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Leonard Boff: A alma brasileira está doente

boff (1)Leonardo Boff é o principal teólogo brasileiro e um dos fundadores da Teologia da Libertação. Escreveu 118 livros e é um dos principais pensadores da espiritualidade planetária
A alma brasileira está doente
23 de Abril de 2019
Tudo que é sadio pode ficar doente. A doença sempre remete à saúde. Esta é a referência maior e funda a dimensão essencial da vida em sua normalidade.
As dilacerações sociais, as ondas de ódio, ofensas, insultos, palavras de baixo calão que estão dominando nas mídias sociais ou digitais e mesmo nos discursos públicos, revelam que a alma brasileira está enferma.
As mais altas instâncias de poder se comunicam com a população usando notícias falsas (fake news), mentiras diretas e imagens que se inscrevem no código da pornografia e da escatologia. Esta atitude revela a falta de decência e do sentido de dignidade e respeitabilidade, inerentes aos mais altos cargos de uma nação. No fundo, perdeu-se um valor essencial, o respeito a si e aos outros, marca imprescindível de uma sociedade civilizada.

A razão deste descaminho se deve ao fato de que a dimensão do Numinoso ficou obscurecida. O “Numinoso” (numen em latim é o lado sagrado das coisas) se revela através de experiências que nos envolvem totalmente e que conferem densidade à vida mesmo no meio dos maiores padecimentos. Ele possui um imenso poder transformador.

A experiência entre duas pessoas que se amam e a paixão que as torna fascinantes, configuram uma experiência do Numinoso. O encontro profundo com uma pessoa que no meio de uma grave crise existencial nos acendeu uma luz, representa uma experiência do Numinoso. O choque existencial face a uma pessoa, portadora de carisma, por sua palavra convincente ou por suas ações corajosas, nos evoca a dimensão do Numinoso. A Presença inefável que se faz sentir face à grandeur do universo ou de uma noite estrelada, suscita em nós o Numinoso. Igualmente os olhos brilhantes e profundos de um recém nascido.

O Numinoso não é uma coisa, mas a ressonância das coisas que tocam o profundo de nosso ser e que por isso se tornam preciosas. Transformam-se em símbolos que nos remetem a Algo para além delas mesmas. As coisas, além de serem o que são, transfiguram-se em realidades simbólicas, repletas de significações. Por um lado nos fascinam e atraem e por outro nos enchem de respeito e de veneração. Elas produzem em nós um novo estado de consciência e humanizam nossos comportamentos.
Esse Numinoso, na linguagem dos místicos como do maior deles, o Mestre Eckhart ou de Teresa d’Ávila, bem como da psicologia do profundo à la C.G. Jung é representado pelo Sol interior ou pelo nosso Centro irradiador. O Sol possui a função de uma arquétipo central. Como o Sol atrai à sua órbita todos os planetas, assim o arquétipo-Sol satelisa ao seu redor as nossas significações mais profundas. Ele constitui o Centro vivo e irradiante de nossa interioridade. O Centro é um dado-síntese da totalidade de nossa vida que se impõe por si mesmo. Ele fala dentro de nós, nos adverte, nos apoia e como o Grande Ancião ou a Grande Anciã nos aconselha a seguir os caminhos mais certos. E então nunca seremos defraudados.
O ser humano pode fechar-se a este Centrou ou a este Sol. Pode até negá-los mas jamais pode aniquilá-los. Eles estão ai como uma realidade imanente à alma.
Esse Centro ou o seu arquétipo, o Sol, nos conferem equilíbrio, harmonia pessoal e social e a convivência dos contrários sem se exacerbarem pela intolerância e pelos comportamentos de exclusão.
Ora, foi esse Centro que se perdeu na alma brasileira. Ofuscamos o Sol interior, apesar de ele, continuamente, estar aí presente, como o Cristo do Corcovado. Mesmo escondido por entre as nuvens, ele continua lá com os braços abertos. Assim o nosso Sol interior.
Ao perder nosso Centro e ao ofuscar a irradiação do Sol interior, perdemos o equilíbrio e a justa medida, bases de qualquer ética, da sociedade e de toda convivência. Desequilibrados, andamos errantes, pronunciando palavras desconectadas de toda civilidade e compostura.

Apequenamo-nos e abandonamos a lei áurea de toda ética:”trate humanamente a todos e a cada um dos seres humanos.” Nesse momento no Brasil, muitos e muitos não tratam humanamente a seus semelhantes. De eventuais adversários no campo das ideias e das opções políticas ou sexuais são feitos inimigos aos quais cabe combater e eventualmente exterminar.

Temos, urgentemente, que curar nossa alma ferida, resgatar nosso Centro e nosso Sol interior, mediante a acolhida das diferenças sem permitir que se tornem desigualdades, através do diálogo aberto, da empatia face aos diferentes principalmente aos que mais sofrem. Como dizia o perfil de uma mulher inteligente no twitter: ”ao colocarmo-nos no lugar do outro, fazemos do mundo (da sociedade) um lugar para todos”. Esta é nossa urgência, caso não quisermos conhecer a barbárie.

Eleições da África do Sul preocupa os bispos

africa moçambique

No próximo dia 8 de maio, a África do Sul vai às urnas para as eleições gerais. Em vista deste escrutínio eleitoral, a Conferência Episcopal local (Sacbc) publicou uma Carta pastoral “aos católicos e a todos os homens de boa vontade”.

Cidade do Vaticano

Um apelo por eleições “pacíficas, livres e transparentes” e um apelo “à oração”: ao longo destes dois eixos se desenvolve a Carta Pastoral dos Bispos sul-africanos, publicada em vista das eleições gerais marcadas para o próximo 8 de maio. Os bispos redigiram o documento em Mariannhill durante a Assembléia Plenária.

Escolher líderes que promovam o bem comum

Em primeiro lugar, os bispos definem “imperativo” o exercício do direito de voto de forma “sábia e corajosa, sem deixar-se distrair por falsas promessas”, olhando para os líderes capazes de “promover o bem comum e viver a Constituição à luz do Evangelho”. Daí a exortação aos eleitores a se fazerem algumas perguntas antes de entrarem na urna, como por exemplo: quem, de entre os candidatos, poderá efectivamente erradicar a corrupção, enfrentar os temas do desemprego e da pobreza e reduzir drasticamente o nível de violência perpetrada na população, em particular mulheres e crianças. Em síntese, sublinham os bispos, trata-se de escolher líderes que sejam capazes de “proteger a democracia” e fazer com que os cidadãos se sintam “orgulhosos de serem sul-africanos”.

Não a violências e intimidações

Em seguida – prossegue o documento – é essencial a criação de “um ambiente tolerante, que permita a cada sul-africano de apoiar e votar no partido escolhido, sem receio de violência e retaliações”. Por isso, recordando a responsabilidade do Estado de “garantir a segurança de todos”, os prelados exortam os partidos políticos a evitar as intimidações, tomando medidas decisivas contra os que as cometessem, bem como a “respeitar os resultados eleitorais”, assegurando também o respeito da lei.

O papel dos mass-media

Da mesma forma, também os meios de comunicação de massa são instados pela Igreja da África do Sul a “fugir do sensacionalismo” e a “relatar os eventos de maneira apropriada e responsável, para o bem de todos”. Nesta perspectiva, vem enfim o apelo à oração lançado pelos bispos, que sugerem uma oração em que se implora do Pai o respeito pela lei, a humildade do serviço, a esperança para os pobres, a unidade da população, a paz e a segurança para as crianças.

Governo brasileiro vê Igreja Católica como potencial opositora

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Abin e comandos militares relataram articulação de cardeais para o Sínodo sobre Amazônia, reunião no Vaticano que governo trata como parte da ‘agenda da esquerda’

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2019 | 05h00

BRASÍLIA – O Palácio do Planalto quer conter o que considera um avanço da Igreja Católica na liderança da oposição ao governo Jair Bolsonaro, no vácuo da derrota e perda de protagonismo dos partidos de esquerda. Na avaliação da equipe do presidente, a Igreja é uma tradicional aliada do PT e está se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do País e nas periferias.

O alerta ao governo veio de informes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e dos comandos militares. Os informes relatam recentes encontros de cardeais brasileiros com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia, que reunirá em Roma, em outubro, bispos de todos os continentes. 

Bispos se opõem a políticos em evento

Durante 23 dias, o Vaticano vai discutir a situação da Amazônia e tratar de temas considerados pelo governo brasileiro como uma “agenda da esquerda”. 

O debate irá abordar a situação de povos indígenas, mudanças climáticas provocadas por desmatamento e quilombolas. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, que comanda a contraofensiva.

Governo anuncia intenção de mudar protocolo de licenciamento de barragens
O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno Foto: Dida Sampaio/Estadão

Com base em documentos que circularam no Planalto, militares do GSI avaliaram que os setores da Igreja aliados a movimentos sociais e partidos de esquerda, integrantes do chamado “clero progressista”, pretenderiam aproveitar o Sínodo para criticar o governo Bolsonaro e obter impacto internacional. “Achamos que isso é interferência em assunto interno do Brasil”, disse Heleno.

Escritórios da Abin em Manaus, Belém, Marabá, no sudoeste paraense (epicentro de conflitos agrários), e Boa Vista (que monitoram a presença de estrangeiros nas terras indígenas ianomâmi e Raposa Serra do Sol) estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses.

O GSI também obteve informações do Comando Militar da Amazônia, com sede em Manaus, e do Comando Militar do Norte, em Belém. Com base nos relatórios de inteligência, o governo federal vai procurar governadores, prefeitos e até autoridades eclesiásticas que mantêm boas relações com os quartéis, especialmente nas regiões de fronteira, para reforçar sua tentativa de neutralizar o Sínodo.

Estado apurou que o GSI planeja envolver ainda o Itamaraty, para monitorar discussões no exterior, e o Ministério do Meio Ambiente, para detectar a eventual participação de ONGs e ambientalistas. Com pedido de reserva, outro militar da equipe de Bolsonaro afirmou que o Sínodo é contra “toda” a política do governo para a Amazônia – que prega a defesa da “soberania” da região. “O encontro vai servir para recrudescer o discurso ideológico da esquerda”, avaliou ele.

Conexão. Assim que os primeiros comunicados da Abin chegaram ao Planalto, os generais logo fizeram uma conexão com as críticas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Órgãos ligados à CNBB, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), não economizaram ataques, que continuaram após a eleição e a posse de Bolsonaro na Presidência. Todos eles são aliados históricos do PT. A Pastoral Carcerária, por exemplo, distribuiu nota na semana passada em que critica o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sérgio Moro, que, como juiz, condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato.

Na campanha, a Pastoral da Terra divulgou relato do bispo André de Witte, da Bahia, que apontou Bolsonaro como um “perigo real”. As redes de apoio a Bolsonaro contra-atacaram espalhando na internet que o papa Francisco era “comunista”. Como resultado, Bolsonaro desistiu de vez da CNBB e investiu incessantemente no apoio dos evangélicos. A princípio, ele queria que o ex-senador e cantor gospel Magno Malta (PR-ES) fosse seu candidato a vice. Eleito, nomeou a pastora Damares Alves, assessora de Malta, para o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Histórico. A relação tensa entre militares e Igreja Católica começou ainda em 1964 e se manteve mesmo nos governos de “distensão” dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, último presidente do ciclo da ditadura. A CNBB manteve relações amistosas com governos democráticos, mas foi classificada pela gestão Fernando Henrique Cardoso como um braço do PT. A entidade criticou a política agrária do governo FHC e a decisão dos tucanos de acabar com o ensino religioso nas escolas públicas.

O governo do ex-presidente Lula, que era próximo de d. Cláudio Hummes, ex-cardeal de São Paulo, foi surpreendido, em 2005, pela greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio. O religioso se opôs à transposição do Rio São Francisco.

Com a chegada de Dilma Rousseff, a relação entre a CNBB e o PT sofreu abalos. A entidade fez uma série de eventos para criticar a presidente, especialmente por questões como aborto e reforma agrária. A CNBB, porém, se opôs ao processo de impeachment, alegando que “enfraqueceria” as instituições.

‘Vamos entrar a fundo nisso’, afirma Heleno

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro, afirmou que há uma “preocupação” do Planalto com as reuniões e os encontros preparatórios do Sínodo sobre a Amazônia, que ocorrem nos Estados. “Há muito tempo existe influência da Igreja e ONGs na floresta”, disse.

Mais próximo conselheiro do presidente Jair Bolsonaro, Heleno criticou a atuação da Igreja, mas relativizou sua capacidade de causar problemas para o governo. “Não vai trazer problema. O trabalho do governo de neutralizar impactos do encontro vai apenas fortalecer a soberania brasileira e impedir que interesses estranhos acabem prevalecendo na Amazônia”, afirmou. “A questão vai ser objeto de estudo cuidadoso pelo GSI. Vamos entrar a fundo nisso.”

Tanto o ministro Augusto Heleno quanto o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, hoje na assessoria do GSI e no comando do monitoramento do Sínodo, foram comandantes militares em Manaus. O vice-presidente Hamilton Mourão também atuou na região, à frente da 2.ª Brigada de Infantaria de Selva, em São Gabriel da Cachoeira.

SÍNODO

O que é?

É o encontro global de bispos no Vaticano para discutir a realidade de índios, ribeirinhos e demais povos da Amazônia, políticas de desenvolvimento dos governos da região, mudanças climáticas e conflitos de terra.

Participantes

Participam 250 bispos.

Cronograma do Sínodo

19 de janeiro de 2019: início simbólico com a visita do papa Francisco a Puerto Maldonado, na selva peruana;

7 a 9 de março: seminário preparatório na Arquidiocese de Manaus;

6 a 29 de outubro: fase final no Vaticano, com missas na Basílica de São Pedro celebradas por Francisco.

Tema do encontro

Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

As três diretrizes do evento

“Ver” o clamor dos povos amazônicos;

“Discernir” o Evangelho na floresta. O grito dos índios é semelhante ao grito do povo de Deus no Egito;

“Agir” para a defesa de uma Igreja com “rosto amazônico”

Leonard Boff:“devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”.

Em entrevista exclusiva concedida à Fórum, o teólogo Leonardo Boff falou sobre política, religião e, claro, sobre o ex-presidente Lula, seu amigo há mais de 30 anos. “Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”

Foto: Mídia Ninja

Poucos episódios ligados à política nacional brasileira deste ano foram tão tristes como o dia em que o teólogo Leonardo Boff, aos seus 79 anos, foi impedido de visitar o ex-presidente Lula na superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde está preso há quase dois meses.

A imagem de Leonard Boff sentado à sombra da cabine policial, aguardando para visitar seu amigo há mais de 30 anos, rodou o mundo e ajudou a denunciar uma Justiça arbitrária e insensível.

“Negaram a minha humanidade e a do ex-presidente Lula”, disse Boff, aos prantos, na ocasião.

Semanas depois, sob o preceito das Regras de Mandela, o teólogo finamente conseguiu  visitar o seu velho amigo. “Nos abraçamos e choramos”, disse Boff.

Nesta semana de feriado de Corpus Christi, tão representativo aos cristãos e católicos no Brasil, Fórum procurou Leonardo Boff, que é uma das maiores referências no que tange à teologia e à Teologia da Libertação para analisar o momento político sob sua visão humanista e espiritual. Ex-sacerdote franciscano, Boff falou sobre religião, política e, claro, sobre o ex-presidente Lula.

“Não se resigna. Mesmo preso, é um homem livre”, pontuou.

A entrevista começa com Leonardo Boff analisando as recentes declarações do Papa Francisco sobre golpes de Estado. Para o teólogo, não resta dúvidas: o pontífice mandou, sim, um recado direto ao Brasil.

“O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas”, revelou.

Quando convidado a mandar uma mensagem àqueles que sentem-se desiludidos com a situação do Brasil, Boff não tergiversou. “Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem”.

Confira.

Fórum – Leonardo, recentemente o Papa Francisco fez uma fala sobre como a mídia ajuda a manchar a imagem de lideranças e, assim, acontecem os golpes de estado. Muitos interpretaram essa fala como um recado ao Brasil. O que acha disso? Acredita que ele tem consciência da atual situação política brasileira?

Leonardo Boff – O Papa se interessa muito pelo Brasil e acompanha a nossa tragédia. Na época do impeachment ele mandou uma carta pessoal à Dilma. Ela não quis publicá-la por achar que era algo privado quando, no meu entender, era altamente político, pois todos admiram este Papa.

Eu creio, sim, que o Papa Francisco pensou no Brasil. Eu mesmo entrei em contato com um jornalista, expert em Vaticano e muito próximo ao Papa, Raffaele Luise, pedindo que de alguma forma [o pontífice] desse a entender a situação escabrosa do país. Quem entende o linguajar dos Papas não tem dúvidas de que mandou um recado aos golpistas.

Fórum – Como você tem avaliado, em linhas gerais, o papado de Francisco? Acredita que ocorra uma mudança, de fato, com relação aos velhos dogmas da Igreja Católica ou as declarações de Francisco fazem parte apenas de uma estratégia para “melhorar” a imagem da Igreja?

Leonardo Boff – Esse Papa não tem nada do figurino dos Papas da tradição. Ele inovou em todos os sentidos. Antes de tudo, porque veio de fora da velha cristandade europeia em franca decadência. Basta dizer que na Europa vivem apenas 25% dos católicos do mundo, enquanto na América são 62% e os restantes na África e na Ásia. Esse Papa disse e repetiu muitas vezes que respeita os dogmas. Mas isso não é importante. Mais importante é apresentar um Cristo que ama a todos, também aos homoafetivos, e o que vale é o encontro com as pessoas, levando-lhes esperança e o fato de a misericórdia de Deus não ter limites.

Portanto, podemos sempre contar com Deus, viver sem medos, pois não existe condenação eterna, como repetiu algumas vezes. O curioso é que este Papa, como nenhum antes na história dos pontífices, tem atacado diretamente o capitalismo como um sistema anti-vida e assassino dos pobres. Ele tem lado, ao lado das vítimas deste sistema inimigo da vida da natureza e insensível face ao sofrimento da maioria da humanidade. Ele vem do caldo cultural da teologia da libertação na versão argentina que é libertação do povo oprimido e da cultura silenciada. Ele introduziu este discurso no seio do próprio Vaticano e o tornou oficial.

Fórum – A Teologia da Libertação, junto aos trabalhos de base da igreja católica, ajudaram a consolidar o próprio PT e a esquerda brasileira após a redemocratização. Após o golpe e diante da conjuntura política no Brasil, aumento das desigualdades e perseguição dos movimentos sociais, acredita que a Igreja Católica possa voltar a ter um papel relevante no Brasil na construção de um novo caminho para as esquerdas e as camadas populares? Se sim, de que maneira?

Leonardo Boff – Sou da opinião que este Papa está criando uma nova genealogia de Papas que virão das partes mais numerosas e mais criativas da atual Igreja, quer dizer, do Grande Sul, do que chamávamos de Terceiro e Quarto Mundo. Ele tem consolidado um tipo de Igreja que está à altura dos problemas mundiais, especialmente a grande injustiça social mundial, a questão das ameaças que pesam sobre o planeta Terra. Ele está desocidentalizando a Igreja e também despatriarcalizando os estilos palacianos que a Igreja ainda apresenta. Ele despojou-se de tudo. Não foi viver no palácio pontifício, mas numa casa de hóspede. Ainda come com todos e diz com humor: “assim é mais difícil que me envenenem”.

Quanto à Igreja da base, vale dizer as Comunidades Eclesiais de Base, os movimentos sociais nascidos no interior dessa Igreja como o MST, o CIMI (Centro Indigenista Missionário), que cuida dos problemas indígenas, a CPT (Comissão da Pastoral da Terra), que cuida das pastorais sociais, dos afrodescendentes, das mulheres, da infância e outros, todos esses movimentos ajudaram na fundação do PT. Não é que eles entraram no PT. Eles constituíram células e grupos do partido. Portanto, ajudaram a fundar o PT.

A convicção era e continua sendo: as políticas sociais dos governos Lula-Dilma realizavam os ideais que amadureceram nas bases de justiça social e de participação popular. Em dialeto cristão se diz: essas políticas para os pobres mostram os bens do Reino de Deus que são feitos de justiça, de participação, de solidariedade e de amor efetivo, especialmente para os mais invisíveis. Lula sempre reconheceu a importância deste fato.

Fórum – Qual a sua opinião sobre a indicação do ex-presidente Lula para o Prêmio Nobel da Paz? Que características ele carrega que o fazem merecedor do prêmio?

Leonardo Boff – Eu creio e assim também o confirmou o prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, que Lula preenche todas as características para ganhar o prêmio Nobel da Paz. Principalmente pelas políticas sociais que permitiram que 36 milhões de pessoas saíssem da fome e da miséria e entrassem na sociedade organizada. E outros projetos que beneficiaram os mais vulneráveis. E, além disso, ele irrompe como uma liderança mundial única, já que vivemos num mundo sem grandes líderes que convoquem a humanidade para algo melhor do que agora temos, que é uma barbárie para as grandes maiorias do mundo. Mas por trás há sempre um jogo político, pois cada país tem os seus “heróis” que mereceriam esse título, o que duvido realmente.

Fórum – O senhor foi o primeiro que conseguiu autorização para visitar o ex-presidente Lula na categoria de “assistência espiritual”, que agora acontece todas as segundas-feiras. Qual a importância deste tipo de visita?

Leonardo Boff – Eu atendi a um pedido do próprio Lula, que é meu amigo já há mais de 30 anos. De tempos em tempos ele me chama junto com a minha companheira Márcia para um diálogo. Como não venho do campo político, nem sou membro do PT, ele tem muita confiança e gosta de ouvir opiniões de fora da política partidária. Eu fui junto com o portador do prêmio Nobel da Paz, o argentino Perez Esquivel. Segundo uma determinação da ONU, um portador deste título pode em qualquer país do mundo entrar nas prisões e visitar lugares de conflito. É a chamada Lei Mandela. Argumentamos junto à juíza Carolina Lebbos, que é o braço direito de Sérgio Moro, mas ela não quis nem saber. Alegou que isso não vale para o Brasil, no maior desrespeito a um portador mundialmente conhecido que é Adolfo Perez Esquivel. Tivemos que ir embora. Somente depois que se completaram 30 dias na prisão que a autoritária juíza permitiu que eu fosse visitá-lo. Começamos por aquilo que a Constituição ou a Justiça Penal prevê: que o encarcerado possa receber assistência espiritual. Não havia mais como negá-lo.

Fórum – Como o senhor se sentiu na primeira vez em que foi impedido de visitar o ex-presidente?

Leonardo Boff – Eu fiquei penalizado pela injustiça que essa proibição significa. Como religioso e teólogo fui cumprir o preceito evangélico que diz “estive preso e vieste me visitar”. A foto minha sentado à sombra da cabine policial na entrada da Polícia Federal girou o mundo. Dez minutos depois vinham mensagens de protesto de vários países da Europa e da América Latina. Muitos escreveram belos artigos sobre essa foto pois era altamente significativa.

Fórum – Espiritualmente falando, como está ex-presidente Lula? Ele está esperançoso?

Leonardo Boff – Encontrei o Lula surpreendente assim como o conhecemos. Nada desfigurado. Sorridente. Nos abraçamos e nos comovemos juntos. Eu era o primeiro, afora os filhos e os advogados, que ele encontrava. Ele sente a falta de contato com o povo. Mas se consola ao ouvir às oito horas da manhã o “Bom Dia Lula” e o “Boa Noite Lula” vindos do acampamento em frente ao edifício da polícia. E ele escuta perfeitamente. Isso o consola.

O maior consolo vem de dentro, pois diz que sua consciência não o acusa de nada. Não participou de nenhum roubo, não recebeu uma única propina. Chega a dizer: “se alguém disser que eu dei cinco centavos a alguém ou recebi cinco centavos de alguém é um mentiroso. Aprendi com a minha mãe Lindu ser sempre correto e nunca pegar nada dos outros”.

Espiritualmente, isso lhe dá tranquilidade. Mas revela muita indignação pela injustiça que lhe é feita. Ele fez um desafio e pediu que eu o dissesse publicamente: “Se o Moro apresentar uma única prova sobre a propriedade a mim atribuída do triplex quero ser condenado e preso”. Até hoje não apareceu nenhuma prova. Sente-se, com razão, vítima do ódio deste juiz, instruído nos Estados Unidos a praticar o lawfare, quer dizer, distorcer as leis e sua interpretação para condenar o acusado. Ninguém pode prender seus e os nossos sonhos. Mesmo preso é um homem livre. Nunca se resigna. Disse-me claramente: “não quero cair de pé. O que quero é não cair. E não vou cair como eles desejam”.

Fórum – Que mensagem o senhor enviaria ao leitor da Fórum que está desiludido com o país e indignado com a situação do ex-presidente Lula?

Leonardo Boff – A minha mensagem vem de Santo Agostinho, um dos maiores pensadores cristãos, nascido na África e bispo de Hipona, hoje Argélia, aí pelos anos 450 da atual era. Diz ele: “devemos manter a esperança que não pode morrer nunca”. “A esperança”, dizia mais, “tem duas belas irmãs: a indignação contra as coisas erradas que vemos e a coragem para superá-las”.

Hoje devemos manter a indignação contra os malfeitos que o presidente ilegítimo e usurpador Michel Temer fez contra o povo, especialmente contra os pobres e os aposentados, e coragem para nos organizarmos para superar a situação, reelegermos Lula e dar continuidade à revolução pacífica que iniciou, mudando o perfil do Brasil face a nós mesmos e face ao mundo. Portanto, coragem, coragem. Era o que o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns de São Paulo sempre repetia aos resistentes ao regime militar e aos que sofriam a violência do Estado terrorista.

Fórum – Se Lula saísse da prisão e fosse presidente do Brasil novamente, o que o senhor lhe recomendaria repetir enquanto governante e o que o senhor lhe recomendaria evitar ou mudar?

Leonardo Boff – Eu diria duas coisas e ele concordou dizendo: “Se for novamente Presidente, primeiro vou revogar as medidas antipopulares e antinacionais que os golpistas introduziram contra a própria Constituição”. Depois, isso ele o repetiu muitas vezes, iria radicalizar as política sociais unidas à uma consciência de cidadania e de participação. Em segundo lugar, eu diria que ele deveria manter permanente contato com o povo e os movimentos sociais para equilibrar as alianças que se vê obrigado a fazer no parlamento para poder governar. Ele não quer fazer o mesmo. Quer levar mais a fundo e radicalizar o combate à injustiça social e dar mais lugar aos colocados injustamente à margem, especialmente os afrodescendentes face aos quais temos uma dívida até hoje nunca paga.

Fórum – Como Leonardo Boff, em uma visão filosófica, definiria o Brasil de hoje?

Leonardo Boff – Minha visão é mais de uma ecologia integral na linha do que diz o Papa Francisco na sua encíclica “como cuidar da Casa Comum”. Acredito que dentro de pouco tempo toda a economia deverá passar pela ecologia, vale dizer, pelos bens e serviços da natureza. Estes estão se esgotando mais e mais. A Terra entrou no vermelho, o assim chamado The Overshoot Day, o dia da ultrapassagem dos limites suportáveis para o equilíbrio da Terra. Este ano foi no dia 2 de maio. Até o final do ano iremos tirar à força da dispensa da Terra para podermos viver e sobreviver e manter, de forma irracional, o consumo das elites consumidoras.

Um projeto infinito de acumulação não pode ser suportado por um planeta finito. Ou mudamos de paradigma e de hábitos ou vamos ao encontro de um caminho sem retorno. Mas o Brasil, no contexto do mundo, tem tudo para ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro. Aqui está a maior biodiversidade. Aqui está a maior reserva de água doce do mundo, 13%. Aqui estão as maiores florestas úmidas que equilibram os climas da Terra. Aqui vive um povo inteligente, hospitaleiro que mostra, no meio do sofrimento, alegria de viver, que festeja seus carnavais e o seu futebol, com uma arte invejável, que elabora uma música apreciada e imitada pelo resto do mundo.

Como Darcy Ribeiro dizia: podemos ser a Roma tropical tardia, na província mais bela e ridente da Terra. Estimo que o futuro da humanidade e da vida poderá passar pelo Brasil. Não porque o queremos, mas porque Deus nos deu tanta riqueza, diversidade e originalidade que podemos contribuir e garantir o futuro da nossa civilização e da Casa Comum que é a Terra.

Fonte:https://www.revistaforum.com.br/entrevista-exclusiva-com-leonardo-boff-devemos-manter-a-indignacao/

Bispos católicos pedem “serenidade e humildade” depois da morte de Dhlakama

A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) pediu hoje “serenidade e humildade” face à morte de Afonso Dhlakama, líder da Renamo, exortando o principal partido da oposição a saber reerguer-se para honrar o compromisso com a paz.
Bispos católicos moçambicanos pedem “serenidade e humildade”

“É um momento doloroso para o país, porque morre um grande protagonista e peça-chave para a paz, mas os moçambicanos devem reagir a este acontecimento com serenidade e humildade”, disse à Lusa o porta-voz da CEM e bispo de Chimoio, centro de Moçambique, João Nunes.

João Nunes assinalou que Afonso Dhlakama entendeu o clamor do país pelo fim da violência nos vários ciclos de confrontação militar que opuseram a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e as Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas.

“Nas circunstâncias mais difíceis, compreendeu que a paz era muito importante e agiu como interlocutor válido”, declarou João Nunes.

Para o porta-voz do CEM, o líder da Renamo voltou a encontrar o caminho da paz quando recentemente chegou a acordo com o Presidente da República, Filipe Nyusi, sobre a proposta de revisão pontual da Constituição da República visando o aprofundamento da descentralização.

“A Renamo deve ter a determinação de se reerguer deste momento duro provocado pela perda e honrar o compromisso que o seu líder tinha manifestado para com a paz”, afirmou.

João Nunes apelou à Frente de Libertação Moçambicana (Frelimo), partido no poder, para que actue com humildade e sentido de Estado, trabalhando com a Renamo para a estabilidade do país.

“O rumo em direcção à paz não deve sofrer desvios, a Frelimo deve ter a coragem de sempre colocar o interesse nacional acima de quaisquer outros”, frisou.

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, morreu na quinta-feira pelas 08:00, aos 65 anos, na Serra da Gorongosa, devido a complicações de saúde.

O Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, referiu à Televisão de Moçambique (TVM) que foram feitas tentativas para o transferir por via aérea para receber assistência médica no estrangeiro, mas sem sucesso.

Fontes partidárias contaram à Lusa que o presidente do principal partido da oposição moçambicana faleceu quando um helicóptero já tinha aterrado nas imediações da residência, na Gorongosa.

O seu corpo encontra-se desde a madrugada na morgue do Hospital Central da cidade da Beira.

https://noticias.sapo.mz/actualidade/artigos/bispos-catolicos-mocambicanos-pedem-serenidade-e-humildade

A catedral em Gana

David Adjaye projeta a catedral nacional de Gana (Foto: Divulgação)

“A Catedral preencherá o elo perdido na arquitetura de nossa nação, fornecendo uma Igreja de propósito nacional. Será uma casa de adoração e oração inter-denominacional e também servirá de palco para eventos de estado de natureza religiosa, como inaugurações presidenciais, funerais estaduais e serviços nacionais de ação de graças “, explicou Nana Akufo-Addo, presidênte de Gana.

David Adjaye projeta a catedral nacional de Gana (Foto: Divulgação)

A Catedral ficará em um terreno de cerca de 6 hectares próximo ao cemitério Osu e vai abrigar uma série de capelas impressionantes, um batistério, um auditório com capacidade para 5.000 pessoas, uma escola de música e uma galeria de arte, além de espaços comerciais e do primeiro Museu da Bíblia do continente africano.

David Adjaye projeta a catedral nacional de Gana (Foto: Divulgação)

“É uma honra imensa ter a oportunidade de contribuir com algo desta escala no continete africano. Procurei elaborar um edifício que não só entenda sua paisagem, mas que seja exclusivo de Accra e da Nação de Gana “, afirmou David Adjaye ao comentar o projeto

O arquiteto e sua equipe ainda tomaram o cuidado de trabalhar em parceria com artista ganenses e de outros países da áfrica no desenvolvimento dos móveis e dos adorno da decoração.

 

Fonte:https://casavogue.globo.com/Arquitetura/noticia/2018/03/david-adjaye-projeta-catedral-nacional-de-gana.html

Filósofo de Moçambique: “Estado não deve ficar indiferente ao que se passa dentro das igrejas”

O Estado não pode ficar indiferente ao que se passa nas igrejas

Ao som de uma ópera tocada no seu computador de mesa, numa sala com prateleiras cheias de livros versando um pouco de todas as ciências e sob nuvens de tabaco fumado a cachimbo, o filósofo moçambicano Severino Ngoenha falou ao nosso jornal( “O País” de  Moçambique) da violência que vem marcando o país e deixou duas conclusões: “Não somos um povo pacífico” e o “Estado não deve ficar indiferente ao que se passa dentro das igrejas”

Severino_Ngoenha

A violência doméstica foi o primeiro ponto de uma entrevista que começa com um pedido do entrevistado: “Deixe que eu fale, depois fazes as perguntas que tiveres”, disse Ngoenha, depois de uma concertação sobre os pontos da entrevista.

“Assistimos a casos de violência doméstica nas nossas famílias. Pais que espancam os filhos, maridos nas mulheres, mulheres que queimam os maridos com óleo de cozinha, assistimos à violência nos nossos quarteirões quando temos uma violência maior, que é a fome”, disse o académico, em jeito de contextualização.

filósofo moçambicano Severino NgoenhaSegundo o filósofo, estas situações são o reflexo daquilo que os moçambicanos são, que, contrariamente ao que o discurso político revela, “não somos pacíficos”.

“Gostaríamos de ser o que temos dito que somos, mas nós não somos um povo pacífico. A prova disto é que, se fizermos uma cronologia muito rápida, vemos que não há ninguém nos países da África Austral que praticou violência como nós. Não há ninguém que tem tantos conflitos armados como nós”, disse Ngoenha.

“As pessoas da minha geração (tenho 55 anos feitos este mês) viveram mais tempo de guerra do que de paz. E esta guerra ainda não terminou e, até, tende a permanecer nas nossas vidas”, referiu, deixando um apelo para a mudança do paradigma.

“Nós temos que inverter o paradigma nessa dimensão de passivos, para engrenarmos numa vida pacífica, uma vida regida pela moral e pelo direito. Quer dizer, temos que militar todos, para integrarmos uma maneira de fazer regida por outros princípios, outros valores que não sejam a força nem violência”, advertiu.

severinoCaso Mocímboa da Praia

Os recentes ataques de grupos radicais no distrito da Mocímboa da Praia são, para Severino Ngoenha, resultado do crescimento da onda de intolerância, cujas repercussões são “muito mais difíceis” que a violência com causas político-partidários.

Segundo Ngoenha, na base da violência em Mocímboa da Praia, está a intolerância e, também, a indiferença que abrange agora o lado das religiões. “Muitas vezes, limitamo-nos a não nos ocuparmos do que os outros fazem. O que fazem nas igrejas, que podem ser as grandes igrejas e mesquitas, seja de Maputo ou do Norte. O que acontece lá nos é indiferente”, disse o académico, chamando atenção para uma vigilância nacional.

“O que vai acontecendo ali dentro pode ter impacto nefasto, negativo, como aquilo que nos está a acontecer agora… Temos que nos interessar com o que acontece ali dentro, porque só sabendo o que existe ali, nós podemos prevenir até derrapagens que podem ter consequências como as mortes que assistimos em Mocímboa da Praia”, sugeriu, chamando atenção para um maior papel do Estado na vigilância contra práticas que possam perigar a estabilidade do país.

“A laicidade não pode ser entendida como indiferença em relação ao que se passa dentro das confissões religiosas. Isto não é simplesmente com o islão no norte. Mesmo com as igrejas no sul, há práticas que muitas vezes parecem contradizer aquilo que tem que ser praticado num Estado de Direito, e temos interesse, como cidadãos, país e povo, em estar atentos ao que acontece dentro dos muros daquelas instituições que vivem no nosso país e que são obrigadas a respeitar os princípios que regem a actividade civil dos moçambicanos”, salientou.filósofo

Da intolerância religiosa à etnicidade

A par da intolerância religiosa, Severino Ngoenha deixa um receio ainda maior para o futuro do país. “Eu tenho um receio ainda maior, em que por detrás da intolerância religiosa começa a manifestar-se uma espécie de intolerância étnica ou regional”.

“Estamos a assistir, de uma maneira velada, mas extremamente perigosa, o surgimento de uma terceira intolerância. Tenho visto nas zonas centro e norte o aumento dessas etnicidades a nível nacional. Esta intolerância é capaz de ser mais perigosa do que aquilo que conhecemos das épocas precedentes”, alertou.

A fonte diz que o regionalismo sempre existiu no país, dando como exemplo a criação da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), que resultou da fusão de três movimentos nacionalistas. Foi combatido depois da independência nacional, mas “ressurgiu com o nascimento da Renamo” e “continuou a manifestar-se, na minha opinião, com a criação de amigos em Gaza, Maputo, Nampula, Quelimane, etc.”.

Segundo realçou, o grito das forças étnico-tribais voltou a estar patente na escolha de Filipe Nyusi como candidato presidencial da Frelimo. “Na eleição do Presidente Nyusi, recordam-se que era preciso que o candidato não fosse do sul. Por mais boas qualidades esse indivíduo tivesse, é importante para a questão do equilíbrio regional que fosse alguém do Centro ou do Norte. Isto era um reconhecimento de que existe um problema étnico ou regional em Moçambique”.

 

Politização ou mão externa

Severino Ngoenha suspeita de que haja interesses políticos por detrás das manifestações étnico-regionais que diz estarem a ressurgir no país. “Eu suspeito de que alguns indivíduos utilizam as pertenças étnicas para ganhar espaços de preponderância política”, disse a fonte, que avança também a possibilidade de uma mão externa interessada na instabilidade.

“Suspeito (também) de que alguma comunidade internacional ou algumas empresas internacionais não estão completamente livres ou independentes deste fenómeno. Algumas pessoas têm interesse em que este fenómeno se alargue, isto é extremamente perigoso para um dos fundamentos da vida de Moçambique, que é a nossa Unidade Nacional”.

O filósofo vê nos recursos naturais que colocam Moçambique na rota dos interesses mundiais como um dos aspectos que podem propiciar uma acção externa para a desestabilização do país.

“A descoberta dos recursos, a divisão dos recursos, mais presentes no Norte do que no Sul, vai levar a que este fenómeno cresça em dimensão. E é preciso lutar contra ele. É preciso antecipá-lo, encontrar mecanismos de travá-lo, descobrindo novas maneiras, reacendendo primeiro o espírito da moçambicanidade e unidade”, exortou, salientando que “já é até tarde, mas ainda temos espaço de manobra para fazê-lo”.

 

Descentralização

Segundo Severino Ngoenha, a descentralização efectiva do poder é um dos caminhos para travar os perigos da etnicidade e regionalismo no âmbito daquilo que são os interesses de um Moçambique uno e indivisível.

Para Ngoenha, o país precisa de se reinventar, de forma a que se torne indivisível. “Temos que reinventar. Nem que fosse para colocar a Assembleia da República no Norte, por exemplo. Temos que garantir que o país todo está uno e indivisível. Se não fizermos isso, vamos nos encontrar em situações muito complicadas e muito difíceis, num futuro próximo”, alertou.

“Moçambique é como uma equipa de futebol que tem 11 jogadores, cada um com as suas qualidades; um é defesa, outro meio campista ou avançado. Quando cada um joga no seu lugar e tem espaço para jogar no seu lugar e dá o melhor de si, a equipa ganha, mas quando um só jogador decide deixar a rede e as bolas passar, o que resulta é a derrota da equipa. Então, é preciso entendermos que Moçambique, como uma equipa de futebol, composta por indivíduos, grupos, culturas, raças completamente diferentes, mas ao mesmo tempo complementares, se formos capazes de jogar nisso, talvez não ganhemos, mas de certeza absoluta vamos perder menos”.

Papel do Estado nas igrejas

Questionado sobre qual deve ser, afinal, o papel do Estado dentro das paredes da igrejas, Severino Ngoenha disse que mais do que intervir directamente, o papel do Estado é estar atento. “Eu não chegaria a propor que o estado interviesse ou tivesse uma mão no interior dessas instituições religiosas, mas diria que é importante estarmos atentos ao que acontece, para que essas confissões religiosas – sejam cristãs ou muçulmanas, hindus, judias – presentes no nosso território, de facto, pautem pelo cumprimento tácito daquilo que é previsto pelos princípios legais e que regem a laicidade”.

Segundo Ngoenha, “deixá-los fazer, deixar que tenham práticas religiosas é bom, mas o problema é que há pessoas, há grupos que possam utilizar os espaços religiosos para vaticinar coisas que são contrárias aos princípios que regem o nosso viver colectivo”.

Mais adiante, o entrevistado disse que “o Estado não tem que criar igrejas moçambicanas, mas tem que fazer com que elas sejam respeitadas, porque assim fazendo, significa respeitar as comunidades, as crenças diferentes e, sobretudo, que elas estejam subordinadas a um princípio geral de convivência civil a que estão subordinados todos os 25 ou 26 milhões de moçambicanos”.

Recorde-se que os grupos radicais que protagonizaram terror em Mocímboa da praia tinham base em mesquitas conhecidas na vila, que, contrariando aquilo que são os princípios religiosos, tinham ideias radicais e projectos de insubordinação às instituições do Estado e legislação nacional.

 

Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos

Na senda das sugestões sobre mais vigilância do Estado, questionámos o entrevistado sobre o papel que está a ser desempenhado pelo Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, ao que disse. “A questão não é se ela está ou não a fazer o suficiente, é, sim, o que está a fazer. O que acontece é que estamos defronte de um problema que já está a dar que falar aqui em Maputo ou no Sul. Há algumas igrejas que tiram a subsistência de certas famílias. Agora, temos esse problema até no Norte. Então, quer dizer que há um problema na maneira de praticar os diferentes cultos que pode, até, estar em contradição com as leis que regem a convivência civil dos moçambicanos e com o princípio da laicidade”.

“Então, atirando-nos a este problema e a este perigo, ocorre que de facto se tomem as medidas necessárias em termos de educação dos princípios do que é verdadeiramente a laicidade, em termos de um debate religioso ligado mais à tolerância e ao conhecimento ou reconhecimento do outro, e ligado a um estado que tem que zelar para que as religiões tenham a liberdade de praticar os seus próprios cultos, mas no quadro legal, que é o quadro moçambicano, nos princípios da laicidade que regem a convivência recíproca dos moçambicanos”, concluiu.

http://opais.sapo.mz/o-estado-nao-pode-ficar-indiferente-ao-que-se-passa-nas-igrejas

A crise da igreja Católica continua na Nigéria

download (1)O arcebispo Ignatius Kaigama, presidente da Conferência dos Bispos da Nigéria, está pedindo aos sacerdotes da diocese de Ahiara para aceitar um bispo nomeado por Bento XVI e confirmado por Francisco, embora não advenha do grupo étnico e linguístico majoritário da diocese. Ainda que alguns sacerdotes afirmem que estão prontos para cumprir o que quer que o papa decida, isso não significa que as queixas implícitas estejam resolvidas.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 23-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

O arcebispo Ignatius Kaigama, presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, pediu aos sacerdotes e leigos da problemática diocese de Ahiara que “deixem as queixas de lado” e aceitem o bispo Peter Ebere Okpaleke, nomeado pelo Papa Bento XVI ainda em 2012 e que ainda não teve permissão de fazer parte da diocese por não ser do grupo étnico e linguístico majoritário.

“Não estamos felizes que a igreja de Ahiara tenha ficado de fora do sistema por todo esse tempo”, disse Kaigama à Agência de Notícias da Nigéria.

“Não estamos exatamente felizes que o nome da Nigéria esteja se espalhando por diferentes partes do mundo como pessoas desleais à autoridade do papa”, declarou no domingo, em entrevista na arquidiocese de Jos, localizada no “cinturão médio” da Nigéria.

Kaigama estava se referindo aos abalos provocados pelo ultimato emitido pelo papa Francisco em junho, que insistia que todos os sacerdotes na diocese de Ahiaraescrevessem uma carta pedindo desculpas por se recusar a aceitar a autoridade papal e receber Okpaleke como bispo.

O prazo para o envio da carta se encerrou em 9 de julho, e os que não enviaram enfrentam ameaça de suspensão. O pedido já havia sido feito pelo cardeal Fernando Filoni, da Congregação para a Evangelização dos Povos do Vaticano, que supervisiona os territórios missionários. O pedido foi enviado em uma carta datada de 24 de junho de 2014.

“Oramos fervorosamente para que o povo de Ahiara seja sensato e volte a ser uma Igreja baseada na obediência à autoridade de Deus”, disse Kaigama, no domingo, apelando aos sacerdotes e aos leigos para “deixar as queixas de lado e aceitar o bispo Okpalaeke para que o trabalho de Deus possa continuar”.

Desde o início da crise, não houve ordenações sacerdotais nem confirmações, pois ambas são tarefas exclusivas dos bispos.

De acordo com o fórum católico pro-Okpaleke de Mbaise, grande parte dos sacerdotes cumpriu o pedido do Papa Francisco e enviou a carta pedindo desculpas pela rebeldia, embora alguns tenham agido com reservas.

“Sobre a diretiva do papa de que devemos enviar uma carta individualmente expressando obediência e lealdade a ele e pedindo perdão por ter contribuído com a dor que sofreu devido à crise na diocese de Ahiara, todos os sacerdotes na diocese a cumpriram”, afirmou um dos sacerdotes ao Crux, no final de julho, sob a condição de permanecer anônimo.

“Ele é nosso pai, nossa lealdade a ele não pode ser comprometida de forma alguma”.

No entanto, pouco depois, acrescentou: “Mas esperamos que ele reavalie seu posicionamento e nomeie outro bispo”.

O padre David Iheanacho teve um discurso parecido, dizendo ao Crux que havia escrito a carta a Francisco, “pedindo perdão pela contribuição pessoal à dor que sofreu devido à crise. Prometi total lealdade a ele como pontífice supremo, sucessor de São Pedro e vigário de Cristo na Terra. Expressei minha vontade de aceitar quem quer que enviasse e tivesse designado para ser meu bispo”.

Ele afirma que todos os sacerdotes consentiram, porque o papa não “brinca” com ameaças de sanção. Também declarou que Francisco é muito amado em Ahiara, e que sua palavra é “lei para os sacerdotes e leigos da diocese”.

“O único problema é que todos nós entramos em um dilema terrível entre engolir uma amarga pílula de injustiça e obedecer ao Santo Padre”, disse ele, por telefone. “Não se engane, o dilema ainda existe, e não sei como vai se resolver. Estamos rezando para que o Espírito Santo ilumine o Santo Padre para tomar a decisão certa e resolver o problema em nossa diocese.”

Em texto no fórum, o leigo Mark C. Nwoga afirma que a crise atual de Ahiara e de outras dioceses, que enfrentam conflitos semelhantes, não resulta de um processo falido de nomeação de bispos, mas sim de uma falha entre os sacerdotes.

“Há alguns ‘sacerdotes profissionais, ao invés de vocacionais’, que não são tão adeptos da oração nem da piedade, mas muito demonstram abertamente uma visão e um estilo de vida mundanos”, afirmou.

A raiz do problema, segundo ele, é que alguns sacerdotes se comportam mais como “agitadores políticos, querendo ser nomeados bispos”.

A nomeação de Okpaleke foi recebida com protestos e abaixo-assinados pedindo por um bispo do clero local. Apesar da rejeição, ele foi ordenado bispo em maio de 2013, embora a posse formal ainda não tenha ocorrido.

jornal The Guardian da Nigéria informou, no sábado, que o bispo declarou que não está incomodado pela oposição contra a nomeação e que está aguardando a posse, cuja data ainda não foi anunciada.

Em discurso na celebração do 70º aniversário de um sacerdote de sua cidade natal, Okpaleke disse que não pode permitir que a crise o distraia da missão de servir a Deus: “o que estão dizendo não diz respeito à minha vocação; minha vocação vem de Deus e é declarada pela Igreja”.

 

http://www.ihu.unisinos.br/570988-nigeria-diocese-de-ahiara-deve-deixar-as-queixas-de-lado-e-aceitar-o-bispo

Papa Francisco pode fechar 163 paróquias , no estado de Imo na Nigéria

ahiaraPapa Francisco está pensando seriamente na possibilidade de fechar 163 paróquias na diocese católica de Ahiara, no estado de Imo, devido à crise prolongada gerada pela nomeação de Peter Okpalaeke como bispo.

A informação é publicada por The Nation, 20-08-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Sua nomeação, quatro anos atrás, após a morte do bispo Victor Chikwe, encontrou forte resistência dos padres do grupo étnico Mbaise e pelos leigos, o que gerou um impasse.

Uma figura crucial na Secretaria Católica da Nigéria confidenciou a um dos nossos correspondentes que o papa não teria outra escolha a não ser usar de sua autoridade caso o impasse continue.

Declarou que “o que está acontecendo em Ahiala é uma afronta jamais vista na história do catolicismo na Nigéria e na África“.

“A nomeação de um bispo jamais foi tão contestada. É uma pena e uma grande vergonha para o Secretariado Católico da Nigéria e para o papa.”

Segundo ele, como os gladiadores já indicaram que não vão voltar atrás, o papa teria que fechar as 163 paróquias da diocese.

“Considerando a paciência demonstrada, devemos concordar que não seria fora de contexto o papa agir agora.”

“De agora em diante, a qualquer momento, ele pode anunciar que as paróquias não estão mais sob a liderança do Vaticano. Nesse caso, poderiam ir para outro lugar.”

“O papa é a autoridade última da Igreja e nada fará ele se voltar a sentimentos étnicos primordiais”, afirmou a fonte, que pediu completo anonimato.

Ele sugeriu que alguns padres recalcitrantes que alimentam a oposição ao compromisso do bispado também podem ser depostos para servir como retaliação aos outros.

O tão discutido Okpalaeke, porém, declarou ontem que não está incomodado pela oposição à nomeação.

Disse estar aguardando a posse apesar de protestos da grupo étnico dos sacerdotes de Ahiara.

Ele falou durante a cerimônia de 70 anos do Monsenhor Johnbosco Akam em sua casa de campo de Uga, no Conselho de Aguata, estado de Anambra.

Segundo ele, “o que estão dizendo não diz respeito à minha vocação; minha vocação vem de Deus e é declarada pela Igreja”.

“Sou um sacerdote realizado. Onde quer que tenha me encontrado como padre, certamente verei a Deus no último dia. É a minha missão.”

Ele se pronunciou apenas quando as investigações revelaram que os padres adotaram novas medidas para combater a nomeação, dizendo não ser transparente.

Embora todos tenham escrito a carta de desculpas conforme foi exigido pelo Papa Francisco, como forma de punição por resistir à autoridade da Igreja, análises revelaram que eles decidiram ficar nos bastidores enquanto pediam que líderes leigos continuassem lutando.

Eles pesaram as consequências de desobedecer o Vaticano e mobilizaram os leigos para rejeitar Okpalaeke.

O presidente da Organização dos homens católicos da diocese de AhiaraGerald Anyanwu, disse a jornalistas que a diocese não está se rebelando contra o papa, mas exigindo justiça e equidade.

“Não estamos questionando a decisão do papa, mas não vamos aceitar Okpalaeke como Bispo.”

“Esse processo não seguiu os procedimentos estabelecidos para a nomeação de bispos.”

Outro membro dos leigos, Sebastian Eke, disse: “Somos a favor da justiça. Não vemos motivos por que alguém desta ou de qualquer outra diocese do estado de Imo não possa ser nomeado como bispo da diocese de Ahiara.”

“O que estamos dizendo é que não queremos Okpalaeke, e tentar forçá-lo a fazer parte da comunidade não é justo”.

A vice-presidente da Organização das Mulheres Católicas (Catholic Women Organisation – CWO) da Diocese, Dra. Liona Ohanu, que falou em nome das mulheres, pediu que o Vaticano ouvisse a demanda das pessoas.

Ela afirmou que “respeitamos o papa e não podemos desobedecer sua diretiva como nosso Chefe Supremo, mas a questão de Okpalaeke é uma exceção e ele não será bem recebido como bispo desta diocese. O papa pode nomear qualquer outra pessoa, de qualquer lugar, e vamos aceitar, menos Okpalaeke.”

Enquanto os leigos protestavam, os sacerdotes se reuniam em um dos edifícios da catedral, de onde monitoravam o desenvolvimento e a publicação das diretrizes, aparentemente operando nos bastidores para não enfurecer ainda mais o Vaticano.

Mas o principal líder católico em Abuja disse que o Papa poderia agir a qualquer momento para impedir “o constrangimento que esses jingoístas étnicos causaram à Igreja”.

Igreja Católica moçambicana chama de inconstitucional as dívidas ocultas

A Igreja Católica moçambicana pede que o órgão competente declare inconstitucional a inclusão, por parte da Assembleia da República, das dívidas ocultas “contraídas de forma unilateral, ilegal e ilegítima”, informa o jornal O País.


Num comunicado divulgado, terça-feira (5), pela Comissão Episcopal de Justiça e Paz, a Igreja Católica exige a responsabilização dos que contraíram diretamente a dívida, assim como das pessoas e instituições que não responderam à solicitação de informação da Kroll, consultora responsável pela auditoria à Ematum, Pro Indicus e MAM, informa hoje o jornal moçambicano.

“Não podemos permitir que ao povo moçambicano seja imputada a responsabilidade de pagar com a miséria, sangue e morte as dívidas contraídas em seu nome de forma ilegal e inconstitucional”, diz a Igreja Católica.

Em mensagem aos cristãos católicos, a igreja diz que ninguém está obrigado a obedecer à disciplina de qualquer partido político ou aos seus dirigentes, contradizendo a sua consciência. “Não podemos colocar um partido nem os seus dirigentes acima da justiça, do amor a Deus e do amor aos irmãos. No final dos nossos dias, seremos julgados conforme o amor. Não levaremos riquezas nem poder”,  lê-se na nota divulgada pelos bispos.

A Comissão Episcopal lembra as inconsistências entre as explicações fornecidas pelo Indivíduo A, pelo Ministério da Defesa e pela empresa Contratada relativamente à utilização efetiva dos USD 500 milhões de dólares do montante do empréstimo.

De acordo com o resumo da auditoria, continuam a subsistir lacunas sobre como foram exatamente gastos os USD 2 biliões de dólares, apesar de esforços consideráveis para resolver essas lacunas.

https://africa21digital.com/2017/07/05/igreja-catolica-de-mocambique-pede-declaracao-de-ilegalidade-da-divida-oculta/