Presidente de Moçambique e FRELIMO não conseguiram implementar as idéias de desenvolvimento

Nyusi está prestes a terminar o seu primeiro mandato e não se conhecem projetos seus de desenvolvimento. Por outro lado, nos últimos tempos os seus discursos têm sido marcados por alguma inflexibilidade e dureza.

    

defaultFilipe Nyusi, Presidente de Moçambique

 Só na última semana o Presidente moçambicano causou bastante polémica ao fazer a seguinte afirmação: “Se não estás preparado para viver na capital procura lá outro sítio [para viver]”. Essa foi a reação de Filipe Nyusi as manifestações populares à morte de uma criança de uma escola primária por atropelamento na estrada circular em Maputo.

Também na última semana contra-atacou de forma dura os empreiteiros da área da construção civil que pediram medidas para fazer frente as consequências da crise económica, ao exigir o combate à corrupção no setor.

A rispidez no discurso será o reflexo de alguma saturação por parte do Presidente? Eduardo Sitói é cientista político e acredita que sim: “Talvez seja isso, o que quero dizer é: ele provavelmente não tem muito tato para lidar com grandes multidões. Os seus improvisos não têm aquela áurea, aquele carisma dos outros líderes. Mas ele tem sido eficaz no trabalho mais controlado e direto com os seus principais subordinados, portanto, ele tem esses dois lados diferentes.”

Chinesische öffentliche Arbeiten in Maputo (DW/Romeu da Silva)Estrada circular em Maputo

Nyusi impaciente e frustrado?

Já o sociólogo Elísio Macamo acredita que existam motivos mais profundos na origem da postura de Filipe Nyusi e apresenta justificações para o que chama de deslizes: “Acho que a questão é mais complexa. Ser Presidente de Moçambique, e com todo o respeito que tenho pelos países que vou mencionar agora, não é o mesmo que ser Presidente de Cabo Verde, da Guiné ou do Malawi. Moçambique é um país grande, complexo, com problemas e com desafios extremamente complexos.”

E por isso Macamo argumenta que “é normal que quem esteja à frente de um país destes possa uma e outra vez não conseguir camuflar uma certa impaciência, uma certa frustração em relação à forma como as coisas estão a andar, quando ele tem expetativas que as coisas andem bem. Penso que os deslizes que tem tido explicam-se mais por essa via do que pelo facto de estar cansado ou de lhe faltar tato.”

Depois das fortes críticas ao “empregado do povo”, como é chamado o Presidente no país, Nyusi terá feito um “mea culpa” ao visitar nesta segunda-feira (11.06.) a escola em questão e ter prometido uma ponte aérea e ter apelado para outras medidas para evitar acidentes.

Mea culpa é igual a um pedido de desculpas?

Schweiz Basel Elísio MacamoElísio Macamo, sociólogo moçambicano

Mas isso exclui um pedido de desculpas do “empregado do povo” ao seu “patrão”? Elísio Macamo começa por reconhecer que “foi uma atitude boa da parte dele, deu-se conta de que, de facto, cometeu um deslize. E ao visitar a escola depois dessa celeuma toda ele revelou uma certa “mea culpa“.

E o sociólogo lembra que “isso para um país como o nosso não é coisa de se esperar de um político no lugar onde ele se encontra. Então, ele tem todo o mérito por ter feito isso aí.”

Entretanto faz ressalvas: “Mas é claro que eu acho que ele continuou a não ser feliz na forma como reagiu, porque a questão não é só ir visitar a escola. A questão é pedir desculpas, acho que os nossos políticos precisam de ganhar a coragem de pedir desculpas por deslizes. Ele devia ter feito isso, teria sido bom para a sua própria imagem e para o Governo que dirige.”

Mais um deslize de Nyusi não vai fazer diferença nas eleições

A rispidez discursiva do Presidente moçambicano exacerba quando o país está à beira de eleições: autárquicas em outubro de 2018 e gerais em outubro de 2019. Filipe Nyusi e o seu partido não correm o risco de saírem penalizados nos próximos escrutínios?

O sociólogo responde: “Eu não acho que os resultados das eleições que se avizinham vá depender do comportamento do Presidente agora, porque o maior problema que a FRELIMO enfrenta neste momento é o da sua impopularidade geral. Então, mais um deslize não vai fazer diferença.”

Macamo acredita que “se a FRELIMO tem de desenvolver alguma estratégia em relação a este assunto, essa estratégia não pode ser de controlar o que [Nyusi] diz, vai ter de ver como é que a FRELIMO vai lidar com esta perceção de que a FRELIMO está cansada e que não está com vontade de fazer as coisas.”

 

Onde estão as propostas de desenvolvimento de Nyusi?

Filipe Nyusi já vai no quarto ano do seu primeiro mandato. Até aqui não se conhecem projetos seus ou do seu Governo focados no desenvolvimento do país, à semelhança, por exemplo, do que aconteceu na Presidência anterior. Armando Guebuza implementou alguns projetos, como é o caso do que visava o desenvolvimento do distrito.

Eduardo Sitói apresenta uma justificação que “muito provavelmente Nyusi esteve muito focado na questão da paz e julgo que por causa desse foco eventualmente não tenha tido a oportunidade e nem espaço para muitas outras iniciativas. Por outro lado, todo este contexto económico e do corte da ajuda internacional criou uma espécie de desaceleração da capacidade do Governo central de fazer investimentos significativos no país.”

Filipe Nyusi é o candidato da FRELIMO para as presidenciais de 2019. Se vencer, eventualmente transitará com os mesmos problemas.E a questão que fica é: Continuará ele sem propostas de projetos para Moçambique?

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Leonard Boff:“devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”.

Em entrevista exclusiva concedida à Fórum, o teólogo Leonardo Boff falou sobre política, religião e, claro, sobre o ex-presidente Lula, seu amigo há mais de 30 anos. “Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”

Foto: Mídia Ninja

Poucos episódios ligados à política nacional brasileira deste ano foram tão tristes como o dia em que o teólogo Leonardo Boff, aos seus 79 anos, foi impedido de visitar o ex-presidente Lula na superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso há quase dois meses.

A imagem de Leonard Boff sentado à sombra da cabine policial, aguardando para visitar seu amigo há mais de 30 anos, rodou o mundo e ajudou a denunciar uma Justiça arbitrária e insensível.

“Negaram a minha humanidade e a do ex-presidente Lula”, disse Boff, aos prantos, na ocasião.

Semanas depois, sob o preceito das Regras de Mandela, o teólogo finamente conseguiu  visitar o seu velho amigo. “Nos abraçamos e choramos”, disse Boff.

Nesta semana de feriado de Corpus Christi, tão representativo aos cristãos e católicos no Brasil, Fórum procurou Leonardo Boff, que é uma das maiores referências no que tange à teologia e à Teologia da Libertação para analisar o momento político sob sua visão humanista e espiritual. Ex-sacerdote franciscano, Boff falou sobre religião, política e, claro, sobre o ex-presidente Lula.

“Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”, pontuou.

A entrevista começa com Leonardo Boff analisando as recentes declarações do Papa Francisco sobre golpes de Estado. Para o teólogo, não resta dúvidas: o pontífice mandou, sim, um recado direto ao Brasil.

“O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas”, revelou.

Quando convidado a mandar uma mensagem àqueles que sentem-se desiludidos com a situação do Brasil, Boff não tergiversou. “Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem”.

Confira.

Fórum – Leonardo, recentemente o Papa Francisco fez uma fala sobre como a mídia ajuda a manchar a imagem de lideranças e, assim, acontecem os golpes de estado. Muitos interpretaram essa fala como um recado ao Brasil. O que acha disso? Acredita que ele tem consciência da atual situação política brasileira?

Leonardo Boff – O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Na época do impeachment ele mandou uma carta pessoal à Dilma. Ela não quis publicá-la por achar que era algo privado quando, no meu entender, era altamente político, pois todos admiram este Papa.

Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas.

Fórum – Como você tem avaliado, em linhas gerais, o papado de Francisco? Acredita que ocorra uma mudança, de fato, com relação aos velhos dogmas da Igreja Católica ou as declarações de Francisco fazem parte apenas de uma estratégia para “melhorar” a imagem da Igreja?

Leonardo Boff – Esse Papa não tem nada do figurino dos Papas da tradição. Ele inovou em todos os sentidos. Antes de tudo, porque veio de fora da velha cristandade europeia em franca decadência. Basta dizer que na Europa vivem apenas 25% dos católicos do mundo, enquanto na América são 62% e os restantes na África e na Ásia. Esse Papa disse e repetiu muitas vezes que respeita os dogmas. Mas isso não é importante. Mais importante é apresentar um Cristo que ama a todos, também aos homoafetivos, e o que vale é o encontro com as pessoas, levando-lhes esperança e o fato de a misericórdia de Deus não ter limites.

Portanto, podemos sempre contar com Deus, viver sem medos, pois não existe condenação eterna, como repetiu algumas vezes. O curioso é que este Papa, como nenhum antes na história dos pontífices, tem atacado diretamente o capitalismo como um sistema anti-vida e assassino dos pobres. Ele tem lado, ao lado das vítimas deste sistema inimigo da vida da natureza e insensível face ao sofrimento da maioria da humanidade. Ele vem do caldo cultural da teologia da libertação na versão argentina que é libertação do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele introduziu este discurso no seio do próprio Vaticano e o tornou oficial.

Fórum – A Teologia da Libertação, junto aos trabalhos de base da igreja católica, ajudaram a consolidar o próprio PT e a esquerda brasileira após a redemocratização. Após o golpe e diante da conjuntura política no Brasil, aumento das desigualdades e perseguição dos movimentos sociais, acredita que a Igreja Católica possa voltar a ter um papel relevante no Brasil na construção de um novo caminho para as esquerdas e as camadas populares? Se sim, de que maneira?

Leonardo Boff – Sou da opinião que este Papa está criando uma nova genealogia de Papas que virão das partes mais numerosas e mais criativas da atual Igreja, quer dizer, do Grande Sul, do que chamávamos de Terceiro e Quarto Mundo. Ele tem consolidado um tipo de Igreja que está à altura dos problemas mundiais, especialmente a grande injustiça social mundial, a questão das ameaças que pesam sobre o planeta Terra. Ele está desocidentalizando a Igreja e também despatriarcalizando os estilos palacianos que a Igreja ainda apresenta. Ele despojou-se de tudo. Não foi viver no palácio pontifício, mas numa casa de hóspede. Ainda come com todos e diz com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”.

Quanto à Igreja da base, vale dizer as Comunidades Eclesiais de Base, os movimentos sociais nascidos no interior dessa Igreja como o MST, o CIMI (Centro Indigenista Missionário), que cuida dos problemas indígenas, a CPT (Comissão da Pastoral da Terra), que cuida das pastorais sociais, dos afrodescendentes, das mulheres, da infância e outros, todos esses movimentos ajudaram na fundação do PT. Não é que eles entraram no PT. Eles constituíram células e grupos do partido. Portanto, ajudaram a fundar o PT.

A convicção era e continua sendo: as políticas sociais dos governos Lula-Dilma realizavam os ideais que amadureceram nas bases de justiça social e de participação popular. Em dialeto cristão se diz: essas políticas para os pobres mostram os bens do Reino de Deus que são feitos de justiça, de participação, de solidariedade e de amor efetivo, especialmente para os mais invisíveis. Lula sempre reconheceu a importância deste fato.

Fórum – Qual a sua opinião sobre a indicação do ex-presidente Lula para o Prêmio Nobel da Paz? Que características ele carrega que o fazem merecedor do prêmio?

Leonardo Boff – Eu creio e assim também o confirmou o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, que Lula preenche todas as características para ganhar o prêmio Nobel da Paz. Principalmente pelas políticas sociais que permitiram que 36 milhões de pessoas saíssem da fome e da miséria e entrassem na sociedade organizada. E outros projetos que beneficiaram os mais vulneráveis. E, além disso, ele irrompe como uma liderança mundial única, já que vivemos num mundo sem grandes líderes que convoquem a humanidade para algo melhor do que agora temos, que é uma barbárie para as grandes maiorias do mundo. Mas por trás há sempre um jogo político, pois cada país tem os seus “heróis” que mereceriam esse título, o que duvido realmente.

Fórum – O senhor foi o primeiro que conseguiu autorização para visitar o ex-presidente Lula na categoria de “assistência espiritual”, que agora acontece todas as segundas-feiras. Qual a importância deste tipo de visita?

Leonardo Boff – Eu atendi a um pedido do próprio Lula, que é meu amigo já há mais de 30 anos. De tempos em tempos ele me chama junto com a minha companheira Márcia para um diálogo. Como não venho do campo político, nem sou membro do PT, ele tem muita confiança e gosta de ouvir opiniões de fora da política partidária. Eu fui junto com o portador do prêmio Nobel da Paz, o argentino Perez Esquivel. Segundo uma determinação da ONU, um portador deste título pode em qualquer país do mundo entrar nas prisões e visitar lugares de conflito. É a chamada Lei Mandela. Argumentamos junto à juíza Carolina Lebbos, que é o braço direito de Sérgio Moro, mas ela não quis nem saber. Alegou que isso não vale para o Brasil, no maior desrespeito a um portador mundialmente conhecido que é Adolfo Perez Esquivel. Tivemos que ir embora. Somente depois que se completaram 30 dias na prisão que a autoritária juíza permitiu que eu fosse visitá-lo. Começamos por aquilo que a Constituição ou a Justiça Penal prevê: que o encarcerado possa receber assistência espiritual. Não havia mais como negá-lo.

Fórum – Como o senhor se sentiu na primeira vez em que foi impedido de visitar o ex-presidente?

Leonardo Boff – Eu fiquei penalizado pela injustiça que essa proibição significa. Como religioso e teólogo fui cumprir o preceito evangélico que diz “estive preso e vieste me visitar”. A foto minha sentado à sombra da cabine policial na entrada da Polícia Federal girou o mundo. Dez minutos depois vinham mensagens de protesto de vários países da Europa e da América Latina. Muitos escreveram belos artigos sobre essa foto pois era altamente significativa.

Fórum – Espiritualmente falando, como está ex-presidente Lula? Ele está esperançoso?

Leonardo Boff – Encontrei o Lula surpreendente assim como o conhecemos. Nada desfigurado. Sorridente. Nos abraçamos e nos comovemos juntos. Eu era o primeiro, afora os filhos e os advogados, que ele encontrava. Ele sente a falta de contato com o povo. Mas se consola ao ouvir às oito horas da manhã o “Bom Dia Lula” e o “Boa Noite Lula” vindos do acampamento em frente ao edifício da polícia. E ele escuta perfeitamente. Isso o consola.

O maior consolo vem de dentro, pois diz que sua consciência não o acusa de nada. Não participou de nenhum roubo, não recebeu uma única propina. Chega a dizer: “se alguém disser que eu dei cinco centavos a alguém ou recebi cinco centavos de alguém é um mentiroso. Aprendi com a minha mãe Lindu ser sempre correto e nunca pegar nada dos outros”.

Espiritualmente, isso lhe dá tranquilidade. Mas revela muita indignação pela injustiça que lhe é feita. Ele fez um desafio e pediu que eu o dissesse publicamente: “Se o Moro apresentar uma única prova sobre a propriedade a mim atribuída do triplex quero ser condenado e preso”. Até hoje não apareceu nenhuma prova. Sente-se, com razão, vítima do ódio deste juiz, instruído nos Estados Unidos a praticar o lawfare, quer dizer, distorcer as leis e sua interpretação para condenar o acusado. Ninguém pode prender seus e os nossos sonhos. Mesmo preso é um homem livre. Nunca se resigna. Disse-me claramente: “não quero cair de pé. O que quero é não cair. E não vou cair como eles desejam”.

Fórum – Que mensagem o senhor enviaria ao leitor da Fórum que está desiludido com o país e indignado com a situação do ex-presidente Lula?

Leonardo Boff – A minha mensagem vem de Santo Agostinho, um dos maiores pensadores cristãos, nascido na África e bispo de Hipona, hoje Argélia, aí pelos anos 450 da atual era. Diz ele: “devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”. “A esperança”, dizia mais, “tem duas belas irmãs: a indignação contra as coisas erradas que vemos e a coragem para superá-las”.

Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem, coragem. Era o que o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns de São Paulo sempre repetia aos resistentes ao regime militar e aos que sofriam a violência do Estado terrorista.

Fórum – Se Lula saísse da prisão e fosse presidente do Brasil novamente, o que o senhor lhe recomendaria repetir enquanto governante e o que o senhor lhe recomendaria evitar ou mudar?

Leonardo Boff – Eu diria duas coisas e ele concordou dizendo: “Se for novamente Presidente, primeiro vou revogar as medidas antipopulares e antinacionais que os golpistas introduziram contra a própria Constituição”. Depois, isso ele o repetiu muitas vezes, iria radicalizar as política sociais unidas à uma consciência de cidadania e de participação. Em segundo lugar, eu diria que ele deveria manter permanente contato com o povo e os movimentos sociais para equilibrar as alianças que se vê obrigado a fazer no parlamento para poder governar. Ele não quer fazer o mesmo. Quer levar mais a fundo e radicalizar o combate à injustiça social e dar mais lugar aos colocados injustamente à margem, especialmente os afrodescendentes face aos quais temos uma dívida até hoje nunca paga.

Fórum – Como Leonardo Boff, em uma visão filosófica, definiria o Brasil de hoje?

Leonardo Boff – Minha visão é mais de uma ecologia integral na linha do que diz o Papa Francisco na sua encíclica “como cuidar da Casa Comum”. Acredito que dentro de pouco tempo toda a economia deverá passar pela ecologia, vale dizer, pelos bens e serviços da natureza. Estes estão se esgotando mais e mais. A Terra entrou no vermelho, o assim chamado The Overshoot Day, o dia da ultrapassagem dos limites suportáveis para o equilíbrio da Terra. Este ano foi no dia 2 de maio. Até o final do ano iremos tirar à força da dispensa da Terra para podermos viver e sobreviver e manter, de forma irracional, o consumo das elites consumidoras.

Um projeto infinito de acumulação não pode ser suportado por um planeta finito. Ou mudamos de paradigma e de hábitos ou vamos ao encontro de um caminho sem retorno. Mas o Brasil, no contexto do mundo, tem tudo para ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro. Aqui está a maior biodiversidade. Aqui está a maior reserva de água doce do mundo, 13%. Aqui estão as maiores florestas úmidas que equilibram os climas da Terra. Aqui vive um povo inteligente, hospitaleiro que mostra, no meio do sofrimento, alegria de viver, que festeja seus carnavais e o seu futebol, com uma arte invejável, que elabora uma música apreciada e imitada pelo resto do mundo.

Como Darcy Ribeiro dizia: podemos ser a Roma tropical tardia, na província mais bela e ridente da Terra. Estimo que o futuro da humanidade e da vida poderá passar pelo Brasil. Não porque o queremos, mas porque Deus nos deu tanta riqueza, diversidade e originalidade que podemos contribuir e garantir o futuro da nossa civilização e da Casa Comum que é a Terra.

Fonte:https://www.revistaforum.com.br/entrevista-exclusiva-com-leonardo-boff-devemos-manter-a-indignacao/

PAICV : dar esperança aos cabo-verdianos é o principal desafio do partido

Presidente do PAICV aponta devolução da esperança aos cabo-verdianos como principal desafio do partido

A presidente do Partido Africano para a Independência de Cabo Verde disse este sábado que o principal desafio do seu partido, neste momento, é devolver a esperança aos cabo-verdianos, “desiludidos com a governação do MpD”

Janira Hopffer Almada, que falava à Inforpress, momentos antes de presidir à cerimónia de abertura do ano político 2017/18 do PAICV, sob lema “novos horizontes de esperança”, salientou que a situação do país é “muito grave” e que a desesperança começou já a tornar conta dos cabo-verdianos.paicv

Perante esta situação, que considera preocupante, sublinhou que o PAICV, enquanto partido do arco do poder, tem a “grande responsabilidade” de alertar para aquilo que não estiver bem e apresentar propostas alternativas para fazer os cabo-verdianos voltarem a acreditar e a sonhar.

“O MpD ganhou as eleições a 20 de Março de 2016, mas nestes 18 meses de governação, o desencanto já é evidente e muitos que acreditaram no discurso ‘nha partidu é Cabo Verde’ hoje estão completamente desiludidos. O povo votou no MpD porque acreditou nas ilusões que lhes foram passadas, acreditou nas promessas populistas e demagógicas”, disse.

Por isso mesmo, afirmou que é este o momento do PAICV, na qualidade de principal partido da oposição, “cumprir a sua responsabilidade moral e patriótica de apresentar alternativas e fazer esse povo voltar a acreditar, que é possível governar com seriedade, ter sentido de Estado, patriotismo e, sobretudo, colocar os interesses de Cabo Verde em primeiro lugar”.

“É um ano importante em que estarão sobre a mesa várias reformas estruturais. Teremos de ter a capacidade, todos nós, de pôr os interesses partidários em segundo plano e colocarmos o interesse do país em primeiro lugar, adoptando as medidas, promovendo as reformas que forem necessárias ao país, com coragem”, disse.

As propostas, conforme adiantou, já estão a ser preparadas e abrangem os vários domínios importantes para país e para o bem-estar dos cabo-verdianos.

“Vamos ter o inicio do parlamentar agora. Estaremos a apresentar as nossas propostas em vários sectores da governação já na discussão da proposta de orçamento de Estado para 2018”, informou.

Janira Hopffer acredita que o PAICV, partido que saiu do poder em 2016, depois de 15 anos de governação, está hoje muito mais forte do que há cerca de dois anos e o trabalho que está a ser realizado deverá culminar nas vitórias em 2020 e 2021.

Aos simpatizantes e militantes do partido, a líder do PAICV deixou uma mensagem de encorajamento.

“Os desafios que nós temos neste momento são os de mobilizar a sociedade e para mobilizar a sociedade todos os militantes, amigos e simpatizantes do PAICV, todos os cabo-verdianos que querem o melhor para Cabo Verde tem de sair das sua casas, abrir as suas bocas e defenderem aquilo que é mais importante”, disse.

A cerimônia de abertura do ano político do PAICV teve lugar no Auditório Nacional, com casa cheia, e o discurso da presidente foi precedido das intervenções dos presidentes das Comissões Políticas de Santiago-Norte e Santiago-Sul, António Fernandes e Carlos Tavares, respectivamente.

 

http://www.expressodasilhas.sapo.cv/politica/item/55100-presidente-do-paicv-aponta-devolucao-da-esperanca-aos-cabo-verdianos-como-principal-desafio-do-partido

Boa noticia! Secretário Geral da ONU vê África um continente de esperança promessa e vasto potencial

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O Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse ontem que África é “um continente de esperança, promessa e vasto potencial”, preferindo esta abordagem em vez de olhar para a região “pelo prisma dos problemas”.

Num artigo de opinião, António Guterres refere que “muitas vezes, o mundo vê a África pelo prisma dos problemas; quando olho para a África, vejo um continente de esperança, promessa e vasto potencial”.

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No texto, que surge na sequência da sua participação na cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, que decorreu a 30 e 31 de Janeiro em Addis Abeba, António Guterres garante estar “empenhado em reforçar esses pontos fortes e estabelecer uma plataforma mais elevada de cooperação entre as Nações Unidas, os líderes e o povo da África” e diz que isso é “essencial para promover o desenvolvimento inclusivo e sustentável e aprofundar a cooperação para a paz e a segurança”.
O antigo primeiro-ministro português afirma no texto ter trazido da capital etíope um “espírito de profunda solidariedade e respeito”, mas também “um profundo sentimento de gratidão” pelo contributo africano para as forças de paz da ONU.
África “fornece a maioria das forças de paz das Nações Unidas no mundo; as nações africanas estão entre os maiores e mais generosos anfitriões de refugiados mundiais; em África estão algumas das economias com mais rápido crescimento do mundo”, salienta o antigo Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados.
“Deixei a cimeira mais convencido do que nunca de que toda a humanidade vai beneficiar-se ouvindo, aprendendo e trabalhando com o povo de África”, afirma Guterres, que sublinha que a prevenção é essencial para resolver os conflitos.
“Muitos dos conflitos de hoje são internos, desencadeados pela competição pelo poder e recursos, desigualdade, marginalização e divisões sectárias; muitas vezes, eles são inflamados pelo extremismo violento ou por ele alimentados”, lê-se no documento.
A prevenção, prossegue, “vai muito além de nos concentrarmos unicamente no conflito. O melhor meio de prevenção, e o caminho mais seguro para uma paz duradoura, é o desenvolvimento inclusivo e sustentável, defende.
O Secretário-geral da ONU diz não ter dúvidas “de que podemos vencer a batalha pelo desenvolvimento sustentável e inclusivo, que são também as melhores armas para prevenir conflitos e sofrimentos, permitindo que a África brilhe ainda mais de forma vibrante e inspire o mundo”. António Guterres deixou a 28.ª Cimeira da União Africana com um forte apelo para a mudança na forma como o continente berço da humanidade é caracterizado pela comunidade internacional, e com a promessa de apoiá-lo na construção do desenvolvimento e da paz sustentáveis.
Na cimeira de Addis Abeba, lamentou a forma como África é descrita na Europa, Américas e Ásia, denunciou o que chamou de “uma visão parcial de África” e disse ser preciso mudar a narrativa sobre o continente na comunidade internacional e que este deve ser reconhecido “pelo seu enorme potencial”.
O líder da ONU elogiou a União Africana pelo “trabalho muito importante em nome do continente”, manifestou “disposição total da ONU em apoiar plenamente as suas actividades” e destacou “o entendimento integral entre a ONU, a União Africana e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento sobre a necessidade de se trabalhar “numa só voz” para pacificar o Sudão do Sul.”
O novo paradigma no relacionamento entre a ONU e os africanos implementado por António Guterres levou o Alpha Condé, o Presidente da Guiné-Conacri e líder em exercício da União Africana, a convidá-lo a participar anualmente num pequeno almoço com Chefes de Estado e de Governo africanos em Janeiro.

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Para o Secretário Geral da ONU, estas ocasiões servem para interagir com líderes africanos e discutir “de forma muito significativa” as relações entre a União Africana e a Organização das Nações Unidas.

 

fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/antonio_guterres_ve_africa_como_esperanca