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Entrevista com Irene Neto, filha do primeiro presidente de Angola

Bernardino Manje

Irene Alexandra da Silva Neto é filha de António Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola. Em entrevista ao Jornal de Angola, diz que quase nada se fala sobre o pai. A este diário, ela fala sobre alguns momentos marcantes da vida do pai, que, se estivesse vivo, completaria hoje 96 anos, e sobre o que a família passou depois da sua morte. Irene Neto acredita que se Agostinho Neto não morresse prematuramente, o país teria sido pacificado em 1979 ou 1980 porque ele já estava a negociar com os americanos e sul-africanos e tinha iniciado contactos para dialogar com Jonas Savimbi. Irene considera a morte do pai um assunto obscuro que apenas será desvendado no futuro. A filha de Neto defende a clarificação dos factos sobre a data da fundação do MPLA e diz ser hora de reconhecer os feitos de todos os que contribuíram para a emancipação de Angola.

Fotografia: Kindala Manuel | Edições novembro

Dra quais são, para si, os momentos marcantes da vida de Agostinho Neto no ambiente familiar e na política?
Na sua vida familiar, terão sido, em minha opinião, a conclusão do seu curso liceal que foi bastante demorado por razões familiares, o trabalho como funcionário da administração pública colonial nos serviços de saúde e o choque com a realidade social em Malanje e no Bié, onde foi confrontado com problemas raciais; a morte do pai em 1944; a licenciatura em Medicina em Lisboa intervalada de prisões; o seu casamento com Maria Eugénia da Silva em Lisboa e o nascimento dos seus filhos, suponho eu. Na política, sem sombras de dúvidas, terá sido a conquista e a proclamação da Independência de Angola depois de ter liderado a luta de libertação nacional. Mas muitos outros episódios o terão marcado no longo percurso desde as prisões  ao degredo nas ilhas solitárias e isoladas de Cabo Verde, aos amigos que fez para toda a vida durante os anos universitários, a experiência de vida estudantil e de luta académica e política na Casa dos Estudantes do Império, no MUD Juvenil em Portugal, na criação do Clube dos Marítimos, do Movimento Anti-Colonial, das tertúlias no Centro de Estudos Africanos e a criação das diversas formações políticas por onde passou e se foram criando como balões de ensaio para chegar ao objectivo final de ser livre: CONCP, MINA, MPLA. As batalhas diplomáticas e lenta progressão da guerrilha durante a luta de libertação nacional. O regresso a Angola. Sem dúvida, o regresso apoteótico a Luanda, tão cantado em “Havemos de voltar”. A vitória sobre o exército sul-africano em 27 de Março de 1976, celebrado com um novo Carnaval.  As vitórias das campanhas de alfabetização. O julgamento dos mercenários. A trágica tentativa de golpe de Estado de 27 de Maio de 1977. O esforço titânico para acabar com a guerra em Angola.

O que acha que ainda não foi dito sobre Agostinho Neto?
Quase tudo. As pessoas não conhecem a sua biografia nem a sua história. Nunca foi escrita a biografia de Agostinho Neto. Mas teremos novidades dentro em breve. A sua obra poética tem sido estudada mas ainda falta o estudo da sua vastíssima obra política. A visão política de Agostinho Neto é muito pouco conhecida. O esforço da Fundação já está a produzir frutos. Mas ainda estamos no começo de uma longa jornada intelectual e de divulgação das suas ideias. O amor que Agostinho Neto tinha pelo seu povo e pela sua terra e a sua rectidão ética e qualidade moral continuam ímpares e únicas em Angola.

Como é que a família recebeu a decisão do MPLA de aprovar um estatuto que confere a Agostinho Neto e a José Eduardo dos Santos o título de “presidente emérito” do MPLA?
A família considerou inoportuna, desnecessária e desapropriada a atribuição dos títulos propostos porque o momento da sucessão na liderança no seio do MPLA não se deveria centrar no Presidente António Agostinho Neto e sim nos Presidentes cessante e eleito do MPLA. O Presidente Agostinho Neto já tinha sido homenageado como Presidente Honorário do MPLA em 1961, condecorado com a Ordem do Herói Nacional em 2 de Dezembro de 1977, com a Ordem do Herói Nacional do Trabalho em 2 de Outubro de 1978, a Medalha 1º de Agosto em 30 de Julho de 1990, a Medalha de Combatente da Luta Clandestina em 13 de Agosto de 1990, a Medalha de Guerrilheiro do MPLA de 1ª classe, na mesma data, e a Medalha dos 50 Anos do MPLA aos 10 de Dezembro de 2006. Consideramos que Agostinho Neto, militante de reconhecida distinção e mérito,foi Presidente do MPLA durante a luta de libertação nacional, conquistou a Independência, fundou a Nação angolana e governou a 1ª República. Logo, a sua homenagem devia ser singular e distinta dos demais Presidentes do MPLA. Felizmente, este ponto de vista foi adoptado pelo MPLA e anunciado pelo Presidente João Lourenço no discurso de encerramento do VI Congresso Extraordinário do MPLA, realizado no passado dia 8 de Setembro e ocorrerá numa data de relevância como será o Centenário de Agostinho Neto em 2022.

A Dra. Irene Neto, na qualidade de filha de Agostinho Neto, está plenamente satisfeita com a homenagem que o Estado fez até hoje à figura do primeiro Presidente de Angola?
Houve em certo momento da nossa vida recente, uma tentativa de amnésia selectiva quer de Agostinho Neto quer da luta de libertação nacional. Considero injusto e pecaminoso esse processo de roubar os alicerces da nossa identidade nacional revolucionária e deixar vulneráveis as gerações pós-Independência, sem conhecimento, sem referências positivas, sem orgulho nacional, sem auto-estima, desmemoriados,desnorteados e deserdados da sua ascendência combativa e atreitos a futilidades e vícios destrutivos.

Como a família Neto viveu o processo de luto, sobretudo, nos primeiros dias do desaparecimento físico de Agostinho Neto?
Dificilmente. Foi uma morte abrupta, não anunciada, apesar do meu pai já estar doente. O facto de nos terem mantido a todos, população e filhos, à margem da sua doença e de ter partido para Moscovo sem se despedir de nós, foi devastador. Mais ainda quando tomaram a decisão unilateral de ser operado e não nos mandaram chamar. Apenas a minha mãe e a tia Ruth estavam em Moscovo, por parte da família. As outras pessoas eram do MPLA. Sermos filhos não nos dava o privilégio de sermos informados. Como se a saúde do meu pai fosse apenas um assunto de Estado. Considerei uma cobardia essa atitude. Até para nos darem a notícia da sua morte, esperaram pelo anúncio público através da Rádio Nacional de Angola. Sinceramente!  E depois foram 13  exéquias  fúnebres de 1979 a 1992, sujeitando-nos ao trauma de reviver o luto, todos os anos, publicamente e em directo para as câmaras da TPA.

Quem já a ouviu falar sobre Agostinho Neto ou lido textos com base em declarações suas fica com a nítida impressão de que a família se sentiu, em alguns períodos, abandonada pelo Estado. Esta leitura é correcta? 
É. Não é impressão mas a pura verdade.

Foi pacífico o processo de transferência da família de Agostinho Neto da residência onde vivia, no Futungo de Belas, para a vivenda localizada no Miramar?
A transferência foi pacífica. O processo que levou à mudança, não o foi. Muitas dificuldades começaram a surgir com a nossa presença no Futungo, a quererem confinar-nos aos estritos limites do nosso jardim e a limitar a entrada dos nossos convidados. Já ninguém ousava visitar-nos pois tinham de enfrentar batalhões hostis da segurança, o que não era nada agradável e intimidava as pessoas. Começámos a ficar isolados. As entradas e saídas para a escola e faculdade tornaram-se um martírio e focos de atrito por vezes bastante fortes. Nós já tínhamos percebido que o nosso pai já não era o Presidente da República. Não por ter sido destituído. Morreu em funções. Mas é assim, novos chefes transformam toda a cadeia e os subalternos julgam que serão mais leais ao novel poder se maltratarem os anteriores dignitários. A grandeza das pessoas vê-se pela forma como tratam os outros, em quaisquer circunstâncias. Somos dignos de respeito e consideração estando ou não no poder. A não ser que tenhamos cometido crimes de lesa-pátria que não devem permanecer impunes.

É ou não verdade que a residência do Futungo de Belas foi oferecida por um português a Agostinho Neto? Caso seja verdade, quero que me diga se a propriedade foi restituída à sua família.
A casa do Futungo foi adquirida pelo MPLA para o Presidente António Agostinho Neto antes de 11 de Novembro de 1975. A propriedade continua connosco, assim como o antigo escritório do Presidente Neto, mas os imóveis necessitam de restauro urgente. A proximidade do mar traz desafios de conviver e combater o efeito corrosivo do salitre. Somos os curadores da história recente do país e temos noção da necessidade de preservação desse património tangível que se transformará em um marco museológico importante no futuro pois foi aí que o primeiro Presidente da República Popular de Angola exerceu as funções governativas. Qualquer dia esses imóveis serão necessariamente reconhecidos e classificados como património histórico da cidade e do país.

Que país teríamos se Agostinho Neto tivesse governado mais tempo?
Não teria ficado no poder durante 38 anos pois era sua vontade deixar a Presidência da República e ficar apenas no MPLA. As opções políticas e ideológicas teriam beneficiado as populações ao invés de privilegiar certas castas políticas ou económicas. Angola teria sido pacificada em 1979 ou 1980 e teríamos poupado o povo de tantas mortes e destruições. Agostinho Neto estava a negociar com os americanos e sul-africanos. E tinha iniciado contactos para falar com Jonas Savimbi. Já tinha falado com Mobutu Sese Seko que até visitou Luanda.

A Dra. Irene Neto já publicamente apresentou contestação da sua família à forma como alguns investigadores da História de Angola analisam o papel de Agostinho Neto na vaga de repressão ao movimento de 27 de Maio de 1977, tendo inclusive intentado uma acção judicial contra a já falecida historiadora Dalila Cabrita. O “27 de Maio” tem  tirado  sossego à família Neto?
O 27 de Maio é um dossier que diz respeito ao povo angolano, às super-potências da Guerra Fria e à forma como se traiu a revolução, 18 meses depois da Independência. É um cenário muito comum de intervenção externa em demasiados países do mundo. A nossa família sempre defendeu a ideia de se realizar uma comissão da verdade e reconciliação, para apurar a verdade, conhecer os factos e sarar as feridas, proposta hoje extemporânea. Não aceitamos de forma alguma o revisionismo actual e a narrativa de vitimização dos agressores que despoletaram uma resposta descontrolada que marcou um antes e um depois no processo de confiança na revolução angolana. Ainda não se sanearam as chagas abertas mas já é tempo para seguirmos em frente sem reminiscências doentias e ressabiadas no passado.

No VI Congresso Extraordinário do MPLA, João Lourenço identificou-se como o quinto presidente do partido, tendo aberto uma discussão à volta da verdadeira história do MPLA. Na sua opinião, foi feita uma correcção histórica ou concorda com os que dizem que o seu pai é o primeiro presidente do MPLA?
A história tem de facto de ser contada com rigor e esse processo deverá iniciar algum dia. Há maturidade suficiente para saber entender as estratégias políticas e tácticas de uns e outros na luta pela libertação nacional. O Manifesto escrito por Viriato da Cruz em 1956 é um marco histórico. A adopção da data de 10 de Dezembro de 1956 como data da criação do MPLA é uma convenção. O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) é criado dentro e fora do país, em simultâneo em 1960. Deriva do Movimento da Independência Nacional de Angola (MINA) cujo líder era Agostinho Neto. É nessa altura que Manuel Pacavira é enviado por Agostinho Neto, de Luanda para Brazzaville, para contactar com camaradas como Lúcio Lara e outros e se decidem pela transformação do MINA em MPLA.Ilídio Machado era do PLUA. Em 1959, é preso pela PIDE, antes de conseguir reunir todas as organizações cívicas e políticas num só movimento. Não se pode dizer com rigor que foi o primeiro presidente do MPLA. Podemos afirmar que o primeiro presidente do MPLA foi Mário Pinto de Andra. De pois Agostinho Neto é preso em 8 de Junho de 1960. Assim, com rigor, o Presidente João Lourenço seria efectivamente o 4º presidente do MPLA. Mas se considerarmos a narrativa da criação do MPLA em 1956 e tivermos Ilídio Machado como presidente dessa formação política, teríamos cinco presidentes até à presente data. Confuso?  Há que clarificar os factos sobre a data de fundação do MPLA. Seja como for, tornar conhecida a nossa história é um dever da nossa sociedade. E é hora de reconhecer os feitos de todos os que contribuíram para a emancipação de Angola.

Acredito que a maioria dos angolanos tem, há muito tempo, uma curiosidade: Agostinho Neto trouxe ao mundo três filhos, mas apenas um, no caso a senhora, tem uma vida com visibilidade pública. O que fazem os outros filhos?
Os meus irmãos vivem a sua vida.

Vai ao Memorial com alguma frequência?
Bastante frequência. Realizamos muitas actividades no Memorial e colaboramos sempre com o seu Conselho de Administração. Somos os guardiões de Agostinho Neto a quem estamos unidos por ser a nossa matriz, o nosso norte e a nossa bússola.

Alguma vez foi cogitada na família a possibilidade de os restos mortais de Agostinho Neto serem sepultados?        
Esta hipótese foi sugerida há anos atrás quando o Palácio Presidencial entrou em obras de restauro e o corpo do Presidente António Agostinho Neto foi colocado no Mausoléu inacabado desde 1992 e por mais 13 anos, sujeito a intempéries e a condições indignas.  As obras do Memorial retomaram em 2005 e o mesmo só foi concluído em 2011, 29 anos após o lançamento da primeira pedra, depois de ter havido vários descaminhos e desfalques das verbas orçamentais, e por persistência da família ante os atrasos e as tentativas de não o concluírem e removerem o corpo para um outro local.

Conservar um corpo embalsamado requer manutenções periódicas. Sendo um assunto de interesse público, quero que me diga o estado de conservação do corpo de Agostinho Neto.
É de interesse público saber que desde 1992 quando se transladou o sarcófago de Agostinho Neto, numa procissão a pé desde o Palácio do Povo, na Colina de São José, até à Praia do Bispo, abandonou-se o processo de embalsamamento do seu corpo. Há quem ainda acredite hoje que o seu corpo esteja embalsamado?

Embora nunca tenha havido um pronunciamento oficial do Estado angolano, a causa da morte de Agostinho Neto divide opiniões, com alguns a admitirem que tenha sido morto pela então União Soviética. Esta suspeição tem, para a família de Neto, alguma sustentação ou fundamento?
Este é um assunto obscuro que apenas será desvendado no futuro. No entanto, reservo-me o direito de questionar procedimentos e o desfecho da intervenção cirúrgica enquanto profissional de saúde.

A família de Agostinho Neto já admitiu a possibilidade de realização de exames forenses para que não se tenha mais dúvidas?
Obviamente que sim mas não há exames forenses possíveis quando ao corpo foram retiradas as vísceras antes de voltar a  Angola num caixão, alegadamente para efeitos de embalsamamento e mumificação, e essas mesmas vísceras não nos foram entregues. A decisão de embalsamar e profanar o corpo do meu pai não foi tomada pela família em momento algum. Foi uma decisão do Comité Central do MPLA. Recordo-me perfeitamente da falta de respeito ante a morte do chefe, quando alguns médicos tiveram a incumbência de tratar do meu pai. Sendo médica, sei o quão insensíveis a nossa profissão pode tornar-nos, de tanto lidar com a morte e cadáveres. Mas o que ocorreu, para algumas dessas pessoas, não foi uma deformação profissional, foi mesmo uma deformação humana e política. Pessoas pequenas…

Quando Irene Neto decidiu entrar para a política activa, traçou etapas? Ou seja, ambiciona assumir o cargo que um dia o seu pai ocupou?
O nosso trajecto político é apenas a vontade de contribuir para o bem de Angola. É um compromisso geracional de honra para cumprir as metas traçadas para o desenvolvimento do nosso país e do nosso povo. Tenho tido a felicidade de viver uma vida multifacetada, em diversas áreas para servir as pessoas. Na medicina, no ensino, na diplomacia, na militância política e na cultura. Sou uma cidadã com direitos e obrigações. Não aceito ser menorizada nem discriminada. Julgo que tivemos mais velhos que não nos quiseram deixar viver plenamente, que foram egoístas e maléficos, que nos fizeram perder a nossa juventude, vigor e força, com histórias da carochinha de que era muito cedo, de que tínhamos muito tempo ainda. Ora, o tempo é algo que apenas se esgota, não fica em pausa à espera de ninguém. Podíamos ter feito muito mais e melhor. Agora, haverá ou não a oportunidade de vencer esses degraus, caso as circunstâncias se propiciem, decorrendo da necessidade ou vontade de ajudar o MPLA, se este quiser mudar de rumo e construir o país adiado e quase à deriva. É uma tarefa hercúlea que necessita de união e da congregação da vontade de todos os compatriotas e também de uma liderança adequada.

Que futuro tem o MPLA com João Lourenço à frente dos destinos do partido?
Não sou vidente, não sei qual será o futuro. Mas há várias opções e há esta oportunidade para mudar o estado das coisas e voltar a devolver ao MPLA a iniciativa e a liderança. O MPLA terá de voltar a ser a vanguarda do povo.

PERFIL

Irene Alexandra
da Silva Neto

Data e local de nascimento: 23 de Julho de 1961, em Lisboa
Estado civil: Casada com o economista, empresário e escritor angolano Carlos de São Vicente, mãe de três filhos e avó de uma neta

Formação académica
– 1965-1970: Escola primária no Congo Brazzaville e Tanganyika
– 1975-1977: Liceu Mutu ya Kevela
– 1977-1978: Pré-universitário
– 1979-1985: Faculdade de Medicina
– 1993-1997: Mestrado em Oftalmologia pelo Instituto Dr. Gama Pinto, em Lisboa

Cargos relevantes
– 2005-2008: Vice-ministra para a Cooperação no Ministério das Relações Exteriores (foi a primeira mulher a exercer esse cargo no pós-guerra)
– 2008-2010 e 2012-2017: Deputada à Assembleia Nacional, onde chegou a presidente da 7ª Comissão
– 2010 – Membro da Comissão Constitucional

fonte: http://jornaldeangola.sapo.ao/entrevista/morte_de__agostinho_neto__atrasou_a_pacificacao__de_angola

A palestra de Barack Obama no centenário de Nelson Mandela

 

O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, realiza a 16ª palestra anual de Nelson Mandela, marcando o centenário do nascimento do líder anti-apartheid, em Joanesburgo, África do Sul, em 17 de julho de 2018. (Siphiwe Sibeko / Reuters)
O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, realiza a 16ª palestra anual de Nelson Mandela, marcando o centenário do nascimento do líder anti-apartheid, em Joanesburgo, África do Sul, em 17 de julho de 2018. (Siphiwe Sibeko / Reuters)

Quando minha equipe me disse que eu deveria fazer uma palestra, pensei nos antigos professores abafados de gravata-borboleta e tweed, e me perguntei se esse era mais um sinal do estágio da vida em que estou entrando, junto com o cinza cabelo e visão levemente falhando. Pensei no fato de que minhas filhas acham que qualquer coisa que eu diga é uma palestra.

Pensei na imprensa americana e em como eles frequentemente ficavam frustrados com as minhas longas respostas em coletivas de imprensa, quando minhas respostas não correspondiam a sons de dois minutos. Mas dados os tempos estranhos e incertos em que estamos – e eles são estranhos, e eles são incertos – com os ciclos de notícias de cada dia trazendo mais manchetes e manchetes perturbadoras, eu pensei que talvez fosse útil dar um passo atrás por um momento e tente obter alguma perspectiva.

Então, eu espero que você me permita, apesar do frio leve, enquanto eu gasto muito desta palestra refletindo sobre onde estivemos, e como chegamos ao presente momento, na esperança de que isso nos oferecerá um roteiro para onde precisamos ir em seguida.

Cem anos atrás, Madiba nasceu na aldeia de Mvezo – em sua autobiografia ele descreve uma infância feliz; ele está cuidando do gado, ele está brincando com os outros garotos, eventualmente frequenta uma escola onde seu professor lhe deu o nome em inglês Nelson. E como muitos de vocês sabem, ele disse: “Por que ela me deu esse nome em particular, eu não tenho ideia”.

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Não havia razão para acreditar que um jovem negro neste momento, neste lugar, pudesse de alguma forma alterar a história. Afinal de contas, a África do Sul estava então com menos de uma década de total controle britânico. As leis já estavam sendo codificadas para implementar a segregação e subjugação racial, a rede de leis que seria conhecida como apartheid. A maior parte da África, incluindo a terra natal de meu pai, estava sob o domínio colonial.

As potências européias dominantes, tendo terminado uma terrível guerra mundial poucos meses após o nascimento de Madiba, viam este continente e seu povo principalmente como espoliação em uma disputa por território e abundantes recursos naturais e mão-de-obra barata. E a inferioridade da raça negra, uma indiferença em relação à cultura negra e aos interesses e aspirações, era um dado adquirido.

E tal visão do mundo – que certas raças, certas nações, certos grupos eram inerentemente superiores, e que a violência e a coerção eram a base primária da governança, que os fortes necessariamente exploram os fracos, que a riqueza é determinada principalmente pela conquista – que a visão do mundo dificilmente se limitava às relações entre a Europa e a África, ou as relações entre brancos e negros. Os brancos estavam felizes em explorar outros brancos quando podiam. E, a propósito, os negros muitas vezes estavam dispostos a explorar outros negros.

E em todo o mundo, a maioria das pessoas vivia em níveis de subsistência, sem falar nas políticas ou forças econômicas que determinavam suas vidas. Muitas vezes eles estavam sujeitos aos caprichos e crueldades de líderes distantes. A pessoa comum não via nenhuma possibilidade de avançar das circunstâncias de seu nascimento. As mulheres eram quase uniformemente subordinadas aos homens. Privilégio e status estavam rigidamente vinculados por casta e cor e etnia e religião. E mesmo em meu próprio país, mesmo em democracias como os Estados Unidos, fundado em uma declaração de que todos os homens são criados iguais, a segregação racial e a discriminação sistêmica eram a lei em quase metade do país e a norma em todo o resto do país.

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Esse foi o mundo apenas 100 anos atrás. Há pessoas vivas hoje que estavam vivas naquele mundo. É difícil, então, exagerar as notáveis ​​transformações que ocorreram desde aquela época. Uma segunda guerra mundial, ainda mais terrível do que a primeira, juntamente com uma cascata de movimentos de libertação da África para a Ásia, América Latina, Oriente Médio, finalmente acabaria com o domínio colonial. Mais e mais povos, tendo testemunhado os horrores do totalitarismo, os repetidos massacres em massa do século XX, começaram a abraçar uma nova visão para a humanidade, uma nova ideia, baseada não apenas no princípio da autodeterminação nacional, mas também os princípios da democracia e do Estado de direito e dos direitos civis e a dignidade inerente de cada indivíduo.

Nos países com economias baseadas no mercado, de repente, movimentos sindicais se desenvolveram; e saúde e segurança e regulamentações comerciais foram instituídas; e o acesso à educação pública foi ampliado; e os sistemas de bem-estar social surgiram, todos com o objetivo de restringir os excessos do capitalismo e aumentar sua capacidade de oferecer oportunidades não apenas para alguns, mas para todas as pessoas. E o resultado foi um crescimento econômico inigualável e um crescimento da classe média. E no meu próprio país, a força moral do movimento dos direitos civis não apenas derrubou as leis de Jim Crow, mas abriu as comportas para mulheres e grupos historicamente marginalizados para se reimaginarem, encontrar suas próprias vozes, fazer suas próprias reivindicações de cidadania plena. .

Foi a serviço dessa longa caminhada em direção à liberdade e à justiça e oportunidades iguais que Nelson Mandela dedicou sua vida. No início, sua luta era particular para este lugar, para sua terra natal – uma luta para acabar com o apartheid, uma luta para assegurar a duradoura igualdade política, social e econômica para seus cidadãos não brancos marginalizados. Mas através do seu sacrifício e liderança inabalável e, talvez acima de tudo, através do seu exemplo moral, Mandela e o movimento que ele liderou viriam a significar algo maior. Ele passou a incorporar as aspirações universais de pessoas despossuídas em todo o mundo, suas esperanças de uma vida melhor, a possibilidade de uma transformação moral na condução dos assuntos humanos.

A luz de Madiba brilhava tão intensamente, mesmo naquela estreita cela de Robben Island, que no final dos anos 70 ele podia inspirar um jovem universitário do outro lado do mundo a reexaminar suas próprias prioridades, poderia me fazer pensar no pequeno papel que poderia desempenhar em dobrar o arco do mundo para a justiça. E quando, mais tarde, como estudante de direito, presenciei Madiba sair da prisão, apenas alguns meses, você se lembra, depois da queda do Muro de Berlim, senti a mesma onda de esperança que inundou corações em todo o mundo. Você se lembra desse sentimento? Parecia que as forças do progresso estavam em marcha, que elas eram inexoráveis. Cada passo que ele deu,

E então, como Madiba guiou esta nação através da negociação meticulosamente, reconciliação, suas primeiras eleições justas e livres; Como todos nós testemunhamos a graça e a generosidade com que ele abraçou os antigos inimigos, a sabedoria para ele se afastar do poder uma vez que ele sentiu que seu trabalho estava completo, nós entendemos que entendemos que não eram apenas os subjugados, os oprimidos que eram sendo libertado dos grilhões do passado. O subjugador estava recebendo um presente, tendo a oportunidade de ver de uma nova maneira, tendo a chance de participar do trabalho de construir um mundo melhor.

E durante as últimas décadas do século XX, a visão progressista e democrática que Nelson Mandela representou de muitas maneiras definiu os termos do debate político internacional. Isso não significa que a visão sempre foi vitoriosa, mas estabeleceu os termos, os parâmetros; guiou como pensamos sobre o significado do progresso e continuou a impulsionar o mundo para frente. Sim, ainda havia tragédias – sangrentas guerras civis dos Bálcãs ao Congo. Apesar do fato de que o conflito étnico e sectário ainda incendiou com regularidade devastadora, apesar de tudo isso como consequência da continuação da détente nuclear, e de um Japão pacífico e próspero, e uma Europa unificada ancorada na OTAN, e a entrada da China na sistema mundial de comércio – tudo isso reduziu enormemente a perspectiva de guerra entre as grandes potências mundiais.

A marcha estava ligada. Um respeito pelos direitos humanos e pelo estado de direito, enumerados em uma declaração das Nações Unidas, tornou-se a norma orientadora para a maioria das nações, mesmo em lugares onde a realidade ficou muito aquém do ideal. Mesmo quando esses direitos humanos foram violados, aqueles que violaram os direitos humanos estavam na defensiva.

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E com essas mudanças geopolíticas vieram mudanças econômicas devastadoras. A introdução de princípios baseados no mercado, nos quais economias anteriormente fechadas, juntamente com as forças da integração global impulsionadas por novas tecnologias, de repente liberaram talentos empresariais àqueles que já haviam sido relegados à periferia da economia mundial, que não haviam contado. De repente, eles contaram. Eles tinham algum poder; eles tinham as possibilidades de fazer negócios. E então vieram avanços científicos e novas infraestruturas e a redução de conflitos armados.

E, de repente, um bilhão de pessoas foram retiradas da pobreza, e uma vez as nações famintas conseguiram se alimentar, e as taxas de mortalidade infantil despencaram. E enquanto isso, a disseminação da internet possibilitou que as pessoas se conectassem através dos oceanos, e culturas e continentes instantaneamente foram reunidos e, potencialmente, todo o conhecimento do mundo poderia estar nas mãos de uma criança pequena, mesmo na aldeia mais remota.

Foi o que aconteceu no decorrer de algumas décadas. E todo esse progresso é real. Tem sido amplo e profundo, e tudo aconteceu em que – pelos padrões da história humana – nada mais era do que um piscar de olhos. E agora toda uma geração cresceu em um mundo que, pela maioria das medidas, se tornou cada vez mais livre e mais saudável e mais rico e menos violento e mais tolerante durante suas vidas.

Isso deveria nos deixar esperançosos. Mas se não podemos negar os avanços reais que o nosso mundo fez desde o momento em que Madiba deu os primeiros passos no confinamento, também temos que reconhecer todas as maneiras pelas quais a ordem internacional ficou aquém de sua promessa. De fato, é em parte por causa dos fracassos dos governos e das poderosas elites em responder diretamente às deficiências e contradições dessa ordem internacional que vemos agora grande parte do mundo ameaçando retornar a um modo mais antigo, mais perigoso, mais brutal. de fazer negócios.

Portanto, temos de começar admitindo que quaisquer leis que possam ter existido nos livros, quaisquer que sejam os pronunciamentos maravilhosos existentes nas constituições, quaisquer palavras bonitas que tenham sido pronunciadas durante estas últimas décadas em conferências internacionais ou nos halls das Nações Unidas, as estruturas anteriores de privilégio e poder e injustiça e exploração nunca desapareceram completamente. Eles nunca foram totalmente desalojados.

Diferenças de castas ainda afetam as chances de vida das pessoas no subcontinente indiano. Diferenças étnicas e religiosas ainda determinam quem recebe oportunidades da Europa Central para o Golfo. É um fato claro que a discriminação racial ainda existe nos Estados Unidos e na África do Sul. E também é um fato que as desvantagens acumuladas de anos de opressão institucionalizada criaram enormes disparidades em renda, riqueza e educação, saúde, segurança pessoal e acesso ao crédito. Mulheres e meninas em todo o mundo continuam bloqueadas de posições de poder e autoridade. Eles continuam sendo impedidos de obter uma educação básica. Eles são desproporcionalmente vitimizados pela violência e abuso. Eles ainda recebem menos que os homens por fazer o mesmo trabalho. Isso ainda está acontecendo.

Oportunidade econômica, por toda a magnificência da economia global, todos os arranha-céus brilhantes que transformaram a paisagem ao redor do mundo, bairros inteiros, cidades inteiras, regiões inteiras, nações inteiras foram contornadas. Em outras palavras, para muitas pessoas, quanto mais as coisas mudam, mais as coisas permanecem as mesmas.

E enquanto a globalização e a tecnologia abriram novas oportunidades, têm impulsionado um crescimento econômico notável em partes do mundo anteriormente em dificuldades, a globalização também derrubou os setores agrícola e manufatureiro em muitos países. Também reduziu bastante a demanda por certos trabalhadores, ajudou a enfraquecer os sindicatos e o poder de barganha do trabalho. Tornou mais fácil para o capital evitar as leis tributárias e os regulamentos dos estados-nação – pode apenas movimentar bilhões, trilhões de dólares com um toque de chave de computador.

E o resultado de todas essas tendências foi uma explosão da desigualdade econômica. Significa que algumas dezenas de indivíduos controlam a mesma quantidade de riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Isso não é um exagero, é uma estatística. Pense sobre isso. Em muitos países de rendimento médio e em desenvolvimento, a nova riqueza acaba de acompanhar o antigo mau negócio que as pessoas obtiveram porque reforçou ou até agravou os padrões existentes de desigualdade, a única diferença é que criou oportunidades ainda maiores de corrupção numa escala épica. E por uma vez solidamente famílias de classe média em economias avançadas como os Estados Unidos, essas tendências significam maior insegurança econômica, especialmente para aqueles que não têm habilidades especializadas, pessoas que estavam na indústria, pessoas trabalhando em fábricas, pessoas trabalhando em fazendas. .

Em todos os países, a influência econômica desproporcional dos que ocupam o topo tem proporcionado a esses indivíduos uma influência desproporcional sobre a vida política de seus países e sobre sua mídia; em que políticas são perseguidas e cujos interesses acabam sendo ignorados. Agora, deve-se notar que esta nova elite internacional, a classe profissional que os sustenta, difere em aspectos importantes das aristocracias dominantes de antigamente. Inclui muitos que são feitos por si mesmos. Inclui campeões de meritocracia. E embora ainda predominantemente brancos e masculinos, eles refletem uma diversidade de nacionalidades e etnias que não existiriam há cem anos. Uma porcentagem decente considera-se liberal em sua política, moderna e cosmopolita em sua perspectiva.

Desabitada pelo paroquialismo, ou nacionalismo, ou preconceito racial manifesto ou forte sentimento religioso, eles estão igualmente à vontade em Nova York, Londres, Xangai, Nairóbi, Buenos Aires ou Joanesburgo. Muitos são sinceros e eficazes em sua filantropia. Alguns deles contam Nelson Mandela entre seus heróis. Alguns até apoiaram Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, e em virtude do meu status como ex-chefe de Estado, alguns deles me consideram um membro honorário do clube. E eu fui convidada para essas coisas extravagantes, sabe? Eles vão me expulsar.

Mas o que é verdade, no entanto, é que em seus negócios, muitos titãs da indústria e das finanças estão cada vez mais separados de qualquer local ou estado-nação, e vivem vidas cada vez mais isoladas das lutas das pessoas comuns em seus países de origem.

E suas decisões – suas decisões de fechar uma fábrica ou tentar minimizar sua conta fiscal transferindo lucros para um paraíso fiscal com a ajuda de contadores ou advogados caros, ou sua decisão de tirar proveito de imigrantes de baixo custo. trabalho, ou a sua decisão de pagar um suborno – são muitas vezes feitas sem malícia; é apenas uma resposta racional, eles consideram, às demandas de seus balanços e seus acionistas e pressões competitivas.

Mas, com demasiada frequência, essas decisões também são tomadas sem referência a noções de solidariedade humana – ou um entendimento no nível do solo das conseqüências que serão sentidas por determinadas pessoas em determinadas comunidades pelas decisões tomadas. E de suas salas de diretoria ou retiros, tomadores de decisão globais não têm a chance de ver, às vezes, a dor nos rostos dos trabalhadores demitidos.

Seus filhos não sofrem quando os cortes na educação pública e nos cuidados de saúde resultam de uma base fiscal reduzida devido à evasão fiscal. Eles não podem ouvir o ressentimento de um comerciante mais velho quando ele reclama que um recém-chegado não fala sua língua em um local de trabalho onde ele trabalhou uma vez. Eles estão menos sujeitos ao desconforto e ao deslocamento que alguns de seus conterrâneos podem sentir como a globalização embaralha não apenas os arranjos econômicos existentes, mas os costumes sociais e religiosos tradicionais.

É por isso que, no final do século 20, enquanto alguns comentaristas ocidentais estavam declarando o fim da história e o inevitável triunfo da democracia liberal e as virtudes da cadeia global de suprimentos, tantos sinais errados de uma reação adversa – uma reação que chegou em muitas formas. Anunciou-se de forma mais violenta com o 11/9 e o surgimento de redes terroristas transnacionais, alimentadas por uma ideologia que perverteu uma das grandes religiões do mundo e afirmou uma luta não apenas entre o Islã e o Ocidente, mas entre o Islã e a modernidade e uma doença. aconselhou a invasão do Iraque pelos EUA não ajudou, acelerando um conflito sectário. A Rússia, já humilhada pela sua reduzida influência desde o colapso da União Soviética, sentindo-se ameaçada pelos movimentos democráticos ao longo de suas fronteiras,

A China, encorajada por seu sucesso econômico, começou a protestar contra as críticas ao seu histórico de direitos humanos; enquadrava a promoção de valores universais como nada mais que interferência estrangeira, imperialismo sob um novo nome.

Dentro dos Estados Unidos, dentro da União Européia, os desafios à globalização vieram primeiro da esquerda, mas vieram mais fortemente da direita, quando começaram a ver movimentos populistas – que, aliás, são cinicamente financiados por bilionários de direita. na redução das restrições do governo em seus interesses comerciais – esses movimentos aproveitaram o mal-estar que foi sentido por muitas pessoas que viviam fora dos núcleos urbanos; temia que a segurança econômica estivesse se esvaindo, que seu status social e privilégios estivessem se deteriorando, que suas identidades culturais estavam sendo ameaçadas por estranhos, alguém que não se parecia com eles ou soava como eles ou orava como eles faziam.

E talvez mais do que qualquer outra coisa, o impacto devastador da crise financeira de 2008, em que o comportamento imprudente das elites financeiras resultou em anos de dificuldades para pessoas comuns em todo o mundo, fez todas as garantias anteriores de especialistas parecerem vazias – todas essas garantias que de alguma forma os reguladores financeiros sabiam o que estavam fazendo, que alguém estava cuidando da loja, que a integração econômica global era um bem não adulterado.

Por causa das ações tomadas pelos governos durante e após a crise, incluindo, devo acrescentar, por medidas agressivas da minha administração, a economia global voltou agora a um crescimento saudável. Mas a credibilidade do sistema internacional, a fé em especialistas em lugares como Washington ou Bruxelas, tudo isso levou um golpe.

E uma política de medo e ressentimento e retração começaram a aparecer, e esse tipo de política está agora em movimento. Está em movimento a um ritmo que teria parecido inimaginável há alguns anos. Eu não estou sendo alarmista, estou simplesmente declarando os fatos. Olhar em volta. As políticas do homem forte estão ascendendo repentinamente, por meio das quais as eleições e alguma pretensão democrática são mantidas – a forma dela – mas os que estão no poder procuram minar todas as instituições ou normas que dão significado à democracia. No Ocidente, você tem partidos de extrema-direita que muitas vezes se baseiam não apenas em plataformas de protecionismo e fronteiras fechadas, mas também em nacionalismo racial pouco oculto.

Muitos países em desenvolvimento agora estão considerando o modelo de controle autoritário da China combinado com o capitalismo mercantilista como preferível à confusão da democracia. Quem precisa de liberdade de expressão enquanto a economia estiver indo bem? A imprensa livre está sob ataque. A censura e o controle estatal da mídia estão em ascensão. A mídia social – antes vista como um mecanismo para promover o conhecimento, a compreensão e a solidariedade – provou ser igualmente eficaz na promoção do ódio e da paranoia e das teorias de propaganda e conspiração.

Assim, no aniversário de 100 anos de Madiba, estamos agora em uma encruzilhada – um momento no tempo em que duas visões muito diferentes do futuro da humanidade competem pelos corações e mentes dos cidadãos ao redor do mundo. Duas histórias diferentes, duas narrativas diferentes sobre quem somos e quem devemos ser. Como devemos responder?

Deveríamos ver aquela onda de esperança que sentimos com a libertação de Madiba da prisão, do Muro de Berlim descendo – devemos ver essa esperança que tínhamos ingênuo e mal orientado? Deveríamos entender os últimos 25 anos de integração global como nada mais do que um desvio do ciclo inevitável da história anterior – onde a causa pode acertar, e a política é uma competição hostil entre tribos e raças e religiões, e as nações competem em uma soma zero? jogo, constantemente à beira do conflito até que a guerra completa irrompe? É isso que pensamos?

Deixe-me dizer o que eu acredito. Eu acredito na visão de Nelson Mandela. Eu acredito em uma visão compartilhada por Gandhi e King e Abraham Lincoln. Acredito em uma visão de igualdade, justiça, liberdade e democracia multirracial, construída com base na premissa de que todas as pessoas são criadas iguais e dotadas pelo nosso criador de certos direitos inalienáveis. E acredito que um mundo governado por tais princípios é possível e que pode alcançar mais paz e mais cooperação na busca de um bem comum. Isso é o que eu acredito.

E acredito que não temos escolha a não ser seguir em frente; que aqueles de nós que acreditam na democracia e nos direitos civis e uma humanidade comum têm uma história melhor para contar. E eu acredito que isso não se baseia apenas no sentimento, acredito que seja baseado em evidências concretas.

O fato de que as sociedades mais prósperas e bem-sucedidas do mundo, aquelas com os mais altos padrões de vida e os mais altos níveis de satisfação entre seus povos, são aquelas que mais se aproximam do ideal progressista liberal de que falamos e alimentaram o mundo. talentos e contribuições de todos os seus cidadãos.

O fato de que governos autoritários têm sido mostrados repetidamente para criar corrupção, porque eles não são responsáveis; reprimir seu povo; perder o contato eventualmente com a realidade; envolver-se em mentiras maiores e maiores que acabam por resultar em estagnação econômica e política e cultural e científica. Olhe para a história. Olhe para os fatos.

O fato de que países que se baseiam em nacionalismo e xenofobia raivosos e doutrinas de superioridade tribal, racial ou religiosa são seus principais princípios organizadores, o que mantém as pessoas unidas – eventualmente esses países se vêem consumidos pela guerra civil ou guerra externa. Confira os livros de história.

O fato de que a tecnologia não pode ser colocada de volta em uma garrafa, então estamos presos ao fato de que agora vivemos juntos e as populações vão se mexer, e os desafios ambientais não vão desaparecer sozinhos, A única maneira de abordar efetivamente problemas como mudança climática ou migração em massa ou doenças pandêmicas será desenvolver sistemas para mais cooperação internacional, não menos.

Nós temos uma história melhor para contar. Mas dizer que nossa visão para o futuro é melhor não é dizer que ela irá inevitavelmente vencer. Porque a história também mostra o poder do medo. A história mostra o domínio duradouro da ganância e o desejo de dominar os outros nas mentes dos homens. Especialmente homens. (Laughter and History mostra com que facilidade as pessoas podem ser convencidas a ligar os que parecem diferentes ou a adorar a Deus de uma maneira diferente.

Então, se formos verdadeiramente continuar a longa caminhada de Madiba em direção à liberdade, teremos que trabalhar mais e teremos que ser mais inteligentes. Nós vamos ter que aprender com os erros do passado recente. E assim, no breve tempo restante, deixe-me sugerir apenas algumas diretrizes para o caminho a seguir, diretrizes que tiram do trabalho de Madiba, suas palavras, as lições de sua vida.

Primeiro, Madiba mostra aqueles de nós que acreditam na liberdade e na democracia que teremos que lutar mais para reduzir a desigualdade e promover oportunidades econômicas duradouras para todas as pessoas.

Agora, não acredito no determinismo econômico. Os seres humanos não vivem só de pão. Mas eles precisam de pão. E a história mostra que as sociedades que toleram grandes diferenças de riqueza alimentam ressentimentos e reduzem a solidariedade e, na verdade, crescem mais lentamente; e que, uma vez que as pessoas alcancem mais do que mera subsistência, elas estão medindo seu bem-estar comparando-se com seus vizinhos e se seus filhos podem esperar viver uma vida melhor.

E quando o poder econômico está concentrado nas mãos de poucos, a história também mostra que o poder político certamente se seguirá – e essa dinâmica corrói a democracia. Às vezes pode ser uma corrupção direta, mas às vezes pode não envolver a troca de dinheiro; é só gente que é tão rica que consegue o que quer, e isso prejudica a liberdade humana.

E Madiba entendeu isso. Isso não é novidade. Ele nos alertou sobre isso. Ele disse: “Onde a globalização significa, como tantas vezes acontece, que os ricos e os poderosos agora têm novos meios para enriquecer e fortalecer a si mesmos à custa dos mais pobres e mais fracos, [então] temos a responsabilidade de protestar em o nome da liberdade universal ”. Foi o que ele disse.

Então, se estamos falando sério sobre a liberdade universal hoje, se nos preocupamos com a justiça social hoje, então temos a responsabilidade de fazer algo a respeito. E eu respeitosamente emendaria o que Madiba disse. Eu não faço isso com frequência, mas eu diria que não é o suficiente para protestarmos; vamos ter que construir, vamos ter que inovar, vamos ter que descobrir como podemos fechar esse abismo crescente de riqueza e oportunidade, tanto dentro dos países como entre eles.

E como conseguimos isso vai variar de país para país, e sei que seu novo presidente está empenhado em arregaçar as mangas e tentar fazê-lo. Mas podemos aprender com os últimos 70 anos que isso não envolverá capitalismo desregulado, desenfreado e antiético. Também não envolverá o socialismo de comando e controle de estilo antigo no topo. Isso foi tentado; Não funcionou muito bem. Para quase todos os países, o progresso dependerá de um sistema de mercado inclusivo – que ofereça educação para todas as crianças; que protege a negociação coletiva e assegure os direitos de todos os trabalhadores – que destrói monopólios para encorajar a concorrência em pequenas e médias empresas; e possui leis que erradicam a corrupção e garantem negociações justas nos negócios;

Eu devo acrescentar, a propósito, agora estou realmente surpreso com quanto dinheiro eu tenho, e deixe-me dizer uma coisa: eu não tenho metade da maioria dessas pessoas ou de um décimo ou centésimo. . Há tanta coisa que você pode comer. Há apenas uma casa tão grande que você pode ter. Há apenas tantas viagens agradáveis ​​que você pode fazer. Quero dizer, é o suficiente. Você não tem que fazer um voto de pobreza apenas para dizer: “Bem, deixe-me ajudar e deixar algumas das outras pessoas – deixe-me olhar para aquela criança lá fora que não tem o suficiente para comer ou precisa de algum taxas escolares, deixe-me ajudá-lo. Eu vou pagar um pouco mais em impostos. Está bem. Eu posso pagar isso.”

Quero dizer, isso mostra uma pobreza de ambição de apenas querer tomar mais e mais e mais, em vez de dizer: “Uau, eu tenho muito. Quem posso ajudar? Como posso dar mais e mais e mais? ”Isso é ambição. Isso é impacto. Isso é influência. Que presente incrível para ajudar as pessoas, não apenas você. Onde eu estava? Eu improvisei. Você entendeu.

Envolve promover um capitalismo inclusivo tanto dentro das nações como entre as nações. E, como perseguimos, por exemplo, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, temos que superar a mentalidade de caridade. Temos que trazer mais recursos para os bolsos esquecidos do mundo através do investimento e do empreendedorismo, porque há talento em todo o mundo se for dada uma oportunidade.

Quando se trata do sistema internacional de comércio e comércio, é legítimo que os países mais pobres continuem a buscar acesso aos mercados mais ricos. E, a propósito, mercados mais ricos, esse não é o grande problema que você está tendo – que um pequeno país africano está enviando chá e flores para você. Esse não é o seu maior desafio econômico. Também é apropriado para as economias avançadas, como os Estados Unidos, insistir na reciprocidade de países como a China, que não são mais apenas países pobres, para garantir o acesso aos seus mercados e deixar de tomar propriedade intelectual e hackear nossos servidores.

Mas mesmo que haja discussões em torno do comércio e do comércio, é importante reconhecer essa realidade: enquanto a terceirização de empregos de norte a sul, de leste a oeste, enquanto muito disso era uma tendência dominante no final do século XX. , o maior desafio para os trabalhadores em países como o meu hoje é a tecnologia.

E o maior desafio para o seu novo presidente quando pensarmos em empregar mais pessoas aqui também será a tecnologia, porque a inteligência artificial está aqui e está acelerando, e você terá carros sem motorista, e você terá mais e mais serviços automatizados, e isso dará ao trabalho de dar a todos um trabalho mais significativo, e teremos que ser mais imaginativos, e o pacto de mudança vai nos exigir fazer uma re-imaginação mais fundamental de nossos arranjos sociais e políticos, para proteger a segurança econômica e a dignidade que vem com um trabalho. Não é apenas dinheiro que um emprego oferece; fornece dignidade e estrutura, senso de lugar e senso de propósito.

Assim, teremos que considerar novas maneiras de pensar sobre esses problemas, como uma renda universal, uma revisão de nossa jornada de trabalho, como treinamos nossos jovens, como fazemos de todos um empreendedor em algum nível. Mas vamos ter que nos preocupar com economia se quisermos colocar a democracia de volta nos trilhos.

Segundo, Madiba nos ensina que alguns princípios são realmente universais – e o mais importante é o princípio de que estamos unidos por uma humanidade comum e que cada indivíduo tem dignidade e valor inerentes.

Agora, é surpreendente que tenhamos que afirmar esta verdade hoje. Mais de um quarto de século depois que Madiba saiu da prisão, eu ainda tenho que ficar aqui em uma palestra e dedicar algum tempo para dizer que negros e brancos e asiáticos e latino-americanos e mulheres e homens e gays e heterossexuais, isso somos todos humanos, que nossas diferenças são superficiais e que devemos tratar uns aos outros com cuidado e respeito. Eu teria pensado que teríamos descoberto isso agora. Eu achava que essa noção básica estava bem estabelecida. Mas acontece que, como vemos nessa recente tendência à política reacionária, a luta pela justiça básica nunca está realmente terminada. Então temos que estar constantemente atentos e lutar por pessoas que buscam se elevar colocando alguém abaixo.

E, a propósito, também temos que resistir ativamente – isso é importante, particularmente em alguns países da África, como a pátria de meu pai; Já fiz isso antes – temos que resistir à noção de que os direitos humanos básicos, como a liberdade de discordância, ou o direito das mulheres de participar plenamente da sociedade, ou o direito das minorias à igualdade de tratamento, ou os direitos das pessoas não para sermos espancados e presos por causa de sua orientação sexual – temos que ter cuidado para não dizer que de alguma forma, bem, isso não se aplica a nós, que essas são idéias ocidentais, e não imperativos universais.

Mais uma vez, Madiba, ele antecipou as coisas. Ele sabia do que estava falando. Em 1964, antes de receber a sentença que o condenou a morrer na prisão, ele explicou do banco dos réus que, “A Carta Magna, a Petição de Direitos, a Declaração de Direitos são documentos que são mantidos em veneração por democratas em todo o mundo. Em outras palavras, ele não disse bem, esses livros não foram escritos por sul-africanos, então eu simplesmente não posso reivindicá-los. Não, ele disse que é parte da minha herança.

Isso é parte da herança humana. Isso se aplica aqui neste país, para mim e para você. E isso é parte do que lhe deu a autoridade moral que o regime do apartheid nunca poderia reivindicar, porque estava mais familiarizado com seus melhores valores do que eles. Ele lera seus documentos com mais cuidado do que eles. E ele prosseguiu dizendo: “A divisão política baseada na cor é inteiramente artificial e, quando desaparece, a dominação de um grupo de cores por outro também.” Isso é Nelson Mandela falando em 1964, quando eu tinha três anos de idade.

O que era verdade, então, permanece verdadeiro hoje. Verdades básicas não mudam. É uma verdade que pode ser adotada pelos ingleses e pelos indianos e pelos mexicanos e bantos e pelos luo e pelos americanos. É uma verdade que está no coração de toda religião mundial – que devemos fazer aos outros como gostaríamos que fizessem a nós. Que nos vemos em outras pessoas. Que podemos reconhecer esperanças comuns e sonhos comuns. E é uma verdade que é incompatível com qualquer forma de discriminação baseada em raça ou religião ou gênero ou orientação sexual. E é uma verdade que, a propósito, quando abraçada, realmente proporciona benefícios práticos, uma vez que garante que uma sociedade possa aproveitar os talentos, a energia e a habilidade de todas as pessoas. E se você duvida, basta perguntar ao time de futebol francês que acabou de ganhar a Copa do Mundo. Porque nem todas essas pessoas – nem todas essas pessoas se parecem com gauleses para mim. Mas eles são franceses. Eles são franceses.

Abraçando nossa humanidade comum não significa que tenhamos que abandonar nossas identidades étnicas, nacionais e religiosas. Madiba nunca deixou de se orgulhar de sua herança tribal. Ele não deixou de se orgulhar de ser negro e de ser sul-africano.

Mas ele acreditava, como eu acredito, que você pode se orgulhar de sua herança sem denegrir os de uma herança diferente. Na verdade, você desonra sua herança. Isso me faria pensar que você é um pouco inseguro sobre sua herança se tiver que colocar a herança de outra pessoa para baixo. Sim, está certo. Você não sente que às vezes – mais uma vez, eu estou improvisando aqui – que essas pessoas que estão tão concentradas em colocar as pessoas para baixo e se embotando que elas são de coração pequeno, que há algo que elas estão com medo do.

Madiba sabia que não podemos reivindicar justiça para nós mesmos quando isso é reservado apenas para alguns. Madiba entendeu que não podemos dizer que temos uma sociedade justa simplesmente porque substituímos a cor da pessoa em cima de um sistema injusto, então a pessoa se parece conosco mesmo que esteja fazendo a mesma coisa, e de alguma forma agora nós temos justiça. Isso não funciona. Não é justiça se agora você estiver no topo, então vou fazer a mesma coisa que aquelas pessoas estavam fazendo comigo e agora vou fazer isso com você. Isso não é justiça. “Eu detesto o racismo”, disse ele, “se vem de um homem negro ou de um homem branco”.

Agora, temos que reconhecer que há desorientação que vem da rápida mudança e modernização, e o fato de que o mundo encolheu, e vamos ter que encontrar maneiras de diminuir os medos daqueles que se sentem ameaçados. No debate atual do Ocidente em torno da imigração, por exemplo, não é errado insistir que as fronteiras nacionais importam; se você é um cidadão ou não vai importar para um governo, que as leis precisam ser seguidas; que, no âmbito público, os recém-chegados devem se esforçar para adaptar-se à linguagem e aos costumes de seu novo lar. Essas são coisas legítimas e temos que ser capazes de envolver as pessoas que se sentem como se as coisas não estivessem em ordem. Mas isso não pode ser uma desculpa para políticas de imigração baseadas em raça, etnia ou religião. Tem que haver alguma consistência. E podemos impor a lei respeitando a humanidade essencial daqueles que estão lutando por uma vida melhor. Para uma mãe com um filho nos braços, podemos reconhecer que poderia ser alguém da nossa família, que poderia ser meu filho.

Em terceiro lugar, Madiba nos lembra que a democracia é mais do que apenas eleições.

Quando ele foi libertado da prisão, a popularidade de Madiba – bem, você não podia nem medir isso. Ele poderia ter sido presidente vitalício. Estou errado? Quem iria correr contra ele? Quero dizer, Ramaphosa era popular, mas vamos lá. Além disso, ele era jovem – ele era jovem demais. Se ele tivesse escolhido, Madiba poderia ter governado por decreto executivo, sem restrição de contrapesos. Mas, em vez disso, ajudou a guiar a África do Sul através da elaboração de uma nova Constituição, baseada em todas as práticas institucionais e ideais democráticos que se mostraram mais robustos, atentos ao fato de que nenhum indivíduo possui o monopólio da sabedoria.

Nenhum indivíduo – nem Mandela, nem Obama – é totalmente imune às influências corruptoras do poder absoluto, se você puder fazer o que quiser e todo mundo tem medo de dizer quando você cometer um erro. Ninguém está imune aos perigos disso.

Mandela entendeu isso. Ele disse: “A democracia é baseada no princípio da maioria. Isso é especialmente verdadeiro em um país como o nosso, onde a grande maioria tem sistematicamente negado seus direitos. Ao mesmo tempo, a democracia também exige que os direitos das minorias políticas e outras sejam salvaguardados ”. Ele entendeu que não é apenas sobre quem tem mais votos. É também sobre a cultura cívica que construímos que faz a democracia funcionar.

Então temos que parar de fingir que os países que apenas realizam uma eleição onde às vezes o vencedor magicamente obtém 90% dos votos porque toda a oposição está trancada – ou não podem entrar na TV, é uma democracia. A democracia depende de instituições fortes e é sobre os direitos das minorias e freios e contrapesos, e liberdade de expressão e liberdade de expressão e imprensa livre, e o direito de protestar e peticionar o governo, e um judiciário independente, e todos têm que seguir a lei .

E sim, a democracia pode ser confusa, e pode ser lenta, e pode ser frustrante. Eu sei, eu prometo. Mas a eficiência oferecida por um autocrata é uma promessa falsa. Não o leve, porque leva, invariavelmente, a uma maior consolidação da riqueza no topo e ao poder no topo, e torna mais fácil esconder a corrupção e o abuso. Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia real sustenta melhor a ideia de que o governo existe para servir o indivíduo e não o contrário. E é a única forma de governo que tem a possibilidade de tornar essa ideia real.

Então, para aqueles de nós que estão interessados ​​em fortalecer a democracia, paremos também – é hora de pararmos de prestar atenção às capitais mundiais e aos centros de poder e começar a nos concentrar mais nas bases, porque é aí que a legitimidade democrática vem de. Não de cima para baixo, não de teorias abstratas, não apenas de especialistas, mas de baixo para cima. Conhecer as vidas daqueles que estão lutando.

Como organizadora da comunidade, aprendi muito com um trabalhador de aço desempregado em Chicago ou com uma mãe solteira em um bairro pobre que visitei, como aprendi com os melhores economistas do Salão Oval. Democracia significa estar em contato e em sintonia com a vida como é vivida em nossas comunidades, e isso é o que devemos esperar de nossos líderes, e depende do cultivo de líderes na base que podem ajudar a trazer mudanças e implementá-las no terreno e podem diga aos líderes em edifícios extravagantes, isso não está funcionando aqui.

E para fazer a democracia funcionar, Madiba nos mostra que também temos que continuar ensinando nossos filhos, e a nós mesmos – e isso é realmente difícil – a nos engajar com pessoas que não apenas têm uma aparência diferente, mas possuem visões diferentes. Isto é difícil.

A maioria de nós prefere nos cercar de opiniões que validem o que já acreditamos. Você percebe que as pessoas que você acha inteligentes são as pessoas que concordam com você. Engraçado como isso funciona. Mas a democracia exige que também possamos entrar na realidade das pessoas que são diferentes de nós para que possamos entender seu ponto de vista. Talvez possamos mudar de idéia, mas talvez eles mudem os nossos. E você não pode fazer isso se você simplesmente ignorar o que seus oponentes têm a dizer desde o início. E você não pode fazer isso se você insiste que aqueles que não são como você – porque são brancos, ou porque são do sexo masculino – que de alguma forma não há como eles entenderem o que eu sinto, que de alguma forma eles não têm de pé para falar sobre certos assuntos.

Madiba, ele viveu essa complexidade. Na prisão, ele estudou afrikaans para poder entender melhor as pessoas que o estavam encarcerando. E quando ele saiu da prisão, ele estendeu a mão para aqueles que o haviam prendido, porque ele sabia que eles tinham que ser parte da África do Sul democrática que ele queria construir. “Para fazer as pazes com um inimigo”, escreveu ele, “é preciso trabalhar com esse inimigo e esse inimigo torna-se parceiro de alguém”.

Assim, aqueles que traficam em absolutos quando se trata de política, seja à esquerda ou à direita, tornam a democracia inviável. Você não pode esperar obter 100% do que você quer o tempo todo; às vezes, você tem que comprometer. Isso não significa abandonar seus princípios, mas significa manter esses princípios e ter a confiança de que eles resistirão a um debate democrático sério. Foi assim que os Fundadores da América planejaram que nosso sistema funcionasse – que, através do teste de idéias e da aplicação da razão e da prova, seria possível chegar a uma base para um terreno comum.

E devo acrescentar que isso funcione, temos que realmente acreditar em uma realidade objetiva. Essa é outra dessas coisas que eu não tive que fazer palestras. Você tem que acreditar em fatos. Sem fatos, não há base para cooperação. Se eu disser que este é um pódio e você diz que isso é um elefante, vai ser difícil para nós cooperarmos. Eu posso encontrar um terreno comum para aqueles que se opõem aos Acordos de Paris porque, por exemplo, eles podem dizer, bem, não vai funcionar, você não pode fazer com que todos cooperem, ou eles podem dizer que é mais importante para nós fornecermos produtos baratos. energia para os pobres, mesmo que isso signifique, a curto prazo, que haja mais poluição.

Pelo menos eu posso ter um debate com eles sobre isso e posso mostrar a eles porque eu acho que a energia limpa é o melhor caminho, especialmente para os países pobres, que você pode ultrapassar tecnologias antigas. Não consigo encontrar um terreno comum se alguém diz que a mudança climática não está acontecendo, quando quase todos os cientistas do mundo nos dizem que é. Eu não sei por onde começar a falar sobre isso. Se você começar a dizer que é uma farsa elaborada, eu não sei o que fazer – onde começamos?

Infelizmente, muita da política hoje parece rejeitar o próprio conceito de verdade objetiva. As pessoas inventam coisas. Eles apenas inventam coisas. Nós vemos isso na propaganda patrocinada pelo estado; vemos isso em fabricações conduzidas pela Internet, vemos isso na confusão de linhas entre notícias e entretenimento, vemos a total perda de vergonha entre os líderes políticos, onde eles são pegos em uma mentira e eles simplesmente dobram e mentem um pouco mais. Políticos sempre mentiram, mas costumava ser, se você os pegasse mentindo, seria tipo “Oh, cara”. Agora eles continuam mentindo.

Aliás, isso é o que eu acho que Mama Graça estava falando em termos de algum senso de humildade que Madiba sentia, como às vezes coisas básicas, eu não mentir para as pessoas parece básico, eu não penso em mim como um grande líder só porque eu não invisto completamente. Você acha que foi uma linha de base. De qualquer forma, vemos isso na promoção do anti-intelectualismo e na rejeição da ciência por parte de líderes que acham o pensamento crítico e os dados de alguma forma politicamente inconvenientes.

E, como na negação de direitos, a negação de fatos vai contra a democracia, pode ser a sua ruína, e é por isso que devemos proteger zelosamente a mídia independente; e temos que nos proteger contra a tendência das mídias sociais se tornarem puramente uma plataforma para espetáculo, indignação ou desinformação; e temos que insistir que nossas escolas ensinem o pensamento crítico aos nossos jovens, não apenas a obediência cega.

O que, tenho certeza de que você é grato, leva ao meu último ponto: temos que seguir o exemplo de persistência e esperança de Madiba.

É tentador ceder ao cinismo: acreditar que as mudanças recentes na política global são muito poderosas para retroceder; que o pêndulo oscilou permanentemente. Assim como as pessoas falaram sobre o triunfo da democracia nos anos 90, agora vocês estão ouvindo as pessoas falarem sobre o fim da democracia e o triunfo do tribalismo e do homem forte. Temos que resistir a esse cinismo.

Porque, nós passamos por tempos mais escuros, nós estivemos em vales mais baixos e vales mais profundos. Sim, até o final de sua vida, Madiba incorporou a luta bem-sucedida pelos direitos humanos, mas a jornada não foi fácil, não foi pré-ordenada. O homem foi preso por quase três décadas. Ele dividiu o calcário no calor, dormiu em uma pequena cela e foi repetidamente colocado em confinamento solitário. E eu lembro de ter conversado com alguns de seus ex-colegas dizendo como eles não tinham percebido quando foram libertados, apenas a visão de uma criança, a ideia de segurar uma criança, eles haviam perdido – não era algo disponível para eles, por décadas.

E, no entanto, seu poder realmente cresceu durante aqueles anos – e o poder de seus carcereiros diminuiu, porque ele sabia que se você mantivesse o que é verdade, se você sabe o que está em seu coração, e você está disposto a se sacrificar por isso, mesmo no face de chances esmagadoras, de que isso pode não acontecer amanhã, pode não acontecer na próxima semana, pode nem acontecer em sua vida.

As coisas podem retroceder por um tempo, mas no final das contas, certo faz poder, e não o contrário, a história melhor pode vencer e tão forte quanto o espírito de Madiba pode ter sido, ele não teria sustentado essa esperança se estivesse sozinho na luta, parte da motivação era que ele soubesse que a cada ano, as fileiras de combatentes da liberdade estavam se reabastecendo, homens e mulheres jovens, aqui na África do Sul, no ANC e além; negros, indianos e brancos, do outro lado do campo, por todo o continente, em todo o mundo, que naqueles dias mais difíceis continuariam trabalhando em prol de sua visão.

E é disso que precisamos agora, não precisamos apenas de um líder, não precisamos apenas de uma inspiração, o que precisamos agora é desse espírito coletivo. E eu sei que aqueles jovens, aqueles portadores de esperança estão se reunindo ao redor do mundo. Porque a história mostra que sempre que o progresso é ameaçado, e as coisas que mais nos interessam estão em questão, devemos ouvir as palavras de Robert Kennedy – falado aqui na África do Sul, ele disse: “Nossa resposta é a esperança do mundo: é confiar na juventude. É confiar no espírito dos jovens ”.

Então, os jovens, que estão na platéia, que estão ouvindo, minha mensagem para você é simples, continue acreditando, continue marchando, continue construindo, continue levantando sua voz. Toda geração tem a oportunidade de refazer o mundo. Mandela disse: “Os jovens são capazes, quando despertados, de derrubar as torres da opressão e levantar as bandeiras da liberdade”. Agora é um bom momento para ser despertado. Agora é um bom momento para se animar.

E, para aqueles de nós que se preocupam com o legado que nós honramos aqui hoje – sobre igualdade e dignidade e democracia e solidariedade e bondade, aqueles de nós que permanecem jovens no coração, se não no corpo – temos a obrigação de ajudar nossos jovens ter sucesso. Alguns de vocês sabem, aqui na África do Sul, minha Fundação está convocando nos últimos dias, duzentos jovens de todo o continente que estão fazendo o trabalho duro de fazer mudanças em suas comunidades; que refletem os valores de Madiba, que estão preparados para liderar o caminho.

Pessoas como Abaas Mpindi, um jornalista de Uganda, que fundou a Media Challenge Initiative, para ajudar outros jovens a obter o treinamento necessário para contar as histórias que o mundo precisa saber.

Pessoas como Caren Wakoli, uma empreendedora do Quênia, que fundou a Emerging Leaders Foundation para envolver os jovens no trabalho de combater a pobreza e promover a dignidade humana.

Pessoas como Enock Nkulanga, que dirige a missão African Children, que ajuda crianças em Uganda e no Quênia a obterem a educação de que precisam e, em seu tempo livre, defende os direitos das crianças em todo o mundo e fundou uma organização chamada LeadMinds Africa. , que faz exatamente o que diz.

Você conhece essas pessoas, fala com elas, elas lhe dão esperança. Eles estão tomando o bastão, eles sabem que não podem simplesmente descansar sobre as realizações do passado, até mesmo as realizações daqueles tão importantes quanto os de Nelson Mandela. Eles ficam sobre os ombros daqueles que vieram antes, incluindo aquele jovem negro nascido há 100 anos, mas eles sabem que agora é a vez deles fazerem o trabalho.

Madiba nos lembra que: “Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, de sua origem ou de sua religião. As pessoas devem aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar, pois o amor vem mais naturalmente ao coração humano. ”O amor vem mais naturalmente ao coração humano, vamos nos lembrar dessa verdade. Vamos ver isso como nossa Estrela do Norte, vamos nos alegrar em nossa luta para fazer essa verdade se manifestar aqui na terra para que daqui a 100 anos, futuras gerações olhem para trás e digam, “eles mantiveram a marcha, é por isso que vivemos sob novos banners de liberdade ”.

Muito obrigado, África do Sul, obrigado.

https://mg.co.za/article/2018-07-18-read-in-full-the-barack-obama-2018-nelson-mandela-lecture

Obra de Amílcar Cabral indicado para Programa “Memória do mundo” da UNESCO

A CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa expressou apoio institucional à candidatura da obra de Amílcar Cabral ao programa “Memória do mundo” da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

CPLP apoia candidatura da obra de Amílcar Cabral ao programa da UNESCO

A CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa expressou apoio institucional à candidatura da obra de Amílcar Cabral ao programa “Memória do mundo” da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Conforme divulgado pelo A Semanaonline, a responsabilidade é da Fundação Amílcar Cabral, uma organização cabo-verdiana sem fins lucrativos e que foi fundada em 2005, gozando do estatuto de Observador Consultivo da CPLP. É que uma das atribuições da FAC é preservar a obra e a memória deste dirigente histórico e fundador do PAIGC,designadamente através de acção editorial própria e da animação do espaço museológico, criado em 2015, “Sala-Museu Amílcar Cabral”.

“Assegurar o acesso permanente e universal e a preservação do património documental” é o objectivo do Programa “Memória do Mundo” da UNESCO, estabelecido em 1992, contribuindo para uma maior consciencialização mundial da importância, para todos, do legado documental. Daí a preposta da FAC de se candidatar a obra de Amílcar Cabral ao programa «Memória do Mundo» da UNESCO.

https://www.asemana.publ.cv/?CPL-apoia-candidatura-da-obra-de-Amilcar-Cabral-a-programa-da-UNESCO

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

 

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

O livro Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro já tem o primeiro lançamento marcado para o dia 11 de maio, no Al Janiah, São Paulo. O evento contará com debate sobre o livro com o professor Dennis de Oliveira e Deivison Mendes Faustino. Para encerrar o evento, intervenção musical a cargo de Conde Favela Sexteto.

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista.

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SOBRE O LIVRO | Há mais de cinco décadas de seu falecimento, Frantz Fanon, publicado em diversos países e analisado por destacados estudiosos do pensamento crítico contemporâneo, é, sem dúvidas, um dos intelectuais negros mais importantes do século XX, que atuou como psiquiatra, filósofo, cientista social e militante anti-colonial.

Sua obra influenciou movimentos políticos e teóricos em todo o mundo e suas reflexões seguem reverberando em nossos dias como referência obrigatória em diversos campos de estudo. Por isso, em Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro, Deivison Mendes Faustino apresenta a trajetória política e teórica de Fanon desde a sua infância na Martinica até a sua participação nos movimentos de libertação na África. Trata-se de uma rigorosa investigação, em que a obra do intelectual martinicano é revisitada com vistas à sua biografia, de forma a oferecer ao leitor brasileiro um panorama mais amplo a respeito do contexto e dos dilemas enfrentados por Fanon no momento de cada escrito seu.

O presente ensaio aqui apresentado é, nesse sentido, corolário de uma séria atividade intelectual e se constitui como uma fundamental contribuição para o debate sobre a presença do pensamento negro e sua resistência política e intelectual na sociedade contemporânea. Que seja este, portanto, um livro para ler e refletir.

SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.

É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e do grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0

 deivisno.jpg Introdução ao pensamento de Frantz Fanon – Deivison Nkosi (CyberQuilombo)

www.youtube.com

CYBERQUILOMBO Queremos facilitar a aplicação da lei: 10.639/03 Com base na Lei nº 10.639, assinada e promulgada em 2003 que define que a temática afro-brasileira …


SOBRE A EDITORA | A Ciclo Contínuo Editorial é uma editora independente que se dedica à publicação de obras literárias e pesquisas na área das Humanidades, com enfoque especial na Cultura Afro-brasileira.

O catálogo da Editora reúne autores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Carolina Maria de Jesus, Abelardo Rodrigues, Lívia Natália, entre outros.

Somado as publicações, a Ciclo Contínuo Editorial também promove ações educativas por meio de seminários, encontro com autores e cursos livres de Literatura.

Saiba mais através do site: www.ciclocontinuoeditorial.com

LANÇAMENTO:

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista – São Paulo

Link evento FB: goo.gl/pwuB2t

www.ciclocontinuoeditorial.com

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Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro.

Autor | Deivison Mendes Faustino

Editora | Ciclo Contínuo Editorial

Páginas | 144

Ano | 2018

Preço | $40,00

ISBN | 978-85-68660-35-5

Esforços da paz vão continuar em Moçambique depois do falecimento de Dhkalama

 

A Renamo, principal partido da oposição em Moçambique, afirmou hoje que vai prosseguir com os esforços de busca da paz no país, respeitando o legado deixado pelo seu líder, Afonso Dhlakama, que morreu na quinta-feira vítima de doença.
Renamo diz que vai prosseguir com busca da paz

“O líder deixou os ´dossiers` [sobre a paz] claros, estão discutidos e estão na mesa, o que precisamos é que ninguém mude, ninguém altere”, disse, em declarações à Lusa, em Maputo, o chefe nacional adjunto para Mobilização da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Domingos Gundana.

Domingos Gundana assegurou que os membros da Renamo estão comprometidos com a manutenção da paz e vão empenhar-se em concluir com sucesso o processo negocial com o Governo.

“Estamos em paz neste momento, se alguém ainda pensa em guerra, está fora do rumo, nenhum membro da Renamo está a pensar no passado [de guerra]”, acrescentou.

Os membros e simpatizantes da Renamo, prosseguiu, saberão honrar o legado de paz que Afonso Dhlakama deixou.

Domingos Gundana adiantou que a Comissão Política da Renamo poderá reunir-se hoje na cidade da Beira para discutir a sequência das exéquias fúnebres de Afonso Dhlakama e os passos necessários para a normalização da situação do partido após a morte do seu líder.

O chefe nacional adjunto para a Mobilização da Renamo afastou o risco de tensões entre a ala política e o braço armado do partido, realçando o princípio da unicidade.

“A Renamo foi sempre una, teve sempre um líder e nunca houve divisões”, enfatizou Domingos Gundana.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

 https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/renamo-diz-que-vai-prosseguir-com-busca-da-paz

A despedida do líder da Resistência Nacional Moçambicana

As bandeiras a meia haste nas duas sedes da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) na cidade da Beira, em Moçambique, são o único sinal visível da morte do líder do partido no quotidiano da capital provincial.
Óbito/Dhlakama: Adeus ao líder da Renamo prepara-se na cidade da Beira

À porta, alguns militantes juntam-se para aguardar pelo final da reunião da comissão política do partido, na sede provincial, que deverá decidir como será feito o adeus a Afonso Dhlakama.

“Só saímos daqui quando soubermos quando é o funeral”, refere, Cândido Vaja, militante integrado num grupo que não passa de 50 pessoas, sentados em cadeiras e bancos dispostos no recinto da sede distrital, noutra ponta da cidade, num ambiente sereno.

A morte do líder da oposição moçambicana causou uma tal surpresa que é natural que ainda não haja maior mobilização, conta um outro militante à Lusa.

A mesma surpresa a que faz alusão Manuel Bissopo, secretário-geral da Renamo, para pedir aos jornalistas tempo para o partido se reunir, remetendo quaisquer declarações para depois do encontro da comissão política.

Pelas 15:00 (menos uma hora em Lisboa), aguardava-se ainda pela chegada de alguns membros do órgão, oriundos de Maputo.

Entretanto, articulavam-se também os contactos com a família de Dhlakama.

Para já, segundo referiu, prevê-se que o funeral decorra em Mangunde, distrito de Chibabava, no interior da província de Sofala, terra natal do líder da Renamo, ainda sem data marcada.

O corpo de Afonso Dhlakama foi transportado de madrugada desde a Serra da Gorongosa e encontra-se na morgue do Hospital Central da Beira, onde à porta permanecem dois militantes de base.

São uma espécie de últimos guardiões do comandante, admitem à Lusa, enquanto aguardam também por novidades.

A cidade da Beira foi a última cidade onde Dhlakama residiu antes de se retirar para a serra da Gorongosa, em 2015, recorda Vaja, que participou nalgumas sessões políticas dinamizadas pelo líder.

“Ele ensinava-nos o que fazer. Em 2017, na serra da Gorongosa, juntou jovens para uma acção sobre preparação de eleições e sobre como detectar acções de fraude”, refere.

Décadas antes, a luta tinha sido feita de armas nas mãos e Janete Tenene, que hoje chora à porta da sede provincial, na Beira, foi uma das militares da Renamo.

“Lutávamos nas matas contra a Frelimo, porque queríamos o multipartidarismo em Moçambique, e ele foi o nosso grande dirigente”, descreve.

Janete foi combatente até à assinatura dos Acordos de Paz de 1992 e aponta o comandante com “um amigo de todos e de tudo”.

A antiga militar faz parte de um grupo que viajou por estrada durante sete horas, de Chimoio, capital provincial de Manica, até à Beira para render a última homenagem a Dhlakama.

“Vai fazer muita falta em Moçambique”, para o processo de paz em curso, acrescentou.

Alberto João, militante da Renamo, tem fé e acredita que “a paz vai continuar”. Há condições, tudo depende do Governo”, conclui.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/obitodhlakama-adeus-ao-lider-da-renamo-prepara-se-na-cidade-da-beira

Nomzamo Winnie Mandela: as mulheres na História da luta contra o apartheid

Tshepiso Mabula 12 de abril de 2018 11:48

Minha avó me disse que o nome Nomzamo em isiXhosa significa a mãe de todos os esforços, ela que nunca pára de tentar e nunca desiste

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Cara prisioneira número 1323/69,

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Comecei a escrever muitas cartas para você, mas nunca terminei uma. Hoje, sinto-me compelido a derramar meu coração a você com o terrível conhecimento de que você nunca conseguirá lê-la. Talvez meu erro seja ter  esperado  ouvir a notícia de sua morte antes de compartilhar meus pensamentos com você.

Eu nasci em 1993 com a promessa de liberdade e democracia. Foi-me dito para esperar por oportunidades intermináveis ​​e uma vida melhor para mim e meus entes queridos. Enquanto escrevo isso, ainda estou esperando.

Eu ouvi muitas histórias sobre sua força resiliente em tempos de adversidade. Foi-me dito que você demonstrou amor resoluto em um tempo de revolução e como você levantou seu punho para dar esperança a um povo aleijado por um sistema projetado para aniquilá-lo.

Minha avó me disse que o nome Nomzamo em isiXhosa significa a mãe de todos os esforços, ela que nunca para de tentar e nunca desiste – e quando soube que era o nome dado a você no nascimento, eu sabia que ela não estava enganada.

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Assim como eu sou negro e sou mulher na África do Sul. Eu acordo todos os dias para me lembrar da minha posição inerentemente subserviente nessa sociedade. Eu sou lembrada diariamente que este mundo não é feito para pessoas como nós, e eu me pergunto como você sobreviveu seus 81 anos.

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Os livros de história que li falam de homens negros fisicamente capazes como os únicos heróis da luta. Retratam  de figuras com barbas revolucionárias e ternos desbotados. São altos e fortes, esses homens que definharam nas celas da prisão e são os protagonistas da luta contra o apartheid.Nelson-Mandela-y-Winnie-por-Alf-Kumalo

Suas esposas são figuras periféricas que só são celebradas por sua capacidade de manter lares e criar filhos na ausência de seus pais. Nada é dito sobre a tortura que elas sofreram. Os muitos meses passados ​​em confinamento solitário. As ordens de proibição e a difamação. A calúnia que elas enfrentaram nas mãos da mídia do apartheid. Os livros de história esqueceram-se de mencionar que, para você, o apartheid não era apenas uma história para dormir; foi uma experiência vivida.img_797x448$2018_04_02_19_54_32_293702

Eles se esqueceram de nos ensinar que você, enquanto criava filhos em um sistema patriarcal, involuntariamente se tornou o portadora da luta pela libertação. Eles esqueceram de nos ensinar que você não era apenas a esposa de um ícone de luta, mas a figura destemida que sofreu atrocidades dolorosas por uma nação que adotou você como mãe, mas o jogou sob o ônibus proverbial depois que seu pai se divorciou de você.we

Quando penso em sua vida, lembro-me de minha mãe, minha avó e muitas outras mulheres negras que se estabeleceram como sacrifícios vivos, suportando uma dor implacável para que suas comunidades pudessem prosperar.winnie (2)

Então,  Nomzamo,  por favor aceite minhas desculpas. Sinto muito por ter ajudado a demonizar você com acusações de assassinato e violência. Lamento nunca ter falado quando você foi acusada de romper com seu casamento  com cinco filhos enquanto não responsabilizava o pai. Perdoe-me por nunca ter dito a você enquanto você ainda estava viva que, se Deus fosse um matemático, você seria a linha de simetria de Deus, onde o eixo X de sua força inabalável encontraria o eixo Y de seu inegável amor e lealdade.

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Sinto muito pelas vezes em que deixei de mencionar que, se Deus fosse músico, vocês seriam os acordes negros e as batidas de Deus das baladas. Que se Deus fosse músico, você seria jazz.

Lamento por acreditar que você seria uma mancha na vida de Nelson Mandela, porque a verdade é que você era a tábua de salvação que mantinha seu nome vivo. Lamento por todas as vezes em que pesei a importância das mulheres negras em nossa sociedade. Lamento apenas comprar flores para elas nos dias de seus funerais. Sinto muito por minha complacência quando elas são empurradas para a periferia e por assistir silenciosamente quando são socados pelos mesmos punhos que foram levantados com gritos de “amandla”.

Fui criada por uma mãe que orava e muitas vezes ouvi a história de Adão e Eva no Jardim do Éden. Diz-se, em algum momento entre morder o fruto proibido e enfrentar a ira de Deus, Adão viu que era adequado trair Eva em vez de agradecê-la por sua libertação.winnie 1323

O Jardim do Éden tornou-se um tribunal de intolerância, onde o patriarcado recebeu seus poderes do supremo tribunal de juízes religiosos. É o lugar onde Eva foi condenada a uma eternidade de dor e sofrimento, e muitos aparentemente concordarão que ela era uma pecadora merecedora.

Passei muitos domingos na igreja imaginando qual o olhar que Eva deu a Adão durante aquele momento crucial em que seu dedo indicador apontou na direção dela depois que Deus fez essa pergunta pertinente. Essa cena muitas vezes me lembra a Comissão da Verdade e Reconciliação, onde você se sentou para responder pelos crimes hediondos que supostamente cometeu quando a guerra estava no auge. O homem com quem você lutou lado a lado sentou-se no maior assento do país. Ele se parecia com um deus. O primeiro do seu tipo, nosso presidente negro.

Fiquei imaginando quando exatamente a amnésia se instalara. Fiquei imaginando como é que todos se esqueceram de que os palitos de fósforo e os pneus pelos quais você foi julgada lhes garantiram a liberação de que agora desfrutavam. Como qualquer outra pessoa em uma guerra, você, Nomzamo, não era uma santa. Você era uma guerreira e, em sua luta, houve baixas.

Embora possamos querer crucificá-la por eles, nunca devemos esquecer que você também foi abusada e espancada pelo sistema contra o qual lutou.

Eu faço este empreendimento para você: Eu não vou te vilipidiar como Adão fez com Eva. Não vou esquecer que você abandonou o seu bem-estar para que eu pudesse ser negra e uma mulher na África do Sul. Não vou esquecer que, como minha mãe e outras mulheres negras, você estava na linha de frente da luta e não apenas como uma figura doméstica subserviente, mas como uma comandante.

Por isso, agradeço, prisioneira número 1323/69. Você pode nunca ser celebrado da mesma forma que o prisioneiro número 466/64, mas, para mim, você sempre será a mãe de todos os esforços, a heróina que nunca desistiu, e uma mulher que foi capaz de amar em um tempo de revolução.

Atenciosamente,

Uma jovem negro nascida livre

Tshepiso Mabula

Tshepiso Mabula é uma fotógrafa e escritora de 24 anos nascida no distrito de Lephalale, em Limpopo, na África do Sul.  Leia mais de Tshepiso Mabula

 

https://mg.co.za/article/2018-04-12-too-late-too-many-things-unsaid

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”
25-03-2018 | Fonte: DW
O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) está a atravessar mais uma fase crítica da sua história, marcada por um complexo período de transição, após as últimas eleições gerais de 2017. A direção do partido no poder confronta-se com a questão da bicefalia na sua liderança, sendo clara a disputa entre o ex-Presidente José Eduardo dos Santos e o atual chefe de Estado, João Lourenço.

O historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, professor convidado da Universidade de Howard, nos Estados Unidos, afirma que nas atuais condições do país este é um problema “muito delicado”. “Tudo dependerá como o MPLA vai gerir a crise”, diz, em entrevista à DW, no dia em que apresentou em Lisboa, Portugal, a versão mais aprofundada do seu livro “Guerrilhas e Lutas Sociais – O MPLA perante Si Próprio (1960-1977)”.
O livro de Jean-Michel Mabeko Tali, apresentado esta sexta-feira (23.03) na Fundação Cidade de Lisboa pelo professor Alberto Oliveira Pinto, é uma nova edição da obra lançada em 2001, que tinha como título “Descendência e Poder do Estado – O MPLA Perante si Próprio”.
A atual versão, mais alargada, reúne novos elementos de análise sobre o contexto político angolano desde a luta armada até a data de realização do congresso do MPLA, em dezembro de 1977.hist
“Tentei trabalhar, sobretudo, sobre o discurso político da elite angolana, a importância desse discurso, bem como sobre todas as jogadas à volta da questão das datas da fundação dos movimentos de libertação e porque é que há tanta polémica à volta disso”, explica o autor, que procurou ir para além da simples cronologia dos factos.
Uma questão de “legitimação”
Na obra, lançada sob a chancela da editora Mercado de Letras, o historiador nascido na República do Congo Brazaville “enfatiza a questão da legitimação de cada um dos atores nesse processo (…) para se poder valorizar nesse mercado político angolano”, procurando legitimar-se a si próprio como grupo. Este é um dos aspetos do debate acalorado sobre a fundação dos movimentos de libertação e que acabou por marcar a vida política em Angola, destacando-se o papel chave da elite que dirige o país desde a independência a 11 de novembro de 1975.
Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, é uma figura de destaque nesse processo, que a dada altura tomou as rédeas do movimento de libertação e marcou com a sua personalidade o seu percurso. Mas, antes dele, lembra Jean-Michel Tali, “temos todo o processo que levou ao surgimento do MPLA”, com figuras também relevantes, como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, entre outros, no “grupo que realmente lançou o movimento”.
No livro, o historiador amigo de Paulo Lara – filho de Lúcio Lara – trata de rever os grandes acontecimentos que marcaram o período da sua investigação, entre os anos 60 e 70. E ressalta os acontecimentos que levaram ao 27 de maio de 1977, “evento que, de certa maneira, mudou a vida política em Angola, de forma terrível”. O académico congolês da geração dos anos de 70, que leciona sobre História Política na Universidade Howard, acha que até hoje ainda se vive as consequências desse período conturbado da História do país.
Tentativa de tomada do poder
Os massacres, as torturas, as prisões e perseguições ou as purgas são temas fraturantes da sociedade angolana, que eram e ainda são tratados como tabu. “Voltei ao tema porque no momento em que comecei a trabalhar sobre esta temática ninguém queria falar”, explica.
“Hoje as memórias se abrem, as pessoas falam um pouco mais, há algumas publicações sobre isso”, adianta. Foi assim que buscou, por exemplo, os arquivos soviéticos, cuja documentação permite entender a extensão e a complexidade da relação do Estado angolano com a União Soviética, mas também, voltando atrás, da relação do MPLA com os soviéticos.
Sobre a alegada tentativa falhada de golpe de Estado ou não, ou sobre a ação do movimento fracionista nitista dentro do MPLA, tem havido muita discussão, reconhece o historiador: “Tento relançar o debate”.
Na sua leitura dos factos, defende que se tratou, sem dúvidas, de “uma tentativa de tomada de poder mal organizada, um pouco caótica e improvisada, mas com consequências gravíssimas”. Sobretudo porque levou ao desaparecimento, não só físico, de uma geração política. “Depois, o partido tentou recuperar alguns deles, mas isto foi uma tragédia que ainda está latente; vive-se ainda hoje”, avalia. Ainda sobre aquele período da história angolana, o investigador concorda, de certa maneira, com aqueles que afirmam que o 27 de maio “foi um grande ajuste de contas” político.
Conflitos internos
A história do MPLA, desde o início da luta armada de libertação, é marcada por conflitos internos. “Esses conflitos internos justificam os vários assassinatos que houve desde os anos 60, quer nas cidades quer nas matas”, explica o académico. No livro, ele tenta explicar também numa longa análise por que razão o movimento não conseguiu sanar tais conflitos internos.
O 1º congresso do MPLA, em dezembro de 1977, acontece numa situação quase que de emergência, depois da violência que rodeou os acontecimentos do 27 de maio.  Mas, o resultado do referido evento não foi o que se esperava. “O próprio [Agostinho] Neto não estava contente com o resultado, dada a situação do movimento, do partido-Estado, que tinha que gerir uma crise interna”, diz Jean-Michel Tali.
Naquela época, Angola havia optado por seguir a via socialista. A surpresa, segundo o autor congolês, é que os soviéticos não terão influenciado esta decisão, tanto é que, para os serviços secretos (KGB), Agostinho Neto era visto como uma ovelha ranhosa, teimosa, mas necessária. “Não foram os soviéticos que disseram a Neto para optar pela via socialista. Ao contrário do que se pensava antes, hoje os documentos provam que os soviéticos estavam com um pé atrás”, revela.
Dessacralizar o relato histórico
Na conversa com a DW, o investigador exorta o partido no poder em Angola a reconciliar-se com a sua própria história, deixando de fazer dela um tabu. “As feridas ainda são muito recentes, mas, de certa maneira, é preciso dessacralizar o relato da gesta nacionalista de forma a deixar as pessoas se expressarem”, apela o académico que integra uma comissão científica da UNESCO encarregue pela produção da história contemporânea de África.
“Lembro que quando comecei o inquérito havia quem não queria falar porque tinha medo de responder as perguntas. Isso resultava de ressentimentos antigos dos que vinham da guerrilha, que achavam que estavam a ser discriminados”, explica.
No entanto, o diferendo ainda não foi sanado. Jean-Michel Mabeko Tali recorda, por exemplo, a velha disputa entre a FNLA e o MPLA sobre a verdadeira data do início da luta armada: a 4 de fevereiro de 1961 ou a 15 de março do mesmo ano. O historiador critica, por outro lado, a geografia de escolha ou definição do mártir, que não pode ser apenas de um dos movimentos que lutaram pela independência de Angola.
Contra a discriminação, dá outro exemplo: “ando à procura de uma Rua Viriato da Cruz e não encontro”. Lamenta ser este mais um problema, porque “ele foi um dos membros fundadores do MPLA, uma figura chave e incontornável” na história de Angola. E diz mais. “É difícil para um professor dar aulas sobre aquele período sabendo do papel de Viriato da Cruz e não falar disso porque tem medo. Reconciliação também é isso”.
Por isso, adverte, “a reconciliação nunca será completa se não dermos valor àquilo que os outros fizeram”. Para Jean-Michel Tali, o relato histórico tem de deixar de ser uma espécie de tabu, para que a nova geração possa perceber e saber o que se passou. “Se não se fizer isso, na minha opinião, vai ser difícil ir mais além”.
O historiador concorda com uma frase do nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade, quando afirmou que “ninguém pode negar a história, mas tem de se falar com realismo”.

Filho adotivo de herói angolano Lucio Lara é professor da Universidade de Howard nos EUA

Jean-Michel Mabeko-TaliEstive a fazer umas investigações sobre a vida de Lucio Lara ex. Secretário Geral do MPLA que faleceu ontem em Luanda, grande companheiro e amigo de Agostinho Neto, sobretudo no período da guerra civil contra a UNITA e a FNLA, no período da conquista da independência.

Depois de ter descoberto que ele tem três filhos vivos, Paulo, Bruno e Wanda Lara, descobri também que adoptou uma criança congolesa. O menino em questão é um rapaz chamado Jean-Michel Mabeko Tali, que tornou-se amigo de Paulo Lara (filho de Lucio Lara) no período em que a família Lara residia no Congo, onde o MPLA mantinha o seu quartel general, no combate às forças coloniais portuguesas.

História política do nacionalista angolano Lúcio Lara.

Luicio Lara com Agostinho Neto em Luanda, em 1978.A história política do nacionalista angolano Lúcio Lara “Tchiweka”, desde os primórdios da luta anticolonial até à independência, em 1975, preenche uma fotobiografia que será lançada em Lisboa no dia 04 de fevereiro.(ACOMPANHA TEXTO) STR/LUSA

Jean-Michel Mabeko Tali hoje em dia é um grande intelectual, professor da Universidade de Howard nos Estados Unidos, onde lecciona sobre Historia Politica.

Navegando na internet encontrei uma sua entrevista, onde fala um pouco sobre tudo da historia angolana, no período da independência. Uma entrevista muito interessante, efectuada em 2003, carente de muitas outras informações recentes.

Eis abaixo a entrevista, que vale a pena ler, porque ele conseguiu manter-se equidistante das actuas forças políticas em Angola, mantendo sempre uma posição neutra.

«Nenhum dos movimentos de libertação (FNLA, MPLA, UNITA) estava disposto a partilhar o poder… Penso, no meu livro, ter dado elementos suficientes para demonstrar isto», afirma o historiador Jean-Michel Tali.Jean-Michel Mabeko-Tali1

Jean-Michel Mabeko Tali, tem vários diplomas de Universidades Francesas, um Mestrado em Estudos Africanos do Instituto de História da Universidade Bordeaux III, uma pós-graduação e um doutoramento em História Política da Universidade de Paris VII.

Além de fazer análises sócio-políticas para várias revistas, Jean-Michel é também romancista. Apresentou em Paris, em Fevereiro de 2002, o livro L’Exil et L’Interdit (O Exílio e o Interdito), dedicado a uma geração na qual se inclui «de jovens revoltados e muito politizados que viveram intensamente a questão dos países africanos dominados por partidos únicos». O seu interesse pela História política terá começado nessa época..

O seu 2º romance publicado também pela Editora L’Harmattan intitula-se “Le Musée de la Honte” (O Museu da Vergonha), fala das crianças soldados, na guerra civil do Congo, é uma homenagem a uma irmã sua que foi recrutada e, será lançado em Paris, em meados deste ano.

A partir de Washington, onde se encontra como professor convidado na Howard University, Jean-Michel Tali teve a gentileza de nos conceder esta entrevista sobre os dois volumes da sua obra “O MPLA Perante si Próprio”, lançada em Angola em Outubro de 2001 e, em Lisboa, em Maio de 2002. Trata-se de uma investigação histórica sobre o percurso deste movimento transformado em partido único.

Foi no Congo que tomou contacto com militantes do MPLA. Nunca foi simpatizante do movimento?

O meu encontro com o MPLA teve lugar em Brazzaville, por intermédio de amigos Angolanos. Sou de uma geração (anos70) politicamente muito engajada, que se sentia solidária com todos os povos em luta e com todas as lutas de libertação do mundo, da África à Ásia e América Latina. Os povos de Angola viviam isso, através dos movimentos. O MPLA, sediado em Brazzaville, era para nós, representante desta luta. Fizémos o que pudémos para manifestar a nossa solidariedade ao povo angolano através do MPLA. Neste sentido, fui de uma geração solidária e, portanto, simpatizante da luta de libertação feita pelo MPLA. Não sendo Angolano, as minhas manifestações de simpatia limitavam-se a esse nível.

Como conheceu e se tornou íntimo da família Lara?

A relação com os Lara fez-se através de uma longa história de amizade entre eu e Paulo, amigo de colégio e, primogénito da Ruth e do Lúcio, em Brazzaville, nos fins dos anos 60. Tornámo-nos como que irmãos.

Como analisa o facto do MPLA ter tomado unilateralmente o poder e se ter mantido nele durante estes quase 30 anos apesar das crises que ocorrem no seu interior, desde a fundação?

Esta questão abarca considerações que vão além da simples política doméstica angolana. Na realidade, nenhum dos movimentos de libertação (FNLA, MPLA, UNITA) estava disposto a partilhar o poder com os dois outros. Não estou a fazer nenhuma revelação e, penso ter dado elementos suficientes no meu livro para demonstrar isto. Aconteceu que neste processo de 1974-75, o MPLA beneficiou de uma série de factores conjunturais, tanto objectivos como subjectivos, para “fintar” (passo a expressão) os seus dois concorrentes.

Por factores objectivos, entendo as alianças políticas tanto internas, a nível da sociedade angolana, como internacionais. Cada um dos três movimentos armados beneficiou destes factores. Mas o que fez virar o barco a favor do MPLA, terá sido a maior capacidade, a nível interno, em capitalizar alianças locais, nomeadamante das forças sociais da capital, muito mais eficientes para a conjuntura de então. Contou muito, ter a capital na mão, no contexto africano da altura, era um trunfo essencial para o que viria. As alianças internacionais: aliar-se a Cuba era, de certo muito menos prejudicial do que aliar-se ao regime de Botha e trazer o exército da África do Sul dos tempos do apartheid, independentemente das razões invocadas: moralmente, isto dificilmente passava tanto em África como na maior parte do mundo. Isto jogou muito contra a FNLA e a UNITA. O resto foi um jogo diplomático dos mais fáceis para o MPLA e os seu apoiantes.

Recordo a imagem de soldados brancos, do exército sul-africano, capturados pelas FAPLA e seus aliados cubanos, isto levado a uma cimeira da OUA…

Pode imaginar o impacto diplomático que teve! Depois disto e, apesar de algumas oposições a nível da OUA, não foi difícil fazer admitir a República Popular proclamada por Agostinho Neto nas instâncias africanas e internacionais. Subjectivamente, vou apenas lembrar que: não foi difícil ao MPLA mobilizar o povo de Luanda (e não se trata apenas uma questão étnica) contra a FNLA: por razões históricas objectivas, muitos dos Angolanos do ELNA (exército da FNLA), não dominavam a língua portuguesa. Às vezes nem sequer a falavam. Muitos eram filhos de emigrados angolanos de longa data no antigo Congo-Belga. A propaganda do MPLA, inventiva e muito dinâmica na altura, apresentou toda esta gente como sendo estrangeiros, “zairenses”, etc.

Houve participação do exército zairense – e não há maneira de a FNLA negar isto, pois não só foram capturados alguns soldados do exército de Mobutu, mas fontes da própria CIA o reconhecem. Mas os Angolanos do ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola, braço armado da FNLA) acabaram por não entrar muito na contabilidade.

Era como se não existissem! Isto foi um formidável factor que jogou a favor do MPLA e, cujas consequências ainda se podem sentir hoje, como sabe… As invasões estrangeiras, sul-africanas nomeadamente, deram ao MPLA todos os trunfos de legitimação e, de perduração do seu poder. A guerra civil, alimentada por vários factores, deu um fôlego maior a este longo reinado do MPLA. De forma que a própria vida do partido – e do país – ficou suspensa ao fim deste longo conflito: adiou-se a resposta a muitas questões quer internas ao partido, quer sociais, quer políticas, com base na resolução prévia deste conflito.

Quais foram as alianças mais importantes que o MPLA fez antes e depois da independência e actualmente?

Nenhuma luta de libertação levada a cabo no chamado “terceiro mundo” e, mormente em África escapou a um facto objectivo: não podiam contar com o apoio dos países ocidentais em termos daquilo que era essencial: as armas.

Houve, por exemplo, nos casos das lutas nas colónias portuguesas, ajudas humanitárias de países nórdicos, ou pelo menos de organizações humanitárias e de solidariedade destes países. O MPLA beneficiou muito do apoio de organizações norueguesas, holandesas e dinamarquesas. Para as armas, só podiam contar com os países socialistas, do Leste Europeu, da América Latina (Cuba) – e de forma muita complexa e mitigada – da Ásia (China e, de certo modo, muito pouco, da Coreia do Norte).

Portanto, era normal que as maiores alianças internacionais do MPLA movimento de libertação fossem com estes países. Havia os países africanos, cujo papel era absolutamente fundamental, nem que fosse por meras questões geográficas: os Congos e a Zâmbia para os movimentos angolanos, o Senegal e a Guiné Conakry para o PAIGC, a Tanzânia e a Zâmbia e, em certa medida (não muito seguro) o Malawi para a FRELIMO (já que não podiam contar muito com a Rodésia do Sul (actual Zimbabwe), o pequeno reino da Swazilândia, dada a sua difícil situação geográfica. No caso do MPLA, o maior e mais seguro aliado em África foi sem dúvida alguma o Congo-Brazzaville. Depois da independência, essas alianças foram-se diluíndo em certos casos (africanos), nas considerações de questões e “razões de Estados”… As solidariedades já não foram – e nem podiam, como é obvio! – ser as mesmas.

Qual foi o papel da PIDE nos problemas do MPLA?

Na guerra entre os movimentos de libertação dos territórios colonizados, temos sempre dois ou três níveis. O primeiro – que se torna o fundamental, mesmo quando às vezes só intervem depois, o terreno militar, quando a potência ocupante se recusa a dar a independência, como foi o caso de Portugal. O segundo terreno, é o diplomático, também é fundamental, pois dele dependem, não só a sobrevivência do movimento armado (graças à aquisição de armamentos por diversas vias entre as quais ajudas de aliados e amigos), mas também porque é nele que tem que se lutar para fazer passar mensagens, fazer vencer a causa defendida e atrair ajudas político-diplomáticas, humanitárias e materiais. Portanto, o reconhecimento internacional é essencial e constitui para todo movimento armado um terreno de luta vital. Graças a ele, o movimento pode romper as barreiras de silêncio que em geral os media das super potências construíam à volta das lutas de libertação. O silêncio, para qualquer movimento de libertação, pode ser mortal. Veja-se Timor Lorosae e, dá para entender a importância da mediatização de uma luta de libertação, isto dito sem demérito do combate interno, do qual depende o essencial da vitória. Há no entanto um terceiro terreno: a subversão. Era de “boa guerra” diríamos, no sentido de que neste tipo de situações cada um procura destruir o outro de todas as maneiras possíveis. A potência combatida vai, não só procurar destruir militarmente o movimento armado, como procurará miná-lo no interior, provocar disfunções, etc. Quem executou os planos de assassinato de Amílcar Cabral urdidos pela PIDE, foram militantes dissidentes do PAIGC. A PIDE aproveitou problemas internos ao PAIGC para armar uma mão interna. Os movimentos de libertação não tinham, concerteza, meios de responder pela mesma moeda. Quanto muito procuravam obter a solidariedade de organizações políticas portuguesas.

Mas ao mesmo tempo, seria histórico e contraproducente em termos da compreensão deste processo atribuir à PIDE todos os dissabores internos dos movimentos de libertação. No caso do MPLA, procurei mostrar, no meu livro, que as raízes das crises que sacudiram o movimento de libertação na altura, tinham de ser procuradas em factores intrínsecos e, não imputá-las sempre a uma “mão externa”, à PIDE, etc.

A que se ficou a dever o 27 de Maio?

Vou resumir aqui o que explico no livro: o 27 de Maio de 1977 é o culminar de contradições cujas origens devem ser procuradas desde a luta de libertação nacional por um lado e, nos rescaldos das lutas e aspirações sociais herdadas da sociedade colonial angolana. Nito Alves foi um combatente de uma região que pagou caro a sua proximidade com a capital da colónia. O seu contacto com a direcção do MPLA passou-se praticamente no fim da guerra. Ele como outros da Primeira Região, tinham claramente feito entender a sua diferença quanto à visão que tinham não só da forma como a luta foi dirigida (e nisto peço para lerem a mensagem da Primeira Região ao Congresso de Lusaka de Setembro de 1974, anexado no meu livro, volume I), mas e muito rapidamente, de questões como a gestão da questão racial no seio da sociedade (ler as declarações de Nito, nomeadamente em 1976, sobre este assunto e, cujos extractos cito no meu livro) e as questões sociais.

Mormente, a questão da orientação ideológica do partido no poder acabou agudizando as já existentes divergências: Nito queria uma revolução pura e dura, de tipo Bolchevick, o seu discurso pro-soviético não deixa sombra de dúvidas. Mas eu não me quis limitar a isto. O que tento mostrar é que, para se entender as motivações de Nito e, dos seus companheiros, não seria produtivo do ponto de vista da análise contentar-nos em dizer que ele se tornou “de repente” pró-soviético”.

Havia outros que o eram e outros que eram maoístas, etc. O importante na minha opinião, é entender a dinâmica socio-politica que desemboca nesta tragédia. Parece-me importante colocar a questão em termos das lutas sociais que sustentam o discurso político de Nito, e a sua convicção, quase que messiânica (clara em alguns dos seus discursos ou escritos, nomeadamente as suas famosas “Treze teses”) de que a história tinha colocado nos seus ombros um papel fundamental neste processo revolucionário angolano.

Conforme declarações suas, foram os mesmos jovens que ajudaram o MPLA a vencer a guerra de Luanda, que no 27 de Maio foram eliminados, porquê?

O MPLA deve sim, a sua regeneração política de 1974-1975 à juventude urbana, mais particularmente em Luanda.

O movimento acabava de sofrer uma longa fase de sucessivas crises e, quando chega o 25 de Abril, é um movimento exausto, dividido, militarmente sem mais capacidade de iniciativa, enquanto que, entretanto, a FNLA estava a rearmar-se como nunca o tinha sido antes e, a UNITA, que se precipitou em assinar o cessar-fogo com as novas autoridades portuguesas, saía dos confins do Moxico para não só ser reconhecida finalmente pela OUA, mas sobretudo ganhar milhares de adeptos nos centros urbanos, sobretudo no planalto central e, no resto do sul do país (há reportagens fotográficas de comícios monstruosos da UNITA nestas regiões. A entusiástica adesão de milhares de jovens, que foram das cidades para os CIR (Centros de Instrução Revolucionária), cheios de ideias românticas e muita sinceridade para ser formados como soldados, de repente deu a Agostinho Neto o fôlego que permitiu que ele e o que restava do movimento pudessem reconstituir o potencial militar deste. Não fosse isto e, face a uma provável coligação FNLA/UNITA, o MPLA teria vivido uma real descida aos infernos. A história teria sido outra.

O problema é que esta juventude entusiasta, voluntarista, estava dividida em várias tendências ideológicas, que reflectiam em grande parte as divisões ideológicas que marcavam o movimento comunista internacional, mas reflectiam igualmente as divisões ideológicas na esquerda portuguesa do pós-25 de Abril.

Estas divisões são um dos mais marcantes aspectos das lutas políticas urbanas daquela época. Para ser breve: houve um choque entre estes jovens, suas visões do mundo, suas ideologias, etc., com as da liderança do MPLA, mormente de Neto. Alguns entraram em choque com Nito Alves; outros viram nele o verdadeiro e único revolucionário, face a uma direcção do MPLA que eles e outros (os CAC por exemplo, seus adversários) qualificavam de “burguesa”. O resto você sabe… Não vou aqui entrar no macabro debate estatístico sobre quantos terão sido mortos a 27 de Maio de 1977… O drama do que aconteceu não se limita a isso….

Acredita que ficou isento na sua pesquisa?

Sou um profissional das Ciências Históricas. Nesta qualidade sei, e, aprendi desde o primeiro ano na Faculdade, que a neutralidade, em Ciências Sociais e, mormente em História, é um exercício difícil de se realizar, porque quem escreve é um ser social, com uma trajectória, com vivências, uma educação, opiniões políticas próprias, etc. Isto quer dizer que estes aspectos todos podem interferir de uma forma ou de outra na obra e, dar uma certa orientação ao conteúdo desta. Em todas as Faculdades por onde passei, os mestres sempre chamaram a nossa atenção para isso. O valor do bom historiador reside então na sua capacidade em poder colocar-se acima da subjectividade, sobretudo quando se trata de questões polémicas.

A minha especialidade é a História Política, com tudo o que isto acarreta em termos de riscos de subjectividade e de parcialidade na análise dos factos.

Tentei fazer o melhor possível para escapar a estas armadilhas que espreitam qualquer historiador e, mais ainda, o politista neste tipo de empreendimentos – descrever e analisar um processo político-histórico. As reacções positivas e de encorajamento que tenho recebido por todo o lado, inclusive de personalidades que me consideravam como demasiado ligado a algumas das velhas figuras do MPLA, seus opositores nas lutas internas no seio do ex-movimento de libertação, deixam entender que atingi o objectivo desejado: manter-me isento, equidistante e, analisar com a maior frieza possível, sem tabus e sem temores, o processo da luta de libertação, bem como os dramas que marcaram a trajectória do MPLA. Mas, deixo aos leitores, a latitude de apreciar. Dito isso, quero ser realista: o historiador que escrever o livro perfeito, sem falhas (quer objectivas, por falta de mais dados, quer subjectivas por alinhar mais numa posição do que noutra), ainda está para nascer. Como Historiadores, escrevemos o que as nossas fontes nos disponibilizam e, as nossas análises não podem ser tidas como alguma palavra de Deus. As análises resultam dos limites dos nossos conhecimentos, da experiência como académicos, das fronteiras que conseguimos atingir em termos de saber científico, de estudo, mas também – e muito! – da experiência humana acumulada. Se tivesse escrito este livro mais tarde, talvez fosse ainda mais completo, mais profundo, etc. Porque teria, entretanto, ganho mais alguma coisa em termos de experiência, tanto humana como académica. Tive como bandeira a honestidade intelectual e a luta contra todo tipo de tabus nesta matéria.

A publicação do livro “O MPLA Perante si Próprio”, não representa o fim do seu interesse pelas questões políticas de Angola. Fará outros estudos nessa área?

O processo angolano é como que um laboratório vivo. Um terreno de pesquisa que tem ainda muitíssimo para dar. Portanto, penso que tenho muito que aprender e pesquisar neste fértil terreno.

Jean-Michel Mabeko Tali, Howard University, Visiting Professor Washington, DC.

 

Fonte:http://www.angola24horas.com/index.php/sociedade/item/5879-entrevista-ao-filho-adoptivo-de-lucio-lara-jean-michel-mabeko-tali

A história oficial de Angola baniu diversos mártires da luta de libertação

mapa angolaA concorrência entre os movimentos nacionalistas angolanos, antes e depois do início da luta armada, tornou a narrativa sobre a gesta nacionalista global um quebra-cabeças para os estudiosos que queiram olhar com objetividade esta história no seu todo.

A frase é do historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali, proferida no decorrer de uma entrevista à agência Lusa, a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras e que constitui, assumiu, um “ensaio de história política”.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo-Brazzaville os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, lembrou que tanto o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) procuraram “puxar o cobertor da narrativa para si”.

Para o académico natural do Congo-Brazzaville e desde 2002 professor na Universidade de Howard, exemplo disso mesmo é a disputa entre MPLA e FNLA sobre a questão das datas mais importantes da luta de libertação do jugo colonial português, “as que até agora estão consagradas com um “selo de santificação política”.

“São as datas que decorrem da narrativa assumida pelo vencedor desta concorrência intra-nacionalista. Ou seja, o MPLA. O mesmo acontece com aquilo que podemos chamar de ‘genealogia dos mártires’ da luta de libertação. Pode procurar em vão nesta genealogia algum nome de um comandante de guerrilha da FNLA. Da UNITA nem se fala, e por motivos que se pode ainda compreender, dado o percurso um tanto controverso”, explicou.

“Pior ainda, no seio do próprio MPLA, antigas querelas internas, e dissidências, acabaram como que banindo para a eternidade nomes de peso na génese deste partido. Não me parece que haja, ainda hoje em dia, um ‘becozinho’ de rua, uma escolinha, mesmo de aldeia, uma ruazinha, com o nome de Viriato Clemente da Cruz, o verdadeiro conceptor, ‘pai fundador’ e primeiro secretário-geral do MPLA”, salientou.

O mesmo se passa, acrescentou Mabeko-Tali, em relação a Mário Pinto de Andrade, primeiro presidente do MPLA, ou Matias Migueis, primeiro vice-presidente.

“Mas temos Rua Ho Chi Minh, Rua Che Guevara, figuras revolucionárias, certo, e de prestígio e de importante referência na teorização da luta anticolonial do antigo ‘Terceiro Mundo’, mas que não terão tido um papel igual a estas três figuras nacionalistas angolanas, cujo pecado mortal foi o de discordar com parte da direção do movimento de libertação de então. Isto torna a reconciliação nacional problemática se o próprio MPLA não consegue sanar as suas próprias feridas internas”, enfatizou.

Sobre o livro, o académico congolês lembrou que, em 2001, publicou uma versão parcial do atual, tendo, depois, recebido inúmeros contributos que viabilizaram, quase 17 anos depois, o reforço do ensaio.

“Tive acesso a novas fontes, quer escritas, quer orais, às quais eu não tinha tido oportunidade de aceder antes, assim como à publicação de memórias de antigos combatentes dos antigos movimentos da luta de libertação. E houve fontes de arquivos quer da antiga potência colonial, quer dos antigos aliados soviéticos. Tudo isto levou a uma necessidade de voltar a debruçar-me novamente sobre o essencial dos problemas que tinha abordado anos antes”, explicou.