A crise educacional na África

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A África está no meio de uma crise educacional. Apesar das promessas de melhorar o acesso à educação para todas as crianças até 2030, muitos governos africanos não estão conseguindo financiar este componente ambicioso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Ainda há tempo para resolver o déficit de financiamento, mas somente se novas estratégias de investimento forem adotadas com vigor.

Hoje, aproximadamente metade dos jovens do mundo, incluindo cerca de 400 milhões de meninas,não estão sendo educadas para ter sucesso no local de trabalho do futuro. Este desafio é mais agudo na África; embora 75% das meninas na África Subsaariana iniciem a escola, apenas 8% concluem o ensino médio. A África Subsaariana é a única região em que as mulheres ainda não se matriculam ou concluem o ensino superior nas mesmas taxas que os homens .

Esses problemas são bem conhecidos, se nem sempre abordados. Menos entendido é o impacto contraditório que o crescimento futuro da África terá na disponibilidade de financiamento da educação.

Até 2030, espera-se que quase 30 países na África tenham atingido um status de renda média mais baixo , definido pelo Banco Mundial como renda nacional bruta per capita (RNB) entre US $ 1.026 e US $ 4. 035. À medida que os países se aproximam desse nível de desenvolvimento, serão necessários investimentos para pagar as atualizações de saúde e educação, e mobilizar a receita tributária doméstica se tornará um componente crítico das estratégias orçamentárias.

No momento, no entanto, as receitas fiscais estimadas na maioria dos países serão insuficientes para cobrir os custos associados à melhoria dos resultados educacionais. Como resultado, uma crise de financiamento educacional ameaça as esperanças de um crescimento rápido sustentado e de uma prosperidade duradoura.

As formas tradicionais de ajuda internacional continuarão a desempenhar um papel no desenvolvimento do setor educacional da África. E, no entanto, devido aos aumentos projetados no RNB, a maioria dos países de renda média-baixa deixará de se qualificar para as subvenções e os empréstimos com juros baixos ou zero atualmente disponíveis. Como resultado, milhões de jovens africanos sofrerão os efeitos de um paradoxo no desenvolvimento internacional: os países serão muito prósperos para se qualificarem para as melhores opções de financiamento, mas muito pobres para satisfazer as necessidades educacionais de seus cidadãos por conta própria.

Felizmente, a Comissão Internacional sobre Financiamento da Oportunidade Global de Educação , na qual atuo como comissário, ajudou a desenvolver uma solução. Chamada de International Finance Facility for Education , essa abordagem inovadora visa ajudar os países de renda média baixa a investir em educação – especialmente programas para mulheres e meninas – de maneiras mais sustentáveis.

Ao alavancar US $ 2 bilhões em garantias de doadores, pretendemos entregar cerca de US $ 10 bilhões em financiamento de subsídio e educação concessional para os países que mais precisam. Mas há uma armadilha: os governos que buscam acesso a esses fundos devem primeiro demonstrar interesse e capacidade para reformas educacionais de longo prazo.

Esta abordagem foi concebida para melhorar a eficácia das subvenções e dar aos países a capacidade de reforçar a sua capacidade de resistência económica com uma força de trabalho melhor formada. Pesquisas mostram que, em países de renda média-baixa, cada US $ 1 gasto em educação aumenta o poder aquisitivo dos graduados em US $ 4. Em outras palavras, nosso objetivo de longo prazo é mais amplo do que construir escolas ou ensinar matemática; é criar condições para uma mudança social e econômica duradoura.

Estratégias semelhantes de financiamento já provaram ser bem sucedidas no setor de saúde. Por exemplo, o Mecanismo de Financiamento Internacional para Imunização foi criado para fornecer financiamento para a GAVI, a aliança de vacinas . Eventualmente, bilhões de dólares em novos fundos foram mobilizados para ajudar a vacinar mais de 640 milhões de crianças e salvar mais de nove milhões de vidas. Os retornos econômicos também foram dramáticos; Um estudo que pesquisou os resultados em 73 países descobriu que cada US $ 1 gasto em imunizações traduziu-se em US $ 18 em economias relacionadas à saúde . O mecanismo de financiamento da educação tem o potencial de produzir um impacto semelhante.

Milhões de jovens em todo o mundo, e particularmente meninas jovens na África, não conseguem se sobressair porque continuam a ter acesso negado à educação de qualidade. Faltando apenas 12 anos para a expiração dos ODS, a crise educacional da África deve ser levada ao topo da agenda de desenvolvimento. Os líderes do governo afirmam rotineiramente que as crianças são o nosso futuro. Se eles realmente acreditam, programas como o Mecanismo de Financiamento Internacional para a Educação devem receber a prioridade que merecem.

Graça Machel

Graça Machel

Graça Machel é uma política e humanitária moçambicana. Machel é uma defensora internacional dos direitos das mulheres e das crianças e, em 1997, tornou-se uma honorária dama britânica pelo seu trabalho humanitário. Graça Machel é membro do Africa Progress Panel (APP), um grupo de dez indivíduos distintos que advogam aos mais altos níveis. para o desenvolvimento equitativo e sustentável em África. Como membro do painel, ela facilita a formação de coalizões para alavancar e intermediar o conhecimento e convoca os tomadores de decisão a influenciar políticas para mudanças duradouras na África. Ela também é a fundadora do Graça Machel Trust e membro do The Elders.

Fonte:https://mg.co.za/article/2018-06-04-how-to-pay-for-africas-education-gains

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A dura luta contra o racismo em Portugal

A propósito do Dia Mundial da Tolerância em Portugal em novembro do ano passado foi  entrevistado Mamadou Ba, dirigente da associação S.O.S. Racismo, e uma das vozes mais sonantes no combate ao racismo e integração das minorias étcnicas na sociedade.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens

Nasceu no Senegal, fundou a Associação Luso-Senegalesa e encontrou na direção da associação S.O.S. Racismo uma missão para vida. O discurso é assertivo e vai direto ao assunto. «O racismo está bastante presente em Portugal».

O movimento S.O.S. Racismo (que também existe em também em França, Austria, Itália e Noruega) comemorou vinte anos desde a sua formação e, para Mamadou Ba, é um dos organismos que «tem mesmo de existir porque há ainda muito que fazer».

Em entrevista, Mamadou admite que o cenário melhorou mas que as minorias ainda são «uma segunda camada da sociedade».

Falamos de tolerância esta semana. O racismo e a xenofobia são a antítese desta noção. 
Completamente. Como é possível sermos tão rápidos a criticar ou ostracizar uns aos outros e já nos é mais difícil aceitar que, no fundo, somos todos iguais? É um problema tão grave que está enraizado na cultura, na educação, no civismo e na forma como olhamos o mundo.

Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Como se começa a erradicar o racismo quando está tão intrínseco na nossa sociedade? 
Começa primeiro por uma catarse social a nível global. Primeiro que tudo, para resolver o problema é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo. Não é ignorar, não é achar que já se fez tudo. Vamos admitir que este é um problema endémico e a partir dai, como sociedade, vamos criar mecanismos para resolvê-lo. Obviamente, as medidas passam por diversas áreas. Numa primeira fase, é na formação dos cidadãos. A nossa educação tem de ser absolutamente revista. Os conteúdos curriculares têm de refletir a diversidade cultural. É fundamental. Temos de ensinar as nossas crianças – os adultos de amanhã – que temos todos os mesmo direitos.

Mas essa acaba por ser uma medida a longo prazo. O que pode ser feito agora?
É verdade. Rever todo o sistema de educação demora tempo. A curto ou médio prazo, o Estado tem de traduzir, nas suas políticas gerais, medidas concretas para combater o preconceito, não só na educação mas na área do emprego, social, cultural. O olhar da justiça sobre a diferença precisa de ser reformulado.

Primeiro que tudo, para resolver o problema do racismo é preciso admitir a sua existência. Este é o primeiro passo.

Vinte anos de trabalho do S.O.S. Racismo em Portugal. O que mudou? 
Há uma coisa inegável. A questão do racismo agora faz parte do debate público. Deixou de ser um tabu discutir o racismo na sociedade. É um passo grande. Em finais da década de 1990, houve um quadro jurídico virado para o combate contra o racismo. Não havia antes. Há instrumentos públicos que foram criados nesse sentido.

E funcionam?
Precisam ser mais eficazes. Ainda pecam muito pela falta de ação. O quadro jurídico deveria evoluir segundo as indicações da ECRI (European Commission against Racism and Intolerance). Até agora tem sido muito pouco eficiente na punição de infratores. O racismo tem de ser punível por lei. Impõe-se uma restruturação substancial do sistema legal. Não resolve do ponto de vista social a questão do racismo, mas seria um poderoso incentivo.

O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas.

O S.O.S Racismo trabalha diretamente com as comunidades negra e cigana…
Que são as duas mais afetadas pela questão racial, sem dúvida. Continuam numa espécie de segunda camada da sociedade portuguesa. Quase não existem figuras de relevo destas comunidades, pois não? Isto é um sintoma do que se passa. As pessoas ainda estão «atrás do biombo» em relação aos outros.

A Europa vive uma crise de refugiados que se arrasta há já algum tempo mas que já pouco se fala. Esta situação teve algum impacto na forma como a comunidade europeia olha para as minorias étnicas? 
Eu não chamaria crise dos refugiados, mas uma crise da resposta política à questão dos refugiados. Se nós olharmos à volta da Europa, para o Líbano ou Turquia, vemos que o número de refugiados é substancialmente maior. Houve um debate público a nível europeu que resvalou pouco por cá. O discurso político em relação à suposta ameaça dos refugiados e da sua presença contaminou o debate público de que falávamos porque deu força a alguns discursos xenófobos e racistas e observamos, com muito receio, a ascensão das forças de extrema-direita.

Em Portugal também?
Não sentimos com a mesma força que noutros países, isso não.

 

Fonte;https://www.noticiasmagazine.pt/2017/mamadou-ba-racismo-punivel-lei/

Falar de racismo em Portugal é um tabu

mamadouOPINIÃO

Desafiámos Mamadou Ba a pronunciar-se sobre o episódio ocorrido este fim-de-semana na Feira do Livro durante um debate sobre activismo no qual era um dos participantes.

No dia 2 de Junho, a convite de Joana Gorjão Henriques [jornalista do PÚBLICO e autora de Racismo no país dos brancos costumes], fui à Feira do Livro de Lisboa discutir ativismos em torno deste seu último livro, editado pela Tinta da China, na companhia de Ana Tica, Beatriz Gomes Dias e Raquel Rodrigues.

Com vivacidade, intensidade e acutilância, as magistrais intervenções das minhas companheiras de ativismo puseram o dedo na ferida, vincando o caracter estrutural do racismo na sociedade portuguesa, mostrando como o ativismo pode – e está cada vez mais a consegui-lo –  quebrar o tabu sobre a sua existência e desconstruir o mito de uma certa excecionalidade do legado colonial português que seria uma espécie de maleita virtuosa que preveniria o racismo.

Enquanto decorria o debate, uma funcionária da APEL, visivelmente incomodada, manifestava a sua discordância com o teor da conversa, tecendo comentários e referindo-se a nós como “esta gente”. Ainda estávamos a meio do debate quando ela começou a pedir para apressarmos o seu fim, uma vez que se iria seguir um outro evento no mesmo local. Continuou a insistir para acabarmos o debate de imediato, estava a Raquel Rodrigues no uso da palavra. Quando chegou a minha vez, após ter agradecido à Joana pelo seu contributo na visibilidade do ativismo, de me orgulhar de ter ali três mulheres negras a usar da palavra, a falar por e sobre si próprias e sobre nós todo/as, o que achava mais um passo na conquista de lugar no espaço público, eis que sou diretamente interpelado pela funcionária nos seguintes termos: “Vê lá se te despachas!”

Aconteceu-me um momentâneo bloqueio mental. Não é que não esteja habituado a ser interrompido ou até, por vezes, apupado durante uma intervenção. Consoante as circunstâncias e os contextos, costumo lidar com frieza ou ira. Mas naquele momento, nem uma nem outra coisa aconteceram. Por instantes, tive um nó na garganta. Porque ficou claro para mim que, não fosse o debate sobre ativismo anti-racista e as e os seus protagonistas serem sujeitos racializados negros, obviamente que esta cena não teria nunca acontecido nos moldes em que aconteceu. Senti-me terrivelmente violentado, desrespeitado e humilhado e senti uma profunda desilusão tendo em conta o contexto e o ambiente.

Ainda assim, a indignação da editora Tinta da China, pela voz de Bárbara Bulhosa, da quase totalidade da assistência, das minhas companheiras de mesa foi um bálsamo para mim, bem como a avalancha de reclamações no livro de reclamações [da Feira do Livro] foi motivo de orgulho e esperança.

O que aconteceu connosco na Feira do Livro, e a inaceitavelmente tardia reação da própria APEL, levantam a questão sobre qual o nosso lugar na sociedade portuguesa. Pois a questão do lugar é das mais centrais no debate sobre o racismo nas sociedades como a nossa, onde a colonialidade, âncora da banalização do racismo, assume relevância cultural. A invisibilidade do corpo negro no espaço público prende-se, em larga medida, com o lugar de fala que lhe é reconhecido e/ou atribuído. Porque falar é poder. Poder de luta, de confronto com a realidade, de capacidade de propostas e de potencial transformador das relações de força. A partir do momento em que negras e negros querem e podem falar por si, sobre si próprios e a sua condição, mas também com e sobre a sociedade, com autonomia política, estala o verniz. O que aconteceu na Feira do Livro inscreve-se basicamente na lógica do que tem acontecido ultimamente no país, em que vozes negras que ousam falar do racismo e da sua ligação com o legado colonial sofrem uma injunção ao silêncio.

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Sabemos que dói quando se toca na ferida, mas se não a tratarmos enquanto é tempo será muito mais difícil extirpar a gangrena e evitar episódios como aquele que aconteceu no sábado. A sociedade e as instituições têm de se habituar que o debate sobre racismo jamais será quando e como quiserem. O episódio de sábado revela o quão importante é não deixar o espaço do debate aos arautos da verdade única que querem silenciar o ativismo para continuar a legitimar o racismo.

Os sujeitos racializados negros vão continuar a afirmar com autonomia e determinação a escolha do momento de fala. E a força e as circunstâncias do seu aparecimento no espaço público são, efetivamente, uma posição política clara de luta pelo reconhecimento do seu direito à palavra, o seu direito ao lugar na sociedade portuguesa. Mais do que objetos de uma condição histórica determinada apenas por outrem, assumem-se como sujeitos políticos que lutam pela sua afirmação.

No sábado ficou claro que falar de racismo na sociedade portuguesa ainda incomoda e é por isso que importa manter o debate aceso no espaço público. O nosso ativismo nunca foi para mendigar lugar, mas sim para conquistar lugar, direito e legitimidade política para ocupar todos os espaços de cidadania em liberdade.

Mamadou Ba escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Fonte: https://www.publico.pt/2018/06/04/sociedade/opiniao/falar-de-racismo-em-portugal-incomoda-e-e-por-isso-tambem-que-importa-1833148?utm_source=notifications&utm_medium=web&utm_campaign=1833148#

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Boubakar Keita: “Não há intercâmbios entre os cientistas africanos”


Professor Boubakar Namory Keita
Professor Boubakar Namory Keita

Boubakar Keita diz que isso prejudica o continente

A falta de contactos entre cientistas e investigadores africanos é ”um grande desafio” para o desenvolvimento de África, disse Boubakar Namory Keita professor de história e e antropologia na Universidade Agostinho Neto.

“Não há um grande intercambio entre as universidades angolanas, entre a intelectualidade angolana os centros de estudos angolanos e os seus congéneres de outros pais africanos mesmo os mais próximos como Namíbia África do Sul congo e outros”, disse Keita.

“Infelizmente isto é um grande deficit e faz parte dos actuais desafios que se colocam ao continente africano”, acrescentou o professor para quem esta situação “faz parte dos inúmeros problemas que o continente vive na ciência e na investigação cientifica”.

“So se observam focos isolados e infelizmente não há grande troca de experiencias não há um intercambio efectivo permanente entre as regiões”, disse.

“Existem mais intercâmbios entre Angola e Portugal, entre Angola e o Brasil do que entre Angola e o Senegal ou o Mali Burkina Faso”, afirmou Keita acrescentando que isso “é uma herança colonial “.

Keita falava por ocasião da publicação pela Mayamba Editoria e a a faculdade de ciências sociais a obra “Contribuição endógena para a escrita da história da África Negra – Ensaio sobre a obra de Cheikh Anta Diop.

O acto visou saudar o Dia de África – 25 de Maio e os 40 Anos da Independência de Angola, sob o lema “Angola 40 Anos – Independência, Paz, Unidade Nacional e Desenvolvimento”.

Keita disse que Diop “desconstruiu toda uma mitologia em volta do passado da África, em volta daquilo que África era capaz e irá ser”.

Para Keita Diop “teve que desmantelar e desconstruir um conjunto de mitos em volta do passado e da capacidade dos negros africano para construir novos paradigmas novos modelos”.

“Faltava essa pequena luz que possibilitava uma outra contribuição do passado da África Negra para podermos fazer uma historia objectiva mas não uma historia partidária ou subjectiva” disse o professor da Universidade Agostinho Neto.

https://www.voaportugues.com/a/no-h-contactos-entre-investigadores-africanos-professor-da-universidade-agostinho-neto/2802014.html

Boubacar Keita: “Eu sou de opinião que a democracia não pode ser universal.”

Boubacar Keita1O historiador Boubacar Keita, um eminente professor universitário, assume, em entrevista ao Jornal de Angola, desilusões de gerações anteriores e exorta a juventude a mostrar capacidade de se levantar, apesar dos problemas com que se debate.

Dia do continente instituído há 55 anos
Fotografia: Domiano Fernandes | Edições Novembro

Ainda faz sentido comemorar, efusivamente, o 25 de Maio como Dia de África?
Sim. Ainda é relevante comemorar o dia do Continente. Será sempre um aniversário, imbuído no nascimento da Organização da Unidade Africana (OUA). Apesar das dificuldades e desilusões, não podemos esquecer que se trata da única grande organização que o continente tem. Não podemos deixar de comemorar o aniversário de um filho, porque deixou de nos agradar. É, até, mais indispensável, nas condições actuais, frente às dificuldades e questionamentos de gerações um tanto perdidas (objectiva e subjectivamente) nos meandros de projectos fracassados.

Mas esse “filho” nunca atingiu a maturidade que se estendesse até às gerações actuais?
Será preciso revitalizar, consolidar, construir. A OUA tinha projectos de toda a ordem, que visavam dar um novo ponto de partida a toda África, depois do colapso colonial. Deveria abarcar todas as áreas, da política à cultura. Mas os anos foram passando, o mundo foi evoluindo e encontrámos várias fases, sendo a última a globalização, com a sua estrutura e particularidades, que acabaram, mais uma vez, por tocar toda a esfera da vida do continente. Portanto, a evolução após Adis-Abeba fez-se nestas condições. Estão aí as fontes das razões das desilusões, dos fracassos e dos progressos.

Houve algum progresso?
Houve progressos. Por isso, é preciso comemorar. A União Africana ainda é a única organização que temos e pode oferecer ainda muita coisa, porque tem projectos que podem ser levados a bom porto. A actual geração não tem o direito de parar pelo caminho. Estou convencido de que os nossos filhos devem questionar sempre, e cada vez mais, dispondo, para além da educação, de informações que sirvam de ferramentas.

A África foi prejudicada pela globalização?
Antes de tudo, a globalização é um quadro mundial, com um novo posicionamento para todas as partes integrantes. Dentro desse conjunto, encontramos países diversamente posicionados, que realmente construíram relações bilaterais e multilaterais individualmente, em função dos seus interesses. Tudo isso perfaz a complexidade deste quadro, no qual não é fácil mover-se. África começou bem, para fazer frente aos desafios deste novo quadro. Mas, grosso modo, não foi capaz de segurar as rédeas perante determinadas evoluções, de modo que, em alguns domínios, fica bastante prejudicada. Mas, sendo pragmáticos, entendemos que este quadro é indispensável. É resultante da evolução do mundo, com as suas relações complexas.

Ou seja, vive-se a lei do mais forte?
Nem sempre essas relações são compreensíveis, porque cada Estado evolui mais ou menos em função dos seus interesses. E é extremamente difícil, se não mesmo quase impossível, conciliar esses interesses. E neste jogo vencem os mais poderosos, os melhor preparados, as chamadas potências actuais: China, Estados Unidos e o conjunto da União Europeia, com a Rússia em destaque. Neste contexto, a África aparece como o anel mais fraco e, consequentemente, sofre ainda mais nesta concorrência, que é o único jogo dentro deste quadro. Todos os concorrentes têm de ter algo a propor e algo a exigir. Os que não tiverem nada a propor dificilmente poderão receber ou então se contentam com o que lhe será imposto, mesmo que não corresponda às suas necessidades reais. Francamente, acho que África está a viver isso, por várias razões.

Pode exemplificar?
Do ponto de vista económico, porque ainda não conseguiu ultrapassar a fase da acumulação primitiva. Continua a ser mero fornecedor de matéria prima. Sabemos que no mundo actual um fornecedor de matéria prima não tem grande capacidade de desenvolvimento. No plano político, é quase a mesma coisa. África parou de inventar, de criar novas instituições políticas e jurídicas para enriquecer esta democracia universal. Mais uma vez, posiciona-se como uma ingénua consumidora da ideia de democracia que vem de outros pontos.

Podemos ter outra perspectiva da dita “democracia”?
Sim. Eu sou de opinião que a democracia não pode ser universal. A democracia, como ferramenta, instituição ou factor de desenvolvimento, é universal. Agora, os critérios da democracia é que não podem ser universais. Devem depender da história e da cultura de cada povo. Sem levarmos em consideração o património identitário, não pode haver uma democracia actuante. Não podemos aplicar a democracia americana, russa, chinesa ou polaca para o nosso desenvolvimento. Isso é um “bluff”. A democracia é quadro e factor de desenvolvimento. Porque se deve respeitar o que cada um quer, para assim todos levarem subsídios para a construção dessa democracia que quer ser chamada de universal. Sem isto, não há democracia universal.

Esta “ingenuidade” sustenta a ideia de que “a razão é helénica e a emoção africana”?
Não é verdade que a razão seja helénica e a emoção negra e que o homem negro se caracterize tão somente pela sua emotividade, este sentimento classificado como o mais baixo possível, em relação à razão. Nesta breve referência, acho que isso levanta muitos problemas, desde o pré-colonial aos dias actuais. Tudo isto pode ser verdade. Mas não menos verdade é que, quan-do saímos do período pré-colonial para o colonial, muita coisa mudou. Eu costumo dizer que, objectivamente, as sociedades africanas colonizadas foram desestruturadas, embora alguns acreditem que tenham sido reestruturadas.

Pode explicar?
Para as potências colonizadoras, convinha proceder assim, em defesa dos seus interesses efectivos, nos territórios colonizados. Para elas, objectivamente estava tudo certo, do ponto de vista da política colonial. A independência das ex-colónias veio com este legado. Não houve praticamente o menor esforço de reestruturar aquilo que tinha sido desestruturado. Passamos para a nova época com este legado, totalmente viciado.
Em 1958, na Conferência dos Povos de África, organizada por Kwame Nkrumah, em Accra,  uma das recomendações foi reorganizar as economias, para poder consolidar a independência dos países. A ideia deve ter passado despercebida ou os líderes não deram a devida importância. Repetiu-se em 1963, já em Addis-Abeba.

Como entender o contínuo marasmo, se já estamos livres e temos capital humano?
O resultado é que os quadros, numa primeira fase, foram formados fora de África. Depois, começaram a estabelecer-se internamente as instituições de ensino superior. Repare que aqui também, na concepção dos currículos, baseamo-nos, em muito, nos currículos das antigas potências colonizadoras. Até hoje, debatemos pormenores e estruturas curriculares em função dos países colonizadores. Cada um defende o tipo de currículo no qual estudou. E isso é um grande problema. Não houve e não há nenhum esforço de criatividade. Não inventamos nada.

Ainda somos o resultado “anormal” de consequências coloniais?
Fica-se com essa ideia. Actualmente, a democracia que elegemos para desenvolver os nossos países nem é da nossa invenção. Adoptámos e sequer nos conseguimos adaptar a ela. Eleições periódicas e multipartidárias, legitimidade a partir do povo, isso tudo é muito bonito. Mas analisemos: qual é o nível de educação dos nossos povos? Uma das exigências da democracia e, simultaneamente, um dos momentos importantes da consulta popular para se chegar à legitimidade, é propor o projecto de sociedade. Paradoxalmente, muito poucos africanos sabem sequer fazer o cálculo para se atingir o salário mínimo.

Como encontrar o caminho?
Para inventarmos ou criarmos, podemos encontrar critérios na África pré-colonial. Eu tenho a impressão de que ainda há líderes africanos que tentam conciliar os dois critérios. Há uma tendência nítida em revisitar as Constituições antigas, no sentido de mudar o número de mandatos. Geralmente, a maior parte das constituições em África proclamam dois mandatos consecutivos. Tem sido recorrente a tendência de serem ilimitados. Isso é um critério pré-colonial. Mas, para que isso seja legal, tem de ser acompanhado por outras instituições e o povo deve estar presente. Porque antes eram monarquias. Os monarcas de então tinham preocupação efectiva com aquilo que o povo  pensava e este estava representado no conselho dos anciãos, que não tinha nenhuma espécie de compromisso com quem quer que fosse.

Será isto o que falta à actual classe política africana?
Todos os líderes actuais falam de anseios e preocupação do povo. Mas como se explicam as constantes manifestações populares contra as suas políticas? Acho que não deveria haver. Naquelas épocas, o soberano que deixava de trabalhar em benefício do povo era compulsivamente destituído pelo conselho dos anciãos. Os bons podiam ficar no cargo até morrer. É isso que alguns líderes querem conciliar: o moderno com o antigo. Querem tirar do antigo o que lhes convém, neste caso, o carácter ilimitado do número de  mandatos, sem, no entanto, se preocuparem realmente com o povo, desviando dinheiro. Antigamente, nenhum soberano poderia ter bens fora do território.

A quem culpar, pela pilhagem de países riquíssimos? O Congo Democrático é um exemplo …  
O Congo Democrático é escandalosamente rico. Mas, depois de Patrice Lumumba, todos os líderes que passaram por lá foram do piorio. Não encontro outro termo adequado, até porque o decoro não servirá para nada neste caso. Foram quase todos grandes bandidos. A RDC tem muito potencial. É um dos países africanos com maior capital em recursos humanos, além da incalculável riqueza em recursos naturais. Mesmo assim, podemos constatar que tudo isso não é suficiente, porque bastou chegarem ao poder indivíduos obscuros, iletrados, que não tiveram (na sua maioria) conhecimento profundo daquilo que o Congo é de facto. Se tivessem, a atitude seria outra.

Há quem alegue que o problema está nas ingerências. Corrobora?
Se há ingerência é porque os donos a permitem. Os donos é que abrem as portas de casa para os forasteiros entrarem. Ninguém, que eu saiba, forçou as portas do Congo. O Congo não foi vítima de invasão externa americana, francesa ou belga. Não foi. Os próprios líderes, de uma ou de outra forma, é que abrem as portas. E a dívida externa é o resultado da má gestão. Se alguém gere mal o seu dinheiro, acaba empobrecido. Depois, se quiser viver, tem de pedir ajuda. Caricaturando mais uma vez o escândalo das lideranças africanas, quan-do a dívida externa é X, a riqueza individual de cada líder é X+1.

Mas tivemos o caso Kadafi …
Tinha grandes sonhos.

Morreu por isso?
Como sempre, todos os africanos que tentaram efectivar este tipo de sonho foram directa ou indirectamente eliminados. Começou com Kwame Nkrumah. Naquela altura, ainda não havia a petulância de atacar, via armada, um país africano abertamente. E isso foi sempre orquestrado para enfraquecer o alcance de políticas sérias e desacreditar sonhos. Deste modo, ficamos alinhados à lógica de que “o povo quando tem fome não tem ouvidos, perde a razão”. Basta agir à volta disso, torná-lo esfomeado a ponto de perder a razão.
Isso levou, no caso de Nkrumah, a não realização de projectos de unidade sub-regionais que desenhara. Naquela altura, o Ghana, apesar de possuir poucos quadros, ainda assim ajudava países como Mali e a Guiné. Muitos africanos desconhecem isso. Na década de 60, esses países tinham cooperantes ghanenses, para superar determinadas urgências, principalmente, na medicina. Isso nunca agradou à Bélgica, França, Estados Unidos ou Grã-Bretanha.

Foi, também, o caso de Tomás Sankara?
A época 70-80 é tida como a década dos golpes de estado militares, perpetrados por jovens elites dos exércitos, apoiadas por pessoas que não se viam agradadas por esses dirigentes. Foi o caso de Thomas Sankara. E todo o mundo sabe, não só os burquinabes, mas toda a África consciente sabe disso. O grande mal de Thomas Sankara foi ter dito que iríamos produzir aquilo que vestimos, comemos e ter relações internacionais em função dos nossos interes-ses. Kadafi tinha os mesmos sonhos e projectos. Ajudava a pagar quotas de países com má gestão, a ponto de não ter interesse em pagar às organizações internacionais. E tinha uma ideia lúcida sobre determinadas organizações internacionais. Isso saturou a paciência dos grandes do mundo.

 “África ainda não conseguiu negar o desenvolvimento”

No fundo, África continua ou não a ser uma espécie de “escrava económica”?
Sim. A economia africana produz-se da ilusão. Eu simplesmente tenho de reconhecer que hoje há uma ilusão de que temos economias saudáveis, cientificamente construídas e geridas. Tudo isto é uma ilusão, um engano terrível. Os modelos e paradigmas da nossa gestão económica foram construídos a partir do outro. Essa é a realidade. E a globalização impõe-nos colaborar obrigatoriamente com o FMI e outras instituições. Digo que “nos obrigam”, porque as regras e as estruturas da economia mundial estão de tal forma, que dificilmente poderíamos gerir as nossas matérias-primas, sem passar por eles. A tecnologia usada para a produção não é nossa. São várias as fases para tornar os nossos recursos alavancas reais do desenvolvimento. É por isso que digo que podemos fazer discussões fervorosas nos parlamentos mas, acima de tudo, sem querer exagerar, depende da “boa vontade de fora”.

E o que dizer da abertura da moralização da justiça, estando a África do Sul na proa?
É um bom modelo. Mas gostaria de ver até onde vai. Não que estruturalmente não tenha confiança na capacidade do negro africano em fazer algo de grande. O problema não é este. Há muitos e diversos condicionalismos. Por enquanto, a África do Sul é de fato o grande exemplo.

Somos, de facto, de um continente “maldito”?
Depende! Maldição do ponto de vista da nossa incapacidade de compreender que herdámos histórica e logicamente um fardo? Mas, como ser humanos inteligentes, deveríamos tentar adaptar este quadro às nossas realidades, a fim de eliminar o seu peso e consequências nefastas. Ora, deste ponto de vista, até agora parece uma maldição. Há mais de quarenta anos que África é independente, mas ainda não conseguimos chegar ao desenvolvimento. A maioria dos países do continente não tem sequer água potável. Com a energia passa-se a mesma coisa.

  “A juventude ficou abafada”

O problema tem a ver também com o quadros?
Paradoxalmente. África quer-se  desenvolver com países normais. Os países importam coisas de um país normal. Quero com isto dizer que estas coisas todas funcionam com energia. E isso é anti-desenvolvimento.
Temos quadros muito bem formados, que até são chamados como consultores internacionais.
Mas quando se trata dos seus respectivos países, curiosamente, fazem o contrário. Deste ponto de vista, parece sim uma maldição. Embora, objectivamente falando, não é uma maldição,mas apenas um momento com quadros desta natureza.

E à juventude, o que o professor tem a dizer?
Sem demagogia, embora a juventude também não seja culpada, mas parece que ficou tão abafada pelos problemas, realidades negativas dessa África, que deixou também de ter criatividade. Na minha opinião, a força da juventude deve estar nisso e não no poder que detém. Deve mostrar capacidade de se levantar, apesar dos problemas que estão em cima de si. Mas parece que a emigração tem sido a única via, mesmo que custe a vida de muitos.

PERFIL

Nome 
Boubacar Namory Keita.

Doutorado 
(Ph. D) em Ciências Históricas pela Universidade de Leninegrado, Rússia, desde 1977.

Profissão
É professor titular de História e Antropologia Africana na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto. Orienta trabalhos de Licenciatura em História e Antropologia, desde 1987 e de Doutoramento, desde 2013.

Publicações
“História da África Negra” (2009); “Cheikh Anta Diop” (2009).

 

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