Angola emergiu uma burguesia burocrática-empresarial e uma elite econômica

Jean-Michel Mabeko-Tali1.jpgO historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali defendeu hoje à agência Lusa que o atual Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975) está dividido em três — massa popular, classe média e a elite.

Jean-Michel Mabeko-Tali, natural do Congo-Brazzaville e professor desde 2002 na Universidade de Howard, em Washington, falava à Lusa a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, recordou que, nessa altura, existiam dois MPLA, liderado pelo “oficial”, e o “popular”, o das “massas”.

O “oficial”, sustentou, tinha uma direção que mantinha “uma relação especial com dirigentes congoleses” — “de elite para elite” -, e que beneficiava de vários privilégios, como documentos para viagens, passaportes com nomes falsos para permitir viagens no exterior em benefício da luta de libertação.

“E havia um MPLA popular, composto por militantes de base, que não tinham o mínimo acesso a estes pequenos privilégios, e muito menos contactos com a elite do país anfitrião. Embora não diretamente ligados à estrutura do movimento de libertação, tinham-no como um elemento de referência identitário e de ligação com Angola. Foi neste MPLA popular que houve o fenómeno de aprendizagem e de prática das línguas veiculares locais, como o ‘lingala’, coisa que, salvo raras exceções, não se verificava nos meios do MPLA oficial e da elite”, realçou.

Segundo o autor, doutorado em História pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot e mestre em estudos Africanos, está aí a “génese” de o MPLA de hoje refletir a divisão da sociedade angolana pós-independência em múltiplas classes sociais, cujo cordão umbilical, em termos de identidade política para uma boa parte dessas classes, é o MPLA.

“Mas é um MPLA que aparece, cada vez mais, sob visões diferentes, consoante se está nos musseques ou em bairros privilegiados. Há um MPLA que pertence à massa popular, sua base social incondicional; há um MPLA da classe média, o sustentáculo medianeiro que serve de caixa-de-ressonância e de megafone ao discurso da elite dirigente. E há esta elite, suficientemente dotada e talentosa, ao ponto de conseguir transformar o seu discurso social em discurso nacional e integracionista, que até a oposição acaba comprando”, explicou.

“[A elite] pertence a uma burguesia largamente compradora, pois na sua maioria recipiente das prebendas que resultam da inserção de Angola na economia-mundo, numa conexão em que ainda sobrevive, em larga medida, uma economia extravertida herdada do modelo económico colonial”, argumentou.

Segundo o académico congolês, os 38 anos de consulado do agora ex-Presidente José Eduardo dos Santos, “com a sua carga de estrondosos e rápidos enriquecimentos, alienaram de certo modo, e progressivamente, o forte laço político-identitário que ligava o MPLA popular e o elitista”.

“Nisto jogou também, e objetivamente falando, o pouco, senão mesmo a falta de laços de cumplicidade que o próprio presidente não foi capaz de criar com a população, sobretudo, nas províncias. Ao contrário de Agostinho Neto, não obstante o seu curto consulado à frente dos destinos do país (1975-1979), o seu sucessor não soube criar, um contrato de confiança com a população, e menos ainda com a Angola profunda. Nada de espantar, portanto, que a imagem do presidente Agostinho Neto ainda domine largamente em muitos desses lugares da Angola profunda”, destacou.

“A transformação do próprio partido numa máquina empresarial bilionária acabou por fazer emergir uma burguesia burocrático-empresarial e uma elite económica que, ao que me parece, olha agora com temor tanto para uma juventude urbana cada vez mais irrequieta, que mal se revê na JMPLA, como também para os musseques, mesmo que esses ainda lhe sejam largamente fiéis”, concluiu.

História de 4 abril é o fim de um longo período de guera em Angola

dia 4 de abril

Diogo Paixão

Quando a História  recente de Angola começar a ser escrita, Luena ocupará, certamente, um lugar central nas suas páginas, por ser o local onde se enterrou, em definitivo, o machado da guerra, depois de quase quatro décadas de matanças e destruição, num país com  potencial económico invejável. Afinal, a história faz-se com vários retalhos.

Muitas pessoas nasceram e morreram sem conhecer um momento de paz, fruto de desentendimentos políticos entre os movimentos  de  libertação e da resistência anti-colonial. Até parecia que a guerra era a nossa sina, mas Luena veio devolver a esperança, a vontade de viver e as condições objectivas para os angolanos poderem sonhar com um país melhor.

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Nunca os filhos desta terra compreenderam tão bem o significado da paz e estabilidade como agora. E têm razões para isso, porque todas as tentativas de pacificação feitas até então não resultaram. Antes do Luena, houve Gbadolite, Bicesse, Abidjan e Lusaka. Mas as desconfianças eram tão profundas, que inviabilizaram o diálogo.
De todos os processos de paz, o Protocolo de Lusaka foi o que mais tempo levou a ser negociado. Uma maratona de quase um ano, que tinha como base a desmobilização das tropas governamentais e da UNITA. Depois de uma paz efémera, a guerra voltou a eclodir e, desta vez,  com maior intensidade, destruindo várias infra-estruturas. O saldo foi pesado.
Fiz parte do grupo de jornalistas que  acompanhou este processo, na capital zambiana, e havia indicadores para o  cepticismo, em relação a um eventual su-cesso do acordo. A ausência de Jonas Savimbi da cerimónia de assinatura, quando poucas horas antes tinha confirmado a sua presença, foi reveladora.
O tratado foi rubricado no dia 20 de Novembro de 1994, pelo então ministro das Relações Exteriores, Venâncio de Moura, e pelo  antigo secretário-geral da UNITA, Eugénio  Manuvakola, na presença do ex-Presidente  da República, José Eduardo dos Santos, e do mediador do processo, o maliano Alioune Blondin Beye.

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Eugénio Manuvakola, na qualidade de chefe da delegação da UNITA às conversações, pagou caro a “ousadia” de rubricar o acordo, apesar de ter sido o próprio líder do partido a indigitá-lo. Conta que chegou a ser preso, tendo fugido, posteriormente, para Luanda, onde viria a criar a extinta UNITA-Renovada. A indefinição da UNITA nas negociações era indisfarçável. Sempre que o processo entrasse num impasse, as delegações iam consultar as suas respectivas chefias e, quando regressavam a Lusaka, o então movimento rebelde assumia novas posições.  Parafraseando Lénine, dava-se “um passo à frente e dois passos à rectaguarda”, situação que arrastou o processo por vários meses.

Experiência agradável

Lusaka foi para mim uma experiência agradável, mas também muito difícil. Diria mesmo que foi uma faculdade sem cadeiras, pois não foi fácil fazer a cobertura de um processo que definia o futuro do país, sem um porta-voz e com um “black-out” rigoroso. O risco de falhar era enorme. Era  como andar no escuro.
Os profissionais da im-prensa não tinham acesso à sala, nem podiam aproximar-se do Centro de Conferências de Mulunguxi, local onde decorriam as conversações. Mas se o jornalista leva uma “vida de cão”, pela especificidade do seu trabalho, também ele tem  o faro desse animal. Apesar das dificuldades, conseguíamos sempre obter os dados essenciais para a elaboração da matéria, quer  através de fontes da UNITA, quer do Go-verno ou da própria mediação. E isso irritava maitre Beye, que fez do “black-out” a sua maior arma.
O facto de os jornalistas terem ficado hospedados no mesmo hotel que a delegação do Governo nem por isso constituía alguma vantagem, na obtenção da informação. Às vezes era mais fácil obter algum dado através da delegação da UNITA do que da equipa governamental.
Lusaka permitiu-me também fazer muitas amizades e cimentar outras. Permitiu-me ainda conhecer um pouco mais os hábitos e costumes dos zambianos, além de outras localidades do país. Sempre que as delegações regressassem a Angola, para consultar as respectivas chefias (e geralmente isso acontecia aos fins de semana), era uma oportunidade para espairecer.
O encontro das chefias militares, realizado na pequena localidade da Tchipipa, província do Huambo, teve o condão de colocar, pela primeira vez,  frente a frente,  as altas patentes dos dois lados, para a aplicação dos aspectos técnicos, como o aquartelamento das tropas.
Antes do início do acordo, que decorreu numa pequena capela, o clima era pesado. Com armas em riste e numa autêntica demonstração de força, comandos militares dos dois lados, escolhidos para proteger as referidas delegações,  estavam cara a cara, separados apenas por vinte metros. Cada grupo tinha vinte homens. O general Ben Guriba (já falecido), então chefe da missão militar da ONU, não gostou e mandou recuar a tropa para lá de duzentos metros. “Viemos discutir a paz e não a guerra”, teria dito o general nigeriano.
O Protocolo de Lusaka visava corrigir as falhas de Bicesse, que teve como principal negociador Durão Barroso. Em 1994, enquanto decorriam as conversações de Lusaka, o português chegou a admitir, numa entrevista ao semanário Expresso, que “tanto o Governo como a UNITA não estavam preparados para perder as eleições de 1992”. Sublinhou, entretanto, que teve maiores dificuldades em negociar com Jonas Savimbi.
Margareth Anstee, que foi a primeira mulher a exercer o cargo de representante especial das Nações Unidas e que declarou como “justas e livres” as primeiras eleições em Angola, deixou o país com uma certa amargura, por não ter conseguido a paz  definitiva. Em Abidjan, teve uma das suas maiores decepções, quando a UNITA recusou-se a assinar o documento e os anexos do acordo, apresentando uma exigência que se prendia com a segurança das tropas a serem retiradas das zonas que estavam ocupadas. Na altura, a UNITA tinha ocupado 75 por cento do território nacional e estava convencida da vitória militar.
Na sua obra “Órfã da Guer-ra Fria”, dedicada a Angola, Anstee narra vários episódios que marcaram o seu mandato.

Valores da unidade

O 4 de Abril significou o fim de um longo período de guerra e o início da reabilitação e construção das infra-estruturas económicas e sociais. Foram erguidas novas escolas, estradas,  unidades hospitalares,  pontes e  centrais hidroeléctricas.
Ao contrário do que acontecia no passado, hoje os camiões que garantem o abastecimento no interior do país circulam sem escoltas militares. É certo que há ainda um longo caminho a percorrer, mas muito foi feito.
Ao celebrarem  o Dia da Paz, os angolanos acreditam que os valores da unidade e da reconciliação  se fortalecem cada vez mais.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/e_assim_se_construiu_a_paz

União Africana homenageia a Winnie Madikizela Mandela

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Addis Abeba – O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, qualificou Winnie Madikizela-Mandela de ícone da luta contra o apartheid, tendo em conta a sua postura de militante destemida que sacrificou grande parte da sua vida pela liberdade na África do Sul.