Achille Mbembe: Relação entre África e China é caracterizada como “predação”

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O filósofo e teórico político camaronês Achille Mbembe considerou hoje que a relação entre África e China se caracteriza pela “extração e predação”, defendendo que os africanos devem organizar-se para mudar a situação.

“A relação que a China tem com África, neste momento, tem sido caracterizada pela extração e pela predação”, afirmou Mbembe, durante a II Cimeira Pan-africana, na Associação Cultural Moinho da Juventude, na Amadora.

Mbembe sustenta que a forma de alterar a situação passa pelo equilíbrio entre os dois lados.

“Isto irá mudar se formos capazes de estabelecer uma relação mais equilibrada entre as elites africanas e as pessoas, e se formos capazes de responsabilizar os proprietários” das empresas, disse Mbembe, acrescentando: “Cabe-nos organizarmo-nos para alcançarmos um ponto de viragem”.

O filósofo remete para o capitalismo a responsabilidade da atual situação.

“Isto sempre foi um grande efeito do capitalismo: extração e predação. Extração de corpos [escravatura], recursos naturais e extração da própria vida. O que temos testemunhado recentemente é uma intensificação destas práticas”, constatou Achille Mbembe

Ruth Wilson Gilmore, diretora do ‘Center for Place, Culture and Politics’ e professora de geografia na Universidade da Cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, defendeu por seu turno que a África não deve aceitar todas as ofertas oriundas da China.

“[África] deve evitar uma nova situação colonial (…) e não deve aceitar todas as ofertas de melhorias de infraestruturas e uma nova rota da seda em troca de recursos naturais para a China”, disse a professora norte-americana, defendendo, ao invés, um investimento “crucial” na educação e o afastamento das bases militares dos Estados Unidos da América.

O senegalês Mamadou Ba, da direção da associação portuguesa SOS Racismo e ativista dos direitos humanos, partilha a preocupação quanto à situação de hoje.

“A longo prazo, acho que a natureza da relação da China com África é insustentável, porque ela não pode copiar – e mal – o modelo predatório e de saqueamento das riquezas, porque as riquezas não são infinitas”, salientou.

Mamadou assinalou ainda a questão do ecossistema.

“A forma como a China lida com a questão africana é, em si, um problema para a sustentabilidade ambiental do planeta todo, porque o continente africano é um dos pulmões do mundo”, acrescentou.

Para o ativista, a solução passa pela sustentabilidade ambiental e na igualdade das relações entre os países.

“Tem de haver outra forma de relação entre China e África, e esta nunca poderá ser sempre à base da extração, tem de ser com base na sustentabilidade ambiental, mas também na equidade das transações bilaterais”, disse.

A China é um dos maiores parceiros comerciais de África tendo, desde 2015, uma média anual do investimento direto no continente fixada em 3.000 milhões dólares (2.500 milhões de euros), com destaque para novos setores como indústria, finanças, turismo e aviação.

Dados oficiais divulgados no mês de agosto, apontavam que a cooperação com Pequim deverá levar ao continente africano 30.000 quilómetros de autoestradas, uma capacidade anual portuária de 85 milhões de toneladas e uma capacidade de produção elétrica de 20.000 megawatts.

Quanto ao assunto principal da cimeira, o pan-africanismo, os três oradores salientaram a importância da luta pelo povo africano e descendente de africanos.

Ruth Gilmore acredita que o pan-africanismo está a crescer devido à pressão que os povos africanos têm sofrido.

“Julgo que o pan-africanismo está a crescer, porque as pessoas têm sido tão apertadas e isoladas que não há alternativa”, considerou.

Mbembe defendeu que um reagrupamento com base na história é a forma que os negros têm de alcançar maior segurança, uma vez que enfrentam “problemas existenciais” dada a falta de segurança.

“Não há lugares no planeta em que a vida dos negros esteja assegurada. Não conseguimos ir dormir hoje com a certeza de que amanhã vamos estar felizes e contentes”, afirmou o filósofo, que utilizou o argumento para salientar a importância de movimentos como o ‘Black Lives Matter’, criado para enfrentar a violência contra negros.

 

Fonte:https://www.dn.pt/lusa/interior/relacao-entre-china-e-africa-caracteriza-se-pela-extracao-e-predacao—filosofo-camarones-9982537.html

Ubuntu uma filosofia para os angolanos

Osvaldo Gonçalves

“Sou pela justiça distributiva”, assim se apresenta António Kassoma, no seu mural no Facebook, onde perfila como Nguvulu Makatuka, sócio e consultor sénior de uma empresa de consultoria. Já trabalhou como director nacional de Negociações das Concessões e como Docente de Direito Constitucional, Sociologia do Direito e Filosofia do Direito, numa universidade privada, e foi assistente para os Assuntos Parlamentares, Políticos e Constitucionais, na Casa Civil do Presidente da República, entre outros cargos e funções. Trabalhou ainda como repórter e subeditor aqui mesmo, no Jornal de Angola. Este jovem, natural do Ukuma, província do Huambo, vive em Luanda e termina todas as intervenções públicas e privadas com a saudação-despedida “Ubuntu”. É dessa filosofia-conceito que ele fala. Para o jurista e jornalista, “o Ubuntu está mais para sabedoria do que para conhecimento.”

Fotografia: Dimas Diogo

Como explica a filosofia Ubuntu ao leitor angolano? 
Como ponto prévio, direi que não vejo Ubuntu como filosofia. Pelo menos, não no sentido em que julgo significar “Filosofia”. Isto é, desde o prisma da cultura dominante, de radical ocidental-judaico-cristão. Nas comunidades africanas que conservam os modos ancestrais de vida, fica difícil falar em “amor ao conhecimento”. Assim, Ubuntu não poder ser visto como algo do plano intelectual ou racional. Dito de outra maneira,  Ubuntu está mais para sabedoria que para conhecimento. Sendo que Ubuntu é compaginável com uma ideia de sabedoria individualmente detida ou limitável ao indivíduo, mas uma sabedoria colectivamente apropriada e impregnada na identidade das partes e formam o todo comunitário e, como tal, impregnada na identidade e nos sentimentos da comunidade como um todo.
Com a ressalva dos parágrafos anteriores, digamos que Ubuntu seja a convicção e o sentimento individual e colectivo de que o outro é a medida da nossa própria humanidade. Quando se adopta o Ubuntu passa a ser conatural ao indivíduo a postura moral e ética de agir de modo a contribuir para o bem de outrem, uma vez que nós próprios somos irremediavelmente beneficiários das vantagens daí decorrentes. Os ovimbundu têm sobre isso um provérbio segundo o qual, “o que afecta o pé tem efeito sobre o tornozelo”. Noutra variação do mesmo dito, usa-se como referência à relação do tornozelo com o joelho. São partes distintas do corpo, mas o joelho torna-se inútil, caso o tornozelo esteja comprometido. O tornozelo é muito importante, mas deixaria de ser importante, se as outras partes do pé não estivessem em condições de cumprir a sua parte.
Voltando ao Ubuntu, originalmente, esta ferramenta comunitária (ou Filosofia colectivamente apropriada e instintivamente praticada, caso se prefira ver desde esse prisma) foi sendo associada apenas a comunidades da África do Sul (considerando que a expressão é derivada de uma língua deste país), mas a verdade é que esta ideia-força está presente na maioria das comunidades africanas que mantêm a forma ancestral de organização e suporte da vida em comunidade, com maiores ou menores variações.
Em muitas dessas comunidades, eventualmente, não existem expressões próprias como o universalmente adoptado “Ubuntu”, mas esse mesmo espírito está presente em vários aspectos essenciais do sentir e agir das comunidades de outras nações africanas, em particular as de radical bantu.
Em suporte a esta visão, pode ser tomado como exemplo paradigmático o facto de nas diferentes línguas africanas de Angola não existir uma expressão equivalente a “felicitação”. Assim o é porque as nossas gentes não sentem o feito positivo de outrem como sendo algo externo a si.

Pode detalhar um pouco mais este aspecto … ?
Por que razão existiria uma palavra para algo que as pessoas não sentem, muito menos (re)conhecem? O que os bantu de Angola recebem da sua raiz ancestral é que o sucesso de um membro da comunidade  tem reflexo positivo sobre todos e cada um dos seus membros. Por isso, as expressões usadas para essas ocasiões equivalem às usadas para agradecer. Ndapandula, Ngasakidila, N’tondele… etc.
Mas claro que não tenho a ilusão de acreditar que a expressão real e efectiva dessa ferramenta seja conforme referimos. Existem eventualmente pessoas no seio da comunidade que fogem a este paradigma. Tal como o corpo tem células que fogem à sua codificação e tendem a propiciar eventos cancerígenos. Na sociedade, esses seriam os “oviliangu”, “muloji” e afins.  Não necessariamente por associação a artes ocultas ao serviço do mal, mas pela simples tendência de sentimentos como a inveja e a cobiça, em vez da inspiração e crença no sucesso próprio com base no prévio sucesso do próximo.

ubuntyuO que o torna tão ligado ao Ubuntu?

Não sei se seria correcto estimar que eu seja muito próximo ao Ubuntu. Mas admito que faço um esforço consciente e permanente para atingir maior emulsão existencial com essa ferramenta, que acredito ser a codificação de base de todos os humanos enquanto seres, que (ainda) não sucumbiram ao império do “ter, fazer e parecer” como elementos centrais de uma existência que era suposto assentar fundamentalmente sobre o ser, sendo as outras componentes auxiliares ou acessórias em relação à ontológica.
Portanto, tudo o que faço é tentar ser humano. E acredito que Ubuntu constitui uma ferramenta simples, eficiente e com vocação universal, de que pessoas dos diferentes pontos do espectro da humanidade podem lançar mãos para se religarem à sua essência. E qualquer pessoa média pode atingir esta sincronização do ADN da alma e da raça humana, sem necessidade de recurso à complexidade das ciências, nem aos sacrifícios das religiões.

Que influência teve Nelson Mandela nessa sua ligação ao Ubuntu?
As várias intervenções e exortações de Mandela assentes na ideia-força de Ubuntu ajudaram a sistematizar o que já eram as minhas percepções e convicções sobre o assunto. E, na verdade, a maior parte das ideias de Madiba sobre este assunto ganharam maior divulgação, após a sua passagem para o plano dos ancestrais.
Como a maioria das pessoas que viveu num ambiente urbano e sob forte influência da concepção ocidental de civilização e cultura, o meu ponto de partida para as preocupações da alma foram as visões e ideias da filosofia com origem nas civilizações europeias. Mas, felizmente, tive uma aceitável exposição à cosmovisão ancestral bantu. O convívio com as pessoas mais velhas (com destaque para as minhas avós) deu-me a percepção, por exemplo, de que quase todas as máximas latinas e atribuídas aosfilósofos da antiguidade europeia pretendiam significar o mesmo que vários dos nossos adágios ancestrais. E provavelmente os nossos tinham algumas vantagens em termos de largura do espectro de codificação, descodificação e aplicabilidade na resolução de problemas concretos das nossas gentes. Por via dessa “descoberta”, passei a dedicar mais tempo a “ler a nossa própria realidade” e a reflectir sobre ela, em vez de me limitar a estudar o que os outros escreveram sobre os feitos que servem de sustentação ao seu modo de ser e estar no mundo.
Claro que sequer chego à categoria de aprendiz no que toca à sabedoria colectiva das nossas gentes, mas tenho a ousadia e coragem de falar e escrever sobre as migalhas de sabedoria ancestral que a vida permitiu que retivesse na alma.
O contacto tardio com os valores da ancestralidade parece ser um traço característico da maioria da população actual de África, tamanha foi a força das ideias e da religião trazidas da Europa, no quadro do evento da colonização e consequente aculturação das gentes do nosso continente.
Note-se que o próprio Nelson Mandela admite que levou um tempo considerável para perceber e divulgar massivamente esta perspectiva de sabedoria que recebeu dos ancestrais. Teve larga exposição a esta sabedoria durante a infância, mas o caminho para o “sucesso e realização” que estava a seguir provavelmente tinha mais a ver com a perspectiva ocidental, em detrimento da visão ancestral assente no Ubuntu.
Foi, em grande medida, “graças” à grande e prolongada exposição à solidão e à dor durante a reclusão que conseguiu atingir um nível de liberdade mental e sentimental bastante para viajar até ao seu âmago originário e dele resgatar, de modo claro e estrutural, o Ubuntu e todo o conjunto de valores ancestrais subjacentes a este poderoso instrumento de humanização das pessoas e das comunidades.

  “Liderar é uma honra e um privilégio que ninguém se concede a si mesmo”

As actuações dos políticos africanos não entram em contradição com o Ubuntu?
Em poucas palavras, direi que, na maioria dos casos, os nossos políticos ainda não fizeram as pazes com a história e com as heranças positivas da nossa ancestralidade. Uma das consequências disso é que, na sua acção, raros são os casos em que os políticos africanos lançam mão de ferramentas políticas pré-coloniais, como é o caso da inteligência colectiva e do Ubuntu. Fingimos que o exercício individual e excludente do poder faz parte da nossa essência, quando os ancestrais deixaram ensinamentos poderosos sobre as virtudes da colegialidade e da participação como base do compromisso. Kowuñi K’eyau. Ou seja, é por meio da democracia e da participação inclusiva que se consegue encontrar soluções aceites por todos e que permitam superar os obstáculos.

Que ganhos a retirar ?
Esta forma ancestral de agir e fazer acontecer a política tem a vantagem de não requerer grandes sacrifícios pessoais. Ao dispensar a existência de heróis e de messias, previne-se que a pessoa colocada numa posição de liderança perca a perspectiva de que liderar é uma honra e um privilégio que ninguém se concede a si mesmo, pelo que devemo-lo sempre aos outros. Liderar é honrar e servir aqueles que mantêm os seus pés em águas turvas e lama  para que, sobre os seus ombros, o líder divisar no horizonte os caminhos que alimentam a esperança e conduzem para a mudança. Em vez dessa perspectiva, os líderes africanos parecem insistir em tentar competir com o colonizador, num jogo cujas regras foram criadas por ele. Para que possamos ter uma política diferenciada e harmonizada com as nossas características, precisamos de olhar mais vezes para dentro e despertar. Precisamos de aprender a ouvir e sentir até o silêncio. Há muitas palavras que não são ditas, não porque as pessoas não tenham coisas úteis e sábias para dizer, mas por impossibilidade de comunicação, em consequência do facto das putativas elites apenas usarem as ferramentas e a linguagem do colono. Justamente as que o colono havia implementado no quadro da assimilação e esterilização das nações africanas e que nas suas próprias pátrias foram há muito extirpadas e repudiadas.

Que futuro se pode esperar para o Ubuntu nos dias de hoje, em África, em particular?
Não apenas em África. Em todo o mundo. No nosso continente, o Ubuntu é mais expressivo apenas porque ficamos durante mais tempo protegidos da complexidade alienante que a humanidade ganhou, ao ter-se espalhado pelo globo e ter deixado parte da sua essência para trás, em nome da sobrevivência. O crescimento e o desaparecimento dos impérios, as várias globalizações ocorridas até agora, a industrialização e a urbanização terão levado a que, algures no caminho, as pessoas tenham deixado de ser aferidas pelo seu ser, sobrepondo-se a aferição, desde a perspectiva do ter, do fazer e do parecer. Em suma, é hoje um desafio global da humanidade reencontrar-se com a matriz existencial codificada no Ubuntu.
Quem assume o Ubuntu como ferramenta do seu pensar, sentir e agir, certamente não precisa(rá) de religião para que veja no outro o seu próximo, com igual direito ao mundo, que é único e de todos. Em última instância, caso se atingisse um nível elevado de universalização e operacionalização do Ubuntu, a religião tornar-se-ia desnecessária, senão mesmo obsoleta. E sinto que isso talvez corresponda ao plano inicial do absoluto, se tivermos em conta que os mitos sobre o paraíso não fazem menção à existência de religiões. Se existe alguma religião verdadeiramente universal, esta talvez seja a assumpção do outro como parte e medida do nosso ser, enquanto humanos.

http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/o_ubuntu_esta_mais_para_sabedoria_do_que_para_conhecimento

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

 

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

O livro Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro já tem o primeiro lançamento marcado para o dia 11 de maio, no Al Janiah, São Paulo. O evento contará com debate sobre o livro com o professor Dennis de Oliveira e Deivison Mendes Faustino. Para encerrar o evento, intervenção musical a cargo de Conde Favela Sexteto.

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista.

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SOBRE O LIVRO | Há mais de cinco décadas de seu falecimento, Frantz Fanon, publicado em diversos países e analisado por destacados estudiosos do pensamento crítico contemporâneo, é, sem dúvidas, um dos intelectuais negros mais importantes do século XX, que atuou como psiquiatra, filósofo, cientista social e militante anti-colonial.

Sua obra influenciou movimentos políticos e teóricos em todo o mundo e suas reflexões seguem reverberando em nossos dias como referência obrigatória em diversos campos de estudo. Por isso, em Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro, Deivison Mendes Faustino apresenta a trajetória política e teórica de Fanon desde a sua infância na Martinica até a sua participação nos movimentos de libertação na África. Trata-se de uma rigorosa investigação, em que a obra do intelectual martinicano é revisitada com vistas à sua biografia, de forma a oferecer ao leitor brasileiro um panorama mais amplo a respeito do contexto e dos dilemas enfrentados por Fanon no momento de cada escrito seu.

O presente ensaio aqui apresentado é, nesse sentido, corolário de uma séria atividade intelectual e se constitui como uma fundamental contribuição para o debate sobre a presença do pensamento negro e sua resistência política e intelectual na sociedade contemporânea. Que seja este, portanto, um livro para ler e refletir.

SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.

É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e do grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0

 deivisno.jpg Introdução ao pensamento de Frantz Fanon – Deivison Nkosi (CyberQuilombo)

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CYBERQUILOMBO Queremos facilitar a aplicação da lei: 10.639/03 Com base na Lei nº 10.639, assinada e promulgada em 2003 que define que a temática afro-brasileira …


SOBRE A EDITORA | A Ciclo Contínuo Editorial é uma editora independente que se dedica à publicação de obras literárias e pesquisas na área das Humanidades, com enfoque especial na Cultura Afro-brasileira.

O catálogo da Editora reúne autores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Carolina Maria de Jesus, Abelardo Rodrigues, Lívia Natália, entre outros.

Somado as publicações, a Ciclo Contínuo Editorial também promove ações educativas por meio de seminários, encontro com autores e cursos livres de Literatura.

Saiba mais através do site: www.ciclocontinuoeditorial.com

LANÇAMENTO:

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista – São Paulo

Link evento FB: goo.gl/pwuB2t

www.ciclocontinuoeditorial.com

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Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro.

Autor | Deivison Mendes Faustino

Editora | Ciclo Contínuo Editorial

Páginas | 144

Ano | 2018

Preço | $40,00

ISBN | 978-85-68660-35-5

“Das Independências às Liberdades”, de Severino Ngoenha

severino 1Um breve resumo de “Das Independências às Liberdades”, de Severino  Ngoenha 

Por: Estêvão Azarias Chavisso

Introito:

Das Independências às Liberdades é uma obra do filósofo moçambicano Severino Elias Ngoenha. Num contexto em que urge a necessidade de uma reflexão sobre os conceitos Liberdade e Independência no panorama do pensamento africano, Severino Ngoenha discute a liberdade como a base da historicidade dos africanos, assinalando-a, também, como característica humana por excelência. O autor pretende, ao mesmo tempo, debater a questão do futuro nas sociedades africanas, num contexto em que os próprios africanos são chamados a ser mestres dos seus destinos,responsáveis pela construção de um futuro diferente. O autor enaltece o papel da filosofia num contextoincipiente como o das nações africanas, marcado ainda pela dependência ideológica e, sobretudo, económica.

Palavras-chave: Filosofia, Etnofilosofia, futuro, africano e utopia

O pensamento de Severino Elias Ngoenha enquadra-se, sem dúvida, no contexto em que o autor está inserido. Como a tradição filosófica hegeliana manda, Ngoenha é “filho do seu tempo” e, por tal, procurara discutir e, sobretudo, problematizar a sua realidade (Moçambicana, africana no geral), partindo de um contexto histórico marcado por um passado de colonização dos africanos.

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Ciente da sua missão enquanto filósofo, logo na introdução, Ngoenhapostula a ideia de que cada sociedade tem a missão de definir seus objetivos, ambicionando legar à humanidade asua contribuição histórica no universo da existência humana.

“ À nossa geração incumbe a árdua tarefa de participar na elaboração de um futuro diferente do presente, que nos é dado viver e observar. Desde a meio século que vivemos o escândalo da fome, da ignorância, da mortalidade infantil da má nutrição de um nível de vida que não para de degradar” (NGOENHA, 2014:05)

No contexto do desenvolvimento científico, várias teorias, de certa forma etnocêntricas, são desenvolvidas para legitimar a subjugação do negro, reafirmando sua posição inferior em relação ao branco.

Ao analisar o primeiro meio século das independências dos países africanos, que começam, na sua maioria, na década 60, Ngoenha confronta-se com o problema da condição pouco evoluída da atualidade

É que, segundo Ngoenha (2014), os países africanos optaram por variados modelos para o desenvolvimento social e económico, entretanto, pouco funcionou e, na sua maioria, os níveis de vida das sociedades que neles habitam ainda são muito baixos.

1.Reformulação dos Projetos Africanos; Otimismo no Futuro

Num outro desenvolvimento, Ngoenha interrogar-se sobra a causa dos“insucesso” dos projetos africanos, levantando a questão: serão estes 50 anos um tempo perdido?

Na esteira desta ideia, o autor propõem uma rápida e urgente reformulação da nossa direção (enquanto moçambicanos, africanos no geral). Estendendo seu pensamento para o futuro, o autor convida-nos a olhar para o amanhã, depositando nele um certo optimismo.

Para Ngoenha (2014), esta não é a primeira vez que o futuro torna-se o centro de debate. Mas, certamente, a primeira vez que ele é suscetível de ser encarado de maneira filosófica.

“De qualquer maneira, nossa missão é o futuro. E para que ele melhor se realize cada um é chamado a dar o melhor de si, no lugar onde se encontra” (NGOENHA, 2014: 06)

2.Eleição como a Escolha de um Futuro

Ngoenha entende que a reflexão sobre o futuro é demasiadamente complexa e nos chama a analisar possibilidade, tendo em conta a ideia da escola como um elemento para a introdução um código de ético e de cidadania, no processo da edificação da moçambicanidade.

É impossível pensarmos no futuro sem pensarmos nos projetos políticos que, a bom fim, regem a nossa existência enquanto sociedade, constata o autor.

Ngoenha entende que o momento da democracia é um momento de se confiar ao povo o poder, em termos teóricos, de decidirem pelo tipo de projeto político que querem, destacando também que a democracia é por excelência um problema do filosófico.

Para ao autor, quando em outubro de 1994 realizam-se as primeiras eleições em Moçambique levantava-se um aspeto importante, a questão da escolha adequada de um projeto político que norteasse o país.

“Assim, devemos julgar os partidos políticos em função dos projetos de sociedade que eles apresentam” (NGOENHA, 2014: 07)

Para o autor, não escolhemos os governantes pela beleza que têm, pela cor das bandeiras dos seus partidos, mas, em princípio, por de trás de cada partido há ideias e propostas de um tipo de sociedade na conjuntura que estamos a trilhar.

Ngoenha entendeque quando damos o nosso voto a um partido significa que nós nos identificamos ou pensamos que, entre os projetos políticos que se nos apresentam sob forma de partido, aquele que escolhemos é o mais adequado para levar a, bom fim, as vontades do povo.

Ao interrogar-se sobre o valor das eleições de 1994 e, consequentemente, também sobre o valor de todos outros processos eleitorais que viriam a ser acompanhados por grandes transformações constitucionais em Moçambique, Ngoenha conclui que a crença num futuro melhor constitui uma forma de encarar a dura realidade da existência.

Citando Ray Bradbury, Ngoenha (2014) indica que ser capaz de fantasiar o futuro significa, em outros termos, ser capaz de sobreviver. Segundo o autor, os nossos sonhos estimulam, antecipam e favorecem a afirmação e o progresso da sociedade e é preciso e necessário reinventar o futuro para salvaguardamos a ideia de o amanhã ser diferente do passado.

“O Futuro é o conjunto de projetos, de possíveis, de esperanças, de liberdade, porque temos de escolher entre os diferentes possíveis ou criar outros”( NGOENHA, 2014:10)

 

Para o autor, a única forma que existe para que se garanta uma evolução na nossa vida enquanto sociedade e para que sejamos autores do nossa história, donos do nosso destino, é continuarmos a debater a nossa história, evitando, portanto, que ela seja apenas uma continuidade de um passado indesejado.

  1. A Utopia, uma outra Forma de Pensar o Futuro

Ngoenha entende que a outra maneira de pensarmos o futuro é a utopia, que a considera-acapacidade de antecipar conteúdos concretos que se realizarão no futuro mais ou menos longínquo. É, de certa forma, uma fé racional, numa realidade não existente mas potencial, que representa um bem para quem a sustenta.

“A utopia é, sem dúvida, uma força fecunda da história, se for orientada e potenciada por uma verdadeira consciência humana. Isto pode justificar uma visão do homo utopicuscomo profeta do futuro, edo utopismo como uma corrente de pensamento que usa a esperança de maneira atenta e libertadora”.(NGOENHA,2014: 165)

Para Ngoenha, a cidade utópica,assim como observaram, Platão, T. More, por exemplo, só pode acolher a fantasia política de um único utopista, porque só ele antevê a verdadeira forma de Estado e só ele encontrou a solução.

Assim sendo, acidade utópica é, na perspectiva de Ngoenha, o sonho de um só homem e seus habitantes carecem de uma dimensão histórica. Neste ponto, se pode avançar, encontramos uma certa debilidade da utopia. A mesma torna a história uma história sem nomes.

Ngoenha observa que os líderes nacionalistas africanos que lutavam pelas independências foram homens que tiveram sonhos ilustres e, sobretudo, tiveram a coragem de lutar para transformar os próprios sonhos em realidade.

Entretanto, após alcançadas as independências e no delírio de alcançar os seus sonhos, transformaram muitas vezes os próprios povos em instrumentos de realização das suas utopias.

E como na cidade utópica não se admite um segundo sonho, todos aqueles que ousarem sonhar diferente, pôr em dúvida a utopia dos dirigentes, foram vítimas da “ortodoxia utópica” dos primeiros, as revoluções tornaram-se opressões e os libertadores em opressores.

Não obstante, Ngoenha destaca nossa responsabilidade como responsáveis da nossa história, fazedores do factos, pelo que responsáveis pelos contornos da nossa vida enquanto seres sociais.

“ A filosofia torna possível a vida do homem, porque lhe permite imaginar, projetar o futuro e enfrentá-lo. O pensamento, a filosofia, torna possível o amanhã. Mas, ao mesmo tempo, interroga-se sobre o tipo de amanhã”( NGOENHA, 2014: 11)

O autor observa que a filosofia africana, por excelência, teve sempre esta preocupação com o futuro, tanto que muitas, segundo ele, das literaturas filosóficas africanas têm como denominador comum essa questão.

Aliás, mesmo as perspetivas críticas sobre a etnofilosofia de Towa e de Hountondji parecem ver no futuro a solução para superação desse conceito que, de certa forma, é pejorativo.

Referências Bibliográfica:

NGOENHA, Severino. Das Independência às Liberdades, [S/E]. Maputo:Paulinas,2014

 

http://forumimpar.blogspot.com.br/2015/11/sinopsedas-independencias-as-liberdades.html

Filósofo de Moçambique: “Estado não deve ficar indiferente ao que se passa dentro das igrejas”

O Estado não pode ficar indiferente ao que se passa nas igrejas

Ao som de uma ópera tocada no seu computador de mesa, numa sala com prateleiras cheias de livros versando um pouco de todas as ciências e sob nuvens de tabaco fumado a cachimbo, o filósofo moçambicano Severino Ngoenha falou ao nosso jornal( “O País” de  Moçambique) da violência que vem marcando o país e deixou duas conclusões: “Não somos um povo pacífico” e o “Estado não deve ficar indiferente ao que se passa dentro das igrejas”

Severino_Ngoenha

A violência doméstica foi o primeiro ponto de uma entrevista que começa com um pedido do entrevistado: “Deixe que eu fale, depois fazes as perguntas que tiveres”, disse Ngoenha, depois de uma concertação sobre os pontos da entrevista.

“Assistimos a casos de violência doméstica nas nossas famílias. Pais que espancam os filhos, maridos nas mulheres, mulheres que queimam os maridos com óleo de cozinha, assistimos à violência nos nossos quarteirões quando temos uma violência maior, que é a fome”, disse o académico, em jeito de contextualização.

filósofo moçambicano Severino NgoenhaSegundo o filósofo, estas situações são o reflexo daquilo que os moçambicanos são, que, contrariamente ao que o discurso político revela, “não somos pacíficos”.

“Gostaríamos de ser o que temos dito que somos, mas nós não somos um povo pacífico. A prova disto é que, se fizermos uma cronologia muito rápida, vemos que não há ninguém nos países da África Austral que praticou violência como nós. Não há ninguém que tem tantos conflitos armados como nós”, disse Ngoenha.

“As pessoas da minha geração (tenho 55 anos feitos este mês) viveram mais tempo de guerra do que de paz. E esta guerra ainda não terminou e, até, tende a permanecer nas nossas vidas”, referiu, deixando um apelo para a mudança do paradigma.

“Nós temos que inverter o paradigma nessa dimensão de passivos, para engrenarmos numa vida pacífica, uma vida regida pela moral e pelo direito. Quer dizer, temos que militar todos, para integrarmos uma maneira de fazer regida por outros princípios, outros valores que não sejam a força nem violência”, advertiu.

severinoCaso Mocímboa da Praia

Os recentes ataques de grupos radicais no distrito da Mocímboa da Praia são, para Severino Ngoenha, resultado do crescimento da onda de intolerância, cujas repercussões são “muito mais difíceis” que a violência com causas político-partidários.

Segundo Ngoenha, na base da violência em Mocímboa da Praia, está a intolerância e, também, a indiferença que abrange agora o lado das religiões. “Muitas vezes, limitamo-nos a não nos ocuparmos do que os outros fazem. O que fazem nas igrejas, que podem ser as grandes igrejas e mesquitas, seja de Maputo ou do Norte. O que acontece lá nos é indiferente”, disse o académico, chamando atenção para uma vigilância nacional.

“O que vai acontecendo ali dentro pode ter impacto nefasto, negativo, como aquilo que nos está a acontecer agora… Temos que nos interessar com o que acontece ali dentro, porque só sabendo o que existe ali, nós podemos prevenir até derrapagens que podem ter consequências como as mortes que assistimos em Mocímboa da Praia”, sugeriu, chamando atenção para um maior papel do Estado na vigilância contra práticas que possam perigar a estabilidade do país.

“A laicidade não pode ser entendida como indiferença em relação ao que se passa dentro das confissões religiosas. Isto não é simplesmente com o islão no norte. Mesmo com as igrejas no sul, há práticas que muitas vezes parecem contradizer aquilo que tem que ser praticado num Estado de Direito, e temos interesse, como cidadãos, país e povo, em estar atentos ao que acontece dentro dos muros daquelas instituições que vivem no nosso país e que são obrigadas a respeitar os princípios que regem a actividade civil dos moçambicanos”, salientou.filósofo

Da intolerância religiosa à etnicidade

A par da intolerância religiosa, Severino Ngoenha deixa um receio ainda maior para o futuro do país. “Eu tenho um receio ainda maior, em que por detrás da intolerância religiosa começa a manifestar-se uma espécie de intolerância étnica ou regional”.

“Estamos a assistir, de uma maneira velada, mas extremamente perigosa, o surgimento de uma terceira intolerância. Tenho visto nas zonas centro e norte o aumento dessas etnicidades a nível nacional. Esta intolerância é capaz de ser mais perigosa do que aquilo que conhecemos das épocas precedentes”, alertou.

A fonte diz que o regionalismo sempre existiu no país, dando como exemplo a criação da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), que resultou da fusão de três movimentos nacionalistas. Foi combatido depois da independência nacional, mas “ressurgiu com o nascimento da Renamo” e “continuou a manifestar-se, na minha opinião, com a criação de amigos em Gaza, Maputo, Nampula, Quelimane, etc.”.

Segundo realçou, o grito das forças étnico-tribais voltou a estar patente na escolha de Filipe Nyusi como candidato presidencial da Frelimo. “Na eleição do Presidente Nyusi, recordam-se que era preciso que o candidato não fosse do sul. Por mais boas qualidades esse indivíduo tivesse, é importante para a questão do equilíbrio regional que fosse alguém do Centro ou do Norte. Isto era um reconhecimento de que existe um problema étnico ou regional em Moçambique”.

 

Politização ou mão externa

Severino Ngoenha suspeita de que haja interesses políticos por detrás das manifestações étnico-regionais que diz estarem a ressurgir no país. “Eu suspeito de que alguns indivíduos utilizam as pertenças étnicas para ganhar espaços de preponderância política”, disse a fonte, que avança também a possibilidade de uma mão externa interessada na instabilidade.

“Suspeito (também) de que alguma comunidade internacional ou algumas empresas internacionais não estão completamente livres ou independentes deste fenómeno. Algumas pessoas têm interesse em que este fenómeno se alargue, isto é extremamente perigoso para um dos fundamentos da vida de Moçambique, que é a nossa Unidade Nacional”.

O filósofo vê nos recursos naturais que colocam Moçambique na rota dos interesses mundiais como um dos aspectos que podem propiciar uma acção externa para a desestabilização do país.

“A descoberta dos recursos, a divisão dos recursos, mais presentes no Norte do que no Sul, vai levar a que este fenómeno cresça em dimensão. E é preciso lutar contra ele. É preciso antecipá-lo, encontrar mecanismos de travá-lo, descobrindo novas maneiras, reacendendo primeiro o espírito da moçambicanidade e unidade”, exortou, salientando que “já é até tarde, mas ainda temos espaço de manobra para fazê-lo”.

 

Descentralização

Segundo Severino Ngoenha, a descentralização efectiva do poder é um dos caminhos para travar os perigos da etnicidade e regionalismo no âmbito daquilo que são os interesses de um Moçambique uno e indivisível.

Para Ngoenha, o país precisa de se reinventar, de forma a que se torne indivisível. “Temos que reinventar. Nem que fosse para colocar a Assembleia da República no Norte, por exemplo. Temos que garantir que o país todo está uno e indivisível. Se não fizermos isso, vamos nos encontrar em situações muito complicadas e muito difíceis, num futuro próximo”, alertou.

“Moçambique é como uma equipa de futebol que tem 11 jogadores, cada um com as suas qualidades; um é defesa, outro meio campista ou avançado. Quando cada um joga no seu lugar e tem espaço para jogar no seu lugar e dá o melhor de si, a equipa ganha, mas quando um só jogador decide deixar a rede e as bolas passar, o que resulta é a derrota da equipa. Então, é preciso entendermos que Moçambique, como uma equipa de futebol, composta por indivíduos, grupos, culturas, raças completamente diferentes, mas ao mesmo tempo complementares, se formos capazes de jogar nisso, talvez não ganhemos, mas de certeza absoluta vamos perder menos”.

Papel do Estado nas igrejas

Questionado sobre qual deve ser, afinal, o papel do Estado dentro das paredes da igrejas, Severino Ngoenha disse que mais do que intervir directamente, o papel do Estado é estar atento. “Eu não chegaria a propor que o estado interviesse ou tivesse uma mão no interior dessas instituições religiosas, mas diria que é importante estarmos atentos ao que acontece, para que essas confissões religiosas – sejam cristãs ou muçulmanas, hindus, judias – presentes no nosso território, de facto, pautem pelo cumprimento tácito daquilo que é previsto pelos princípios legais e que regem a laicidade”.

Segundo Ngoenha, “deixá-los fazer, deixar que tenham práticas religiosas é bom, mas o problema é que há pessoas, há grupos que possam utilizar os espaços religiosos para vaticinar coisas que são contrárias aos princípios que regem o nosso viver colectivo”.

Mais adiante, o entrevistado disse que “o Estado não tem que criar igrejas moçambicanas, mas tem que fazer com que elas sejam respeitadas, porque assim fazendo, significa respeitar as comunidades, as crenças diferentes e, sobretudo, que elas estejam subordinadas a um princípio geral de convivência civil a que estão subordinados todos os 25 ou 26 milhões de moçambicanos”.

Recorde-se que os grupos radicais que protagonizaram terror em Mocímboa da praia tinham base em mesquitas conhecidas na vila, que, contrariando aquilo que são os princípios religiosos, tinham ideias radicais e projectos de insubordinação às instituições do Estado e legislação nacional.

 

Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos

Na senda das sugestões sobre mais vigilância do Estado, questionámos o entrevistado sobre o papel que está a ser desempenhado pelo Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, ao que disse. “A questão não é se ela está ou não a fazer o suficiente, é, sim, o que está a fazer. O que acontece é que estamos defronte de um problema que já está a dar que falar aqui em Maputo ou no Sul. Há algumas igrejas que tiram a subsistência de certas famílias. Agora, temos esse problema até no Norte. Então, quer dizer que há um problema na maneira de praticar os diferentes cultos que pode, até, estar em contradição com as leis que regem a convivência civil dos moçambicanos e com o princípio da laicidade”.

“Então, atirando-nos a este problema e a este perigo, ocorre que de facto se tomem as medidas necessárias em termos de educação dos princípios do que é verdadeiramente a laicidade, em termos de um debate religioso ligado mais à tolerância e ao conhecimento ou reconhecimento do outro, e ligado a um estado que tem que zelar para que as religiões tenham a liberdade de praticar os seus próprios cultos, mas no quadro legal, que é o quadro moçambicano, nos princípios da laicidade que regem a convivência recíproca dos moçambicanos”, concluiu.

http://opais.sapo.mz/o-estado-nao-pode-ficar-indiferente-ao-que-se-passa-nas-igrejas

Achille Mbembe: A era do humanismo esta terminando

achile mbembe“Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo”, escreve Achille Mbembe. E faz um alerta: “A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização”.

Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África(África do Sul, Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et l’ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun. 1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai sur l’imagination politique dans l’Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive indirect(2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l’Afrique décolonisée (2010), Critique de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke University Press neste ano de 2017.

O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail & Guardian, da África do Sul, sob o título “The age of humanism is ending” e traduzido para o espanhol e publicado por Contemporeafilosofia.blogspot.com, 31-12-2016. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.

Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu aberto do mundo.

Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.

Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas de niilismo.

As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia e outras paixões mortais.

A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa certa.

Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em democracias estabelecidas.

Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou.

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.

Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado. O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação. Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.

A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção, um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.

A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.

A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.

Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso, a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.

O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos, muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição. Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça, tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre eles, aos fracos em que não querem se transformar.

Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela globalização e pelas suas identidades arruinadas.

A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.

Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria possibilidade da política.

Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do século XXI.