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Atitude de professor emociona a todos

Mudanças climáticas e segurança nacional

furaão na base de Tyndall

por Adriana Erthal Abdenur
Fevereiro 8, 2019
Imagem por Nasa

As chances crescentes de vendavais, enchentes e secas representam ameaças à segurança nacional não apenas no espaço terrestre mas também na costa

Em 2018, caças F-22 foram parcial ou totalmente destruídos quando o Furacão Michael atingiu a Base Aérea Tyndall, na Flórida. As aeronaves, que valem bilhões de dólares, estavam em solo para manutenção. O furacão, de categoria 4 na escala Saffir-Simpson (que vai até 5), danificou gravemente os hangares da base e boa parte do seu conteúdo.

O evento extremo chamou atenção para um risco que, até poucos anos atrás, sequer constava na lista oficial de ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos: o impacto das mudanças climáticas. Um relatório publicado pelo Pentágono em 2014 já havia alertado que o clima representa “riscos imediatos” para a segurança norte-americana, argumentando que medidas concretas de adaptação seriam necessárias.

Frequência e intensidade dos eventos meteorológicos e a elevação do nível do mar oferecem riscos. Já sabemos que dezenas de bases navais norte-americanas, sobretudo situadas em atóis e ilhas do Pacífico, são vulneráveis. Desastres como o Furacão Michael mostram que as políticas de adaptação colocadas em prática não foram suficientes, segundo novo relatório de defesa. Dois terços das instalações estão sob risco de inundação. Mais da metade é vulnerável a secas e incêndios florestais.

As mudanças climáticas já ameaçam instalações militares brasileiras. Em outubro de 2017, uma tempestade tombou uma aeronave Pantera K2 e danificou helicópteros, gerando estragos milionários na base do Comando de Aviação do Exército, em Taubaté. Os ativos militares brasileiros estão concentrados geograficamente. As chances crescentes de vendavais, enchentes e secas representam ameaças à segurança nacional não apenas no espaço terrestre mas também na costa.

As ameaças não se limitam aos danos materiais. As Forças Armadas no Brasil são importantes no desenvolvimento de áreas remotas e na assistência humanitária, inclusive em casos de desastres naturais e ao longo das zonas de fronteira. O agravamento de tais quadros requer planejamento de longo prazo para mitigação e adaptação. É necessária maior reflexão, inclusive do Ministério da Defesa, sobre como adequar políticas e instituições a essa nova realidade.

As mudanças climáticas se multiplicam e aceleram os conflitos armados por todo o mundo. Dado o histórico brasileiro de participação em operações de paz, tais impactos também são altamente relevantes para a política externa brasileira. Estudos já mostram que elas produzem desafios adicionais às missões de paz das Nações Unidas. Na região do Sahel, a desertificação vem acirrando disputas em torno da água, exacerbando a insegurança alimentar e contribuindo para o surgimento de grupos extremistas.

Furacão atinge o estado da Florida, EUA

 

O clima tem efeitos sobre os padrões de violência e tensões sociais também na América Latina. Nos Andes, o derretimento das geleiras reduz o volume de água de rios. Milhares de pessoas que vivem em vários países da região dependem desses rios, que irrigam terras bem além das áreas montanhosas. O próprio Amazonas nasce das águas de degelo do Nevado Mismi, ao sul do Peru. A América Central e o Caribe sofrem com o impacto de furacões. O Haiti, onde o Brasil teve expressiva atuação junto à missão de paz da ONU, é considerado um dos países mais vulneráveis do mundo às mudanças climáticas.

No Brasil, essa influência começa a ser compreendida. Na Amazônia, mudanças nos padrões pluviais afetam os padrões de seca e de inundações. Isso exacerba os conflitos em torno da terra, provoca enormes fluxos migratórios internos e contribui para crises hídricas em grandes regiões metropolitanas, tais como São Paulo. A mudança climática já ameaça os chamados “rios voadores,” correntes de vento que trazem umidade da Amazônia até a região centro-sul do Brasil.

No Cerrado, a elevação da temperatura pode estender o período de seca, reduzindo a cobertura de árvores e favorecendo as queimadas. Essas secas terão impacto de cada vez maior alcance, já que o Cerrado distribui águas para as principais bacias hidrográficas do país. Em todas essas regiões, infraestruturas críticas, desde hidroelétricas até instalações portuárias, podem sofrer danos irreversíveis em questão de horas em casos de eventos climáticos extremos.

O Ministério da Defesa organizou debates pontuais sobre os impactos das mudanças ambientais em contextos específicos, tais como as operações militares marítimas, terrestres e aéreas. A Política Nacional de Defesa menciona as mudanças climáticas uma vez: afirma que o fenômeno “tem graves consequências sociais, com reflexos na capacidade estatal de agir e nas relações internacionais”. O Livro Branco da Defesa sequer cita as mudanças climáticas. É necessária uma abordagem preventiva e transversal, que preze a cooperação internacional, a mitigação e adaptação de todos os setores da sociedade brasileira. Caso contrário, inclusive as Forças Armadas serão prejudicadas pela falta de preparo.

Quanto à política externa, a permanência do Brasil no Acordo de Paris permite que o país também coopere com outros Estados. Isso para o desenvolvimento, e também para a segurança nacional. Faltam, portanto, políticas e diretrizes que levem a sério o enorme impacto que as mudanças climáticas já surtem sobre os interesses nacionais, e os efeitos ainda mais graves que o fenômeno terá sobre a segurança durante as próximas décadas. As mudanças climáticas requerem uma visão a longo prazo, sob uma ótica de direitos humanos e fundamentada no planejamento sistemático e de precaução.

 

*Adriana Erthal Abdenur é da Divisão de Segurança e Paz do Instituto Igarapé.

Fonte:https://diplomatique.org.br/mudancas-climaticas-e-seguranca-nacional

Dra. Joy DeGruy ea síndrome pós traumática do escravo

Trabalhos Publicados

A Dra. Joy DeGruy é autora do livro intitulado Síndrome do Escravo Pós-Traumático: o legado de lesões e ferimentos duradouros da América , que aborda os impactos residuais do trauma em descendentes africanos nas Américas. Síndrome do Escravo Pós-Traumático estabelece as bases para a compreensão de como o passado influenciou o presente e abre a discussão sobre como podemos eliminar atitudes não-produtivas, crenças e comportamentos adaptativos e construir sobre as forças que ganhamos do passado para curar lesões de hoje.

Síndrome do Escravo Pós-Traumático: “O Guia de Estudo” é projetado para ajudar indivíduos, grupos e organizações a entender melhor as atitudes e comportamentos funcionais e disfuncionais que nos foram transmitidos através de múltiplas gerações. O Guia incentiva e amplia a discussão e as implicações sobre as questões específicas que foram levantadas no livro de PTSS e fornece as ferramentas práticas para ajudar a transformar atitudes e comportamentos negativos em positivos.

O Dr. DeGruy publicou numerosos artigos publicados em periódicos e desenvolveu a “Escala de Respeito aos Adolescentes Afro-Americanos”, um instrumento de avaliação destinado a ampliar nossa compreensão dos desafios enfrentados por esses jovens em um esforço para impedir sua sobre-representação no sistema judiciário.

Randall Robinson, Gil Noble, Al Sharpton e muitos outros elogiaram o livro. Susan Taylor, Diretora Editorial da Essence Magazine, diz que “A Síndrome do Escravo Pós-Traumático é um trabalho mestre… Seu livro é o bálsamo que precisamos para nos curar e nos nossos relacionamentos. É o dom da totalidade ”. Adelaide Sanford, Vice-Chanceler do Conselho de Regentes do Estado de Nova York, afirma que“ Dr. O fascinante e fascinante livro de Joy DeGruy é uma leitura vital para o nosso tempo … Com as poderosas palavras do Dr. DeGruy, podemos e iremos curar. ”

Além de seu trabalho pioneiro na teoria explicativa e livro, Síndrome do Escravo Pós-Traumático, ela desenvolveu um modelo de educação baseada na cultura para trabalhar com crianças e adultos de cor.

Escritos da Dra Joy DeGruy

Fogos de artifício

Os fogos de artifício estão sendo comprados na expectativa de ver explosões bastante coloridas. Um retiro momentâneo para pessoas grandes e para crianças, lembranças em formação. Eu não posso invejar ninguém em seu momento de paz … para me perder em halos brilhantes.

Enquanto nossa terra tremer de febre, então chora e vomita fogo, e enquanto a Mãe Natureza convulsiona em seu sono, a busca continua por “unabtainium” em asteróides flutuantes e Marte … Os primórdios da colonização terrestre …

Estamos entorpecidos? Paralisado de medo? Dúvida preenchida? Apático? Esperançoso? Quer permanecer neutro / politicamente correto? 
Mas as igrejas estão queimando! Embora ninguém esteja falando muito sobre isso … as pessoas estão sendo caçadas, as comunidades estão sendo desmanteladas, as diferenças entre os que têm e os que não têm se ampliam, os fanáticos e narcisistas disputam o cargo mais alto da terra para governar pessoas e objetos saqueados. perto e longe. E a característica mais distintiva de muitos desses novos candidatos a líderes é sua falta coletiva de integridade.

“Eles se apressam para o fogo do inferno e o confundem com a luz” (Gleanings)

Aproveite o quarto … Cuidadosamente

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Uma Preponderância de Evidências

Enquanto isso parece dolorosamente fútil, meu coração partido e minhas preocupações pesadas me levam a escrever, eu acho, numa débil tentativa de acordar o sono para uma tragédia iminente. 
Este problema de ‘racismo’, um problema perigosamente subestimado em sua magnitude “permitido drift” pelos governados e governadores ”está construindo em sua severidade e agora visivelmente ameaça as vidas das pessoas de ascendência africana especificamente e eventualmente todas as pessoas deste país. 
A “liberdade”, a base moral sobre a qual o condado é construído, foi cooptada pela barbárie humana, pela arrogância, pela vaidade e pelo excesso.
A violência contra os afro-americanos não é nova nem isolada. Os ataques que muitos de nós testemunharam ou experimentaram diretamente são sistemáticos e brutais envolvendo o Governo Federal, a Polícia, os Terroristas Vigilantes de longa data e os poderosos Grupos e Organizações Políticas, entre outros! 
“Crimes contra a humanidade são certos atos cometidos como parte de um ataque generalizado ou sistemático dirigido contra qualquer população civil. A primeira acusação por crimes contra a humanidade ocorreu nos Julgamentos de Nuremberg. Crimes contra a humanidade já foram processados ​​por outros tribunais internacionais.
Eles não são eventos isolados ou esporádicos, mas são parte tanto de uma política de governo (embora os autores não precisa identificar-se com esta política) ou de uma ampla prática de atrocidades (tolerada ou tolerada por um governo ou uma autoridade de facto.) 
Murder ; massacres; desumanização; extermínio; experimentação humana; punições extrajudiciais; esquadrões da morte; uso militar de crianças; sequestros; prisão injusta; escravidão; canibalismo, tortura; estupro; perseguição política, racial ou religiosa; e outros atos desumanos podem atingir o limiar de crimes contra a humanidade se fizerem parte de uma prática generalizada ou sistemática ”.
Da captura, estupro, espancamento, tortura, mutilação, experimentação médica e linchamento, assassinato pela polícia, encarceramento em massa, deslocamento em série e terrorismo de vigilância. 
Há uma preponderância de evidências de que houve e continua sendo um ataque perpétuo generalizado contra os afro-americanos. 
Crimes que precisam ser julgados nos ‘Tribunais Mundiais’ 
Você está acordado?

Rosas pretas em Atlanta

São seis da manhã e acabei de fazer as malas. Eu estou indo para casa depois de ter apresentado a mais de 300 estudantes da Clark Atlanta University na Biblioteca Robert W. Woodruff no meu aniversário. 
Foi realmente o meu público de sonho… jovens, entusiastas, talentosos estudantes universitários afro-americanos. 
Eu os admirava mais do que eles podiam imaginar. Eles vieram me ouvir e ficaram muito tempo depois conversando comigo sobre vários tópicos. Fiquei emocionada ao ver tantas mentes ansiosas e brilhantes dispostas e bem capazes de tomar seus lugares como líderes, como alguns dos lendários heróis dos direitos civis que estavam na sala haviam feito décadas antes. 
Eu gostaria que mais de nós pudéssemos ver essa juventude notável em vez da constante enxurrada de imagens negativas que são exibidas na mídia tradicional.
Rosas Negras todas elas carinhosamente nutridas e crescendo. Que maior presente eu poderia ter recebido do que aquela de inestimável esperança e potencialidades ilimitadas que me cercam na forma dessas preciosas “confianças”? 
Obrigado Imara e Hermione e Summer por sua ajuda e apenas o jeito! 
Indo para casa para o meu homem … Eu realmente amo dizer isso lol !!!

Se você não pode vencê-los, seja eles!

Se você não pode vencê-los, seja eles!

Quando comecei minha pesquisa sobre trauma multigeracional e afro-americanos, procurei uma mentora e uma colega, Dra. Maria Yellow Horse Braveheart. Eu havia lido vários de seus artigos sobre traumas históricos sobre o impacto do colonialismo sobre os povos nativos e a dor não resolvida com a qual eles continuam sofrendo. Eu nunca tinha visto ou falado com Maria, então quando ela atendeu o telefone de seu escritório no Colorado eu secretamente me pergunto se ela estava bem. . . REALMENTE. . Nativo. Nós compartilhamos nossas sutilezas iniciais e sendo a pessoa surpreendente que ela é ela disse abruptamente: “Você está se perguntando se eu sou um verdadeiro índio”, ela riu e disse: sim Alegria eu sou um verdadeiro índio e eu ainda pareço indiano! “

Maria soube instantaneamente o que eu estava pensando e sentindo porque, como muitas de nós, havia encontrado a pessoa branca declarando subitamente o sangue indiano.

Eu não posso contar as inúmeras vezes que eu conheci uma pessoa de olhos azuis de cabelos loiros que de repente descobriu que eles possuíam um smidgeon de sangue indiano e prontamente saíram e compraram jóias turquesa, trançaram seus cabelos, e apareceram na sede da Tribal. Conversei com muitos dos meus amigos nativos sobre esse fenômeno “repentinamente indiano” e eles me conheceram com literatura que esclareceu as coisas para mim. Eu vou compartilhar um pouco com você!

E os não-índios que afirmam ser descendentes de princesas indianas?

Em um trecho de Custer morreu por seus pecados: Um Manifesto Indígena, nativo americano, Vine Deloria Jr. explica o fenômeno: 
Durante os meus três anos como Diretor Executivo do Congresso Nacional dos Índios Americanos foi um dia raro quando alguns brancos não visite meu escritório e orgulhosamente proclame que ele ou ela era descendente de índios.

Cherokee foi a tribo mais popular de sua escolha e muitas pessoas colocaram os Cherokees em qualquer lugar do Maine ao estado de Washington. Mohawk, Sioux e Chippewa eram os próximos em popularidade. Ocasionalmente, me contavam sobre uma tribo mítica da Baixa Pensilvânia, da Virgínia ou de Massachusetts, que gerara a posição branca diante de mim.

Às vezes me tornei bastante defensivo sobre ser um Sioux quando essas pessoas brancas tinham um pedigree que era muito mais respeitável que o meu. Mas acabei entendendo a necessidade deles de se identificar como parcialmente indianos e não se ressentir deles. Eu confirmaria suas histórias mais selvagens sobre seus ancestrais indígenas e acrescentaria alguns contos de minha própria esperança de que eles seriam capazes de se aceitar um dia e nos deixar sozinhos.

Os brancos que reivindicam sangue indiano geralmente tendem a reforçar as crenças míticas sobre os índios. Todos, exceto uma pessoa que eu conheci que reivindicou sangue indiano, reclamaram do lado de sua avó. Certa vez fiz uma projeção e descobri que, evidentemente, a maioria das tribos era inteiramente feminina nos primeiros trezentos anos de ocupação branca. Parece que ninguém queria reivindicar um índio macho como um ancestral.
Não é preciso muito discernimento sobre as atitudes raciais para entender o verdadeiro significado do complexo da avó indiana que atormenta certos brancos. Um ancestral masculino tem muito da aura do guerreiro selvagem, o primitivo desconhecido, o animal instintivo, para torná-lo um membro respeitável da árvore genealógica. Mas uma jovem princesa indiana? Ah, havia royalty para a tomada. De alguma forma, o branco estava ligado a uma casa nobre de gentileza e cultura, se sua avó fosse uma princesa indiana que fugiu com um intrépido pioneiro. E a realeza sempre foi um objetivo inconsciente, mas que tudo consome do imigrante europeu.

Os primeiros colonos, acostumados à vida sob déspotas benevolentes, projetaram sua compreensão da estrutura política européia sobre a tribo indígena na tentativa de explicar sua estrutura política e social. As casas reais européias estavam fechadas para ex-presidiários e servos, então os colonos fizeram todas as princesas das donzelas indianas, e então começaram a subir uma escada social de sua própria criação. Dentro da próxima geração, se a tendência continuar, uma grande parte da população americana acabará por se relacionar com Powhattan.
Enquanto uma verdadeira avó indiana é provavelmente a melhor coisa que poderia acontecer a uma criança, por que uma princesa indiana remota é tão necessária para muitos brancos? É porque eles têm medo de serem classificados como estrangeiros? Eles precisam de um laço de sangue com a fronteira e seus perigos para experimentar o que significa ser um americano? Ou é uma tentativa de evitar enfrentar a culpa que eles carregam pelo tratamento do índio? 
Vine Deloria Jr. Autor, teólogo, historiador e ativista (1933 – 2005 
Privilege em seu pior…) 
Em 25 de outubro de 1994, Susan Smith, uma psicopata completa, conseguiu engajar a nação em um frenesi emocional, recrutando agentes da lei para lançar um homem nacional caçar um negro fictício que ela alegou ter raptado seus filhos de 3 e 14 meses.
Choramingou na televisão nacional pelo agressor negro para devolver seus filhos inocentes. Esboços do raptor foram rapidamente produzidos e dois suspeitos negros foram eventualmente identificados. 
Esta mulher era traiçoeira e bárbara o suficiente para matar seus próprios filhos, amarrando-os em seus assentos de carro e afogando-os em um lago próximo. Nenhum ser humano não se angustia com o terror que deve ter experimentado. Mas como ela conseguiu esse poder? A resposta simples é “privilégio branco”.
Estamos realmente vivendo em tempos estranhos e bizarros e meu palpite é que vamos ver um comportamento muito mais estranho. Recentemente uma mulher branca alegou ser negra a ironia desta história é. . .espere por isso. . . espere por isso . . . ela provavelmente seria capaz de usar seu privilégio branco para ganhar sua reivindicação em um tribunal hoje. 
O que eu vejo é uma obsessão crescente e perigosa com o corpo físico que alguns podem oferecer ao “medo da morte” como um fator causal proferindo o último conflito humano de mortalidade como principal protagonista neste drama. 
Eu sinto que estou vivendo em algum lugar entre o Mágico de Oz e a vila de contos de fadas dos Imperadores New Clothes. O cordão foi puxado para trás e consigo ver o homem triste e assustado que se esconde atrás da cortina e o homem nu convencido de que está usando roupas.
Eu entendo o Mago e o Imperador, mas estou ligado a outro lugar, talvez um lugar ainda mais difícil de imaginar ou acreditar, o verdadeiro Never, Never Land, um lugar chamado. . . Realidade! 
O fim

Na memória de Malcolm:

marroquino

Minha viagem ao Marrocos, África e Barcelona, ​​Espanha, foi verdadeiramente inspiradora, onde o antigo, o novo e o antigo se combinam para produzir um mapa pitoresco da história. Ambos os lugares compartilham legados de conquistas, colonização, desestruturação, reconstrução e renovação.

Mais uma vez, eu estava na África e mais uma vez toquei o solo do misterioso continente que tanto amo e desejo.

A cultura marroquina é uma mistura de influências indígenas berberes, subsaarianas, árabes e européias. Intensamente orgulhoso, corajoso e desesperado.

Barcelona fundada por volta do século III aC. dito para ser nomeado após o pai de Aníbal, (Hamilcar Barca), em seguida, levado por Roma na Idade Média.

A Espanha é povoada por pessoas da Catalunha do Paquistão, Itália, China, Equador, Bolívia e Marrocos. Há uma consciência tácita do cabo-de-guerra cultural que existe, mas o espaço é dado àqueles “diferentes” para se moverem e viverem com cautela.

Ambos os países são ricamente diversificados, mas ainda lutam com questões de identidade cultural e inclusão. Mas essas tensões dificilmente são percebidas pelo turista desconhecido no solo.

Minha tripulação foi bem recebida onde quer que estivéssemos, os poucos olhares cautelosos que recebemos vinham apenas de turistas.

De volta para casa eu ainda estou brilhando com o calor da minha viagem, mas logo recebi com os tão familiares males sociais da América, novos novos casos de violência, racismo e loucura de sua variedade de jardim. As tensões são palpáveis, mas a negação ainda está em alta. 
Lembro-me de repetidas advertências à América de que se as questões raciais entre negros e brancos 
puderem se desviar … 
“… isso fará com que as ruas das cidades americanas corram com sangue …” ~ Cidadela da Fé ~

Pode algum observador honesto não ver a evidência de nossa negligência? As décadas de convulsões raciais? O sangue literal correndo pelas ruas como resultado direto de um verdadeiro racismo estrutural, institucional e desenfreado?

Pergunte às famílias de Emmet Till, Martin Luther King Jr., Medgar Evers, Martin Trayvon, Jordan Davis, Eric Garner, Michael Brown, Tamir Rice, Walter Scott e as inúmeras outras famílias de homens negros, mulheres e crianças cujo sangue fluiu literalmente na rua … eles dirão a verdade que muitos ignoraram ou negaram.

Talvez tenhamos ficado tão acostumados a ver o “sangue negro” sendo derramado que essa tragédia passou despercebida. Estamos no precipício com mudança de alcance, uma mudança paradigmática na forma como nos envolvemos uns com os outros como seres únicos neste planeta é perceptível ainda “Travail and sorrow” aguarda. 
É sempre mais escuro antes do amanhecer e, em antecipação ao amanhecer de amanhã, os pássaros começaram a cantar. 
É hora de levantar!

Lembre-se, lembre-se …

Eu nasci em 1957 e em apenas alguns dias vou ter 57 anos, quando minha mãe morreu quando morreu. Talvez seja por isso que estou me sentindo muito e prestando muita atenção às coisas que estão acontecendo ao meu redor e no mundo. 
Tenho pensado sobre meus filhos e os filhos de outras pessoas, ouvindo sobre muitos dos desafios nacionais e globais que enfrentamos. Eu posso ver e até mesmo ouvir o gemido da terra que está verdadeiramente cansado de nós … 
E eu me pergunto se nós preparamos adequadamente aqueles que vêm depois de nós … para assumir o comando. Estou tão empolgado com a energia deles e visões do futuro. Seu conhecimento e arte sua coragem e tenacidade!
Que mundo eles herdaram tão avançado e fantástico capaz de coisas tão maravilhosas e ainda assim sempre precisando de heróis e heroínas para resgatá-lo, um mundo aparentemente sempre na linha entre a sombra e a luz oscilando à beira do precipício … 
Eu montei minha ando de bicicleta 10 milhas hoje e sorri enquanto o vento me refrigera do sol da Califórnia e da seca, me deixando esquecer os incêndios que estão ocorrendo nas proximidades… Todo o tempo ouvindo Roberta Flack cantar “A primeira vez que vi seu rosto” 
Então aqui está Meu aniversário Desejo àqueles a quem eu desajeitadamente entreguei o bastão: 
Fique atento. Comemore, sirva e ensine diariamente, seja Keepers da música! Saiba que rir é terapêutico, amar e cuidar de si mesmo e dos outros e encontrar alguém com quem caminhar o caminho da vida. 
Sempre – 
Lembre-se deles …
Lembre-se de nós… 
Lembre-se do que tantos de nós esquecemos… Esse “Amor” é o poder ilimitado que cria e restaura, que nos mantém e une os átomos do universo, sem composição e, portanto, indestrutível. 
Por causa do amor você nunca estará sozinho. 
… Sempre a 
alegria

Seja ainda e saiba ...

Seja ainda e saiba …

Seja ainda e saiba. . .

Meu prato está cheio e as tarefas à frente estão girando em torno de mim. Alguns como algo me disse para parar! Para ficar quieta e o que aparecia diante de mim e dentro de mim era uma lembrança de paz e conhecimento tranquilos. Veio como um beijo carinhoso na minha bochecha e uma brisa quente me lembrando do que é mais importante. . . amor tornado visível através de nossos “esforços e finais”.

A verdade é um ponto único

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A verdade é um ponto único

“O conhecimento é apenas um ponto, mas o ignorante o multiplicou.” 
(The Seven Valleys p. 25,)

Eu estava explicando a um amigo outro dia sobre o conceito de Kuhn da estrutura das revoluções científicas. Eu estava mais focado na ideia de como as mudanças de paradigma ocorrem. Parece que os seres humanos são tão resistentes à mudança que se comportarão de maneiras muito peculiares quando confrontados com informações que conflitam com sua experiência e compreensão limitadas. Por exemplo, Giordano Bruno foi torturado e queimado até a morte por suas crenças sobre um universo expansivo. Outros com grande gênio são demonizados ou deliberadamente removidos da literatura ocidental, como Imhotep, o africano responsável pelo primeiro edifício de pedra monumental do mundo conhecido, a pirâmide de degraus e o pai da medicina.

Mesmo quando confrontados com fatos claros e inegáveis, os seres humanos evitam as verdades que os assustam. Quando foi a última vez que você esteve em uma reunião onde bandejas de cinzas estavam sobre a mesa e indivíduos liberavam cigarros? Ainda me lembro de estar em tais reuniões. Hoje, haveria um ultraje tão coletivo que ninguém se atreve a expor as pessoas a tais perigos de saúde flagrantes. Mas o que é necessário para que uma mudança nas crenças e ações ocorra? Claramente, não é suficiente simplesmente compartilhar alguns fatos e evidências apenas. Não, precisa haver uma preponderância de evidências! Em outras palavras, tanta evidência é impossível refutar. Esse conhecimento torna-se tão profundo e penetrante que força uma mudança de paradigma em nosso pensamento e, finalmente, em nossas ações e comportamento.

Enquanto não dormia em Minnesota, decidi olhar meus e-mails. Duas pessoas me enviaram mensagens abordando questões idênticas com links para vários vídeos totalmente diferentes sobre o tema das desigualdades estruturais historicamente impostas aos afro-americanos em geral e aos homens negros especificamente. Os vídeos mostravam homens e mulheres, brancos e negros, acadêmicos, jornalistas, atores e até astrofísico. E todos eles estavam dizendo a mesma coisa sobre raça e racismo na América.

Será que as massas não coloridas da América finalmente despertaram para uma verdade tão dolorosamente óbvia e visivelmente clara para as pessoas de cor? É possível que uma mudança vagamente perceptível esteja ocorrendo no pensamento dos brancos na América sobre o racismo? Enquanto sou encorajado, estou bem ciente de quanto tempo levou a humanidade a não ser o fato de que a Terra não era o centro do universo e quantos milhões de mortes por fumar ocorreram antes que a indústria do tabaco admitisse o que sempre souberam sobre a doença. perigos do tabagismo. E agora há todo o debate sobre o aquecimento global que está aumentando, e o tempo todo o planeta está gritando ‘salve-me!’

Eu estou ao lado de tantos que estão exaustos em levantar a verdade sobre o racismo e os danos que isso causa a todos os cantos do país, de faculdades e universidades, a corporações e prisões, do Senado aos púlpitos, de palácios a esquinas. Eu divago … Talvez seja a minha falta de sono ou a percepção frustrante de que alguns ainda têm a opção de reconhecer, negar, perverter ou simplesmente ignorar a verdade. Eu não vou, não posso …

E quanto a você?

Um sinal dos tempos

Um sinal dos tempos

Eu estava sentado em uma peça quando recebi o telefonema do meu filho que o veredicto estava em e eu poderia dizer que ele não estava bem. Saí do meu lugar e entrei no saguão para tentar descobrir o que dizer a ele. Este seria um momento que todos nós nunca esqueceríamos. As toneladas de respostas, a angústia e os protestos aumentaram até o ponto de ebulição e o pote ainda está fervendo. Muitos descreveram a sensação de serem pegos de surpresa, mas acho que fomos todos esquecidos ; esquecendo-nos e esquecendo nossa história. ”

Em pé ao sul das estrelas e listras, há um povo que há muito sofre, é torturado e desprezado. Nós nos movemos e agimos como se não acreditássemos que é assim. Continuamos com nossas vidas diárias tentando nos convencer de que o passado não importa mais, que estamos seguros agora. Talvez seja o bairro de classe média ou o nível de educação que fornece essa fina camada de confiança para alguns. Eu não vou enlamear as águas adicionando mais uma avaliação do caso ou, os detalhes em torno dele. Eu sofri como uma mãe e como um estranho muito longe para saber como era a verdadeira dor.

Uma família que buscava e merecia justiça tornou-se peões em um jogo de xadrez que eles nem sabiam que estavam jogando. Adicionar minha opinião à discussão agora seria infrutífera, é como participar daquela temida reunião da força-tarefa para discutir as razões da reunião da força-tarefa a fim de determinar a tarefa real da reunião da força-tarefa, para nunca realmente completar a tarefa. A maioria de nós já “esteve lá” antes de alguma forma ou forma e é uma perda de tempo e, neste caso, um desperdício de vida.

Os americanos foram amamentados com base no racismo, desce com o leite e reagimos com surpresa quando vemos as evidências disso no mundo e em nossas próprias vidas. Estamos andando no grande Titanic que é a América e nos recusamos a acreditar que estamos indo para baixo. Que vergonha Nossos filhos precisam muito mais do que o que estamos dando a eles. Nós irresponsavelmente os enviamos para um campo de batalha de uma guerra furiosa sem armadura. Ainda os preparamos para a escola; nós os preparamos para esportes e os preparamos para o trabalho. Em uma palavra, somos responsáveis ​​por prepará-los para a vida!

No entanto, se quisermos ser bons mordomos dos jovens, pais cuidadosos e adultos maduros de que nossos filhos precisam em sua aldeia, não podemos simplesmente prepará-los para as tarefas comuns. Também devemos prepará-los para resistir ao ataque do terrorismo, à ilegalidade, ao ódio e à decadência moral que se tornou uma parte muito importante do mundo que eles estão herdando. As pessoas estão me perguntando o que estou fazendo pessoalmente sobre a crescente crise; Eu vejo todo mundo colocando os dedos dos pés e das mãos no dique rachando da América o tempo todo chamando por mim dizendo: “Dr. Alegria! Venha colocar os dedos no dique para ajudar a reter a água! 

Eu digo a eles que não posso. Ofereço-lhes apoio e encorajamento em suas tarefas, mas recuso-me a colocar meus dedos das mãos e dos pés em um dique que está além do reparo.

Eu estou, junto com outros, tentando construir um novo edifício para conter o fluxo de racismo que é, e sempre foi, sobre nós. A nova estrutura precisa de toda a nossa ajuda para construir e requer melhores materiais; é construído de compromisso inabalável, e vem de conhecimento e sabedoria, habilidade, entusiasmo insaciável, organização e destemor.

Toda grande civilização tem seu começo, seu pico e, inevitavelmente, sua queda. A questão é … que horas são para a América? Quais são os sinais nos dizendo? A resposta a essa pergunta determinará o caminho que todos devemos seguir. Ainda assim, em meio ao tumulto recente, a indignação e alarme, as vítimas e seus vitimizadores, o fluxo constante de revoltas e tristeza sobre tudo o que estava perdido, um raio de luz apareceu para mim em um lugar imprevisto e no momento perfeito no tempo.

Recebi uma mensagem do meu neto de 10 anos. Ele me enviou uma foto de um lagarto, porque ele realmente ama lagartos. Ele estava animado por tê-lo visto com suas marcas coloridas antes de se afastar para um lugar de segurança. Parou apenas o tempo suficiente para ele tirar a foto como um farol, para lembrar as pessoas como eu que não acabou! Beleza e terror coexistem juntos e de alguma forma nós sobrevivemos.

Eu me vi entre dois mundos – o de uma crise nacional e global prestes a explodir, e o mundo de um garoto de dez anos que ainda vê a ordem e o encanto no caos. Um menino cujas esperanças e sonhos estão sempre presentes e em crescimento, cujo coração permanece imaculado pela fealdade que o circunda e apesar da história comum que une o tirano e os oprimidos.

Esta pequena criatura lutando era um lembrete e uma mensagem de advertência que todos nós devemos segurar como muitos heróis e campeões de muito tempo atrás, cujo sangue agora percorre as veias do meu neto doce.

Eu escrevi de volta para ele e disse: “Sim, Nasir! Na verdade, é um lindo lagarto.

Um Ensaio pelo Grande Grande Sobrinho de 10 Anos da Alegria

O seguinte é um ensaio que o grande sobrinho de 10 anos de Joy escreveu e queria compartilhar.

 

Na minha opinião, uma mulher forte é alguém que ajuda as pessoas, alguém que luta pelo que está certo, apesar dos obstáculos, e alguém que é cheio de coragem. A definição do dicionário de forte é ter força ou autoridade ou ter força maior que a média. Acredito que a Dra. Joy DeGruy é uma mulher forte porque demonstrou muitas dessas qualidades em sua vida e, acima de tudo, através de sua pesquisa e trabalho.

Dr. DeGruy é um pesquisador, autor e educador renomado nacional e internacionalmente. Ela é um clínico por formação e tem um PHD em pesquisa de trabalho social. Ela é pioneira em seu campo, e sua pesquisa é sobre “traumas multi-geracionais, especialmente no que se refere ao povo afro-americano”.

Com base em seu trabalho e pesquisa, ela publicou um livro que falava da Síndrome do Escravo Pós-Traumático (TEPT). Em minha entrevista com ela, o Dr. DeGruy explica que o PTSS é “sobre trauma multi-geracional que começou com a escravização dos africanos em 1600 e os tipos de traumas mentais, emocionais e físicos que eles experimentaram, que eles repassaram alguns daqueles traumas, alguns dos comportamentos ou os sintomas desses traumas para seus filhos … ”Seu trabalho ajudou pessoas afro-americanas e pessoas que trabalham com afro-americanos a aprender sobre esses traumas e entender alguns dos comportamentos sem“ descartá-los ou julgá-los ”.

De acordo com o Dr. DeGruy, “PTSS identifica como as pessoas (afro-americanos) foram profundamente feridos mentalmente, emocionalmente e espiritualmente por mais de centenas de anos.” Dr. DeGruy explica que sua pesquisa em PTSS ajuda os afro-americanos a entender seu valor intrínseco e a nobreza como seres humanos ”e“ ajuda-os a superar esses sentimentos de baixa auto-estima ”.

A Dra. DeGruy ajuda as pessoas porque ela diz que é sua forte crença espiritual que, como membro da fé bahá’í, é uma de suas responsabilidades ajudar as pessoas. Ela também diz que está cumprindo seu propósito na vida através de seu trabalho ajudando os outros.

Ela me inspira porque ela abriu o caminho para uma nova maneira de pensar sobre trauma relacionado a afro-americanos e ela está tentando ajudar a curar as feridas dos afro-americanos que aconteceram ao longo de muitas gerações.

Estou muito orgulhoso dela.

Ela é corajosa para falar sobre este assunto, embora seja muito difícil para muitas pessoas entenderem especialmente o que está acontecendo na história do povo afro-americano. Ela não parou e eu não acho que ela vai parar por muito tempo.

A Dra. DeGruy também é da família e é uma das minhas tias mais adoráveis.

– Akhil

Lembrando…

 

“Direito temporariamente derrotado, é mais forte que o mal triunfante.”

Martin Luther King jr.

 Já passou da meia-noite e voltei de uma jornada cansativa, mas memorável. O dia começou com uma viagem para a Carolina do Sul para falar na celebração anual MLK das Organizações dos Ministros do Condado de Anderson. Eu me ofereci para falar em nome do United Negro College Fund. Eu escutei o Coro da Juventude cantar e fiquei com a platéia enquanto cantávamos o Hino Nacional Negro juntos. Enquanto aguardava a minha vez de falar, meus pensamentos voltaram ao início do dia e à posse do presidente Barack Hussein Obama. Eu escutei um Comandante e Chefe mais velho e libertado que, de todas as aparências, estava finalmente dando sua palavra.

Fiquei impressionado com a esperança, a diversidade e a excitação unida enquanto observava uma multidão enfeitiçada olhar admirada com o que parecia um momento congelado na história. Um homem afro-americano que cumpria um segundo mandato como presidente dos Estados Unidos era de fato histórico. No entanto, aqui estava eu ​​na Carolina do Sul, o único Estado que 236 anos atrás se recusou a votar para acabar com a escravidão na Convenção Constitucional de 1787, permitindo que a escravização e o sofrimento de milhões de africanos continuassem, enquanto insistia que eles pudessem contar os escravos. como residentes, a fim de reunir mais poder político para continuar sua prática bárbara.

Fiquei imaginando quantas pessoas nessa audiência de mais de mil pessoas estavam cientes da história de seu estado. De alguma forma, senti uma desconexão; Era como se as várias gerações diferentes na sala não soubessem o que as unia. Eu pensei que talvez eu pudesse ajudar a preencher a lacuna, mostrando um fio comum, que ligava o passado com o presente e o futuro. Uma tarefa difícil de cumprir em um discurso de vinte minutos e um desafio muito maior para mim do que qualquer palestra que eu já tivesse feito.

Senti um peso no coração enquanto olhava para o filme do falecido Dr. Martin Luther King Jr. Fiquei imaginando como ele conseguiu continuar quando estava cansado e com medo. Eu seria negligente se não reconhecesse as longas batalhas pela liberdade, a luta incessante e a recusa de desistir mesmo diante da morte. Ainda assim, nunca senti tal dissonância; por um lado, sou grato por aqueles que ficaram nas cidades dos rifles e, por outro lado, sinto-me dolorosamente consciente da tênue corda bamba da justiça e da liberdade que meus filhos e netos agora andam.

Relembrando, lembrei-me de minha avó, como seu rosto se iluminava cada vez que ela me olhava como se eu fosse o maior presente que ela já recebera e eu soubesse desde o começo que era amada e que havia muita coisa esperada de mim. Agora eu estava sendo apresentado e o que eu achava que seria uma simples leitura da pequena biografia no programa impresso se transformou em uma recitação embaraçosa do meu currículo, o resultado de muita informação on-line. Eu implorei ao MC para intervir, mas eu apenas tive que sorrir e aguentar. Parecia pretensioso e arrogante e eu me encolhi a cada minuto extraordinariamente longo.

Eu me aproximei do pódio, olhei para a multidão e soube instantaneamente que não ia mostrar um único slide da minha apresentação em power point totalmente preparada. Esta noite eu ia simplesmente compartilhar minha história. Não é nenhum mistério como eu me tornei um contador de histórias e tudo começou num dia quente de verão, quando estávamos jogando beisebol no nosso quintal. Eu era pequena demais para segurar o bastão para que papai batesse para mim e eu corresse as bases. Estávamos dando um tempo, mamãe trouxe limonada e papai estava em pé ao sol, apoiado em seu bastão, quando de repente ele começou a recitar o famoso poema de beisebol “Casey at the Bat”. Perdi toda a consciência de qualquer coisa ou alguém, eu só podia veja papai, Casey e todas as pessoas nas arquibancadas. Fui transportado para outro local e tempo e nesse momento a trajetória da minha vida mudou e o resto é história.

Foi um dia longo e incrível e estou vazio. Espero ansiosamente por um sono repousante que reabasteça minha força e espírito, para que amanhã eu esteja apto a servir com distinção e coragem, seja qual for o desafio.

Alguns dizem, e muitos acreditam, que com esta eleição presidencial os EUA receberam um breve alívio, uma segunda chance para acertar e curar; para manter a retaliação por seus pecados não resolvidos. . . Eu suponho que isso continua a ser visto.

Lembrando. . .

Alegria

A verdade do evangelho

Não importa quem você é, ou quais são as suas crenças, ninguém pode negar a emoção que cada um de nós sente cada vez que ouvimos Nat King Cole cantar “A Canção de Natal: Castanhas Assadas em um Fogo Aberto.” Não é só a música, ou mesmo as palavras. É o espírito corporificado por aquela voz melodiosa e inconfundível que nos move a todos; Independentemente das nossas origens, experiência, classe ou raça, a música realmente “eleva” o campo de jogo porque é uma linguagem que todos podem entender. Como a oração, seja realizada ajoelhada, curvada ou de pé, com as mãos juntas, ou palmas voltadas para cima, quer sejam ditas em silêncio, sussurradas, ditas ou cantadas, elas comunicam o mesmo sentido de devoção e fé.

09 de dezembro th2012 seria a primeira vez que eu participaria do programa Gospel Christmas do Oregon Symphony. Este foi também o primeiro ano em que as famílias afro-americanas que participaram de um programa local de Portland focado em curar a família negra foram convidadas a comparecer. Embora a maioria das famílias que convidamos para a Sala de Concertos de Arlene Schnitzer provavelmente tenha passado pelo local em algum momento, a maioria das famílias nunca teve a oportunidade de assistir a um evento lá ou assistir ao show do Oregon Symphony. As famílias negras provavelmente tinham visto as filas de pessoas, em sua maioria brancas, vindas de todas as direções, vestidas elegantemente em vestidos brilhantes e smokings comprados apenas para tais ocasiões. Eles podem até ter sido esbarrados por mais que alguns dos freqüentadores da sinfonia que correram para o grande salão alheios aos transeuntes.

Hoje à noite, porém, eles estavam entre os convidados da sinfonia. E elesChegou lindamente vestido, animado e com antecipação de uma noite maravilhosa. Ainda assim, era possível detectar alguma inquietação quando olhavam em volta para os olhares vazios vindos de pessoas que pareciam surpresas ao vê-los ali. Alguns participantes mais regulares da Symphony pareciam até assustados com a presença dessas famílias negras, parecendo confusos como se estivessem vendo uma foto fora do lugar. O desconforto que as famílias sentiam começou a diminuir à medida que chegavam mais rostos familiares. Uma a uma, as famílias começaram a saudar, rir e conversar calorosamente – quase inconscientes das multidões de freqüentadores regulares, algumas com colares de diamantes e anéis com pedras tão grandes que dificilmente poderiam passar despercebidas; muito o ponto que eu imagino.

Uma vez lá dentro, a música começou, todos entraram em silêncio. O maestro foi o compositor e performer realizado Charles Floyd, um homem afro-americano originalmente de Chicago. Ele ergueu seu bastão da maneira habitual e o repertório de clássicos do evangelho que se seguiu levaria o público a uma jornada mágica.

O Sr. Floyd recrutou alguns dos talentos negros locais de Portland, muitos dos quais eram vocalistas, compositores e músicos bem-sucedidos, e seu desempenho era nada menos que incrível e brilhante!

Now our black families felt very much at home; the music transported them to a familiar and safe place so they stood up from their seats, closed their eyes and held their hands high as they listened, unconcerned and scarcely aware of those around them.  Soon I began to see more of them sprinkled throughout the hall standing like the only remaining trees that had survived a major storm, bending and swaying with the wind instead of being broken by it.  They clapped and shouted in the customary black call and response tradition.

Minha família sentou-se na sacada, onde minha neta de 2 anos e meu neto de nove meses adoraram juntar-se a todos batendo palmas minúsculas ao final de cada música. mais pessoas continuaram a subir de seus assentos para balançar para trás e para a música. Quando minha família ficou de pé e aplaudiu durante, e não depois , as canções, as pessoas sentadas na fila à frente frequentemente olhavam para trás como se estivessem confusas com nossos aplausos espontâneos e começaram a sussurrar nervosamente umas para as outras.

No começo eu pensei que eles estavam ficando irritados com a animação que vinha da nossa fila, mas notei que eles estavam cautelosamente olhando pela sala e depois de um tempo eles lentamente começaram a se levantar e bater palmas, alguns até começaram a cantar junto. Parecia que sua aparência nervosa e tagarelice era a busca por “permissão” para agir fora de sua norma. Eles estavam esperando por algo que os sancionasse a expressar-se externamente, o que eles estavam sentindo internamente. Sem dúvida para muitos, isso foi tanto uma anomalia cultural e religiosa, um enorme afastamento de seu culto de adoração dominical típico, onde o comportamento de alguém é refletir um frescor calmo de maneiras, especialmente quando o coro canta.

A meio caminho de “Vá contar na montanha” quase todo mundo estava de pé batendo palmas, cantando e balançando. A solista sabia como nos trazer para casa e foi exatamente isso que ela fez! Mesmo o Condutor incomumente ‘composto’ não conseguia esconder suas emoções enquanto lutava para falar.

Nós naquela sala compartilhamos uma verdade naquela noite, uma verdade que desafiou a retórica de inferioridade e superioridade, de crença e incredulidade, de medo e de coragem. No entanto, é provável que ele não seja revelado e continue sendo um segredo mantido pelos detentores de ingresso mais experientes, ainda cautelosos com a desaprovação de seus parentes e amigos.

Mas não se preocupe, como MLK disse:

“A verdade temporariamente derrotada sempre será mais forte que o mal triunfante”

Hoje reflito sobre essa maravilhosa experiência compartilhada de música e espírito à luz de tragédias ocorridas em casa e no exterior e sou grato por aquela noite, onde a devastação das doenças, a corrupção de mulheres e meninas, o assassinato de criancinhas e tudo mais. a fealdade severa do mundo foi mantida à distância. . . se apenas por um curto período de tempo.

Sua irmã

Alegria

A mulher impar e a mosca do dragão

A mulher impar e a mosca do dragão

Duas coisas distintamente diferentes, mas comoventes, aconteceram comigo hoje, eu estava voltando para casa e para evitar o tráfego da auto-estrada, eu tomei as ruas. Foi uma decisão sábia. As ruas estavam claras na maior parte do tempo, o sol estava se pondo, e eu aproveitei a brisa fresca que entrava pelas janelas enquanto eu dirigia.

Havia cerca de dois carros à minha frente, então reduzi a velocidade um pouco e, de repente, à minha direita, estava uma mulher que parecia estar de meia-idade com um rosto envelhecido tão vermelho quanto uma beterraba me encarando. Ela parecia enfurecida e estendeu o dedo do meio na minha janela, seguida pela palavra profana que definiu seu gesto. Fiquei assustada, mas sem me mexer com o comportamento dela, pois ficou bem claro, no breve momento de passar por ela, que ela não estava “toda lá”. Era óbvio que ela estava direcionando sua raiva para mim, mas seus olhos pareciam fixos em outra coisa, como se ela estivesse olhando através de mim para um adversário logo atrás ou atrás de mim.

Eu descreveria seu olhar como um olhar de loucura em oposição à raiva. Depois de cerca de um quarteirão, decidi me virar para observar se ela continuava agitado e, de fato, ela estava. Só agora ela estava balbuciando para si mesma e andando rapidamente. Logo à frente, vi um grupo de crianças andando em sua direção, então diminuí a velocidade e distraí-la o tempo suficiente para as crianças passarem, escapando de sua atenção.

Eu não tinha certeza do que mais deveria fazer, afinal, ela poderia ter sido inebriada ou simplesmente irritado com alguém. Mas talvez fosse algo mais, algo que pudesse levá-la a pisar na frente de um carro ou do trilho leve, ou empurrar alguém na frente de um. Eu decidi ligar para a polícia e compartilhar o que eu tinha testemunhado e deixar a critério deles agir ou não. Eu não estava tentando “ser um bom cidadão” e relatar qualquer atividade ou comportamento incomum. Eu estava agindo fora do meu intestino, conselho que meu pai me deu há muito tempo. “Confie em seu instinto Joy”, ele diria, “pode ​​salvar sua vida um dia”.

Eu estava pensando sobre o que acabara de acontecer quando cheguei em casa. Eu estava decidindo se escrever sobre isso quando notei um enorme dragão voar na calçada bem na minha frente. Este não foi meu primeiro encontro próximo com uma mosca-dragão; No verão passado, um deles tinha voado para a janela do meu carro e, freneticamente, ziguezagueou ao redor da minha cabeça até que eu puxei o carro para fora e passei os dez minutos seguintes tentando afugentá-lo de qualquer uma das minhas quatro portas abertas.

Este estava lutando e zumbindo no chão, mas incapaz de voar. Não era tão grande quanto a que agraciava meu Camry, mas era muito mais bonita com marcas coloridas de amarelo, verde e preto. Eu tentei assustá-lo no vôo para que ninguém pisasse nele, mas ele caiu várias vezes até pousar de novo em suas pequenas pernas tremulando nervosamente. Inclinei-me para ver se havia quebrado uma asa, mas eles pareciam estar se movendo perfeitamente. Então me ocorreu, que diferença faria se as asas fossem feridas ou se as pernas estivessem quebradas? Não havia absolutamente nada que eu pudesse ou provavelmente faria sobre isso de qualquer maneira.

Eu vi dois meninos pequenos do outro lado da rua e pensei em chamá-los para que pudessem vir e ver a linda e espetacular mosca do dragão ferida. Então me lembrei do que os garotinhos da minha vizinhança faziam com criaturas indefesas e resolvi passar essa ideia. Enquanto me afastava, senti – embora apenas um pouco – “derrotado”.

Refletindo sobre os dois eventos, agora estou assustada com minha presunção. Quem sou eu para assumir que a mulher irada não tinha direito justificável à sua própria raiva? E mesmo que a raiva dela em relação a mim não parecesse razoável, ainda é seu direito. Quanto à bela e delicada mosca-dragão, tudo o que vive finalmente morre. A mosca do dragão, ao contrário dos humanos, não pode agir fora dos limites da natureza, então as coisas eram como deveriam estar no mundo do meu pequeno amigo alado e quão arrogante da minha parte imaginar que eu tinha qualquer poder ou necessidade de mudar o curso da vida até mesmo desta pequena criatura.

Eu me juntei às fileiras do que é considerado “adultos maduros” e recebo o respeito e os privilégios que são culturalmente devidos a alguém da minha idade devido a um aprendizado acumulado conferido. Há um ditado familiar de que a juventude é muitas vezes desperdiçada nos jovens; talvez uma verdade igual seja que a sabedoria é às vezes desperdiçada no velho.

Não se preocupe, porém, há também espaço para aqueles que, como eu, estão em algum lugar entre a juventude e a sabedoria, feliz por eu ter hoje … mais um dia … para aprender e crescer!

Paz…

Conversa corajosa

Conversas honestas e diretas sobre raça estão atrasadas. Para alguns, a conversa é nova e desafiadora e, para outros, é um fato cotidiano da vida, necessário e contínuo. Nossa história está repleta de homens e mulheres que avançaram a discussão sobre raça, racismo e desigualdades estruturais. Eles foram ex-escravos e ex-donos de escravos, foram pobres e ricos, educados e analfabetos, todos tendo avançado a conversa à sua maneira e sofrido as consequências de abordar o assunto.

Hoje, aqueles de nós capazes de enxergar através da “diversidade” manufaturada de maneira estéril, começaram a desafiar o pensamento convencional em relação ao racismo institucional e sua consequente destrutividade. Glenn Singleton abordou a questão através do programa que ele desenvolveu chamado “Conversa corajosa”, com um foco específico na construção de abordagens e habilidades eficazes para eliminar as disparidades raciais na educação.

Estamos longe de alcançar a equidade e a justiça social, então vamos todos nos juntar à conversa!

———–

* Em outubro de 2012, o Dr. Joy será um orador principal na “Cúpula pela Conversação Corajosa 2012” em San Antonio, Texas.

O imperador não tem nenhuma roupa

My Son recentemente me mostrou um vídeo de Tupac Shakur como um holograma tocando no palco com Snoop Dogg. O concerto estava acontecendo em um lugar onde Tupac nunca havia se apresentado e claramente em uma época em que ele não estava mais vivo. É incrível o que a tecnologia pode fazer. No entanto, vou oferecer uma nota de advertência.

Eu me lembro quando Bo Derek, o astro do filme “10”, foi creditado com a criação de tranças “corn row”. Lembro-me de outra época em que, em um documentário sobre a história e as origens da música jazzística, Wynton Marsalis, encontrando dificuldades para manter a compostura, identificou um músico branco que afirmava  ter  origem no jazz.

Vivemos numa época em que as distorções da verdade abundam e, talvez mais alarmantes, as distorções de nossa realidade humana. Nós aceitamos a violência como uma função natural e esperada da vida. Continuamos a normalizar a crueldade e a desonestidade, na medida em que temos que criar leis ou movimentos para nos proteger contra os valentões e aqueles que insistem em que eles têm o direito de “defender sua posição”.

Mas o que dizer das “virtudes”? Onde bondade, confiabilidade, integridade e justiça estão nestes tempos? E quais valores reverência, lealdade e cortesia têm hoje? O que estamos dizendo aos nossos filhos sobre essas qualidades? Não apenas compramos com todo o coração a noção de que “o imperador está de roupa”, começamos a construir expertise em torno da qualidade do tecido e como as roupas se encaixam bem! E se alguém ousar questionar essas distorções da realidade, elas são consideradas irrelevantes, perdidas no passado, tendenciosas e / ou irracionais.

Esse seguimento cego é um problema muito maior do que você pode suspeitar, e está minando nossos corações e prejudicando nossa aldeia global. Este mundo está cheio de fôlego, captando imagens da natureza em toda a sua beleza, vastos espaços e ainda mistérios desconhecidos, todos feitos de ‘matéria’ e destinados a eventualmente se decompor e se transformar em algo diferente, incrível e incrível de se ver … como Tupac executando vivo. Ainda não vivo.

Basta lembrar que é apenas um holograma! 
Alegria

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Bolsonaro admira Donald Trump

O presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, sempre expressou admiração por Donald Trump e parece disposto a seguir o presidente dos EUA em uma reformulação radical da política externa de seu país – uma medida que, segundo especialistas, poderia isolar e prejudicar o Brasil.

Bolsonaro, que assume o cargo em 1º de janeiro, prometeu tirar o maior país da América Latina do acordo climático de Paris, juntar-se a um punhado de países que mudaram suas embaixadas em Israel de Tel Aviv para Jerusalém e tomar uma linha dura contra o presidente Nicolas Maduro na vizinha Venezuela.

O capitão  reformado do Exército, que ganhou notoriedade como congressista de linguagem carregada de violência e comentários ofensivos, também atacou com frequência a China, o maior investidor estrangeiro do Brasil.

Os amplos planos de seus planos têm diplomatas, analistas políticos e ex-funcionários do governo alertando que tais medidas poderiam isolar a potência regional em vez de abrir novos mercados, o que Bolsonaro disse que quer fazer promulgando a ampla privatização das indústrias estatais.

“Se Bolsonaro fizer o que diz, o Brasil rapidamente se tornará um pária na comunidade global”, disse Rubens Ricupero, ex-ministro de finanças e meio ambiente. “O Brasil tem 50 mil problemas para resolver. Ele quer nos dar problemas que não temos em troca de nada”.

Uma figura profundamente polarizadora em casa, Bolsonaro também irritou as penas no exterior. Ele chamou os refugiados que fugiam para a Europa de “lixo humano”, levantando as sobrancelhas nos países africanos e do Oriente Médio, e irritou a China ao visitar Taiwan, que Pequim considera uma província separatista.

E, como Trump, ele também disse que o Brasil desfaria ou tentaria renegociar tratados comerciais, inclusive o Mercosul, um mercado comum sul-americano.

Além das declarações agressivas de Bolsonaro, os analistas não sabem exatamente como ele vai operar. Ele não disse quem poderia nomear como ministro das Relações Exteriores e, além de sua retórica de campanha hiperbólica, sua plataforma oficial era pesada em generalidades, mas leve na política real.

“A estrutura do Ministério das Relações Exteriores precisa estar a serviço de valores que sempre estiveram associados ao povo brasileiro”, diz. “A outra frente é fomentar o comércio exterior com países que possam agregar valor econômico e tecnológico ao Brasil”.

Como um congressista de backbench com um registro sem brilho ao longo de 27 anos – apenas duas de suas propostas já transformadas em lei – Bolsonaro muitas vezes afirmou que a política externa do Brasil foi impulsionada pela “ideologia esquerdista do Partido dos Trabalhadores”, que governou de 2003 a 2016 Ele prometeu remover a parcialidade política de sua plataforma internacional ao “não lidar com ditaduras”, uma aparente referência a líderes esquerdistas como Maduro e o presidente cubano Raul Castro.

Deixar o Acordo de Paris é a decisão potencial que será mais atentamente observada. O Brasil concordou em reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005 até 2025. Para isso, precisa aumentar os biocombustíveis como parte de sua infraestrutura energética e reduzir drasticamente o desmatamento.

Semelhante a Trump, que retirou os EUA do acordo, Bolsonaro disse que é um mau negócio para o Brasil, lar da maior parte da floresta amazônica. Em setembro, o então candidato disse que o acordo colocava em risco a “soberania do Brasil” porque, para cumprir as metas de emissões e desmatamento, não seria capaz de desenvolver milhões de hectares de território amazônico.

Dias antes da eleição de domingo, Bolsonaro recuou um pouco, dizendo que não retiraria o país se a soberania do Brasil fosse mantida – o que poderia ser interpretado de várias maneiras.

Deixar o acordo desencadearia uma condenação internacional generalizada e poderia também ter consequências financeiras, incluindo a perda de investimento estrangeiro e o bloqueio de um acordo comercial que o Brasil está negociando com a União Europeia.

Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Universidade Getulio Vargas, em São Paulo, diz que as decisões de Bolsonaro vão reverberar de uma maneira que não necessariamente para um líder como Trump.

“Foto da chanceler alemã, Angela Merkel, que é uma voz de moderação no mundo. Ela tem que atender Trump porque os EUA é um grande parceiro”, disse ele. “Por que ela iria encontrar Bolsonaro, um homem que poderia causar seu problema simplesmente pelas coisas que ele já disse? Adicionando problemas só vai piorar.”

Bolsonaro também iniciará sua administração em meio ao atrito com a China, que investiu bilhões de dólares em energia, infraestrutura e projetos de petróleo no Brasil. Durante a campanha, ele reclamou que “os chineses não estão comprando no Brasil. Eles estão comprando o próprio Brasil”.

Em fevereiro, Bolsonaro, então candidato à presidência, juntou-se a um grupo de legisladores brasileiros em uma visita a Taiwan para conhecer empresários e líderes políticos locais.

Logo depois, o governo do presidente chinês Xi Jingping enviou uma carta a Bolsonaro dizendo que a turnê causou “uma possível turbulência na parceria estratégica entre o Brasil e a China”.

Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio Brasil-China no Rio de Janeiro, disse acreditar que Bolsonaro irá moderar suas posições uma vez no cargo, e que as tentativas do presidente eleito de forjar laços com a administração Trump não devem prejudicar as relações com a China.

Mas Tang também alertou que a China poderia retaliar se a retórica não fosse suavizada. Por exemplo, o Brasil deverá sediar uma cúpula no próximo ano dos chamados países do BRICS, as economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

“O Sr. Xi pode decidir não vir se não se sentir bem-vindo”, disse Tang.

Durante a campanha, Bolsonaro frequentemente exibiu a Venezuela como uma advertência sobre o que as políticas esquerdistas do candidato Fernando Haddad poderiam trazer, prometendo tomar uma linha dura e “bloquear o comunismo”, embora ele nunca tenha detalhado o que realmente faria.

Como essa conversa difícil pode se traduzir em política não está clara. O atual presidente Michel Temer já rompeu relações com a Venezuela, onde milhões de pessoas fugiram do colapso econômico e político nos últimos anos. Dezenas de milhares cruzaram para o Brasil em sua fronteira norte.

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, acredita que, em última análise, Bolsonaro recuará em suas posições mais radicais de política externa.

“No caso de reconhecer Jerusalém como a capital israelense, por exemplo, ela estaria jogando fora US $ 6 bilhões por ano em vendas de frango para países árabes”, disse Barbosa, destacando que o Brasil é um dos maiores exportadores de aves e carne bovina do mundo.

“Haverá pessoas para aconselhá-lo sobre os impactos e ele vai ouvir”, disse ele.

https://nossapolitica.net/2018/11/bolsonaro-politica-externa-trump/

Entrevista de Nancy Fraser

nancy-fraser-pulDiante do crescimento do populismo de direita em todo o mundo, Nancy Fraser sustenta: há revolta positiva no ar; é preciso dar-lhe sentido.

A entrevista é de Shray Mehta, publicada por Outras Palavras, 19-08-2018. A tradução é de Inês Castilho.

Esta entrevista foi realizada em março de 2018, quando Nancy Fraser foi convidada pelo Departamento de Sociologia da Universidade do Sul Asiático para fazer uma palestra sobre “Raça, Império, Capitalismo: teorizando os nexos”.

Quando emergem na cena política personagens como Jair Bolsonaro, parte da esquerda tende a uma atitude defensiva. Em face de um perigo corretamente associado ao fascismo e à violência, seria o caso de preservar a normalidade do sistema institucional, e mesmo de convocar alianças em seu favor. A repercussão que o discurso de ódio encontra entre parcelas amplas da sociedade indicaria que é hora de refrear o passo, até que a onda regressiva se esvazie.

Associada a um marxismo heterodoxo, a filósofa e feminista norte-americana Nancy Fraser julga que esta atitude não afastará o perigo — e pode, ao contrário, torná-lo maior. Uma visão particular sobre o chamado “populismo de direita” a faz pensar assim. As maiorias, crê Fraser, têm boas razões para se revoltar contra a ordem. Ao longo das três últimas décadas, elas foram castigadas, na maior parte dos países, pelo desmonte dos direitos sociais. Em muitos casos, partidos associados à esquerda envolveram-se ativamente neste processo (no Brasil, vale lembrar a adesão do segundo governo Dilma ao “ajuste fiscal” proposto pela direita). Agora, há raiva e rancor. Enxergar os que nutrem estes sentimentos como “fascistas” só agravará o cenário.

feminismo é, para Fraser, uma chave para encontrar outro tipo de resposta. A crise global da esquerda está associada à transição do capitalismo industrial ao financeirizado— e, portanto, à ineficácia das antigas estratégias de resistência, que se baseavam na ação dos trabalhadores organizados. Agora, o centro de geração de valor e acumulação de riqueza do próprio sistema deslocou-se: já não é a fábrica, mas a produção imaterial, que se espraia por toda a sociedade. Não bastaria isso para enxergar a relevância (e a potência transformadora) de formas de trabalho não-reconhecidas e não-remuneradas, secularmente associadas às mulheres?

Como fazê-lo? Na entrevista a seguir, concedida em março deste ano ao jornalista indiano Shray MehtaFraser oferece algumas pistas. “O que necessitamos”, diz “é o que André Gorz chamou de ‘reformas não-reformistas’. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital”. Porém, estas reformas, prossegue a filósofa, “não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educaçãomoradiasaúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos”.

Esta estratégia dá resultados concretos, mostra Fraser. A Inglaterra é o exemplo eloquente. Lá, boa parte dos votos de rancor dados ao Brexit, há dois anos, tem sido recuperada por Jeremy Corbyn, líder rebelde do Partido Trabalhista, que propõe precisamente um programa radical de recuperação e ampliação dos serviços públicos. Foi esta postura, aliás, que desarmou o partido xenófobo (UKIP) — líder do voto contra a União Europeia, mas hoje esvaziado e dividido.

E no Brasil: qual o melhor antídoto contra os Bolsonaro e os Alckmin? A equação deFraser sugere que talvez não seja uma esquerda defensora da ordem — mas, ao contrário, capaz de desafiá-la por meio de medidas distributivas e anti-sistêmicas bem mais profundas que as praticadas pelo lulismo, em sua primeira experiência de governo. (A.M.).

Eis a entrevista.

Muito obrigado pela oportunidade desta conversa. O mundo está assistindo a uma aumento alarmante de líderes populistas e o padrão parece repetir-se com frequência em todo o espectro político, não restrito apenas ao Norte ou ao Sul globais. Como se pode contextualizar essa expansão do populismo como um momento histórico mundial? Ele teria uma dinâmica sistêmica que vai além das nações e está localizado na economia internacional e crise do capitalismo?

populismo está situado numa dinâmica histórica mundial. Ele sinaliza uma crise hegemônica do capitalismo – ou melhor, uma crise hegemônica de uma forma específica de capitalismo que temos hoje: globalizado, neoliberal e financeirizado. Esse regime suplantou a variedade anterior, do capitalismo gerido pelo Estado, e dizimou todos os ganhos que as classes trabalhadoras haviam conquistado no período prévio. O populismo é, em grande medida, uma revolta dessas classes contra o capitalismo financeiro e as forças políticas que o impõem. Para entender a revolta, é preciso entender o bloco hegemônico anterior que está sendo rejeitado. Eu chamei esse bloco de “neoliberalismo progressista”. Como formação dominante, o neoliberalismo progressista estava centrado nos Estados mais poderosos do Norte global, mas tinha também postos avançados em outros lugares. Exemplos incluem o “Novo Trabalhismo” de Tony Blair, na Inglaterra, o “novo” Partido Democrático de Bill Clinton, nos EUA, o Partido Socialista na França, e os últimos governos do Partido do Congresso, da Índia.

O que é específico do “neoliberalismo progressista” é que ele combina políticas econômicas regressivas, liberalizantes, com políticas de reconhecimento aparentemente progressistas. Sua economia política baseia-se em “livre comércio” (que em realidade significa livre movimentação do capital) e desregulamentação das finanças (que empodera investidores, bancos centrais e instituições financeiras globais para ditar políticas de “austeridade” para o Estado por meio de decretos e da chantagem da dívida). Entretanto, seu lado de reconhecimento centra-se na compreensão liberal do multiculturalismo, do ambientalismo e dos direitos das mulheres e LGBTQ[lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer]. Inteiramente compatível com o neoliberalismo financeiro, essa compreensão é meritocrática, oposta ao igualitarismo. Focados na “discriminação”, eles buscam assegurar-se de que uns poucos indivíduos “talentosos” de “grupos sub-representados” possam ascender ao topo da hierarquia corporativa e alcançar posições e remuneração paritárias com os homens heterossexuais brancos de sua própria classe.

O que não é mencionado, contudo, é que enquanto esses poucos “quebram o teto de vidro”, todo o resto continua preso no porão. De fato, o neoliberalismo progressistaarticulou uma política econômica regressiva com uma aparente política progressistade reconhecimento. O lado progressista de reconhecimento serviu como um álibi ao lado econômico regressivo. Isso possibilitou ao neoliberalismo apresentar-se como cosmopolita, emancipatório, inovador e moralmente avançado – em contraste com as classes trabalhadoras aparentemente paroquiais, atrasadas e incultas.

neoliberalismo progressista foi hegemônico por umas duas décadas. Encabeçando vastos aumentos da desigualdade, foi uma grande bonança para o 1% global, mas também para o estrato gerencial profissional. Foram atropeladas as classes trabalhadoras do norte, que haviam se beneficiado da social democracia; os camponeses do sul, que sofreram desapropriação renovada por dívida, em escala maciça; e um vasto precariado urbano no mundo inteiro. O que se vem denominando populismo é uma revolta desses estratos contra o neoliberalismo progressista. Ao votar em Trump, no Brexit, em Modi (Índia) e no Movimento Cinco Estrelas na Itália, as maiorias declararam que se recusam a continuar desempenhando o papel que lhes foi atribuído, de cordeiros de sacrifício, num regime que não tem nada a lhes oferecer.

Os movimentos populistas são frequentemente apresentados como “fascistas”, assim que começam a articular suas demandas. Contudo, quando vistos como uma articulação das preocupações populares contra a apatia sistêmica, surge um cenário mais complexo. Por exemplo, a ascensão de Trump está baseada até certo ponto no apoio de uma base eleitoral que é apressadamente descartada como “homens brancos racistas”, embora possam ter votado em Obama nas duas últimas eleições. Num outro contexto, na Índia, a ascensão do nacionalismo hindu é taxada de fascista sem vê-la na perspectiva histórica, de reação às políticas neoliberais dos governos anteriores, do Partido do Congresso. Como perceber essa rejeição completa das preocupações populares no discurso público, por um lado, e a rotulagem da reação popular como fascista?

Concordo com sua visão nesse assunto. O liberalismo tem uma longa história de tentar deslegitimar a oposição a ele – estigmatizando seus opositores como, por exemplo, “stalinistas”, “fascistas”, o que seja. Isso é certamente o que está acontecendo agora com relação ao termo “populismo”. Essa palavra é hoje amplamente usada pelos liberais para desqualificar como ilegítimas as forças populares que estão se rebelando contra seu domínio. Mas você está certo, é uma tática defensiva por parte dos defensores do “neoliberalismo progressista”. Ao estigmatizar a oposição, eles esperam ressuscitar seu projeto. Nos Estados Unidos, estão procurando desesperadamente um novo líder, com mais apelo que Hillary Clinton, sob o qual possam restaurar uma nova versão do neoliberalismo progressista. Essa é a agenda de uma grande parcela da “resistência” anti-Trump. Não conheço o suficiente da política indiana para ter certeza, mas imagino que o Partido do Congresso está usando tática semelhante na esperança de retomar o poder.

Eu certamente jamais endossaria Trump ou Modi [o presidente da Índia] – isso é óbvio. Todavia, não estou infeliz com o fato de que quem foi massacrado pelo “neoliberalismo progressista” levante-se contra ele. Em alguns casos, é claro, a forma que esta rebelião assume é problemática. As populações frequentemente equivocam-se quanto à verdadeira causa de seus problemas, e fazem de bode expiatório os imigrantesmuçulmanosnegrosjudeus e outros. Mas é contraprodutivo simplesmente desqualificá-los como racistas e islamofóbicos irredimíveis. É tolo assumir, de saída, que não há qualquer possibilidade de ganhá-los para a esquerda, seja para o populismo de esquerda ou para o socialismo democrático.

Além disso, a ideia de que todos esses eleitores não passam de racistas de carteirinha não bate com os dados. Nos EUA, como você disse, 8,5 milhões de pessoas que votaram para Obama em 2012 mudaram de posição e votaram em Trump em 2016. Muitos deles eram pessoas da classe trabalhadora em comunidades do “cinturão de ferrugem”, que sofreram maciçamente com a desindustrialização, precarização e uma grande epidemia de adição a opiáceos, orquestrada pela indústria farmacêutica. Foram eles que entregaram a presidência para Trump. Em ambas as eleições, 2012 e 2016, votaram contra a economia neoliberal – primeiro para Obama, que fez campanha à esquerda, adotando a retórica do “Ocuppy Wall Street”, e depois para Trump, cuja campanha baseou-se não somente no reconhecimento excludente, mas também na economia populista. O que isso mostra é que as questões identitárias não estavam, na mente desses eleitores, acima de tudo. Nessas questões, eles foram bastante volúveis, agindo de diferentes maneiras, conforme as opções oferecidas. Ao contrário, foram consistentes na rejeição da terceirização, “livre comércio” e financeirização; no apoio à proteção social, pleno emprego e salários dignos. O mesmo é verdade, aliás, no Reino Unido. Muita gente da classe trabalhadora do norte da Inglaterra que votou a favor do Brexit apoia agora, fortemente, Jeremy Corbyn. Na França também, houve grande troca de votos, de um lado pro outro, entre a Frente Nacional [de ultra-direita] e o candidato de esquerda, Jean-Luc Mélenchon.

Meu ponto é que todos esses eleitores (e outros!) têm queixas legítimas contra o neoliberalismo progressista. Ao invés de desqualificá-los como racistas, a esquerda deve validar suas críticas. Ao invés de assumir que eles não têm jeito, devemos partir da premissa de que muitos eleitores populistas à direita podem ser, em princípio, conquistados pela esquerda. Precisamos atraí-los, validando suas queixas e oferecendo-lhes uma análise alternativa da verdadeira causa de seus problemas e uma proposta alternativa para resolvê-los.

Sobre oferecer uma explicação e uma visão alternativas, não é a primeira vez que ocorre essa troca de eleitores entre a esquerda e a direita. Sabemos que há precedentes históricos. A direita é capaz de estabelecer nexos casuais entre os problemas sistêmicos e grupos sociais tais como judeus, muçulmanos ou imigrantes, para sugerir que transformá-los em alvos pode resolver os problemas de emprego – isso tem apelo para as pessoas. Ainda que a esquerda tente intervir, a visão alternativa parece muito utópica para as pessoas. Você sente que ainda há uma lacuna crucial, na esquerda, com relação a isso?

Sim, eu concordo. Há com certeza uma lacuna programática na esquerda. Isso se deve em parte ao fim do comunismo soviético, que teve o infeliz efeito de deslegitimar não apenas aquele regime esclerosado, mas também ideias de socialismo e igualitarismo social em geral. A atmosfera resultante beneficiou grandemente os neoliberais, enquanto intimidava e desmoralizava a esquerda.

Mas isso não é toda a história. Nesse clima, uma parte significativa do que poderia ter sido uma opinião à esquerda foi direcionada para o liberalismo. Pense por exemplo no feminismo liberal, no anti-racismo liberal, no multiculturalismo liberal, no “capitalismo verde” etc. Essas são as correntes dominantes, hoje, de parte dos novos movimentos sociais, cujas origens foram, se não diretamente à esquerda, ao menos esquerdizantes ou proto-esquerdistas. Hoje, porém, falta-lhes até mesmo a mais pálida ideia de uma transformação estrutural ou uma economia política alternativa. Longe de buscar a abolição da hierarquia social, sua mentalidade está voltada a atrair mais mulheres, gays e não-brancos para os altos escalões. Certamente, nos EUA mas também em outros países, a esquerda foi colonizada pelo liberalismo.

A meu ver, o melhor caminho para reconstruir a esquerda é ressuscitar a velha ideia de um “programa socialista de transição” e dar a ele um novo conteúdo, apropriado ao século 21. Hoje, não podemos começar dizendo às pessoas que vamos socializar os meios de produção e em seguida elas terão empregos seguros e bem pagos. Essa retórica está vencida. O que necessitamos, ao contrário, é o que André Gorz chamou de “reformas não-reformistas”. Elas melhoram a vida das pessoas aqui e agora, enquanto trabalham também numa direção contrassistêmica, em parte por desestabilizar o equilíbrio do poder de classe em detrimento do capital. Além disso, essas reformas não podem estar focadas exclusivamente na produção e trabalho remunerado. Elas precisam, igualmente, tratar da organização social da reprodução – a oferta de educação, moradia, saúde, cuidado das crianças, cuidado dos idosos, meio ambiente saudável, água, serviços, transporte, emissões de carbono – e o trabalho não remunerado que sustenta as famílias e os laços sociais mais amplos.

Embora longe da perfeição, a campanha de Bernie Sanders nos EUA teve algumas ideias que apontavam nessa direção. Acima e além do aumento do salário mínimo para 15 dólares a hora, Sanders fez campanha pelo “Medicare para todos”, ensino universitário gratuito, reforma da justiça criminal, liberdade reprodutiva e a quebra dos grandes bancos – tudo isso ligado ao emprego. Suas ideias não foram inteiramente desenvolvidas, é certo. E elas são possivelmente mais social democratas do que democráticas socialistas. Mas representam a primeira inspiração de uma alternativa populista à esquerda, nos EUA.

A esquerda precisa também pensar sobre finanças e bancos. Um dos pesadores mais interessantes nesse assunto é Robin Blackburn, que defende que as finanças deveriam tornar-se um bem público, como costumava ser a eletricidade — o que significa que devia pertencer a todos e ser alocada publicamente. Decisões sobre crédito, onde investir e quais projetos financiar deveriam ser tomadas com base não na taxa de retorno, mas no valor e utilidade social. E deveriam ser tomadas democraticamente – por meio de conselhos eleitos, encarregados de representar as comunidades e outras partes interessadas. Essa é uma ideia muito interessante, porque precisamos, é claro, de um sistema de crédito. Abolir os bancos e instituições financeiras globais não é a resposta. O que é necessário, ao invés disso, é socializar as finanças.

Aliás, esses são tempos perfeitos para desenvolver um programa de esquerda para as finanças. Muita gente está agora aberta para esse problema. Afinal, era exatamente este o ponto do Occupy Wall Street. Todo mundo sabe que os circuitos de investimento que causaram a crise estão de volta a seus velhos truques e que nada foi feito no sentido de uma reforma estrutural para prevenir um derretimento global, no futuro próximo. Os norte-americanos estão bem conscientes de que Obama usou os impostos para socorrer os bancos, cujos esquemas predatórios quase derrubaram a economia global — mas não fez nada para ajudar as 10 milhões de pessoas que perderam sua casa na crise de execução das hipotecas. Não há dúvidas de que muitos estão abertos a repensar esse sistema. Nessa questão, nem a direita nem o centro têm nada a oferecer, de modo que é uma grande oportunidade para a esquerda.

Gostaria agora de debater algumas preocupações teóricas. No seu artigo “A morada escondida de Marx” (“Marx’s HIdden Abode”), na New Left Review, você argumentou longamente sobre como o valor é produzido não apenas pelo trabalho produtivo, mas também pelo trabalho não remunerado. Este último seria o que, na verdade, suporta e sustenta o primeiro. A certa altura você sugere que uma parte da expansão do capitalismo é o “potencial emancipatório do capitalismo”. Esse “potencial emancipatório” é um tema muito debatido no pensamento marxista. Argumenta-se que frequentemente o trabalho não livre é ainda mais aprisionado, na dialética da “dupla liberdade” do capitalismo. Nesse contexto, como se pode entender o potencial emancipatório do capitalismo no que diz respeito ao trabalho não livre?

A expressão “dupla liberdade” é irônica. O lado positivo tem a ver com o fato de podermos circular e termos o direito de aceitar “voluntariamente” um contrato de trabalho. Mas, como você sabe, ela carrega um outro lado. Ao tornar-se livre para vender sua força de trabalho, uma pessoa também livrou-se de – quer dizer, foi privada de – ter acesso aos meios de sub-existência e aos meios de produção. Marx ressaltava que os proletários haviam sido “libertos” do acesso à terra, ferramentas, matérias primas e outros bens de que necessitariam para organizar seu próprio trabalho e satisfazer suas necessidades. Em consequência, não têm escolha senão aceitar um contrato de trabalho com um capitalista. O lado bom da liberdade está severamente comprometido, quando não é simplesmente ilusório.

liberdade no capitalismo é de fato uma faca de dois gumes. Se alguém é escravo ou servo, a possibilidade de tornar-se um trabalhador remunerado é certamente um passo adiante, como o próprio Marx frequentemente ressaltava. Mas isso não significa que essa pessoa se torne livre num sentido completo e robusto. Ao contrário, o proletariado torna-se sujeito de dominação. De modo que eu não superestimaria o potencial emancipatório do capitalismo, mas também não o ignoraria.

O ponto focal, contudo, é outro: o capitalismo não é um sistema uniforme. Ele não trata todo mundo do mesmo modo ao mesmo tempo. Mesmo quando “emancipa” alguns da dependência e trabalho forçado, transformando-os em proletários duplamente livres, ele deixa outros – muitos outros, de fato – em contextos e formas de dominação tradicionais. Ou, ainda, transforma aquelas formas e contextos tradicionais em formas novas, frequentemente muito opressivas.

De fato, argumentei recentemente, na palestra Contribuições ao Conhecimento Contemporâneo, que a exploração de “trabalhadores livres” está intimamente ligada — depende, na verdade — da expropriação de “outros” dependentes. O que quero dizer com expropriação é o sequestro de bens de pessoas subjugadas (seu trabalho, terra, animais, ferramentas, crianças e corpos) e o afunilamento desses bens sequestrados em circuitos de acumulação de capital. Compreendida dessa maneira, a expropriação difere nitidamente da exploração. A exploração é mediada por um contrato salarial: o trabalhador explorado troca “livremente” sua força de trabalho por salários que supostamente cobrem os custos sociais médios necessários a sua reprodução. A expropriação, ao contrário, dispensa a folha de parreira do consentimento e toma brutalmente propriedade e pessoas, sem contrapartida – seja por força militar ou por dívida. Minha visão é como a de Rosa Luxemburgo e David Harvey: a exploração por si só não poderia sustentar a acumulação de capital ao longo do tempo. Esta depende, antes, de contínuos movimentos de expropriação. Então, os dois “ex” estão interligados. E é o processo combinado de exploração e expropriação que cria o valor excedente.

Essa ideia é lindamente ilustrada numa frase de Jason Moore, relativa ao início da industrialização. Ele diz, “Atrás de Manchester fica Mississippi”. Isso significa que a indústria têxtil altamente rentável de Manchester, sobre a qual Engels escreveu, não seria rentável sem o algodão barato fornecido por meio do trabalho escravo das Américas. Sou tentada, por sinal, a acrescentar um terceiro M — para Mumbai, para assinalar o importante papel desempenhado no crescimento de Manchester pelo destruição calculada da manufatura têxtil da Índia pelos britânicos. Este é um caso em que a expropriação é condição para a possibilidade de exploração lucrativa. O capitalismo joga um jogo duplo com as pessoas, encaminhando alguns à “mera” exploração e condenando outros à brutal expropriação — uma diferença que historicamente tem sido associada com império e raça. De modo que eu rejeito a alegação, com frequência atribuída a Marx, de que o valor é produzido apenas pelo trabalho assalariado. Há muitos outros fatores não assalariados no processo, inclusive o trabalho social-reprodutivo das mulheres, sem o qual o trabalho assalariado não seria possível.

Para aprofundar isso, você poderia por favor explicar essa dinâmica do potencial emancipatório do capitalismo tendo em mente as economias “periféricas”? Você acha que pode-se continuar a pensar nelas como periféricas, num contexto do neoliberalismo que parece prover liberdade completa ao capital, ao restringir o trabalho em bases nacionais?

O conceito de “centro e periferia” faz menos sentido agora do que fez em períodos anteriores, mas estamos ainda lutando para encontrar uma alternativa satisfatória. Defensores da teoria de sistema-mundo falam de países semi-periféricos com estratégias para subir os degraus da escada de valor agregado baseados na produção de commodities. Mas mesmo isso não é inteiramente adequado para uma situação em que a indústria está sendo realocada em escala maciça. Dado o peso das economias de países como os membros do BRICS, é difícil chamá-los de “semi-periféricos”, quanto mais de periféricos. O que complica a situação ainda mais é que, a despeito de seu peso econômico, os países dos BRICS não estão (ainda?) em posição de afirmar-se como potências globais no cenário mundial. Ao contrário, uma potência econômica decadente (os EUA) ainda desempenha o papel de hegemonia global, a despeito de sua credibilidade moral que desaba e a mudança em seu status para uma nação devedora.

Ainda não sabemos aonde tudo isso leva — e depende muito da China. Mas embora as coisas funcionem assim, precisaremos desenvolver um novo vocabulário e enquadramento para apreender a nova situação histórica.

Ainda assim, uma coisa já está clara: tem havido uma tremenda mudança no relacionamento entre exploração e expropriação no capitalismo financeiro. Isso ocorre em grande parte graças à realocação da indústria para longe de seu centro histórico e à universalização da expropriação pela dívida. Este último fator é óbvio no caso da desapropriação de terras e dos programas de ajuste estrutural, que impõem condicionalidades de empréstimo aos países do Sul global. Governos de todo lugar, da América Latina à África e à Grécia tiveram de cortar gastos sociais e abrir seus mercados ao capital estrangeiro, vampirizando seu povo para o benefício do capital. Nesses casos, a dívida é um veículo de expropriação na (ex) periferia e semiperiferia, mesmo que essas regiões também estejam se tornando locais primários de exploração.

Ao mesmo tempo, a expropriação está aumentando no “centro” histórico. À medida em que o trabalho precarizado e de baixos salários nos serviços ultrapassa o trabalho industrial sindicalizado, o capital paga seus trabalhadores menos do que o custo socialmente necessário para sua reprodução. No entanto, ainda precisa que esses trabalhadores cumpram o duplo dever como consumidores. Então, o que fazer? A solução é aumentar a dívida dos consumidores, que permite às pessoas comprar coisas baratas produzidas em outros lugares. Aqui, também, a expropriação alimenta aqueles que também são explorados em “McEmpregos”.

Ou seja, estamos diante de uma nova constelação, que mistura a velha divisão exploração/expropriação. A maior exploração costumava ocorrer no centro histórico, enquanto a maior parte das expropriações era feita na ex-periferia. Não é mais o caso. Agora os dois ex não formam um ou/ou, mas um ambos/e. Não mais alternativas mutuamente excludentes, eles encontram-se em grande proximidade; frequentemente as mesmas pessoas são submetidas a ambas.

Você perguntou sobre as implicações disso para a emancipação. Essa é, a meu ver, a questão chave para a esquerda em nossos tempos. O que se segue, politicamente, ao fato de que o capitalismo não mais atribui a exploração a um grupo social ou região e a expropriação a outro grupo ou região? Quanto era assim, os cidadãos-trabalhadores “livremente” explorados do centro podiam dissociar facilmente seus objetivos e lutas daqueles sujeitos subjugados, racialmente expropriados da periferia. E isso enfraquecia as forças da emancipação, pois permitiam o dividir-para-governar. Agora, contudo, quase todo mundo está sendo simultaneamente explorado e expropriado. Então, parece que a base material para aquelas divisões políticas intra-classe-trabalhadora está desaparecendo. Em teoria, isso poderia abrir perspectivas para alianças novas e ampliadas. Se aqueles que sofrem podem agora entender que exploração e expropriação são elementos — analiticamente distintos, mas praticamente enlaçados — de um único sistema capitalista, o qual é a própria causa raiz da maioria de seus sofrimentos, então podem concluir que compartilham um inimigo comum e deveriam unir forças. Mas esse resultado não é nem automático, nem assegurado. Por ora, ao menos, as mudanças associadas ao capitalismo financeiro estão gerando paranoia e ansiedade, que conduzem a formas exacerbadas de chauvinismo, inclusive nos populismos de direitaque discutimos no início.

Na verdade, fechamos agora um círculo completo nesta conversa. Mas devo ressaltar novamente agora o que disse antes. Ainda que solidariedades ampliadas não sejam geradas automaticamente, pelo simples fato de que ocorreu uma mudança estrutural, elas ainda podem ser criadas politicamente, através de intervenções políticas de esquerda. Estas, como disse antes, precisam rejeitar firmemente os jogos táticos-assustadores que o liberalismo desempenha com a palavra “populismo”. Sem medo dessa palavra, e determinados a conquistar aqueles que estão agora atraídos por suas variantes de direita, devemos montar nossa própria crítica de esquerda estrutural-sistêmica do neoliberalismo progressista e nossa própria visão transformadora de uma alternativa emancipatória. Rompendo definitivamente tanto com a economia neoliberal quanto com as várias políticas de reconhecimento que ultimamente lhe deram suporte, devemos abandonar não apenas o etnonacionalismo excludente, mas também o individualismo liberal-meritocrático. Somente unindo uma política de distribuição fortemente igualitária a uma política de reconhecimento substancialmente inclusiva, sensível à classe, podemos construir um bloco contra-hegemônico capaz de nos levar além da crise atual, em direção a um mundo melhor.

Fonte:http://www.ihu.unisinos.br/581999-uma-feminista-propoe-repensar-a-esquerda

O uso dos dados de funcionários pelas empresas

Como o uso de dados de funcionários pelas empresas está mudando o mercado de trabalho

Se você acha que vigilância se restringe a câmeras de segurança no seu local de trabalho, pense duas vezes; nós estamos todos sendo monitorados e avaliados.
José Luis Peñarredonda – Da BBC Capital

6 AGO2018

Se você trabalhasse na fábrica da Ford em 1914, em algum momento de sua carreira um detetive particular seria contratado para segui-lo até em casa.

Funcionários da linha de produção dentro de uma Fábrica de Motores da Ford em Dearborn, Michigan

Funcionários da linha de produção dentro de uma Fábrica de Motores da Ford em Dearborn, Michigan

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Se você parasse para beber no caminho, brigasse com sua esposa ou fizesse qualquer coisa que o marcasse como um funcionário problemático, seu chefe ficaria sabendo disso no dia seguinte.

Essa investigação se deve, em parte, ao salário mais alto dos funcionários da Ford em relação à concorrência.

A empresa automobilística aumentou o salário de US$ 2,39 para US$ 5 por dia, o equivalente a US$ 124 (R$ 440) em números de hoje. Mas você precisava ser um cidadão modelo para fazer jus a essa remuneração.

Sua casa tinha de ser limpa, seus filhos tinham de ir à escola, sua conta-poupança devia estar em ordem. Se alguém na fábrica achasse que você estava no caminho errado, você poderia não apenas perder uma promoção, mas seu emprego estaria por um fio.

Essa operação ‘Big Brother’ era tocada pelo Departamento Sociológico da Ford, uma equipe de inspetores que visitava as casas dos trabalhadores sem anunciar sua chegada. Seu objetivo era promover “a saúde, a segurança e o bem-estar dos funcionários”, como dizia um documento interno. O departamento oferecia tudo, desde planos médicos até cursos de manutenção da casa.

O programa durou oito anos. Era caro, e muitos trabalhadores não gostavam do seu tom paternalista e o consideravam intrusivo. Hoje, a maioria de nós o consideraria inaceitável – o que o meu trabalho tem a ver com as minhas roupas lavadas, minha conta bancária ou meus relacionamentos?

Ainda assim, a ideia de empregadores tentando controlar a vida dos funcionários além do local de trabalho se manteve, e ferramentas digitais facilitaram essa prática mais do que nunca. É provável que você use várias tecnologias que podem criar um perfil detalhado de suas atividades e hábitos, dentro e fora do escritório. Mas o que empregadores podem (e não podem) fazer com esses dados? E como podemos impor limites a essa prática?

Homem se exercita às margens de rio em Berlim, na Alemanha

Homem se exercita às margens de rio em Berlim, na Alemanha

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Qual é minha pontuação como funcionário?

Todos estamos sendo avaliados todos os dias. As passagens caras de avião que eu comprei recentemente já entraram na minha avaliação de crédito. O fato de que eu parei de correr todas as manhãs foi percebido pelo meu aplicativo de exercícios – e, se estivesse conectado com uma companhia de seguros, essa mudança poderia influenciar nos preços.

Pelas minhas atividades online, o Facebook sabe que eu amo cerveja e acredita que a minha tela é um bom lugar para colocar publicidade de cervejarias hipsters. Um site recentemente afirmou que eu sou o 1.410° usuário de Twitter mais influente da Colômbia – algo que poderia aumentar minha pontuação de crédito, aparentemente. E, sim, minha eficiência como funcionário também pode ser avaliada e determinada por um número.

E não estamos apenas falando de serviços avulsos. Um sistema de pontos foi incorporado ao mundo corporativo.

Departamentos de recursos humanos estão lidando com volumes cada vez maiores de informações para avaliar funcionários de uma forma mais meticulosa. Desde softwares que gravam cada registro nos teclados até máquinas de café tecnológicas que só lhe darão um café se você usar seu crachá. Há mais oportunidades do que nunca para chefes acompanharem comportamentos. Alguns analistas acreditam que essa indústria valerá mais de um bilhão de dólares (RS$ 3,68 bilhões) até 2022.

Um grande objetivo da coleta de dados é fazer “previsões sobre quanto tempo um funcionário ficará no cargo, o que pode influenciar contratações, demissões ou retenção de empregados”, diz Phoebe Moore, professora de Política Econômica e Tecnologia da Universidade de Leicester (Reino Unido) e autora do livro The Quantified Self in Precarity: Work, Technology and What Counts (O Ser Quantificado na Precariedade: Trabalho, Tecnologia e o Que Vale, em tradução livre).

A coleção de dados está “mudando relações de empregabilidade, a forma como as pessoas trabalham e as expectativas de como poderia ser”, diz Moore.

Um problema dessa estratégia é que ela é cega a alguns aspectos não-quantificáveis do trabalho. Algumas das coisas mais sutis que eu faço para escrever melhor, por exemplo, não são quantificáveis: tomar um drink com alguém que me conta uma ótima história, ou imaginar um texto durante o caminho até o trabalho. Nenhuma dessas coisas apareceria na minha “pontuação profissional”. “Muitos dos aspectos qualitativos do trabalho estão sendo descartadas”, diz Moore, “porque se você não pode medi-las, elas não existem”.

Análises de trabalho combinam software e metodologia para ler as informações relacionadas a funcionários

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Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O dilema dos dados

Uma pessoa saudável e fisicamente ativa é um funcionário melhor? Pesquisas indicam que atividades físicas diminuem as ausências e aumentam a produtividade. Isso levou ao crescimento da indústria de saúde e bem-estar com programas que valem bilhões.

Funcionários dão valor a esses programas de saúde não só porque seus chefes podem lhes dar folga para participar deles, mas também porque se eles gravarem seus exercícios pelo celular ou pulseiras de monitoramento, podem receber recompensas.

“Eu uso esse aparelho, ganho pontos e compro coisas por fazer coisas que eu já faria sem ele”, diz Lauren Hoffman, uma ex-vendedora de um desses programas de saúde dos Estados Unidos e que também participava deles.

Há vários motivos econômicos para coletar dados dos funcionários – desde fazer uma melhor administração de riscos até avaliar se comportamentos sociais no local de trabalho podem levar à discriminação de gênero. “As empresas não entendem como as pessoas interagem e colaboram no trabalho”, diz Ben Waber, presidente e CEO da Humanyze, uma empresa americana que agrupa e analisa dados sobre o local de trabalho.

Algumas empresas usam câmeras e sensores infravermelhos para detectar quantas pessoas estão trabalhando em uma parte específica do escritório e o quanto estão se movendo

Algumas empresas usam câmeras e sensores infravermelhos para detectar quantas pessoas estão trabalhando em uma parte específica do escritório e o quanto estão se movendo

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A Humanyze coleta dados de duas fontes. A primeira é a metadata das comunicações do funcionário: email, telefone e serviço corporativo de mensagens. A empresa diz que analisar metadata não inclui ler o conteúdo dessas mensagens, nem as identidades das pessoas envolvidas, mas envolve avaliar a informação mais geral, como duração, frequência e localização geral para que se saiba em que departamento o funcionário está.

A segunda área remete aos dados coletados de gadgets como sensores infravermelhos de Bluetooth que detectam quantas pessoas estão trabalhando em uma determinada parte do escritório e como elas se movem. Eles também usam crachás de identidade ‘supercarregados’ que, como diz Waber, contêm ‘microfones que não gravam o que você diz, mas fazem processamento de voz em tempo real’. Isso permite a medição da proporção de tempo que você fala ou quão frequentemente você é interrompido.

Após seis semanas de pesquisa, o empregador recebe um quadro geral do problema que quer resolver com base nos dados avaliados. Se o objetivo, por exemplo, for aumentar as vendas, eles podem analisar o que o(a) melhor vendedor(a) faz que outros não fazem. Ou, se quiserem medir produtividade, eles podem deduzir que os funcionários mais eficientes falam mais frequentemente com seus gestores.

Waber diz que é “uma lente em questões muito grandes do trabalho, como diversidade, inclusão, avaliação de cargas de trabalho, planejamento do escritório ou riscos regulatórios”. Seu argumento financeiro é que essas ferramentas ajudarão empresas a poupar milhões de dólares e anos de tempo.

Coleta e proteção

Mas nem todos estão convencidos da utilidade dessas técnicas ou se tecnologias intrusivas nas vidas pessoais podem ser justificadas. Uma pesquisa da empresa de consultoria PwC de 2015 indicou que 56% dos empregados usariam um dispositivo móvel ‘wearable’ dado por seu empregador se fosse para aumentar seu bem-estar no trabalho. “Deveria haver algum tipo de recompensa por algo assim, algum benefício em termos de condições de trabalho ou vantagens”, diz Raj Mody, um analista da firma. E Hoffman lembra que esses programas não são um negócio fácil de vender. “Você vai pegar os dados e usá-los contra mim”, ouvia ela frequentemente de funcionários desconfiados.

E há um problema crucial: essas medidas de exercícios físicos frequentemente não são exatas. As pessoas não são boas em reportar a si mesmas e esses aparelhos não são os mais precisos. Uma avaliação recente apontou que diferentes modelos e técnicas apontam para diferentes resultados e é muito difícil fazer comparações entre eles.

Estudos indicam que nossa potência mental está diretamente ligado à nossa saúde física

Estudos indicam que nossa potência mental está diretamente ligado à nossa saúde física

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas também não está claro se contar degraus, por exemplo, é uma maneira realmente boa de medir atividade, tanto porque essa medição não leva intensidade em conta – um passo correndo conta tanto quanto um passo em casa – e caminhar é mais difícil para uns do que para outros.

Outra questão é a quantidade de dados que esses programas conseguem coletar. Eles não apenas monitoram sua atividade diária, mas muitas vezes também oferecem exames de saúde para os participantes, o que permite que eles registrem coisas que não parecem ser da conta do seu chefe: seu nível de colesterol, seu peso, ou até mesmo seu DNA.

Na maioria dos casos, é ilegal nos EUA e na Europa a discriminação contra funcionários com base em seus dados sobre saúde ou qualquer teste genético sobre saúde, mas há algumas áreas cinzentas. Em 2010, Pamela Fink, a chefe de relações públicas de uma empresa de energia americana, processou seu empregador alegando ter sido demitida devido a uma mastectomia dupla para reduzir sua probabilidade de desenvolver câncer. Por mais que a empresa não tivesse acesso aos seus resultados de DNA, ela disse que eles sabiam sobre o risco porque a cirurgia apareceu em suas contas de seguro. O caso foi resolvido na corte.

Os que oferecem esses programas de bem-estar dizem que os empregadores só veem dados agregados e anonimizados para que não seja possível focar em empregados específicos com base em seus resultados de bem-estar. A Humanyze diz que seus clientes não estão forçando seus empregados a serem monitorados, mas lhes dando uma chance de participar. Assim como outros programas de bem-estar, eles anonimizam e comparam a informação que compartilham com funcionários. Waber enfatiza que sua empresa nunca vende dados pra terceiros e afirma que há transparência no processo.

Mas esse tipo de informação pode ser usada de maneiras mais controversas e a boa vontade das empresas envolvidas não elimina todos os riscos. Dados podem ser roubados em um ataque cibernético, por exemplo, ou usado de uma forma que não seja transparente para os usuários. “Pode ser vendida basicamente para qualquer um, com qualquer propósito, e recirculada de outras maneiras”, diz Ifeoma Awunja, uma socióloga e professora da Universidade de Cornell (EUA) que pesquisa o uso de dados de saúde no mercado de trabalho.

Há casos de companhias que já estão fazendo isso – mesmo que os dados que elas vendam seja anônimo, eles podem ser cruzados com outras informações anônimas para identificar pessoas. Nem todas essas empresas o fazem, e algumas dizem que não é uma boa ideia fazê-lo. “Tirar um lucro a curto prazo no dado de usuários pode prejudicar a reputação da empresa, o que diminuirá o volume de usuários e também o seu valor para clientes”, diz Scott Montgomery, CEO da Wellteq, uma empresa de “bem-estar corporativo” com base em Singapura.

Mas mesmo que todas as empresas fizessem a coisa certa e agissem de acordo com o interesse dos clientes, a boa intenção desses programas é a única proteção para muitas pessoas. A lei dos Estados Unidos está “muito atrás” daquelas da União Europeia (UE) e de outras partes do mundo em termos de proteção a clientes, diz Awunja.

Na UE, uma nova Regulação Geral de Proteção de Dados (GDRP) entrará em vigor em maio, o que proibirá qualquer uso de dados pessoas sem o consentimento explícito do usuário. Nos Estados Unidos, a legislação varia de Estado para Estado. Em alguns deles, compartilhar informações sobre saúde com terceiros não é ilegal contanto que os dados não identifiquem as pessoas. Segundo Gary Phelan, um advogado da firma Mitchell & Sheridan, desde que esse tipo de informação não seja considerada médica, não tem as mesmas restrições de privacidade. Já o Brasil ainda discute propostas para uma legislação específica que discipline a proteção de dados pessoais. Na América Latina, diversos países têm legislações de proteção de dados, como Chile, Argentina, Uruguai e Colômbia.

Há também a questão de retorno de investimento para os empregadores. Eles realmente estão poupando dinheiro? Esses programas são feitos com o intuito de diminuir o valor dos seguros de saúde tanto para as empresas quanto para os funcionários, já que deveriam diminuir riscos de saúde, faltas devido a problemas de saúde e custos hospitalares. Mas não está claro se isso realmente acontece. Um estudo feito em 2013 pela Corporação Rand indicou que, enquanto esses programas poupam dinheiro suficiente para que as empresas paguem por eles, eles “têm pouco ou sequer algum efeito imediato na quantidade de dinheiro gasto em planos de saúde”.

Com todas essas ferramentas, “seres humanos são avaliados em termos dos riscos que eles oferecem às empresas”, diz Awunja. Qualquer que seja o benefício dessas tecnologias, elas precisam ser balanceadas com os direitos de privacidade e as expectativas dos funcionários.

Balanço

Há um episódio da série Black Mirror, da Netflix, que traz um anúncio assustador. Nesse episódio, cada pessoa recebe uma pontuação com base em suas interações em uma plataforma social que parece muito com o Instagram. Esses pontos definem quase toda oportunidade que elas terão na vida: que empregos conseguirão, onde vão morar, quais passagens de avião podem comprar ou com quem namorar. Aliás, em 2020, a China terá uma Pontuação de Cidadão obrigatória calculada a partir de uma série de fontes de informação, desde seu histórico de compras até os livros que você lê.

Uma projeção de dados ao vivo do Twitter, Instagram e o departamento de transporte de Londres é exibido na Somerset House em Londres

Uma projeção de dados ao vivo do Twitter, Instagram e o departamento de transporte de Londres é exibido na Somerset House em Londres

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ainda que a realidade não seja tão sinistra quanto o episódio de Black Mirror, ele ilustra as limitações éticas, tecnológicas e legais de fazer algo parecido em algum lugar. Na maior parte do mundo, a lei proíbe que o departamento de Recursos Humanos compartilhe ou peça dados sobre seu cartão de crédito, seu plano de saúde ou seu site de encontros preferido, a não ser que você dê um consentimento explícito para isso.

Isso deve manter a maioria das tentações cínicas à distância por ora, mas como aproveitar os benefícios dos dados de uma maneira aceitável? É preciso achar esse balanço: como diz Waber, dados podem lhe dar conselhos com base em evidências para avançar na sua carreira ou para aumentar sua eficiência no trabalho. Ter um espaço para tomar conta de sua saúde no trabalho pode aumentar sua felicidade no emprego e alguns estudos sugerem que isso também é traduzido em um aumento de produtividade.

Parte da resposta parece depender de padrões éticos. Em um artigo, Awunja propõe algumas práticas, como informar empregados sobre os riscos em potencial de discriminação com base em dados, não penalizar o que não quiserem participar desses programas e determinar uma data de validade aos dados coletados.

É uma conversa importante para se ter, mesmo que você não tenha nada a esconder. Aparentemente, abrir mão de seus dados fará parte do futuro do trabalho, ao menos no mundo corporativo.

Fonte:https://www.terra.com.br/economia/como-o-uso-de-dados-de-funcionarios-pelas-empresas-esta-mudando-o-mercado-de-trabalho,7f116eb606aba6a0e1d35b5243258a66erum5ve7.htmltecn

A palestra de Barack Obama no centenário de Nelson Mandela

 

O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, realiza a 16ª palestra anual de Nelson Mandela, marcando o centenário do nascimento do líder anti-apartheid, em Joanesburgo, África do Sul, em 17 de julho de 2018. (Siphiwe Sibeko / Reuters)
O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, realiza a 16ª palestra anual de Nelson Mandela, marcando o centenário do nascimento do líder anti-apartheid, em Joanesburgo, África do Sul, em 17 de julho de 2018. (Siphiwe Sibeko / Reuters)

Quando minha equipe me disse que eu deveria fazer uma palestra, pensei nos antigos professores abafados de gravata-borboleta e tweed, e me perguntei se esse era mais um sinal do estágio da vida em que estou entrando, junto com o cinza cabelo e visão levemente falhando. Pensei no fato de que minhas filhas acham que qualquer coisa que eu diga é uma palestra.

Pensei na imprensa americana e em como eles frequentemente ficavam frustrados com as minhas longas respostas em coletivas de imprensa, quando minhas respostas não correspondiam a sons de dois minutos. Mas dados os tempos estranhos e incertos em que estamos – e eles são estranhos, e eles são incertos – com os ciclos de notícias de cada dia trazendo mais manchetes e manchetes perturbadoras, eu pensei que talvez fosse útil dar um passo atrás por um momento e tente obter alguma perspectiva.

Então, eu espero que você me permita, apesar do frio leve, enquanto eu gasto muito desta palestra refletindo sobre onde estivemos, e como chegamos ao presente momento, na esperança de que isso nos oferecerá um roteiro para onde precisamos ir em seguida.

Cem anos atrás, Madiba nasceu na aldeia de Mvezo – em sua autobiografia ele descreve uma infância feliz; ele está cuidando do gado, ele está brincando com os outros garotos, eventualmente frequenta uma escola onde seu professor lhe deu o nome em inglês Nelson. E como muitos de vocês sabem, ele disse: “Por que ela me deu esse nome em particular, eu não tenho ideia”.

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Não havia razão para acreditar que um jovem negro neste momento, neste lugar, pudesse de alguma forma alterar a história. Afinal de contas, a África do Sul estava então com menos de uma década de total controle britânico. As leis já estavam sendo codificadas para implementar a segregação e subjugação racial, a rede de leis que seria conhecida como apartheid. A maior parte da África, incluindo a terra natal de meu pai, estava sob o domínio colonial.

As potências européias dominantes, tendo terminado uma terrível guerra mundial poucos meses após o nascimento de Madiba, viam este continente e seu povo principalmente como espoliação em uma disputa por território e abundantes recursos naturais e mão-de-obra barata. E a inferioridade da raça negra, uma indiferença em relação à cultura negra e aos interesses e aspirações, era um dado adquirido.

E tal visão do mundo – que certas raças, certas nações, certos grupos eram inerentemente superiores, e que a violência e a coerção eram a base primária da governança, que os fortes necessariamente exploram os fracos, que a riqueza é determinada principalmente pela conquista – que a visão do mundo dificilmente se limitava às relações entre a Europa e a África, ou as relações entre brancos e negros. Os brancos estavam felizes em explorar outros brancos quando podiam. E, a propósito, os negros muitas vezes estavam dispostos a explorar outros negros.

E em todo o mundo, a maioria das pessoas vivia em níveis de subsistência, sem falar nas políticas ou forças econômicas que determinavam suas vidas. Muitas vezes eles estavam sujeitos aos caprichos e crueldades de líderes distantes. A pessoa comum não via nenhuma possibilidade de avançar das circunstâncias de seu nascimento. As mulheres eram quase uniformemente subordinadas aos homens. Privilégio e status estavam rigidamente vinculados por casta e cor e etnia e religião. E mesmo em meu próprio país, mesmo em democracias como os Estados Unidos, fundado em uma declaração de que todos os homens são criados iguais, a segregação racial e a discriminação sistêmica eram a lei em quase metade do país e a norma em todo o resto do país.

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Esse foi o mundo apenas 100 anos atrás. Há pessoas vivas hoje que estavam vivas naquele mundo. É difícil, então, exagerar as notáveis ​​transformações que ocorreram desde aquela época. Uma segunda guerra mundial, ainda mais terrível do que a primeira, juntamente com uma cascata de movimentos de libertação da África para a Ásia, América Latina, Oriente Médio, finalmente acabaria com o domínio colonial. Mais e mais povos, tendo testemunhado os horrores do totalitarismo, os repetidos massacres em massa do século XX, começaram a abraçar uma nova visão para a humanidade, uma nova ideia, baseada não apenas no princípio da autodeterminação nacional, mas também os princípios da democracia e do Estado de direito e dos direitos civis e a dignidade inerente de cada indivíduo.

Nos países com economias baseadas no mercado, de repente, movimentos sindicais se desenvolveram; e saúde e segurança e regulamentações comerciais foram instituídas; e o acesso à educação pública foi ampliado; e os sistemas de bem-estar social surgiram, todos com o objetivo de restringir os excessos do capitalismo e aumentar sua capacidade de oferecer oportunidades não apenas para alguns, mas para todas as pessoas. E o resultado foi um crescimento econômico inigualável e um crescimento da classe média. E no meu próprio país, a força moral do movimento dos direitos civis não apenas derrubou as leis de Jim Crow, mas abriu as comportas para mulheres e grupos historicamente marginalizados para se reimaginarem, encontrar suas próprias vozes, fazer suas próprias reivindicações de cidadania plena. .

Foi a serviço dessa longa caminhada em direção à liberdade e à justiça e oportunidades iguais que Nelson Mandela dedicou sua vida. No início, sua luta era particular para este lugar, para sua terra natal – uma luta para acabar com o apartheid, uma luta para assegurar a duradoura igualdade política, social e econômica para seus cidadãos não brancos marginalizados. Mas através do seu sacrifício e liderança inabalável e, talvez acima de tudo, através do seu exemplo moral, Mandela e o movimento que ele liderou viriam a significar algo maior. Ele passou a incorporar as aspirações universais de pessoas despossuídas em todo o mundo, suas esperanças de uma vida melhor, a possibilidade de uma transformação moral na condução dos assuntos humanos.

A luz de Madiba brilhava tão intensamente, mesmo naquela estreita cela de Robben Island, que no final dos anos 70 ele podia inspirar um jovem universitário do outro lado do mundo a reexaminar suas próprias prioridades, poderia me fazer pensar no pequeno papel que poderia desempenhar em dobrar o arco do mundo para a justiça. E quando, mais tarde, como estudante de direito, presenciei Madiba sair da prisão, apenas alguns meses, você se lembra, depois da queda do Muro de Berlim, senti a mesma onda de esperança que inundou corações em todo o mundo. Você se lembra desse sentimento? Parecia que as forças do progresso estavam em marcha, que elas eram inexoráveis. Cada passo que ele deu,

E então, como Madiba guiou esta nação através da negociação meticulosamente, reconciliação, suas primeiras eleições justas e livres; Como todos nós testemunhamos a graça e a generosidade com que ele abraçou os antigos inimigos, a sabedoria para ele se afastar do poder uma vez que ele sentiu que seu trabalho estava completo, nós entendemos que entendemos que não eram apenas os subjugados, os oprimidos que eram sendo libertado dos grilhões do passado. O subjugador estava recebendo um presente, tendo a oportunidade de ver de uma nova maneira, tendo a chance de participar do trabalho de construir um mundo melhor.

E durante as últimas décadas do século XX, a visão progressista e democrática que Nelson Mandela representou de muitas maneiras definiu os termos do debate político internacional. Isso não significa que a visão sempre foi vitoriosa, mas estabeleceu os termos, os parâmetros; guiou como pensamos sobre o significado do progresso e continuou a impulsionar o mundo para frente. Sim, ainda havia tragédias – sangrentas guerras civis dos Bálcãs ao Congo. Apesar do fato de que o conflito étnico e sectário ainda incendiou com regularidade devastadora, apesar de tudo isso como consequência da continuação da détente nuclear, e de um Japão pacífico e próspero, e uma Europa unificada ancorada na OTAN, e a entrada da China na sistema mundial de comércio – tudo isso reduziu enormemente a perspectiva de guerra entre as grandes potências mundiais.

A marcha estava ligada. Um respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito, enumerados em uma declaração das Nações Unidas, tornou-se a norma orientadora para a maioria das nações, mesmo em lugares onde a realidade ficou muito aquém do ideal. Mesmo quando esses direitos humanos foram violados, aqueles que violaram os direitos humanos estavam na defensiva.

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E com essas mudanças geopolíticas vieram mudanças econômicas devastadoras. A introdução de princípios baseados no mercado, nos quais economias anteriormente fechadas, juntamente com as forças da integração global impulsionadas por novas tecnologias, de repente liberaram talentos empresariais àqueles que já haviam sido relegados à periferia da economia mundial, que não haviam contado. De repente, eles contaram. Eles tinham algum poder; eles tinham as possibilidades de fazer negócios. E então vieram avanços científicos e novas infraestruturas e a redução de conflitos armados.

E, de repente, um bilhão de pessoas foram retiradas da pobreza, e uma vez as nações famintas conseguiram se alimentar, e as taxas de mortalidade infantil despencaram. E enquanto isso, a disseminação da internet possibilitou que as pessoas se conectassem através dos oceanos, e culturas e continentes instantaneamente foram reunidos e, potencialmente, todo o conhecimento do mundo poderia estar nas mãos de uma criança pequena, mesmo na aldeia mais remota.

Foi o que aconteceu no decorrer de algumas décadas. E todo esse progresso é real. Tem sido amplo e profundo, e tudo aconteceu em que – pelos padrões da história humana – nada mais era do que um piscar de olhos. E agora toda uma geração cresceu em um mundo que, pela maioria das medidas, se tornou cada vez mais livre e mais saudável e mais rico e menos violento e mais tolerante durante suas vidas.

Isso deveria nos deixar esperançosos. Mas se não podemos negar os avanços reais que o nosso mundo fez desde o momento em que Madiba deu os primeiros passos no confinamento, também temos que reconhecer todas as maneiras pelas quais a ordem internacional ficou aquém de sua promessa. De fato, é em parte por causa dos fracassos dos governos e das poderosas elites em responder diretamente às deficiências e contradições dessa ordem internacional que vemos agora grande parte do mundo ameaçando retornar a um modo mais antigo, mais perigoso, mais brutal. de fazer negócios.

Portanto, temos de começar admitindo que quaisquer leis que possam ter existido nos livros, quaisquer que sejam os pronunciamentos maravilhosos existentes nas constituições, quaisquer palavras bonitas que tenham sido pronunciadas durante estas últimas décadas em conferências internacionais ou nos halls das Nações Unidas, as estruturas anteriores de privilégio e poder e injustiça e exploração nunca desapareceram completamente. Eles nunca foram totalmente desalojados.

Diferenças de castas ainda afetam as chances de vida das pessoas no subcontinente indiano. Diferenças étnicas e religiosas ainda determinam quem recebe oportunidades da Europa Central para o Golfo. É um fato claro que a discriminação racial ainda existe nos Estados Unidos e na África do Sul. E também é um fato que as desvantagens acumuladas de anos de opressão institucionalizada criaram enormes disparidades em renda, riqueza e educação, saúde, segurança pessoal e acesso ao crédito. Mulheres e meninas em todo o mundo continuam bloqueadas de posições de poder e autoridade. Eles continuam sendo impedidos de obter uma educação básica. Eles são desproporcionalmente vitimizados pela violência e abuso. Eles ainda recebem menos que os homens por fazer o mesmo trabalho. Isso ainda está acontecendo.

Oportunidade econômica, por toda a magnificência da economia global, todos os arranha-céus brilhantes que transformaram a paisagem ao redor do mundo, bairros inteiros, cidades inteiras, regiões inteiras, nações inteiras foram contornadas. Em outras palavras, para muitas pessoas, quanto mais as coisas mudam, mais as coisas permanecem as mesmas.

E enquanto a globalização e a tecnologia abriram novas oportunidades, têm impulsionado um crescimento econômico notável em partes do mundo anteriormente em dificuldades, a globalização também derrubou os setores agrícola e manufatureiro em muitos países. Também reduziu bastante a demanda por certos trabalhadores, ajudou a enfraquecer os sindicatos e o poder de barganha do trabalho. Tornou mais fácil para o capital evitar as leis tributárias e os regulamentos dos estados-nação – pode apenas movimentar bilhões, trilhões de dólares com um toque de chave de computador.

E o resultado de todas essas tendências foi uma explosão da desigualdade econômica. Significa que algumas dezenas de indivíduos controlam a mesma quantidade de riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Isso não é um exagero, é uma estatística. Pense sobre isso. Em muitos países de rendimento médio e em desenvolvimento, a nova riqueza acaba de acompanhar o antigo mau negócio que as pessoas obtiveram porque reforçou ou até agravou os padrões existentes de desigualdade, a única diferença é que criou oportunidades ainda maiores de corrupção numa escala épica. E por uma vez solidamente famílias de classe média em economias avançadas como os Estados Unidos, essas tendências significam maior insegurança econômica, especialmente para aqueles que não têm habilidades especializadas, pessoas que estavam na indústria, pessoas trabalhando em fábricas, pessoas trabalhando em fazendas. .

Em todos os países, a influência econômica desproporcional dos que ocupam o topo tem proporcionado a esses indivíduos uma influência desproporcional sobre a vida política de seus países e sobre sua mídia; em que políticas são perseguidas e cujos interesses acabam sendo ignorados. Agora, deve-se notar que esta nova elite internacional, a classe profissional que os sustenta, difere em aspectos importantes das aristocracias dominantes de antigamente. Inclui muitos que são feitos por si mesmos. Inclui campeões de meritocracia. E embora ainda predominantemente brancos e masculinos, eles refletem uma diversidade de nacionalidades e etnias que não existiriam há cem anos. Uma porcentagem decente considera-se liberal em sua política, moderna e cosmopolita em sua perspectiva.

Desabitada pelo paroquialismo, ou nacionalismo, ou preconceito racial manifesto ou forte sentimento religioso, eles estão igualmente à vontade em Nova York, Londres, Xangai, Nairóbi, Buenos Aires ou Joanesburgo. Muitos são sinceros e eficazes em sua filantropia. Alguns deles contam Nelson Mandela entre seus heróis. Alguns até apoiaram Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, e em virtude do meu status como ex-chefe de Estado, alguns deles me consideram um membro honorário do clube. E eu fui convidada para essas coisas extravagantes, sabe? Eles vão me expulsar.

Mas o que é verdade, no entanto, é que em seus negócios, muitos titãs da indústria e das finanças estão cada vez mais separados de qualquer local ou estado-nação, e vivem vidas cada vez mais isoladas das lutas das pessoas comuns em seus países de origem.

E suas decisões – suas decisões de fechar uma fábrica ou tentar minimizar sua conta fiscal transferindo lucros para um paraíso fiscal com a ajuda de contadores ou advogados caros, ou sua decisão de tirar proveito de imigrantes de baixo custo. trabalho, ou a sua decisão de pagar um suborno – são muitas vezes feitas sem malícia; é apenas uma resposta racional, eles consideram, às demandas de seus balanços e seus acionistas e pressões competitivas.

Mas, com demasiada frequência, essas decisões também são tomadas sem referência a noções de solidariedade humana – ou um entendimento no nível do solo das conseqüências que serão sentidas por determinadas pessoas em determinadas comunidades pelas decisões tomadas. E de suas salas de diretoria ou retiros, tomadores de decisão globais não têm a chance de ver, às vezes, a dor nos rostos dos trabalhadores demitidos.

Seus filhos não sofrem quando os cortes na educação pública e nos cuidados de saúde resultam de uma base fiscal reduzida devido à evasão fiscal. Eles não podem ouvir o ressentimento de um comerciante mais velho quando ele reclama que um recém-chegado não fala sua língua em um local de trabalho onde ele trabalhou uma vez. Eles estão menos sujeitos ao desconforto e ao deslocamento que alguns de seus conterrâneos podem sentir como a globalização embaralha não apenas os arranjos econômicos existentes, mas os costumes sociais e religiosos tradicionais.

É por isso que, no final do século 20, enquanto alguns comentaristas ocidentais estavam declarando o fim da história e o inevitável triunfo da democracia liberal e as virtudes da cadeia global de suprimentos, tantos sinais errados de uma reação adversa – uma reação que chegou em muitas formas. Anunciou-se de forma mais violenta com o 11/9 e o surgimento de redes terroristas transnacionais, alimentadas por uma ideologia que perverteu uma das grandes religiões do mundo e afirmou uma luta não apenas entre o Islã e o Ocidente, mas entre o Islã e a modernidade e uma doença. aconselhou a invasão do Iraque pelos EUA não ajudou, acelerando um conflito sectário. A Rússia, já humilhada pela sua reduzida influência desde o colapso da União Soviética, sentindo-se ameaçada pelos movimentos democráticos ao longo de suas fronteiras,

A China, encorajada por seu sucesso econômico, começou a protestar contra as críticas ao seu histórico de direitos humanos; enquadrava a promoção de valores universais como nada mais que interferência estrangeira, imperialismo sob um novo nome.

Dentro dos Estados Unidos, dentro da União Européia, os desafios à globalização vieram primeiro da esquerda, mas vieram mais fortemente da direita, quando começaram a ver movimentos populistas – que, aliás, são cinicamente financiados por bilionários de direita. na redução das restrições do governo em seus interesses comerciais – esses movimentos aproveitaram o mal-estar que foi sentido por muitas pessoas que viviam fora dos núcleos urbanos; temia que a segurança econômica estivesse se esvaindo, que seu status social e privilégios estivessem se deteriorando, que suas identidades culturais estavam sendo ameaçadas por estranhos, alguém que não se parecia com eles ou soava como eles ou orava como eles faziam.

E talvez mais do que qualquer outra coisa, o impacto devastador da crise financeira de 2008, em que o comportamento imprudente das elites financeiras resultou em anos de dificuldades para pessoas comuns em todo o mundo, fez todas as garantias anteriores de especialistas parecerem vazias – todas essas garantias que de alguma forma os reguladores financeiros sabiam o que estavam fazendo, que alguém estava cuidando da loja, que a integração econômica global era um bem não adulterado.

Por causa das ações tomadas pelos governos durante e após a crise, incluindo, devo acrescentar, por medidas agressivas da minha administração, a economia global voltou agora a um crescimento saudável. Mas a credibilidade do sistema internacional, a fé em especialistas em lugares como Washington ou Bruxelas, tudo isso levou um golpe.

E uma política de medo e ressentimento e retração começaram a aparecer, e esse tipo de política está agora em movimento. Está em movimento a um ritmo que teria parecido inimaginável há alguns anos. Eu não estou sendo alarmista, estou simplesmente declarando os fatos. Olhar em volta. As políticas do homem forte estão ascendendo repentinamente, por meio das quais as eleições e alguma pretensão democrática são mantidas – a forma dela – mas os que estão no poder procuram minar todas as instituições ou normas que dão significado à democracia. No Ocidente, você tem partidos de extrema-direita que muitas vezes se baseiam não apenas em plataformas de protecionismo e fronteiras fechadas, mas também em nacionalismo racial pouco oculto.

Muitos países em desenvolvimento agora estão considerando o modelo de controle autoritário da China combinado com o capitalismo mercantilista como preferível à confusão da democracia. Quem precisa de liberdade de expressão enquanto a economia estiver indo bem? A imprensa livre está sob ataque. A censura e o controle estatal da mídia estão em ascensão. A mídia social – antes vista como um mecanismo para promover o conhecimento, a compreensão e a solidariedade – provou ser igualmente eficaz na promoção do ódio e da paranoia e das teorias de propaganda e conspiração.

Assim, no aniversário de 100 anos de Madiba, estamos agora em uma encruzilhada – um momento no tempo em que duas visões muito diferentes do futuro da humanidade competem pelos corações e mentes dos cidadãos ao redor do mundo. Duas histórias diferentes, duas narrativas diferentes sobre quem somos e quem devemos ser. Como devemos responder?

Deveríamos ver aquela onda de esperança que sentimos com a libertação de Madiba da prisão, do Muro de Berlim descendo – devemos ver essa esperança que tínhamos ingênuo e mal orientado? Deveríamos entender os últimos 25 anos de integração global como nada mais do que um desvio do ciclo inevitável da história anterior – onde a causa pode acertar, e a política é uma competição hostil entre tribos e raças e religiões, e as nações competem em uma soma zero? jogo, constantemente à beira do conflito até que a guerra completa irrompe? É isso que pensamos?

Deixe-me dizer o que eu acredito. Eu acredito na visão de Nelson Mandela. Eu acredito em uma visão compartilhada por Gandhi e King e Abraham Lincoln. Acredito em uma visão de igualdade, justiça, liberdade e democracia multirracial, construída com base na premissa de que todas as pessoas são criadas iguais e dotadas pelo nosso criador de certos direitos inalienáveis. E acredito que um mundo governado por tais princípios é possível e que pode alcançar mais paz e mais cooperação na busca de um bem comum. Isso é o que eu acredito.

E acredito que não temos escolha a não ser seguir em frente; que aqueles de nós que acreditam na democracia e nos direitos civis e uma humanidade comum têm uma história melhor para contar. E eu acredito que isso não se baseia apenas no sentimento, acredito que seja baseado em evidências concretas.

O fato de que as sociedades mais prósperas e bem-sucedidas do mundo, aquelas com os mais altos padrões de vida e os mais altos níveis de satisfação entre seus povos, são aquelas que mais se aproximam do ideal progressista liberal de que falamos e alimentaram o mundo. talentos e contribuições de todos os seus cidadãos.

O fato de que governos autoritários têm sido mostrados repetidamente para criar corrupção, porque eles não são responsáveis; reprimir seu povo; perder o contato eventualmente com a realidade; envolver-se em mentiras maiores e maiores que acabam por resultar em estagnação econômica e política e cultural e científica. Olhe para a história. Olhe para os fatos.

O fato de que países que se baseiam em nacionalismo e xenofobia raivosos e doutrinas de superioridade tribal, racial ou religiosa são seus principais princípios organizadores, o que mantém as pessoas unidas – eventualmente esses países se vêem consumidos pela guerra civil ou guerra externa. Confira os livros de história.

O fato de que a tecnologia não pode ser colocada de volta em uma garrafa, então estamos presos ao fato de que agora vivemos juntos e as populações vão se mexer, e os desafios ambientais não vão desaparecer sozinhos, A única maneira de abordar efetivamente problemas como mudança climática ou migração em massa ou doenças pandêmicas será desenvolver sistemas para mais cooperação internacional, não menos.

Nós temos uma história melhor para contar. Mas dizer que nossa visão para o futuro é melhor não é dizer que ela irá inevitavelmente vencer. Porque a história também mostra o poder do medo. A história mostra o domínio duradouro da ganância e o desejo de dominar os outros nas mentes dos homens. Especialmente homens. (Laughter and History mostra com que facilidade as pessoas podem ser convencidas a ligar os que parecem diferentes ou a adorar a Deus de uma maneira diferente.

Então, se formos verdadeiramente continuar a longa caminhada de Madiba em direção à liberdade, teremos que trabalhar mais e teremos que ser mais inteligentes. Nós vamos ter que aprender com os erros do passado recente. E assim, no breve tempo restante, deixe-me sugerir apenas algumas diretrizes para o caminho a seguir, diretrizes que tiram do trabalho de Madiba, suas palavras, as lições de sua vida.

Primeiro, Madiba mostra aqueles de nós que acreditam na liberdade e na democracia que teremos que lutar mais para reduzir a desigualdade e promover oportunidades econômicas duradouras para todas as pessoas.

Agora, não acredito no determinismo econômico. Os seres humanos não vivem só de pão. Mas eles precisam de pão. E a história mostra que as sociedades que toleram grandes diferenças de riqueza alimentam ressentimentos e reduzem a solidariedade e, na verdade, crescem mais lentamente; e que, uma vez que as pessoas alcancem mais do que mera subsistência, elas estão medindo seu bem-estar comparando-se com seus vizinhos e se seus filhos podem esperar viver uma vida melhor.

E quando o poder econômico está concentrado nas mãos de poucos, a história também mostra que o poder político certamente se seguirá – e essa dinâmica corrói a democracia. Às vezes pode ser uma corrupção direta, mas às vezes pode não envolver a troca de dinheiro; é só gente que é tão rica que consegue o que quer, e isso prejudica a liberdade humana.

E Madiba entendeu isso. Isso não é novidade. Ele nos alertou sobre isso. Ele disse: “Onde a globalização significa, como tantas vezes acontece, que os ricos e os poderosos agora têm novos meios para enriquecer e fortalecer a si mesmos à custa dos mais pobres e mais fracos, [então] temos a responsabilidade de protestar em o nome da liberdade universal ”. Foi o que ele disse.

Então, se estamos falando sério sobre a liberdade universal hoje, se nos preocupamos com a justiça social hoje, então temos a responsabilidade de fazer algo a respeito. E eu respeitosamente emendaria o que Madiba disse. Eu não faço isso com frequência, mas eu diria que não é o suficiente para protestarmos; vamos ter que construir, vamos ter que inovar, vamos ter que descobrir como podemos fechar esse abismo crescente de riqueza e oportunidade, tanto dentro dos países como entre eles.

E como conseguimos isso vai variar de país para país, e sei que seu novo presidente está empenhado em arregaçar as mangas e tentar fazê-lo. Mas podemos aprender com os últimos 70 anos que isso não envolverá capitalismo desregulado, desenfreado e antiético. Também não envolverá o socialismo de comando e controle de estilo antigo no topo. Isso foi tentado; Não funcionou muito bem. Para quase todos os países, o progresso dependerá de um sistema de mercado inclusivo – que ofereça educação para todas as crianças; que protege a negociação coletiva e assegure os direitos de todos os trabalhadores – que destrói monopólios para encorajar a concorrência em pequenas e médias empresas; e possui leis que erradicam a corrupção e garantem negociações justas nos negócios;

Eu devo acrescentar, a propósito, agora estou realmente surpreso com quanto dinheiro eu tenho, e deixe-me dizer uma coisa: eu não tenho metade da maioria dessas pessoas ou de um décimo ou centésimo. . Há tanta coisa que você pode comer. Há apenas uma casa tão grande que você pode ter. Há apenas tantas viagens agradáveis ​​que você pode fazer. Quero dizer, é o suficiente. Você não tem que fazer um voto de pobreza apenas para dizer: “Bem, deixe-me ajudar e deixar algumas das outras pessoas – deixe-me olhar para aquela criança lá fora que não tem o suficiente para comer ou precisa de algum taxas escolares, deixe-me ajudá-lo. Eu vou pagar um pouco mais em impostos. Está bem. Eu posso pagar isso.”

Quero dizer, isso mostra uma pobreza de ambição de apenas querer tomar mais e mais e mais, em vez de dizer: “Uau, eu tenho muito. Quem posso ajudar? Como posso dar mais e mais e mais? ”Isso é ambição. Isso é impacto. Isso é influência. Que presente incrível para ajudar as pessoas, não apenas você. Onde eu estava? Eu improvisei. Você entendeu.

Envolve promover um capitalismo inclusivo tanto dentro das nações como entre as nações. E, como perseguimos, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, temos que superar a mentalidade de caridade. Temos que trazer mais recursos para os bolsos esquecidos do mundo através do investimento e do empreendedorismo, porque há talento em todo o mundo se for dada uma oportunidade.

Quando se trata do sistema internacional de comércio e comércio, é legítimo que os países mais pobres continuem a buscar acesso aos mercados mais ricos. E, a propósito, mercados mais ricos, esse não é o grande problema que você está tendo – que um pequeno país africano está enviando chá e flores para você. Esse não é o seu maior desafio econômico. Também é apropriado para as economias avançadas, como os Estados Unidos, insistir na reciprocidade de países como a China, que não são mais apenas países pobres, para garantir o acesso aos seus mercados e deixar de tomar propriedade intelectual e hackear nossos servidores.

Mas mesmo que haja discussões em torno do comércio e do comércio, é importante reconhecer essa realidade: enquanto a terceirização de empregos de norte a sul, de leste a oeste, enquanto muito disso era uma tendência dominante no final do século XX. , o maior desafio para os trabalhadores em países como o meu hoje é a tecnologia.

E o maior desafio para o seu novo presidente quando pensarmos em empregar mais pessoas aqui também será a tecnologia, porque a inteligência artificial está aqui e está acelerando, e você terá carros sem motorista, e você terá mais e mais serviços automatizados, e isso dará ao trabalho de dar a todos um trabalho mais significativo, e teremos que ser mais imaginativos, e o pacto de mudança vai nos exigir fazer uma re-imaginação mais fundamental de nossos arranjos sociais e políticos, para proteger a segurança econômica e a dignidade que vem com um trabalho. Não é apenas dinheiro que um emprego oferece; fornece dignidade e estrutura, senso de lugar e senso de propósito.

Assim, teremos que considerar novas maneiras de pensar sobre esses problemas, como uma renda universal, uma revisão de nossa jornada de trabalho, como treinamos nossos jovens, como fazemos de todos um empreendedor em algum nível. Mas vamos ter que nos preocupar com economia se quisermos colocar a democracia de volta nos trilhos.

Segundo, Madiba nos ensina que alguns princípios são realmente universais – e o mais importante é o princípio de que estamos unidos por uma humanidade comum e que cada indivíduo tem dignidade e valor inerentes.

Agora, é surpreendente que tenhamos que afirmar esta verdade hoje. Mais de um quarto de século depois que Madiba saiu da prisão, eu ainda tenho que ficar aqui em uma palestra e dedicar algum tempo para dizer que negros e brancos e asiáticos e latino-americanos e mulheres e homens e gays e heterossexuais, isso somos todos humanos, que nossas diferenças são superficiais e que devemos tratar uns aos outros com cuidado e respeito. Eu teria pensado que teríamos descoberto isso agora. Eu achava que essa noção básica estava bem estabelecida. Mas acontece que, como vemos nessa recente tendência à política reacionária, a luta pela justiça básica nunca está realmente terminada. Então temos que estar constantemente atentos e lutar por pessoas que buscam se elevar colocando alguém abaixo.

E, a propósito, também temos que resistir ativamente – isso é importante, particularmente em alguns países da África, como a pátria de meu pai; Já fiz isso antes – temos que resistir à noção de que os direitos humanos básicos, como a liberdade de discordância, ou o direito das mulheres de participar plenamente da sociedade, ou o direito das minorias à igualdade de tratamento, ou os direitos das pessoas não para sermos espancados e presos por causa de sua orientação sexual – temos que ter cuidado para não dizer que de alguma forma, bem, isso não se aplica a nós, que essas são idéias ocidentais, e não imperativos universais.

Mais uma vez, Madiba, ele antecipou as coisas. Ele sabia do que estava falando. Em 1964, antes de receber a sentença que o condenou a morrer na prisão, ele explicou do banco dos réus que, “A Carta Magna, a Petição de Direitos, a Declaração de Direitos são documentos que são mantidos em veneração por democratas em todo o mundo. Em outras palavras, ele não disse bem, esses livros não foram escritos por sul-africanos, então eu simplesmente não posso reivindicá-los. Não, ele disse que é parte da minha herança.

Isso é parte da herança humana. Isso se aplica aqui neste país, para mim e para você. E isso é parte do que lhe deu a autoridade moral que o regime do apartheid nunca poderia reivindicar, porque estava mais familiarizado com seus melhores valores do que eles. Ele lera seus documentos com mais cuidado do que eles. E ele prosseguiu dizendo: “A divisão política baseada na cor é inteiramente artificial e, quando desaparece, a dominação de um grupo de cores por outro também.” Isso é Nelson Mandela falando em 1964, quando eu tinha três anos de idade.

O que era verdade, então, permanece verdadeiro hoje. Verdades básicas não mudam. É uma verdade que pode ser adotada pelos ingleses e pelos indianos e pelos mexicanos e bantos e pelos luo e pelos americanos. É uma verdade que está no coração de toda religião mundial – que devemos fazer aos outros como gostaríamos que fizessem a nós. Que nos vemos em outras pessoas. Que podemos reconhecer esperanças comuns e sonhos comuns. E é uma verdade que é incompatível com qualquer forma de discriminação baseada em raça ou religião ou gênero ou orientação sexual. E é uma verdade que, a propósito, quando abraçada, realmente proporciona benefícios práticos, uma vez que garante que uma sociedade possa aproveitar os talentos, a energia e a habilidade de todas as pessoas. E se você duvida, basta perguntar ao time de futebol francês que acabou de ganhar a Copa do Mundo. Porque nem todas essas pessoas – nem todas essas pessoas se parecem com gauleses para mim. Mas eles são franceses. Eles são franceses.

Abraçando nossa humanidade comum não significa que tenhamos que abandonar nossas identidades étnicas, nacionais e religiosas. Madiba nunca deixou de se orgulhar de sua herança tribal. Ele não deixou de se orgulhar de ser negro e de ser sul-africano.

Mas ele acreditava, como eu acredito, que você pode se orgulhar de sua herança sem denegrir os de uma herança diferente. Na verdade, você desonra sua herança. Isso me faria pensar que você é um pouco inseguro sobre sua herança se tiver que colocar a herança de outra pessoa para baixo. Sim, está certo. Você não sente que às vezes – mais uma vez, eu estou improvisando aqui – que essas pessoas que estão tão concentradas em colocar as pessoas para baixo e se embotando que elas são de coração pequeno, que há algo que elas estão com medo do.

Madiba sabia que não podemos reivindicar justiça para nós mesmos quando isso é reservado apenas para alguns. Madiba entendeu que não podemos dizer que temos uma sociedade justa simplesmente porque substituímos a cor da pessoa em cima de um sistema injusto, então a pessoa se parece conosco mesmo que esteja fazendo a mesma coisa, e de alguma forma agora nós temos justiça. Isso não funciona. Não é justiça se agora você estiver no topo, então vou fazer a mesma coisa que aquelas pessoas estavam fazendo comigo e agora vou fazer isso com você. Isso não é justiça. “Eu detesto o racismo”, disse ele, “se vem de um homem negro ou de um homem branco”.

Agora, temos que reconhecer que há desorientação que vem da rápida mudança e modernização, e o fato de que o mundo encolheu, e vamos ter que encontrar maneiras de diminuir os medos daqueles que se sentem ameaçados. No debate atual do Ocidente em torno da imigração, por exemplo, não é errado insistir que as fronteiras nacionais importam; se você é um cidadão ou não vai importar para um governo, que as leis precisam ser seguidas; que, no âmbito público, os recém-chegados devem se esforçar para adaptar-se à linguagem e aos costumes de seu novo lar. Essas são coisas legítimas e temos que ser capazes de envolver as pessoas que se sentem como se as coisas não estivessem em ordem. Mas isso não pode ser uma desculpa para políticas de imigração baseadas em raça, etnia ou religião. Tem que haver alguma consistência. E podemos impor a lei respeitando a humanidade essencial daqueles que estão lutando por uma vida melhor. Para uma mãe com um filho nos braços, podemos reconhecer que poderia ser alguém da nossa família, que poderia ser meu filho.

Em terceiro lugar, Madiba nos lembra que a democracia é mais do que apenas eleições.

Quando ele foi libertado da prisão, a popularidade de Madiba – bem, você não podia nem medir isso. Ele poderia ter sido presidente vitalício. Estou errado? Quem iria correr contra ele? Quero dizer, Ramaphosa era popular, mas vamos lá. Além disso, ele era jovem – ele era jovem demais. Se ele tivesse escolhido, Madiba poderia ter governado por decreto executivo, sem restrição de contrapesos. Mas, em vez disso, ajudou a guiar a África do Sul através da elaboração de uma nova Constituição, baseada em todas as práticas institucionais e ideais democráticos que se mostraram mais robustos, atentos ao fato de que nenhum indivíduo possui o monopólio da sabedoria.

Nenhum indivíduo – nem Mandela, nem Obama – é totalmente imune às influências corruptoras do poder absoluto, se você puder fazer o que quiser e todo mundo tem medo de dizer quando você cometer um erro. Ninguém está imune aos perigos disso.

Mandela entendeu isso. Ele disse: “A democracia é baseada no princípio da maioria. Isso é especialmente verdadeiro em um país como o nosso, onde a grande maioria tem sistematicamente negado seus direitos. Ao mesmo tempo, a democracia também exige que os direitos das minorias políticas e outras sejam salvaguardados ”. Ele entendeu que não é apenas sobre quem tem mais votos. É também sobre a cultura cívica que construímos que faz a democracia funcionar.

Então temos que parar de fingir que os países que apenas realizam uma eleição onde às vezes o vencedor magicamente obtém 90% dos votos porque toda a oposição está trancada – ou não podem entrar na TV, é uma democracia. A democracia depende de instituições fortes e é sobre os direitos das minorias e freios e contrapesos, e liberdade de expressão e liberdade de expressão e imprensa livre, e o direito de protestar e peticionar o governo, e um judiciário independente, e todos têm que seguir a lei .

E sim, a democracia pode ser confusa, e pode ser lenta, e pode ser frustrante. Eu sei, eu prometo. Mas a eficiência oferecida por um autocrata é uma promessa falsa. Não o leve, porque leva, invariavelmente, a uma maior consolidação da riqueza no topo e ao poder no topo, e torna mais fácil esconder a corrupção e o abuso. Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia real sustenta melhor a ideia de que o governo existe para servir o indivíduo e não o contrário. E é a única forma de governo que tem a possibilidade de tornar essa ideia real.

Então, para aqueles de nós que estão interessados ​​em fortalecer a democracia, paremos também – é hora de pararmos de prestar atenção às capitais mundiais e aos centros de poder e começar a nos concentrar mais nas bases, porque é aí que a legitimidade democrática vem de. Não de cima para baixo, não de teorias abstratas, não apenas de especialistas, mas de baixo para cima. Conhecer as vidas daqueles que estão lutando.

Como organizadora da comunidade, aprendi muito com um trabalhador de aço desempregado em Chicago ou com uma mãe solteira em um bairro pobre que visitei, como aprendi com os melhores economistas do Salão Oval. Democracia significa estar em contato e em sintonia com a vida como é vivida em nossas comunidades, e isso é o que devemos esperar de nossos líderes, e depende do cultivo de líderes na base que podem ajudar a trazer mudanças e implementá-las no terreno e podem diga aos líderes em edifícios extravagantes, isso não está funcionando aqui.

E para fazer a democracia funcionar, Madiba nos mostra que também temos que continuar ensinando nossos filhos, e a nós mesmos – e isso é realmente difícil – a nos engajar com pessoas que não apenas têm uma aparência diferente, mas possuem visões diferentes. Isto é difícil.

A maioria de nós prefere nos cercar de opiniões que validem o que já acreditamos. Você percebe que as pessoas que você acha inteligentes são as pessoas que concordam com você. Engraçado como isso funciona. Mas a democracia exige que também possamos entrar na realidade das pessoas que são diferentes de nós para que possamos entender seu ponto de vista. Talvez possamos mudar de idéia, mas talvez eles mudem os nossos. E você não pode fazer isso se você simplesmente ignorar o que seus oponentes têm a dizer desde o início. E você não pode fazer isso se você insiste que aqueles que não são como você – porque são brancos, ou porque são do sexo masculino – que de alguma forma não há como eles entenderem o que eu sinto, que de alguma forma eles não têm de pé para falar sobre certos assuntos.

Madiba, ele viveu essa complexidade. Na prisão, ele estudou afrikaans para poder entender melhor as pessoas que o estavam encarcerando. E quando ele saiu da prisão, ele estendeu a mão para aqueles que o haviam prendido, porque ele sabia que eles tinham que ser parte da África do Sul democrática que ele queria construir. “Para fazer as pazes com um inimigo”, escreveu ele, “é preciso trabalhar com esse inimigo e esse inimigo torna-se parceiro de alguém”.

Assim, aqueles que traficam em absolutos quando se trata de política, seja à esquerda ou à direita, tornam a democracia inviável. Você não pode esperar obter 100% do que você quer o tempo todo; às vezes, você tem que comprometer. Isso não significa abandonar seus princípios, mas significa manter esses princípios e ter a confiança de que eles resistirão a um debate democrático sério. Foi assim que os Fundadores da América planejaram que nosso sistema funcionasse – que, através do teste de idéias e da aplicação da razão e da prova, seria possível chegar a uma base para um terreno comum.

E devo acrescentar que isso funcione, temos que realmente acreditar em uma realidade objetiva. Essa é outra dessas coisas que eu não tive que fazer palestras. Você tem que acreditar em fatos. Sem fatos, não há base para cooperação. Se eu disser que este é um pódio e você diz que isso é um elefante, vai ser difícil para nós cooperarmos. Eu posso encontrar um terreno comum para aqueles que se opõem aos Acordos de Paris porque, por exemplo, eles podem dizer, bem, não vai funcionar, você não pode fazer com que todos cooperem, ou eles podem dizer que é mais importante para nós fornecermos produtos baratos. energia para os pobres, mesmo que isso signifique, a curto prazo, que haja mais poluição.

Pelo menos eu posso ter um debate com eles sobre isso e posso mostrar a eles porque eu acho que a energia limpa é o melhor caminho, especialmente para os países pobres, que você pode ultrapassar tecnologias antigas. Não consigo encontrar um terreno comum se alguém diz que a mudança climática não está acontecendo, quando quase todos os cientistas do mundo nos dizem que é. Eu não sei por onde começar a falar sobre isso. Se você começar a dizer que é uma farsa elaborada, eu não sei o que fazer – onde começamos?

Infelizmente, muita da política hoje parece rejeitar o próprio conceito de verdade objetiva. As pessoas inventam coisas. Eles apenas inventam coisas. Nós vemos isso na propaganda patrocinada pelo estado; vemos isso em fabricações conduzidas pela Internet, vemos isso na confusão de linhas entre notícias e entretenimento, vemos a total perda de vergonha entre os líderes políticos, onde eles são pegos em uma mentira e eles simplesmente dobram e mentem um pouco mais. Políticos sempre mentiram, mas costumava ser, se você os pegasse mentindo, seria tipo “Oh, cara”. Agora eles continuam mentindo.

Aliás, isso é o que eu acho que Mama Graça estava falando em termos de algum senso de humildade que Madiba sentia, como às vezes coisas básicas, eu não mentir para as pessoas parece básico, eu não penso em mim como um grande líder só porque eu não invisto completamente. Você acha que foi uma linha de base. De qualquer forma, vemos isso na promoção do anti-intelectualismo e na rejeição da ciência por parte de líderes que acham o pensamento crítico e os dados de alguma forma politicamente inconvenientes.

E, como na negação de direitos, a negação de fatos vai contra a democracia, pode ser a sua ruína, e é por isso que devemos proteger zelosamente a mídia independente; e temos que nos proteger contra a tendência das mídias sociais se tornarem puramente uma plataforma para espetáculo, indignação ou desinformação; e temos que insistir que nossas escolas ensinem o pensamento crítico aos nossos jovens, não apenas a obediência cega.

O que, tenho certeza de que você é grato, leva ao meu último ponto: temos que seguir o exemplo de persistência e esperança de Madiba.

É tentador ceder ao cinismo: acreditar que as mudanças recentes na política global são muito poderosas para retroceder; que o pêndulo oscilou permanentemente. Assim como as pessoas falaram sobre o triunfo da democracia nos anos 90, agora vocês estão ouvindo as pessoas falarem sobre o fim da democracia e o triunfo do tribalismo e do homem forte. Temos que resistir a esse cinismo.

Porque, nós passamos por tempos mais escuros, nós estivemos em vales mais baixos e vales mais profundos. Sim, até o final de sua vida, Madiba incorporou a luta bem-sucedida pelos direitos humanos, mas a jornada não foi fácil, não foi pré-ordenada. O homem foi preso por quase três décadas. Ele dividiu o calcário no calor, dormiu em uma pequena cela e foi repetidamente colocado em confinamento solitário. E eu lembro de ter conversado com alguns de seus ex-colegas dizendo como eles não tinham percebido quando foram libertados, apenas a visão de uma criança, a ideia de segurar uma criança, eles haviam perdido – não era algo disponível para eles, por décadas.

E, no entanto, seu poder realmente cresceu durante aqueles anos – e o poder de seus carcereiros diminuiu, porque ele sabia que se você mantivesse o que é verdade, se você sabe o que está em seu coração, e você está disposto a se sacrificar por isso, mesmo no face de chances esmagadoras, de que isso pode não acontecer amanhã, pode não acontecer na próxima semana, pode nem acontecer em sua vida.

As coisas podem retroceder por um tempo, mas no final das contas, certo faz poder, e não o contrário, a história melhor pode vencer e tão forte quanto o espírito de Madiba pode ter sido, ele não teria sustentado essa esperança se estivesse sozinho na luta, parte da motivação era que ele soubesse que a cada ano, as fileiras de combatentes da liberdade estavam se reabastecendo, homens e mulheres jovens, aqui na África do Sul, no ANC e além; negros, indianos e brancos, do outro lado do campo, por todo o continente, em todo o mundo, que naqueles dias mais difíceis continuariam trabalhando em prol de sua visão.

E é disso que precisamos agora, não precisamos apenas de um líder, não precisamos apenas de uma inspiração, o que precisamos agora é desse espírito coletivo. E eu sei que aqueles jovens, aqueles portadores de esperança estão se reunindo ao redor do mundo. Porque a história mostra que sempre que o progresso é ameaçado, e as coisas que mais nos interessam estão em questão, devemos ouvir as palavras de Robert Kennedy – falado aqui na África do Sul, ele disse: “Nossa resposta é a esperança do mundo: é confiar na juventude. É confiar no espírito dos jovens ”.

Então, os jovens, que estão na platéia, que estão ouvindo, minha mensagem para você é simples, continue acreditando, continue marchando, continue construindo, continue levantando sua voz. Toda geração tem a oportunidade de refazer o mundo. Mandela disse: “Os jovens são capazes, quando despertados, de derrubar as torres da opressão e levantar as bandeiras da liberdade”. Agora é um bom momento para ser despertado. Agora é um bom momento para se animar.

E, para aqueles de nós que se preocupam com o legado que nós honramos aqui hoje – sobre igualdade e dignidade e democracia e solidariedade e bondade, aqueles de nós que permanecem jovens no coração, se não no corpo – temos a obrigação de ajudar nossos jovens ter sucesso. Alguns de vocês sabem, aqui na África do Sul, minha Fundação está convocando nos últimos dias, duzentos jovens de todo o continente que estão fazendo o trabalho duro de fazer mudanças em suas comunidades; que refletem os valores de Madiba, que estão preparados para liderar o caminho.

Pessoas como Abaas Mpindi, um jornalista de Uganda, que fundou a Media Challenge Initiative, para ajudar outros jovens a obter o treinamento necessário para contar as histórias que o mundo precisa saber.

Pessoas como Caren Wakoli, uma empreendedora do Quênia, que fundou a Emerging Leaders Foundation para envolver os jovens no trabalho de combater a pobreza e promover a dignidade humana.

Pessoas como Enock Nkulanga, que dirige a missão African Children, que ajuda crianças em Uganda e no Quênia a obterem a educação de que precisam e, em seu tempo livre, defende os direitos das crianças em todo o mundo e fundou uma organização chamada LeadMinds Africa. , que faz exatamente o que diz.

Você conhece essas pessoas, fala com elas, elas lhe dão esperança. Eles estão tomando o bastão, eles sabem que não podem simplesmente descansar sobre as realizações do passado, até mesmo as realizações daqueles tão importantes quanto os de Nelson Mandela. Eles ficam sobre os ombros daqueles que vieram antes, incluindo aquele jovem negro nascido há 100 anos, mas eles sabem que agora é a vez deles fazerem o trabalho.

Madiba nos lembra que: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, de sua origem ou de sua religião. As pessoas devem aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor vem mais naturalmente ao coração humano. ”O amor vem mais naturalmente ao coração humano, vamos nos lembrar dessa verdade. Vamos ver isso como nossa Estrela do Norte, vamos nos alegrar em nossa luta para fazer essa verdade se manifestar aqui na terra para que daqui a 100 anos, futuras gerações olhem para trás e digam, “eles mantiveram a marcha, é por isso que vivemos sob novos banners de liberdade ”.

Muito obrigado, África do Sul, obrigado.

https://mg.co.za/article/2018-07-18-read-in-full-the-barack-obama-2018-nelson-mandela-lecture

Não é mais suficiente para um professor conhecer o conteúdo, mas sim entender como cada aluno aprende

Linda Darling-Hammond afirma que um formador vale por mil reformadores e aponta caminhos para a construção desses formadores

Por: Soraia Yoshida

A professora norte-americana Linda Darling-Hammond afirma que o grande indicador do sucesso de um aluno é a habilidade de aprender coisas novas e melhorar seu repertório à medida que desenvolve capacidades para criar, colaborar e solucionar problemas. “As sociedades estão mudando muito rapidamente”, disse em sua palestra no evento Ciclo de Debates: A Formação dos Professores no Contexto da BNCC, em São Paulo, iniciativa do Instituto Ayrton Senna e Fundação Itaú Social. “Os alunos estão trabalhando na resolução de problemas que são novos para nós. Eles estão aprendendo coisas que nós ainda estamos inventando”, disse. Para ela, os professores que estão lidando com essa geração devem estar dispostos a aprender – e muito. “Prestem atenção nesses verbos: explorar, pesquisar, analisar, avaliar, aprender, criar, formular, expressar. Temos as diretrizes do que os nossos jovens têm que aprender”.

 

Em sua primeira visita ao Brasil, a professora emérita da Universidade de Stanford, na Califórnia, reforçou a necessidade de grandes investimentos na preparação de professores para que eles sejam capazes de lidar com as demandas trazidas por essa sociedade em evolução. Logo nos primeiros minutos de sua palestra, Linda afirmou que quaisquer que sejam os padrões de ensino, eles não são os responsáveis pelo ensino em si. “Nós amamos as palavras, mas são os professores e diretores de escola que dão vida a elas”, disse. “Nenhuma sociedade pode sobreviver ou ser bem-sucedida sem uma boa Educação”.

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A educadora norte-americana entende que, da mesma maneira que acontece na Medicina, os professores precisam experimentar um processo de aprendizado contínuo em sua formação. “A educação dos professores precisa mudar”, afirmou. Para ela, é importante trabalhar com referências de estruturas de aprendizado mais profundas nas escolas, para que os professores (principalmente os iniciantes) possam experimentar antes de adotar as estratégias que usarão nas práticas de ensino. “Professores não podem aprender como se ensina a ler, eles precisam experimentar aquela pedagogia”, disse.

Linda Darling-Hammond pesquisou programas de formação na Austrália, Singapura, China, Canadá, Finlândia, além de várias regiões dos Estados Unidos. Os governos finlandês e singapuriano bancam a formação de professores em qualquer parte do país e oferecem salários competitivos em relação a outras profissões. “Não é suficiente preparar os professores de maneira mais compreensiva, é preciso um sistema com salários mais adequados para termos uma força estável de professores tratados com respeito”, afirmou.

A pesquisadora compreende que é preciso ter recursos para criar um esquema de colaboração e planejamento que permita aos professores trabalhar dentro de novas perspectivas. Ela apontou pontos em comum em países de culturas e sistemas educacionais variados e indicou oportunidades quando se parte da visão do ensino centrado no aluno, guiando um conjunto coerente de cursos e trabalhos clínicos e oportunidades de aprendizado para os professores. Partindo de ambiente interativos, do investimento em pesquisas e criação de comunidades de aprendizagem em sala de aula para apoiar a aprendizagem socioemocional e acadêmica. Tudo isso deve estar apoiado em um currículo focado na aprendizagem e no desenvolvimento das crianças em diversos contextos sociais. “O processo de memorização, em lugar da compreensão, é inútil hoje”, disse. linda

Um formador vale por mil reformadores
Linda defende que emoções e o aprendizado estão diretamente relacionados. Se um aluno incorre em emoções negativas, como ansiedade, falta de confiança, isso irá afetar a maneira como ele aprende. Da mesma forma, um aluno com emoções positivas, que se sinta estimulado pelo professor, vai gostar mais do processo de aprendizado. Ela citou as diretrizes curriculares das Nações Unidas: “A educação deve se tornar um caminho que conduz a um desenvolvimento mais harmonioso e autêntico”. E completou: “Eu amo essa parte, harmonioso e autêntico”.

A educadora afirma que no mundo em que vivemos, não é mais suficiente para um professor conhecer o conteúdo, mas sim entender como cada aluno aprende aquele conteúdo. Diante da adoção do Common Core, nos Estados Unidos, e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no Brasil, ela diz que o professor deve juntar o conhecimento dos alunos com os objetivos do currículo. “Não há duas crianças que sejam iguais, mas os objetivos do currículo o são, então formadores precisam se tornar mais ‘personalizados’ para ajudar professores que vêm de diferentes níveis econômicos e sociais”. Em resumo “Trazer o currículo até a criança e levar a criança até o currículo”.

Se a formação de professores é uma parte essencial do eixo de transformação da Educação, Linda acredita que o papel do formador de professores é ainda mais precioso. Ela elencou alguns pontos para garantir o sucesso da empreitada:

– Invista na formação de professores e líderes
– Arranje tempo para que todos possam participar
– Um formador vale por mil reformadores

Antes de se despedir de uma plateia que contava com secretários de Educação e formadores, ela afirmou: “Mais do que desejar boa sorte a vocês, eu desejo uma profunda compreensão. E que a Força esteja com vocês”.

https://novaescola.org.br/conteudo/11722/nenhuma-sociedade-pode-ser-bem-sucedida-sem-uma-boa-educacao

Ensinar é um acordo entre duas pessoas, um que será o professor e outro que será o aluno.

É hora de criar formas de avaliar habilidades do século 21

A professora norte-americana Katherine Merseth quer mudar a maneira como os professores aprendem, para que eles possam ensinar de forma diferente

Por: Soraia Yoshida
Katherine Merseth é professora sênior da Escola de Educação da Universidade de Harvard e veio ao Brasil para o lançamento do livro Desafios reais para o cotidiano brasileiro   Foto: Acauã Fonseca 

A professora norte-americana Katherine Merseth está em busca de casos. Ela e sua equipe já acompanharam as aflições, problemas e conquistas de professores em países como Chile, África do Sul e, mais recentemente, Brasil. Ao levantar e publicar as histórias de professores e seus desafios em sala de aula, Katherine expõe fracassos – mas também incríveis vitórias. “O maior elogio que posso receber de um professor é quando ele pega meu livro e diz: ‘Mas essa escola da qual você fala aqui parece com a minha escola’”, afirma. “Quando falamos nos desafios da Educação, há questões que são comuns a professores nos Estados Unidos, Alemanha ou Japão e que nos conectam aos estudantes”.

katherine merseth

O livro “Desafios reais do Cotidiano Escolar Brasileiro: 22 dilemas vividos por diretores, coordenadores e professores em escolas de todo o Brasil” reúne relatos de professores e gestores sobre experiência em sala de aula e na organização escolar. Professora sênior da Escola de Educação da Universidade de Harvard, Katherine Merseth coordenou o trabalho que utilizou a metodologia da instituição norte-americana para levantar a discussão sobre os desafios enfrentados pelos educadores nas escolas brasileiras. Há casos de bullying, violência, questões étnico-raciais, tudo dentro da experiência de quem viveu o problema e foi buscar uma solução – com a ajuda dos colegas, gestores, alunos e da comunidade escolar.

 

Para Katherine, o estudo dos casos, com suas evidências, é uma forma de compartilhar experiências com professores em situações muito similares, ainda que separados por fronteiras estaduais e municipais. Da mesma maneira, poderia servir ainda para dar exemplos em sala de aula de como adotar competências socioemocionais, seguindo o que diz a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Os professores podem ler casos de outros professores que dão uma aula que envolve o aprendizado de competências socioemocionais. E, com isso, eles passam a entender melhor”, afirma. É muito mais fácil assimilar a experiência de alguém que passa pelas mesmas dificuldades e fala a mesma língua, garante a professora. “Precisamos de mais casos para que os formadores, os professores em início de carreira e os professores experientes possam assimilar essas competências”.

 

A dinâmica desse aprendizado também é um ponto muito importante. Com a implementação da Base, há uma discussão que toma corpo sobre como deve ser feita a formação dos professores. Katherine é enfática em sua posição. “A melhor maneira de um professor aprender é estudando um caso, não através de aula expositiva. Então precisamos registrar mais casos sobre aprendizado de colaboração, resolução de problemas, resiliência, pois essas são as habilidades que os alunos precisam. Eles não precisam de mais aulas sobre como conjugar verbos”.

Ainda que Katherine possa ter um olhar crítico para as demandas não atendidas em sala de aula, ela não se vê acima dos educadores que, diariamente, enfrentam os desafios de transpor as barreiras da desigualdade para oferecer conhecimento. Toda vez que ela tinha de se apresentar, não hesitava: “Eu sou uma professora”. “É assim que eu me apresento às pessoas porque é o que eu sou”.

Em sua passagem pelo Brasil, a convite do Instituto Peninsula, Katherine Merseth conversou com NOVA ESCOLA sobre os dilemas dos professores, formação continuada e algumas observações para melhorar a Educação no país.

Em seus estudos sobre a experiência dos professores em sala de aula em países como Chile e África do Sul, você encontrou semelhanças com o cenário brasileiro?
No trabalho que fizemos no Chile, encontramos um diretor que tinha em sua escola de ensino médio alunos bolivianos e chilenos. Os bolivianos queriam comemorar o Dia da Independência na Bolívia, mesmo vivendo no Chile. Aqui no Brasil, registramos o caso de um professor que fala sobre os venezuelanos que cruzaram a fronteira e estão no Brasil. Em qual nível, as escolas dessas cidades de fronteira devem respeitar a cultura venezuelana é uma questão levantada por ele. Aqui estamos falando de assimilação da comunidades. Tivemos casos em que o problema não estava na escola, mas no entorno. Conversamos com Jefferson, um diretor de uma escola situada em uma comunidade no Rio de Janeiro. O dilema dele era decidir se, em certos dias, ele deveria manter a escola aberta ou fechá-la, sabendo que a escola estivesse fechada, as crianças voltariam para casa e estariam suscetíveis ao perigo nessa caminhada, além de ficarem sozinhas em casa, pois os pais trabalham. Mas há casos semelhantes na África do Sul se pensarmos em termos de diminuir a desigualdade, um desafio que pode ser visto em muitos lugares e culturas. Há um caso de um educador na favela de Sowetto que tenta educar crianças que não contam com apoio da família. E há casos semelhantes aqui no Brasil. Então há semelhanças e, claro, diferenças. E acho que essa é a coisa mais poderosa nesse trabalho.

Como a sra. espera que professores façam uso desses casos?
Eles podem conhecer e entender experiências vividas por outros professores, seja em Brasília, no Amazonas, no Rio de janeiro. Eles podem ler os casos e ver algo que pode servir para eles. O maior elogio por parte de um professor é quando ele pega meu livro e diz: “Esta escola parece com a minha escola” ou “Isso aconteceu comigo ontem”. Quando falamos nos desafios do ensino, há desafios que enfrentamos nos Estados Unidos, na Alemanha, no Japão. Existe uma questão que é comum conectando os professores aos estudantes.

 

Em seus estudos em outros países, a sra. se deparou com alguma solução que poderia ser usada em qualquer escola ou sempre há uma barreira local que torna isso impossível?
O contexto de uma escola, onde está localizada, quem são os alunos, como é a comunidade, se essa escola tem apoio do governo, qual a política pública para esse local, todas essas coisas vão variar bastante. Mas quando estou dentro da sala de aula, quando estou diante dos meus alunos, é um contrato entre eu e meus estudantes. Ensinar é um acordo entre duas pessoas, um que será o professor e outro que será o aluno. E isso é universal. Quanto mais pudermos ajudar os professores brasileiros a reconhecer os alunos que estão diante deles, a educação se tornará melhor. E isso considerando famílias, pais, governos, dadas todas as diferenças. O problema é que vemos uma ânsia enorme em vários países em copiar o que está sendo feito na Finlândia, Singapura, Japão ou Canadá. Algumas coisas vão funcionar, mas você não pode simplesmente pegar um modelo e colocar em prática, na esperança que os professores levem a ideia adiante.

No ano passado, tivemos a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 
Eu acho que o Brasil deu o primeiro passo ao aprovar a Base e isso é excelente. Todos agora têm um objetivo em comum e há um entendimento sobre o que deve ser ensinado. E poderá ajudar os professores a entender como dar sua aula de forma diferente. É um exemplo perfeito de boa política pública. Agora, se vai fracassar ou se será bem-sucedido vai depender de quão bem será implementada, como a maioria das políticas públicas.

A Base deixa claro que o ensino das disciplinas deve ser perpassado pelo ensino de competências socioemocionais. É claro que não existe receita de bolo, mas como trazer essa nova mentalidade para a sala de aula?
A melhor maneira de um professor aprender é estudando um caso, não através de uma aula expositiva. Precisamos registrar mais casos sobre o aprendizado de habilidades socioemocionais para que os formadores, os professores em início de carreira e os professores experientes possam assimilar esse ensino. Podem ser casos sobre colaboração, resolução de problemas e outras competências que os estudantes precisam desenvolver. É disso que eles precisam, não mais aulas sobre como conjugar verbos.

Então o que precisamos fazer é colocar os professores, durante a formação, no lugar do aluno em atividades colaborativas, para que saibam como dar essa aula depois aos seus alunos?
É isso mesmo. Professores ensinam do jeito que foram ensinados. Não deveria ser uma surpresa, portanto, que um professor que aprendeu através de aula expositiva, vá ensinar seus alunos com aulas expositivas. Se os professores forem ensinados com atividades, trabalho colaborativo, eles vão dar aulas com essas características a seus alunos. É por isso que precisamos mudar a prática de trabalho. Se continuarmos apenas com aulas expositivas, acabaremos nos concentrando na teoria e eles não estarão preparados para dar aula nesse novo formato. Então eles precisam ser ensinados em uma nova maneira, exatamente como você mencionou. Precisamos quebrar esse círculo.

E para quebrar esse círculo, a sra. acha que deveríamos primeiro atacar a formação dos professores que ainda estão na faculdade ou pegar aqueles que já são experientes?
Eu quero os dois. Esse processo vai depender de quantos novos professores são necessários no Brasil. Nos Estados Unidos, já contamos com um bom número e nosso esforço tem de ir para a formação continuada. Os professores experientes são mais difíceis de convencer porque eles querem entender o que é essa novidade, se isso significa mais trabalho. Outro ponto, além do fato de que professores ensinam do jeito que foram ensinados, é que quando você implementa mudanças em qualquer organização, governo, escola, negócio, há uma perda. Eu sou professora de Matemática e adoro esta equação: mudança = perda. Como seres humanos, não gostamos de perder coisas e, portanto, nós reagimos. Mesmo que estejamos mudando para algo melhor, seja nos negócios, na lei, na medicina, as pessoas vão resistir. Os professores não são exceção. “Não preciso disso. Eu sei como dar aula”.

Outro aspecto da mudança é que leva tempo. Não podemos mudar a prática em sala de aula do dia para a noite. Mas nós podemos começar. E eu defendo a tese de que se você não começar em algum lugar, você nunca vai mudar nada. E se você começar, será capaz de mostrar evidências. Será capaz de mostrar que há escolas com melhor desempenho, nas quais os estudantes estão se saindo melhor, estão mais engajados porque suas aulas são interessantes. Eles vão para a escola mais animados porque o professor está ensinando algo que querem aprender, em lugar de uma aula expositiva chata, cheia de teoria.

Como professora, a sra. acredita que essa mudança pode ganhar mais força se professores compartilharem boas práticas com os colegas?
Com certeza. Uma prática que funciona no Japão e que poderia ser adotada aqui chama-se estudo de lição (lesson study). Um grupo de professores que dá aula da mesma disciplina e do mesmo assunto trabalha junto para montar a melhor aula, digamos, de divisão de frações. Esse plano de aula é executado por um deles em sala de aula, enquanto os outros ficam no fundo da sala observando e fazendo anotações. Eles se reúnem outra vez e discutem o que não funcionou na classe e revisam o plano de aula. O plano é levado para os alunos novamente para ver se funciona. Depois de três ou quatro aulas práticas, nós temos um plano de aula muito bom. Os professores japoneses salvam esse plano. E na próxima vez que um professor tiver de ensinar divisão de frações, ele vai usar esse plano. Então, há colaboração, desenvolvimento da melhor maneira de dar esse conteúdo e o plano está baseado no contexto daquela escola, portanto ele é local. Isso é muito poderoso. E acho que isso poderia ser usado aqui no Brasil.

Na Base do Ensino Médio, há uma discussão neste momento de que uma parte do aprendizado poderia ser feita à distância para que os alunos tivessem acesso a mais conteúdo. O que a sra. acha da proposta?
Eu acho que o ensino híbrido pode funcionar. Não sou uma grande entusiasta de que tudo seja feito online. Eu acredito que precisamos ter o contato pessoal, isso é imprescindível, mas ter algum conteúdo online pode ser útil. Em alguns casos, pode ser positivo para o aluno assistir a uma mesma aula dada por outro professor. Mas como professora, eu preciso ver os seus olhos, preciso saber se você está entendendo, se está animado com o que estou ensinando.

Aqui no Brasil consideramos muito os testes, como o Pisa. E eu sei que a sra. não é muito afeita a testes. 
Não sou mesmo.

Mas é preciso ter algum instrumento para medir se os alunos e as escolas estão indo bem. Que tipos de testes deveríamos ter, então?
Esse é um problema. Se você tem um padrão, você precisa ter uma maneira de medir se os estudantes estão atingindo esse padrão. Ter essa responsabilidade é uma coisa boa. Que tipo de testes vocês têm no Brasil?

Temos testes nacionais [faço uma breve explicação da Prova Brasil e do Enem] e consideramos muito os resultados do Pisa. Quando olhamos para o Pisa, a sensação é de que a educação brasileira está muito mal.
Tenham cuidado ao usar o Pisa. Xangai tem um dos melhores desempenhos no Pisa, mas eles testam apenas 20% dos seus alunos. Na cidade de Xangai há muitos alunos que são filhos de trabalhadores imigrantes que vieram de outros países para se estabelecer lá, mas eles não são testados. Quem faz o teste são apenas os melhores alunos, das melhores escolas.

Mas isso é trapacear.
Sim, eles trapaceiam. Por isso eu diria que é preciso ter cuidado ao olhar para o que é feito na Finlândia, em Singapura, porque você não está comparando sistemas semelhantes. No Brasil, vocês deveriam olhar para os resultados do Chile ou do México, talvez Colômbia. Mas isso não resolve o problema. Nós ainda não sabemos como testar, em larga escala, colaboração, resolução de problema ou como medir criatividade. Precisamos criar novas formas de avaliar as habilidades que são necessárias no século 21. Criatividade, colaboração, cooperação, resolução de problema. É nisso que deveríamos estar nos focando agora.

(toca o sino da escola)

Viu só? Está na hora de irmos para o próximo período. (risos).

Fonte:https://novaescola.org.br/conteudo/11802/precisamos-criar-formas-de-avaliar-as-habilidades-necessarias-no-seculo-xxi