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Não é mais suficiente para um professor conhecer o conteúdo, mas sim entender como cada aluno aprende

Linda Darling-Hammond afirma que um formador vale por mil reformadores e aponta caminhos para a construção desses formadores

Por: Soraia Yoshida

A professora norte-americana Linda Darling-Hammond afirma que o grande indicador do sucesso de um aluno é a habilidade de aprender coisas novas e melhorar seu repertório à medida que desenvolve capacidades para criar, colaborar e solucionar problemas. “As sociedades estão mudando muito rapidamente”, disse em sua palestra no evento Ciclo de Debates: A Formação dos Professores no Contexto da BNCC, em São Paulo, iniciativa do Instituto Ayrton Senna e Fundação Itaú Social. “Os alunos estão trabalhando na resolução de problemas que são novos para nós. Eles estão aprendendo coisas que nós ainda estamos inventando”, disse. Para ela, os professores que estão lidando com essa geração devem estar dispostos a aprender – e muito. “Prestem atenção nesses verbos: explorar, pesquisar, analisar, avaliar, aprender, criar, formular, expressar. Temos as diretrizes do que os nossos jovens têm que aprender”.

 

Em sua primeira visita ao Brasil, a professora emérita da Universidade de Stanford, na Califórnia, reforçou a necessidade de grandes investimentos na preparação de professores para que eles sejam capazes de lidar com as demandas trazidas por essa sociedade em evolução. Logo nos primeiros minutos de sua palestra, Linda afirmou que quaisquer que sejam os padrões de ensino, eles não são os responsáveis pelo ensino em si. “Nós amamos as palavras, mas são os professores e diretores de escola que dão vida a elas”, disse. “Nenhuma sociedade pode sobreviver ou ser bem-sucedida sem uma boa Educação”.

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A educadora norte-americana entende que, da mesma maneira que acontece na Medicina, os professores precisam experimentar um processo de aprendizado contínuo em sua formação. “A educação dos professores precisa mudar”, afirmou. Para ela, é importante trabalhar com referências de estruturas de aprendizado mais profundas nas escolas, para que os professores (principalmente os iniciantes) possam experimentar antes de adotar as estratégias que usarão nas práticas de ensino. “Professores não podem aprender como se ensina a ler, eles precisam experimentar aquela pedagogia”, disse.

Linda Darling-Hammond pesquisou programas de formação na Austrália, Singapura, China, Canadá, Finlândia, além de várias regiões dos Estados Unidos. Os governos finlandês e singapuriano bancam a formação de professores em qualquer parte do país e oferecem salários competitivos em relação a outras profissões. “Não é suficiente preparar os professores de maneira mais compreensiva, é preciso um sistema com salários mais adequados para termos uma força estável de professores tratados com respeito”, afirmou.

A pesquisadora compreende que é preciso ter recursos para criar um esquema de colaboração e planejamento que permita aos professores trabalhar dentro de novas perspectivas. Ela apontou pontos em comum em países de culturas e sistemas educacionais variados e indicou oportunidades quando se parte da visão do ensino centrado no aluno, guiando um conjunto coerente de cursos e trabalhos clínicos e oportunidades de aprendizado para os professores. Partindo de ambiente interativos, do investimento em pesquisas e criação de comunidades de aprendizagem em sala de aula para apoiar a aprendizagem socioemocional e acadêmica. Tudo isso deve estar apoiado em um currículo focado na aprendizagem e no desenvolvimento das crianças em diversos contextos sociais. “O processo de memorização, em lugar da compreensão, é inútil hoje”, disse. linda

Um formador vale por mil reformadores
Linda defende que emoções e o aprendizado estão diretamente relacionados. Se um aluno incorre em emoções negativas, como ansiedade, falta de confiança, isso irá afetar a maneira como ele aprende. Da mesma forma, um aluno com emoções positivas, que se sinta estimulado pelo professor, vai gostar mais do processo de aprendizado. Ela citou as diretrizes curriculares das Nações Unidas: “A educação deve se tornar um caminho que conduz a um desenvolvimento mais harmonioso e autêntico”. E completou: “Eu amo essa parte, harmonioso e autêntico”.

A educadora afirma que no mundo em que vivemos, não é mais suficiente para um professor conhecer o conteúdo, mas sim entender como cada aluno aprende aquele conteúdo. Diante da adoção do Common Core, nos Estados Unidos, e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no Brasil, ela diz que o professor deve juntar o conhecimento dos alunos com os objetivos do currículo. “Não há duas crianças que sejam iguais, mas os objetivos do currículo o são, então formadores precisam se tornar mais ‘personalizados’ para ajudar professores que vêm de diferentes níveis econômicos e sociais”. Em resumo “Trazer o currículo até a criança e levar a criança até o currículo”.

Se a formação de professores é uma parte essencial do eixo de transformação da Educação, Linda acredita que o papel do formador de professores é ainda mais precioso. Ela elencou alguns pontos para garantir o sucesso da empreitada:

– Invista na formação de professores e líderes
– Arranje tempo para que todos possam participar
– Um formador vale por mil reformadores

Antes de se despedir de uma plateia que contava com secretários de Educação e formadores, ela afirmou: “Mais do que desejar boa sorte a vocês, eu desejo uma profunda compreensão. E que a Força esteja com vocês”.

https://novaescola.org.br/conteudo/11722/nenhuma-sociedade-pode-ser-bem-sucedida-sem-uma-boa-educacao

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Ensinar é um acordo entre duas pessoas, um que será o professor e outro que será o aluno.

É hora de criar formas de avaliar habilidades do século 21

A professora norte-americana Katherine Merseth quer mudar a maneira como os professores aprendem, para que eles possam ensinar de forma diferente

Por: Soraia Yoshida
Katherine Merseth é professora sênior da Escola de Educação da Universidade de Harvard e veio ao Brasil para o lançamento do livro Desafios reais para o cotidiano brasileiro   Foto: Acauã Fonseca 

A professora norte-americana Katherine Merseth está em busca de casos. Ela e sua equipe já acompanharam as aflições, problemas e conquistas de professores em países como Chile, África do Sul e, mais recentemente, Brasil. Ao levantar e publicar as histórias de professores e seus desafios em sala de aula, Katherine expõe fracassos – mas também incríveis vitórias. “O maior elogio que posso receber de um professor é quando ele pega meu livro e diz: ‘Mas essa escola da qual você fala aqui parece com a minha escola’”, afirma. “Quando falamos nos desafios da Educação, há questões que são comuns a professores nos Estados Unidos, Alemanha ou Japão e que nos conectam aos estudantes”.

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O livro “Desafios reais do Cotidiano Escolar Brasileiro: 22 dilemas vividos por diretores, coordenadores e professores em escolas de todo o Brasil” reúne relatos de professores e gestores sobre experiência em sala de aula e na organização escolar. Professora sênior da Escola de Educação da Universidade de Harvard, Katherine Merseth coordenou o trabalho que utilizou a metodologia da instituição norte-americana para levantar a discussão sobre os desafios enfrentados pelos educadores nas escolas brasileiras. Há casos de bullying, violência, questões étnico-raciais, tudo dentro da experiência de quem viveu o problema e foi buscar uma solução – com a ajuda dos colegas, gestores, alunos e da comunidade escolar.

 

Para Katherine, o estudo dos casos, com suas evidências, é uma forma de compartilhar experiências com professores em situações muito similares, ainda que separados por fronteiras estaduais e municipais. Da mesma maneira, poderia servir ainda para dar exemplos em sala de aula de como adotar competências socioemocionais, seguindo o que diz a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Os professores podem ler casos de outros professores que dão uma aula que envolve o aprendizado de competências socioemocionais. E, com isso, eles passam a entender melhor”, afirma. É muito mais fácil assimilar a experiência de alguém que passa pelas mesmas dificuldades e fala a mesma língua, garante a professora. “Precisamos de mais casos para que os formadores, os professores em início de carreira e os professores experientes possam assimilar essas competências”.

 

A dinâmica desse aprendizado também é um ponto muito importante. Com a implementação da Base, há uma discussão que toma corpo sobre como deve ser feita a formação dos professores. Katherine é enfática em sua posição. “A melhor maneira de um professor aprender é estudando um caso, não através de aula expositiva. Então precisamos registrar mais casos sobre aprendizado de colaboração, resolução de problemas, resiliência, pois essas são as habilidades que os alunos precisam. Eles não precisam de mais aulas sobre como conjugar verbos”.

Ainda que Katherine possa ter um olhar crítico para as demandas não atendidas em sala de aula, ela não se vê acima dos educadores que, diariamente, enfrentam os desafios de transpor as barreiras da desigualdade para oferecer conhecimento. Toda vez que ela tinha de se apresentar, não hesitava: “Eu sou uma professora”. “É assim que eu me apresento às pessoas porque é o que eu sou”.

Em sua passagem pelo Brasil, a convite do Instituto Peninsula, Katherine Merseth conversou com NOVA ESCOLA sobre os dilemas dos professores, formação continuada e algumas observações para melhorar a Educação no país.

Em seus estudos sobre a experiência dos professores em sala de aula em países como Chile e África do Sul, você encontrou semelhanças com o cenário brasileiro?
No trabalho que fizemos no Chile, encontramos um diretor que tinha em sua escola de ensino médio alunos bolivianos e chilenos. Os bolivianos queriam comemorar o Dia da Independência na Bolívia, mesmo vivendo no Chile. Aqui no Brasil, registramos o caso de um professor que fala sobre os venezuelanos que cruzaram a fronteira e estão no Brasil. Em qual nível, as escolas dessas cidades de fronteira devem respeitar a cultura venezuelana é uma questão levantada por ele. Aqui estamos falando de assimilação da comunidades. Tivemos casos em que o problema não estava na escola, mas no entorno. Conversamos com Jefferson, um diretor de uma escola situada em uma comunidade no Rio de Janeiro. O dilema dele era decidir se, em certos dias, ele deveria manter a escola aberta ou fechá-la, sabendo que a escola estivesse fechada, as crianças voltariam para casa e estariam suscetíveis ao perigo nessa caminhada, além de ficarem sozinhas em casa, pois os pais trabalham. Mas há casos semelhantes na África do Sul se pensarmos em termos de diminuir a desigualdade, um desafio que pode ser visto em muitos lugares e culturas. Há um caso de um educador na favela de Sowetto que tenta educar crianças que não contam com apoio da família. E há casos semelhantes aqui no Brasil. Então há semelhanças e, claro, diferenças. E acho que essa é a coisa mais poderosa nesse trabalho.

Como a sra. espera que professores façam uso desses casos?
Eles podem conhecer e entender experiências vividas por outros professores, seja em Brasília, no Amazonas, no Rio de janeiro. Eles podem ler os casos e ver algo que pode servir para eles. O maior elogio por parte de um professor é quando ele pega meu livro e diz: “Esta escola parece com a minha escola” ou “Isso aconteceu comigo ontem”. Quando falamos nos desafios do ensino, há desafios que enfrentamos nos Estados Unidos, na Alemanha, no Japão. Existe uma questão que é comum conectando os professores aos estudantes.

 

Em seus estudos em outros países, a sra. se deparou com alguma solução que poderia ser usada em qualquer escola ou sempre há uma barreira local que torna isso impossível?
O contexto de uma escola, onde está localizada, quem são os alunos, como é a comunidade, se essa escola tem apoio do governo, qual a política pública para esse local, todas essas coisas vão variar bastante. Mas quando estou dentro da sala de aula, quando estou diante dos meus alunos, é um contrato entre eu e meus estudantes. Ensinar é um acordo entre duas pessoas, um que será o professor e outro que será o aluno. E isso é universal. Quanto mais pudermos ajudar os professores brasileiros a reconhecer os alunos que estão diante deles, a educação se tornará melhor. E isso considerando famílias, pais, governos, dadas todas as diferenças. O problema é que vemos uma ânsia enorme em vários países em copiar o que está sendo feito na Finlândia, Singapura, Japão ou Canadá. Algumas coisas vão funcionar, mas você não pode simplesmente pegar um modelo e colocar em prática, na esperança que os professores levem a ideia adiante.

No ano passado, tivemos a aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 
Eu acho que o Brasil deu o primeiro passo ao aprovar a Base e isso é excelente. Todos agora têm um objetivo em comum e há um entendimento sobre o que deve ser ensinado. E poderá ajudar os professores a entender como dar sua aula de forma diferente. É um exemplo perfeito de boa política pública. Agora, se vai fracassar ou se será bem-sucedido vai depender de quão bem será implementada, como a maioria das políticas públicas.

A Base deixa claro que o ensino das disciplinas deve ser perpassado pelo ensino de competências socioemocionais. É claro que não existe receita de bolo, mas como trazer essa nova mentalidade para a sala de aula?
A melhor maneira de um professor aprender é estudando um caso, não através de uma aula expositiva. Precisamos registrar mais casos sobre o aprendizado de habilidades socioemocionais para que os formadores, os professores em início de carreira e os professores experientes possam assimilar esse ensino. Podem ser casos sobre colaboração, resolução de problemas e outras competências que os estudantes precisam desenvolver. É disso que eles precisam, não mais aulas sobre como conjugar verbos.

Então o que precisamos fazer é colocar os professores, durante a formação, no lugar do aluno em atividades colaborativas, para que saibam como dar essa aula depois aos seus alunos?
É isso mesmo. Professores ensinam do jeito que foram ensinados. Não deveria ser uma surpresa, portanto, que um professor que aprendeu através de aula expositiva, vá ensinar seus alunos com aulas expositivas. Se os professores forem ensinados com atividades, trabalho colaborativo, eles vão dar aulas com essas características a seus alunos. É por isso que precisamos mudar a prática de trabalho. Se continuarmos apenas com aulas expositivas, acabaremos nos concentrando na teoria e eles não estarão preparados para dar aula nesse novo formato. Então eles precisam ser ensinados em uma nova maneira, exatamente como você mencionou. Precisamos quebrar esse círculo.

E para quebrar esse círculo, a sra. acha que deveríamos primeiro atacar a formação dos professores que ainda estão na faculdade ou pegar aqueles que já são experientes?
Eu quero os dois. Esse processo vai depender de quantos novos professores são necessários no Brasil. Nos Estados Unidos, já contamos com um bom número e nosso esforço tem de ir para a formação continuada. Os professores experientes são mais difíceis de convencer porque eles querem entender o que é essa novidade, se isso significa mais trabalho. Outro ponto, além do fato de que professores ensinam do jeito que foram ensinados, é que quando você implementa mudanças em qualquer organização, governo, escola, negócio, há uma perda. Eu sou professora de Matemática e adoro esta equação: mudança = perda. Como seres humanos, não gostamos de perder coisas e, portanto, nós reagimos. Mesmo que estejamos mudando para algo melhor, seja nos negócios, na lei, na medicina, as pessoas vão resistir. Os professores não são exceção. “Não preciso disso. Eu sei como dar aula”.

Outro aspecto da mudança é que leva tempo. Não podemos mudar a prática em sala de aula do dia para a noite. Mas nós podemos começar. E eu defendo a tese de que se você não começar em algum lugar, você nunca vai mudar nada. E se você começar, será capaz de mostrar evidências. Será capaz de mostrar que há escolas com melhor desempenho, nas quais os estudantes estão se saindo melhor, estão mais engajados porque suas aulas são interessantes. Eles vão para a escola mais animados porque o professor está ensinando algo que querem aprender, em lugar de uma aula expositiva chata, cheia de teoria.

Como professora, a sra. acredita que essa mudança pode ganhar mais força se professores compartilharem boas práticas com os colegas?
Com certeza. Uma prática que funciona no Japão e que poderia ser adotada aqui chama-se estudo de lição (lesson study). Um grupo de professores que dá aula da mesma disciplina e do mesmo assunto trabalha junto para montar a melhor aula, digamos, de divisão de frações. Esse plano de aula é executado por um deles em sala de aula, enquanto os outros ficam no fundo da sala observando e fazendo anotações. Eles se reúnem outra vez e discutem o que não funcionou na classe e revisam o plano de aula. O plano é levado para os alunos novamente para ver se funciona. Depois de três ou quatro aulas práticas, nós temos um plano de aula muito bom. Os professores japoneses salvam esse plano. E na próxima vez que um professor tiver de ensinar divisão de frações, ele vai usar esse plano. Então, há colaboração, desenvolvimento da melhor maneira de dar esse conteúdo e o plano está baseado no contexto daquela escola, portanto ele é local. Isso é muito poderoso. E acho que isso poderia ser usado aqui no Brasil.

Na Base do Ensino Médio, há uma discussão neste momento de que uma parte do aprendizado poderia ser feita à distância para que os alunos tivessem acesso a mais conteúdo. O que a sra. acha da proposta?
Eu acho que o ensino híbrido pode funcionar. Não sou uma grande entusiasta de que tudo seja feito online. Eu acredito que precisamos ter o contato pessoal, isso é imprescindível, mas ter algum conteúdo online pode ser útil. Em alguns casos, pode ser positivo para o aluno assistir a uma mesma aula dada por outro professor. Mas como professora, eu preciso ver os seus olhos, preciso saber se você está entendendo, se está animado com o que estou ensinando.

Aqui no Brasil consideramos muito os testes, como o Pisa. E eu sei que a sra. não é muito afeita a testes. 
Não sou mesmo.

Mas é preciso ter algum instrumento para medir se os alunos e as escolas estão indo bem. Que tipos de testes deveríamos ter, então?
Esse é um problema. Se você tem um padrão, você precisa ter uma maneira de medir se os estudantes estão atingindo esse padrão. Ter essa responsabilidade é uma coisa boa. Que tipo de testes vocês têm no Brasil?

Temos testes nacionais [faço uma breve explicação da Prova Brasil e do Enem] e consideramos muito os resultados do Pisa. Quando olhamos para o Pisa, a sensação é de que a educação brasileira está muito mal.
Tenham cuidado ao usar o Pisa. Xangai tem um dos melhores desempenhos no Pisa, mas eles testam apenas 20% dos seus alunos. Na cidade de Xangai há muitos alunos que são filhos de trabalhadores imigrantes que vieram de outros países para se estabelecer lá, mas eles não são testados. Quem faz o teste são apenas os melhores alunos, das melhores escolas.

Mas isso é trapacear.
Sim, eles trapaceiam. Por isso eu diria que é preciso ter cuidado ao olhar para o que é feito na Finlândia, em Singapura, porque você não está comparando sistemas semelhantes. No Brasil, vocês deveriam olhar para os resultados do Chile ou do México, talvez Colômbia. Mas isso não resolve o problema. Nós ainda não sabemos como testar, em larga escala, colaboração, resolução de problema ou como medir criatividade. Precisamos criar novas formas de avaliar as habilidades que são necessárias no século 21. Criatividade, colaboração, cooperação, resolução de problema. É nisso que deveríamos estar nos focando agora.

(toca o sino da escola)

Viu só? Está na hora de irmos para o próximo período. (risos).

Fonte:https://novaescola.org.br/conteudo/11802/precisamos-criar-formas-de-avaliar-as-habilidades-necessarias-no-seculo-xxi

Obra de arte nos EUA faz sucesso com Marrielle Franco e Martin Luther King

Da coluna de Ancelmo Gois, no O Globo:

Veja só esta obra de André de Castro, artista carioca radicado nos EUA. Traz os rostos de Marielle Franco, cuja execução, hoje, completa 55 dias, e Martin Luther King Jr., cujo assassinato completou 50 anos em abril. A serigrafia faz parte de “Abismo e resistência”, exposição que abre quinta, agora, na Opus Gallery, em NY. Além do caso Marielle, a mostra abordará também temas como o controle de armas nos EUA. A ideia é trazer a exposição para o Brasil.

Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/exposicao-nos-eua-poe-lado-a-lado-os-rostos-de-marielle-e-martin-luther-king/

EUA destacou o empenho de Dhkalama

A embaixada dos EUA em Maputo destacou hoje o empenho de Afonso Dhlakama na busca da democracia e paz em Moçambique, encorajando a Renamo e o Governo a honrarem o legado do político.
EUA destacam empenho do líder da Renamo pela democracia e paz

“Através de um esforço conjunto, primeiro com o Presidente Joaquim Chissano e mais recentemente com o Presidente Filipe Jacinto Nyusi, Afonso Dhlakama provou a Moçambique e ao mundo que estava empenhado em alcançar a democracia e uma paz duradoura”, diz a embaixada norte-americana, em comunicado hoje divulgado em Maputo.

A nota prossegue assinalando que, mesmo nos seus últimos dias, o líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) trabalhou perseverantemente para promover os objectivos da descentralização e desmilitarização do braço armado do principal partido da oposição.

“Encorajamos os líderes da Renamo e os seus interlocutores no Governo da República de Moçambique a honrar o legado de Afonso Dhlakama, ao concluir este grande projecto pelo qual dedicou os últimos anos da sua vida”, lê-se no comunicado.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/eua-destacam-empenho-do-lider-da-renamo-pela-democracia-e-paz

O que aprender sobre o racismo no caso do café Starbucks nos EUA ?

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Essa semana no Brasil a Policia Militar de São Paulo foi condenada a indenizar um advogado negro por abordagem policial abusiva, em que a juíza em sua argumentação da sentença reconhecia que a Policia tinha um histórico de discriminação racial na cidade de São Paulo.

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SIN2665 SÃO PAULO 16/04/2018 CIDADES SINVALDO JOSÉ FIRMO Sinvaldo José Firmo pai do estudante Nathan, que foi vítima de revista Polícia Militar considerada abusiva pelo Tribunal de Justiça, local Praça Clóvis Bevilácqua tendo ao fundo o Tribunal de Justiça . FOTO: JFDIORIO/ESTADÃO

Nos EUA, na cidade de Filadelfia na Pensilvania, dois jovens negros marcaram um encontro para discutir questões de imobiliárias e decidiram marcar um encontro em um bairro branco, em um loja do café Starbucks. Ao chegar um dos jovens pediu para ir ao banheiro e não foi atendido, foi lhe dito que ele precisava consumir. Em resposta disseram que iriam aguardar uma terceira pessoa para fazer o pedidod e forma coletiva.

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Em consequência houve uma grande mobilização e pressão da  sociedade americana, a empresa Starbucks emitiu um comunicado de e pediu desculpas e  comprometeu-se publicamente a fechar as 8000 lojas nos EUA, por uma tarde, para que todos fossem treinados a não discriminar racialmente.

Em 2010 a  União Americana de Liberdades Civis ( ACLU) da Pensilvânia e os escritórios de advocacia Kairys, Rudovsky, Messing e Feinberg já haviam entrado com uma ação coletiva federal, em nome de oito afro-americanos e latinos que foram parados por policiais da Filadélfia exclusivamente com base em sua raça ou etnia. . A ação alegava que milhares de pessoas a cada ano eram paradas,  revistadas e detidas ilegalmente pelo Departamento de Polícia da Filadélfia, como parte de sua política de abordagem de suspeitos.

 

O que aprender com essas histórias ?

 

A lição que aflora é que nos EUA essas ações cívis contra a  abordagem racistas tem sido feitas de forma coletiva com a participação de diversos escritórios de advogados, não foi o caso do Brasil que foi uma ação individual. O que mostra um trabalho de articulação das organizações não governamentais em defesa dos direitos civis.

Outro aspecto é o reconhecimento por parte das autoridades policiais americanas de que o racismo ocorre na abordagem policial, não se procura negar a existência. Reconhece-se e trabalha para a sua superação. Com resultados muitas vezes muito tímidos.

No caso americano muitas pessoas alegaram que havia um “preconceito inconsciente”,  e uma da maiores organizações negras soltou um comunicado “a NAACP afirmou  que a “situação da Starbucks fornece uma visão perigosa sobre o fracasso de nossa nação em levar a sério os ‘preconceitos implícitos’”.

“Preconceitos implícitos “que nós negros brasileiros sofremos diariamente, mas não conseguimos ainda estabelecer um canal de diálogo sério que se discuta e defina políticas de superação que sejam  implementadas e monitoradas.

Lá como cá se invoca a educação como forma de superação de atos de racismo. A empresa Starbucks irá treinar  as pessoas , durante uma tarde para combater o racismo. Boa iniciativa, mas  fadada ao fracasso.

Racismo não se combate e supera com medidas pontuais, é necessário  um esforço de longo prazo, com recursos financeiros, planos de  avaliação e monitoramento  das ações, com a participação da comunidade negra. Estruturas empresariais e de governo praticam o racismo institucional .

O racismo institucional constitui-se na produção sistemática da segregação étnico-racial, nos processos institucionais. Manifesta-se por meio de normas, práticas e comportamentos discriminatórios adotados no cotidiano de trabalho, resultantes da ignorância, falta de atenção, preconceitos ou estereótipos racistas. Em qualquer caso, sempre coloca pessoas de grupos raciais ou étnicos discriminados em situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pela ação das instituições e organizações.

 

Para superar o racismo institucional exige muito trabalho por parte das empresas e da administração pública.

Starbucks fecha 8 mil lojas nos EUA para treinar equipes contra racismo

O conselheiro municipal Kenyatta Johnson durante coletiva de imprensa em Starbucks da Filadélfia, em 16 de abril de 2018. REUTERS/Mark Makela

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A rede de cafeterias Starbucks anunciou nesta terça-feira (17) que fechará mais de 8.000 lojas nos Estados Unidos na tarde de 29 de maio para realizar uma formação contra o racismo. A decisão foi tomada após a prisão de dois homens negros em um de seus estabelecimentos que gerou uma onda de indignação no país.
A medida é uma resposta às convocações de boicote à marca Starbucks após a detenção de dois homens negros que ainda não haviam consumido nada e esperavam um amigo em uma cafeteria do grupo na Filadélfia. A situação foi filmada e se tornou viral nas redes sociais.

“Passei os últimos dias na Filadélfia com a minha equipe de liderança ouvindo a comunidade, aprendendo o que fizemos de errado e os passos que temos que dar para solucionar”, disse o presidente da empresa, Kevin Johnson. “Embora não se limite a Starbucks, estamos comprometidos a sermos parte da solução”, acrescentou um comunicado publicado no site da empresa, fundada em 1971 e que tem mais de 25 mil lojas em todo o mundo.

A formação contra o racismo envolverá os 175 mil funcionários em todo o país e foi pensada “para enfrentar preconceitos, promover a inclusão, prevenir a discriminação e assegurar que todos dentro de uma cafeteria Starbucks se sintam seguros e bem-vindos”.

O ex-procurador-geral dos Estados Unidos, Eric Holder, e Bryan Stevenson, fundador da ONG Iniciativa para uma Justiça Equitativa, além de um advogado internacional que defende condenados à morte, destacam-se entre os especialistas consultados para projetar a formação anti-racismo, indicou a Starbucks.

Desculpas não bastam: entenda o caso

Embora Johnson já tenha pedido desculpas aos dois homens detidos, o prefeito da Filadélfia, Jim Kenney, considerou que isso não era suficiente e ordenou investigar as práticas da empresa. O vídeo da prisão, que teve mais de 10 milhões de visualizações e foi divulgado por uma cliente branca da Starbucks, Melissa DePino, mostra vários policiais interrogando e depois algemando os dois homens negros, que não resistem.

Em primeiro plano, o vídeo mostra um homem branco, também cliente, que questiona a detenção e pergunta repetidamente a um policial: “O que eles fizeram? O que eles fizeram?” “Chamaram a polícia porque esses dois homens não haviam comprado nada. Estavam esperando que um amigo aparecesse, que chegou enquanto os levavam algemados por não fazerem nada. Todo o resto de pessoas brancas perguntaram o porquê nunca aconteceu algo assim conosco quando fizemos o mesmo”, tuitou DePino.

A advogada dos detidos, Lauren Wimmer, disse ao canal CBS que os dois estavam esperando que outra pessoa chegasse para uma reunião de negócios. O delegado de polícia da Filadélfia, Richard Ross, que é negro, disse que a polícia recebeu uma chamada do número de emergência de um funcionário do Starbucks por invasão.

Ross disse que os agentes “educadamente” pediram que os dois homens saíssem da cafeteria, antes de finalmente prendê-los. Os dois foram liberados quando a Starbucks não apresentou acusações.

 

 

Pantera negra supera Titanic e se torna a 3ª maior bilheteria dos EUA

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Filme arrecadou US$ 1,28 bilhão no mundo inteiro
Marvel Studios/Divulgação

 - Marvel Studios/Divulgação

Pantera Negra superou o marco de US$660 milhões na bilheteria dos Estados Unidos esta semana e superou Titanic, se tornando a terceira maior bilheteria doméstica do país. Enquanto o longa de James Cameron conquistou US$659.3 milhões, o último lançamento da Marvel atingiu recentemente US$661 milhões. A informação é do ComicBook.

Nos EUA, o filme está atrás, apenas, de Star Wars: O Despertar da Força, com US$936 milhões e Avatar, com US$ 760 milhões.

Nesta mesma semana, Pantera Negra ultrapassou Frozen, na bilheteria mundial, e entrou para o Top 10 das maiores bilheterias de todos os tempos – leia mais.

Além de Chadwick Boseman no papel principal, Pantera Negra conta com Michael B. Jordan Forest WhitakerDanai Gurira vive Okoye e Lupita Nyong’o interpreta Nakia, as duas principais Dora Milaje do filme. Com direção de Ryan CooglerPantera Negra está em cartaz nos cinemas.

Lançado em 1997, Titanic arrecadou US$ 2,18 bilhões em todo o mundo e rendeu à equipe e ao elenco 11 Oscars, entre eles o de Melhor Filme e Melhor Diretor.

fonte:https://omelete.com.br/filmes/noticia/pantera-negra-supera-titanic-e-se-torna-a-3a-maior-bilheteria-dos-eua/

A luta dos negros americanos pelo acesso às urnas

Especial

31 Março 2018 | 19h00

Segregação nos EUA
Entrada do Centro de Direitos Civis e Humanos em Atlanta Foto: Cláudia Trevisan / Estadão

Chris Mangum tem 37 anos, paga impostos, mas nunca conseguiu votar. Condenado a 6 anos de prisão na juventude, ele perdeu o direito de eleger seus representantes, mesmo depois de cumprir sua pena. Os EUA são um dos poucos países democráticos nos quais existe esse tipo de restrição, que afeta os negros de maneira desproporcional. Com 13% da população, eles representam 37% dos 6,1 milhões de detentos e ex-detentos sem direitos políticos.

+ Morre Linda Brown, ícone da luta contra a segregação racial nas escolas dos EUA

Cinco décadas depois da morte de Martin Luther King Jr., o acesso às urnas continua na pauta do movimento pelos direitos civis. Além do veto aos que vão à prisão, vários Estados do Sul adotaram leis que dificultaram o exercício do voto por pobres e por minorias depois de 2013, quando a Suprema Corte derrubou parte da Lei do Direito do Voto, aprovada em 1965. “Eu terminei de cumprir minha pena há 23 anos, mas nunca conquistei direito ao voto. Eu tentei me registrar para votar na reeleição de (Barack) Obama, mas não aceitaram”, disse Bruce Morris, negro de 51 anos.

O EUA experimentaram um aumento de 500% em sua população carcerária nos últimos 40 anos, em grande parte como consequência da “guerra às drogas” desencadeada nos anos 80.

Estudo do Sentencing Project, com base em dados oficiais, indica que homens negros enfrentam probabilidade seis vezes maior que os brancos de ser presos. Uma vez presos, têm mais risco de serem condenados e de receberem penas mais elevadas.

“A terra dos livres é a capital mundial do encarceramento. Proporcionalmente, há mais negros nas prisões nos EUA do que havia na África do Sul no auge do apartheid”, afirmou Raphael Warnock, pastor da Igreja Batista Ebenezer de Atlanta, onde King e seu pai pregaram.

De acordo com Warnock, a pobreza, o encarceramento em massa e as restrições no direito ao voto se entrelaçam em um círculo vicioso que marginaliza grande parte da população negra. Os números confirmam as suspeitas de que a raça influencia a seleção dos que entram no sistema prisional.

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Apesar de não haver diferenças significativas na frequência do uso de drogas entre negros e brancos, os primeiros foram os principais alvos da “guerra” desencadeada nos anos 80. De 1980 a 2000, a proporção de prisões de negros relacionadas a drogas subiu de 6,5 para 29,1 por 1.000 habitantes. Entre os brancos, a evolução foi de 3,5 para 4,6, segundo dados do Sentencing Project.

A discrepância se deve em parte à lei dos anos 80 que estabeleceu pena mais severa aos que eram pegos com crack, droga mais usada pelos negros, do que com cocaína, preferida pelos brancos. Quem tivesse 1 grama de crack seria condenado como se portasse 100 gramas de cocaína. Em 2010, a proporção foi reduzida a 1 para 18.

Citando o título do livro de Michelle Alexander, recém-lançado no Brasil, Vicki Crawford disse que o encarceramento em massa é a “nova segregação” nos EUA. “O sistema criminal e as prisões são as formas modernas de subjugação racial”, afirmou Crawford, diretora da coleção de documentos de King mantida pela Faculdade Morehouse, onde o líder do movimento pelos direitos civis estudou.

Criada por ex-escravos depois da Guerra Civil (1861-1865), a Morehouse integra o conjunto das históricas instituições de ensino negras. A segregação acabou, mas 96% de seus alunos continuam a ser afro-americanos. Estudante de História, Je’Lon Alexander, de 21 anos, contou que a faculdade é um “lugar seguro” para homens negros. “Nós não teríamos as mesmas oportunidades em uma instituição majoritariamente branca.”

Segregação nos EUA
Je’Lon Alexander, aluno da Faculdade Morehouse, criada por ex-escravos durante a segregação racial Foto: Cláudia Trevisan / Estadão

As barreiras impostas ao exercício do voto não têm natureza racial explícita, mas afetam de maneira desproporcional os pobres, entre os quais os negros são maioria. A decisão acabou com a exigência de que Estados do Sul submetessem à aprovação federal mudanças em suas leis eleitorais.

Desde então, vários governos estaduais adotaram regras que exigem documentos com foto. Os EUA não possuem uma carteira de identidade nacional e o documento mais comum é a carteira de motorista, que só tem quem sabe dirigir.

No entanto, a forma mais abrangente de supressão do direito ao voto é a proibição de seu exercício pelos que são condenados. Em 48 dos 50 Estados americanos, os que estão na prisão não podem votar. A proibição continua durante a liberdade condicional em 34 deles, enquanto em 12 o veto é vitalício. Antes da explosão na população carcerária, 1 milhão de condenados não podia votar.

“Os EUA têm a mais extrema restrição do tipo entre países democráticos e ela afeta os negros de forma desproporcional”, disse Marc Mauer, diretor executivo do Sentencing Project. Segundo ele, dos 6,1 milhões proibidos de votar, metade já cumpriu sua pena.

A Flórida possui um dos mais severos índices de supressão de voto, com 1,7 milhão de condenados proibidos de ir às urnas pelo resto da vida. Desses, 500 mil são negros, o equivalente a 21% da população adulta afro-americana. O Estado foi crucial para a vitória de George W. Bush na eleição do ano 2000 e contribuiu para a chegada de Donald Trump à Casa Branca em 2016.

Eleitores negros que foram às urnas optaram em peso pela democrata Hillary Clinton na disputa com Trump. “O impacto dessas formas modernas de supressão do voto é fenomenal”, ressaltou Crawford.

O Alabama mudou sua legislação no ano passado e restringiu o número de crimes que podem levar à perda vitalícia do direito de voto. No entanto, Mauer disse que não é fácil identificar quem pode ou não votar. Mangum, que foi mandado à prisão quando era jovem, nunca foi às urnas. “Eu tentei, mas disseram que eu não podia votar.”

Em 1968, a notícia que incendiou comunidades negras nos EUA

No dia 4 de abril de 1968, Charles Mauldin caminhava pelas ruas de Boston quando ouviu a notícia: Martin Luther King Jr., líder do movimento contra a segregarão racial, havia sido assassinado a tiros na sacada do hotel em que estava hospedado em Memphis, no Tennessee. “Fiquei perplexo, paralisado. Não podia acreditar.”

Segregação nos EUA
Charles Mauldin na sala de sua casa, em Birmingham, Alabama. Em 1965, ele participou da marcha de Selma a Montgomery, liderada por Martin Luther King Jr.  Foto: Cláudia Trevisan / Estadão

Cinco décadas depois, ele experimenta outra forma de incredulidade, ao presenciar o que classifica como um “assalto” aos direitos civis de minorias e o ressurgimento da retórica racista nos EUA, estimulado pela linguagem do presidente Donald Trump. Seu maior reflexo foram as manifestações de supremacistas brancos, no ano passado.

Adolescente nos anos 60, Mauldin viveu a experiência da segregação que dividiu brancos e negros em áreas públicas: transporte, escolas, cinemas, teatros, restaurantes, bebedouros e banheiros. “Eu me lembro da indignidade de ser intimidado todos os dias”, disse Mauldin, de 70 anos, que participou da marcha de Selma a Montgomery, liderada por King, em 1965. A reversão apontada por ele não é na direção do racismo institucionalizado e se manifesta na adoção de políticas que agravam dois dos principais problemas que hoje afetam negros: a violência policial e o encarceramento em massa.

 

Fonte: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,segregacao-nos-eua-afeta-direito-ao-voto-dos-negros,70002249557

Quincy Jones: “as mulheres e os negros tem tido de aguentar muito”

quincy jones
ART STREIBER

Aos 85 anos, o homem que transformou em lenda discográfica o talento de Frank Sinatra, Tony Bennett e Michael Jackson se confessa. Suas presas se cravam tanto no autor de Thriller como nos Beatles, em Donald Trump e em Harvey Weinstein, no declínio do pop e no racismo dos EUA. Produtor, compositor, trompetista, executivo e eterno amigo das estrelas, o velho rei Midas da cena musical não é de meias palavras: uma entrevista completamente franca.

TANTO NO QUE se refere à sua música quanto aos seus modos, Quincy Jones sempre se mostrou suave, sofisticado e impecável. Não é todo mundo que conquista 28 prêmios Grammy e coproduz os álbuns mais vendidos de Michael Jackson. Entretanto, cara a cara, este papa da indústria musical é, aos 85 anos recém-completados, muito mais crítico e complexo. “Nunca disse nada mais que a verdade”, afirma Jones, sentado em um sofá de sua palaciana residência em Bel-Air. E adverte: “Não tenho nada a temer”. Esta entrevista é fruto da transcrição de duas conversas mantidas com Quincy Jones.

Atualmente, Jones está em mais uma caminhada triunfal, em meio aos preparativos para um documentário do Netflix e um especial da rede de TV CBS apresentado por Oprah Winfrey. Vestido com um pulôver folgado, uma calça escura e um elegante cachecol, fala como se não tivesse nada a perder. Cita nomes, critica, elogia, conta e volta a contar histórias de seus famosos amigos. Até quando utiliza palavras duras ele as pronuncia com encanto, frequentemente inclinando-se para a frente para que choquemos os punhos e para me dar um soquinho no joelho. “Quanta coisa eu vivi!”, exclama, sacudindo a cabeça maravilhado. “É quase inacreditável.”

“Michael Jackson roubou um monte de canções. Aí estão ‘State of Independence’ e ‘Billie Jean’. As notas não mentem, cara. Não se podia ser mais maquiavélico”

Você trabalhou com Michael Jackson mais do que com qualquer das pessoas com as quais se relacionou. Conte-nos algo que as pessoas não saibam sobre ele. Eu não gosto de falar disto publicamente, mas Michael roubou um monte de material. Roubou um montão de canções. Aí estão State of Independence [de Donna Summer] e Billie Jean. As notas não mentem, cara. Não se podia ser mais maquiavélico.

Mas como? Era ambicioso, cara. Ambicioso. Em Don’t Stop ‘Til You Get Enough, Greg Phillinganes escreveu o interlúdio. Michael deveria ter dado a ele 10% da canção, mas não deu.

Fora do campo musical, que ideia equivocada se faz de Michael? Eu costumava discutir muito com ele por causa da cirurgia estética. Ele sempre se justificava dizendo que era porque tinha algum transtorno. Bobagens.

Até que ponto a fama encobria os problemas dele?Refere-se à aparência? Michael tinha um problema com isso porque seu pai lhe dizia que era feio e o maltratava. O que se podia esperar?

É uma justaposição curiosa. Sua música era tão alegre e, por outro lado, à medida que o tempo passava, sua vida parecia cada vez mais triste e estranha. Sim, mas no fim das contas o problema de Michael era o propofol, e esse problema afeta todo mundo, mesmo que você seja famoso. As grandes farmacêuticas que produzem OxyContin e toda essa porcaria são um problema grave. Durante oito anos frequentei a Casa Branca, quando os Clinton estavam lá, e descobri quanta influência tem esse setor. Não é nenhuma brincadeira.

Por que continua havendo uma aversão tão visceral aos Clinton? O que é que as pessoas não veem em Hillary, por exemplo, e você vê? É porque tem mais de uma cara. Quando você tem segredos, eles se voltam contra você.

Como quais? Essa é outra coisa da qual não devo falar.

Parece que você sabe muitas coisas. Coisas demais, cara.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
LYNN GOLDSMITH

Há algo que preferiria nãosaber? Quem matou John Kennedy.

E quem o matou? [O mafioso de Chicago Sam] Giancana. Existia uma conexão entre Sinatra, a Máfia e Kennedy. Kennedy, que era um cara mau, pediu ao Frank que falasse com Giancana para conseguir votos.

Eu já tinha ouvido antes a teoria de que a Máfia ajudou Kennedy a ganhar em Illinois em 1960. Não deveríamos falar disto publicamente. De onde é você?

De Toronto. Eu estive no concerto no Massey Hall.

É mesmo? No concerto de Charlie Parker com Mingus e os outros? Sim, cara. Depois vi o contrato. No total, a banda ganhou 1.100 dólares [3.600 reais]. Nunca vou esquecer. Naquela ocasião, não foi mais do que um entre muitos concertos. Nada para entrar na história. Assim como Woodstock. Tito Puente me disse que queria se apresentar lá. Esses festivais não me interessam muito. Elon Musk continua tentando conseguir que eu vá ao Burning Man [festival realizado anualmente em Nevada, nos EUA]. Não, obrigado. Mas quem iria saber o que acabaria sendo Woodstock? Jimi Hendrix esteve lá acabando com o hino nacional.

Não se supunha que Hendrix ia tocar no disco GulaMatari? Sim, supunha-se que ia tocar no meu álbum, mas desistiu. Ficava nervoso de tocar com Toots Thielemans, Herbie Hancock, Hubert Laws e Roland Kirk, que eram uns caras fantásticos. Toots foi um dos maiores solistas que já existiram. Os caras que participavam de meus discos eram extraordinários, e Hendrix não queria tocar com eles.

O que pensou quando escutou rock pela primeira vez? O rock nada mais é do que uma versão branca do rhythm and blues. Já sabe que conheci Paul McCartney quando ele tinha 21 anos.

Qual foi sua primeira impressão sobreos Beatles?Que eram os piores músicos do mundo. Eles não conseguiam tocar. Paul era o pior baixista que eu já tinha ouvido. E Ringo? Melhor nem falar. Lembro-me de uma vez em que estávamos no estúdio com George Martin, e Ringo tinha passado três horas com uma coisa de quatro compassos que estava tentando arrumar em uma música. Não conseguiu. Dissemos a ele que fosse tomar uma cerveja, comer algo, descansar uma hora e meia e relaxar um pouco. Ele fez isso e chamamos Ronnie Verrell, um baterista de jazz. Ronnie veio, ficou 15 minutos e arrebentou. Quando Ringo voltou, pediu que George tocasse de novo a gravação. George tocou e Ringo disse que não soava tão mal. Eu lhe respondi: “Claro, é porque não é a sua”. Mas era uma grande figura.

Há algum músico de rock que você tenha achado bom? Eu gostava do grupo de Eric Clapton. Como se chamava?

Cream. Sim. Sabiam tocar. Mas sabe quem canta e toca exatamente como Hendrix?

Quem? Paul Allen.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
FRANZ HUBMANN

Espere um pouco, você se refere ao cofundador da Microsoft? Sim, cara. Fiz uma viagem em seu iate. Tinha convidado David Crosby, Joe Walsh, Sean Lennon, todo esse pessoal irado. Nos últimos dois dias chegou Stevie Wonder com sua banda e fez Paul tocar com eles − ele é bom, cara.

Você frequenta esses círculos sociais de elite e sempre deu importância ao trabalho humanitário.Esses megarricos se preocupam tanto com os pobres quanto você gostaria? Não, os ricos não fazem o suficiente. Não se importam nem um pouco. Eu venho da rua, e me preocupo com as crianças que não têm o que necessitam porque me sinto uma delas. Essas outras pessoas não sabem o que é ser pobre, por isso não se preocupam.

Vivemos em um país melhor do que quando você começou seu trabalho humanitário, há 50 anos?Não. Estamos pior do que nunca, mas por isso as pessoas estão tentando melhorar as coisas. Com o feminismo, as mulheres estão dizendo que não vão mais tolerar [discriminação e abusos]. As pessoas estão combatendo o racismo. Deus está colocando os maus diante dos nossos olhos para que as pessoas contra-ataquem.

Ultimamente temos visto o quanto a indústria do espetáculo pode ser destrutiva para as mulheres. Como você trabalhou nesse setor no mais alto nível durante tantos anos, ficou surpreso com tudo que veio à tona recentemente? Que nada, cara. As mulheres e os irmãos negros tiveram de aguentar muitas coisas terríveis. Ambos temos de lidar com barreiras invisíveis.

O que tem a dizer do suposto comportamento de seu amigo BillCosby? É difícil combinar as acusações contra ele [de abuso sexual] com a pessoa que você conhece? Todos faziam isso. Brett Ratner, [Harvey] Weinstein. Weinstein é um filho da puta que não vale nada. Não atendeu nenhum dos meus cinco telefonemas. É um fanfarrão.

“Deixei de beber há dois anos e hoje me sinto como se tivesse 19. Nunca fui tão criativo. Não sei como explicar. Tremenda vida!”

E quanto a Cosby? Quanto a Cosby o quê?

Você se surpreendeu com as acusações? Não podemos falar disso publicamente, cara.

Se você pudesse resolver um problema dos EUA num piscar de olhos, qual seria? O racismo. Sou testemunha do racismo há muito tempo, da década de trinta até hoje. Avançamos muito, mas resta muito a fazer. O sul sempre foi terrível, mas lá você sabe onde está metido. No norte, o racismo está disfarçado. Você nunca sabe em que lugar está. É por isso que o que está acontecendo agora é bom, porque pessoas que antes não diziam que eram racistas, agora dizem. Agora sabemos.

O que provocou esta situação? Só otrumpismo?Trump e os camponeses ignorantes. Tudo que Trump faz é dizer-lhes o que eles querem ouvir. Antes tinha a ver com ele. É um filho da puta e está louco. É uma pessoa intelectualmente limitada, megalômana e narcisista. Não o aguento. Eu saí com Ivanka, sabia?

Não me diga. É mesmo? Sim, há 12 anos. Tommy Hilfiger, que estava trabalhando com minha filha Kidada, disse-me que Ivanka queria jantar comigo. Respondi-lhe que não havia nenhum problema. Tinha as pernas mais bonitas que já vi, mas o pai errado.

Acredita que sua amiga Oprah seria uma boa presidenta? Não acredito que ela deva se candidatar. Não tem o que é preciso ter para isso. Se você nunca foi governador de um Estado, CEO de uma empresa ou general do Exército, não sabe como liderar pessoas.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
ART STREIBER (AUGUST / CORDON PRESS)

Ela é CEO de uma empresa. O regente de uma orquestra sinfônica sabe mais como liderar do que a maioria dos empresários. Mais do que Trump, que não tem nem ideia. Alguém que saiba de verdade de liderança não teria tanta gente contra ele. Trump é um maldito idiota.

No que se refere à raça, Hollywood funciona tão mal quanto o restante do país? Sei que quando você começou a escrever música para filmes, ouvia os produtores dizerem, por exemplo, que não queriam partituras “tipoblues”, o que era claramente um racismo velado. Continua se deparando com esse tipo de racismo? Sim, as coisas continuam complicadas. Em 1964, quando estava em Las Vegas, havia lugares nos quais se supunha que não podia entrar por ser negro, mas Frank [Sinatra] deu um jeito para mim. Para que as coisas mudem, são necessários esforços individuais como esse. É preciso que os brancos perguntem a outros brancos se querem realmente ser racistas, se acreditam de verdade nisso. Mas cada lugar é diferente. Quando vou a Dublin, Bono me faz ficar em seu castelo, porque a Irlanda é muito racista. Bono é meu irmão, cara. Ele batizou o filho dele com o meu nome.

O U2 continua fazendo boa música? [Ele nega com a cabeça].

Por que não? Não sei. Gosto do Bono com toda minha alma, mas o grupo está submetido a muita pressão. Está fazendo um bom trabalho no mundo todo. Colaborar com ele e com Bob Geldof para a redução da dívida foi uma das coisas mais importantes que já fiz. Mais ou menos como We Are the World.

Diga algo em que tenha trabalhado que deveria ter sido mais importante. O que é que você está dizendo? Nunca tive esse problema. Todos os meus trabalhos foram importantes.

Do ponto de vista estritamente musical, de tudo que já fez, o que o deixa mais orgulhoso? O fato de que tudo que posso sentir eu consigo traduzir em uma partitura. Não há muita gente capaz de fazer isso. Posso conseguir que uma banda toque do jeito que um cantor canta. Nisso consistem os arranjos musicais, e este é um grande dom. Não o trocaria por nada.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
MICHAEL OCH ARCHIVE (GETTY)

Há alguns anos foi citada uma suposta declaração sua (não consegui encontrar a fonte, de modo que a citação é apócrifa) em que o senhor menosprezava o rap dizendo que era um punhado de loopings de quatro compassos. Continua sustentando essa opinião? É verdade que o rap é assim. É a mesma frase o tempo todo. O ouvido precisa da melodia adequada; é preciso sempre dar a ele algo atrativo, porque a mente desconecta quando a música não muda. A música feita assim é estranha. É preciso fazer com que o ouvido fique ocupado.

Há algum exemplo em seu trabalho, talvez com Michael, que ilustra isso que o senhor disse? Sim, o melhor exemplo de uma tentativa minha de fomentar os princípios musicais do passado – me refiro ao bebop – é Baby Be Mine. [Cantarola a melodia da canção]. É Coltrane transformado em música pop. Eu me refiro a fazer com que os jovens escutem bebop. O jazz está no topo da hierarquia musical porque os músicos aprenderam tudo o que podiam de música. Sempre que me encontrava com Coltrane, ele estava com o livro de Nicolas Slonimsky.

Sim, sabe-se que ele estava obcecado com o livro Thesaurus of Scales and Melodic Patterns[Tesauro de Escalas e Padrões Melódicos]. O senhor se refere a ele, certo? Sim, isso mesmo. Agora sim você está falando de assuntos interessantes. Tudo o que Coltrane tocou em algum momento estava no tesauro. De fato, no começo do livro há um exemplo de dodecafonia. É Giant Steps. Todo mundo pensa que Coltrane a compôs, mas não foi ele. Foi Slonimsky. Esse livro fez com que todos os músicos de jazz improvisassem com essa dodecafonia. Coltrane o levou consigo até as páginas caírem.

Quando Coltrane começou a ir além com a música…Giant Steps.

Tudo bem, até mesmo além disso, como em Ascension. Não dá para ir além dos 12 tons, e Giant Steps é dodecafônica.

Mas quando ele tocava utilizando um sistema atonal… Não, não, não. Até nisso havia uma grande influência de Alban Berg. É o mais longe que se pode chegar.

O senhor nota o espírito do jazz no pop atual? As pessoas renunciaram a ele para correr atrás de dinheiro. Quando o que te interessa é vodca Cîroc, roupas Phat Farm e todo esse lixo, Deus vai embora. Nunca na minha vida fiz música para conseguir fama e dinheiro. Nem mesmo com Thriller. Nem pensar. Deus sai do seu lado quando você pensa em dinheiro. Você pode gastar um milhão de dólares em uma partitura para piano e ela pode não te trazer outro milhão. As coisas não funcionam dessa forma.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
JOHN DOMINIS

A música pop atual é inovadora? De jeito nenhum. Não é mais do que loopings, batida, ritmo e ganchos. O que posso aprender com eles? Não há uma só merda de música. A música é o poder, e o cantor é o mensageiro. Nem o melhor cantor do mundo pode salvar uma música ruim. Eu apreendi isso há mais de 50 anos, e essa é a grande lição que aprendi como produtor. Se você não tem uma boa música, não importa o que você coloque ao redor dela.

Qual foi sua maior inovação musical? Tudo o que eu fiz.

Tudo o que o senhor fez foi inovador? Tudo foi algo de que pude me orgulhar, absolutamente tudo. Foi um contraste assombroso de gêneros. Desde que era muito jovem toquei todos os tipos de música: música para o bar mitzvah, marchas de Souza, música para clubes de strip-tease, jazz, pop, tudo. Não precisei aprender nada para trabalhar com Michael Jackson.

Qual o motivo das músicas não serem tão boas como antes? A mentalidade das pessoas que compõem a música. Atualmente, os produtores ignoram todos os princípios musicais das gerações passadas. É ridículo. As coisas não funcionam assim; supõe-se que você precisa utilizar tudo o que o passado te proporciona. Se você sabe de onde vem, é mais fácil chegar no lugar em que você quer ir. Você precisa entender de música para emocionar as pessoas e transformar-se na trilha sonora de sua vida. Posso contar qual foi um dos melhores momentos de minha vida?

Claro. Foi a primeira vez que se comemorou o aniversário de Martin Luther King em Washington. Stevie Wonder era o responsável e me pediu para que eu fosse o diretor musical. Depois da apresentação, fomos a uma recepção e três senhoras se aproximaram de nós. A mais velha estava com o disco Sinatra at the Sands, com arranjos meus; sua filha estava com meu álbum The Dude, e a filha desta, Thriller. Três gerações de mulheres me dizendo que esses eram seus discos favoritos. Foi muito emocionante.

Estou tentando entender qual o senhor acha que é especificamente o problema do pop atual. É a falta de formação musical acadêmica dos músicos?Sim. E, além disso, nem sequer se importam em não tê-la.

Quincy Jones: “As mulheres e os negros têm tido de aguentar muito”
MICHAEL OCH ARCHIVES (GETTY)

E quem está tentando fazer coisas que valem a pena? Bruno Mars, Chance the Rapper, Kendrick Lamar. Gosto da mentalidade de Kendrick. Tem os pés no chão. Chance também. E o disco de Ed Sheeran é fantástico. E adoro Sam Smith, que absolutamente não esconde sua homossexualidade. Mark Robson é um músico que sabe produzir.

Deixando de lado a qualidade das músicas contemporâneas, há algum aspecto técnico e alguma novidade de produção sonora que transmitam alguma sensação de novidade? Não, não há nada novo. Os produtores são preguiçosos e ambiciosos.

Vê algum futuro no mundo da música? O mundo da música já não existe. Se essas pessoas tivessem prestado atenção em Shawn Fanning há 20 anos, agora não teríamos esses problemas. Mas no negócio da música continuam existindo muitos contadores da velha escola. Não dá para ser assim. Não podem ser esses a dizer sempre: “Na minha época…”.

Agora o senhor está falando de negócios, não de música, mas – e o digo com todo o respeito – não lhe parece que algumas de suas ideias sobre música também são do tipo “na minha época…”?Existem princípios musicais, cara. Hoje em dia os músicos não são capazes de tirar tudo da música porque não fizeram a lição de casa com o lóbulo esquerdo do cérebro. A música é emoção e ciência. A emoção não precisa ser praticada, porque sai naturalmente. Com a técnica é diferente. Se no piano você não sabe colocar o dedo entre o mi e o  e o sie o , não pode tocar. Sem técnica você só pode chegar a um ponto. A pessoas limitam-se a si mesmas. Por acaso esses músicos conhecem o tango? E a macumba? E a música yoruba? E o samba, a bossa nova e o chachachá?

O chachachá talvez não. [Marlon] Brando costumava sair para dançar chachachá com a gente. Podia dançar até quase cair morto. Era o cara com mais charme que já conheci na vida. Transava com qualquer pessoa. Com qualquer pessoa. Transaria até com uma caixa de correio. James Baldwin, Richard Pryor, Marvin Gaye…

Dormiu com eles? Como o senhor sabe? [Franze o cenho] Vamos, cara. Ele não dava a mínima. Você gosta de música brasileira?

Sim, mas conheço pouca coisa além de Jorge Ben Jor e Gilberto Gil. Gilberto Gil e Caetano Veloso são reis. Você sabe, todos os anos vou às favelas. Esses caras têm uma vida difícil, mas são gente dura. Se você pensa que aqui as coisas estão ruins, aquilo é pior.

“A música é o poder e o cantor é o mensageiro. Nem o melhor cantor do mundo pode salvar uma música ruim. Aprendi essa grande lição há 50 anos”

Li que quando o senhor era jovem costumava andar com um revólver. É verdade.

Alguma vez o disparou?Sim.

Contra o que? [Sorri] Só para praticar.

Permita que eu lhe faça uma pergunta incomum. Em sua autobiografia há um capítulo em que fala de… Sobre ser um cachorro?

Não estava pensando nisso, mas, certo, também aparece no livro. Estava pensando em um capítulo em que o senhor conta que sofreu um colapso nervoso pouco depois de Thriller. Frequentemente fala de seus melhores momentos. Eu me pergunto se poderia contar alguma coisa de seus piores momentos. O que aconteceu foi que eu era um dos produtores de A Cor Púrpura. Eu e Spielberg continuamos sendo bons amigos. Era uma pessoa genial. Adorei trabalhar com ele.

Certo, mas o que aconteceu em A Cor Púrpura que lhe provocou a crise? O que aconteceu foi que eu era um dos produtores do filme e, quando acabamos de filmar, todos saíram de férias. Todos menos eu. Precisei ficar em casa e escrever uma hora e 55 minutos de música para o filme. Estava tão cansado que não conseguia enxergar. Eu me sobrecarreguei de trabalho e isso teve seu preço. As pessoas aprendem com seus erros e eu aprendi que não podia voltar a fazer algo assim.

O senhor está prestes a completar 85 anos. O final o assusta? Não.

O que acha que acontece quando morremos?Simplesmente partimos.

É religioso? De jeito nenhum. Conheci Romano Mussolini, o pianista de jazz filho de Benito Mussolini. Costumávamos passar a noite improvisando. Ele me contou de onde vinham os católicos. Os católicos têm uma religião baseada no medo, na fumaça e no assassinato. E não há fraude maior do que a confissão. Você conta suas más ações e está tudo resolvido. Ora vamos. E em quase qualquer lugar do mundo para onde você for, os maiores prédios são as igrejas católicas. É dinheiro, cara. Que merda.

Falando de dinheiro, tenho uma pergunta grosseira. A primeira metade de sua carreira foi dedicada ao jazz, que não é especialmente lucrativo. Quando começou a ganhar dinheiro de verdade? Quando comecei a produzir para Lesley Gore. Eu era o primeiro vice-presidente negro de uma gravadora [Mercury], o que era sensacional, exceto quando não me pagaram por produzir para ela. Mas depois disso, na década de 1970, quando comecei a produzir para outros artistas e depois para Michael, claro, ganhei muito dinheiro. Também ganhei muito com as produções para a televisão. A série Um Maluco no Pedaço foi uma barbaridade para mim. O programa MADtv foi transmitido por 14 anos. As rendas por esse sistema de venda de programas e séries são excelentes, cara.

Como sua educação influenciou – os problemas com sua mãe e o fato de crescer na verdadeira pobreza – sua forma de enxergar o sucesso?Certamente influenciou. Valorizo a sorte que tenho porque sei o que é não ter nada.

Pensa muito em sua mãe? O tempo todo. Ela morreu em um hospital psiquiátrico. Era uma mulher brilhante, mas nunca teve a ajuda que precisava. Sua demência precoce poderia ter sido curada com vitamina B, mas não podia consegui-la porque era negra.

Qual é a coisa mais ambiciosa que lhe resta fazer?Qwest TV. Será um programa musical da Netflix. Terá a melhor música de todos os gêneros do mundo. De modo que se todos os jovens procurarem o melhor do melhor para ouvir, ali estará. A verdade é que não posso acreditar que ainda participo de coisas assim. Deixei de beber há dois anos e hoje me sinto como se tivesse 19. Nunca fui tão criativo. Não sei como explicar. Tremenda vida!

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Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/12/eps/1520857453_619147.html?id_externo_rsoc=whatsapp

Secretário de Estado americano é demitido na volta de sua viagem à África

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Tillerson retornou de uma viagem ao continente africano horas antes do anúncio de Trump. De acordo com a agência Associated Press, o presidente não deu nenhuma satisfação a Tillerson sobre sua demissão. Ainda segundo a mesma fonte, o ex-secretário de Estado desejava continuar no posto. Fontes ouvidas pela agência Associated Press sob anonimato afirmaram que Tillerson teria sido demitido na sexta-feira, quando estava na África, enquanto a rede americana NBC diz que ele foi informado sobre sua demissão pelo tuíte…

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demitiu o secretário de Estado Rex Tillerson e anunciou, nesta terça-feira (13), Mike Pompeo para o cargo.

O secretário de Estado é escolhido pelo presidente e, nos EUA, é o responsável por orientar o chefe do Executivo a respeito da política externa. Também cabe ao secretário executar as políticas externas estabelecidas pelo presidente, com a ajuda de outros departamentos como o Serviço de Relações Exteriores e a Agência para o Desenvolvimento Internacional dos EUA.

Inicialmente, o presidente não deu explicação para a mudança, mas, depois, falando na Casa Branca antes de viajar para a Califórnia, Trump garantiu que tomou a decisão sozinho e admitiu desacordos com Tillerson, principalmente sobre a postura dos EUA diante do Irã.

O cargo de diretor da CIA, que até agora pertencia a Pompeo, ficará com Gina Haspel, primeira mulher a assumir o posto.

O anúncio foi feito por Trump em seu Twitter e ainda cabe ao Senado americano – de maioria republicana – confirmar as indicações.

“Mike Pompeo, diretor da CIA, vai se tornar nosso novo Secretário de Estado. Ele fará um trabalho fantástico! Obrigado, Rex Tillerson, por seu serviço! Gina Haspel vai se tornar a nova diretora da CIA, e a primeira mulher escolhida para o cargo. Parabéns a todos!”