Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

 

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

O livro Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro já tem o primeiro lançamento marcado para o dia 11 de maio, no Al Janiah, São Paulo. O evento contará com debate sobre o livro com o professor Dennis de Oliveira e Deivison Mendes Faustino. Para encerrar o evento, intervenção musical a cargo de Conde Favela Sexteto.

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista.

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SOBRE O LIVRO | Há mais de cinco décadas de seu falecimento, Frantz Fanon, publicado em diversos países e analisado por destacados estudiosos do pensamento crítico contemporâneo, é, sem dúvidas, um dos intelectuais negros mais importantes do século XX, que atuou como psiquiatra, filósofo, cientista social e militante anti-colonial.

Sua obra influenciou movimentos políticos e teóricos em todo o mundo e suas reflexões seguem reverberando em nossos dias como referência obrigatória em diversos campos de estudo. Por isso, em Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro, Deivison Mendes Faustino apresenta a trajetória política e teórica de Fanon desde a sua infância na Martinica até a sua participação nos movimentos de libertação na África. Trata-se de uma rigorosa investigação, em que a obra do intelectual martinicano é revisitada com vistas à sua biografia, de forma a oferecer ao leitor brasileiro um panorama mais amplo a respeito do contexto e dos dilemas enfrentados por Fanon no momento de cada escrito seu.

O presente ensaio aqui apresentado é, nesse sentido, corolário de uma séria atividade intelectual e se constitui como uma fundamental contribuição para o debate sobre a presença do pensamento negro e sua resistência política e intelectual na sociedade contemporânea. Que seja este, portanto, um livro para ler e refletir.

SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.

É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e do grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0

 deivisno.jpg Introdução ao pensamento de Frantz Fanon – Deivison Nkosi (CyberQuilombo)

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CYBERQUILOMBO Queremos facilitar a aplicação da lei: 10.639/03 Com base na Lei nº 10.639, assinada e promulgada em 2003 que define que a temática afro-brasileira …


SOBRE A EDITORA | A Ciclo Contínuo Editorial é uma editora independente que se dedica à publicação de obras literárias e pesquisas na área das Humanidades, com enfoque especial na Cultura Afro-brasileira.

O catálogo da Editora reúne autores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Carolina Maria de Jesus, Abelardo Rodrigues, Lívia Natália, entre outros.

Somado as publicações, a Ciclo Contínuo Editorial também promove ações educativas por meio de seminários, encontro com autores e cursos livres de Literatura.

Saiba mais através do site: www.ciclocontinuoeditorial.com

LANÇAMENTO:

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista – São Paulo

Link evento FB: goo.gl/pwuB2t

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deivisno

Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro.

Autor | Deivison Mendes Faustino

Editora | Ciclo Contínuo Editorial

Páginas | 144

Ano | 2018

Preço | $40,00

ISBN | 978-85-68660-35-5

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“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”
25-03-2018 | Fonte: DW
O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) está a atravessar mais uma fase crítica da sua história, marcada por um complexo período de transição, após as últimas eleições gerais de 2017. A direção do partido no poder confronta-se com a questão da bicefalia na sua liderança, sendo clara a disputa entre o ex-Presidente José Eduardo dos Santos e o atual chefe de Estado, João Lourenço.

O historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, professor convidado da Universidade de Howard, nos Estados Unidos, afirma que nas atuais condições do país este é um problema “muito delicado”. “Tudo dependerá como o MPLA vai gerir a crise”, diz, em entrevista à DW, no dia em que apresentou em Lisboa, Portugal, a versão mais aprofundada do seu livro “Guerrilhas e Lutas Sociais – O MPLA perante Si Próprio (1960-1977)”.
O livro de Jean-Michel Mabeko Tali, apresentado esta sexta-feira (23.03) na Fundação Cidade de Lisboa pelo professor Alberto Oliveira Pinto, é uma nova edição da obra lançada em 2001, que tinha como título “Descendência e Poder do Estado – O MPLA Perante si Próprio”.
A atual versão, mais alargada, reúne novos elementos de análise sobre o contexto político angolano desde a luta armada até a data de realização do congresso do MPLA, em dezembro de 1977.hist
“Tentei trabalhar, sobretudo, sobre o discurso político da elite angolana, a importância desse discurso, bem como sobre todas as jogadas à volta da questão das datas da fundação dos movimentos de libertação e porque é que há tanta polémica à volta disso”, explica o autor, que procurou ir para além da simples cronologia dos factos.
Uma questão de “legitimação”
Na obra, lançada sob a chancela da editora Mercado de Letras, o historiador nascido na República do Congo Brazaville “enfatiza a questão da legitimação de cada um dos atores nesse processo (…) para se poder valorizar nesse mercado político angolano”, procurando legitimar-se a si próprio como grupo. Este é um dos aspetos do debate acalorado sobre a fundação dos movimentos de libertação e que acabou por marcar a vida política em Angola, destacando-se o papel chave da elite que dirige o país desde a independência a 11 de novembro de 1975.
Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, é uma figura de destaque nesse processo, que a dada altura tomou as rédeas do movimento de libertação e marcou com a sua personalidade o seu percurso. Mas, antes dele, lembra Jean-Michel Tali, “temos todo o processo que levou ao surgimento do MPLA”, com figuras também relevantes, como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, entre outros, no “grupo que realmente lançou o movimento”.
No livro, o historiador amigo de Paulo Lara – filho de Lúcio Lara – trata de rever os grandes acontecimentos que marcaram o período da sua investigação, entre os anos 60 e 70. E ressalta os acontecimentos que levaram ao 27 de maio de 1977, “evento que, de certa maneira, mudou a vida política em Angola, de forma terrível”. O académico congolês da geração dos anos de 70, que leciona sobre História Política na Universidade Howard, acha que até hoje ainda se vive as consequências desse período conturbado da História do país.
Tentativa de tomada do poder
Os massacres, as torturas, as prisões e perseguições ou as purgas são temas fraturantes da sociedade angolana, que eram e ainda são tratados como tabu. “Voltei ao tema porque no momento em que comecei a trabalhar sobre esta temática ninguém queria falar”, explica.
“Hoje as memórias se abrem, as pessoas falam um pouco mais, há algumas publicações sobre isso”, adianta. Foi assim que buscou, por exemplo, os arquivos soviéticos, cuja documentação permite entender a extensão e a complexidade da relação do Estado angolano com a União Soviética, mas também, voltando atrás, da relação do MPLA com os soviéticos.
Sobre a alegada tentativa falhada de golpe de Estado ou não, ou sobre a ação do movimento fracionista nitista dentro do MPLA, tem havido muita discussão, reconhece o historiador: “Tento relançar o debate”.
Na sua leitura dos factos, defende que se tratou, sem dúvidas, de “uma tentativa de tomada de poder mal organizada, um pouco caótica e improvisada, mas com consequências gravíssimas”. Sobretudo porque levou ao desaparecimento, não só físico, de uma geração política. “Depois, o partido tentou recuperar alguns deles, mas isto foi uma tragédia que ainda está latente; vive-se ainda hoje”, avalia. Ainda sobre aquele período da história angolana, o investigador concorda, de certa maneira, com aqueles que afirmam que o 27 de maio “foi um grande ajuste de contas” político.
Conflitos internos
A história do MPLA, desde o início da luta armada de libertação, é marcada por conflitos internos. “Esses conflitos internos justificam os vários assassinatos que houve desde os anos 60, quer nas cidades quer nas matas”, explica o académico. No livro, ele tenta explicar também numa longa análise por que razão o movimento não conseguiu sanar tais conflitos internos.
O 1º congresso do MPLA, em dezembro de 1977, acontece numa situação quase que de emergência, depois da violência que rodeou os acontecimentos do 27 de maio.  Mas, o resultado do referido evento não foi o que se esperava. “O próprio [Agostinho] Neto não estava contente com o resultado, dada a situação do movimento, do partido-Estado, que tinha que gerir uma crise interna”, diz Jean-Michel Tali.
Naquela época, Angola havia optado por seguir a via socialista. A surpresa, segundo o autor congolês, é que os soviéticos não terão influenciado esta decisão, tanto é que, para os serviços secretos (KGB), Agostinho Neto era visto como uma ovelha ranhosa, teimosa, mas necessária. “Não foram os soviéticos que disseram a Neto para optar pela via socialista. Ao contrário do que se pensava antes, hoje os documentos provam que os soviéticos estavam com um pé atrás”, revela.
Dessacralizar o relato histórico
Na conversa com a DW, o investigador exorta o partido no poder em Angola a reconciliar-se com a sua própria história, deixando de fazer dela um tabu. “As feridas ainda são muito recentes, mas, de certa maneira, é preciso dessacralizar o relato da gesta nacionalista de forma a deixar as pessoas se expressarem”, apela o académico que integra uma comissão científica da UNESCO encarregue pela produção da história contemporânea de África.
“Lembro que quando comecei o inquérito havia quem não queria falar porque tinha medo de responder as perguntas. Isso resultava de ressentimentos antigos dos que vinham da guerrilha, que achavam que estavam a ser discriminados”, explica.
No entanto, o diferendo ainda não foi sanado. Jean-Michel Mabeko Tali recorda, por exemplo, a velha disputa entre a FNLA e o MPLA sobre a verdadeira data do início da luta armada: a 4 de fevereiro de 1961 ou a 15 de março do mesmo ano. O historiador critica, por outro lado, a geografia de escolha ou definição do mártir, que não pode ser apenas de um dos movimentos que lutaram pela independência de Angola.
Contra a discriminação, dá outro exemplo: “ando à procura de uma Rua Viriato da Cruz e não encontro”. Lamenta ser este mais um problema, porque “ele foi um dos membros fundadores do MPLA, uma figura chave e incontornável” na história de Angola. E diz mais. “É difícil para um professor dar aulas sobre aquele período sabendo do papel de Viriato da Cruz e não falar disso porque tem medo. Reconciliação também é isso”.
Por isso, adverte, “a reconciliação nunca será completa se não dermos valor àquilo que os outros fizeram”. Para Jean-Michel Tali, o relato histórico tem de deixar de ser uma espécie de tabu, para que a nova geração possa perceber e saber o que se passou. “Se não se fizer isso, na minha opinião, vai ser difícil ir mais além”.
O historiador concorda com uma frase do nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade, quando afirmou que “ninguém pode negar a história, mas tem de se falar com realismo”.

A história oficial de Angola baniu diversos mártires da luta de libertação

mapa angolaA concorrência entre os movimentos nacionalistas angolanos, antes e depois do início da luta armada, tornou a narrativa sobre a gesta nacionalista global um quebra-cabeças para os estudiosos que queiram olhar com objetividade esta história no seu todo.

A frase é do historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali, proferida no decorrer de uma entrevista à agência Lusa, a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras e que constitui, assumiu, um “ensaio de história política”.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo-Brazzaville os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, lembrou que tanto o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) procuraram “puxar o cobertor da narrativa para si”.

Para o académico natural do Congo-Brazzaville e desde 2002 professor na Universidade de Howard, exemplo disso mesmo é a disputa entre MPLA e FNLA sobre a questão das datas mais importantes da luta de libertação do jugo colonial português, “as que até agora estão consagradas com um “selo de santificação política”.

“São as datas que decorrem da narrativa assumida pelo vencedor desta concorrência intra-nacionalista. Ou seja, o MPLA. O mesmo acontece com aquilo que podemos chamar de ‘genealogia dos mártires’ da luta de libertação. Pode procurar em vão nesta genealogia algum nome de um comandante de guerrilha da FNLA. Da UNITA nem se fala, e por motivos que se pode ainda compreender, dado o percurso um tanto controverso”, explicou.

“Pior ainda, no seio do próprio MPLA, antigas querelas internas, e dissidências, acabaram como que banindo para a eternidade nomes de peso na génese deste partido. Não me parece que haja, ainda hoje em dia, um ‘becozinho’ de rua, uma escolinha, mesmo de aldeia, uma ruazinha, com o nome de Viriato Clemente da Cruz, o verdadeiro conceptor, ‘pai fundador’ e primeiro secretário-geral do MPLA”, salientou.

O mesmo se passa, acrescentou Mabeko-Tali, em relação a Mário Pinto de Andrade, primeiro presidente do MPLA, ou Matias Migueis, primeiro vice-presidente.

“Mas temos Rua Ho Chi Minh, Rua Che Guevara, figuras revolucionárias, certo, e de prestígio e de importante referência na teorização da luta anticolonial do antigo ‘Terceiro Mundo’, mas que não terão tido um papel igual a estas três figuras nacionalistas angolanas, cujo pecado mortal foi o de discordar com parte da direção do movimento de libertação de então. Isto torna a reconciliação nacional problemática se o próprio MPLA não consegue sanar as suas próprias feridas internas”, enfatizou.

Sobre o livro, o académico congolês lembrou que, em 2001, publicou uma versão parcial do atual, tendo, depois, recebido inúmeros contributos que viabilizaram, quase 17 anos depois, o reforço do ensaio.

“Tive acesso a novas fontes, quer escritas, quer orais, às quais eu não tinha tido oportunidade de aceder antes, assim como à publicação de memórias de antigos combatentes dos antigos movimentos da luta de libertação. E houve fontes de arquivos quer da antiga potência colonial, quer dos antigos aliados soviéticos. Tudo isto levou a uma necessidade de voltar a debruçar-me novamente sobre o essencial dos problemas que tinha abordado anos antes”, explicou.

Angola emergiu uma burguesia burocrática-empresarial e uma elite econômica

Jean-Michel Mabeko-Tali1.jpgO historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali defendeu hoje à agência Lusa que o atual Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975) está dividido em três — massa popular, classe média e a elite.

Jean-Michel Mabeko-Tali, natural do Congo-Brazzaville e professor desde 2002 na Universidade de Howard, em Washington, falava à Lusa a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, recordou que, nessa altura, existiam dois MPLA, liderado pelo “oficial”, e o “popular”, o das “massas”.

O “oficial”, sustentou, tinha uma direção que mantinha “uma relação especial com dirigentes congoleses” — “de elite para elite” -, e que beneficiava de vários privilégios, como documentos para viagens, passaportes com nomes falsos para permitir viagens no exterior em benefício da luta de libertação.

“E havia um MPLA popular, composto por militantes de base, que não tinham o mínimo acesso a estes pequenos privilégios, e muito menos contactos com a elite do país anfitrião. Embora não diretamente ligados à estrutura do movimento de libertação, tinham-no como um elemento de referência identitário e de ligação com Angola. Foi neste MPLA popular que houve o fenómeno de aprendizagem e de prática das línguas veiculares locais, como o ‘lingala’, coisa que, salvo raras exceções, não se verificava nos meios do MPLA oficial e da elite”, realçou.

Segundo o autor, doutorado em História pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot e mestre em estudos Africanos, está aí a “génese” de o MPLA de hoje refletir a divisão da sociedade angolana pós-independência em múltiplas classes sociais, cujo cordão umbilical, em termos de identidade política para uma boa parte dessas classes, é o MPLA.

“Mas é um MPLA que aparece, cada vez mais, sob visões diferentes, consoante se está nos musseques ou em bairros privilegiados. Há um MPLA que pertence à massa popular, sua base social incondicional; há um MPLA da classe média, o sustentáculo medianeiro que serve de caixa-de-ressonância e de megafone ao discurso da elite dirigente. E há esta elite, suficientemente dotada e talentosa, ao ponto de conseguir transformar o seu discurso social em discurso nacional e integracionista, que até a oposição acaba comprando”, explicou.

“[A elite] pertence a uma burguesia largamente compradora, pois na sua maioria recipiente das prebendas que resultam da inserção de Angola na economia-mundo, numa conexão em que ainda sobrevive, em larga medida, uma economia extravertida herdada do modelo económico colonial”, argumentou.

Segundo o académico congolês, os 38 anos de consulado do agora ex-Presidente José Eduardo dos Santos, “com a sua carga de estrondosos e rápidos enriquecimentos, alienaram de certo modo, e progressivamente, o forte laço político-identitário que ligava o MPLA popular e o elitista”.

“Nisto jogou também, e objetivamente falando, o pouco, senão mesmo a falta de laços de cumplicidade que o próprio presidente não foi capaz de criar com a população, sobretudo, nas províncias. Ao contrário de Agostinho Neto, não obstante o seu curto consulado à frente dos destinos do país (1975-1979), o seu sucessor não soube criar, um contrato de confiança com a população, e menos ainda com a Angola profunda. Nada de espantar, portanto, que a imagem do presidente Agostinho Neto ainda domine largamente em muitos desses lugares da Angola profunda”, destacou.

“A transformação do próprio partido numa máquina empresarial bilionária acabou por fazer emergir uma burguesia burocrático-empresarial e uma elite económica que, ao que me parece, olha agora com temor tanto para uma juventude urbana cada vez mais irrequieta, que mal se revê na JMPLA, como também para os musseques, mesmo que esses ainda lhe sejam largamente fiéis”, concluiu.

Recordar Uanhenga Xitu

unhaenga xitu Mesdes de Carvalho

Manuel Costa

No dia 18 de Fevereiro de 2014, fez domingo último quatro anos, Calomboloca estava cheia: gentes de todos os cantos do país despediam-se  do “mais emblemático dos nacionalistas”, subscrevendo o jornalista Carlos Gonçalves.

Uanhenga Xitu é o nome Kinbundu de Agostinho André Mendes de Carvalho
Uanhenga Xitu baixou à sepultura no dia 18 de Fevereiro de 2014, na sua terra natal, que neste dia testemunhou uma enchente impressionante. Para lembrá-lo deixo-vos com esta oração de sapiência:(…)Eu sou, na minha terra, um “mais velho”, pessoa a quem a idade permite, independentemente, do saber das escolas, conhecer a vida por a ter vivido, e conhecer a vida por ter escutado de outros mais velhos o relato das suas experiências. Cada um de nós, “os mais velhos” que na nossa terra existem, resume em si a memória de centenas de anos. Cada dia mais rica, porque vivemos hoje mais tempo do que viviam os nossos avôs. Cada dia mais rica, porque vivemos tempos mais movimentados e de maior experiência. Cada dia mais rica, porque tem ao nosso dispor as técnicas que nos enriquecem com a experiência sem fronteiras de outros povos. Cada um de nós, “mais velhos” que na nossa terra existem, vão vendo definhar a importância da sua experiência. Se somos mais ricos, estamos cada dia mais pobres, porquea juventude não aprende já pela nossa boca.Se ficamos mais ricos, estamos cada vez mais pobres, porque a juventude de tanto outro saber que parece acumular, tem com o velho que fala o ar condescendente de quem ouve inutilidades, de quem não precisa, de quem já sabe para lá do que lhes dizemos. Os “mais velhos” da nossa terra vão morrendo na importância. À medida que nos urbanizamos, que a memória dos avôs vai perdendo o interesse para os mais novos, que a juventude deixa as nossas tradições para se apropriar da moda do seu tempo e que não deixa de ser, de certo modo, a tradição de outros povos. Não como a nossa, que era uma tradição para passar de pais para filhos, sem custos nem interesse (…).”xitu1
Enfermeiro de profissão, Uanhenga  Xitu exerceu clandestinamente actividades políticas, visando a independência de Angola, tendo sido preso pela polícia colonial “PIDE” durante a luta.Uanhenga Xitu, seu pseudónimo literário, foi julgado pelo Tribunal Militar e condenado a 12 anos de prisão maior, medidas de segurança de seis meses a três anos prorrogáveis e perda de direitos políticos por quinze anos.
Na prisão começou a escrever as suas histórias. Em liberdade, manteve a sua actividade política e depois de alcançada a independência de Angola exerceu as funções de ministro da Saúde, Comissário Provincial de Luanda e embaixador da República Popular de Angola na Alemanha. Foi deputado à Assembleia Nacional, pela bancada do MPLA, e membro do seu Comité Central até 1998.
Uanhenga Xitu foi membro da União dos Escritores Angolanos, que recentemente o homenageou, pela sua inquestionável importância dentro do cenário literário angolano. Foi autor das obras O Meu Discurso, Mestre Tamoda, Bola com Feitiço, Manana, Vozes na Sanzala (Kahitu),  Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem, Os Discursos do Mestre Tamoda, O Ministro e Cultos Especiais.Em 2006 recebeu a distinção do Prémio de Cultura e Artes, na categoria de literatura, pela qualidade do conjunto da sua obra literária.

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/recordar_uanhenga_xitu

Há livrarias na Nigéria? perguntou uma jornalista francesa a escritora Chimmanda Ngozi Adichie

chimamanda-novo-livroQuestionamento irritou Chimamanda Ngozi Adichie, que denunciou falta de conhecimento que o mundo tem sobre a África

Jazzhole é a livraria favorita da autora Chimamanda Ngozi Adichie | Foto: Facebook / Reprodução / CP

Jazzhole é a livraria favorita da autora Chimamanda Ngozi Adichie | Foto: Facebook / Reprodução / CP

“Existem livrarias na Nigéria?”. A pergunta feita por uma jornalista francesa na semana passada, irritou a romancista nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Em um evento realizado em um elegante edifício do governo de Paris sob candelabros de cristal, a escritora denunciou “a arrogância francesa percebida” e falta de conhecimento que o mundo tem sobre a África. “Eu acho que reflete muito mal nos franceses que você precise me fazer essa pergunta. Meus livros são lidos na Nigéria. Eles são estudados nas escolas. Não apenas lá, em todo o continente africano”, disse a autora de 40 anos.

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A indignação posterior nas redes sociais talvez fosse previsível: insultos lançados contra a repórter em meio a acusações de racismo e preconceitos coloniais. Chimamanda, que hoje vive nos Estados Unidos, fez uma publicação no Facebook argumentando que a questão da livraria servia apenas para “dar legitimidade a uma ignorância deliberada, intitulada, cansativa e abrangente sobre a África”.

Mas nem todos concordam completamente. “Você não pode dizer que não há livrarias ou bibliotecas na Nigéria, isso é ridículo”, comenta a Tabia Princewill, colunista do jornal local The Vanguard. “Mas elas não são muitas, e muitas vezes são livros religiosos ou livros educacionais. Nas bibliotecas públicas, quase não há livros. É vergonhoso e não é ser anti-africano admitir isso. A elite africana não quer enfrentar a realidade”, completa.

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O debate da livraria é tão polarizante porque não se trata apenas de acesso a livros, mas também sobre o sistema de educação problemático do país. À medida que a população da maior economia da África Ocidental explode, o governo está lutando para educar seus 190 milhões de habitantes. A Nigéria tem uma taxa de alfabetização de 60%, uma das mais baixas entre os mercados fronteiriços, de acordo com a empresa de banca de investimentos Renaissance Capital em uma nota lançada nesta terça. Existem grandes discrepâncias regionais no país, com o sul com taxas de alfabetização muito maiores do que o norte, mas a qualidade dos professores e a participação dos estudantes são problemas perenes.

Crônica do escritor angolano, Manuel Rui: “Nomenklatura, estado e república”

MANUEL RI

Manuel Rui

Nomenklatura, em língua russa, como nomenclatura em português têm origem no latim, num significado mais simples para “lista de nomes,” ou “burocracia” ou “casta dirigente.” A nomenclatura incluía altos funcionários do partido, devidamente hierarquizados, intelectuais, académicos, artistas ou escritores, gozando de privilégios a que não tinham acesso a maioria restante da população.

Teóricos como Bettelheim entenderam que a burocracia, tendo nascido da classe trabalhadora, no seu desenvolvimento histórico tornou-se numa classe social distinta do proletariado, o que levou mesmo a desenvolver-se a teoria de que havia luta de classes no interior da URSS.
Quando Michael S. Voslensky escreveu o livro “A NOMENKLATURA,” foi amaldiçoado pelo poder soviético, perdeu a cidadania (quais direitos humanos!) e fugiu para Alemanha para dar aulas numa universidade. Ele tinha pertencido à nomenklatura e desmontava para o mundo ver, qualquer coisa mista de dantesco, máfia e ficção científica mas que era realidade. A obra não deixou de ser um dos fundamentos que alimentou a Perestroika. No livro podem observar-se os seguintes tópicos: “classe escondida,” o nascimento da nova classe dominante, a classe dirigente da sociedade, a classe dos exploradores da sociedade, a classe dos privilegiados, a ditadura da nomenklatura, a classe que aspira à hegemonia mundial e uma classe parasitária.
A obra correu aqui clandestinamente, nos tempos de “sob o olhar silencioso de Lenine.” Consegui o livro através de um académico brasileiro. Emprestei-a a um amigo do Comité Central do partido único. Não demorou muitos dias a lê-lo. Depois veio a minha casa, enquanto bebíamos moeda que era a cerveja, chamou-me de contrarrevolucionário e não me devolveu o livro.
Transcrevo este pequeno extratacto: “os dirigentes constituem um grupo humano numeroso, que se distingue dos outros grupos da sociedade soviética por seu lugar (preponderante) no sistema de produção social; por sua relação com os meios de produção (o direito a dispor deles); por seu papel (director) na organização social do trabalho e pela parte (importante) da riqueza social de que se apropria. Esse grupo dirigente constituía uma classe que se escondia com o nome de outra – o proletariado. Mas o próprio proletariado, por ser mais abrangente e disseminado na sociedade, não tinha relação com a classe no poder.
De 1985 a 1991, com Gorbatchov ocorreu a Perestroika que quer dizer reestruturação e a glasnost que significa transparência, face ao esgotamento das formas de organização social soviética. Foi só começar a executar as linhas principais do seu pensamento para a URSS ruir como um baralho de cartas.
Poupando espaço, a Nomenklatura em funcionamento era o aparelho ou apparatchik. Que mandava executar tudo. Os ministérios eram fachadas para executarem as ordens do aparelho e a constituição valia menos que os estatutos e regulamentos da Nomenklatura. Os cidadãos eram policiados pelas secretas e os discordantes iam parar aos campos de concentração chamados gulags. As obras que começaram a denunciar estes campos e outras como o “pavilhão dos cancerosos,” foram pressupostos valiosos para a “pintura” que Gorbatchov queria fazer e não conseguiu porque as paredes ruíram antes. Verdadeiramente, estado e república(s) eram uma ficção. Certo é que mal acabou a URSS começaram a aparecer os milionários a comprarem clubes de futebol ou a coleccionarem iates e carros fórmula um.
Quem muito padeceu com tudo isso foram os escritores cuja união funcionava no partido, como em Cuba. Nunca me esquece de um internacionalista que trabalhou aqui, mais tarde, em Havana, era da segurança e “atendia” à União de artistas e escritores. Entre nós, no primeiro encontro de escritores apareceu na UEA um elemento da Disa para “acompanhar” os trabalhos.
Os movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas que chegaram â independência e ao poder, por razões históricas e não só, aparecem com Nomenclatura, partido único e um chefe que é ao mesmo tempo o Presidente da República. O governo é para executar o que o aparelho entender. Mas há momentos de alta preocupação em que o governo não se intromete numa questão de interesse nacional. Foi o exemplo da tragédia do 27 de Maio. Tudo foi discutido pela Nomenclatura e aí foram tomadas as decisões. Depois do golpe falhado, não foram remetidos aos tribunais civis ou militares quaisquer processos, em suma, a nomenclatura foi quem decidiu sem prestação de contas. Nem Estado nem República. Neto teve que temperar os exageros da Disa…
Com o advento do multipartidarismo, a nomenclatura continuou dona disto tudo com a atrapalhadora situação do chefe ser também chefe de estado. Essa parte é para os historiadores. Parece que hoje encetámos o bom caminho. Os partidos têm as suas ideologias e estratégias, não só para ganharem eleições mas para trabalharem no parlamento. O Presidente da República é o Supremo Magistrado da Nação eleito pelo povo. A partir daí é desnumenclaturizado. Subordina-se apenas à constituição, escolhe os membros do Governo pelo mérito e tem relacionamento institucional com os outros poderes de Estado. Assim, temos Presidente, Estado e República. E isso já levou a consensos com a oposição. Era aqui que queríamos chegar com o limite dos 5000 caracteres incluindo espaços.
Curiosamente, parece que muita gente da pirâmide da nomenclatura, como na URRS, é hoje milionária…

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/artigos/nomenklatura_estado_e_republica