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Obra de Amílcar Cabral indicado para Programa “Memória do mundo” da UNESCO

A CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa expressou apoio institucional à candidatura da obra de Amílcar Cabral ao programa “Memória do mundo” da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

CPLP apoia candidatura da obra de Amílcar Cabral ao programa da UNESCO

A CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa expressou apoio institucional à candidatura da obra de Amílcar Cabral ao programa “Memória do mundo” da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Conforme divulgado pelo A Semanaonline, a responsabilidade é da Fundação Amílcar Cabral, uma organização cabo-verdiana sem fins lucrativos e que foi fundada em 2005, gozando do estatuto de Observador Consultivo da CPLP. É que uma das atribuições da FAC é preservar a obra e a memória deste dirigente histórico e fundador do PAIGC,designadamente através de acção editorial própria e da animação do espaço museológico, criado em 2015, “Sala-Museu Amílcar Cabral”.

“Assegurar o acesso permanente e universal e a preservação do património documental” é o objectivo do Programa “Memória do Mundo” da UNESCO, estabelecido em 1992, contribuindo para uma maior consciencialização mundial da importância, para todos, do legado documental. Daí a preposta da FAC de se candidatar a obra de Amílcar Cabral ao programa «Memória do Mundo» da UNESCO.

https://www.asemana.publ.cv/?CPL-apoia-candidatura-da-obra-de-Amilcar-Cabral-a-programa-da-UNESCO

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90 anos de Che

Cuba comemora hoje os 90 anos do líder revolucionário Ernesto “Che” Guevara (1928-1967) com eventos em todo o país, que terão como centro a cidade de Santa Clara, onde jazem os restos mortais do guerrilheiro cubano-argentino e que recebe uma grande cerimónia no Mausoléu dedicado a si.

Fotografia: DR

As comemorações começaram ontem pela manhã com uma peregrinação do obelisco em homenagem ao herói independentista cubano António Maceo até à praça do Mausoléu, na qual foi carregada uma estátua de mais de 16 metros que representa o Che com uniforme militar e com um braço numa tipoia. O túmulo de Chee dos seus companheiros de luta em Santa Clara foi visitado por mais de 4,5 milhões de pessoas desde que os seus restos mortais chegaram ao país em 1997, e serviu de sede central em Outubro para a celebração nacional dos 50 anos da morte do guerrilheiro.
Com o aniversário de Che Guevara, a ilha também celebra o nascimento de António Maceo (1845-1896), o “Titã de Bronze” das guerras contra o domínio espanhol.

 

Fonte:http://jornaldeangola.sapo.ao/mundo/cuba_assinala_90_anos_de_che

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

 

Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro

O livro Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro já tem o primeiro lançamento marcado para o dia 11 de maio, no Al Janiah, São Paulo. O evento contará com debate sobre o livro com o professor Dennis de Oliveira e Deivison Mendes Faustino. Para encerrar o evento, intervenção musical a cargo de Conde Favela Sexteto.

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista.

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SOBRE O LIVRO | Há mais de cinco décadas de seu falecimento, Frantz Fanon, publicado em diversos países e analisado por destacados estudiosos do pensamento crítico contemporâneo, é, sem dúvidas, um dos intelectuais negros mais importantes do século XX, que atuou como psiquiatra, filósofo, cientista social e militante anti-colonial.

Sua obra influenciou movimentos políticos e teóricos em todo o mundo e suas reflexões seguem reverberando em nossos dias como referência obrigatória em diversos campos de estudo. Por isso, em Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro, Deivison Mendes Faustino apresenta a trajetória política e teórica de Fanon desde a sua infância na Martinica até a sua participação nos movimentos de libertação na África. Trata-se de uma rigorosa investigação, em que a obra do intelectual martinicano é revisitada com vistas à sua biografia, de forma a oferecer ao leitor brasileiro um panorama mais amplo a respeito do contexto e dos dilemas enfrentados por Fanon no momento de cada escrito seu.

O presente ensaio aqui apresentado é, nesse sentido, corolário de uma séria atividade intelectual e se constitui como uma fundamental contribuição para o debate sobre a presença do pensamento negro e sua resistência política e intelectual na sociedade contemporânea. Que seja este, portanto, um livro para ler e refletir.

SOBRE O AUTOR | Deivison Mendes Faustino, também conhecido como Deivison Nkosi, possui doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos.

É Professor Adjunto da Universidade Federal de São Paulo – Campus Baixada Santista, onde também atua como pesquisador do Núcleo Reflexos de Palmares e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros – NEAB da UNIFESP e integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude e do grupo Kilombagem. Recebeu, em 2015, a Menção Honrosa do Prêmio CAPES pela tese intitulada Por que Fanon, por que agora? Franz Fanon e os fanonismos no Brasil.

https://www.youtube.com/watch?v=mVFWJPXscm0

 deivisno.jpg Introdução ao pensamento de Frantz Fanon – Deivison Nkosi (CyberQuilombo)

www.youtube.com

CYBERQUILOMBO Queremos facilitar a aplicação da lei: 10.639/03 Com base na Lei nº 10.639, assinada e promulgada em 2003 que define que a temática afro-brasileira …


SOBRE A EDITORA | A Ciclo Contínuo Editorial é uma editora independente que se dedica à publicação de obras literárias e pesquisas na área das Humanidades, com enfoque especial na Cultura Afro-brasileira.

O catálogo da Editora reúne autores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Carolina Maria de Jesus, Abelardo Rodrigues, Lívia Natália, entre outros.

Somado as publicações, a Ciclo Contínuo Editorial também promove ações educativas por meio de seminários, encontro com autores e cursos livres de Literatura.

Saiba mais através do site: www.ciclocontinuoeditorial.com

LANÇAMENTO:

11|05 (sexta-feira) às 19h30, Al Janiah – Rua Rui Barbosa, 269 – Bela Vista – São Paulo

Link evento FB: goo.gl/pwuB2t

www.ciclocontinuoeditorial.com

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Título | Frantz Fanon – Um revolucionário, particularmente negro.

Autor | Deivison Mendes Faustino

Editora | Ciclo Contínuo Editorial

Páginas | 144

Ano | 2018

Preço | $40,00

ISBN | 978-85-68660-35-5

Esforços da paz vão continuar em Moçambique depois do falecimento de Dhkalama

 

A Renamo, principal partido da oposição em Moçambique, afirmou hoje que vai prosseguir com os esforços de busca da paz no país, respeitando o legado deixado pelo seu líder, Afonso Dhlakama, que morreu na quinta-feira vítima de doença.
Renamo diz que vai prosseguir com busca da paz

“O líder deixou os ´dossiers` [sobre a paz] claros, estão discutidos e estão na mesa, o que precisamos é que ninguém mude, ninguém altere”, disse, em declarações à Lusa, em Maputo, o chefe nacional adjunto para Mobilização da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Domingos Gundana.

Domingos Gundana assegurou que os membros da Renamo estão comprometidos com a manutenção da paz e vão empenhar-se em concluir com sucesso o processo negocial com o Governo.

“Estamos em paz neste momento, se alguém ainda pensa em guerra, está fora do rumo, nenhum membro da Renamo está a pensar no passado [de guerra]”, acrescentou.

Os membros e simpatizantes da Renamo, prosseguiu, saberão honrar o legado de paz que Afonso Dhlakama deixou.

Domingos Gundana adiantou que a Comissão Política da Renamo poderá reunir-se hoje na cidade da Beira para discutir a sequência das exéquias fúnebres de Afonso Dhlakama e os passos necessários para a normalização da situação do partido após a morte do seu líder.

O chefe nacional adjunto para a Mobilização da Renamo afastou o risco de tensões entre a ala política e o braço armado do partido, realçando o princípio da unicidade.

“A Renamo foi sempre una, teve sempre um líder e nunca houve divisões”, enfatizou Domingos Gundana.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

 https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/renamo-diz-que-vai-prosseguir-com-busca-da-paz

A despedida do líder da Resistência Nacional Moçambicana

As bandeiras a meia haste nas duas sedes da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) na cidade da Beira, em Moçambique, são o único sinal visível da morte do líder do partido no quotidiano da capital provincial.
Óbito/Dhlakama: Adeus ao líder da Renamo prepara-se na cidade da Beira

À porta, alguns militantes juntam-se para aguardar pelo final da reunião da comissão política do partido, na sede provincial, que deverá decidir como será feito o adeus a Afonso Dhlakama.

“Só saímos daqui quando soubermos quando é o funeral”, refere, Cândido Vaja, militante integrado num grupo que não passa de 50 pessoas, sentados em cadeiras e bancos dispostos no recinto da sede distrital, noutra ponta da cidade, num ambiente sereno.

A morte do líder da oposição moçambicana causou uma tal surpresa que é natural que ainda não haja maior mobilização, conta um outro militante à Lusa.

A mesma surpresa a que faz alusão Manuel Bissopo, secretário-geral da Renamo, para pedir aos jornalistas tempo para o partido se reunir, remetendo quaisquer declarações para depois do encontro da comissão política.

Pelas 15:00 (menos uma hora em Lisboa), aguardava-se ainda pela chegada de alguns membros do órgão, oriundos de Maputo.

Entretanto, articulavam-se também os contactos com a família de Dhlakama.

Para já, segundo referiu, prevê-se que o funeral decorra em Mangunde, distrito de Chibabava, no interior da província de Sofala, terra natal do líder da Renamo, ainda sem data marcada.

O corpo de Afonso Dhlakama foi transportado de madrugada desde a Serra da Gorongosa e encontra-se na morgue do Hospital Central da Beira, onde à porta permanecem dois militantes de base.

São uma espécie de últimos guardiões do comandante, admitem à Lusa, enquanto aguardam também por novidades.

A cidade da Beira foi a última cidade onde Dhlakama residiu antes de se retirar para a serra da Gorongosa, em 2015, recorda Vaja, que participou nalgumas sessões políticas dinamizadas pelo líder.

“Ele ensinava-nos o que fazer. Em 2017, na serra da Gorongosa, juntou jovens para uma acção sobre preparação de eleições e sobre como detectar acções de fraude”, refere.

Décadas antes, a luta tinha sido feita de armas nas mãos e Janete Tenene, que hoje chora à porta da sede provincial, na Beira, foi uma das militares da Renamo.

“Lutávamos nas matas contra a Frelimo, porque queríamos o multipartidarismo em Moçambique, e ele foi o nosso grande dirigente”, descreve.

Janete foi combatente até à assinatura dos Acordos de Paz de 1992 e aponta o comandante com “um amigo de todos e de tudo”.

A antiga militar faz parte de um grupo que viajou por estrada durante sete horas, de Chimoio, capital provincial de Manica, até à Beira para render a última homenagem a Dhlakama.

“Vai fazer muita falta em Moçambique”, para o processo de paz em curso, acrescentou.

Alberto João, militante da Renamo, tem fé e acredita que “a paz vai continuar”. Há condições, tudo depende do Governo”, conclui.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/obitodhlakama-adeus-ao-lider-da-renamo-prepara-se-na-cidade-da-beira

Nomzamo Winnie Mandela: as mulheres na História da luta contra o apartheid

Tshepiso Mabula 12 de abril de 2018 11:48

Minha avó me disse que o nome Nomzamo em isiXhosa significa a mãe de todos os esforços, ela que nunca pára de tentar e nunca desiste

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Cara prisioneira número 1323/69,

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Comecei a escrever muitas cartas para você, mas nunca terminei uma. Hoje, sinto-me compelido a derramar meu coração a você com o terrível conhecimento de que você nunca conseguirá lê-la. Talvez meu erro seja ter  esperado  ouvir a notícia de sua morte antes de compartilhar meus pensamentos com você.

Eu nasci em 1993 com a promessa de liberdade e democracia. Foi-me dito para esperar por oportunidades intermináveis ​​e uma vida melhor para mim e meus entes queridos. Enquanto escrevo isso, ainda estou esperando.

Eu ouvi muitas histórias sobre sua força resiliente em tempos de adversidade. Foi-me dito que você demonstrou amor resoluto em um tempo de revolução e como você levantou seu punho para dar esperança a um povo aleijado por um sistema projetado para aniquilá-lo.

Minha avó me disse que o nome Nomzamo em isiXhosa significa a mãe de todos os esforços, ela que nunca para de tentar e nunca desiste – e quando soube que era o nome dado a você no nascimento, eu sabia que ela não estava enganada.

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Assim como eu sou negro e sou mulher na África do Sul. Eu acordo todos os dias para me lembrar da minha posição inerentemente subserviente nessa sociedade. Eu sou lembrada diariamente que este mundo não é feito para pessoas como nós, e eu me pergunto como você sobreviveu seus 81 anos.

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Os livros de história que li falam de homens negros fisicamente capazes como os únicos heróis da luta. Retratam  de figuras com barbas revolucionárias e ternos desbotados. São altos e fortes, esses homens que definharam nas celas da prisão e são os protagonistas da luta contra o apartheid.Nelson-Mandela-y-Winnie-por-Alf-Kumalo

Suas esposas são figuras periféricas que só são celebradas por sua capacidade de manter lares e criar filhos na ausência de seus pais. Nada é dito sobre a tortura que elas sofreram. Os muitos meses passados ​​em confinamento solitário. As ordens de proibição e a difamação. A calúnia que elas enfrentaram nas mãos da mídia do apartheid. Os livros de história esqueceram-se de mencionar que, para você, o apartheid não era apenas uma história para dormir; foi uma experiência vivida.img_797x448$2018_04_02_19_54_32_293702

Eles se esqueceram de nos ensinar que você, enquanto criava filhos em um sistema patriarcal, involuntariamente se tornou o portadora da luta pela libertação. Eles esqueceram de nos ensinar que você não era apenas a esposa de um ícone de luta, mas a figura destemida que sofreu atrocidades dolorosas por uma nação que adotou você como mãe, mas o jogou sob o ônibus proverbial depois que seu pai se divorciou de você.we

Quando penso em sua vida, lembro-me de minha mãe, minha avó e muitas outras mulheres negras que se estabeleceram como sacrifícios vivos, suportando uma dor implacável para que suas comunidades pudessem prosperar.winnie (2)

Então,  Nomzamo,  por favor aceite minhas desculpas. Sinto muito por ter ajudado a demonizar você com acusações de assassinato e violência. Lamento nunca ter falado quando você foi acusada de romper com seu casamento  com cinco filhos enquanto não responsabilizava o pai. Perdoe-me por nunca ter dito a você enquanto você ainda estava viva que, se Deus fosse um matemático, você seria a linha de simetria de Deus, onde o eixo X de sua força inabalável encontraria o eixo Y de seu inegável amor e lealdade.

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Sinto muito pelas vezes em que deixei de mencionar que, se Deus fosse músico, vocês seriam os acordes negros e as batidas de Deus das baladas. Que se Deus fosse músico, você seria jazz.

Lamento por acreditar que você seria uma mancha na vida de Nelson Mandela, porque a verdade é que você era a tábua de salvação que mantinha seu nome vivo. Lamento por todas as vezes em que pesei a importância das mulheres negras em nossa sociedade. Lamento apenas comprar flores para elas nos dias de seus funerais. Sinto muito por minha complacência quando elas são empurradas para a periferia e por assistir silenciosamente quando são socados pelos mesmos punhos que foram levantados com gritos de “amandla”.

Fui criada por uma mãe que orava e muitas vezes ouvi a história de Adão e Eva no Jardim do Éden. Diz-se, em algum momento entre morder o fruto proibido e enfrentar a ira de Deus, Adão viu que era adequado trair Eva em vez de agradecê-la por sua libertação.winnie 1323

O Jardim do Éden tornou-se um tribunal de intolerância, onde o patriarcado recebeu seus poderes do supremo tribunal de juízes religiosos. É o lugar onde Eva foi condenada a uma eternidade de dor e sofrimento, e muitos aparentemente concordarão que ela era uma pecadora merecedora.

Passei muitos domingos na igreja imaginando qual o olhar que Eva deu a Adão durante aquele momento crucial em que seu dedo indicador apontou na direção dela depois que Deus fez essa pergunta pertinente. Essa cena muitas vezes me lembra a Comissão da Verdade e Reconciliação, onde você se sentou para responder pelos crimes hediondos que supostamente cometeu quando a guerra estava no auge. O homem com quem você lutou lado a lado sentou-se no maior assento do país. Ele se parecia com um deus. O primeiro do seu tipo, nosso presidente negro.

Fiquei imaginando quando exatamente a amnésia se instalara. Fiquei imaginando como é que todos se esqueceram de que os palitos de fósforo e os pneus pelos quais você foi julgada lhes garantiram a liberação de que agora desfrutavam. Como qualquer outra pessoa em uma guerra, você, Nomzamo, não era uma santa. Você era uma guerreira e, em sua luta, houve baixas.

Embora possamos querer crucificá-la por eles, nunca devemos esquecer que você também foi abusada e espancada pelo sistema contra o qual lutou.

Eu faço este empreendimento para você: Eu não vou te vilipidiar como Adão fez com Eva. Não vou esquecer que você abandonou o seu bem-estar para que eu pudesse ser negra e uma mulher na África do Sul. Não vou esquecer que, como minha mãe e outras mulheres negras, você estava na linha de frente da luta e não apenas como uma figura doméstica subserviente, mas como uma comandante.

Por isso, agradeço, prisioneira número 1323/69. Você pode nunca ser celebrado da mesma forma que o prisioneiro número 466/64, mas, para mim, você sempre será a mãe de todos os esforços, a heróina que nunca desistiu, e uma mulher que foi capaz de amar em um tempo de revolução.

Atenciosamente,

Uma jovem negro nascida livre

Tshepiso Mabula

Tshepiso Mabula é uma fotógrafa e escritora de 24 anos nascida no distrito de Lephalale, em Limpopo, na África do Sul.  Leia mais de Tshepiso Mabula

 

https://mg.co.za/article/2018-04-12-too-late-too-many-things-unsaid

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”

“É preciso dessacralizar o relato nacionalista de Angola”
25-03-2018 | Fonte: DW
O Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) está a atravessar mais uma fase crítica da sua história, marcada por um complexo período de transição, após as últimas eleições gerais de 2017. A direção do partido no poder confronta-se com a questão da bicefalia na sua liderança, sendo clara a disputa entre o ex-Presidente José Eduardo dos Santos e o atual chefe de Estado, João Lourenço.

O historiador congolês Jean-Michel Mabeko Tali, professor convidado da Universidade de Howard, nos Estados Unidos, afirma que nas atuais condições do país este é um problema “muito delicado”. “Tudo dependerá como o MPLA vai gerir a crise”, diz, em entrevista à DW, no dia em que apresentou em Lisboa, Portugal, a versão mais aprofundada do seu livro “Guerrilhas e Lutas Sociais – O MPLA perante Si Próprio (1960-1977)”.
O livro de Jean-Michel Mabeko Tali, apresentado esta sexta-feira (23.03) na Fundação Cidade de Lisboa pelo professor Alberto Oliveira Pinto, é uma nova edição da obra lançada em 2001, que tinha como título “Descendência e Poder do Estado – O MPLA Perante si Próprio”.
A atual versão, mais alargada, reúne novos elementos de análise sobre o contexto político angolano desde a luta armada até a data de realização do congresso do MPLA, em dezembro de 1977.hist
“Tentei trabalhar, sobretudo, sobre o discurso político da elite angolana, a importância desse discurso, bem como sobre todas as jogadas à volta da questão das datas da fundação dos movimentos de libertação e porque é que há tanta polémica à volta disso”, explica o autor, que procurou ir para além da simples cronologia dos factos.
Uma questão de “legitimação”
Na obra, lançada sob a chancela da editora Mercado de Letras, o historiador nascido na República do Congo Brazaville “enfatiza a questão da legitimação de cada um dos atores nesse processo (…) para se poder valorizar nesse mercado político angolano”, procurando legitimar-se a si próprio como grupo. Este é um dos aspetos do debate acalorado sobre a fundação dos movimentos de libertação e que acabou por marcar a vida política em Angola, destacando-se o papel chave da elite que dirige o país desde a independência a 11 de novembro de 1975.
Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, é uma figura de destaque nesse processo, que a dada altura tomou as rédeas do movimento de libertação e marcou com a sua personalidade o seu percurso. Mas, antes dele, lembra Jean-Michel Tali, “temos todo o processo que levou ao surgimento do MPLA”, com figuras também relevantes, como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Lúcio Lara, entre outros, no “grupo que realmente lançou o movimento”.
No livro, o historiador amigo de Paulo Lara – filho de Lúcio Lara – trata de rever os grandes acontecimentos que marcaram o período da sua investigação, entre os anos 60 e 70. E ressalta os acontecimentos que levaram ao 27 de maio de 1977, “evento que, de certa maneira, mudou a vida política em Angola, de forma terrível”. O académico congolês da geração dos anos de 70, que leciona sobre História Política na Universidade Howard, acha que até hoje ainda se vive as consequências desse período conturbado da História do país.
Tentativa de tomada do poder
Os massacres, as torturas, as prisões e perseguições ou as purgas são temas fraturantes da sociedade angolana, que eram e ainda são tratados como tabu. “Voltei ao tema porque no momento em que comecei a trabalhar sobre esta temática ninguém queria falar”, explica.
“Hoje as memórias se abrem, as pessoas falam um pouco mais, há algumas publicações sobre isso”, adianta. Foi assim que buscou, por exemplo, os arquivos soviéticos, cuja documentação permite entender a extensão e a complexidade da relação do Estado angolano com a União Soviética, mas também, voltando atrás, da relação do MPLA com os soviéticos.
Sobre a alegada tentativa falhada de golpe de Estado ou não, ou sobre a ação do movimento fracionista nitista dentro do MPLA, tem havido muita discussão, reconhece o historiador: “Tento relançar o debate”.
Na sua leitura dos factos, defende que se tratou, sem dúvidas, de “uma tentativa de tomada de poder mal organizada, um pouco caótica e improvisada, mas com consequências gravíssimas”. Sobretudo porque levou ao desaparecimento, não só físico, de uma geração política. “Depois, o partido tentou recuperar alguns deles, mas isto foi uma tragédia que ainda está latente; vive-se ainda hoje”, avalia. Ainda sobre aquele período da história angolana, o investigador concorda, de certa maneira, com aqueles que afirmam que o 27 de maio “foi um grande ajuste de contas” político.
Conflitos internos
A história do MPLA, desde o início da luta armada de libertação, é marcada por conflitos internos. “Esses conflitos internos justificam os vários assassinatos que houve desde os anos 60, quer nas cidades quer nas matas”, explica o académico. No livro, ele tenta explicar também numa longa análise por que razão o movimento não conseguiu sanar tais conflitos internos.
O 1º congresso do MPLA, em dezembro de 1977, acontece numa situação quase que de emergência, depois da violência que rodeou os acontecimentos do 27 de maio.  Mas, o resultado do referido evento não foi o que se esperava. “O próprio [Agostinho] Neto não estava contente com o resultado, dada a situação do movimento, do partido-Estado, que tinha que gerir uma crise interna”, diz Jean-Michel Tali.
Naquela época, Angola havia optado por seguir a via socialista. A surpresa, segundo o autor congolês, é que os soviéticos não terão influenciado esta decisão, tanto é que, para os serviços secretos (KGB), Agostinho Neto era visto como uma ovelha ranhosa, teimosa, mas necessária. “Não foram os soviéticos que disseram a Neto para optar pela via socialista. Ao contrário do que se pensava antes, hoje os documentos provam que os soviéticos estavam com um pé atrás”, revela.
Dessacralizar o relato histórico
Na conversa com a DW, o investigador exorta o partido no poder em Angola a reconciliar-se com a sua própria história, deixando de fazer dela um tabu. “As feridas ainda são muito recentes, mas, de certa maneira, é preciso dessacralizar o relato da gesta nacionalista de forma a deixar as pessoas se expressarem”, apela o académico que integra uma comissão científica da UNESCO encarregue pela produção da história contemporânea de África.
“Lembro que quando comecei o inquérito havia quem não queria falar porque tinha medo de responder as perguntas. Isso resultava de ressentimentos antigos dos que vinham da guerrilha, que achavam que estavam a ser discriminados”, explica.
No entanto, o diferendo ainda não foi sanado. Jean-Michel Mabeko Tali recorda, por exemplo, a velha disputa entre a FNLA e o MPLA sobre a verdadeira data do início da luta armada: a 4 de fevereiro de 1961 ou a 15 de março do mesmo ano. O historiador critica, por outro lado, a geografia de escolha ou definição do mártir, que não pode ser apenas de um dos movimentos que lutaram pela independência de Angola.
Contra a discriminação, dá outro exemplo: “ando à procura de uma Rua Viriato da Cruz e não encontro”. Lamenta ser este mais um problema, porque “ele foi um dos membros fundadores do MPLA, uma figura chave e incontornável” na história de Angola. E diz mais. “É difícil para um professor dar aulas sobre aquele período sabendo do papel de Viriato da Cruz e não falar disso porque tem medo. Reconciliação também é isso”.
Por isso, adverte, “a reconciliação nunca será completa se não dermos valor àquilo que os outros fizeram”. Para Jean-Michel Tali, o relato histórico tem de deixar de ser uma espécie de tabu, para que a nova geração possa perceber e saber o que se passou. “Se não se fizer isso, na minha opinião, vai ser difícil ir mais além”.
O historiador concorda com uma frase do nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade, quando afirmou que “ninguém pode negar a história, mas tem de se falar com realismo”.

Filho adotivo de herói angolano Lucio Lara é professor da Universidade de Howard nos EUA

Jean-Michel Mabeko-TaliEstive a fazer umas investigações sobre a vida de Lucio Lara ex. Secretário Geral do MPLA que faleceu ontem em Luanda, grande companheiro e amigo de Agostinho Neto, sobretudo no período da guerra civil contra a UNITA e a FNLA, no período da conquista da independência.

Depois de ter descoberto que ele tem três filhos vivos, Paulo, Bruno e Wanda Lara, descobri também que adoptou uma criança congolesa. O menino em questão é um rapaz chamado Jean-Michel Mabeko Tali, que tornou-se amigo de Paulo Lara (filho de Lucio Lara) no período em que a família Lara residia no Congo, onde o MPLA mantinha o seu quartel general, no combate às forças coloniais portuguesas.

História política do nacionalista angolano Lúcio Lara.

Luicio Lara com Agostinho Neto em Luanda, em 1978.A história política do nacionalista angolano Lúcio Lara “Tchiweka”, desde os primórdios da luta anticolonial até à independência, em 1975, preenche uma fotobiografia que será lançada em Lisboa no dia 04 de fevereiro.(ACOMPANHA TEXTO) STR/LUSA

Jean-Michel Mabeko Tali hoje em dia é um grande intelectual, professor da Universidade de Howard nos Estados Unidos, onde lecciona sobre Historia Politica.

Navegando na internet encontrei uma sua entrevista, onde fala um pouco sobre tudo da historia angolana, no período da independência. Uma entrevista muito interessante, efectuada em 2003, carente de muitas outras informações recentes.

Eis abaixo a entrevista, que vale a pena ler, porque ele conseguiu manter-se equidistante das actuas forças políticas em Angola, mantendo sempre uma posição neutra.

«Nenhum dos movimentos de libertação (FNLA, MPLA, UNITA) estava disposto a partilhar o poder… Penso, no meu livro, ter dado elementos suficientes para demonstrar isto», afirma o historiador Jean-Michel Tali.Jean-Michel Mabeko-Tali1

Jean-Michel Mabeko Tali, tem vários diplomas de Universidades Francesas, um Mestrado em Estudos Africanos do Instituto de História da Universidade Bordeaux III, uma pós-graduação e um doutoramento em História Política da Universidade de Paris VII.

Além de fazer análises sócio-políticas para várias revistas, Jean-Michel é também romancista. Apresentou em Paris, em Fevereiro de 2002, o livro L’Exil et L’Interdit (O Exílio e o Interdito), dedicado a uma geração na qual se inclui «de jovens revoltados e muito politizados que viveram intensamente a questão dos países africanos dominados por partidos únicos». O seu interesse pela História política terá começado nessa época..

O seu 2º romance publicado também pela Editora L’Harmattan intitula-se “Le Musée de la Honte” (O Museu da Vergonha), fala das crianças soldados, na guerra civil do Congo, é uma homenagem a uma irmã sua que foi recrutada e, será lançado em Paris, em meados deste ano.

A partir de Washington, onde se encontra como professor convidado na Howard University, Jean-Michel Tali teve a gentileza de nos conceder esta entrevista sobre os dois volumes da sua obra “O MPLA Perante si Próprio”, lançada em Angola em Outubro de 2001 e, em Lisboa, em Maio de 2002. Trata-se de uma investigação histórica sobre o percurso deste movimento transformado em partido único.

Foi no Congo que tomou contacto com militantes do MPLA. Nunca foi simpatizante do movimento?

O meu encontro com o MPLA teve lugar em Brazzaville, por intermédio de amigos Angolanos. Sou de uma geração (anos70) politicamente muito engajada, que se sentia solidária com todos os povos em luta e com todas as lutas de libertação do mundo, da África à Ásia e América Latina. Os povos de Angola viviam isso, através dos movimentos. O MPLA, sediado em Brazzaville, era para nós, representante desta luta. Fizémos o que pudémos para manifestar a nossa solidariedade ao povo angolano através do MPLA. Neste sentido, fui de uma geração solidária e, portanto, simpatizante da luta de libertação feita pelo MPLA. Não sendo Angolano, as minhas manifestações de simpatia limitavam-se a esse nível.

Como conheceu e se tornou íntimo da família Lara?

A relação com os Lara fez-se através de uma longa história de amizade entre eu e Paulo, amigo de colégio e, primogénito da Ruth e do Lúcio, em Brazzaville, nos fins dos anos 60. Tornámo-nos como que irmãos.

Como analisa o facto do MPLA ter tomado unilateralmente o poder e se ter mantido nele durante estes quase 30 anos apesar das crises que ocorrem no seu interior, desde a fundação?

Esta questão abarca considerações que vão além da simples política doméstica angolana. Na realidade, nenhum dos movimentos de libertação (FNLA, MPLA, UNITA) estava disposto a partilhar o poder com os dois outros. Não estou a fazer nenhuma revelação e, penso ter dado elementos suficientes no meu livro para demonstrar isto. Aconteceu que neste processo de 1974-75, o MPLA beneficiou de uma série de factores conjunturais, tanto objectivos como subjectivos, para “fintar” (passo a expressão) os seus dois concorrentes.

Por factores objectivos, entendo as alianças políticas tanto internas, a nível da sociedade angolana, como internacionais. Cada um dos três movimentos armados beneficiou destes factores. Mas o que fez virar o barco a favor do MPLA, terá sido a maior capacidade, a nível interno, em capitalizar alianças locais, nomeadamante das forças sociais da capital, muito mais eficientes para a conjuntura de então. Contou muito, ter a capital na mão, no contexto africano da altura, era um trunfo essencial para o que viria. As alianças internacionais: aliar-se a Cuba era, de certo muito menos prejudicial do que aliar-se ao regime de Botha e trazer o exército da África do Sul dos tempos do apartheid, independentemente das razões invocadas: moralmente, isto dificilmente passava tanto em África como na maior parte do mundo. Isto jogou muito contra a FNLA e a UNITA. O resto foi um jogo diplomático dos mais fáceis para o MPLA e os seu apoiantes.

Recordo a imagem de soldados brancos, do exército sul-africano, capturados pelas FAPLA e seus aliados cubanos, isto levado a uma cimeira da OUA…

Pode imaginar o impacto diplomático que teve! Depois disto e, apesar de algumas oposições a nível da OUA, não foi difícil fazer admitir a República Popular proclamada por Agostinho Neto nas instâncias africanas e internacionais. Subjectivamente, vou apenas lembrar que: não foi difícil ao MPLA mobilizar o povo de Luanda (e não se trata apenas uma questão étnica) contra a FNLA: por razões históricas objectivas, muitos dos Angolanos do ELNA (exército da FNLA), não dominavam a língua portuguesa. Às vezes nem sequer a falavam. Muitos eram filhos de emigrados angolanos de longa data no antigo Congo-Belga. A propaganda do MPLA, inventiva e muito dinâmica na altura, apresentou toda esta gente como sendo estrangeiros, “zairenses”, etc.

Houve participação do exército zairense – e não há maneira de a FNLA negar isto, pois não só foram capturados alguns soldados do exército de Mobutu, mas fontes da própria CIA o reconhecem. Mas os Angolanos do ELNA (Exército de Libertação Nacional de Angola, braço armado da FNLA) acabaram por não entrar muito na contabilidade.

Era como se não existissem! Isto foi um formidável factor que jogou a favor do MPLA e, cujas consequências ainda se podem sentir hoje, como sabe… As invasões estrangeiras, sul-africanas nomeadamente, deram ao MPLA todos os trunfos de legitimação e, de perduração do seu poder. A guerra civil, alimentada por vários factores, deu um fôlego maior a este longo reinado do MPLA. De forma que a própria vida do partido – e do país – ficou suspensa ao fim deste longo conflito: adiou-se a resposta a muitas questões quer internas ao partido, quer sociais, quer políticas, com base na resolução prévia deste conflito.

Quais foram as alianças mais importantes que o MPLA fez antes e depois da independência e actualmente?

Nenhuma luta de libertação levada a cabo no chamado “terceiro mundo” e, mormente em África escapou a um facto objectivo: não podiam contar com o apoio dos países ocidentais em termos daquilo que era essencial: as armas.

Houve, por exemplo, nos casos das lutas nas colónias portuguesas, ajudas humanitárias de países nórdicos, ou pelo menos de organizações humanitárias e de solidariedade destes países. O MPLA beneficiou muito do apoio de organizações norueguesas, holandesas e dinamarquesas. Para as armas, só podiam contar com os países socialistas, do Leste Europeu, da América Latina (Cuba) – e de forma muita complexa e mitigada – da Ásia (China e, de certo modo, muito pouco, da Coreia do Norte).

Portanto, era normal que as maiores alianças internacionais do MPLA movimento de libertação fossem com estes países. Havia os países africanos, cujo papel era absolutamente fundamental, nem que fosse por meras questões geográficas: os Congos e a Zâmbia para os movimentos angolanos, o Senegal e a Guiné Conakry para o PAIGC, a Tanzânia e a Zâmbia e, em certa medida (não muito seguro) o Malawi para a FRELIMO (já que não podiam contar muito com a Rodésia do Sul (actual Zimbabwe), o pequeno reino da Swazilândia, dada a sua difícil situação geográfica. No caso do MPLA, o maior e mais seguro aliado em África foi sem dúvida alguma o Congo-Brazzaville. Depois da independência, essas alianças foram-se diluíndo em certos casos (africanos), nas considerações de questões e “razões de Estados”… As solidariedades já não foram – e nem podiam, como é obvio! – ser as mesmas.

Qual foi o papel da PIDE nos problemas do MPLA?

Na guerra entre os movimentos de libertação dos territórios colonizados, temos sempre dois ou três níveis. O primeiro – que se torna o fundamental, mesmo quando às vezes só intervem depois, o terreno militar, quando a potência ocupante se recusa a dar a independência, como foi o caso de Portugal. O segundo terreno, é o diplomático, também é fundamental, pois dele dependem, não só a sobrevivência do movimento armado (graças à aquisição de armamentos por diversas vias entre as quais ajudas de aliados e amigos), mas também porque é nele que tem que se lutar para fazer passar mensagens, fazer vencer a causa defendida e atrair ajudas político-diplomáticas, humanitárias e materiais. Portanto, o reconhecimento internacional é essencial e constitui para todo movimento armado um terreno de luta vital. Graças a ele, o movimento pode romper as barreiras de silêncio que em geral os media das super potências construíam à volta das lutas de libertação. O silêncio, para qualquer movimento de libertação, pode ser mortal. Veja-se Timor Lorosae e, dá para entender a importância da mediatização de uma luta de libertação, isto dito sem demérito do combate interno, do qual depende o essencial da vitória. Há no entanto um terceiro terreno: a subversão. Era de “boa guerra” diríamos, no sentido de que neste tipo de situações cada um procura destruir o outro de todas as maneiras possíveis. A potência combatida vai, não só procurar destruir militarmente o movimento armado, como procurará miná-lo no interior, provocar disfunções, etc. Quem executou os planos de assassinato de Amílcar Cabral urdidos pela PIDE, foram militantes dissidentes do PAIGC. A PIDE aproveitou problemas internos ao PAIGC para armar uma mão interna. Os movimentos de libertação não tinham, concerteza, meios de responder pela mesma moeda. Quanto muito procuravam obter a solidariedade de organizações políticas portuguesas.

Mas ao mesmo tempo, seria histórico e contraproducente em termos da compreensão deste processo atribuir à PIDE todos os dissabores internos dos movimentos de libertação. No caso do MPLA, procurei mostrar, no meu livro, que as raízes das crises que sacudiram o movimento de libertação na altura, tinham de ser procuradas em factores intrínsecos e, não imputá-las sempre a uma “mão externa”, à PIDE, etc.

A que se ficou a dever o 27 de Maio?

Vou resumir aqui o que explico no livro: o 27 de Maio de 1977 é o culminar de contradições cujas origens devem ser procuradas desde a luta de libertação nacional por um lado e, nos rescaldos das lutas e aspirações sociais herdadas da sociedade colonial angolana. Nito Alves foi um combatente de uma região que pagou caro a sua proximidade com a capital da colónia. O seu contacto com a direcção do MPLA passou-se praticamente no fim da guerra. Ele como outros da Primeira Região, tinham claramente feito entender a sua diferença quanto à visão que tinham não só da forma como a luta foi dirigida (e nisto peço para lerem a mensagem da Primeira Região ao Congresso de Lusaka de Setembro de 1974, anexado no meu livro, volume I), mas e muito rapidamente, de questões como a gestão da questão racial no seio da sociedade (ler as declarações de Nito, nomeadamente em 1976, sobre este assunto e, cujos extractos cito no meu livro) e as questões sociais.

Mormente, a questão da orientação ideológica do partido no poder acabou agudizando as já existentes divergências: Nito queria uma revolução pura e dura, de tipo Bolchevick, o seu discurso pro-soviético não deixa sombra de dúvidas. Mas eu não me quis limitar a isto. O que tento mostrar é que, para se entender as motivações de Nito e, dos seus companheiros, não seria produtivo do ponto de vista da análise contentar-nos em dizer que ele se tornou “de repente” pró-soviético”.

Havia outros que o eram e outros que eram maoístas, etc. O importante na minha opinião, é entender a dinâmica socio-politica que desemboca nesta tragédia. Parece-me importante colocar a questão em termos das lutas sociais que sustentam o discurso político de Nito, e a sua convicção, quase que messiânica (clara em alguns dos seus discursos ou escritos, nomeadamente as suas famosas “Treze teses”) de que a história tinha colocado nos seus ombros um papel fundamental neste processo revolucionário angolano.

Conforme declarações suas, foram os mesmos jovens que ajudaram o MPLA a vencer a guerra de Luanda, que no 27 de Maio foram eliminados, porquê?

O MPLA deve sim, a sua regeneração política de 1974-1975 à juventude urbana, mais particularmente em Luanda.

O movimento acabava de sofrer uma longa fase de sucessivas crises e, quando chega o 25 de Abril, é um movimento exausto, dividido, militarmente sem mais capacidade de iniciativa, enquanto que, entretanto, a FNLA estava a rearmar-se como nunca o tinha sido antes e, a UNITA, que se precipitou em assinar o cessar-fogo com as novas autoridades portuguesas, saía dos confins do Moxico para não só ser reconhecida finalmente pela OUA, mas sobretudo ganhar milhares de adeptos nos centros urbanos, sobretudo no planalto central e, no resto do sul do país (há reportagens fotográficas de comícios monstruosos da UNITA nestas regiões. A entusiástica adesão de milhares de jovens, que foram das cidades para os CIR (Centros de Instrução Revolucionária), cheios de ideias românticas e muita sinceridade para ser formados como soldados, de repente deu a Agostinho Neto o fôlego que permitiu que ele e o que restava do movimento pudessem reconstituir o potencial militar deste. Não fosse isto e, face a uma provável coligação FNLA/UNITA, o MPLA teria vivido uma real descida aos infernos. A história teria sido outra.

O problema é que esta juventude entusiasta, voluntarista, estava dividida em várias tendências ideológicas, que reflectiam em grande parte as divisões ideológicas que marcavam o movimento comunista internacional, mas reflectiam igualmente as divisões ideológicas na esquerda portuguesa do pós-25 de Abril.

Estas divisões são um dos mais marcantes aspectos das lutas políticas urbanas daquela época. Para ser breve: houve um choque entre estes jovens, suas visões do mundo, suas ideologias, etc., com as da liderança do MPLA, mormente de Neto. Alguns entraram em choque com Nito Alves; outros viram nele o verdadeiro e único revolucionário, face a uma direcção do MPLA que eles e outros (os CAC por exemplo, seus adversários) qualificavam de “burguesa”. O resto você sabe… Não vou aqui entrar no macabro debate estatístico sobre quantos terão sido mortos a 27 de Maio de 1977… O drama do que aconteceu não se limita a isso….

Acredita que ficou isento na sua pesquisa?

Sou um profissional das Ciências Históricas. Nesta qualidade sei, e, aprendi desde o primeiro ano na Faculdade, que a neutralidade, em Ciências Sociais e, mormente em História, é um exercício difícil de se realizar, porque quem escreve é um ser social, com uma trajectória, com vivências, uma educação, opiniões políticas próprias, etc. Isto quer dizer que estes aspectos todos podem interferir de uma forma ou de outra na obra e, dar uma certa orientação ao conteúdo desta. Em todas as Faculdades por onde passei, os mestres sempre chamaram a nossa atenção para isso. O valor do bom historiador reside então na sua capacidade em poder colocar-se acima da subjectividade, sobretudo quando se trata de questões polémicas.

A minha especialidade é a História Política, com tudo o que isto acarreta em termos de riscos de subjectividade e de parcialidade na análise dos factos.

Tentei fazer o melhor possível para escapar a estas armadilhas que espreitam qualquer historiador e, mais ainda, o politista neste tipo de empreendimentos – descrever e analisar um processo político-histórico. As reacções positivas e de encorajamento que tenho recebido por todo o lado, inclusive de personalidades que me consideravam como demasiado ligado a algumas das velhas figuras do MPLA, seus opositores nas lutas internas no seio do ex-movimento de libertação, deixam entender que atingi o objectivo desejado: manter-me isento, equidistante e, analisar com a maior frieza possível, sem tabus e sem temores, o processo da luta de libertação, bem como os dramas que marcaram a trajectória do MPLA. Mas, deixo aos leitores, a latitude de apreciar. Dito isso, quero ser realista: o historiador que escrever o livro perfeito, sem falhas (quer objectivas, por falta de mais dados, quer subjectivas por alinhar mais numa posição do que noutra), ainda está para nascer. Como Historiadores, escrevemos o que as nossas fontes nos disponibilizam e, as nossas análises não podem ser tidas como alguma palavra de Deus. As análises resultam dos limites dos nossos conhecimentos, da experiência como académicos, das fronteiras que conseguimos atingir em termos de saber científico, de estudo, mas também – e muito! – da experiência humana acumulada. Se tivesse escrito este livro mais tarde, talvez fosse ainda mais completo, mais profundo, etc. Porque teria, entretanto, ganho mais alguma coisa em termos de experiência, tanto humana como académica. Tive como bandeira a honestidade intelectual e a luta contra todo tipo de tabus nesta matéria.

A publicação do livro “O MPLA Perante si Próprio”, não representa o fim do seu interesse pelas questões políticas de Angola. Fará outros estudos nessa área?

O processo angolano é como que um laboratório vivo. Um terreno de pesquisa que tem ainda muitíssimo para dar. Portanto, penso que tenho muito que aprender e pesquisar neste fértil terreno.

Jean-Michel Mabeko Tali, Howard University, Visiting Professor Washington, DC.

 

Fonte:http://www.angola24horas.com/index.php/sociedade/item/5879-entrevista-ao-filho-adoptivo-de-lucio-lara-jean-michel-mabeko-tali

A história oficial de Angola baniu diversos mártires da luta de libertação

mapa angolaA concorrência entre os movimentos nacionalistas angolanos, antes e depois do início da luta armada, tornou a narrativa sobre a gesta nacionalista global um quebra-cabeças para os estudiosos que queiram olhar com objetividade esta história no seu todo.

A frase é do historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali, proferida no decorrer de uma entrevista à agência Lusa, a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras e que constitui, assumiu, um “ensaio de história política”.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo-Brazzaville os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, lembrou que tanto o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), com a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) procuraram “puxar o cobertor da narrativa para si”.

Para o académico natural do Congo-Brazzaville e desde 2002 professor na Universidade de Howard, exemplo disso mesmo é a disputa entre MPLA e FNLA sobre a questão das datas mais importantes da luta de libertação do jugo colonial português, “as que até agora estão consagradas com um “selo de santificação política”.

“São as datas que decorrem da narrativa assumida pelo vencedor desta concorrência intra-nacionalista. Ou seja, o MPLA. O mesmo acontece com aquilo que podemos chamar de ‘genealogia dos mártires’ da luta de libertação. Pode procurar em vão nesta genealogia algum nome de um comandante de guerrilha da FNLA. Da UNITA nem se fala, e por motivos que se pode ainda compreender, dado o percurso um tanto controverso”, explicou.

“Pior ainda, no seio do próprio MPLA, antigas querelas internas, e dissidências, acabaram como que banindo para a eternidade nomes de peso na génese deste partido. Não me parece que haja, ainda hoje em dia, um ‘becozinho’ de rua, uma escolinha, mesmo de aldeia, uma ruazinha, com o nome de Viriato Clemente da Cruz, o verdadeiro conceptor, ‘pai fundador’ e primeiro secretário-geral do MPLA”, salientou.

O mesmo se passa, acrescentou Mabeko-Tali, em relação a Mário Pinto de Andrade, primeiro presidente do MPLA, ou Matias Migueis, primeiro vice-presidente.

“Mas temos Rua Ho Chi Minh, Rua Che Guevara, figuras revolucionárias, certo, e de prestígio e de importante referência na teorização da luta anticolonial do antigo ‘Terceiro Mundo’, mas que não terão tido um papel igual a estas três figuras nacionalistas angolanas, cujo pecado mortal foi o de discordar com parte da direção do movimento de libertação de então. Isto torna a reconciliação nacional problemática se o próprio MPLA não consegue sanar as suas próprias feridas internas”, enfatizou.

Sobre o livro, o académico congolês lembrou que, em 2001, publicou uma versão parcial do atual, tendo, depois, recebido inúmeros contributos que viabilizaram, quase 17 anos depois, o reforço do ensaio.

“Tive acesso a novas fontes, quer escritas, quer orais, às quais eu não tinha tido oportunidade de aceder antes, assim como à publicação de memórias de antigos combatentes dos antigos movimentos da luta de libertação. E houve fontes de arquivos quer da antiga potência colonial, quer dos antigos aliados soviéticos. Tudo isto levou a uma necessidade de voltar a debruçar-me novamente sobre o essencial dos problemas que tinha abordado anos antes”, explicou.

Angola emergiu uma burguesia burocrática-empresarial e uma elite econômica

Jean-Michel Mabeko-Tali1.jpgO historiador e académico congolês Jean-Michel Mabeko-Tali defendeu hoje à agência Lusa que o atual Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder desde 1975) está dividido em três — massa popular, classe média e a elite.

Jean-Michel Mabeko-Tali, natural do Congo-Brazzaville e professor desde 2002 na Universidade de Howard, em Washington, falava à Lusa a propósito do livro “Guerrilhas e Lutas Sociais — O MPLA Perante Si Próprio (1960/1977)”, de 814 páginas, a lançar pela editora portuguesa Mercado de Letras.

Mabeko-Tali, que vivenciou no Congo os primeiros anos da luta dos movimentos independentistas angolanos contra Portugal, recordou que, nessa altura, existiam dois MPLA, liderado pelo “oficial”, e o “popular”, o das “massas”.

O “oficial”, sustentou, tinha uma direção que mantinha “uma relação especial com dirigentes congoleses” — “de elite para elite” -, e que beneficiava de vários privilégios, como documentos para viagens, passaportes com nomes falsos para permitir viagens no exterior em benefício da luta de libertação.

“E havia um MPLA popular, composto por militantes de base, que não tinham o mínimo acesso a estes pequenos privilégios, e muito menos contactos com a elite do país anfitrião. Embora não diretamente ligados à estrutura do movimento de libertação, tinham-no como um elemento de referência identitário e de ligação com Angola. Foi neste MPLA popular que houve o fenómeno de aprendizagem e de prática das línguas veiculares locais, como o ‘lingala’, coisa que, salvo raras exceções, não se verificava nos meios do MPLA oficial e da elite”, realçou.

Segundo o autor, doutorado em História pela Universidade de Paris VII – Denis Diderot e mestre em estudos Africanos, está aí a “génese” de o MPLA de hoje refletir a divisão da sociedade angolana pós-independência em múltiplas classes sociais, cujo cordão umbilical, em termos de identidade política para uma boa parte dessas classes, é o MPLA.

“Mas é um MPLA que aparece, cada vez mais, sob visões diferentes, consoante se está nos musseques ou em bairros privilegiados. Há um MPLA que pertence à massa popular, sua base social incondicional; há um MPLA da classe média, o sustentáculo medianeiro que serve de caixa-de-ressonância e de megafone ao discurso da elite dirigente. E há esta elite, suficientemente dotada e talentosa, ao ponto de conseguir transformar o seu discurso social em discurso nacional e integracionista, que até a oposição acaba comprando”, explicou.

“[A elite] pertence a uma burguesia largamente compradora, pois na sua maioria recipiente das prebendas que resultam da inserção de Angola na economia-mundo, numa conexão em que ainda sobrevive, em larga medida, uma economia extravertida herdada do modelo económico colonial”, argumentou.

Segundo o académico congolês, os 38 anos de consulado do agora ex-Presidente José Eduardo dos Santos, “com a sua carga de estrondosos e rápidos enriquecimentos, alienaram de certo modo, e progressivamente, o forte laço político-identitário que ligava o MPLA popular e o elitista”.

“Nisto jogou também, e objetivamente falando, o pouco, senão mesmo a falta de laços de cumplicidade que o próprio presidente não foi capaz de criar com a população, sobretudo, nas províncias. Ao contrário de Agostinho Neto, não obstante o seu curto consulado à frente dos destinos do país (1975-1979), o seu sucessor não soube criar, um contrato de confiança com a população, e menos ainda com a Angola profunda. Nada de espantar, portanto, que a imagem do presidente Agostinho Neto ainda domine largamente em muitos desses lugares da Angola profunda”, destacou.

“A transformação do próprio partido numa máquina empresarial bilionária acabou por fazer emergir uma burguesia burocrático-empresarial e uma elite económica que, ao que me parece, olha agora com temor tanto para uma juventude urbana cada vez mais irrequieta, que mal se revê na JMPLA, como também para os musseques, mesmo que esses ainda lhe sejam largamente fiéis”, concluiu.