência do fazer e do dever fazer é doutrinária. Quando publicamos um texto literário, ele desprende-se do autor, passa a ser de quem o lê e de quem com ele se identifica. Começa a gerar-se um fluido de consciência, uma espécie de doutrina, que orienta o leitor e que o obriga a ler e reler o texto de forma a que nele possa encontrar novos caminhos e orientação. É isso que me proponho fazer na minha obra. Isso implica um trabalho de apuramento estético e ético que resulta da prática profissional, de um estudo aturado, saturado, diário e de exercício permanente da escrita.

Numa das suas intervenções públicas recentes disse: “Sou um aprendiz de poeta que conta histórias”. O poeta também é um contador de histórias?
Em Angola, aconteceu uma coisa muito interessante. Um jovem, dos anos 90, pegou na obra de um grande prosador angolano, UanhengaXitu, e converteu-a em versos. Levantou motivos de poeticidade na sua obra e escreveu um livro em versos. Quando o UanhengaXitu (Agostinho Mendes de Carvalho) viu, ficou incrédulo e disse que nem sabia que podia também ser poeta! Eu costumo dizer que a poesia está em tudo o que nos rodeia. O exercício poético não é um sacerdócio, nem somos lunáticos! Vivemos com as mesmas dificuldades do dia-a-dia das restantes pessoas. O poeta é aquele que olha verdadeiramente, recolhe e reflecte. O que se passa é que nem todos nós temos visão apurada para ver a poesia no nosso quotidiano, inventariar palavras e reinventá-las.

É uma pessoa que vive com intensidade o quotidiano?
Vivo muito o dia-a-dia da minha cidade. Sempre vivi em Luanda e nunca fiquei mais de seis meses longe de Angola. Consigo apreender certos fenómenos sociais, as histórias dos taxistas, dos candongueiros (motoristas dos táxis colectivos). O espaço mais democrático em Angola é o táxi colectivo. Dali pode advir boa prosa e melhor poesia. O meu trabalho é recolher essas histórias de carácter social para depois as reflectir na minha escrita. Por isso digo que sou um aprendiz do fazer poesia e também um contador de histórias. Vou contar uma pequena história: falamos muitas vezes da feitiçaria, um fenómeno muito interessante em África e não só. A maior cena de feitiçaria que já vi na minha vida, acreditando ou não, foi um dia que estava à janela da minha casa e vejo passar uma zungueira, nome dado às senhoras que percorrem as ruas vendendo produtos que levam numa bacia à cabeça. Nessa rua estavam dois agentes da polícia. Viram a senhora passar e implicaram com ela. A fruta caiu ao chão e os polícias começaram a pisar as maçãs. A senhora chorava. E os polícias pisavam a fruta que os próprios filhos em casa não têm. Foi ali que descobri que afinal algum feitiço existe. Aqueles senhores são feiticeiros, são estranhos, são esquisitos. Com esta história escrevi um poema sobre a feitiçaria. Quem diria?

Ao nível formal, a sua poesia é inovadora não só na forma como utiliza o verso livre, mas também outras formas poéticas como aquilo a que chamou o haikaiangolense.
Para mim, o verso livre é fundamental porque eu sou um poeta desregrado estou sempre na contra mão. Esta é para mim a forma mais prática para expressar a minha liberdade enquanto cidadão. Quanto ao haikai, esta é uma prática muito difícil, muito concentrada. Quando comecei a escrever, fi-lo pelos concretistas que estudei muito a fundo. Cheguei a fazer exposições de poesia, no âmbito do Colectovo de Trabalhos Literários OHANDANJI ao qual pertenço. A primeira de todas que se fez em Luanda, em 1984, foi organizada por mim e pelo Luís Kandjimbo. Na sequência do concretismo, estudei os autores experimentalistas. Seguiu-se a fase de uma poesia que respondesse às críticas e que mostrasse que esta poesia também tinha conteúdo. No caso dos haikais, no nosso contexto, era muito difícil aplicar as regras de construção originais. Então adaptámo-los, por via do provérbio e das adivinhas africanas, e chamámos-lhes haikaisangolenses. A poesia, afinal de contas, resulta sempre de uma certa parábola e que depende muito de quem a lê. Vem-me obviamente à ideia a formulação de ‘obra aberta’ do Umberto Eco – o texto tem de permitir milhares de leituras de acordo com o tipo de leitor.

Isso coloca-o na vanguarda de uma geração?
Quero continuar a ser este autor de vanguarda ou um vanguardista que só tem fim (caso o tenha!) quando passar para o além. Espero que o meu trabalho seja um trabalho de futuro. Há 30 anos, quando entrei para a União dos Escritores Angolanos a convite do Luandino Vieira, diziam-me “você tem futuro”. Sempre fui tendo futuro. O nosso futuro vai-se reconstruindo e vai acontecendo enquanto estivermos no mundo do aqui. Depois disso, a obra salva-se por si própria. David Mestre dizia e muito bem, de uma geração literária se se afirmarem seis nomes de autores já é muito bom. E se destes autores pelo menos seis poemas ficarem para a posteridade é muito melhor ainda. Espero que isso aconteça futuramente com a minha obra e que essa meia dúzia de poemas fique para a permanente posteridade “futura”. Como uma verdadeira DOUTRINA.

MARGARIDA GIL DOS REIS |

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