Brasil ,Africa do Sul e Europa assim acordo sobre Atlântico Sul

O plano comum chama-se Declaração de Belém e é assinado esta quinta-feira pela União Europeia, o Brasil e a África do Sul. Para Portugal será a solução para fazer avançar o Centro Internacional de Investigação do Atlântico, nos Açores.

A declaração vai ser assinada esta quinta-feira na Torre de Belém

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A declaração vai ser assinada esta quinta-feira na Torre de Belém MIGUEL MADEIRA/ARQUIVO

A Torre de Belém, em Lisboa, é um dos símbolos da abertura da Europa ao mundo, pois foi daí que partiram as primeiras viagens atlânticas, como o destaca um comunicado da Comissão Europeia, justificando assim a escolha do local para a assinatura da declaração que vai unir esta quinta-feira a União Europeia, o Brasil e a África do Sul. A Declaração de Belém é um compromisso de cooperação e investigação no Atlântico Sul que vai permitir garantir financiamento para vários projectos científicos. Portugal espera que esta seja a solução para avançar com a criação do Centro Internacional de Investigação do Atlântico (AIR Center), nos Açores.

“A Declaração de Belém é a extensão da Declaração de Galway assinada [em Maio de 2013] entre a União Europeia, o Canadá e os Estados Unidos”, começa por explicar o ministro da Ciência, Manuel Heitor, ao PÚBLICO. Na altura, o objectivo desta aliança era “estudar a interacção entre o oceano Atlântico e o oceano Árctico, designadamente no respeitante às alterações climáticas”, segundo um comunicado da Comissão Europeia de 2013. Agora, esclarece Manuel Heitor, trata-se de um compromisso dirigido “para o Atlântico Sul e que vai estender o quadro de investigação científica e de estudo na área dos oceanos”.

Os grandes objectivos desta declaração passam pela segurança alimentar e vão até às alterações climáticas, às correntes oceânicas e ao reforço das observações no oceano Atlântico. “[É] para se garantir o apoio necessário à protecção dos ecossistemas que se encontram sob pressão”, refere o comunicado da Comissão Europeia. Manuel Heitor destaca ainda a relevância dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas e salienta a importância da valorização das ciências do espaço e a sua integração com o clima e com as tecnologias nos oceanos.

Esta quinta-feira, na Torre de Belém, a representar a União Europeia estará Carlos Moedas (comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação), pela África do Sul está Naledi Pandor (ministra da Ciência e Tecnologia da África do Sul) e Gilberto Kassab (ministro de Estado para a Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações do Brasil) representará o Brasil. Da parte portuguesa vai estar o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa; o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor; e a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino.

Uma questão de diplomacia científica

Este compromisso estabelece uma série de objectivos gerais e vai permitir financiamento para acções concretas. Porém, para já, ainda não se sabe quanto será a verba disponível. Por outro lado, entre as muitas propostas de projectos que podem vir a surgir há uma portuguesa que já foi anunciada e que dependia de fundos comunitários que ficarão disponíveis com este acordo: o Centro Internacional de Investigação do Atlântico (AIR Center), que o Governo quer criar nos Açores.

Manuel Heitor sublinha que o “esforço de diplomacia científica” para desenvolver uma agenda de posicionamento no Atlântico Sul está a ser feito por Portugal há um ano. “No último ano, tem sido desenvolvido um novo quadro de relações científicas e técnicas no Atlântico Sul para nos posicionarmos melhor agora”, argumenta. “Esta declaração [de Belém] é totalmente independente do que estamos a fazer. Mas vai dar a origem a um quadro de financiamento para as actividades científicas no Atlântico Sul, no âmbito da Comissão Europeia.”

Ou seja, a Declaração de Belém vai servir de motor (o combustível será o financiamento) para arrancar com o projecto AIR Center, um centro dedicado aos temas do espaço, oceanos, clima, atmosfera, gestão de dados e energia. “Falta avançar para a instalação e assinar o acordo com os estatutos desta instituição intergovernamental, centrada nos Açores, que irá ser uma rede do Atlântico com pólos em vários países”, disse Manuel Heitor numa cimeira na ilha Terceira em Abril deste ano, em que teve como grande foco o AIR Center. O ministro da Ciência espera que o centro lance os “primeiros projectos efectivos” e “financiamento nas instituições” no final de 2018, referiu também na altura.

PÚBLICO -

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A cimeira internacional nos Açores promovida pelo Governo português ANTÓNIO ARAÚJO/LUSA

E qual o valor do financiamento a que Manuel Heitor se refere e que está inserido na declaração? “Não é conhecido. A Comissão Europeia, a África do Sul e o Brasil ainda não indicaram”, responde. E dá um exemplo: “A Declaração de Galway veio possibilitar um investimento forte no âmbito do programa Horizonte 2020 para as actividades do Atlântico Norte.”

Também presente na cimeira que se realizou em Abril nos Açores e que resultou numa declaração de apoio à criação do AIR Center assinada por oito países, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, disse que o AIR Center demonstra a importância da cooperação internacional e permite “um melhor e mais intenso uso da diplomacia científica, como uma ferramenta para as relações internacionais”. Naledi Pandor, ministra da Ciência e Tecnologia da África do Sul, que vai estar presente na Torre de Belém esta quinta-feira e também esteve na cimeira nos Açores, disse na altura: “A diplomacia científica é uma oportunidade para juntar as melhores mentes e instituições em nome do bem comum.”

https://www.publico.pt/2017/07/13/ciencia/noticia/europa-brasil-e-africa-do-sul-unemse-num-plano-comum-para-o-atlantico-sul-1778870

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Não pode haver construção para Europa e outra para Angola

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por Josina de Carvalho |
 
O candidato do MPLA a Presidente da República em Angola prometeu que o seu Governo, caso vença as eleições gerais, vai tomar medidas para baixar consideravelmente o preço das obras, principalmente estradas e habitação social, bem como garantir a qualidade das infra-estruturas construídas.
 
“Não pode haver construção para Europa e outra para Angola, porque uma estrada feita em Angola ou na Europa tem de ter a mesma qualidade e durabilidade, tendo em conta que o seu objecto social é o mesmo”, argumentou João Lourenço, lembrando ainda que a redução do preço das empreitadas vai permitir a construção de mais estradas, pontes, barragens, escolas, hospitais e habitações sociais.
João Lourenço, que falava durante o acto político de massas realizado no campo da Mabor Malha, município do Cazenga, garantiu também que vai passar a punir os gestores que se descuidarem da manutenção das infra-estruturas públicas, porque gastam milhões para construção e se esquecem da manutenção dos bens públicos.
“Isso deve ser corrigido, porque o dinheiro gasto é dos contribuintes”, declarou, alertando que o Governo vai incentivar a cultura de manutenção dos bens públicos, antes de punir quem não seguir a orientação.
 
Para João Lourenço, “a cultura do comprou, estragou, deitou fora e comprou outro tem de acabar, porque por muito petróleo e outras riquezas que Angola tenha não é possível continuar com essa cultura”. Os gestores e cidadãos que preservam os bens públicos e até privados, como carros e equipamentos, devem ser premiados para estimular os demais a seguir o mesmo exemplo. Para o Estado reduzir ainda mais a despesa com a construção destas infra-estruturas sociais e requalificação dos bairros, João Lourenço defende parcerias público-privadas, para apoiar o Governo na construção de um futuro melhor para os angolanos. “Já vem sendo feito, mas continuaremos a fazer depois de Agosto, caso consigamos ganhar as eleições, e continuar a obra de Agostinho Neto e de José Eduardo dos Santos”, disse.
 

A Europa e a correspondência entre Churchill e Stalin

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Luis Alberto Ferreira |*
5 de Agosto, 2016

O Kremlin desmentiu a ocorrência de quaisquer contactos de Putin com o candidato presidencial norte-americano Donald Trump. O que Moscovo poderia hoje considerar factual e relevante é a correspondência que, durante a Segunda Guerra Mundial, trocaram entre si Stalin, Roosevelt e Churchill.

 A correspondência epistolar entre estadistas das chamadas potências mundiais iria, entretanto, quase extinguir-se. Sabemos do gigantesco tropel das múltiplas mudanças – reais e artificiais – acontecidas depois da Segunda Guerra Mundial. Mudanças que desembocaram no actual retrocesso qualitativo nas relações entre continentes, países, povos, culturas e religiões.
O curso da Segunda Guerra Mundial cifrou-se, de facto, numa grande oportunidade para a desejável coesão planetária. Oportunidade perdida, poucos aceitam reconhecê-lo. Uma defenestração cometida com a leviandade de quem pensava o presente, venerava o imediato e apetecia a carnalidade efémera dos bens materiais. O resultado é o que temos hoje diante dos olhos. A Espanha vai acolher no regaço do erário público muitíssimos milhões pela venda de armamento bélico à OTAN e a países como, por exemplo, a Arábia Saudita, implicada na carnifica decorrente no Yémen, e o Iraque, onde o sangue jorra a cada minuto. A França, depois da tragédia de Nice, destacou para a Síria a sua aviação de guerra: choveram bombas sobre os civis de Alepo, cidade sitiada pelos terroristas e agora confortada com sete corredores de ajuda humanitária propiciados pela ajuda da Rússia. Vi num canal televisivo da América do Sul uma reportagem desanimadora sobre as bolsas de pobreza em Inglaterra: “Terceiromundismo à Inglesa”, intitula-se o documentário. Ao mesmo tempo, o “Le Monde Diplomatique” surpreendia-me com mais um dossiê à altura do melhor jornalismo de investigação: “Desunião Europeia – Viagem por uma autodestruição”. Como suporte analítico, na mesma edição do “Diplomatique”, mais um editorial de rigoroso delineamento crítico assinado por Serge Halimi: “Uma Europa por reconstruir”. Há, no texto em apreço, um momento crucial: “A União, projecto de elites intelectuais nascido num mundo dividido pela Guerra Fria, desperdiçou há um quarto de século uma das grandes bifurcações da História – um outro caminho possível. A queda da URSS deu ao Velho Continente uma oportunidade para refundar um projecto susceptível de satisfazer a aspiração das populações a justiça social e paz. Para isso, teria sido necessário que não se tivesse medo de desfazer e reconstituir a arquitectura burocrática sub-repticiamente erigida ao lado das nações, e ainda que se tivesse mudado o motor livre-cambista desta máquina. A União Europeia teria então oposto, ao triunfo da concorrência planetária, um modelo de cooperação regional, de protecção social e de integração por cima das populações do ex-bloco de Leste. Em vez de uma comunidade”, prossegue Halimi, “a União criou um grande mercado, carregado de comissários, de regras para os Estados e de punições para as populações, mas muito aberto a uma concorrência desleal para os trabalhadores. Um grande mercado sem alma e sem outra vontade que não a de agradar aos mais privilegiados e aos mais bem relacionados das praças financeiras e das grandes metrópoles. A União já só alimenta um imaginário de penitências e de austeridade, invariavelmente justificado pelo argumento do mal menor”.
Outro rasgo chamativo – por coincidir com a explanação crítica de Halimi – é a do novelista também francês Michel Houellebecq, que o diário italiano “La Repubblica” quis ouvir a respeito do abandono da União Europeia pelo Reino Unido. É bem certo que, no imediato, os resultados dessa decisão dos britânicos traduzem-se em convulsões assinaláveis nos meios políticos, sociais, empresariais, financeiros, etc. Contudo, não só se conhecem do Reino Unido as suas múltiplas capacidades de superação como, por outro lado, se desconhece a autoridade moral de formadores de opinião radicados em países que constituem na Europa exemplos deploráveis da “Desunião” – sobretudo “Desigualdade Europeia” – denunciada pelo “Diplomatique”. O novelista Houellebecq disse aos jornalistas italianos – profissionais certamente preocupados, por seu turno, com o “buraco” de 360 mil milhões na Banca do seu país… – o que Serge Halimi clarifica no seu editorial: “Acho muito bem. Louvo os britânicos por não se renderem às exigências da elite mundial. Sem vínculos com a Europa, os britânicos viverão muito melhor. O projecto da União é uma ilusão perniciosa. A Europa não tem interesses económicos comuns, nem uma língua ou uma cultura comuns (…), portanto é impossível uma estrutura política comum e democrática”. Reagindo em termos desabridos, um dos mais “alcatifados” defensores do andamento desuniforme da União Europeia, o novelista espanhol Javier Cercas, que vota numa “democracia” dominada pela corrupção e pela desigualdade, argumentou, retórico, usando a magnificação dos “benefícios” da UE. Conclusão inelutável: o espectáculo  agora oferecido pela UE não é senão o resultado do desprezo pelas grandes oportunidades históricas.
Churchill e Roosevelt assinaram, juntos, cartas dirigidas a Stalin no decurso da Segunda Guerra Mundial. Stalin queria, em Setembro de 1941, a abertura de uma segunda frente para travar as forças de Hitler. Churchill confessou então ao colega soviético a falta de meios para participar no projecto. Stalin achou, contudo, que “o Governo britânico deseja a vitória da URSS”. O tom dessa (numerosa) correspondência, envolvendo também Roosevelt, não poderia ser mais amistoso. Hitler seria de facto derrotado. No entanto, o Plano Marshall norte-americano de 1947 transformar-se-ia em detonante da maldição europeia. As contradições, hoje, causam assombro: a navegar, dir-se-ia, em águas gregas, o couraçado “Deutsche Bundesbank” acusa um rombo de 6.700 milhões de euros…

(*) Luis Alberto Ferreira é o mais antigo
jornalista angolano no activo

http://jornaldeangola.sapo.ao/opiniao/as-subesferas/a_europa_e_a_correspondencia_entre_churchill_e_estaline

Entrevista com Luiz Felipe de Alencastro:

Historiador fala sobre escravidão e as controvérsias da pesquisa nas relações entre Brasil, Europa e África

Foto: Leila Fugii
Foto: Leila Fugii
Luiz Felipe de Alencastro

Historiador fala sobre escravidão e as controvérsias da pesquisa nas relações entre Brasil, Europa e África

Professor da Escola de Economia de São Paulo – Fundação Getulio Vargas, Luiz Felipe de Alencastro é graduado em Ciências Políticas na Universidade de Aix-en-Provence, na França, doutor em História Moderna e Contemporânea pela Universidade Paris X e pós-doutor pela Universidade de Paris IV Sorbonne, onde também ministrou a cátedra de História do Brasil entre 2000 e 2014. Além disso, escreveu e organizou livros como História da Vida Privada no Brasil – Império: A Corte e a Modernidade Nacional (Companhia das Letras, 1997), ganhador do prêmio Jabuti em 1998, e O Trato dos Viventes – Formação do Brasil no Atlântico Sul (Companhia das Letras, 2000). Mais recentemente, organizou o número da revista Portuguese Literary and Cultural Studies, da Universidade Massachusetts-Dartmouth, intitulado “The South Atlantic, Past and Present” (2014). Nesta entrevista, o historiador fala sobre tráfico negreiro, independência e outros pontos controversos da história tradicional brasileira.

 

Por que o tráfico negreiro do Brasil com a África era tão pouco falado na história tradicional?

Quando o Brasil ficou independente, quase todos os países do mundo já tinham abandonado o tráfico negreiro, que passou a ser considerado como um ato criminoso de pirataria. Para se defender, a diplomacia brasileira se prendia à justificativa de ser a única monarquia das Américas, uma aliada natural da Europa, e assim o país se manteve metido até o pescoço no tráfico negreiro com a cobertura do governo. Isso foi algo que deixou a maioria da elite brasileira, inclusive os intelectuais, envergonhados, durante o século 19 inteiro. Exceto pelas obras de autores como Taunay, Luiz Vianna Filho e, principalmente, Maurício Goulart, esse assunto não entrou muito na historiografia brasileira até as últimas décadas do século 20. Há também autores, como Jacob Gorender, que consideravam o tráfico negreiro como um segmento de comércio português ou autônomo, não integrado ao escravismo brasileiro. Quem estudava o assunto eram os diplomatas e os estudiosos do direito internacional, porque o tráfico envolvia comércio exterior e normas do direito internacional impostas pelo Reino Unido ao governo brasileiro. Havia também um desconhecimento estatístico sobre o tráfico negreiro, mas hoje isso tudo se esclareceu muito mais. Existe um banco de dados online feito por especialistas [www.slavevoyages.org] que mostra que o Brasil importou 43% de todo o tráfico negreiro, o que corresponde a cerca de 4,8 milhões de africanos. Pegando três séculos, entre 1550 e 1850, o número de africanos que chegaram ao Brasil foi seis vezes e meia maior que o número de portugueses que chegaram como colonos e imigrantes na mesma época. Portanto, nós somos uma nação maciçamente de origem africana. Isso ficou claro agora no Censo de 2010, quando os prolongamentos demográficos da imigração europeia diminuíram.
Mesmo com a lei de 1831, que proíbe o tráfico negreiro para o Brasil, os negociantes e fazendeiros brasileiros continuam traficando escravos ilegalmente, com a conivência do governo, até a lei Eusébio de Queiroz, de 1850. Isso vai ter reflexo no caráter brasileiro?

É preciso lembrar que o Brasil já nasce com um grande conchavo feito à custa dos africanos e dos seus filhos nascidos aqui e ilegalmente escravizados. Forçado pela Inglaterra, o Brasil passou a ter uma lei antitráfico que determinou que a partir de 1831 todo africano que viesse para cá seria livre. Já era o caso para os que vinham dos portos africanos do norte do Equador depois de 1818. Essa era a lei. Quem mantinha esses indivíduos e seus filhos em escravidão estava, portanto, sequestrando e cativando pessoas livres. Quando em 1850 foi preciso fazer um novo arranjo com a Inglaterra, que ameaçava fazer o bloqueio naval da baía de Guanabara, Eusébio de Queiroz decide editar uma nova lei, mais severa, que “pegou”. Entrou-se, então, em um acordo tácito para admitir que os 760 mil africanos que entraram clandestinamente no país continuavam sendo escravos. Tratou-se de uma afronta ao direito, como afirmaram os abolicionistas. De 1850 a 1888, a esmagadora maioria desses indivíduos livres continuou sendo escravizada. Houve um complô, que chamo de grande complô escravocrata, para que esses homens, mulheres e crianças livres continuassem no cativeiro. Os delegados não mexiam nisso e os tribunais muito pouco.
Como se explica esse tráfico negreiro tão forte mantido entre Portugal, o Brasil e a África?

No século 17, a Espanha não tinha colônia ou feitoria na África, então ela terceirizava o fornecimento de escravos às Américas. Fazia-se um leilão, e um cartel negreiro, com grandes comerciantes e armadores, fazia uma oferta e ganhava o monopólio da entrega. Quem fez isso durante 1595 e 1640 foram os portugueses, que se especializaram em buscar escravos de Angola, que estava mais ao sul e por isso não era frequentada pelos negreiros da Europa. Para chegar a Angola, é preciso fazer uma volta pela costa brasileira até o Sul, no bojo de uma corrente marítima. Dali se chegava a Luanda pelo sul. Essa era uma navegação que favorecia muito Portugal e os navios negreiros saídos do Brasil, já que os outros países não tinham apoio na costa brasileira. Assim, os portugueses foram para cima de Angola e houve uma ocupação efetiva, com a ajuda de milicianos vindos do Brasil, já experientes e aclimatados nas guerras tropicais.
No livro História da Vida Privada, existe um dado de que em 1808 quase 43% da população do Rio de Janeiro era formada por escravos. O que isso significava para a época?

O Rio de Janeiro, naquela época, era uma grande metrópole e tinha a maior concentração de escravos desde o fim do Império Romano. Em 1848, foi feito um recenseamento do Rio que concluiu que a cidade tinha 260 mil habitantes e, destes, 110 mil eram escravos. Não havia uma cidade no mundo naquele momento com essa quantidade de escravos. Isso aparece na literatura da época. O próprio Gonçalves Dias [poeta brasileiro, autor da famosa Canção do Exílio] escreve na sua prosa Meditação, de 1846, que, ao desembarcar no Rio, surpreendeu-se, pois a capital parecia uma cidade africana. Depois, houve uma política deliberada de branqueamento da população com a imigração.
Como cidades do porte de São Paulo e Rio de Janeiro, que tinham grandes populações de escravos, diminuíram tanto o espaço dos negros em suas populações?

A partir de 1850 houve uma imigração massiva de jovens portugueses. O censo de 1890 mostrou que no centro do Rio de Janeiro havia mais homens jovens portugueses do que brasileiros. Isso é que deu ao carioca esse sotaque chiado. Isso veio dos portugueses e do teatro popular vindo de Portugal. Depois as escolas de samba contribuíram para uma imagem carioca mais afro-brasileira e hoje há até um turismo que sublinha o lado negro do Rio de Janeiro. No entanto, no censo de 2010, a maioria da população brasileira se autoidentificou como sendo afrodescendente. Hoje, há mais estudos sobre a história da África, mudança favorecida pela lei federal que introduziu o ensino de história da África e história afro-brasileira no ensino brasileiro em 2003. A universidade brasileira, que antes se desinteressava dos estudos africanos, de modo geral também acordou e passou a formar professores e criar cátedras nesse campo.
Você aborda também a questão da compra da independência brasileira, via empréstimo. Por que isso não é estudado na escola?

Quem vê isso é quem estuda história financeira, mas de fato não se trata muito disso na escola. Sou de uma geração que fazia história global e tinha uma visão de longo prazo que hoje tem poucos seguidores. No Brasil, seria interessante trabalharmos nessa perspectiva mais global. Eu digo para os meus alunos que o Brasil e a Costa do Marfim são os únicos países que têm nome de commodity, e que “brasileiro” é o único nome gentílico de nacionalidade que vem de um sufixo neolatino, “-eiro”, que indica profissão, de negociante de pau-brasil, como padeiro, pedreiro, e não naturalidade, “-ense” ou “-ano”, como canadense, italiano. O país tem uma população que majoritariamente vem de fora, nasceu de uma atividade econômica que vem de fora, os escravos não eram daqui, os engenhos não eram daqui, a cana-de-açúcar e o café não eram daqui. Quanto à independência, aconteceu mais ou menos o seguinte: quando o exército francês invadiu Portugal, a Inglaterra mandou navios e tropas para lá. Terminada a guerra, em 1815, depois de Waterloo, a Inglaterra apresentou a fatura para Portugal, pedindo-lhe para pagar as despesas com os soldados, navios e transporte da família real para o Brasil. Na época, a Inglaterra fazia o direito internacional, o comércio internacional, tinha os banqueiros, era uma superpotência. Era como a ONU e os Estados Unidos juntos. Aí Portugal, isto é, D. João VI, o pai de D. Pedro I, diz ao governo brasileiro de D. Pedro I que reconheceria a Independência em troca de 1 milhão de libras esterlinas, quantia que o governo português devia à Inglaterra. Paralelamente, o diplomata inglês que negociava no Rio representando os governos de Londres e de Lisboa avisa que a Independência só será reconhecida pela Inglaterra depois que o Brasil for reconhecido por Portugal como país independente. O golpe foi armado assim. Para pagar esse dinheiro, o Brasil toma dinheiro emprestado da Inglaterra. Ou seja, foi um jogo de escrituras, porque esse arranjo já estava feito, o dinheiro nem saiu de Londres, e o Brasil ficou pagando juros até a República. Ora, quando um país fica independente, ele não paga nada, já foi roubado o suficiente. Só quem pagou a Independência foi o Brasil e o Haiti, que pagou para a França. O resto das nações ficou independente e pronto, como aconteceu nos Estados Unidos, nos países da América espanhola, em Angola, na Argélia e em tantos outros países.
Para você, uma das razões de o Brasil não ter se fragmentado se deve ao tráfico negreiro?

Sim, foi o tema do primeiro artigo que publiquei, na França, em 1979, “La traite négrière et l’unité nationale brésilienne”. Aí se juntam duas coisas. O Brasil devia dinheiro para a Inglaterra, e como na época não existia imposto de renda, esse dinheiro vinha da alfândega brasileira, do imposto sobre a exportação e importação. O governo britânico não tinha interesse em que o país se fragmentasse e a alfândega do Rio, onde se concentrava o comércio externo brasileiro, fosse à falência. Quem estava endividado com Londres era o governo do Rio de Janeiro, e não o de Pernambuco ou Rio Grande do Sul. A outra coisa é a seguinte. Se algumas das províncias escravistas quisessem ficar independentes, teriam que negociar com a Inglaterra a prolongação do tráfico negreiro. Ora, isso o imperador e seus diplomatas negociavam melhor do que ninguém. Havia uma política gradualista, para acabar com o tráfico negreiro, e isso foi sendo empurrado com a barriga pelo governo do Rio até 1850. Se Pernambuco ou a Bahia ficassem independentes, por exemplo, a sobrevivência do escravismo regional, dependente da importação de africanos, estava em perigo por causa da ameaça da frota britânica. Nas províncias menos escravistas, como o Maranhão e o Rio Grande do Sul, esse temor contava menos. Ali, foi a intervenção militar do duque de Caxias, e não a ameaça da frota britânica, que resolveu a parada, derrotando as revoltas autonomistas.
Uma das razões do desequilíbrio econômico brasileiro em suas origens é que províncias como São Paulo e Rio de Janeiro eram mais bem articuladas com o comércio negreiro que o Nordeste?

Geralmente, o que é dito na historiografia tradicional em relação ao progresso paulista é que a plantação de café era mais dinâmica, e isso suscitou um espírito empresarial mais moderno dos fazendeiros de São Paulo em relação aos senhores de engenho do Nordeste, que era um local mais paternalista e menos dinâmico. Isso é uma meia-verdade. O fato é que o café deslanchou no Rio e em São Paulo porque a rede negreira carioca, que dominava São Paulo também, era muito mais extensa e organizada do que na Bahia. Isso levou até os portos do Rio e de Santos os africanos que desbravaram o vale do Paraíba e o oeste paulista, favorecendo o crescimento do Sudeste brasileiro.
E em relação à Igreja? Como era essa transcontinentalidade eclesiástica?

O bispado de São Luís, no Maranhão, dependia do arcebispo de Lisboa, porque era mais fácil ir de São Luís a Lisboa do que à Bahia. As paróquias e o bispo de São Luís dependiam de Lisboa, e o arcebispo da Bahia tinha autoridade sobre as paróquias do Rio de Janeiro, Olinda, Luanda, Angola, Congo e São Tomé. Era mais fácil esse arcebispo controlar o bispo de Luanda do que o de São Luís, e assim foi até depois da Independência. Isso mostra que, de fato, naquela época o Brasil não era um espaço unificado, um território em si, era parte de uma coisa maior, o Atlântico Sul ibérico e luso-brasileiro. Por isso, é preciso estudar essa época pensando no Atlântico Sul. Algumas cronologias da história colonial falam da criação do arcebispado da Bahia, mas não se diz que Angola e Congo dependiam dele, só se citam o Rio de Janeiro e Olinda. Aí você vê como a historiografia brasileira foi podando o que não entrava no território, para dar sumiço na África.
Essa visão que obscurece a África pode ser vista como uma conspiração? Como isso influencia a história ou o papel dos intelectuais que escrevem história?

A África era colonizada pelos europeus, o ambiente do século 19 e de boa parte do século 20 era dominado pelo racismo vulgar e o racismo científico. A elite brasileira e as universidades queriam se desmarcar desse passado que nos ligava à África, alimentando a ideia de que o Brasil foi construído somente pelos portugueses, pelos europeus. Nós estudamos que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, como se em seguida já tivesse sido formado o Estado brasileiro. Não foi assim. O papel do povo brasileiro, do povo afro-brasileiro é muito importante. O povo quebrou a cara para criar a língua brasileira, que tem uma identidade própria e é uma língua que conta no mundo hoje. Apesar disso, existe uma ideia de que a nossa nação já nasceu pronta. Há teses de literatura que começam com Padre Anchieta, que era espanhol, das Ilhas Canárias, e escrevia para índio na praia. Não é literatura brasileira. Tanto que o Antonio Candido [autor de Formação da Literatura Brasileira] diz que a literatura brasileira nasce quando se escreve com motivo local para o leitor local, em meados do século 18, o que coincide com Celso Furtado [autor de Formação Econômica do Brasil], que diz que a economia brasileira surge quando muda o centro dinâmico do litoral para o interior, para Minas Gerais. É um paralelo muito interessante, já que um diz que a cultura nasce em Minas e o outro diz que a economia territorial brasileira nasce com o ouro.
Devido à força do comércio do Brasil com a África, era mais fácil ir a Luanda do que ao Pará, em questão de rotas. Quanto da África ficou no Brasil, por conta dessa proximidade?

Desde o século 17 já existia um sotaque brasileiro na língua portuguesa. Segundo a Yeda Pessoa de Castro, etnolinguista baiana que estudou no Congo, isso acontece porque houve uma fusão do português do século 17 com as línguas do grupo banto. Essa coisa de não falarmos “a cantar” e sim “cantando” tem origem africana, nessa fusão. Isso não acontece nas colônias portuguesas na África, onde se fala com sotaque de Portugal, porque a maioria dos colonos portugueses chegou ali recentemente, sobretudo depois de 1950. Do lado espanhol, não era assim. Havia vários regionalismos, mas, como a Espanha era muito forte, segurou a barra e o dicionário oficial de Madri sempre se impôs como padrão. Portugal não fazia peso diante dos brasileirismos. É como se o francês de Quebec ordenasse o francês da França. Então, essa proximidade entre Brasil e África começa na língua, o que não é pouca coisa. Outras influências estão no jeito de comer, na sociabilidade, na música e em tudo isso que a gente sabe que forma a coesão do Brasil.