Presidente de Moçambique quer que as universidade forme pessoas para servir

 

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A Universidade Nachingwea realizou, hoje, pela primeira vez, a cerimónia de graduação, desde a sua fundação em 2013. São, ao todo, 48 técnicos-profissionais formados em Ciências Político-Jurídicas, Ciências Político-Econômicas, Economia Agrária, além de Economia e Desenvolvimento e Gestão de Empresas.

A cerimônia foi dirigida pelo Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi. Na sua intervenção, o Chefe de Estado lembrou que as universidades não devem ensinar apenas as pessoas a conhecer a ciência, mas devem educá-las para a vida.

Aos estudantes, Nyusi recomendou que não se aliassem aos que apenas reivindicam e limitam-se a analisar o trabalho dos outros e disse que os recém-graduados foram formados para servir.una

A cerimônia teve momentos de premiação da melhor estudante, do estudante mais velho e da mais nova formada pela Nachingwea. Os recém-graduados dizem que esta é apenas a celebração pelo fim de uma etapa, mas que há agora o desafio de se enquadrarem no mercado.

O reitor da Universidade Nachingwea, Luís Covane, falou dos desafios que a sua instituição dirige, e destaca a necessidade de construção de um campus universitário definitivo, dado o facto de a instituição estar num local provisório.UNIVERDIDADE-NACHINGWEA-1024x680

A UNIVERSIDADE Nachingwea (UNA) foi a primeira instituição do Ensino Superior aberta no país pertencente a uma formação política: a Frelimo.

A Universidade Nachingwea está  localizada no posto administrativo da Machava, na província de Maputo, vem funcionando desde os princípios deste ano, com 140 estudantes, sendo 69 do sexo feminino e 71 do sexo masculino, distribuídos pelas faculdades de Ciências Políticas e Administração, Economia e Informática; Ciências Jurídicas e Ciências Agrárias.

Refira-se que a Universidade Nachingwea herda um patrimônio político concebido, desenvolvido e aprimorado ao longo da luta de libertação nacional.

Em Nachingwea, na Tanzânia, os combatentes da luta de libertação nacional lutavam com vigor e determinação contra o tribalismo, o regionalismo, o racismo e os complexos de inferioridade e de superioridade, bem como as tentativas de formulação de uma distinção estanque entre quadros militares e quadros políticos, pois qualquer membro da organização – a Frelimo – podia assumir uma ou outra missão.

No centro também se batia pela emancipação da mulher, integrando-a nos treinos também como instrutoras.

Em Nachingwea foram formados os primeiros quadros da Polícia que incluíam jovens recrutados no interior do país depois do 25 de Abril de 1974. Ali treinaram-se alguns guerrilheiros da ZANU que depois continuaram na Frente de Tete, antes de iniciarem as operações militares dentro do Zimbabwe.

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Moçambique: Renamo contra visita de Estado do Presidente ao Botswana

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Maputo – O grupo parlamentar da Renamo, principal partido da oposição em Moçambique, está contra a visita do Presidente, Filipe Nyusi, ao Botswana, prevista para 24 e 25 de Abril, noticiou a AIM.

MOÇAMBIQUE: CIDADE DE MAPUTO EM MOÇAMBIQUE

FOTO: PEDRO PARENTE

Um documento assinado pela líder da bancada, Ivone Soares, e divulgado esta terça-feira pela Agência de Informação de Moçambique (AIM), justifica a posição com o facto de o país estar mergulhado numa grave “crise financeira” com repercussões negativas na vida dos cidadãos.

A contestação da Renamo surge depois de o partido ter sido convocado para uma reunião da comissão permanente destinada a discutir o assunto, uma vez que as visitas presidenciais têm que ser aprovadas pelo Parlamento.

No documento, a deputada questiona os custos da visita e o propósito da mesma, dados que diz não terem sido transmitidos.

Ivone Soares refere que a prioridade do Governo deve ser os assuntos internos em vez de frequentes visitas ao estrangeiro com agenda e resultados desconhecidos.

A Frelimo, partido no poder, goza de uma maioria confortável, que deverá viabilizar a viagem, acrescenta a AIM.

Moçambique e o Botswana são membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).

O Presidente do Botswana, Ian Khama, fez uma visita de Estado a Moçambique em Maio de 2016, durante a qual os dois países assinaram um acordo sobre geologia e mineração que dará acesso à moçambique a experiência do Botswana nessas áreas.

O Botswana também está interessado em exportar carvão ao longo de uma nova ferrovia para a costa moçambicana.

Fonte:http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2017/3/15/Mocambique-Renamo-contra-visita-Estado-Presidente-Botswana,3fd83d87-117f-4e30-babc-e8aed94d7d42.html

“Um dos problemas da literatura moçambicana é estar trancada num beco sem saída”

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Adelino Timóteo é um dos escritores nacionais que mais publica na actualidade. Tal evento concorre para que o autor de Nós, os do Macurungo seja alvo de alguns “ataques” por parte dos seus homólogos. Mas Timóteo não se deixa levar com as “querelas” à volta da sua velocidade de escrita. Pelo contrário, nesta entrevista, o artista realça o seu compromisso com a escrita – escrevendo como se quisesse resgatar o tempo furtivo da infância –, fala dos valores que lhe caracterizam como homem, dos traços que lhe são peculiares como criador, refere-se a alguns problemas da literatura moçambicana e deixa recados aos escritores e aos políticos.

A sua obra perpetua um fascínio por civilizações antigas. Por exemplo, a Grécia e, mais recentemente, o Egito lá estão. Como reage a esta constatação?  

Antes de tudo, devo confessar-te a minha paixão literária. Tenho um vínculo muito forte com a língua e com a leitura, desde os meus nove, dez anos. E por vezes surpreendo-me nestas constatações, trabalhadas ao nível do inconsciente. Lembro-me agora de um livro que li para aí aos dez anos, Escorpiões do Deserto, de Hugo Pratt, que me permitiram o fascínio ao Egito daspirâmides, dos mitos. Na quinta classe, o Egipto foi também um dos temas de fascínio. A escrita nasce dessa herança entre o transcendental e a contemplação. Li o livro Carta a Greco, de Nikos Kazantzakis, nos meus dezassete anos. Fiquei fascinado com a quantidade de imagens. Mais tarde, aos trinta e quatro, surpreendi-me a escrever Viagem à Grécia. Portanto, o meu grande trabalho talvez esteja na leitura, depois tudo frui como marcas de entrosamento com outras coordenadas. Trabalho de rescrita e desconstrução, que termina na criação do meu universo.

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E esse processo da configuração civilizacional e espacial faz-se através de uma viagem que entrecruza tempo e espaço, como se pretendesse sugerir que o melhor da Humanidade está no passado… Quis com O corpo de Cleópatra estabelecer uma relação da rainha egípcia com o continente?

Não pretendo sugerir que o melhor da Humanidade esteja no passado. Devo dizer-te que tudo opera debaixo da matriz em que me sinto um cidadão do mundo, porque a minha formação cultural e literária são nutridas dessa dimensão de ser, do sentir. Escrevo como se quisesse resgatar o tempo furtivo, da infância, da adolescência, conectar-me com vozes e ressonâncias universais. Repara, hoje se fala do feminismo e vão buscar exemplos a Madame Bovary. Mas temos aqui perto a Cleópatra, as donas dos prazos. É um pouco um piscar de olhos a um espaço geográfico e mito que nos pertence por herança, mas de que somos passivos.

 

Publicou, há alguns anos, uma obra dedicada ao público infanto-juvenil, Na aldeia dos crocodilos, a qual mergulha no Zambeze com realismo fantástico. Porquê escolher esta linha do (im)provável e terror nesta conversa com as crianças?

As minhas primeiras leituras infantis foram Os cinco e os sete, de Enid Blyton. Se chama isso terror não sei como encararia os livros de Blyton, onde não faltam fantasmas e mistério. Com Na aldeia dos crocodilos pretendi oferecer histórias que ouvia em miúdo, sobre aquele universo que tanto me fascinou, de um submundo, contraponto de Alice no País das Maravilhas. Repara que os alunos da Escola Portuguesa de Maputo encenaram Na aldeia dos Crocodilos. Um grupo de canto e dança da Beira tem estado a encenar o mesmo livro.

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É muito ligado à sua terra – Nós, os do Macurungo é um exemplo claro disso. É daqueles autores que tem ou teria dificuldade em escrever fora do país?

Devo esclarecer-te que escrevi Nós, os do Macurungo, para aí aos 40 anos. É um livro de pausa. De exercício memorialístico. Muito preocupado com a verdade e a contemplação do tempo. Talvez nunca mais fique curado dessa ligação intrínseca a Macurungo. E ainda bem. Saí de lá aos 26, mas precisei de muitos anos de distância para escrever sobre o mesmo. E o resultado foi óptimo. É muito procurado. Está praticamente esgotado. Tenho já esboçado a segunda parte deNós, os do Macurungo. É uma questão de metodologia. Mais tarde, encontrei a mesma perspectiva sistemática, quando li O peixe na água, de Vargas Llosa, ou mesmo A tia Júlia e o Escrevidor, desse mesmo autor. Se quiser, Viver para contá-la, de Garcia Marquez. Ou Não chora, criança, de Ngugi wa Thiong’o. Se teria dificuldade de escrever fora do país? Diria que não. Fiz uma experiência pioneira com Não chora, Carmen, em 2009, quando cheguei à Espanha. Tenho pretensão de escrever algo sobre a comunidade africana de Lisboa, uma das cidades intrinsecamente ligadas a minha vida, pois penso que um dos problemas da nossa literatura é estar trancada num beco sem saída. Elementos e símbolos externos enriquecem qualquer literatura.

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Falando na terra, há oito anos publicou Nação pária, obra que inventa o desaparecimento de uma nação, questiona a existência de cidadãos e não se esquece do medo. Escreveu este livro tentando vaticinar o que hoje caracteriza a sociedade moçambicana?

Não tentei vaticinar nada. O livro fez-me o favor de ser intemporal. Eu tenho o hábito de ir fechando etapas, ir fechando épocas que vivi ou sobre as quais descorri, ouvi falar. A guerra foi uma delas. Quando era adolescente ouvi como os capitães de exército se enriqueciam à custa da guerra. Daí, em Nação Pária, há uma personagem que diz algo assim: “Nós inventamos a guerra para enriquecermos”. E sempre que isso se passar em Moçambique o livro ganhará actualidade. Vimos como foi urdido o processo das aquisições de armas e com quem ficou o dinheiro. Vimos como se inventaram as duas últimas guerras. Eu acho que a guerra é uma invenção com certas premissas, ou totalitárias ou de enriquecimento ou de domínio de uma tribo sobre a outra.

 

O que julga que os moçambicanos, sobretudo aqueles que não gostam e nem investem na política, devem fazer para recuperar a utopia de que se constrói o projecto de nação?

Para recuperar a utopia devemos ser mais tolerantes. O país deveria criar um fórum nacional sobre a paz, para discutir mensalmente cada questão que periga a paz, ser uma instituição que promova debates itenerantes. Que esse fórum funcionasse como uma instituição que juntasse actores políticos e da sociedade civil independente, onde se pudesse desperir da balalaica e do casaco partidário e se discutisse activamente a cidadania.

Acredita no seu país?

Acredito em Moçambique, razão porque falo de um fórum da paz a diversos níveis, onde os partidos beligerantes, cada chefe local, todos os segmentos da sociedade, fossem chamado a representar e dialogar. Uma vez por mês subia ao púlpito, na voz de políticos representante das suas hostes, e falavam das linhas de fraquezas e forças da paz, buscar caminhos conjuntos. Sermos mais abertos, porque sempre somos atropelados quando as coisas não têm conserto, quando o fogo nos tem dentro da sua cintura. Se fosse assim por um período de 10, 15, 20 anos, seríamos um país com as instituições consolidadas e fortes. Moçambique tem tudo para ser uma potência de África e do mundo. Tem riqueza que chega para todos. Falta é de inteligências.

 

Numa apresentação do seu livro vinquei que “apocalipse” é um tipo de literatura próprio das épocas de perseguição e de crise, tentando convencer aos deprimidos que a vitória final será dos bons. Agrada-lhe que Apocalipse dos predadores possa ter esta interpretação?

Não tinha reparado nisso. Ainda bem que a tua sensibilidade captou essa mensagem de esperança.

 

Uma personagem desse livro diz: “O segredo desta burguesia é que criou uma utopia e, enquanto nós nos distraímos da utopia socializante, eles esbanjam do erário público, para acumular propriedades, as suas fartas mansões, os seus faustosos carros de luxo”. Identifica-se com esta reflexão?

Eu identifico-me com essa reflexão, pois quando miúdo bebemos muito a ideologia do partido Frelimo. A música era o internacionalismo, o campesinato, o proletariado e a solidariedades com os mauberes, namíbios e saharuis. Havia aquela imagem dissuasora do Xiconhoca nos jornais de parede e na revista Tempo. De repente, nos tempos que correm, alguém proferiu um discurso cheiroso prometendo que vai haver mais roubo. E uma vez a lição que nos transmitiram iluminava para a austeridade, fica-se num vácuo. E lembro-me que nos meus dezanove anos, quando o Estado ressentiu-se da falta de escolas, criaram-se escolas comunitárias. Eu e o Carlos Pinto fomos dar aulas, debaixo de cajueiros, em casa da anciã Laura Arouca. Não ganhávamos nada, mas estávamos contentes. Custa muito convencer o povo sobre o voluntariado, porque lá em cima o ensinamento que se incute é apego ao dinheiro.

 

Para quê questiona a heroicidade dos libertadores da pátria à luz dos comportamentos revelados ao longo das últimas quatro décadas, em Apocalipse dos predadores?

Esta pergunta parece ter resposta nas anteriores. O oportunismo da esquerda produziu novos ricos, que ao mesmo tempo querem ser visto como puros. Cada um quer ser legítimo para deslegitimar o outro.

 

Desafio-lhe a comentar o seguinte excerto de Amílcar Cabral, retirado do livro de Oleg Ignatiev: “Camaradas, isto é que é África! A nossa tradição é essa! Quem é chefe é cantado, e quem vem atrás para cantar de vez em quando recebe uns tostões e fica calado”.

Na cultura em que me eduquei não se fica calado, nem há espaço a bolas de sabão. Manda-se às urtigas. Isso! Às urtigas!

 

É um autor que está a escrever e a publicar constantemente, o que não é comum no país. E isso, eu sei, já lhe criou algumas “incompreensões”. As críticas dirigidas à sua velocidade de publicação condicionam-lhe? Que conclusões tira dessa estupefação dos seus homólogos?

Já me apercebi que alguns começaram a padecer de urticária desde que me tornei regular. No meio em que eu nasci e cresci este ambiente de hostilidade, quase mobbing, quase bullying, não existe. Na Beira cada novo livro meu é celebrado. De Maputo, vem as zangas. Jorge Luís Borges diz que “quando te detractam é sinal de que estás no bom caminho”. Ainda bem que tenho educação. Estou num dos momentos mais plenos de vida e de criador. Continuarei com o meu ritmo. Alguns querem vir no meu “mercedes”, mas no meu volante ninguém pega! O Rui Knopfli, meu mestre, dizia: “Não deixa que o óxido dos políticos entre na lâmina dos teus versos”. Vê, cada um pode oxidar-se como quer. Quando em 1996 o Filimone Meigos, fazendo digressão pelo país, para estabelecer equilíbrio na difusão da literatura, escalou a Beira, à busca de escritores com originais, eu fui o único que tinha pronto Os segredos da arte de amar. E foi acontecendo que nesse espírito, de que escritor é quem escreve, fui amontoando a gaveta de outros livros. Como não sou assíduo de barracas, tenho opção. Lá vou escrevendo.

 

Paulina Chiziane e Mia Couto foram alvos de muitos ataques ao longo da carreira literária. Sente-se na condição de ser alvo de alguém ou de alguma coisa?

Eu entrei para a escrita muito ingénuo. Tinha aquela concepção de que escrever é antes de tudo ler os contemporâneos. Eu li os meus contemporâneos todos e fui publicando recessões escritas no Savana e na Lua Nova, da AEMO. Quando Os segredos da arte de amar ficou pronto, para lançamento, ninguém me quis apresentar o livro. Lembrei-me muito daquela rapsódia do Nikos Kazantzakis, A Escola Comunal, que para mim, deve ter inspirado As mãos dos pretos. Fala com um e este dizia para ter com o outro, aquele, aqueloutro, etc, jogo de empurra. E depois um crítico escreveu um texto no Savana sobre “um escritor da Beira, de cujo nome esqueço-me sempre”. Eu era durante muitos anos “aquele escritor da Beira, de quem se esqueciam sempre do nome”. E a graça está aqui. Uma forma de manter a velha premissa de esquecimento é obullying, assassínio de carácter. Ou seja, criarem-se artifícios de tipo donos da bola: “Não escreva poesia”, “não, escreva poesia e nunca prosa, porque isso não é para ti”. Eu estudei o fenómeno. Isto passa-se também na Espanha. O problema é o mercado. O mundo literário é feito de vaidade. Os egos feridos.

 

Sente-se um escritor incompreendido?

A escrita deu-me prestígio, muito mais do que eu imaginei alguma vez e não posso exigir mais.Eu sinto que sou um autor não só compreendido, como acarinhado. Sinto-me privilegiado como autor de Moçambique, pelo crescente número de estudos sobre a minha obra não só no país, como em universidades de Portugal, Espanha e Brasil. Quando vou pelas ruas há algo muito marcante, o afecto das pessoas. Não quero mais do que o muito carinho que recebo, sinal óbvio de que a minha mensagem as têm alcançado. Alguns noviços me tratam por mestre. Não me suscita vaidade, pois passo a relacionar-me como amigo deles. Pedem-me todas as semanas que leia seus manuscritos. Pedem-me que os prefacie. E o problema é que, infelizmente, não consigo responder a todos como desejava, porque a demanda é maior e escasseia-me o tempo.

 

De onde vem esse poderio todo e urgência de querer dar voz às palavras?

Simplesmente tenho certo comprometimento com a escrita e uma “disciplina jornalítica”. Não é por acaso que no passado a maioria de escritores faziam carreira depois de passarem pelo jornalismo ou paralelamente. Escrever não é um fim em si. Há todo aquele trabalho de ourives. Burila-se, até sete ou oito versões do mesmo livro, em dois ou três anos. O tempo que medeia um e outro livro é no mínimo esse. É difícil ser faquir, daí haver mais propensão para frequentar barracas e apedrejar aqueles que investem oito horas por dia, curvados a acariciar os teclados.

 

Se pudesse reinventar Moçambique através da ficção, como seria?

Uma mãe que tem vinte e cinco milhões de filhos. Não uma gata borradeira. Mas uma mãe generosa, com um regaço onde cabem todos. Uma mãe-galinha, talvez, que não desampara os seus filhos, que os acoita, no seu útero. Um pouco infantil essa ideia, porque temos uma mãe-galinha que não consegue exercer a providência social e é apedrejada, velipendiada, depois se lhe queimam os pés, lhe saqueiam os ovos. A mãe-galinha pobre coitada que não tem um único ovo para si mesma, inconsolada a chorar, porque não tem nada com que abastercer os pintainhos, pois os corvos, essas aves de rapina, abocanharam-lhe todos os ovos.

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Ventos do apocalipse, de Paulina Chiziane, e Maputo blues, de Nelson Saúte.

 

 

Perfil

Adelino Timóteo nasceu a 3 de Fevereiro de 1970, na Beira. É formado em Docência de Língua Portuguesa e em Direito. Além de escritor, é poeta, artista plástico e jornalista. Possui vários livros publicados, como: Os segredos da arte de amar, Mulungu, A virgem da babilónia, A fronteira do sublime, Viagem à Grécia através da Ilha de Moçambique, Livro mulher, Dos frutos do amor e desamor até à partida. É vencedor do Prémio Literário BCI (2011), do Prémio Nacional Revelação de Poesia AEMO (2001) e do Prémio Anual do SNJ para a Melhor Crónica Jornalística.

 

Moçambique : A paz é, sem dúvidas, condição “sine qua non”, para o desenvolvimento

9e91cddb-74ad-4fee-8d6a-c010073ab528_cx0_cy6_cw0_w987_r1_s_r1O partido Frelimo assegurou, semana finda, que as teses ao seu 11.º congresso, agendado para Setembro deste ano, irão reflectir sobre as preocupações do povo e corporizar o próximo Programa Quinquenal do Governo, em caso de vitória eleitoral.

Falando em conferência de imprensa alusiva ao Dia dos Heróis Moçambicanos, o porta-voz da Frelimo, António Niquice, afirmou que as estruturas do partido, a todos os níveis, estão a auscultar as populações de todo o país, visando formular propostas de teses ao próximo congresso da organização, agendado para 26 de Setembro a 01 de Outubro.

“No congresso, vamos aprofundar as teses que irão reflectir as preocupações do povo moçambicano, de modo a que integrem o programa da Frelimo para o próximo quinquénio”, declarou o porta-voz do partido no poder, aludindo ao programa do Governo que sair das eleições gerais de 2019.

O desenvolvimento social e económico, combate à pobreza e preservação da paz e da unidade nacional serão os temas centrais das teses do partido a levar ao 11.º congresso, acrescentou António Niquice.

“A paz é, sem dúvidas, condição ‘‘sine qua non’’ para que o país se concentre nas tarefas de desenvolvimento, nomeadamente a produção agrícola, circulação de pessoas e bens e educação das nossas crianças”, realçou António Niquice.

http://opais.sapo.mz/index.php/politica/63-politica/43454-frelimo-afina-teses-para-11o-congresso.html

Dilemas políticos e econômicos povoam o ano de 2017 em Moçambique

No horizonte que se desenha em 2017, despontam obstáculos à estabilidade social em Moçambique. Principalmente de natureza política e econômica, tais obstáculos trazem consigo um cenário de insegurança quanto à conjuntura moçambicana, minando a confiança dos agentes econômicos e, com isso, a taxa de investimento e crescimento da economia.

Os “níveis de desenvolvimento” almejados pelo Estado e pelos formuladores de políticas públicas, que incluem no planejamento uma mudança gradativa de uma economia primária para uma economia industrial, permanecerão imutáveis enquanto dois pontos específicos não forem resolvidos em 2017. O primeiro deles é o problema da crise política que se instaurou no país entre os dois maiores Partidos políticos. O segundo é o problema da dívida pública e da fuga de capitais dela decorrente.

Crise Política. A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido governista, e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) têm uma história de relações tensas. Entre 1976 e 1992, os braços armados de ambos os grupos travaram uma sangrenta guerra civil, quando mais de um milhão de moçambicanos foram mortos. Desde o fim do conflito, as tensões entre ambos os grupos passaram a ser meramente políticas. No entanto, a partir de 2015, a memória dos conflitos voltou a protagonizar na mente dos moçambicanos.

Reivindicando uma maior participação de partidos da oposição nos principais organismos públicos do país, bem como o direito da RENAMO de governar seis províncias após as eleições de 2014, Afonso Dhlakama, líder do Partido, instalou uma base militar de treinamento de veteranos da guerra civil em Gorongosa, ainda em 2012. Foi a partir deste episódio que a temperatura voltou a crescer entre os dois principais Partidos do país, e os embates alternaram-se com ações físicas, violência e mortes. A morte de Manuel Bissopo, antigo Secretário Geral da RENAMO, em janeiro de 2016, marcou o ponto alto do confronto.

A evolução dos conflitos, os quais se concentram principalmente na parcela norte e central do país, vêm incentivando a migração de moçambicanos às nações adjacentes. O Malauí, por exemplo, tem sido o principal destino de pessoas afetadas pelos choques entre os braços armados dos partidos. Ao todo, somente no ano de 2016, 15 mil moçambicanos migraram para o Malauí e para o Zimbábue em busca de melhores condições de vida.

Com vistas a atenuar a situação, organismos internacionais, como a União Europeia, vêm atuando em conjunto com os partidos para a resolução do problema. No início deste mês, a RENAMO anunciouuma trégua de dois meses, a fim de melhor discutir com o presidente Filipe Nyusi uma solução política para o conflito. O anúncio traz consigo a esperança da população e de analistas quanto ao fim do embate e o retorno da estabilidade política no país. Entretanto, diálogos anteriores entre as duas partes não foram exitosos em pôr fim às mortes – cujo número total ainda não foi publicado oficialmente –, o que incita cautela quanto à significância desta trégua.

A dívida pública. Ainda que os dados oficiais para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) moçambicano para o ano de 2016 sejam desconhecidos, pode-se esperar um valor significativamente menor, se comparado aos anos anteriores. Isto porque o indicador trimestral referente ao período de junho a agosto de 2016, o qual apresentou uma expansão de 3,7% do PIB, foi o menor para o período nos últimos dez anos.

Expressivas dívidas contraídas pelo Estado moçambicano foram desveladas em abril do ano passado (2016), totalizando uma dívida de, aproximadamente, 1,4 bilhão de dólares. O episódio, ocultado deliberadamente pelo Governo, conforme argumentam os organismos financeiros internacionais, minou a confiança entre investidores externos quanto à capacidade de o Estado arcar com o pagamento de suas dívidas. Um dos principais resultados desta crise de confiança foi a expressiva depreciação do valor dos títulos públicos moçambicanos, os quais, a fim de manterem a sua atratividade, tiveram de ter a taxa de retorno incrementada: no dia 10 de janeiro deste ano (2017), os juros dos títulos da dívida moçambicana com vencimento em 2023 bateram o recorde histórico, atingindo uma taxa de retorno anual de 26%.

A gradativa expansão da taxa de juros dos títulos moçambicanos apresenta-se como uma antecipação dos próprios investidores a um possível rebaixamento do grading moçambicano por parte das principais agências classificadoras de risco. No início deste mês (janeiro de 2017), a Moody’s anunciou que Moçambique está entre os países africanos que mais sofrerão com problemas de liquidez neste ano, o que indica que a qualquer momento a organização pode reduzir a sua nota quanto à capacidade de solvência do Governo moçambicano.

Essa conjuntura econômica incitou uma abrupta fuga de capitais do país ao longo do ano passado, causando uma profunda desvalorização do metical (moeda local). Se compararmos o câmbio metical/dólar de 31 de dezembro de 2016 com o valor de 1° de janeiro de 2016 veremos uma desvalorização total de, aproximadamente, 55%, uma das maiores entre as nações do globo Sul. Como resultado direto da desvalorização do metical, a inflação acelerou consideravelmente no país, dado que importantes produtos importados, como máquinas e equipamentos, tiveram o seu valor encarecido.

Em última instância, os principais dilemas econômicos enfrentados por Moçambique atualmente – inflação e fuga de divisas – são resultados diretos da composição da dívida pública. Esta, por sua vez, vem crescendo desde 2012 e demanda, por sua vez, um plano de reestruturação, a fim de enquadrar os gastos do Governo à dinâmica de recebimentos. Porém, boa parte do orçamento do Estado –aproximadamente 25% – ainda depende de doações internacionais, o que traz duas consequências negativas: a primeira diz respeito à dependência do Governo moçambicano ao fluxo de doações, os quais podem ser afetados por crises políticas ou econômicas nos países ricos; a segunda, refere-se a que a total emancipação institucional de deliberações feitas em instâncias internacionais segue comprometida, dado que os gastos com políticas públicas devem ser reportados às agências financiadoras externas.

Esferas conectadas. Neste sentido, a crise política alimenta a crise econômica moçambicana, à medida que os conflitos reduzem a confiança dos agentes econômicos quanto a segurança de investir em suas atividades. Da mesma maneira, a crise econômica alimenta a crise política, uma vez que a inflação incentiva a migração de moçambicanos aos países vizinhos, tencionando ainda mais as regiões já abaladas pelos conflitos armados.

Para 2017, podemos esperar um ano em que as discussões sobre a reestruturação da dívida moçambicana e os planos para a solução da crise política dominarão as principais manchetes e a vida social no país. Isto porque, somente a partir de avanços nestes dois pontos Moçambique terá condições de voltar a auferir expressivos indicadores de crescimento econômico e redução da pobreza.

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Imagem 1Localização de Moçambique” (FonteWikipedia):

https://en.wikipedia.org/wiki/Mozambique#/media/File:Location_Mozambique_AU_Africa.svg

Imagem 2Bandeira atual da Frente de Libertação de Moçambique” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Frente_de_Libertação_de_Moçambique#/media/File:Mz_frelimo.png

Imagem 3Bandeira da Resistência Nacional Moçambicana” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Resistência_Nacional_Moçambicana#/media/File:Mz_renamo3.PNG

Imagem 4 “50 Meticais Frente” (Fonte):

http://www.wikiwand.com/bs/Metikal

Imagem 5 “Maputo, capital e maior cidade do país” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Moçambique#/media/File:Maputo_from_the_CFM_building_-_Maputo_do_predio_do_CFM_-_2.jpg

Mário Soares: o amigo de Moçambique


Afonso Dhlakama e Daviz Simango

Afonso Dhlakama e Daviz Simango

“Homem que fazia a ligação com o povo de Moçambique” e “um herói africano”.

Os presidentes dos dois maiores partidos da oposição em Moçambique lamentaram neste domingo, 8, a morte do antigo estadista português Mário Soares que classificaram como a perda um grande amigo do país.

“Mário Soares era amigo de Moçambique, da Frelimo, da Renamo e do povo em geral. Um homem que fazia a ligação com o povo moçambicano. Perdemos um dos grandes amigos da Europa”, disse o presidente da Renamo numa mensagem enviada por telemóvel ao jornal moçambicano O País.

“Mário Soares era amigo do povo de Moçambique cuja história de ligação com Moçambique todos nós a conhecemos. Mário Soares esteve envolvido nas negociações de Lusaka que culminaram com os Acordos de Lusaka, em 1974”, lembrou.

Afonso Dhlakama realçou que “embora em termos ideológicos fosse socialista, era muito meu amigo, muito pessoal, ele e a esposa”, Maria Barroso, da qual lembrou as acções humanitárias de distribuição de alimentos em Moçambique nos períodos de grandes crises.

Soares, continuou Dhlakama, era uma pessoa simples que o recebia, sem “questões protocolares”, sempre que ele ia a Lisboa.

Herói africano

Por sua vez, o presidente do Movimento Democrático Moçambicano (MDM), terceiro partido com assento parlamentar, classificou Mários Soares de um herói Africa, “que viu o sangue africano, viveu o sofrimento moçambicano e foi a peça chave para a libertação desses povos”.

Em declarações à imprensa na Beira, Daviz Simango lembrou o tempo em que Soares viveu como deportado em São Tomé e Príncipe, onde viu o sofrimento também de vários moçambicanos enviados para o arquipélago pela ditadura de Salazar.

Simango considerou que “Moçambique e África devem-lhe muito, era um herói africano residente da Europa”.

O presidente do MDM recordou que a o então candidato da oposição em Portugal Humberto Delegado, do qual Mário Soares foi secretário pessoal, “teve uma vitória esmagadora na Beira” na eleição de 1959.

Refira-se que ontem o Presidente de Moçambique considerou que a morte de Soares “é um vazio difícil de preencher, tendo em conta a sua forte ligação ao processo de construção da amizade entre Moçambique e Portugal”

Para Filipe Nyusi não há como falar de Portugal e Moçambique “sem se referir à sua imponente figura na construção desta amizade, e deste entendimento que hoje perdura, irmanando os dois países”, e, por isso, “não há palavras suficientes que possam preencher o vazio deixado por Mário Soares, tanto para o povo português, assim como para o povo moçambicano.

O antigo Presidente e primeiro-ministro português Mário Soares faleceu no sábado, 7, aos 92 anos em Lisboa.

 

Fonte:http://www.voaportugues.com/a/mario-soares-dhlakama-simango-amigo-mocambique/3667880.html

Dhlakama anuncia trégua de uma semana em Moçambique

O cessar-fogo durará até 4 de janeiro, com efeitos a partir de quarta-feira, revelou o líder da RENAMO. Dhlakama diz ter chegado a um entendimento, por telefone, com o Presidente moçambicano. Nyusi mostra-se esperançoso.

defaultEncontro entre Afonso Dhlakama e Filipe Nyusi em Maputo, em fevereiro de 2015

“Anuncio a cessação das hostilidades militares a partir das 00:00 de quarta-feira. Em todo o território moçambicano, não haverá ataques entre as forças armadas da RENAMO e as Forças Armadas de Moçambique”, afirmou Afonso Dhlakama em declarações por telefone aos jornalistas, reunidos na sede nacional do maior partido de oposição em Maputo.

A decisão decorre de uma conversa mantida por telefone, na segunda-feira (26.12), com o chefe de Estado, Filipe Nyusi, “porque os moçambicanos querem passar as festas em paz”, justificou o líder da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), o principal partido de oposição.

O anúncio surgiu depois de Nyusi ter dito que tinha conversado por telefone com Dhlakama. “E a chamada era simplesmente para desejar-se festas felizes, um ao outro e saber como as coisas estão, mas como sempre, esse tipo de contacto tem de se explorar ao máximo”, declarou Nyusi, citado pela Rádio Moçambique.

Segundo o Presidente da República, a conversa foi aproveitada para uma abordagem sobre a paz e reiterar que as hostilidades têm de parar. “Ninguém deve morrer por causa de desencontros de ideias ou de posições, de diferenças entre as pessoas. O presidente da RENAMO prometeu-me que vai fazer uma conferência de imprensa resumindo o resultado da nossa conversa”, acrescentou o chefe de Estado moçambicano.

Estradas livres

Até quarta-feira, prometeu Afonso Dhlakama, as forças da RENAMO ficarão agrupadas, esperando que, do lado do Governo, suceda o mesmo. “Já foram dadas as ordens às nossas unidades das forças em todas as províncias”, declarou.

O líder da RENAMO assegurou que, durante a trégua, os moçambicanos poderão circular livremente nas estradas do centro de Moçambique mais afetadas pela crise militar, dando os exemplos dos troços sujeitos a escoltas militares obrigatórias, na Nacional 1, entre Save e Muxúnguè e entre Nhamapadza e Caia, e também entre Tete e Vanduzi e ligação ao Malaui e ainda vários distritos na província da Zambézia.

defaultColuna militar em Muxúnguè

“Podem andar à vontade”, disse Dhlakama, reiterando que “as forças da RENAMO irão cumprir com as ordens” e que “ninguém irá atacar nas estradas ou as instituições da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO)”.

Afonso Dhlakama destacou que mantém o controlo sobre as suas forças e que qualquer ataque que surja durante a trégua não poderá ser atribuído à RENAMO.

Justificando esta decisão, quando há menos de uma semana disse em entrevista ao diário “O País” que não podia assegurar a ausência de ataques durante as festas de Natal, o líder da Renamo referiu que pretende terminar com o sofrimento da população e facilitar a retoma das negociações de paz. “Se tudo correr bem, sem incidentes, por que não prolongar mais este prazo?”, observou o líder da oposição, admitindo a possibilidade de um cessar-fogo definitivo.

Negociações interrompidas

As negociações de paz pararam em meados de dezembro, sem que se tenha chegado a um acordo sobre o pacote de descentralização – uma das exigências da RENAMO para pôr fim à crise política e militar.

Os mediadores internacionais abandonaram Maputo, anunciando que só regressarão se forem convocados pelas partes.

Além do pacote de descentralização e da cessação dos confrontos, a agenda do processo negocial integra a despartidarização das Forças de Defesa e Segurança, incluindo na polícia e nos serviços de informação do Estado, e o desarmamento do braço armado da oposição e sua reintegração na vida civil.

 

Economista diz que gestão da dívida de Moçambique depende da Frelimo

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O roteiro para levar a dívida pública de Moçambique a níveis sustentáveis está condicionado pela margem de manobra que a Frelimo, no poder, der ao Governo, disse à Lusa o economista António Francisco.
 
António Francisco diz que as dívidas ocultas “representam uma pesada ‘overdose’, capaz de colocar a economia em coma”
 
 
 
O roteiro para levar a dívida pública de Moçambique a níveis sustentáveis será longo e está condicionado pela margem de manobra que a Frelimo, partido no poder, vai dar ao Governo, disse à Lusa o economista moçambicano António Francisco.
 
“O processo de tornar a dívida pública novamente sustentável poderá ser mais ou menos longo, melhor ou pior gerido, dependendo da forma como o partido Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] irá permitir que o seu Governo realize e implemente a terapia que é preciso realizar”, afirmou António Francisco, pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE) de Moçambique.
 
Para o académico, não é preciso ser bruxo ou feiticeiro para adivinhar e saber que o processo de sobre-endividamento em Moçambique tornou-se cíclico, com um histórico relativamente curto, comparativamente à maioria das economias desenvolvidas ou emergentes.
 
“Mas, ainda que curto, já é suficiente para permitir perceber a natureza cíclica do endividamento público insustentável”, enfatizou António Francisco.
 
Apesar de reconhecer ironicamente que as chamadas dívidas ocultas, no valor de 1,4 mil milhões de dólares, reveladas em abril, são a “principal vedeta” dos encargos do Estado moçambicano, António Francisco considerou que constituem apenas uma parte de um todo mais amplo, quer em termos de dívida pública, em geral, quer de opção estratégica de crescimento económico.
 
“O que as dívidas ocultas fizeram foi antecipar a insustentabilidade da dívida pública moçambicana. Porque elas representam uma pesada ‘overdose’, capaz de colocar a economia em coma”, alertou.
 
Segundo António Francisco, o processo conducente à insustentabilidade da dívida já estava em curso e era percetível.
 
“E claro, como acontece geralmente, nestes casos, o Governo nega até não poder mais. O mesmo fez o FMI, ao fazer vista grossa ao progressivo endividamento, dando a impressão que estava tudo sob controlo”, assinalou.
 
Apesar de reconhecer que o regresso da dívida de Moçambique para níveis sustentáveis será longo, António Francisco defende que, a curto-prazo ou até meados de 2017, o roteiro para esse objetivo estará definido.
 
“Infelizmente, tal roteiro tem sido traçado de forma assertiva pelo FMI e de forma muito defensiva, para não dizer contrariada, pelo Governo. Este está com muita pressa para ver se renegoceia a dívida, mas tal pressa só denuncia uma grande ansiedade em resolver mal o problema”, referiu Francisco.
 
Após a revelação dos empréstimos secretamente avalizados pelo executivo moçambicano, entre 2013 e 2014, a dívida pública de Moçambique disparou para 11,6 mil milhões de dólares e dados oficiais apontam que o volume da dívida pública ver terminar o ano em curso nos 130% do Produto Interno Bruto (PIB).
 
O Ministério da Economia e Finanças já avisou que o país não tem dinheiro para pagar as próximas prestações das três empresas que beneficiaram secretamente dos avales do Governo e quer reestruturar os encargos com os credores.
 
O Governo pediu entretanto um novo programa de apoio ao FMI, que, à semelhança do grupo de doadores do orçamento do Estado, cortou o financiamento a Moçambique por causa do escândalo dos empréstimos ocultos.
 
O FMI e o Governo reataram negociações, enquanto decorre uma auditoria internacional independente às empresas beneficiadas pelos empréstimos, mas as regras do Fundo impedem ajuda financeira a países com uma trajetória insustentável de dívida, como é o caso de Moçambique.
 
Ao mesmo tempo, o executivo está a aplicar pesadas medidas de austeridade para conter a grave crise económica que se sente no país e os efeitos do conflito entre Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), cujas negociações de paz não tiveram resultados em 2016.